Morreu João Bénard da Costa. Gostava tanto tudo íssimo de o ler. Gostarei sempre da forma como escreve. Sobre filmes. Sobre a vida. De forma excepcional. Ensinou-me, em poucas linhas, muitos caminhos. Descobri tantas coisas com as suas palavras.
quinta-feira, maio 21
Sinto muitíssimo
Lugares e pessoas. Mundos inteiros. Não sabia apenas olhar. Sabia ver. Por dentro e por fora. E via tão bem!
«Esta estranha Primavera de 2005 vai-se infiltrando muito outonal. Em qualquer sentido da palavra, das nuvens e do vento. Olhem bem à volta e reparem nas caras das pessoas.Já atentaram bem no número de caras que as pessoas agora têm? O número de pessoas é grandessíssimo, eu sei, mas o número de caras é obscenamente maior, porque, nesta estranha Primavera, quase todos andam com várias.No ano passado, por esta altura, as pessoas andavam com as caras do costume. Não direi com as caras com que nasceram, porque essas, já se sabe, duram umas horas ou uns dias. Também não estou a pensar nas caras com que se fizeram gente e que acabam quando ficam gente feitas. Mas com essa, que vem depois daquela, e que é a cara com que nos habituamos a vê-las, mais ruga menos ruga, mais dente menos dente. Cara com que se começa a parecer a cara dos filhos deles, quando ficam tal pai tal filho. Cara que, às vezes, até se pega à mulher (ou ao marido) que, depois de muitos anos de matrimónio, acontece ficar parecida. Cara que, outras vezes, passa deles para o cão, igual ao dono.É estranho? Não acho nada.Uma cara é uma cara e não há assim tantas que não se compreenda alguma economia, sobretudo quando há que baixar o consumo. Estranho é o que está a acontecer agora. Com inquietante dissipação, as pessoas mudam de cara. Experimentam uma, acham que não lhes fica bem, usam outra, depois outra e mais outra. Para mim, que levo tempo a habituar-me a uma cara nova, esta sucessão de caras assusta-me.Qualquer dia, ainda me acontece o que aconteceu a Malte na Rua Toullier, num 11 de Setembro. Vou por uma rua vazia, e uma mulher deita a cara às mãos, e fica-lhe a cara nas mãos. Que visão será mais horrível? Uma cara do avesso nas mãos de uma mulher? Ou uma cabeça toda nua, esfolada viva, sem cara?E o Malte, de Rilke para quem não saiba (se não souberem Rilke já não tenho cara para vos aparecer mais), viu isso tudo, em Paris e em Setembro, há um ror de anos. Ver isso em Lisboa, em Março, nos dias que correm, não há cara que aguente. Mas, com o balanço que isto leva, qualquer dia acontece. Pode ser já para a semana. Deus nos acuda, ou aquele rei que era irmão de Valentina Visconti, essa que - diz-se - morreu de desgosto».
Continua aqui sob o título MORRER FACE AO OUTONO.
Vale a pena reler outras crónicas aqui.
Escrito/editado por Marta 9 Terráqueos
Etiquetas: João Bénard da Costa
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