quarta-feira, abril 18

Sim! que é preciso caminhar avante!





Sim! que é preciso caminhar avante!


Andar! passar por cima dos soluços!

Como quem numa mina vai de bruços

Olhar apenas uma luz distante!



... É preciso passar sobre ruínas,

Como quem vai pisando um chão de flores!

Ouvir as maldições, ais e clamores,

Como quem ouve músicas divinas!



Beber, em taça túrbida, o veneno,

Sem contrair o lábio palpitante!

Atravessar os círculos do Dante,

E trazer desse inferno o olhar sereno!



Ter um manto da casta luz das crenças,

Para cobrir as trevas da miséria!

Ter a vara, o condão da fada aérea,

Que em ouro torne estas areias densas!



É, quando, tem temor e sem saudade,

Puderdes, dentre o pó dessa ruína,

Erguei o olhar à cúpula divina,

Heis-de então ver a nova-claridade!



Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,

Bem como o cumprimento de um agouro,

Abrir-se, como grandes portas de ouro,

As imensas auroras do Futuro!


Antero de Quental