segunda-feira, abril 26

Marcas que são como mapas

[...]

Permite-me que ecoe por aqui o que se
escreve dentro de mim: escrevo praias onde
nunca mergulhei, ouço conversas dos vizinhos que
doem como gritos, como criticas, como armas
arremessadas contra a minha sombra.

Como te disse: permite-me que me ecoe.
Evitei que me descongregasse pela terra, pensei
que assim poderia tocar-te no ombro e dizer-te
que estou aqui, onde tu não podes ver

onde as crianças não conseguem chegar
onde os velhos não conseguem viver.

Estou por aqui, enquanto te deixo permanecer
no cheiro que trago nas vestes, enquanto me dispo
e deixo que me vejas.

Agora tenho em lugar das minhas mãos uma grande
mancha azulínea, que me recorda que um dia aqui existiu
o mundo e que agora não há mais tempo
para nada.

Sérgio Xarepe
- "Em lugar das mãos o mundo."

imagem: Silvia Antunes

3 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

gosto da mancha azulínea a lembrar céu de verão e mar de turquesa, água marinha e safira, com areias de pélolas a condizer...


csd

Lou Alma said...

Muito giro esse excerto. Muito mesmo.

Janaina Amado said...

Achei lindo este poema, viajei por estes mapas.