sexta-feira, abril 4

Até sempre Jorge Fallorca


 
 
Sabes Jorge, a repartição de finanças não é o melhor sítio para chorar. Também não levava lenços. De papel. Tinha nas mãos folhas a que chamam modelos. Modelos a que dão números e tive de os pousar para atender o telefone. E eu, como te disse, choro e rio com a mesma facilidade. Não tenho um coração contido. O inconveniente de chorar nas Finanças é que está tudo com cara cerrada, tudo atento a nada, num quase silêncio e as lágrimas rolam e ouvem-se a cair no chão. O chão, Jorge, era de mármore. Acho que era mármore. Se ainda fosse de cortiça ou um chão de terra batida – era melhor que fosse de terra batida – as lágrimas eram absorvidas e subiam pelo caule das árvores. Tu gostavas de terra e de árvores e de outras coisas que eu não sei. Não tivemos tempo nenhum. Tivemos pouco tempo para que eu pudesse ouvir-te mais, saber mais, aprender mais. É estranho. Ou não. Há pessoas que vejo todos os dias, com quem me cruzo todos os dias e de quem não sei rigorosamente nada. O nome. Às vezes, nem isso. Mas não faz mal ser assim. O que eu te quero dizer Jorge, é que jantamos uma vez, ficamos noite adentro, na conversa, uma vez, fui levar-te à estação uma vez, vimo-nos uma vez e, agora, não voltaremos a vermo-nos. E isto, momentos inesquecíveis, em slide, a passarem-me pela cabeça, no meio da repartição das finanças, é ainda mais absurdo. Se eu te dissesse que ainda a semana passada disse, vou ligar ao Jorge. Se eu te dissesse que, meses depois, voltei a ler o conto e ainda gostei mais das tuas sugestões. Se eu te dissesse Jorge, como a Senhora das Finanças está atenta ao que eu não digo; como me perguntou se eu queria lenços de papel. Haverias de sorrir, creio. E eu, já sentada, protegida por um biombo só consegui dizer, desculpe. Já nem sabia bem ao que ia. Entreguei-lhe os papéis, os modelos, e pensava no modo cerimonioso com que nos chegamos a tratar. Obrigada, Jorge por ter lido. Obrigado, Marta, por me fazer regressar ao Porto após 17 anos. Voltarei com a Nico. E as fotografias que não cheguei a enviar, e o e-mail de que me esqueci a palavra passe. E a tua infância contada por ti, no Gato Vadio, a prender-nos a todos. E a Claudia a passear-nos pelos teus livros, e a Francisca muito atenta, ainda desconhecida, a um canto do bar. E eu, apaixonada, a enviar a Cicatriz do Ar e a Mulher Descalça para o Brasil. A Lelena e o Marcelo, quando souberem. Até o Miguel. Eles gostaram tanto de te ler. A Senhora das Finanças disse que já estava tratado. Que sentia muito. E eu calada, a levantar-me com Cossery, John Berger, Mohamed Choukri, Sebald, Walser, Piglia, David Malouf, Cormac, Salinger, Saint-John Perse, Imre Kertész, Vila-Matas, Llansol, Almeida Faria, Carlos de Oliveira e Luiza Neto Jorge. Saímos das Finanças ao mesmo tempo. Não é o melhor sítio para chorar. Mas quando a Claudia ligou a dizer-me que tinhas morrido, não sabia onde eu estava.

  Até sempre Jorge Fallorca.
 

sexta-feira, fevereiro 7

A Insegurança do Escritor


É certo que tudo o que concebi antecipadamente, mesmo quando estava com boa disposição, quer com todo o pormenor, quer casualmente, mas em palavras específicas, aparece seco, errado, inflexível, embaraçado para todos os que me rodeiam, tímido, mas acima de tudo incompleto, quando tento escrever tudo isso à minha secretária, embora eu não tenha esquecido nada da concepção original. Isto está naturalmente relacionado em grande parte com o facto de eu conceber uma coisa boa longe do papel durante apenas um momento de exaltação mais temido do que desejado, embora eu muito o deseje; mas então a plenitude é tal que eu tenho de ceder. Às cegas e arbitrariamente agarro pedaços da corrente, de modo que, quando escrevo calmamente, a minha aquisição não é nada comparada com a plenitude em que viveu, é incapaz de restaurar essa plenitude, e assim é má e perturbadora, por ser uma inútil tentação.

Franz Kafka, in 'Diário (15 Nov 1911)'


Termina este fim-de-semana!


quinta-feira, janeiro 16

Tempo de tomar decisões!



Tempo de tomar decisões!
 

quarta-feira, janeiro 15

Eu escrevi um poema triste


Eu escrevi um poema triste


E belo, apenas da sua tristeza.

...

Não vem de ti essa tristeza


Mas das mudanças do Tempo,


Que ora nos traz esperanças


Ora nos dá incerteza…


Nem importa, ao velho Tempo,


Que sejas fiel ou infiel…


Eu fico, junto à correnteza,


Olhando as horas tão breves…


E das cartas que me escreves


Faço barcos de papel!

 
 
 
Mário Quintana
 
 

 

A noite pede música


Lema


O jardineiro


(...) O jardineiro, como aqueles de que falo, não se dá bem com a luxúria das flores, os seus peristilos e estames, a sua fecundação e até o seu perfume. O jardineiro é um asceta da tesoura, um catedrático da uniformidade. Talha a sebe como quem folheia palimpsestos. Desvia os olhos da carnação da rosa; (...)
Agustina Bessa-Luís in A Quinta Essência, pag. 8, Guimarães

Fotografia: Paulo José S. Ferraz

Eu não tenho gato...

 
(...)

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão
 

domingo, janeiro 12

A noite pede música


Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.



Vivemos uma vida normal, verdadeira, e no entanto – e por isso – temos aspirações. Terráqueos, conseguimos às vezes chegar tão longe como os deuses. Alguns elevam-se com a arte, outros com a religião; a maioria com o amor. Mas quando subimos também podemos despenhar-nos. Há poucas aterragens suaves. Podemos dar connosco aos saltos pelo chão, com uma força capaz de partir pernas, arrastados para u...ma qualquer via-férrea estrangeira. Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos.
Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.

Julian Barnes in "Os Níveis da Vida", Quetzal
 
 

sábado, janeiro 11

A noite pede música


sexta-feira, janeiro 10

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém



Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.


Maria Gabriela Llansol 

Tonto, Morto, Bastardo e Invisível

Opinião  

Juan José Millás nasceu em Valência, em 1946, mas tem passado a maior parte da sua vida em Madrid, onde alterna a actividade literária com o jornalismos, aparecendo regularmente nas páginas do diário El País. Está traduzido em diversas línguas, principalmente europeias, e foi já galardoado com diversos prémios no país vizinho, o Primavera, o Sésamo e, um dos mais prestigiados, o Nadal (este último com o romance Assim Era a Solidão).
Quanto a Tonto, Morto, Bastardo e Invisível, o tonto, o morto, o bastardo e o invisível, afinal, são apenas um. Jesus, de seu nome – o que talvez fosse de estranhar se a história acontecesse em Portugal e não em Espanha, onde a ninguém faz espécie que um homem se chame Jesus –, é tudo isso e muito mais, após ser informado pelo chefe de pessoal da empresa onde trabalha de que irá ser despedido. Do mal o menos, terá direito a um ano de salário e a umas palmadinhas nas costas; e depois, conta a certa altura Jesus, «Laura trabalhava, era médica-legista, portanto o horizonte de indigência encontrava-se ainda um pouco afastado». Mas Jesus não consegue encarar a mulher e o filho, sente-se invadido pelo medo e refugia-se na casa de banho. «... deixei que toda a cobardia adiada desde que entrou na empresa uma equipa social-democrata, autorizada a vendê-la em partes, se reunisse de chofre na percepção do espaço (...) fechei várias vezes as torneiras para transmitir a sensação de actividade, confiante de que a angústia se retiraria ao atingir determinada magnitude. Então, lembrei-me do bigode.» Será assim, com a ajuda do bigode, que Jesus vai começar uma vida nova, num mundo bem diferente daquele a que estava habituado e onde as regras são ditadas pela sua imaginação. Juan José Millás, um dos mais destacados nomes do actual panorama literário espanhol, consegue com as aventuras de Jesus levar o humor aos limites do absurdo, sem nunca sair dos ambientes quotidianos da vida moderna. Afinal, a vida que leva a sua personagem a empreender uma espantosa fuga, mesmo que para as terras da imaginação. Quantos de nós não terão já estado à beira de fazer o mesmo?

Fonte: http://www.citador.pt/biblio.php?op=21&book_id=394
 

quinta-feira, janeiro 9

A noite pede música


quarta-feira, janeiro 8

Soneto

    Não pode Amor por mais que as falas mude
    exprimir quanto pesa ou quanto mede.
    Se acaso a comoção falar concede
    é tão mesquinho o tom que o desilude.
   
    Busca no rosto a cor que mais o ajude,
    magoado parecer aos olhos pede,
    pois quando a fala a tudo o mais excede
    não pode ser Amor com tal virtude.
   
    Também eu das palavras me arreceio,
    também sofro do mal sem saber onde
    busque a expressão maior do meu anseio.
   
    E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
    em verdade, em beleza, em doce enleio?
    Olha bem os meus olhos, e responde.



António Gedeão

Das interrogações


O que é bom...



"O que é bom deve ser tratado como se não fosse provisório, mas eterno." 

Agustina Bessa-Luís in 'Caderno de Significados'
 

Do amor, novamente


terça-feira, janeiro 7

A mulher tinha a certeza. E escreveu

A mulher tinha a certeza. E escreveu.
Se ao menos não tivesse escrito.
Se ao menos tivesse inventado.
Trata-se de uma mulher que gosta de inventar.

Se ao menos não gostasse de escrever.
Se ao menos não soubesse sonhar.
Se não gostasse de escrever não existia.
Se não soubesse sonhar não escrevia.

O certo é que a mulher tinha a certeza. E escreveu.
Se ao menos não tivesse certeza, como é seu hábito.
Se ao menos tivesse aquele dia mais um dia. 
Trata-se de uma mulher que gosta de imaginar.

Deram-lhe estrelas e tiraram-lhe o céu.
Se ao menos a mulher soubesse chorar.

[coisas minhas]