quinta-feira, janeiro 16

Tempo de tomar decisões!



Tempo de tomar decisões!
 

quarta-feira, janeiro 15

Eu escrevi um poema triste


Eu escrevi um poema triste


E belo, apenas da sua tristeza.

...

Não vem de ti essa tristeza


Mas das mudanças do Tempo,


Que ora nos traz esperanças


Ora nos dá incerteza…


Nem importa, ao velho Tempo,


Que sejas fiel ou infiel…


Eu fico, junto à correnteza,


Olhando as horas tão breves…


E das cartas que me escreves


Faço barcos de papel!

 
 
 
Mário Quintana
 
 

 

A noite pede música


Lema


O jardineiro


(...) O jardineiro, como aqueles de que falo, não se dá bem com a luxúria das flores, os seus peristilos e estames, a sua fecundação e até o seu perfume. O jardineiro é um asceta da tesoura, um catedrático da uniformidade. Talha a sebe como quem folheia palimpsestos. Desvia os olhos da carnação da rosa; (...)
Agustina Bessa-Luís in A Quinta Essência, pag. 8, Guimarães

Fotografia: Paulo José S. Ferraz

Eu não tenho gato...

 
(...)

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão
 

domingo, janeiro 12

A noite pede música


Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.



Vivemos uma vida normal, verdadeira, e no entanto – e por isso – temos aspirações. Terráqueos, conseguimos às vezes chegar tão longe como os deuses. Alguns elevam-se com a arte, outros com a religião; a maioria com o amor. Mas quando subimos também podemos despenhar-nos. Há poucas aterragens suaves. Podemos dar connosco aos saltos pelo chão, com uma força capaz de partir pernas, arrastados para u...ma qualquer via-férrea estrangeira. Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos.
Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.

Julian Barnes in "Os Níveis da Vida", Quetzal
 
 

sábado, janeiro 11

A noite pede música


sexta-feira, janeiro 10

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém



Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.


Maria Gabriela Llansol 

Tonto, Morto, Bastardo e Invisível

Opinião  

Juan José Millás nasceu em Valência, em 1946, mas tem passado a maior parte da sua vida em Madrid, onde alterna a actividade literária com o jornalismos, aparecendo regularmente nas páginas do diário El País. Está traduzido em diversas línguas, principalmente europeias, e foi já galardoado com diversos prémios no país vizinho, o Primavera, o Sésamo e, um dos mais prestigiados, o Nadal (este último com o romance Assim Era a Solidão).
Quanto a Tonto, Morto, Bastardo e Invisível, o tonto, o morto, o bastardo e o invisível, afinal, são apenas um. Jesus, de seu nome – o que talvez fosse de estranhar se a história acontecesse em Portugal e não em Espanha, onde a ninguém faz espécie que um homem se chame Jesus –, é tudo isso e muito mais, após ser informado pelo chefe de pessoal da empresa onde trabalha de que irá ser despedido. Do mal o menos, terá direito a um ano de salário e a umas palmadinhas nas costas; e depois, conta a certa altura Jesus, «Laura trabalhava, era médica-legista, portanto o horizonte de indigência encontrava-se ainda um pouco afastado». Mas Jesus não consegue encarar a mulher e o filho, sente-se invadido pelo medo e refugia-se na casa de banho. «... deixei que toda a cobardia adiada desde que entrou na empresa uma equipa social-democrata, autorizada a vendê-la em partes, se reunisse de chofre na percepção do espaço (...) fechei várias vezes as torneiras para transmitir a sensação de actividade, confiante de que a angústia se retiraria ao atingir determinada magnitude. Então, lembrei-me do bigode.» Será assim, com a ajuda do bigode, que Jesus vai começar uma vida nova, num mundo bem diferente daquele a que estava habituado e onde as regras são ditadas pela sua imaginação. Juan José Millás, um dos mais destacados nomes do actual panorama literário espanhol, consegue com as aventuras de Jesus levar o humor aos limites do absurdo, sem nunca sair dos ambientes quotidianos da vida moderna. Afinal, a vida que leva a sua personagem a empreender uma espantosa fuga, mesmo que para as terras da imaginação. Quantos de nós não terão já estado à beira de fazer o mesmo?

Fonte: http://www.citador.pt/biblio.php?op=21&book_id=394
 

quinta-feira, janeiro 9

A noite pede música


quarta-feira, janeiro 8

Soneto

    Não pode Amor por mais que as falas mude
    exprimir quanto pesa ou quanto mede.
    Se acaso a comoção falar concede
    é tão mesquinho o tom que o desilude.
   
    Busca no rosto a cor que mais o ajude,
    magoado parecer aos olhos pede,
    pois quando a fala a tudo o mais excede
    não pode ser Amor com tal virtude.
   
    Também eu das palavras me arreceio,
    também sofro do mal sem saber onde
    busque a expressão maior do meu anseio.
   
    E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
    em verdade, em beleza, em doce enleio?
    Olha bem os meus olhos, e responde.



António Gedeão

Das interrogações


O que é bom...



"O que é bom deve ser tratado como se não fosse provisório, mas eterno." 

Agustina Bessa-Luís in 'Caderno de Significados'
 

Do amor, novamente


terça-feira, janeiro 7

A mulher tinha a certeza. E escreveu

A mulher tinha a certeza. E escreveu.
Se ao menos não tivesse escrito.
Se ao menos tivesse inventado.
Trata-se de uma mulher que gosta de inventar.

Se ao menos não gostasse de escrever.
Se ao menos não soubesse sonhar.
Se não gostasse de escrever não existia.
Se não soubesse sonhar não escrevia.

O certo é que a mulher tinha a certeza. E escreveu.
Se ao menos não tivesse certeza, como é seu hábito.
Se ao menos tivesse aquele dia mais um dia. 
Trata-se de uma mulher que gosta de imaginar.

Deram-lhe estrelas e tiraram-lhe o céu.
Se ao menos a mulher soubesse chorar.

[coisas minhas]

A noite pede música


Num dia de Maio chegou o carteiro

 

Eu não abro as cartas do banco com o corta-papéis. Só o uso para abrir cartas e livros. O corta-papéis é mais antigo do que que o teu sorriso, como o livro do Adolfo Casais Monteiro é mais antigo do que os meus olhos abertos. Hoje, chegaram três livros pelo correio. Obrigada Elsa. Obrigada Zá. Zá, a tua carta também a abri com o corta-papéis. Muito devagar, como quem abre um coração pelo lado esquerdo. E ainda bem porque o teu estava lá, rente ao envelope, cheio de ruas estreitas e espirais de silêncio.
Regresso ao livro das poesias completas de Adolfo Casais Monteiro. Coisas minhas. As páginas aqui e ali juntas a pedirem serão com o corta-papéis, como há muito tempo não acontecia. Noite adentro sob a luz do meu candeeiro novo. Um disco muito baixinho, um tom acima do deslizar da lâmina no papel e a flor aqui pousada, tão perto de um jardim distante. Gosto tanto de conversar contigo, faltou dizer-te. Sim, adormeci noites a fio no teu sorriso. E sim, hoje pode voltar a acontecer. Boa noite.

Do amor