quarta-feira, janeiro 8

Soneto

    Não pode Amor por mais que as falas mude
    exprimir quanto pesa ou quanto mede.
    Se acaso a comoção falar concede
    é tão mesquinho o tom que o desilude.
   
    Busca no rosto a cor que mais o ajude,
    magoado parecer aos olhos pede,
    pois quando a fala a tudo o mais excede
    não pode ser Amor com tal virtude.
   
    Também eu das palavras me arreceio,
    também sofro do mal sem saber onde
    busque a expressão maior do meu anseio.
   
    E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
    em verdade, em beleza, em doce enleio?
    Olha bem os meus olhos, e responde.



António Gedeão

Das interrogações


O que é bom...



"O que é bom deve ser tratado como se não fosse provisório, mas eterno." 

Agustina Bessa-Luís in 'Caderno de Significados'
 

Do amor, novamente


terça-feira, janeiro 7

A mulher tinha a certeza. E escreveu

A mulher tinha a certeza. E escreveu.
Se ao menos não tivesse escrito.
Se ao menos tivesse inventado.
Trata-se de uma mulher que gosta de inventar.

Se ao menos não gostasse de escrever.
Se ao menos não soubesse sonhar.
Se não gostasse de escrever não existia.
Se não soubesse sonhar não escrevia.

O certo é que a mulher tinha a certeza. E escreveu.
Se ao menos não tivesse certeza, como é seu hábito.
Se ao menos tivesse aquele dia mais um dia. 
Trata-se de uma mulher que gosta de imaginar.

Deram-lhe estrelas e tiraram-lhe o céu.
Se ao menos a mulher soubesse chorar.

[coisas minhas]

A noite pede música


Num dia de Maio chegou o carteiro

 

Eu não abro as cartas do banco com o corta-papéis. Só o uso para abrir cartas e livros. O corta-papéis é mais antigo do que que o teu sorriso, como o livro do Adolfo Casais Monteiro é mais antigo do que os meus olhos abertos. Hoje, chegaram três livros pelo correio. Obrigada Elsa. Obrigada Zá. Zá, a tua carta também a abri com o corta-papéis. Muito devagar, como quem abre um coração pelo lado esquerdo. E ainda bem porque o teu estava lá, rente ao envelope, cheio de ruas estreitas e espirais de silêncio.
Regresso ao livro das poesias completas de Adolfo Casais Monteiro. Coisas minhas. As páginas aqui e ali juntas a pedirem serão com o corta-papéis, como há muito tempo não acontecia. Noite adentro sob a luz do meu candeeiro novo. Um disco muito baixinho, um tom acima do deslizar da lâmina no papel e a flor aqui pousada, tão perto de um jardim distante. Gosto tanto de conversar contigo, faltou dizer-te. Sim, adormeci noites a fio no teu sorriso. E sim, hoje pode voltar a acontecer. Boa noite.

Do amor


A ver...urgentemente

"THE">http://vimeo.com/64293289">"THE PAST" by Asghar Farhadi - TRAILER
from Memento">http://vimeo.com/user2694101">Memento Films International on Vimeo.https://vimeo.com">Vimeo.>

Mais sobre o filme aqui e aqui

Mulher Triste


Eu só troco a nossa história por uma melhor


Eu só troco a nossa história por uma melhor.

Por um bando de pássaros que nunca abandone o voo,

Por um jardim onde não morram flores,

Por uma lua que nunca mude de tamanho.

Eu já disse que não troco a nossa história por mais nenhuma?

Talvez a troque por um bonsai no lugar do coração.

Para cuidar com arte. Distraidamente.
 
 
Marta Vaz

segunda-feira, janeiro 6

Not today


A noite pede música


Soneto da fidelidade



De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto...
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinícius de Moraes

Da determinação


Do tempo


Assim seja!


domingo, janeiro 5

Não é só futebol...


 
Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência...
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
 
Manuel Alegre

quinta-feira, janeiro 2

Sei esperar mas ainda não sei estar em sossego


Hoje o professor Geraldo não precisava de me explicar porque me deu 200 anos. Na altura, eu tinha 25 e pedi explicações. Por esses dias eu não sentia o peso que o tempo tem. Hoje sinto. Ontem no escritório, meia dúzia de pastas de arquivo e eu vergada aos anos, incrédula, a contá-los pelos dedos para que não houvesse engano. E contei duas vezes os dedos das mãos, muito lenta, como se fossem de chumbo. Um peso tremendo, cheio de questões e urgências. Eu não era assim, aflita com o peso dos ponteiros do relógio, silenciosos como uma nave no espaço. Não era assim, a transbordar de espanto como se nunca tivesse permanecido aqui e não soubesse do tempo a passar por detrás de todos os relógios da casa grande, rostos sem nenhum ruído de desespero. Não era assim, tão inquieta e, no entanto, não sabia esperar. Agora que aprendi, devia estar mais sossegada. Mas não. Há um desajuste muito sério nesta minha aprendizagem. Sei esperar mas ainda não sei estar em sossego. Agora, ando com o tempo mão na mão, nascido muito mais alto e muito mais leve do que eu, a minguar-me todos os dias, como se fosse uma criança a crescer ao contrário. Ando assim, em cuidados com o tempo, cheia de vontade de não lhe voltar a tocar, nem em bicos dos pés, nem em cima do banco, como quando fazia para lhe dar corda.
Marta

Das releituras