terça-feira, janeiro 7
Num dia de Maio chegou o carteiro
Eu não abro as cartas do banco com o corta-papéis. Só o uso
para abrir cartas e livros. O corta-papéis é mais antigo do que que o teu
sorriso, como o livro do Adolfo Casais Monteiro é mais antigo do que os meus
olhos abertos. Hoje, chegaram três livros pelo correio. Obrigada Elsa. Obrigada
Zá. Zá, a tua carta também a abri com o corta-papéis. Muito devagar, como quem
abre um coração pelo lado esquerdo. E ainda bem porque o teu estava lá, rente
ao envelope, cheio de ruas estreitas e espirais de silêncio.
Regresso ao livro das poesias completas de Adolfo Casais
Monteiro. Coisas minhas. As páginas aqui e ali juntas a pedirem serão com o
corta-papéis, como há muito tempo não acontecia. Noite adentro sob a luz do meu
candeeiro novo. Um disco muito baixinho, um tom acima do deslizar da lâmina no
papel e a flor aqui pousada, tão perto de um jardim distante. Gosto tanto de
conversar contigo, faltou dizer-te. Sim, adormeci noites a fio no teu sorriso.
E sim, hoje pode voltar a acontecer. Boa noite.
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
A ver...urgentemente
"THE">http://vimeo.com/64293289">"THE PAST" by Asghar Farhadi - TRAILER
from Memento">http://vimeo.com/user2694101">Memento Films International on Vimeo.https://vimeo.com">Vimeo.>Mais sobre o filme aqui e aqui
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Eu só troco a nossa história por uma melhor
Eu só troco a nossa história por uma melhor.
Por um bando de pássaros que nunca abandone o voo,
Por um jardim onde não morram flores,
Por uma lua que nunca mude de tamanho.
Eu já disse que não troco a nossa história por mais nenhuma?
Talvez a troque por um bonsai no lugar do coração.
Para cuidar com arte. Distraidamente.
Marta Vaz
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
segunda-feira, janeiro 6
Soneto da fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto...
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
domingo, janeiro 5
Não é só futebol...
Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência...
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência...
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
Manuel Alegre
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
quinta-feira, janeiro 2
Sei esperar mas ainda não sei estar em sossego
Hoje o professor Geraldo não precisava de me explicar porque
me deu 200 anos. Na altura, eu tinha 25 e pedi explicações. Por esses dias eu
não sentia o peso que o tempo tem. Hoje sinto. Ontem no escritório, meia dúzia
de pastas de arquivo e eu vergada aos anos, incrédula, a contá-los pelos dedos
para que não houvesse engano. E contei duas vezes os dedos das mãos, muito
lenta, como se fossem de chumbo. Um peso tremendo, cheio de questões e
urgências. Eu não era assim, aflita com o peso dos ponteiros do relógio, silenciosos
como uma nave no espaço. Não era assim, a transbordar de espanto como se nunca
tivesse permanecido aqui e não soubesse do tempo a passar por detrás de todos
os relógios da casa grande, rostos sem nenhum ruído de desespero. Não era
assim, tão inquieta e, no entanto, não sabia esperar. Agora que aprendi, devia
estar mais sossegada. Mas não. Há um desajuste muito sério nesta minha
aprendizagem. Sei esperar mas ainda não sei estar em sossego. Agora, ando com o
tempo mão na mão, nascido muito mais alto e muito mais leve do que eu, a
minguar-me todos os dias, como se fosse uma criança a crescer ao contrário.
Ando assim, em cuidados com o tempo, cheia de vontade de não lhe voltar a
tocar, nem em bicos dos pés, nem em cima do banco, como quando fazia para lhe
dar corda.
Marta
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
quarta-feira, janeiro 1
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