segunda-feira, janeiro 6

A noite pede música


Soneto da fidelidade



De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto...
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinícius de Moraes

Da determinação


Do tempo


Assim seja!


domingo, janeiro 5

Não é só futebol...


 
Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência...
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
 
Manuel Alegre

quinta-feira, janeiro 2

Sei esperar mas ainda não sei estar em sossego


Hoje o professor Geraldo não precisava de me explicar porque me deu 200 anos. Na altura, eu tinha 25 e pedi explicações. Por esses dias eu não sentia o peso que o tempo tem. Hoje sinto. Ontem no escritório, meia dúzia de pastas de arquivo e eu vergada aos anos, incrédula, a contá-los pelos dedos para que não houvesse engano. E contei duas vezes os dedos das mãos, muito lenta, como se fossem de chumbo. Um peso tremendo, cheio de questões e urgências. Eu não era assim, aflita com o peso dos ponteiros do relógio, silenciosos como uma nave no espaço. Não era assim, a transbordar de espanto como se nunca tivesse permanecido aqui e não soubesse do tempo a passar por detrás de todos os relógios da casa grande, rostos sem nenhum ruído de desespero. Não era assim, tão inquieta e, no entanto, não sabia esperar. Agora que aprendi, devia estar mais sossegada. Mas não. Há um desajuste muito sério nesta minha aprendizagem. Sei esperar mas ainda não sei estar em sossego. Agora, ando com o tempo mão na mão, nascido muito mais alto e muito mais leve do que eu, a minguar-me todos os dias, como se fosse uma criança a crescer ao contrário. Ando assim, em cuidados com o tempo, cheia de vontade de não lhe voltar a tocar, nem em bicos dos pés, nem em cima do banco, como quando fazia para lhe dar corda.
Marta

Das releituras


A noite pede música



banda sonora para um sonho

quarta-feira, janeiro 1

Das coisas mal combinadas


Do que não se vê


Da alegria genuína


Do silêncio confortável


Que quer dizer um ano, ou um mês?

 
 
Que quer dizer um ano, ou um mês?
Que a minha mão não está no teu cabelo
- nem tê-lo
é ter de vez.
...

 
 
 
 
Pedro Tamen
 
 
Desenho: Leila Pugnaloni

Das noites claras


Da imprescindível confiança


Das resoluções de ano novo


Das coisas que mudam em 365 dias


Da vontade de dançar

Da orientação certa