segunda-feira, setembro 10

S-Bahn

(...) No entanto não conseguia alherar-me de outros aspectos, mesmo que quisesse. Aquela não era uma cidade normal, estava partida ao meio. Respirava-se com dificuldade, sobretudo num dos lados.


Na verdade, eu respirava com dificuldade em ambos. ...O lado oeste também não me parecia um bom exemplo de sociedade nem de vida. Pelo menos não era nada disso o que eu desejava para o meu país. Mas na altura não tinha de preocupar-me com grandes questões como essa. Já me dava trabalho suficiente a pequena questão de viver, ou sobreviver, no dia-a-dia.

De facto não era fácil, porque eu me distraía e baralhava as normas. Por exemplo, dobrava o édredon do lado errado, e tornei a sair à noite a esquecer-me da chave.

Dessa vez tinha ido ao teatro com Jean-Pierre, um francês nascido em Port-au-Prince, que estudava arqueologia.

Separamo-nos na estação do Zoo e seguimos no metro em direcções diferentes. Em Berlim em geral era esse o uso, os rapazes com quem saíamos não nos acompanhavam depois até casa, se moravam longe, porque não teriam depois eles próprios transporte, uma vez que o metro acabava cedo. Mas eu não me importava de regressar sozinha, Berlim parecia-me seguro, e além disso eu assumia que fazia parte da emancipação das mulheres desembaraçarem-se por si,em lugar de se tornarem um estorvo.

No entanto, quando dei por falta da chave, lamentei que Jean-Pierre não estivesse comigo. Não queria acordar outra vez a dona da casa, mas não tinha dinheiro para ficar num hotel. Não podia pernoirnuma estação de metro, porque fechavam cedo. Ele poderia ter dinheiro para um hotel e emprestar-mo; ou então deixar-me ficar no quarto dele, por uma noite, não me importaria de dormir no chão, qualquer solução servia, desde que não tivesse de passar outra vez pela humilhação de acordar a dona da casa. Essa era de facto a última coisa que eu queria. Mas não sabia onde Jean-Pierre morava,nem tinha o seu telefone.

Estava sozinha.

O S-Bahn, lembrei-me de repente. Circulava toda a noite, entre os dois extremos da cidade. Podia passar a noite no S-Bahn. (...)



Teolinda Gersão in A Mulher que prendeu a chuva, Sextante Editora

a contar os dias VI

a noite pede música

a contar os dias V



 [para lhe dar, de uma só vez, 365,242199 beijos de madrinha insuportavelmente

  babada ( ... faltam 5 dias...)]

a contar os dias IV


para te abraçar.

domingo, setembro 9

Audiatur et altera pars


"You cannot find peace by avoiding life, Leonard"

Virginia

a contar os dias III

a contar os dias II

a contar os dias I

porque sim



Ventelas






No verão com cascas de eucalipto

e sumo de amoras construías



uma ventela colorida Com os

outros miúdos corrias depois



...pela tarde fora Continuas a correr

em sonhos agora com uma ventela



na mão mas a tarde já não é tarde

e o verão não é mais verão



Jorge Sousa Braga

in O Novíssimo Testamento e outros Poemas, pag 44, Assírio & Alvim

Como sabem


Como sabem, eu nunca andei em boas-avenças com a religião de meus pais; e por isso me abstenho de lhe imputar a responsabilidade das minhas quedas, seja dos pináculos aéreos onde o coração me alçou, seja do raso da razão, onde as quedas, ...bem que baixas, são mais ignominosas. Eu comparo o cair das alturas do coração à queda que se dá de um garboso cavalo: quem nos vê cair pode ser que nos deplore; mas decerto nos não acha ridículos. Ora, o cair da baixeza dos cálculos racionais é coisa que faz riso aos outros, e por isso muito comparável ao tombo que damos de um ignóbil burro.




Camilo Castelo Branco in Coração, Cabeça e Estômago

alucinações


[mesmo não olhando, acontecem. mínimas, quase invisíveis]

sábado, setembro 8

Todos nós temos necessidade de ser olhados


Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver. A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, por outras palavras, o olha...r do público. É o caso do cantor alemão e da estrela americana, como é também o caso do jornalista de queixo de rabeca. Estava habituado aos seus leitores, e quando o semanário foi proibido pelos russos teve a impressão de ficar com a atmosfera cem vezes mais rarefeita. Para ele, ninguém podia substituir os olhos anónimos. Sentia-se quase a sufocar, até que um dia percebeu que a polícia lhe seguia todos os passos, que o seu telefone estava sob escuta e que chegava a ser discretamente fotografado na rua. De repente, tinha outra vez olhos anónimos a acompanharem-no: já podia voltar a respirar! Interpelava num tom teatral os microfones escondidos na parede. Voltava a encontrar na polícia o público que julgava ter perdido para sempre.


Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails. São mais felizes que os da primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Marie-Claude e a filha são deste género.

Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão. É neste tipo de pessoas que devemos incluir Tereza e Tomas.

Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Foi até à fronteira cambojana unicamente por causa de Sabina. Dentro do autocarro, que a estrada tailandesa faz baloiçar violentamente, só sente o seu longo olhar poisado em si.



Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser

porque sim

Assim, como quem reza...

[coisas minhas]

É uma cisma do coração


" Escrever bem não ressuscita os mortos, portanto é uma habilidade, como a que fazem os macacos; imita-se tudo o que há para imitar e, embora digam que é um dom, não o é. É só uma habilidade, e a consequência é a vai...dade, e mais nada.


Tudo isto pode parecer desconcertante, mas peço-lhes que reflictam: um escritor é um vício da sociedade, e um vício dispensa a solidão. Por essa razão ele é amado.

Mas acreditem que não o merece.

Tentei provar aqui como vivo e procedo fora de quaisquer ideias fixas. Podeis verificar que ser escritora não é caso de ideia fixa; é uma cisma do coração, não uma ideia fixa."

Agustina Bessa-Luís in Contemplação Carinhosa da Angústia, Guimarães Editores

Entre isso e Lacan...


"Agora, o que se diz da Sibila surpreende-me bastante. Dividem-na em porções, como os mapas de campanha, e descobrem nela teoremas de Lacan e de Freud. Eu sempre pensei que a Sibila era a minha tia Amélia, vaidosa e com jeito para coisas de...tribunais, e que sabia como ninguém estufar um pato com pimenta, num lume de rama de pinheiro. A resina, ao arder, dava ao pato um sabor especial. Entre isso e Lacan não sei que relação haverá."


Agustina Bessa- Luís in  Contemplação Carinhosa da Angústia, Guimarães Editores

terça-feira, setembro 4

where you come from?

[ ...de onde...? ]

segunda-feira, setembro 3

Ontem


[fui procurar um livro e encontrei metade da minha vida]

a noite pede música

Hoje


[estava capaz de escrever um tratado sobre saudades e outras coisas que não passam]

Francisca


[hoje o meu amor faz 11 anos]

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade


Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa (...)eu estava a pensar em achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé de goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos [...].


Manoel de Barros

Fotografia: Robert Doisneau, 1934
 
Fonte: aqui

sábado, setembro 1

porque sim



...porque hoje o meu querido António Lobo Antunes faz 70 anos! Parabéns!

segunda-feira, agosto 27

Estreia 1 de Setembro, em Lisboa




“A infância atravessada é como uma espinha, a gente engole bolas de pão e não passa…”

António Lobo Antunes


SINOPSE

monólogo

"António, consciente da proximidade do fim do seu tempo, reflete sobre o que restou: a derradeira solidão recheada de memórias de uma vida passada.

Como quem visita um álbum fotográfico repleto de cores, texturas e aromas de outros tempos, partilha com o espetador essas memórias com que dá corpo à sua história e o que ficou do seu pequeno mundo… memórias que são também as de um Portugal recente, comum a todos nós!

Uma viagem no tempo que nos resta através do tempo que já vivemos…"

Fonte: Teatro Rápido

domingo, agosto 26

porque sim

Os olhos...


"Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração, caladas como vinham..."


Machado de Assis in Dom Casmurro, pag.29

imagem:Jindrich Streit

a noite pede música

quinta-feira, agosto 23

Eu sei, mas não devia



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

Diz assim, no livro:


"Os primeiros 40 anos de vida dão-nos o texto; os seguintes fornecem o comentário sobre ele."

  Schopenhauer

domingo, agosto 19

a noite pede música

5 linhas ou menos


...volto a contar os dias. Como se faltasse pouco tempo para fazer 18 anos. Como se faltassem poucos dias para o Natal na infância. Como se em breve chegassem as férias grandes; como se fosse a primeira vez que me viesses buscar para jantar; como se  daqui a nada saísse a pauta com as notas de entrada na faculdade. Volto a contar os dias. Dou voltas. Quero sair do lugar. Fazer novo calendário, como se daqui a nada fosse o fim do mundo. O lugar de onde partem sonhos como veleiros. Verdade.

Há muitas coisas belas na terra


"Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos 11 anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram. Quem conservar este sentimento pela vida fora está predestinado a um triunfo, talvez um tanto sedentário, mas que tem o seu reino no coração das pessoas".


Agustina Bessa-Luís in As Pessoas Felizes, pag., Guimarães Editores

...é Domingo...


[...senta-te aqui, a ler, junto ao rio]

porque sim

sábado, agosto 18

Enrique Vila-Matas por José Antônio Cavalcanti


"A arte infraleve de Enrique Vila-Matas


Depois da densa narrativa de Dublinesca (2011), o público brasileiro tem acesso ao último romance de Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan, que vem se juntar a outros já publicados no Brasil, como A viagem vertical (2004), Bartebly e Companhia (2004). Mal de Montano (2005), Suicídios exemplares (2009), Dr. Pasavento (2010), História Abreviada da Literatura Portátil (2011).

A história começa com um convite formulado pela universidade suíça de St. Gallen ao narrador para participar de um congresso internacional sobre o fracasso. Lá encontra o jovem Vilnius Lancastre, publicitário fracassado, diretor de um único curta-metragem de nome bizarro, Radio Babaouo, e às voltas com a construção de um inacreditável Arquivo Geral do Fracasso. A característica, no entanto, que chama a atenção de todos é a extrema semelhança física do jovem com Bob Dylan. Após cair e sofrer uma pancada na cabeça, Vilnius passa a ter a mente invadida pela memória do pai, Juan Lancastre, escritor cuja fama fora construída pela estranha capacidade de ser um especialista na arte da interrupção, fazendo do inacabado o próprio horizonte da escrita. "

continua aqui

sexta-feira, agosto 17

Contemplação Carinhosa da Angústia


“Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de um acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida.”

Agustina Bessa-Luís




a noite pede música

quinta-feira, agosto 16

Durante o sono

Durante o sono retiraram-me uma costela


Ficou-me no peito um vazio que não consigo preencher

Custa-me a respirar

Eu quero de volta a minha costela

quero de volta todas as costelas

Quero de volta o paraíso

quero de volta o silêncio rumorejante

quero de volta as poluções nocturnas

e diurnas

Quero uma mulher

feita de chuva

e vento

e fogo

e neve

e luz

e breu

e não de argila

como eu

Jorge Sousa Braga

...nas famílias...


[Maria Ondina Braga]

"nas famílias, há geralmente anéis que passam de geração para geração, ou certas feições, ou, digamos, uma vocação artística. E doenças, esquisitices, tendências, por exemplo, para a hipocondria, o suicídio. Na nossa é a falência do amor."


Maria Ondina Braga in A Casa Suspensa

quarta-feira, agosto 15

porque sim

...o cérebro...


... é um músculo. precisa ser exercitado. ler ler e ler.

a vida suspensa

Pirandello


Rui Lagartinho escreve sobre os «Contos» de Luigi Pirandello, no suplemento «Ípsilon» do «Público» de 10 de Agosto:

«Além do teatro e dos romances que o tornaram famoso, durante os seus 40 anos de produção literária Luigi Pirandello nunca descurou o conto. São centenas de histórias breves que não poucas vezes serviram de balão de ensaio às suas ambições maiores, coroadas com o Prémio Nobel da Literatura que lhe foi atribuído em 1934. (…)

Com esta mistura confessional entre realismo e fantasia, Pirandello experimenta-se a si e deixa sementes que serão colhidas (apenas um exemplo) por Alberto Moravia em muitos dos seus contos, umas décadas depois.»

a noite pede música

Tiago Monteiro



(este poste é colocado pelo António, 9 anos. Fã do Tiago Monteiro)

Toby


( este post é colocado pelo José que, amanhã, faz 7 anos :) apresento-vos o Toby! )

Summer Evening


Childe Hassam/ Summer Evening/ 1886



Quando no autocarro...


" (...) Quando no autocarro ou sobre os carris do metropolitano encaramos os outros, estamos ao mesmo tempo a olhar para o espelho; é por isso que se torna possível vermos então, como os nossos olhos são vagos, vítreos. E os romancistas do futuro darão uma importância crescente a estes reflexos, porque não apenas um reflexo, mas um número quase infinito deste género de refracções; aí estão as profundidades que os romancistas do futuro terão de explorar; esses os fantasmas que terão de perseguir, deixando cada vez mais de lado as descrições da realidade, pressupondo-a já suficientemente conhecida pelo leitor, como fizeram também os gregos e  Shakespeare, talvez - mas estas generalizações começam a parecer-me inúteis. (...)"

Virginia Woolf in Contos, p. 15 e 16, Relógio d`Água, 2004

...e agora, sim...


banho!

Presente IV


...e mais estes 2: Paris e Morte na Pérsia.

...e agora...


...é só procurar um canto...

Presente III

«Uma obra provavelmente única na escrita americana na sua combinação de lucidez, brevidade aforística, originalidade formal, comédia maliciosa, tristeza metafísica, tensão filosófica e sabedoria humana. Suspeito que os “Contos Completos” de Lydia Davis serão considerados um dos grandes e singulares contributos literários americanos.»


[James Wood, em «The New Yorker», sobre os «Contos Completos» de Lydia Davis]

aqui

a tradutora contadora de histórias...

ler artigo aqui

Presente II


"É estranho como não conhecemos uma pessoa e ao mesmo tempo sabemos que ela é completamente diferente das outras."
 Ali Smith

"Escócia. Uma mulher à deriva, de vida itinerante acaba de arranjar trabalho como vigilante de um recinto de caravanas. Amy Shone tem consigo uma filha de oito anos – Kate - e atrás de si um passado, agora distante, de uma carreira académica em Cambridge.

Um súbito telefonema traz para primeiro plano uma amiga antiga, Aisling McCarthy, agora atriz de sucesso. Daqui em diante será esta a narradora, através dos seus diários, encontrados acidentalmente por Kate. E os mistérios do passado de Amy começarão a ser desvendados pela história das duas amigas, seus conflitos e desenlace.

Qualquer Coisa Como é uma narrativa de opostos, de vidas paralelas que num momento se cruzam e logo divergem. É também uma invocação intemporal da adolescência, suas angustiantes antecipações, o desejo contraditório de liberdade e segurança e a demanda obstinada pelo conhecimento profundo do prazer e da dor."


aqui



Presente I


"Quando Ora se prepara para festejar a desmobilização do filho Ofer, ele volta a juntar-se voluntariamente ao exército. Num ímpeto supersticioso, temendo a pior notícia que um pai ou uma mãe podem ouvir, Ora parte numa caminhada para a Galileia, sem deixar qualquer rasto para os "notificadores". Recentemente separada do marido, arrasta consigo um companheiro inesperado: Avram, outrora o melhor amigo de ambos, o antigo amante, que tinha estado prisioneiro durante a Guerra do Yom Kipur e fora torturado, e que, destruído, recusara sempre conhecer o rapaz ou ter contacto com eles.


Durante a caminhada, Ora vai desenrolando a história da sua maternidade e inicia Avram no drama da família humana - uma narrativa que mantém Ofer vivo, tanto para a mãe como para o leitor. A sua história coloca lado a lado os maiores sofrimentos da guerra e as alegrias e angústias quotidianas da educação dos filhos: nunca se viu tão claramente o real e o surreal da vida quotidiana em Israel, as correntes de ambivalência sobre a guerra numa família, os fardos que caem sobre cada nova geração. Numa situação de conflito coletivo e duradouro, como conciliar as preocupações individuais de uma mãe que, afinal, prefere a companhia de um filho à missão patriótica? Como manter a causa pacifista se aqueles que podem atirar contra um filho são justamente aqueles com quem se quer fazer a paz".

aqui

Pausa!

...preciso mesmo muito...

terça-feira, agosto 14

pois não :)

Saberei o que não sei?

- Há poemas

que não são poemas de amor?
Pergunta a mão
espreguiçando-se até à ponda dos dedos.


Saberei o que é um poema de amor?
Ou então, saberei o que não é um poema de amor?
Tudo o que preciso saber
não me parece importante
quando me esqueço
e mais tarde espanto-me de como pude esquecer
uma coisa tão essencial.
Esta é a ciência do arco e da flecha
em que nunca sabemos se acertamos no alvo
ou se o alvo anda por aí
mesmo debaixo dos nossos olhos.



Como dispor as pedras
apagando o caminho que leva à pergunta
e poder enfim sentar-me
com o alvo baloiçando na respiração?


Rosa Alice Branco



.

domingo, agosto 12

é simples...dizem.

Braga


"E teimo na minha terra: as ruas de Braga, cada esquina, cada pedra, quase um a um, vou transpondo os passeios estreitos das ruas velhas, tortas, a brancura das avenidas, as lojas, as igrejas, os largos. Ando por lá peregrinando. É noitinha, e os sinos a Trindades- tantos sinos, meu Deus! Os pardais esvoaçam, murmurantes, nas tílias do jardim. Ando por lá e ninguém dá conta. Que coisa boa"

Maria Ondina Braga

a noite pede música



... saudades...verdade!

Quando...


"Quando eu içar as minhas velas de nuvens e cruzar os mares
Para lá das casas, para lá das terras
Pela eternidade adentro...


Maria Ondina Braga in Nocturno em Macau, p. 175

E se depois de tantas palavras...

E se depois de tantas palavras,


não sobrevive a palavra!

Se depois das asas dos pássaros,

não sobrevive o pássaro parado!

Mais valeria, na verdade,

que coma tudo e acabemos!



Ter nascido para viver na nossa morte!

Levantar-se do céu rumo à terra

por seus próprios desastres

e espiar o momento de apagar com a sua sombra as suas trevas!

Mas valeria, francamente,

que comam tudo e tanto faz!…



E se depois de tanta história, sucumbirmos,

não já na eternidade,

mas dessas coisas simples, como estar

em casa ou pôr-se a matutar!

E se em seguida descobrirmos,

subitamente, que vivemos,

a avaliar pela altura dos astros,

pelo pente e as nódoas do lenço!

Mais valeria, na verdade,

que comam tudo, sem dúvida!



Dir-se-á que temos

num dos olhos muita pena

e também no outro muita pena

e nos dois, quando olham, muita pena…

Então… Claro!… Então… nem uma só palavra!


César Vallejo


[....escrevias tu, a desejar-me um excelente ano 1993]