quarta-feira, dezembro 29
Sinais I
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: livros que recebi
Sabes que não sei estar contigo sem coração
Sabes que não sei estar contigo sem coração. Principalmente quando me encontras nas linhas imaginárias da tua mão, nos sons da tua nota azul ou em qualquer outro lugar sem fim.
E ontem não o tinha. Está por aí, num quinto da superfície da terra, no grande rio que a circundou. Foi assim, um dia, quando os gregos ditaram verdades ao mundo.
E nós sabemos, sabemos tão bem, meu amor, que verdade, verdade é apenas o que não [nos] aconteceu. De resto, aguardo o tempo. Esse tempo insofismável em que se fará o regresso ao Pacífico.
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: coisas minhas
terça-feira, dezembro 28
Busca
um amor, um lugar,
um sonho de casas eternas,
um cais de outrora quando se acendiam as
lâmpadas,
durante anos te procurei,
caminhante das estrelas solitárias, das
estrelas sem nome,
brilhando sobre as ilhas, sabe-se lá onde,
em que oceanos que levaste contigo,
no grande eclipse desta vida.
José Agostinho Baptista
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: José Agostinho Baptista, poemas
sábado, dezembro 25
sexta-feira, dezembro 24
Honrarei o Natal...
Charles Dickens
Escrito/editado por Marta 5 Terráqueos
Etiquetas: Charles Dikens, Escritores
quinta-feira, dezembro 23
Atravessei contigo a minuciosa tarde
Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate
José Tolentino Mendonça
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: José Tolentino Mendonça, Poesia
quarta-feira, dezembro 22
domingo, dezembro 19
Pilar, José e o Amor
Onde se prova que as pessoas podem ser felizes para sempre.
O estereótipo de há cinquenta anos rezava: «casaram e foram felizes para sempre». O estereótipo contemporâneo preconiza: «casamento, pantufas, aborrecimento». Um estereótipo não é melhor, nem mais inteligente, do que o outro – a ideia de que os casamentos estão condenados ao tédio só parece mais brilhante do que aquela que toma a felicidade como um dado adquirido porque o pessimismo dá sempre uns fumos de ilustração aos seus praticantes: quem futura em negativo passa facilmente por lustroso cérebro porque há sempre um desastre ao virar da esquina – e muito mais mirones para o desastre do que para a alegria. As relações nascem muitas vezes mortas por falta de fé – falta-nos amor por esse amor que é como uma espécie de terceira entidade gerada pela atracção entre dois seres, e que precisa de ser estimado como milagre concreto.
As pessoas casam-se trocando juras de amor já com os códigos do divórcio e das partilhas debaixo do braço. Ou casam-se ainda no mito da paixão inexpugnável, e depois deixam-se pasmar atarantadas diante dos cacos da paixão misturados com as peúgas de anteontem. Ou casam-se por interesse, isto é: escolhendo, como no supermercado, o pedaço de homem ou mulher que mais garantias dá de criar bem os filhos e de fazer uma boa dupla sócio-económica. Os casamentos «arranjados» desapareceram da civilização ocidental mas são frequentemente substituídos pelos casamentos de conveniência – versão ainda mais triste, porque sonsa, feita de faqueiros e fancaria, dos explícitos arranjos familiares e comerciais de outrora. Ganhámos medo do amor, e o medo amarfanha. A literatura lançou um estereótipo avassalador: o de que o amor só pode ser chamejante em estado de clandestinidade. A experiência das ditaduras, mais ou menos universal, criou um modelo infantil de relação: o do grupo de resistentes bonzinhos que agem pela calada contra a sociedade dos maus. É dessa matéria que são feitos os livros da Enid Blyton e os sonhos da adolescência. A associação absoluta entre o prazer e a clandestinidade mata as alegrias da vida adulta.
O belíssimo filme de Miguel Gonçalves Mendes, «José e Pilar», demonstra que as coisas não têm de ser assim: o amor pode ser público e oficial ( é difícil imaginar uma relação mais pública e oficial do que esta, assumida em duas cerimónias de casamento) e permanecer íntimo, faiscante, vivo. A história do início da relação entre Pilar e José é apenas aflorada por José, para esclarecer que Pilar nunca, ao contrário do que se disse, o entrevistou: telefonou-lhe dizendo que era jornalista, leitora e admiradora sua, e que queria conhecê-lo. José acrescenta que mal a viu chegar percebeu que aquilo era sério. Este abalo imediato e definitivo está descrito de um modo sublime no romance «História do Cerco de Lisboa» – mas isso já não consta do filme. Porque a singularidade deste filme está em começar anos depois do beijo fulgurante que sinaliza a união do par, para nos dar a ver exactamente isso em que nos custa tanto a acreditar: a vida que um amor pode ter, mais de vinte anos depois de ter começado. Pilar e José são duas personalidades fortíssimas, contrastantes, muitas vezes discordantes. A cena em que discutem por causa de Hillary Clinton ( que Pilar defende e José ataca) é exemplar quanto à vivacidade de cada um deles – e desse amor, que não só resiste a todas as discussões como parece alimentar-se delas. A química intensa que se desenha no ar sempre que eles estão juntos – um olhar, uma carícia, um abraço, o corpo de um procurando continuamente o corpo do outro – constitui a pedra de toque deste documentário, de uma imensa delicadeza. «Pilar e José» não é sobre a vida de uma vedeta da literatura ( embora a contenha, inevitavelmente) – é sobre a relação de amor entre duas pessoas particularmente expostas.
José dirá, a dado momento, que se pudesse voltar a viver a sua vida, repeti-la-ia toda, exactamente como foi. Parece estranha, esta afirmação, por parte do mesmo homem que diz: «Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer a Pilar, morreria muito mais velho do que aquilo que sou». Na dedicatória das suas memórias de infância ( « As Pequenas Memórias»), José escreveu: «A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar». Então, porque não diz José que, numa segunda vida, preferiria conhecer Pilar vinte anos mais cedo? Provavelmente, porque vinte anos antes não saberiam fazer durar o amor. Aprende-se a amar
(como a correr ou a desenhar) caindo, falhando, errando muitas e muitas vezes. Até ao momento em que ficamos prontos para ser felizes para sempre. Há é pouca gente para dar por isso.
Inês Pedrosa
imagem: Rui Duarte Silva
Escrito/editado por Marta 10 Terráqueos
Etiquetas: crónicas, Escritores, Inês Pedrosa
sábado, dezembro 18
o rio e o coração, o que os une?
Como ele sempre dissera:o rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida.
Mia Couto in A chuva Pasmada
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Escritores, Mia Couto
quinta-feira, dezembro 16
Impulso de ternura
Quando ela nasceu eu tinha oito anos. Mudei-lhe a fralda, dei-lhe papa, contei-lhe histórias...enterneci-me, inúmeras vezes, a olhar para ela e enterneço-me ainda hoje. Por isso, não resisto a este impulso... de vos mostrar...a minha mana :)
Escrito/editado por Marta 7 Terráqueos
Etiquetas: coisas minhas
Ser só abertura para amanhã
Vergílio Ferreira in Aparição
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: Vergilio Ferreira
Morreu Carlos Pinto Coelho
Fiquei triste. Muito. Morreu Carlos Pinto Coelho
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
quarta-feira, dezembro 15
Uma árvore de Natal diferente
Árvore de Natal onde Homens e Mulheres são as Estrelas.Avenida dos Aliados - Porto. Entre 15 de Dezembro e 7 de Janeiro. Uma iniciativa Espaço T.
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: notícias
porque sim
[amanhã, às 22 horas, no cinema Passos Manuel, no Porto]
«SINOPSE:
Era uma vez uma casa no meio do mar, onde uma mulher esperava enquanto tocava um melancólico violoncelo. Aguardava o seu amado, um pintor que sempre quis ser marinheiro para que pudesse navegar entre as medusas, as estrelas do mar e os peixes de mil cores que sonhava nos seus quadros. A sua fascinação levou-o a entrar numa viagem para descobrir a emocionante beleza e os mistérios das profundidades, mas isso significava que nenhum deles sabia se algum dia se encontrariam outra vez.»
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
O presépio da nossa imaginação
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: E.P. Sanders, História, livros
terça-feira, dezembro 14
Eu vou
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: Escritores, Maria Gabriela Llansol
segunda-feira, dezembro 13
...tentando conhecer...
[passados 7 anos de ter começado a ler Maria Gabriella Llansol, conheci-a e falei com ela. Foi uma tarde inesquecível. e esta é uma das dedicatórias mais lindas que tenho num dos seus livros. porque foi verdade. nesse «dia de um de Março, dia em que nos emocionamos, tentando conhecer»]
Escrito/editado por Marta 6 Terráqueos
Etiquetas: Escritores, Maria Gabriela Llansol
Há duas horas que fugia ao sol...
(…)
Os pregos na erva, Maria Gabriela Llansol (Ed. Rolim)
[desviado daqui.
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: Escritores, Maria Gabriela Llansol
domingo, dezembro 12
Prece
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
...Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrito/editado por Marta 9 Terráqueos
Etiquetas: poemas, Sophia de Mello Breyner Andresen
Portugal hipoglicémico
[Só nos faltava essa...em crise e amargos! Há qualquer coisa estranha aqui. Ainda bem que é pontual...............um Portugal hipoglicémico, com tonturas, a entrar em estado de coma.... e a precisar de aumentar a produtividade... não dava jeito nenhum... digo eu....]
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: notícias
A 3ª melhor do mundo
A Livraria Lello acaba de ganhar mais um título: a 3ª melhor do mundo! Para mim, claro, é a primeira, ou não fosse dos locais que mais prazer me dá visitar na minha cidade.
Uma visita rápida, aqui.
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: livraria Lello, Porto
Mais uma lista de pensamentos
Como sabem, quando estou nervosa, faço listas. Pois bem! Estou nervosa. Ando a mil e, depois, o Natal a chegar. E eu com mil coisas para fazer antes que ele chegue. Pessoais e profissionais. "Não se pode adiar o Natal?", perguntou-me o meu mano, há dias, ao telefone? Não. Nem o Natal, nem o coração, como diz - tão bem - António Ramos Rosa. Cá vai a minha lista de pensamentos, para ver se me acalmo :) Como se a fizesse num dos meus caderninhos de capa preta, sem nenhuma ordem lógica:
- A minha querida Patrícia faz anos hoje, está longe e feliz e eu imagino-a com aquele sorriso imensamente autêntico do tamanho do seu coração e do seu dom. Parabéns!
- Fui às compras com a minha irmã e com a minha mãe. Comprei os presentes para os meus sobrinhos lindos. Acho que eles vão adorar :)
- Assim, a olho nu, entra-se num shopping e não se percebe onde anda a crise...mas, por outro lado, já há imensas promoções...Eu já não entrava numa catedral do consumo há quase dois meses. Prefiro o comércio tradicional, a baixa, as ruas, um céu de verdade. Nuvens ou azul ou sol ou chuva. Prefiro.
- Este ano, pela primeira vez, passarei o Natal sem a Kika e o Migas. Está a custar-me tanto tanto tanto pensar nisso a sério.
- «Defensor de que o atraso na educação foi o que mais penalizou Portugal, o primeiro-ministro, José Sócrates, disse hoje ficar "chocado" com as críticas ao facilitismo do programa Novas Oportunidades...». Já ouvi dizer o melhor deste programa e o pior também. Por pessoas que estão no terreno. E o facilitismo e o desfasamento da realidade, são exactamente as críticas que mais ouvi.
- Preciso de uma excelente fotografia de um mapa da Europa e não imagino onde a vou arranjar para ontem.
- Ter imensas saudades de quem nunca se viu é absolutamente possível. Sei-o bem, agora.
- O meu escritório está do avesso. Nunca está muito arrumado, mas desta vez exagerei.
- Estive ao telefone com a Leonor durante duas horas. Passou num ápice. É certo que já não falávamos há quase três meses. Mas a conversa retoma sempre no ponto onde ficou :)
- Dizem-me que as viagens Porto-Faro, estão a 6 euros na Ryanair...a ser assim, vou :)
- Há um chá de Natal com pedacinhos de fruta, canela e segredos que tenho de comprar, como todos os anos por esta altura.
- Recebi com meses de atraso [o que me agrada sempre :)] um presente de aniversário: As Avis - Grandes Rainhas que Partilharam o Trono de Portugal na Segunda Dinastia. Adorei!
- Eu devo ter mesmo cara de farol?, bússola?, sei lá! A orientação de estágios é-me sempre pedida a mim!E só Deus sabe o quanto, no momento, sou eu a precisar de orientação.
- Dia 14, às 21.30, tenho o convite para um concerto: Jean Sibelius e Johann Strauss, pela Orquestra do Norte. Gostava mesmo muito muito de conseguir ir...
- A minha Graça vem de Londres passar o Natal :) e a minha Zaclis, do Brasil, passar o ano :)
- O Terráqueo diz que acredita que «os amores são possíveis, e que os grandes amores ficam juntos. Quando eles não ficam, é porque o amor não era tão forte assim. Era no máximo uma paixão». E o Paulinho Moska confirma...
- «Dois palestinianos foram hoje mortos por militares israelitas quando tentavam entrar em Israel por Gaza, informou o exército de Israel.» Uma coisa é ler jornais, outra é passar fronteiras. Estive lá. E o mundo pareceu-me mesmo mesmo um absurdo...
Escrito/editado por Marta 8 Terráqueos
Etiquetas: coisas minhas
sábado, dezembro 11
Precisa-se
Clarice Lispector
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: Clarice Lispector
sexta-feira, dezembro 10
Uma corola
Em algum lugar
...
esplende uma corola
de cor vermelho-queimado
metálica
não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou da janela
não cheira
não atrai abelhas
não murchará
apenas fulge
em parte alguma
da vida
Ferreira Gullar
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Ferreira Gullar, poemas
O escritor de notas à margem
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: George Steiner
:) :) :) :)
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: blogs que leio
..............................................................................
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: fotografia, Helena Almeida
Traço comum
descalço-me de sombras para chegar a ti
as linhas do meu rosto são claríssimas
nelas não vês o velho, a criança, o adulto
vês apenas o traço comum
que é onde eu procuro a tua mão
na transparência da minha palavra inteira
Vasco Gato
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: poemas, Vasco Gato
quinta-feira, dezembro 9
O homem que tinha dois corações II
[ pela segunda vez , lembram-se?]
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
O homem que tinha dois corações
Era um homem que a natureza dotara com dois corações. Ou seja, em cujo peito pulsavam dois corações. Ou seja, que viera a este mundo com dois desses maravilhosos órgãos. Tudo muito bem.
Certo dia, porém, um dos corações parou. Nada de grave, uma vez que o homem dispunha ainda do segundo. O problema é que a história não é assim tão simples. Esqueci-me de referir* que os dois corações dedicavam um ao outro uma paixão antiga, profunda e avassaladora. Como se costuma dizer, no coração daqueles corações ardia a chama do mais puro amor. Assim, quando o primeiro parou, o segundo derreteu-se em lágrimas e deixou de bater por causa do desgosto.
Concluindo, o homem não resistiu e morreu. Seja como for, a morte não resultou destes sobressaltos cardíacos, digamos assim. O homem faleceu na Arcádia em virtude de uma mordedura de serpente. E agora que está morto, a vida também não lhe tem sido fácil.
* Não é verdade. Estava assaz ansioso por escrever isto. Mas procuro ser um narrador competente e, por isso, esperei pela altura certa para fazer esta significativa revelação.
Rui Manuel Amaral, in Doutor Avalanche, Angelus Novus, Setembro de 201º, pp. 101-102.
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: blogs que leio, livros, Rui Manuel Amaral
quarta-feira, dezembro 8
a noite pede música
[Edu, roubei -aqui - para ti :) porque é lindo lindo. a tua cara]
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: amigos, blogs que leio, musicas que ouço
terça-feira, dezembro 7
O sorriso da Nina
Se eu conseguisse traduzir os silêncios que me habitam, o sorriso da Nina seria das primeira traduções a fazer. Não sei se o sorriso, se a serenidade. Ou a sabedoria que está em ambos. É muito difícil separar. Às vezes estou quieta e o sorriso da Nina chega-me muito lento, de muito longe, muito bom. E, depois, por uma ordem sempre diferente, traz uma lareira e um quebra-nozes; uma toalha branca, de renda, chávenas de lacinho cor-de-rosa e bolo das rosas. Outras vezes, traz um telefonema, a perguntar como me correu o exame; ou a perguntar por um livro; ou a perguntar como estou. Outras vezes, traz uma banca branca de mármore, especiarias, receitas manuscritas, barcos do Gerês. E, ainda, os sinos da pequena capela, mimosas e pêssegos do mercado pequenino que já não existe. O sorriso da Nina levanta paredes altas e brancas onde a vida se escreve com determinação. E coragem. Alonga ruas estreitas, com histórias que jamais esquecerei e que jamais chegarão ao fim. Sei-o agora.
Bem sei que é só um sorriso. Mas é como uma baía, protege naturalmente. Uma espécie de reentrância na geologia dos afectos. E podemos ficar ali, atracados, à espera que a tempestade passe. E, no entanto, é só um sorriso, bem sei. Só que é o sorriso da Nina.
Outras vezes, o sorriso da Nina traz-me outros sorrisos e outras mãos e bordados de ponto de cruz. Traz-me o São Gonçalo, sempre depois dos Reis, e o olhar mais terno dos meus 20 anos. Traz-me – sempre – uma plateia, um palco e a voz da Maria do Céu Guerra. Uma tela, branca, de cinema e papeis coloridos de Natal. Amor filial em estado puro; um saber viver exemplar.
Não sei se algum dia conseguirei traduzir o sorriso da Nina em caracteres, mesmo que numa versão livre dos meus silêncios. Agora, importa que o tenho. É meu para sempre.
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: aniversários, coisas minhas, familia
segunda-feira, dezembro 6
a noite pede música
[...tinha outra em mente...mas depois vi esta, aqui, e também me soube a Natal...]
Escrito/editado por Marta 8 Terráqueos
Introdução à Saudade
[...] A palavra saudade é porventura o mais doce, expressivo e delicado termo da nossa língua. A ideia, ou sentimento por ela reportado, certo que em todos os países o sentem; mas que haja vocábulo especial para o designar, não o sei de nenhuma outra linguagem senão da portuguesa...
Escrito/editado por Marta 9 Terráqueos
Etiquetas: Livros que li, saudades
um dia muito especial
[e amanhã...aniversário do meu Tom ;) junto com o da minha Nina e o da minha Edu :) tenho mil razões para terminar a minha declaração de amor aos Sagitários...]Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: coisas minhas
Se ao menos fosse o fundo dos teus olhos
Se ao menos fosse o fundo dos teus olhos, o lado de dentro das tuas mãos,a respiração suspensa dos teus lábios. Mas não.
É um abstrato fogo quieto, lento e macio.
Um lastro de navio a romper o mar. É quase o teu peito aberto nos meus dedos.
Um desejo à espera de um nome. Uma vela desfraldada no meu ventre.
Uma ciranda de longe, à tua espera. Berlindes coloridos soltos na chuva.
Uma tempestade de silêncio. Um swing que teima em arder.
imagem: NJC Photography
Etiquetas: coisas minhas
domingo, dezembro 5
O idiota é geralmente competente...
O idiota é geralmente competente, moralmente irrepreensível e socialmente necessário. Faz o que tem a fazer sem dúvidas ou hesitações, respeita as hierarquias, toma sempre o partido do bem e acredita religiosamente nas grandes ficções sociais.
O idiota é todo liberdades.
A idiotia também faz bem às artes, principalmente às audiovisuais. A concentração do idiota numa ideia fixa, torna-o especialmente receptivo às músicas de ritmo simples e batida forte, o que facilita extraordinariamente o comércio discográfico, com todas as vantagens que daí advêm para producers e performers, enfim, para o tecido social. No que diz respeito às artes plásticas, tudo é mais fecundo se não houver interferências entre os olhos e as mãos. As ideias perturbam, turvam o olhar, atrapalham o gesto e, nos casos de ideologite aguda, daltonizam as cores. Sem imagens, uma cabeça vazia endoidece.
O idiota puro é o idiota jovem. Com o tempo, torna-se cínico, adquire hábitos esquisitos, sempre à procura do que lhe serve ou lhe rende, em busca de técnicas para obter sucesso e se sentir bem, sereno, de boa saúde e belo aspecto: cristianismo, ioga, dieta macrobiótica, drogas, parapsicologia, psicanálise, etc.
Entre os idiotas, também começa a manifestar-se, se bem que de modo caricatural, algo que recorda o hedonismo e o utilitarismo da aristocracia de outrora: o gosto de ser servido, de se distinguir do "vulgar". Como única crítica a filmes, espectáculos, livros, etc., é frequente ouvi-los dizer: "Mas que mau gosto!"
Os idiotas andam sempre juntos: consomem os mesmos produtos, frequentam os mesmos locais, lêem os mesmos livros e jornais, e têm uma habilidade notável para descobrir e evitar quem não é idiota. Graças a Deus! A política, porém, unifica o conjunto da sociedade sob o signo da idiotia: pessoas estimáveis, notáveis até nos diversos domínios do saber e da cultura, quando chegam à política tornam-se idiotas. Triunfam, quer-se dizer. Tornaram-se, enfim, públicas.»
Ernesto Sampaio
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: blogs que leio, Ernesto Sampaio
...noites iluminadas de saudade...
F. Nietzche, Poemas, Centelha, Coimbra, 1981
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
sábado, dezembro 4
...um nome a acenar-me a acenar-me...
Há pouco, ao transcrever aquela frase do Hemingway, lembrei-me de mim a tropeçar no meu nome quando, depois de ter sido desligado do soro, me passeava no corredor como numa galeria sem história. Evadido do quarto e dos dois vultos de gaiola que saltitavam palavras mudas um para o outro como se fossem sopros de fumo, deslizava por entre portas e paredes duma brancura macia.
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: Escritores, José Cardoso Pires
Esqueço do quanto me ensinaram
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.
Alberto Caeiro, in Fragmentos
Escrito/editado por Marta 6 Terráqueos
Etiquetas: Alberto Caeiro, Poesia
sexta-feira, dezembro 3
Snu [e Francisco Sá Carneiro]
Para sermos verdadeiros, teremos de reconhecer que o percurso político de Francisco Sá Carneiro se deve,acima de tudo, a ele próprio, às suas qualidades, à sua capacidade de mandar, de intuir, de mobilizar, de concretizar. E, muito, de persistir.
Como teremos, ainda, de admirar a influência inquestionável dos que o apoiaram, influenciaram, secundaram, estiveram firmes em torno de si em instantes muito difíceis da sua vida, política e pessoal. E, de entre esses, avulta, impressiva Isabel, antes e durante, por exemplo, aquele terrível ano de 1975.
Mas é também a verdade que nos obriga a testemunhar como Snu foi essencial entre 1976 e 1980. Pela compreensão, complementariedade, abertura de perspectivas, pertinácia, inteligência e partilha de alegrias e provações, determinação de liderança, legítima ambição de deixar traço na História. E até pelo estímulo e o acicate da própria afirmação perante a mulher descoberta e amada. Porque conhecer e amar Snu foi, de facto, um desafio galvanizante para o indomável líder do centro e da direita portuguesa.
Descontando o halo mítico que a trágica morte adensou - e que a própria mãe não consegue entender - , sempre permanece, soberana, a personalidade invulgar daquela nórdica que suscitou grandes controvérsias nesses latinos de velha cepa, coração grande e maldicência afiada que são os portugueses. Vale a pena repeti-lo. Uma mulher só, mesmo no meio de multidões.
Uma mulher que era uma grande senhora pela educação, pelo porte e pelo modo de encarar o mundo. Uma grande senhora que,podendo ter, em diversas circunstâncias, caminhos fáceis para trilhar, preferiu, tantas vezes, as sendas mais ingratas, os trilhos mais penosos, os rumos mais arriscados. E, nessa aposta, foi notável.
Racional, atenta, dissecante das situações e das pessoas, e, ao mesmo tempo, com um fundo tão melacolicamente afectivo e sensível. Para não dizer inseguro.
Talvez tenha sido mesmo esse traço melancólico que a identificou com os portugueses, dados, desde a origem à «menencronia» de que falava El-Rei D. Duarte. Embora os últimos sem a preocupação de rigor, de disciplina, de eficiência que, mais depressa, povoa as terras do Norte da Europa. [...]
Três sentimentos sobressaem ao ler este depoimento singular. O primeiro é o de amor maternal. Neste tempo de grandes choques culturais, faz bem ler o retrato que uma mãe faz de sua filha. Naturalmente assinalado pela emoção do momento vivido, e pela convergência de tantas memórias e cumplicidades, mas sobretudo prova de que - como diz o nosso povo - não há amor como o de mãe. Está nele tudo o que de mais intenso e completo pode existir no afecto entre pessoas. O segundo sentimento que nos impressiona é o da coragem lúcida. Porque, apesar de tudo, foi preciso ter coragem para dizer em voz alta aquele amor, que a maior parte gosta de guardar para si nos instantes supremos de dor. [...] Há como que uma irremovível sensação de injustiça nesta inversão de gerações que se traduz em os filhos partirem antes dos pais. Perante essa injustiça, contar, em voz alta, o desgosto da partida e a dimensão da ausência sentida exige coragem, a coragem de afirmar. E a coragem lúcida, serena, perscrutante. O terceiro sentimento que não pode deixar de nos tocar é o da admiração, agora não por Snu, mas por uma mãe. [...]
Achamos que o importante foi determinado evento ou certa pessoa. E só anos largos volvidos descobrimos que há passagens breves, contactos fugazes, testemunhos pontuais que marcaram de modo mais profundo e duradouro o que somos e como vivemos. Foi assim com Snu. Como foi assim com Francisco Sá Carneiro. À medida que o tempo corre, e que as décadas vão permitindo a perspectiva da sua memória, vamos entendendo melhor o que significaram e o que lhe devemos. E, nessa medida, o depoimento de uma mãe, escrito em 1986, não é mais, como o seria se editado naquela altura em Portugal, um refrigério para amigos ou companheiros de caminhadas pessoais ou políticas. Hoje, Snu, tal como Francisco Sá Carneiro, é, cada qual à sua maneira, património de todos nós. O que não sei bem se lhe agradaria a ela como ideia. E, certamente, estava longe de passar pelo pensamento de Jytte Bonnier, quando, em Estocolmo, já lá vão mais de 15 anos, escreveu sobre a sua filha, morta, em Lisboa, em 4 de Dezembro de 1980.
Marcelo Rebelo de Sousa,
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: Francisco Sá Carneiro, livros, Snu
fazer bom e expressivo
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.
Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,
tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: - Não é poesia!,
diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe
-dra que rola na pedra...
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,
a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...
Alexandre O'Neill
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: Alexandre O´Neill, Poesia
Doutor Avalanche, apresentado amanhã
Lançamento de "Doutor Avalanche" em Lisboa. Amanhã, às 16 horas, na Fnac do Chiado. Com apresentação de Pedro Mexia. Livro de Rui Manuel Amaral. A imagem está um apetite. Até porque eu adoro alface. Mais coisas, só depois de ler... que ainda não li.
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: livros, Rui Manuel Amaral
quinta-feira, dezembro 2
Entropia Vivencial com desenhos de Leila Pugnaloni
Crônicas e memóriasKarin Birckholz lança Entropia Vivencial, livro com ilustrações de Leila Pugnaloni
De fato, ao ter o primeiro livro de Karin Birckholz nas mãos, em textos tão bem ilustrados por Leila Pugnaloni, o leitor tem acesso a múltiplas possibilidades de um prazer estético que também pode fazê-lo reconhecer – e enfrentar – a própria entropia vivencial.»
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Desenhos; Leila Pugnaloni, Karin Birckholz, livros
Não estamos sós?
“A NASA dará uma conferência de imprensa às 14 horas (19 horas em Portugal continental) de quinta-feira dia 2 de Dezembro para discutir uma descoberta na área da astrobiologia que terá consequências na procura de provas de vida extra-terrestre”, afirma a agência no seu site na Internet. A conferência terá lugar em Washington.
Os amantes do espaço e dos extra-terrestres inundaram a blogosfera de especulações sobre o conteúdo do anúncio mas a NASA recusou adiantar quaisquer detalhes antes do anunciado.»
Escrito/editado por Marta 5 Terráqueos
Etiquetas: notícias
quarta-feira, dezembro 1
Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.
Maria do Rosário Pedreira
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: Maria do Rosário Pedreira, Poesia
20 Obsolete English Words that Should Make a Comeback
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: palavras;
































