terça-feira, novembro 16

Procura-se...

sossego
nome masculino
1. acto ou efeito de sossegar
2. aquilo que permite sossegar; descanso; alívio
3. ausência de agitação, tranquilidade, paz, quietude
4. repouso
...em vida

a noite pede música

O pai adoptivo da Pantera-Cor-Rosa


[...] Para além das imagens que povoam a minha memória, desse tempo em que o Vasco Granja vivia dentro da televisão, ele e a bonecada de todo o mundo, agora, também guardo a imagem de um Vasco Granja de carne e osso, que me autografou um livro, que sorriu diante de mim, sem nenhum écran pelo meio e me disse obrigado, como se a agradecida, a eterna agradecida, não fosse eu. Eu e tantos como eu, que o temos como ícone, símbolo da minha e de outras gerações cuja figura convoca memórias. Uma “assembleia” de memórias não só pessoais mas também colectivas que nos ajudam a situar. Quer dentro, quer fora das emoções.

De acordo com Maurice Halbwachs, um dos sociólogos que primeiro abordou o carácter social da memória «qualquer lembrança, por mais pessoal que seja […] mesmo a de sentimentos que não chegamos a expressar, encontra-se relacionada com todo um conjunto de noções que muitos de nós possuem, com pessoas, lugares, datas e formas de linguagem, com raciocínios e ideias, quer dizer, com toda a vida material e moral das sociedades de que fazemos ou de que fizemos parte».

É assim: Vasco Granja passou por aqui, pelo mundo real, para nos abrir algumas portas e janelas sobre um mundo muito especial. Para nos ensinar, para se converter em recordação, para ser decalque de uma sociedade sempre em mutação. Agora, tenho a certeza: ele passeia-se por aí, numa infinita prancha de Banda Desenhada, ora de braço dado com a pantera cor-de-rosa, ora com aqueles estranhos bonecos de Leste. Não importa.

Ele veio para nos ensinar a dizer BD e nos fazer acreditar que de vez em quando podemos ir ter com ele e com a bonecada toda que vive com ele, num planeta aqui do lado, chamado imaginação. Sim, porque os desenhos animados não morrem. Nem eles, nem as pessoas que lhe dão vida, nem as que os apresentam à nossa vida. Como fez Vasco Granja, durante tantos anos, através de um único canal: a RTP. Ele era magro, esguio, calvo. Mas era o "panda" perfeito. O nosso canal Panda, o nosso Disney Channel. O canal para dias memoráveis.
Os desenhos animados não morrem nunca. Sei-o bem, agora. Muito menos morrem os da nossa infância.
[excerto do texto que escrevi para a exposição de homenagem a Vasco Granja, que decorreu o ano passado, durante o Salão de Banda Desenhada da Amadora]

Intimidade


No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago
[hoje o escritor faz anos]

BD assalta facebook

Numa iniciativa cuja origem desconheço, alguns "facebookianos" assumiram na sua imagem de perfil a figura de uma personagem da Banda Desenhada e/ou desenhos animados. Ainda não vi nenhum Homem-Aranha - um dos meus preferidos - mas já vi muitos Cortos Malteses - um dos meus favoritos! Eu ando meia perdida no meu facebook, com tantas caras novas, já não sei quem é quem! Mas a iniciativa é divertida! Principalmente para, quem como eu, gosta de BD.
Até o Governo surgiu representado pelos irmãos Metralhas. [e logo vieram em defesa dos irmãos, claro :)] Resta-nos o sentido de humor, em tempos difíceis. Eu optei pela Pantera Cor-de-Rosa. Mas podia ter optado pela Maga Patológica ou, até, pela Estrunfina, que o meu sangue azul [e branco] bem que podia ser visível :). Ou, ainda, mesmo sendo menina, o Tom Sawyer que também adoro. A ver se ainda aparece um Homem-Aranha, co-protagonista de um dos beijos mais sensuais do cinema! Digo eu!

Mimo blogosférico

[chamam-lhe selos ou prémios tanto faz. eu chamo-lhe mimo. e este chegou-me via Pequenos Barulhos Internos e, logo a seguir, pelo blog No Vazio da Onda]




A poesia é de quem precisa dela...

segunda-feira, novembro 15

Prémios Gazeta entregues hoje

[Miguel Carvalho]

«Reunido na sede do Clube de Jornalistas, o Júri dos Prémios Gazeta decidiu atribuir o Grande Prémio Gazeta 2009 a Miguel Carvalho, da revista Visão, pelo seu trabalho “Os segredos do Barro Branco”, centrado em Joaquim Ferreira Torres, controversa figura ligada à oposição violenta ao 25 de Abril e assassinado em Agosto de 1979.
Com base numa investigação em que aos testemunhos actuais de pessoas que de algum modo estiveram ligadas a Joaquim Ferreira Torres se junta um aprofundado trabalho de recuperação de variada documentação, parte da qual inédita ou pouco explorada, Miguel Carvalho traça o perfil, o percurso, os relacionamentos e os contextos que acabaram por conduzir o protagonista ao trágico desenlace final. Numa linguagem concisa e num estilo fluido, Miguel Carvalho devolve-nos, reconstrói e enriquece a memória de um passado demasiado recente para poder ser esquecido ou ignorado, o que reveste “Os segredos do Barro Branco” de uma inegável actualidade.
Fonte: AQUI
Também pode espreitar aqui

domingo, novembro 14

a noite pede música

Como hei-de segurar a minha alma


Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.

Rainer Maria Rilke
imagem: Filipe Barcelos de Faria

porque sim

Parabéns...

...Filipe... um dia excelente!
[...só porque não encontrei uma fotografia de conjunto! reunir todas as musas que o inspiram era missão impossível... para mim :)]

O que Bach não escreveu

Como são os teus dias, a tua respiração no silêncio?
Agora, na memória despovoada, o teu sorriso é uma planície sem fim. Sem ti. Sem ti, está esta tarde de sol, como se os dias fossem todos contigo e eu não soubesse encher de música o espaço entre os dedos.
Como são os teus dias, o teu olhar no meu?
Sei que o fogo acende noites claras como luas, o fogo acorda sonhos altos, como plátanos e tudo acontece sem ti, tão perto do teu coração sem som, tão longe dos teus sentidos sem nome. Gostava de te sentir e que a luz inteira do teu corpo me ficasse na ponta dos dedos, para te ver sempre assim, mesmo quando não souber a cor exacta dos teus olhos demorados.
Corre um tempo imperfeito – de pérolas imperfeitas – como os meus dias sem ti; corre por ti um tempo, um compasso, qualquer coisa extraordinária que quase não vejo, mas guardo.
Como são os teus dias, as tuas mãos sem rosto?
Essa pauta em branco, essa partitura sem voz; esse dó transcrito, cadente.
Como são os teus dias, a tua paz sem regresso?
Sei a clareza dos teus gestos, a eternidade do indizível, mas não te sei inventar sem ritmo, sem pulso, sem toque. Para saber se o mundo se acende; para saber se o desejo é breve, preciso de saber como são os teus dias.
Como são os teus dias, a tua dor contra o meu peito?
A música, meu amor, é a fuga do silêncio que pouso nos teus lábios.

sábado, novembro 13

Play it, Sam

Verdade

[wish you were here. em todas as versões. até as que desconheço]
imagem: Tom Rosss

Por aqui chove

[Por aqui chove. Sou eu a falar do tempo, fingindo que não tenho mais nada para dizer]

porque sim

[vontade de rever...]

sexta-feira, novembro 12

Nós, o lugar mais acolhedor

[para ti. para nós. outra vez]

Quando o nosso olhar se encontra e eu só preciso de estar como sou;

Quando estou longe e a minha voz, à primeira sílaba, te dá as coordenadas do meu coração;

Quando - choras antes aqui. estou à tua espera, faço-te um chá;

Quando - vou ter contigo, temos de brindar, o momento é único;

Quando no meio da conversa me dizes - ah, é verdade, tens de ler isto, vais adorar;

Quando me trazes um doce, de qualquer lugar - esquece a dieta;

Quando me escreves uma carta [de envelope e selo] a contar as férias e a contar-te a ti;

Quando - estou apaixonado, ela é linda, estás a ver... assim como... lembras-te...;

Quando - anda daí, vamos às compras;

Quando - vais lá cozinhar, divides a cozinha com o João;

Quando vais viajar e - dá de comer ao gato; olha a água, a porta, o alarme;

Quando sonhamos alto - um dia os nossos filhos vão brincar juntos;

Quando palmilhamos a geografia das nossas infâncias, para que nada nos falte;

Quando tomamos café e são cinco minutos uma tarde inteira;

Quando partilhamos todas as histórias de que somos feitos e, ainda, a tarte de maça;

Quando filmes, livros, tupperwares e tabuleiros andam por nossas casas, como se fossem uma;

Quando descobrimos que, afinal, fomos separados à nascença e, por dentro, nem a mãe nos distingue;

Quando ligas a banda sonora das nossas viagens, estrada fora, noite adentro;

Quando se faz mais um silêncio cúmplice ou inventamos um sorriso novo;

Quando a paz de nos termos é o cordão umbilical que nunca cortamos;

Quando se me esquecer, poderás dizer quem sou - o bom e o mau;

Quando dentro do nosso abraço estamos para sempre;

...sinto-me em casa.

É aí, exactamente aí, nesse pilar monossilábico que assenta o lugar mais acolhedor da minha gramática de afectos. Nós, é o pilar e o lugar. O pronome pessoal tónico que me faz sentir em casa. Que me fará chegar sem nunca partir. Partir, sem nunca me afastar.

[o dia 25 está a chegar, mano! e, hoje, mais do que ontem, ando às voltas connosco...]

Vice - Versa


Tenho medo de ver-te
necessidade de ver-te
esperança de ver-te
insipidezes de ver-te
tenho ganas de encontrar-te
preocupação de encontrar-te
certeza de encontrar-te
pobres dúvidas de encontrar-te
tenho urgência de ouvir-te
alegria de ouvir-te
boa sorte de ouvir-te
e temores de ouvir-te
ou seja
resumindo
estou danado
e radiante
talvez mais o primeiro
que o segundo
e também
vice-versa

Mario Benedetti

[Tradução de Maria Teresa Almeida Pina]

As tuas mãos cor de Outono

Estava a olhar para a fotografia e lembrei-me de ti, como se nela visse o teu rosto ou
o teu sorriso, até mesmo as tuas mãos cor de Outono.
Lembrei-me de ti a fazer um castelo com as claras de ovo. Naquela tarde, na cozinha, eu havia de aprender contigo o que eram árvores de folha caduca enquanto fazias o bolo que só tu sabias fazer de cor e salteado. Havia de ficar para sempre, na minha memória olfactiva, aquele cheirinho a bolo da avó Clotilde que, ainda hoje, me faz respirar fundo.
Era um bolo sem nome, enquanto não lhe demos o teu.
- Tenho de fazer uma redacção sobre o Outono, avó. Podias dizer-me coisas sobre o Outono.
E tu começaste a bater o bolo mais devagar, enquanto eu brincava com a lata pequenina do fermento Royal, fazendo-a rolar sobre a mesa.
Uma lata pequenina vermelha que tu abrias com a ajuda de uma colher de café.
-Deixas-me pôr o fermento, avó?
E tu disseste que sim, sem dizer que sim. Tu eras a pessoa que mais falava, sem falar.
- No Outono as árvores de folha caduca ficam sem folhas. Se fores ao quintal, reparas que há folhas na relva, no lago, nos canteiros. As árvores à volta do lago, são árvores de folha caduca, ao contrário das laranjeiras ou dos limoeiros.
No Outono, depois das vindimas, os dias ficam mais pequenos. E faz-se marmelada, porque os marmelos chegam com o Outono, assim como as castanhas. Cada estação do ano tem os seus frutos...
- E o que são árvores de folha caduca, avó?
- Ora vai ao quintal ver as árvores junto ao lago.
E eu saí a correr da cozinha, para ir ver a árvores como se nunca as tivesse visto. Como se não tivesse crescido com elas.
- Avó, junto ao lago tem pereiras e o pessegueiro mais ao lado.
- Exactamente. A pereira, o pessegueiro, o diospireiro, a macieira, a figueira, são árvores de folha caduca. Árvores que no Outono e no Inverno ficam sem folhas.

Quando cheguei à cozinha pousei algumas folhas sobre a mesa.
- Se escolheres as mais bonitas, podes po-las dentro de um livro. Secam protegidas. E vais poder guardá-las, como se guardasses as cores do Outono.
No dia seguinte, na escola, fiz uma redacção sobre folhas que caem e folhas que ficam para sempre nas árvores. Escrevi sobre frutos que chegam com o Outono, sobre dias pequenos que, afinal, ficam imensos. Escrevi sobre folhas que ficam dentro das folhas dos livros.
Como essa tarde de Outono ficou dentro de mim.
[porque , agora, me deu saudades da avó Clotilde lembrei-me deste texto que já havia publicado]