terça-feira, outubro 19

Que menino se recusou já a brincar num sotão...


Que menino se recusou já a brincar num sótão, a inventar inexistência?
Está-se fora do mundo, numa torre inacessível, as pessoas crescidas ficam longe, com as suas ocup...ações, ideias, hábitos incompreensíveis.
Aqui é o reino da fantasia, da realidade indescoberta.
Vêem-se as traves e as telhas do avesso, com teias de aranha, e há umas lucarnas pequeninas, muito engraçadas, viradas para o céu azul, o sol, o silêncio, às vezes o pio dum pássaro, uma paz de eternidade.
Assim, no cheiro de palha, de mofo e clandestinidade, de pó e madeira tostada de sol, entre murmúrios de palavras proibidas, gestos rituais de descobrimento, e acres emanações de suor infantil, pode-se ser feliz ou infeliz à vontade, e, apesar da carne ainda insensível, ir aprendendo os segredos do ser, que exalta e que dói.

José Rodrigues Miguéis in a Escola do Paraíso

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.



Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

— E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

— não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,



que te procuram.

Herberto Helder



[excerto do poema «Tríptico»]

a noite pede música

segunda-feira, outubro 18

Mais sabedoria em "tirinhas"

Todo mundo é uma ilha

[obrigada Berzé! Gostei das "tirinhas" :)]

Curso de Teatro

[para quem gosta do palco. e mesmo para quem não gosta... o mais importante é aprender coisas com o João Negreiros. a não perder]

wake up

O melhor sonho, sem dúvida, o melhor sonho. A dormir. Tão real que consigo dizer todas as cores, todas as vírgulas, quantas nuvens. Posso dizer até, com precisão, quanta chuva naquele momento, como se fosse um pluviómetro. E o despertador tocou às oito em ponto.
«A vida não é justa, pois não?»

domingo, outubro 17

a noite pede música

Abraça-me

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser

este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na

palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos

para provar o sabor que tem carne incandescente das estrelas.

Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti possa buscar

o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me

com os teus antigos braços de criança

para desamarrar em mim a eternidade, a soma formidável

de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.

Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros

pequeninos. Só essa água fará reconhecer

o mais profundo, o mais imenso amor do universo,

e eu quero que dele fiquem a saber

até as estrelas mais antigas e brilhantes.

Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.

Uma vez que nem sei se tu existes.

Joaquim Pessoa
[Do livro a publicar, ANO COMUM]

Acho que é mais ou menos assim

Já o disse aqui. Gosto de silêncios e quando gosto muito muito muito de uma coisa [ou até mesmo de alguém] dá-me, algumas vezes, pró silêncio. Talvez dizer afasia esteja mais correcto, porque é uma incapacidade. Uma impossibilidade, temporal, mas uma impossibilidade, de facto. [Ainda hoje, por exemplo, li umas tantas páginas, mais de cem, que alguém me enviou e gostei tanto, tanto, tanto que ando para aqui a ver se lhe consigo dizer o quanto gostei. Mas não me sai nada.] Lá estou eu... com comportamento desviante! Não é por aqui que quero ir. Focus, Marta, focus!
O que eu quero dizer, ou seja, o cerne destas linhas é um outro blog fantástico que descobri. Quando o visito fico pasmada com a arte e a sensibilidade da Sininho. É verdade. Entro e fico num silêncio fundo fundo, com imensas emoções à superfície. Eu não imagino como ela faz aquilo. Aquilo são os trabalhos dela, como este, que ilustra o texto. Aquela, lá em cima, bem podia ser eu em silêncio, voltada para o que me espanta. Para o que admiro, para o que amo, para o que me comove. Podia ser eu, muda, com legendas. Mas não sou. Muda, não. Afásica.
Sabem quando sentimos que sentimos o mesmo que a outra pessoa sente? Mas assim, do nada. Do nada que é como quem diz, no meio de um deserto de sons e de gestos. Sem voz e sem corpo. Como se tudo fosse signos e sinais; grãos de luz, aqui e ali, até formarem uma estrela. E essa estrela fosse exactamente única e a mesma dentro de cada um. Acho que é mais ou menos assim.

imagem: Maria Cruz

porque sim

Às vezes...


[....às vezes eu encontro blogs fantásticos, outras vezes, blogs fantásticos encontram-me a mim...]

sábado, outubro 16

Tentativas para um regresso à terra

O sol ensina o único caminho

a voz da memória irrompe lodosa

ainda não partimos e já tudo esquecemos

caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente

os corpos diluem-se na delicada pele das pedras

falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam

passos

os poços onde nos debruçámos aproximam-se perigosamente

da ausência e da sede procurámos os rostos na água

conseguimos não esquecer a fome que nos isolou

de oásis em oásis



hoje

é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar

o peso de súbitas cassiopeias nos olhos

quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco a planície



caminhamos ainda

sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos

a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos

e um dia... quem sabe?

chegaremos

Al Berto

a noite pede música

Afinal, não é um hobbit

Tinha para mim, até ao momento, que era um hobbit. Tem nome de hobbit. Que, de certeza, conhecia bem Gandalf...e até pensei, enfim, eu penso muitas coisas. Mas não, não é, um hobbit. Afinal, não é um hobbit... mas que tem nome de hobbit, lá isso tem. E é simpático e sábio, como Gandalf. E deve viver numa espécie de Terra Média. Digo eu, que não tenho acertado uma. Mas pronto.

O copo e o problema que afinal não era


Fez-lhe tão bem conversar com a bruxa! Principalmente pelo seu pragmatismo. Ouve lá, disse a bruxa: "se é um problema, tem solução. Se não tem solução, é porque não é um problema". Quanto ao copo, a bruxa, com a mais funda convicção, afirmou: "ao menos tens o copo! Se meio cheio ou meio vazio... é o que menos interessa agora. Tens o copo, repara...". E ela reparou.

sexta-feira, outubro 15

Agustina Bessa Luís, hoje

Queria tanto estar lá, hoje, data de aniversário de Agustina Bessa Luís.
«Cada voz está só e é única e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa». Esta frase de Agustina acompanha-me todos os dias. Ilumina as tragédias dos telejornais como a tristeza quotidiana da mulher que confessa à amiga a sua decepção, numa mesa de café. As mulheres desiludem-se, ao contrário dos homens, que são ensinados a viver sem ilusões. Às mulheres, ensina-se-lhes a viver sem tudo menos isso. Por isso as mulheres são especialistas em sobrevivência: é-lhes muito difícil perder a esperança, uma nesga de esperança que seja. Há dias, um amigo dizia-me que a razão pela qual os homens mandam no mundo é o cuidado que têm em evitar conflitos directos. À primeira vista, isto parece uma qualidade – mas significa na realidade um exercício constante de desvio face às pequenas, médias e grandes iniquidades.»
este texto da Inês Pedrosa
CONTINUA no blog da Patrícia Reis

a noite pede música

quinta-feira, outubro 14

Carta de amor III


Meu amor querido
Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerâneo minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinesinha minha Pauline Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Pasargada meu templo grego minha colina meu verso de Höderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu manjerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Karénine minha lâmpada de Aladino minha mulher.
António Lobo Antunes in D`este viver aqui neste papel descripto

Carta de amor II


Meu amorzinho, meu Bébé querido:
São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estupida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o somno. É que, sem ter febre, eu tinha delirio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influencia directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermedio de meu primo, que aqui veio ás 7 1/2, uma serie de noticias desagradaveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.

Depois, estar doente exactamente numa occasião em que tenho tanta cousa urgente a fazer, tanta cousa que não posso delegar em outras pessoas.

Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!

Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta - a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d'elle, quando não tens para isso razão nenhuma?

Estou inteiramente só - pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimonia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remedio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sêde e não tenho quem me dê qualquer cousa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.

Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.
Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu

Fernando
19/02/1920
Fernando Pessoa

Carta de amor I

Good morning, on July 7

Though still in bed, my thoughts go out to you, my Immortal Beloved, now and then joyfully, then sadly, waiting to learn whether or not fate will hear us -
I can live only wholly with you or not at all -
Yes, I am resolved to wander so long away from you until I can fly to your arms and say that I am really at home with you, and can send my soul enwrapped in you into the land of spirits -
Yes, unhappily it must be so -
You will be the more contained since you know my fidelity to you. No one else can ever possess my heart - never - never -
Oh God, why must one be parted from one whom one so loves.
And yet my life in V is now a wretched life -
Your love makes me at once the happiest and the unhappiest of men -
At my age I need a steady, quiet life - can that be so in our connection?
My angel, I have just been told that the mailcoach goes every day - therefore I must close at once so that you may receive the letter at once -
Be calm, only by a calm consideration of our existence can we achieve our purpose to live together -
Be calm - love me - today - yesterday - what tearful longings for you - you - you - my life - my all - farewell.
Oh continue to love me - never misjudge the most faithful heart of your beloved.
ever thine
ever mine
ever ours

L.
Ludwig van Beethoven
[ após a morte de Beethoven encontraram uma carta de amor, escrita a lápis, sem o nome da musa inspiradora. "Meu anjo, meu tudo, meu eu… Esqueceu de que não é inteiramente minha e de que eu não sou inteiramente seu? Oh, Deus!". A descoberta originou o filme Immortal Beloved, de 1994, dirigido por Bernard Rose]

face A book


O leitor

It's a Book

quarta-feira, outubro 13

Memórias Sanjo


A adolescência liga memórias a objectos e, nessa época, os meus ténis eram 60 por cento da minha personalidade. Brancos, imaculados, ideais para tudo – lembro-me de argumentar que até condiziam com o vestido bege que levei ao casamento da minha prima. A minha mãe foi obrigada a procurar vários detergentes para garantir que os meus Sanjo estavam sempre impecáveis. Com o fim da adolescência começou a mania das botas.

Patrícia Reis

Memórias andadas
Até uma determinada fase da minha criancice, no gatinhar do meu imaginário, sapatilha era Sanjo.
Um par delas, brancas e inacessíveis, calcorreavam a vida e os dias claros nos pés do meu pai. Do regresso da rua, da peladinha ou do passeio domingueiro, parecia que nada lhes havia acontecido: eram arrumadas, quase imaculadas, na despensa lá de casa.
Quando me fiz menino, sapatilha continuou Sanjo.
Habituei-me a cobiçá-las, à espera de uma deixa paterna. Mas nem elas envelheciam nem os pés do meu cresciam. Uma pena.
Ele, desconfiado e cioso das suas roupas e calçado, passou a vigiar os meus atrevimentos e tentações.
Com paciência e cumplicidade materna, é verdade que vesti camisas, camisolas e até experimentei perfumes do meu pai, nas costas dele. Mas nunca o meu pé foi além do chinelo para alcançar as Sanjo.
Passaram-se anos, entretanto.
Ainda me lembro de ver o meu pai defender bolas impossíveis nas nossas jogatanas de fim-de-semana. Nos pés, as velhas Sanjo, quase novas, quase tudo, como se tivessem nascido com ele.
Herdei as Sanjo, com honra e parcimónia, poucos anos antes da morte do meu pai. Tinham atravessado os anos 80 e calcorreavam, senhoras de si, o início dos anos 90. Com buracos e cordões a desafiar vergonhas, ainda as usei um tempo, por um fio atadas.
Já não me lembro quando me desfiz delas.
Mas guardei, imaculadas, as memórias andadas.

Miguel Carvalho

Também tive umas Sanjo. Aliás, durante a adolescência não calcei outros ténis, pois estes eram os únicos que faziam parte da órbita de possibilidades nesses tempos de finanças apertadas e tão pouco cool de finais dos anos 70, inícios de 80, numa vilória algarvia. E entre os meus amigos, com raras excepções, a escolha em ténis ia, essencialmente, das Sanjo brancas até às Sanjo pretas. Éramos tão ignorantes de tudo o que é trendy que um amigo meu com propensão a efabular disse-me que a Sanjo era uma marca espanhola e eu acreditei (lembrem-se de que os inventores do Google tinham, por essa altura, uns seis anos). Nunca fiz a figura parva de pronunciar Sanjo com um “j” gutural, à castelhana, senão teria morrido de vergonha retrospectiva quando descobri, em 2010, que o nome vem de São João da Madeira.

José Carlos Fernandes
[a propósito de uma exposição patente no Museu da Chapelaria, em São João da Madeira, até ao próximo mês de Janeiro. Para além das sapatilhas Sanjo e da sua história, podem ler-se alguns testemunhos de pessoas que as usaram. Ficam aqui estes três. De três pessoas que admiro muito, muito, muito. E de quem gosto muitíssimo]

a noite pede música

Relações pessoais

Nunca tinha acreditado na companhia que os cães proporcionavam, nem na sua fidelidade. Mas estava sozinho há dois anos e fracassara em todas as suas tentativas para encontrar alguém, não já com quem viver,mas com quem se encontrar aos sábados ou aos domingos para não se esquecer da própria língua. Quando a sua mulher, pouco tempo depois de se irem embora, saiu também de casa, ele afundou-se na tristeza, mas depois pensou que a vida lhe oferecia outra oportunidade. Afinal de contas, não era assim tão velho, de modo que fantasiou com a ideia de ter novas relações, talvez de voltar a formar casal, de ir ao cinema, de fazer amor (ele chamava-lhe assim, «fazer amor») e de ver televisão com alguém ao lado.Mas a realidade tinha demonstrado que no âmbito das relações sociais ele era um incompetente. Com as coisas assim, cada dia estaria mais sozinho, falaria menos, sairia menos, sorriria menos. Envelheceria sozinho, adoeceria sozinho no sofá, talvez com a televisão ligada, como uma mulher do bairro cujo caso saíra nos jornais.

Então começo a pensar na hipótese do cão. Talvez fosse mais fácil a comunicação com um animal do que com um ser humano. Andava há vários meses a observar uma mulher que ao entardecer passava por baixo da sua janela conversando com um mastim que parecia entendê-la, pois de vez em quando levantava a cabeça e ladrava como em sinal de assentimento. Ao princípio observara-a com pena, como se se tratasse de uma pobre louca, mas à medida que as semanas passavam foi-lhe parecendo mais verosímil a possibilidade de que entre ela e o animal houvesse algum tipo de comunicação. Um dia saiu à rua quando a mulher passava por baixo da sua janela e acariciou a cabeça do cão ao mesmo tempo que dizia qualquer coisa agradável sobre ele. Depois comentou que andava a dar voltas à ideia de comprar um cão para lhe fazer companhia. Acrescentou que tinha um apartamento de tamanho médio e queria saber que raça mais lhe conviria. A mulher respondeu-lhe com desdém que os cães não se escolhiam.

- O senhor tem filhos?

- Dois - respondeu ele - , já crescidos.

-Por acaso escolheu-os?

- Na verdade, não.

- Pois com os cães é igual.

O homem balbuciou umas desculpas e continuou a caminhar.

Durante os dias seguintes percorreu algumas lojas de animais onde os cães lhe ladravam e moviam a cauda dentro das jaulas. Eram cachorros e transmitiam aquela energia especial com que, mais cedo ou mais tarde, a experiência acaba. Tê-los-ia levado todos e, por isso mesmo, era incapaz de se decidir por algum. Além disso, quando já estava quase a dar o passo, pensava nas vacinas, nas doenças, na obrigação de o levar à rua de manhã e à tarde, de lhe preparar a comida, de o assear (ele próprio passava dias inteiros sem se pentear)... Mas alguma coisa, no seu interior, lhe dizia que se tratava precisamente disso, de trabalhar para alguém em troca de um pouco de afecto. Passaram vários meses e, um dia, quando voltava das compras carregado de sacos, cruzou-se com um cão de raça e idade indefinidas, um vadio com pêlo curto e as patas compridas. Parou para o observar, pois parecia que estava sozinho, e, num dado momento, o cão virou a cabeça e dirigiu um olhar carregado de sentido ao homem, que continuou a andar preso de uma perturbação excitante. O animal seguiu-o. O homem sentia a sua presença atrás de si. «A seguir», disse para consigo, «dará meia volta e tomará outra direcção».

[...]

Juan José Millás, in Os objectos chamam-nos, pp. 189, 190, Planeta, 2010

imagem: Elliott Erwitt

Pequenas irritações

Li no facebook de um amigo uma irritação que partilho duzentos por cento. Aquelas pequeníssimas afinidades que nos fazem sorrir por também fazerem parte do nosso catálogo pessoal de manias. [Já aqui falei dos seres que vão para o cinema comentar o filme como se fosse um relato de futebol em frequência moderada. Passam o filme a bichanar sobre o enredo e não só. Irritam-me solenemente e, sempre que os apanho, peço o favor de irem conversar para a rua]. Desta vez, a irritação é gerada por aquelas pessoas que se levantam de imediato, ainda mal apreendemos o último gesto, a última palavra . Que não se interessem pela ficha técnica, pelos créditos da banda sonora, pela própria música...enfim...não temos de ter todos o mesmo apreço pelo detalhe.Que não precisem, sentados, daquele breve prelúdio de regresso a si mesmos, vá que não vá. Agora que fiquem de pé, à minha frente, de mãos nos bolsos ou, então, a vestirem o casaco ora com um, ora com outro braço esticado, especados, como se estivessem na última fila...arre!

a noite pede música

terça-feira, outubro 12

Tu em caracteres manuscritos

Chegou sexta-feira de certeza. Mas eu já não estou habituada a recebê-las. E o Senhor Mário, hoje, é uma mulher de colete vermelho, a quem nem sequer sei o nome. Cruzo-me com ela de vez em quando, por acaso. Como habitualmente, abri a caixa do correio e, num gesto automático, tirei tudo e quando cheguei, cansada, coloquei tudo em cima da secretária. Só no Domingo, fiz a separação. Cartas para um lado -água, luz, gás, banco - publicidade para o caixote do lixo. A tua, para o coração. Que feliz fiquei! Podes imaginar? As folhas brancas, lisas, a tinta preta. O envelope. A minha morada, a tua morada. Sem nenhum www no nome da rua. Tu em caracteres manuscritos. Por estes dias, por entre paisagens, coisas, pessoas já te respondi mil vezes na minha cabeça. Agora, vou responder-te em folhas brancas, lisas, a tinta preta. O envelope. A minha morada, a tua morada. Sem nenhum www Eu em caracteres manuscritos. Num abecedário novo muito nosso.

The Best Scene From Goya's Ghosts

muito muito muito

depois do amor


às vezes, depois do amor,

quando feras dóceis rondam o nosso sono,

e afastam os passos dos teus amantes,



às vezes, quando me encosto à nudez, exausto,

e tomo o peso às tuas palavras,

e fico sempre devedor,



às vezes, quando me inventas um nome

para que a madrugada chegue

e eu não tenha de morrer nunca mais,



às vezes, penso no deus que te perdeu,

beijo-o e choro, às escondidas,

por ele.

Mancelos, João de. “depois do amor”. O Prisma de muitas Cores: Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira. Org. Victor Oliveira Mateus. Pref. António Carlos Cortez. Fafe: Labirinto, 2010. 87.

segunda-feira, outubro 11

a noite pede música

[desviada daqui]

Eu planeio...



"Eu planeio" é uma conjugação recente na minha vida. Tem dez anos mais coisa, menos coisa. Fruto de um esforço continuado, em paralelo com o "eu organizo-me", lá tenho tentado planear algumas coisas sem muito sucesso, devo reconhecer. Das mais triviais às mais importantes, falhanços rotundos. Umas vezes desastrosos, outras absolutamente inócuos.

Saio determinada a comprar um vestido e entro em casa com mais um par de botas. Planeio ir à piscina e acabo na esplanada mais próxima, na conversa com uma amiga. Faço uma lista de super mercado, urgentíssima, e, vai que não vai, perco a tarde na livraria. Planeio, finalmente, ir conhecer aquele restaurante de que todos me falam e, nesse dia, uma inundação mesmo antes de sair. Umas vezes eu tenho culpa, outras não.

Poderia dar mil exemplos. Alguns trágicos, até. Mas vou poupar-vos.

Isto para dizer que já planeei umas poucas de vezes uma viagem à Argentina. Esteve mesmo quase, quase. Planeei-a milimetricamente, notas e mais notas num cadernito, à margem dos guias turísticos, apesar das paragens obrigatórias. Coisas que retirei de livros e da experiência de amigos. Foi, aliás, a única viagem que planeei, assim, com devoção... borgeana, obviamente. E onde é que aterrei em Abril passado, para uma viagem inesquecível mas que, claro está, de modo nenhum planeei fazer? Em Ben Gurion.

Este teatro livraria - El Ateneo - é cenário recorrente nos meus sonhos. Incontornável, evidentemente. E se eu fizer de conta que não, que nem pensar ir à Argentina! Credo!

Quero lá estar em Buenos Aires no ano em que a cidade é capital mundial do livro...

Nem pensar!

imagens: Terráqueo

domingo, outubro 10

a noite pede música

É tão difícil...


É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós.
Jorge Sousa Braga

sábado, outubro 9

Há exercícios para treinar a verdade

Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é a outra forma de exercitar a verdade.


Gonçalo M. Tavares in Um Homem: Klaus Klump, Caminho, 2003

imagem:Helmut Newton

a noite pede música

Mi lucha

Contra la simplicidad, por la complejidad.
Contra la uniformidad, por la diversificación.
Contra el igualitarismo, por la jerarquización.
Contra lo colectivo, por lo individual.
Contra la política, por la metafísica.
Contra la música, por la arquitectura.
Contra la naturaleza, por la estética.
Contra el progreso, por la perennidad.
Contra el maquinismo, por el sueño.
Contra la abstracción, por lo concreto.
Contra la juventud, por la madurez.
Contra el oportunismo, por el fanatismo maquiavélico.
Contra la espinaca, por los caracoles.
Contra el cine, por el teatro.
Contra Buda, por el Marqués de Sade.
Contra Oriente, por el Occidente.
Contra el Sol, por la luna.
Contra la revolución, por la tradición.
Contra Miguel Angel, por Rafael.
Contra Rembrandt, por Vermeer.
Contra Objetos salvajes, por los Ultracivilizados objetos 1900.
Contra arte moderno africano, por arte del renacimiento.
Contra la filosofía, por la religión.
Contra la medicina, por la magia.
Contra las montañas, por la costa.
Contra los fantasmas, por los espectros.
Contra las mujeres, por la gala.
Contra los hombres, por mi.
Contra el tiempo, por los relojes blandos.
Contra el cepticismo, por la fe.


Salvador Dali (1904-1989)

O farol

A neblina sobre a retina não me permitia distinguir as fronteiras do coração. No entanto, aprumava o leme com a confiança de um dia claro, sol de meio dia. Enganava-me na inútil certeza dos arrogantes.
Finalmente, a temida chuva veio. De início, tímida como uma criança em seu primeiro dia de aula. Não sabia se me molhava ou misturava-se ao mar revolto. Por fim, cansada de bordear-me pelos flancos, tomou-me inteiramente de assalto. Veio com a força das potestades. Parecia querer arrancar-me do leme. Minhas mãos, após longas horas de aflição, pareciam não mais querer corresponder ao que eu lhes dizia. Temiam no pior frio que se possa enfrentar numa situação dessa. Arranhavam-se no frio do medo. O escuro jazia entre um raio e outro a rasgar noturnas Billie Holidays. A pequena embarcação era menor que meu corpo. Tudo que não era tempestade, tormenta, tinha uma dimensão não superlativa. A vela era tragada pelas vagas como se fosse um fino lenço de cambraia a querer enxugar as lágrimas de uma enchente do Amazonas.


Carlos Eduardo Leal
Continua AQUI

Simplex


[do que falamos, quando falamos do estado da nação?

porque sim. porque sinto.

Invejo os poetas

Pensava que uma das poucas qualidades que tinha era a ausência de inveja. Não é verdade. Invejo os poetas. O que eu queria mesmo, o que mais queria neste mundo, o que mais desejava, mas não tenho talento, era ser poeta. Até aos dezanove, vinte anos, só escrevi poemas. Descobri que eram maus, que não era capaz, que me faltava o dom. Foi um achado tremendo para mim, a certeza que a minha vida perdera o sentido. E então, aflito, desesperado, a medo, comecei a tentar outra coisa, porque não me concebia sem uma caneta na mão.
Nunca fiz contos, nem diários, nem teatro, nem ensaios e contar lérias, não me interessava. Interessava-me transferir o mundo inteiro para o interior das capas de um livro. E cheio de hesitações, recuos, influências, a certeza que ainda não era aquilo, ainda não era aquilo, dei início a este fadário.
Resignado com a minha ausência de talento para me exprimir em verso. Nos primeiros tempos ainda experimentei, ocasionalmente, redigir uns poemas: eram horríveis. Então conformei-me. O projecto de mudar o mundo através dos meus livros ajudava-me, romper com os cânones, a tradição, o passado, dizer o que nunca havia sido dito. A este sonho me amparo e com este sonho continuo. No entanto a secreta inveja dos poetas permanece. Tento contorná-la ao exigir de mim o impossível: a quadratura do círculo das emoções. Conseguir uma obra que contenha tudo dentro. Tudo dentro. E assim ando. Claro que gostava de ter composto o Branco e Vermelho de Pessanha. A Toada de Portalegre de Régio. As canções de Camões. A Pavorosa Ilusão da Eternidade de Bocage.
Certas estrofes, certos sonetos de Sá Miranda, tanta coisa mais. Mesmo nos vivos: invejo Vasco Graça Moura, António Franco Alexandre, Pedro Tamen, etc., que a lista é longa e toda a omissão é uma exclusão injusta. João Cabral de Melo Neto, Drummond: o Desaparecimento de Luísa Porto, por exemplo, é uma obra-prima. E eu aqui amarrado em busca do infinito, palavra a palavra, lento como um boi, a emendar, a voltar ao princípio, a emendar de novo, a voltar ao princípio de novo, a lograr uma linha, duas linhas, uma página por fim.
Trabalho de oficina, excepto em momentos privilegiados em que a mão anda por si, e o texto encontra, como por milagre, o seu caminho.
No resto do tempo sinto-me como os velhos nas escadas, conquistando duramente cada degrau. Não me estou a queixar: tenho o que escolhi, faço o que quero, não trocava a minha vida por nada deste mundo. No ano passado achei-me de repente diante da minha finitude, num imenso assombro.
Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era. Ter passado o que passei alterou-me por completo a existência e suponho que modificou também o que produzo. Os médicos não tratam: tornam a dar-nos a eternidade sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca.
Agora tenho essa eternidade. Por quanto tempo não sei; o silêncio rodeia-nos por toda a parte, quer dizer, a ameaça dele. Não podemos deixar que ele nos assuste. Gastei meses a encostar o ouvido à terra do meu corpo, tenso, à espera.
Agora não: fico de pé na minha teimosa precariedade. Os exames afirmam que o meu corpo está bom: há alturas em que me apetece despi-lo, vogar sem ele, à deriva no meu lago de emoções, esperanças, desânimo ocasional, amor. Sou muito mais capaz de amar agora. Não. Sou finalmente capaz de amar agora. Não me sinto apenas feito para escrever como um danado, sinto-me feito para amar como um danado, numa doce ferocidade. De engolir o universo. Cristovam Pavia, poeta que estimo imenso e se abraçou a um comboio aos trinta e cinco anos, publicou um único livro de poemas antes desse abraço.
O último verso do livro ficou para sempre na minha cabeça. Diz: Só há saída pelo fundo. De maneira mais ou menos obscura sempre achei isto verdade. Agora faz parte da minha carne: só há saída pelo fundo, realmente, mas há uma saída.
E basta-me a certeza disso. Acabarei o livro que escrevo agora, escreverei mais livros. Até me tornar, não sei quando, um morto cobrido de amor, como na morna que o Vitorino me cantou um dia. Eugénio, neste momento lembrei-me de si, do seu repouso no coração do lume. Éramos tão amigos, gaita, teve para comigo tão delicadas atenções enquanto as palmeiras da Foz esbracejavam lá fora.
Ou Alexandre O'Neill, a única pessoa que conheci que não gostava de ninguém. Nem de si mesmo, acho eu.
Mau como as cobras, a rir um riso torto, devastador. Era uma época em que os escritores me fascinavam porque os olhava como mesas de espíritas, capazes de comunicarem com outra dimensão. Uma espécie de demiurgos, de feiticeiros.
Qualquer bom artista é uma mesa de espírita a receber mensagens do além, o que os torna, em certo sentido, quase irresistíveis: a quantidade de mulheres que sempre rodearam um monstro físico e moral como Sartre; Simenon gabava-se de ter dormido com quinze mil. Faz-me lembrar Billy The Kid afirmando haver morto dezoito homens. Acrescentava. Não contando os mexicanos e esse tipo de proezas acabou para mim.
Deixou de interessar-me. Uma única mulher basta: ela é todas. Nem sequer é uma questão de maturidade, é uma questão de não ser parvo. Acabando esta crónica regresso ao livro: ali está ele à minha espera, fazendo negaças. Não tem sorte nenhuma: vou ganhar. Nem que a pele fique pelo caminho vou ganhar. Mudá-lo-ei dúzias de vezes mas ganho. Só há saída pelo fundo. Eu encontro-a.
De onde me virá esta teimosia, esta firmeza? Não sei. Julgo que fui assim desde o início. As partes gelatinosas que tive vão-se tornando de pedra.
Cheio de ferro por dentro. Acabo de comer a torrada, vou-me embora.
Atravesso a rua para o sítio onde trabalho, pego na caneta, espero. Chamo caneta a uma esferográfica vulgar, qualquer que risque me serve. Terá sido a esferográfica que me riscou a testa com o tempo? Porque não voltas atrás e vês o que ficou escrito nela? Retratos, livros, papéis, eu a começar. O telefone soluça como um bebé e, dentro de mim, o teu nome. Vozes de crianças por trás e tudo de súbito fácil, perfeito. Não sei bem o que digo, não sei bem o que oiço. Limito-mo a afogar-me em ti como no mar.
António Lobo Antunes

a noite pede música

sexta-feira, outubro 8

weather report

[chuva, vento... tanto mais cá dentro...]

naked city

4.ª Exposição individual de Sérgio Aires
De 2 de Outubro 2010 a 15 Janeiro 2011
Ai quem me dera - Café Bar - Leça da Palmeira
Rua dos dois amigos, 96

...e enquanto vai e não vai... passeie-se por aqui. emoções a preto & branco.
imagem: Sérgio Aires

Nos teus dedos nasceram horizontes

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, outubro 7

a noite pede música

Mario Vargas Llosa: nobel da literatura



"Um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal".


"Escreve-se para preencher vazios, para fazer separações contra a realidade, contra as circunstâncias"

MARIO VARGAS LLOSA
Nobel da Literatura 2010

[break]

[a pé desde as 7 da manhã.
ora, hoje, o dia não vai lá sem 4 iguais a este. sem açucar.
MAS o chocolatito... vá...dizem que cura tudo, até tristeza]

quarta-feira, outubro 6

Fora isso, tudo é tal como antes

É importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. O morrer não é um processo ininterrupto. Se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível. O final que é uma certeza nem sempre se anuncia de maneira espalhafatosa. Não, você não consegue entender. A única coisa que você entende a respeito dos velhos quando você não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas compreender isso só tem efeito de fixá-los no tempo deles, e assim você não não compreende nada. Para aqueles que ainda não foram velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida esté em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive.
Philip Roth in O Animal Agonizante, Companhia das Letras, 2001
e aqui

E o Nobel da Literatura?

«As histórias bem contadas são o motor da 62.ª Feira do Livro de Frankfurt e as novas tecnologias só vieram assegurar que a procura de conteúdos está a aumentar", disse ontem, em conferência de imprensa, o director Juergen Boos. A feira do livro na cidade alemã abre hoje aos profissionais do sector com sete mil expositores de mais de 100 países e tem a Argentina como país convidado. O livro, os seus novos formatos (e-books) e os aparelhos para a sua leitura estão em destaque na iniciativa a que chamam Frankfurt Sparks, onde, além de exposições, há debates sobre o livro digital. [...] E amanhã, ao segundo dia de feira, a Academia Sueca anuncia o nome do Prémio Nobel da Literatura. »



Isabel Coutinho fonte aqui

a noite pede música

terça-feira, outubro 5

Quero-te para além das coisas justas


Quero-te para além das coisas justas

e dos dias cheios de grandeza.

A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,

as ágatas, as águas.

O meu sol vem de dentro do teu corpo,

a tua voz respira a minha voz.

De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas

dos beijos? Discuto esta noite

apenas o pudor de preferir-te

entre as coisas vivas.

Joaquim Pessoa

imagem: Ramona G.

a noite pede música

Sinto-me assim



[Uma imagem vale mais do que mil palavras. Dizem. Pois bem: eu, hoje, sinto-me assim]
Fiquem a conhecer o trabalho do João Paulo Coutinho. Tanto, tanto. íssimo. Obrigada, Paulo.

segunda-feira, outubro 4

a noite pede música

República das Mulheres

Cem anos de República em Portugal. Muitos livros assinalam o centenário. Este, eu quero ler.

O meu coração ficará no Porto

[amanhã, com o JN, este documentário de Jorge Campos]


“É o melhor filme feito sobre o meu pai” – Iva Delgado, filha do general Humberto Delgado

Sinopse: Para muitos o dia 14 de Maio de 1958 terá sido o início do fim da ditadura em Portugal. A cidade do Porto saiu à rua para receber o General Humberto Delgado, candidato pela oposição à eleições presidenciais. Dias antes, instado a pronunciar-se sobre o destino de Salazar caso vencesse as eleições, Delgado proclamara: “Obvimente demito-o”. Foi o rastilho que incendiou o País. 50 anos mais tarde, o Porto evocou esse dia memorável em que o Povo saiu à rua numa manifestação sem precedentes, para sempre ligada ao destino do General Sem Medo.

Documentário resultante de um acordo de cooperação entre o Instituto Politécnico do Porto e Governo Civil do Porto. Uma produção dos Serviços de Vídeo com a colaboração de professores e alunos do Departamento Artes da Imagem da ESMAE – IPP e realização de Jorge Campos.
Retirado daqui
TEASER aqui

Um escritor cubano

Há dias, longe de o imaginar, encontrei um fã de Leonardo Padura. Filipe, disse-me ter lido e relido os policiais deste escritor cubano que tive o privilégio de conhecer em 2001. Conversar com ele, ver pelos olhos dele e do escritor que há nele, foi esclarecedor para a minha leitura de Cuba e até do mundo. O primeiro livro que li - Paisagem de Outono - está aqui ao meu lado. Aliás, fui ao escritório e voltei a abri-los. Ventos de Quaresma tem uma dedicatória muito terna, com link a um excelente momento de humor. Fiquei com vontade de revisitar as aventuras de Mário Conde. Fiquei, fiquei. E, aos que gostam de policiais, recomendo, vivamente, Padura. Leonardo Padura.
Entrevista AQUI.

domingo, outubro 3

Apetecia-me uma carta

Trrim, trrim, trrim. A campainha da bicicleta do Senhor Mário, carteiro, era a alavanca dos meus dias adolescentes. Ainda hoje é a onomatopeia da minha vida! Desde miúda que as cartas - todas as cartas – me seduzem. Quando comecei a recebe-las, dirigidas a mim, percebi o porquê da minha intuição. Era o mundo feito abecedário. Muito nosso.

[e era o que me apetecia. uma carta. com envelope e selo. daquelas que já quase não se recebem...nem escrevem]

Nas nuvens

[perdi-o no cinema. vi-o hoje, em casa. actualíssimo:

glocal, desemprego, amor, casamento, família, relações...enfim. muito bom]

Entre o perdão e o esquecimento


Aos 40 anos uma mulher descobre que a sua vida é uma mentira. O pai não é seu pai, os seus irmãos, não são seus irmãos e o avô que visitou, durante tantos anos, no cemitério de Coimbra, cidade onde nascera, vive na Holanda.
Poderia não ser importante descobrir a verdade, uma vez que a sua família de coração e de fé, eram todas as outras Carmelitas Descalças do convento onde vivia. E Deus. Vivia para Ele e com Ele. Em silêncio e oração. Numa fé só de eleitos.
Abandonou a sua vida de recolhimento. Colocou o hábito dentro de uma caixa. Despediu-se de toda a gente no mosteiro que sempre a consolou e resguardou do mundo.
Voltou a chamar-se Helena. Leni, como lhe chamavam os irmãos e a mãe. E partiu em busca de si, da sua história. Com fé. Talvez na força de um pedido da sua mãe, expresso numa carta deixada, antes de morrer. Tinha ela 14 anos.
Já na Holanda, na praça de Dam Square, ainda desajeitada naqueles trajes de mulher comum, comprou um chapéu que lhe tapasse a cabeça.
Ainda bem que tudo lhe estava a acontecer no Inverno. Assim vestida e calçada, o desconforto não era total. Não saberia como lidar com o sol na pele.
Helena caminha em direcção ao hotel. Sente medo. Medo e desejo.
Medo de saber quem é; desejo de saber quem será.
Com quem se parceria? De quem herdou os olhos esverdeados, o rosto angular, o cabelo claro e sedoso, o corpo esguio, as mãos de pianista?
E, principalmente, de quem herdou aquela vontade de ajudar o mundo em silêncio e recolhimento, só com o poder da oração?
E de onde lhe vinha aquele fascínio pelo céu, principalmente quando a noite cai e o telescópio vigia as estrelas. A astronomia, que estudou, ainda hoje a fascina e comove. Passou a infância a olhar para o céu e a adolescência a ponderar se Deus mora lá. Acredita que sim, que mora.
Tantas certezas sobre as estrelas e sobre Deus e, agora, enquanto caminha, nenhuma sobre si. Helena é o dogma da sua existência. Disseram-lhe que era filha de Mário Vila Franca e Antónia Vila Franca e ela acreditou. Disseram-lhe que era a irmã mais velha, de dois irmãos, e ela acreditou. Nunca colocou nada em causa. Nada.
Até porque estava escrito. E as coisas escritas parecem indesmentíveis.
E agora, na mala que desliza atrás de si, tem a carta que o pai lhe escreveu para o convento, poucos dias antes de morrer. E como pesam as cartas que chegam dias antes de quem as escreveu morrer.
Que sempre a amou como filha mas que não era sua filha. Que procurasse o avô materno, na Holanda. Que o paterno, é verdade, tinha morrido, mas não tinha campa, em Coimbra.
Que guardasse os documentos que lhe envia com a carta. São originais. E que perdoasse ao seu verdadeiro pai e lhe perdoasse a ele, também, por nunca ter tido a coragem de lhe contar a verdade. Mas, fosse qual fosse a verdade que encontrasse, morria certo do seu perdão. Afinal, uma freira, tem por dever perdoar. E sabe fazê-lo melhor do que qualquer outra pessoa.

Helena caminha em direcção ao hotel, tão absorta nos seus pensamentos, que não repara num velho vigoroso que a segue desde que deixou o aeroporto em direcção ao centro da cidade. O velho que a viu comprar o chapéu sem o experimentar, segue-lhe os passos.
Os passos de uma mulher comum, para a qual a vida deixou de fazer sentido no recolhimento e na oração. Uma mulher entre a memória e a mentira. Entre o esquecimento e o perdão.

Chá das 5

Apesar de gostar de chá a qualquer hora e em qualquer estação do ano, quando chove, o vento é forte e o domingo é de "trazer por casa", apetece ainda mais. Gosto do ritual do chá numa toalha branca, bule escaldado, scones e bolo. Pode ser de frutas, de canela, de chocolate, claro. Gosto de sentir, como agora, o cheiro do bolo de maça que se espalha pela casa e entra no escritório, sem pedir licença. É o meu primeiro chá de Outono, este ano. Gosto de abrir a caixa dos chás e ficar uns minutos a pensar se branco, se jasmim, se menta, se limão, se pura e simplesmente preto e forte. Sempre sem açúcar. Gosto de escolher qual receita de scones, se a minha, se a da Milena. E de colocar os ingredientes sobre a banca, alinhados, como lombadas de livros. Gosto do Chet Baker na sala, alto, e das recordações que me assaltam e me fazem sorrir fundo. E me trazem Covent Garden e uma das minhas lojas de chá favoritas. Perco-me horas, lá dentro.
Gosto de ficar presa no meu sentir tudo, quando acredito que tudo voltará a estabilizar como a massa dos scones, antes de entrarem no forno. E que depois é só colocar uma colher de doce. Simples.
Gosto de pensar que todos os amigos de quem sinto saudades, agora, vão chegar às cinco, em ponto...
imagem: Le Portillon

sábado, outubro 2

Procuro a ternura súbita

Procuro a ternura súbita,

os olhos ou o sol por nascer

do tamanho do mundo,

o sangue que nenhuma espada viu,

o ar onde a respiração é doce,

um pássaro no bosque

com a forma de um grito de alegria.



Oh, a carícia da terra,

a juventude suspensa,

a fugidia voz da água entre o azul

do prado e de um corpo estendido.



Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.

Chamo por ti, e o teu nome ilumina

as coisas mais simples:

o pão e a água,

a cama e a mesa,

os pequenos e dóceis animais,

onde também quero que chegue

o meu canto e a manhã de maio.



Um pássaro e um navio são a mesma coisa

quando te procuro de rosto cravado na luz.

Eu sei que há diferenças,

mas não quando se ama,

não quando apertamos contra o peito

uma flor ávida de orvalho.



Ter só dedos e dentes é muito triste:

dedos para amortalhar crianças,

dentes para roer a solidão,

enquanto o verão pinta de azul o céu

e o mar é devassado pelas estrelas.



Porém eu procuro-te.

Antes que a morte se aproxime, procuro-te.

Nas ruas, nos barcos, na cama,

com amor, com ódio, ao sol, à chuva,

de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in As Palavras Interditas

a noite pede música

Alentejo

Há muitos anos, mais precisamente metade da minha vida, conheci o Alentejo. Por dentro. Era Outono e eu com ele, nos dias mais velozes. Lembro-me da temperatura do sol, da claridade dos sonhos, do espanto das árvores na berma das estradas.
Do lugar das searas com frutos ao fundo.
De vez em quando, a memória abre-se como uma romã e há um grão que sabe melhor. Um canto onde nunca mais voltei. Onde nunca mais consegui voltar. Sei-lhe o nome, o aroma, a imensidão. Como se na terra não houvesse outro lugar para ser feliz.

imagem: Fernanda Mateus, Alentejo

Futuro


O século XVII foi o século das matemáticas, o século XVIII o das ciências e o século XIX o da biologia. O nosso século XX é o século do medo…o que mais efectivamente nos chama a atenção neste mundo em que vivemos é, em geral e em primeiro lugar, que a maioria dos homens (…) não tem futuro algum. Nenhuma vida é válida sem projecção no futuro.
Albert Camus

sexta-feira, outubro 1

a noite pede música

acasos ou não

[...e se um desconhecido, em vez de flores, lhe oferece a palavra-chave: impérios desaparecidos.
e se faz luz, como certos sorrisos. e se faz encanto, como certas pessoas. e se faz caminho, como certas verdades...]