quarta-feira, outubro 13

Pequenas irritações

Li no facebook de um amigo uma irritação que partilho duzentos por cento. Aquelas pequeníssimas afinidades que nos fazem sorrir por também fazerem parte do nosso catálogo pessoal de manias. [Já aqui falei dos seres que vão para o cinema comentar o filme como se fosse um relato de futebol em frequência moderada. Passam o filme a bichanar sobre o enredo e não só. Irritam-me solenemente e, sempre que os apanho, peço o favor de irem conversar para a rua]. Desta vez, a irritação é gerada por aquelas pessoas que se levantam de imediato, ainda mal apreendemos o último gesto, a última palavra . Que não se interessem pela ficha técnica, pelos créditos da banda sonora, pela própria música...enfim...não temos de ter todos o mesmo apreço pelo detalhe.Que não precisem, sentados, daquele breve prelúdio de regresso a si mesmos, vá que não vá. Agora que fiquem de pé, à minha frente, de mãos nos bolsos ou, então, a vestirem o casaco ora com um, ora com outro braço esticado, especados, como se estivessem na última fila...arre!

a noite pede música

terça-feira, outubro 12

Tu em caracteres manuscritos

Chegou sexta-feira de certeza. Mas eu já não estou habituada a recebê-las. E o Senhor Mário, hoje, é uma mulher de colete vermelho, a quem nem sequer sei o nome. Cruzo-me com ela de vez em quando, por acaso. Como habitualmente, abri a caixa do correio e, num gesto automático, tirei tudo e quando cheguei, cansada, coloquei tudo em cima da secretária. Só no Domingo, fiz a separação. Cartas para um lado -água, luz, gás, banco - publicidade para o caixote do lixo. A tua, para o coração. Que feliz fiquei! Podes imaginar? As folhas brancas, lisas, a tinta preta. O envelope. A minha morada, a tua morada. Sem nenhum www no nome da rua. Tu em caracteres manuscritos. Por estes dias, por entre paisagens, coisas, pessoas já te respondi mil vezes na minha cabeça. Agora, vou responder-te em folhas brancas, lisas, a tinta preta. O envelope. A minha morada, a tua morada. Sem nenhum www Eu em caracteres manuscritos. Num abecedário novo muito nosso.

The Best Scene From Goya's Ghosts

muito muito muito

depois do amor


às vezes, depois do amor,

quando feras dóceis rondam o nosso sono,

e afastam os passos dos teus amantes,



às vezes, quando me encosto à nudez, exausto,

e tomo o peso às tuas palavras,

e fico sempre devedor,



às vezes, quando me inventas um nome

para que a madrugada chegue

e eu não tenha de morrer nunca mais,



às vezes, penso no deus que te perdeu,

beijo-o e choro, às escondidas,

por ele.

Mancelos, João de. “depois do amor”. O Prisma de muitas Cores: Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira. Org. Victor Oliveira Mateus. Pref. António Carlos Cortez. Fafe: Labirinto, 2010. 87.

segunda-feira, outubro 11

a noite pede música

[desviada daqui]

Eu planeio...



"Eu planeio" é uma conjugação recente na minha vida. Tem dez anos mais coisa, menos coisa. Fruto de um esforço continuado, em paralelo com o "eu organizo-me", lá tenho tentado planear algumas coisas sem muito sucesso, devo reconhecer. Das mais triviais às mais importantes, falhanços rotundos. Umas vezes desastrosos, outras absolutamente inócuos.

Saio determinada a comprar um vestido e entro em casa com mais um par de botas. Planeio ir à piscina e acabo na esplanada mais próxima, na conversa com uma amiga. Faço uma lista de super mercado, urgentíssima, e, vai que não vai, perco a tarde na livraria. Planeio, finalmente, ir conhecer aquele restaurante de que todos me falam e, nesse dia, uma inundação mesmo antes de sair. Umas vezes eu tenho culpa, outras não.

Poderia dar mil exemplos. Alguns trágicos, até. Mas vou poupar-vos.

Isto para dizer que já planeei umas poucas de vezes uma viagem à Argentina. Esteve mesmo quase, quase. Planeei-a milimetricamente, notas e mais notas num cadernito, à margem dos guias turísticos, apesar das paragens obrigatórias. Coisas que retirei de livros e da experiência de amigos. Foi, aliás, a única viagem que planeei, assim, com devoção... borgeana, obviamente. E onde é que aterrei em Abril passado, para uma viagem inesquecível mas que, claro está, de modo nenhum planeei fazer? Em Ben Gurion.

Este teatro livraria - El Ateneo - é cenário recorrente nos meus sonhos. Incontornável, evidentemente. E se eu fizer de conta que não, que nem pensar ir à Argentina! Credo!

Quero lá estar em Buenos Aires no ano em que a cidade é capital mundial do livro...

Nem pensar!

imagens: Terráqueo

domingo, outubro 10

a noite pede música

É tão difícil...


É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós.
Jorge Sousa Braga

sábado, outubro 9

Há exercícios para treinar a verdade

Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é a outra forma de exercitar a verdade.


Gonçalo M. Tavares in Um Homem: Klaus Klump, Caminho, 2003

imagem:Helmut Newton

a noite pede música

Mi lucha

Contra la simplicidad, por la complejidad.
Contra la uniformidad, por la diversificación.
Contra el igualitarismo, por la jerarquización.
Contra lo colectivo, por lo individual.
Contra la política, por la metafísica.
Contra la música, por la arquitectura.
Contra la naturaleza, por la estética.
Contra el progreso, por la perennidad.
Contra el maquinismo, por el sueño.
Contra la abstracción, por lo concreto.
Contra la juventud, por la madurez.
Contra el oportunismo, por el fanatismo maquiavélico.
Contra la espinaca, por los caracoles.
Contra el cine, por el teatro.
Contra Buda, por el Marqués de Sade.
Contra Oriente, por el Occidente.
Contra el Sol, por la luna.
Contra la revolución, por la tradición.
Contra Miguel Angel, por Rafael.
Contra Rembrandt, por Vermeer.
Contra Objetos salvajes, por los Ultracivilizados objetos 1900.
Contra arte moderno africano, por arte del renacimiento.
Contra la filosofía, por la religión.
Contra la medicina, por la magia.
Contra las montañas, por la costa.
Contra los fantasmas, por los espectros.
Contra las mujeres, por la gala.
Contra los hombres, por mi.
Contra el tiempo, por los relojes blandos.
Contra el cepticismo, por la fe.


Salvador Dali (1904-1989)

O farol

A neblina sobre a retina não me permitia distinguir as fronteiras do coração. No entanto, aprumava o leme com a confiança de um dia claro, sol de meio dia. Enganava-me na inútil certeza dos arrogantes.
Finalmente, a temida chuva veio. De início, tímida como uma criança em seu primeiro dia de aula. Não sabia se me molhava ou misturava-se ao mar revolto. Por fim, cansada de bordear-me pelos flancos, tomou-me inteiramente de assalto. Veio com a força das potestades. Parecia querer arrancar-me do leme. Minhas mãos, após longas horas de aflição, pareciam não mais querer corresponder ao que eu lhes dizia. Temiam no pior frio que se possa enfrentar numa situação dessa. Arranhavam-se no frio do medo. O escuro jazia entre um raio e outro a rasgar noturnas Billie Holidays. A pequena embarcação era menor que meu corpo. Tudo que não era tempestade, tormenta, tinha uma dimensão não superlativa. A vela era tragada pelas vagas como se fosse um fino lenço de cambraia a querer enxugar as lágrimas de uma enchente do Amazonas.


Carlos Eduardo Leal
Continua AQUI

Simplex


[do que falamos, quando falamos do estado da nação?

porque sim. porque sinto.

Invejo os poetas

Pensava que uma das poucas qualidades que tinha era a ausência de inveja. Não é verdade. Invejo os poetas. O que eu queria mesmo, o que mais queria neste mundo, o que mais desejava, mas não tenho talento, era ser poeta. Até aos dezanove, vinte anos, só escrevi poemas. Descobri que eram maus, que não era capaz, que me faltava o dom. Foi um achado tremendo para mim, a certeza que a minha vida perdera o sentido. E então, aflito, desesperado, a medo, comecei a tentar outra coisa, porque não me concebia sem uma caneta na mão.
Nunca fiz contos, nem diários, nem teatro, nem ensaios e contar lérias, não me interessava. Interessava-me transferir o mundo inteiro para o interior das capas de um livro. E cheio de hesitações, recuos, influências, a certeza que ainda não era aquilo, ainda não era aquilo, dei início a este fadário.
Resignado com a minha ausência de talento para me exprimir em verso. Nos primeiros tempos ainda experimentei, ocasionalmente, redigir uns poemas: eram horríveis. Então conformei-me. O projecto de mudar o mundo através dos meus livros ajudava-me, romper com os cânones, a tradição, o passado, dizer o que nunca havia sido dito. A este sonho me amparo e com este sonho continuo. No entanto a secreta inveja dos poetas permanece. Tento contorná-la ao exigir de mim o impossível: a quadratura do círculo das emoções. Conseguir uma obra que contenha tudo dentro. Tudo dentro. E assim ando. Claro que gostava de ter composto o Branco e Vermelho de Pessanha. A Toada de Portalegre de Régio. As canções de Camões. A Pavorosa Ilusão da Eternidade de Bocage.
Certas estrofes, certos sonetos de Sá Miranda, tanta coisa mais. Mesmo nos vivos: invejo Vasco Graça Moura, António Franco Alexandre, Pedro Tamen, etc., que a lista é longa e toda a omissão é uma exclusão injusta. João Cabral de Melo Neto, Drummond: o Desaparecimento de Luísa Porto, por exemplo, é uma obra-prima. E eu aqui amarrado em busca do infinito, palavra a palavra, lento como um boi, a emendar, a voltar ao princípio, a emendar de novo, a voltar ao princípio de novo, a lograr uma linha, duas linhas, uma página por fim.
Trabalho de oficina, excepto em momentos privilegiados em que a mão anda por si, e o texto encontra, como por milagre, o seu caminho.
No resto do tempo sinto-me como os velhos nas escadas, conquistando duramente cada degrau. Não me estou a queixar: tenho o que escolhi, faço o que quero, não trocava a minha vida por nada deste mundo. No ano passado achei-me de repente diante da minha finitude, num imenso assombro.
Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era. Ter passado o que passei alterou-me por completo a existência e suponho que modificou também o que produzo. Os médicos não tratam: tornam a dar-nos a eternidade sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca.
Agora tenho essa eternidade. Por quanto tempo não sei; o silêncio rodeia-nos por toda a parte, quer dizer, a ameaça dele. Não podemos deixar que ele nos assuste. Gastei meses a encostar o ouvido à terra do meu corpo, tenso, à espera.
Agora não: fico de pé na minha teimosa precariedade. Os exames afirmam que o meu corpo está bom: há alturas em que me apetece despi-lo, vogar sem ele, à deriva no meu lago de emoções, esperanças, desânimo ocasional, amor. Sou muito mais capaz de amar agora. Não. Sou finalmente capaz de amar agora. Não me sinto apenas feito para escrever como um danado, sinto-me feito para amar como um danado, numa doce ferocidade. De engolir o universo. Cristovam Pavia, poeta que estimo imenso e se abraçou a um comboio aos trinta e cinco anos, publicou um único livro de poemas antes desse abraço.
O último verso do livro ficou para sempre na minha cabeça. Diz: Só há saída pelo fundo. De maneira mais ou menos obscura sempre achei isto verdade. Agora faz parte da minha carne: só há saída pelo fundo, realmente, mas há uma saída.
E basta-me a certeza disso. Acabarei o livro que escrevo agora, escreverei mais livros. Até me tornar, não sei quando, um morto cobrido de amor, como na morna que o Vitorino me cantou um dia. Eugénio, neste momento lembrei-me de si, do seu repouso no coração do lume. Éramos tão amigos, gaita, teve para comigo tão delicadas atenções enquanto as palmeiras da Foz esbracejavam lá fora.
Ou Alexandre O'Neill, a única pessoa que conheci que não gostava de ninguém. Nem de si mesmo, acho eu.
Mau como as cobras, a rir um riso torto, devastador. Era uma época em que os escritores me fascinavam porque os olhava como mesas de espíritas, capazes de comunicarem com outra dimensão. Uma espécie de demiurgos, de feiticeiros.
Qualquer bom artista é uma mesa de espírita a receber mensagens do além, o que os torna, em certo sentido, quase irresistíveis: a quantidade de mulheres que sempre rodearam um monstro físico e moral como Sartre; Simenon gabava-se de ter dormido com quinze mil. Faz-me lembrar Billy The Kid afirmando haver morto dezoito homens. Acrescentava. Não contando os mexicanos e esse tipo de proezas acabou para mim.
Deixou de interessar-me. Uma única mulher basta: ela é todas. Nem sequer é uma questão de maturidade, é uma questão de não ser parvo. Acabando esta crónica regresso ao livro: ali está ele à minha espera, fazendo negaças. Não tem sorte nenhuma: vou ganhar. Nem que a pele fique pelo caminho vou ganhar. Mudá-lo-ei dúzias de vezes mas ganho. Só há saída pelo fundo. Eu encontro-a.
De onde me virá esta teimosia, esta firmeza? Não sei. Julgo que fui assim desde o início. As partes gelatinosas que tive vão-se tornando de pedra.
Cheio de ferro por dentro. Acabo de comer a torrada, vou-me embora.
Atravesso a rua para o sítio onde trabalho, pego na caneta, espero. Chamo caneta a uma esferográfica vulgar, qualquer que risque me serve. Terá sido a esferográfica que me riscou a testa com o tempo? Porque não voltas atrás e vês o que ficou escrito nela? Retratos, livros, papéis, eu a começar. O telefone soluça como um bebé e, dentro de mim, o teu nome. Vozes de crianças por trás e tudo de súbito fácil, perfeito. Não sei bem o que digo, não sei bem o que oiço. Limito-mo a afogar-me em ti como no mar.
António Lobo Antunes

a noite pede música

sexta-feira, outubro 8

weather report

[chuva, vento... tanto mais cá dentro...]

naked city

4.ª Exposição individual de Sérgio Aires
De 2 de Outubro 2010 a 15 Janeiro 2011
Ai quem me dera - Café Bar - Leça da Palmeira
Rua dos dois amigos, 96

...e enquanto vai e não vai... passeie-se por aqui. emoções a preto & branco.
imagem: Sérgio Aires

Nos teus dedos nasceram horizontes

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.

Eugénio de Andrade