terça-feira, setembro 21

aquilo de sentir muito


ainda há dias jurava a pés juntos, jurava é só uma maneira de dizer, que eu não gosto de juras, mas dizia-te com a alma inteira que não são as flores que correm atrás das borboletas. de qualquer forma, eu estava quieta. estou quieta. e as flores não param de voar. já não sei mais que faça. por isso, agora, sou eu a pedir-te que penses comigo. em voz alta, novamente, está bem? só para que soe verdade. para que não pareça eu a imaginar. recapitulemos: aquilo do amor. do amor não. que exagero. aquilo de sentir muito. prontos, está bem: as emoções, o teatro onde decorrem: o corpo. nada a ver com a alma. nada. um beijo a pousar na pálpebra dos olhos. muito suave. e o efeito disso no mundo. faz de conta. como se estivessemos a brincar com as palavras. eu sempre achei que podíamos brincar com elas. agora não. nem pensar. acendem-se. inventamos palavras e depois acontecem-nos. nunca perguntes: como são os teus dias? se não quiseres mesmo saber. e a pessoa tem mesmo de existir. não vale imaginar. é que um dia acordas com essa pergunta nos lábios, como se fosse uma urgência. até as palavras cruzadas me fazem impressão, agora. não as cruzo mais. juro que não. juro é só uma maneira de dizer, já sabes.
novos paradigmas. é sempre assim. um cientista - os cientistas sociais, por exemplo - desenvolvem teorias, correntes. e, depois, vem alguém e diz que aquilo tudo já não é verdade. epistemologia pura. mas faz-me mais impressão quando sou eu própria a desenvolver teorias, algumas, cristalizadas em convicções, fundas, até, e, depois, num ápice, já nada é verdade. mais grave: nem sequer percebo como acontece. como estou para aqui a sentir muito a sentir tudo incrédula, mais incrédula do que um ateu em deus. e mais quieta do que um barco em terra. sim, porque agora já não é seguro dizer que as flores estão quietas.
voltemos ao início: aquilo do amor. do amor não. que exagero. aquilo de sentir muito. falavas-me das memórias pelas ruas de granito, à beira rio e das saudades e eu dizia-te que sim, as saudades, que percebia bem. e, afinal, mais uma vez, procurei dentro dentro de mim, fora de mim e nada. das minhas saudades sem memória, não entendo nada. das tuas sim, são povoadas. na história universal das saudades nada remete para que se sintam saudades assim. nenhum link para essa janela.
sabes que mais? vamos parar aqui esta conversa. estou furiosa com as flores e comigo e com com Bach. ah! como estou furiosa com Glenn_Gould_Bach_sinfonia_no_2_in_C_minor.
as palavras acendem-se. acontecem-nos. e as flores andam por aí atrás das borboletas como se nada fosse. é tão absurdo que, hoje, não te consigo explicar mais nada. sinto muito. só isso.
imagem: Leila Pugnaloni

segunda-feira, setembro 20

a noite pede música

Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio


II
Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio
há uma ave onde este texto se apoia.
fecho os olhos, e o poema traz para este lugar
o búzio dos cofres.

escrevo em filigranas de ar
secretas harpas de sombras
onde as primeiras letras ousam pousar.
durante anos treinei o lúmen do coração
em cântaros de sol subindo os primeiros degraus

depois habituei-me à confidência das aves
pousada na inteligência dos bosques
movidos a vento e água,
acácia entre mãos

por último a ciência da respiração
no sumo das auroras

Maria Azenha in de amor ardem os bosques, poesia, 2010

de amor ardem os bosques I


A solidão era eterna
e o silêncio inacabável.
Detive-me com uma árvore
e ouvi falar as árvores.

Juan Ramón Jiménez





[depois do título - de amor ardem os bosques - é este o poema que se lê. na página anterior, assinala-se que o meu livro é o número 13 de uma tiragem de 250 exemplares. sorte.
é este o livro de poesia pelo qual ando apaixonada. a desfolhá-lo num e noutro canto da casa, na rua, num e noutro passeio, na minha memória, como se fossem regressos. ando grata, também. ao leitor silencioso que uma noite resolveu quebrar o silêncio para me falar deste livro. só ainda não lhe agradeci - um obrigada electrónico, ao menos - porque apaguei o e-mail. ando, também, um pouco menos ignorante. agora sei quem é Maria Azenha. um templo de palavras. vénia.

espanto, silêncio, paixão. só que num novo abecedário. como se antes
ninguém soubesse de que ardem os bosques]

domingo, setembro 19

a noite pede música

A génese dos heterónimos de Pessoa por Pessoa

Lisboa, 13 de Janeiro de 1935

Meu prezado Camarada:
Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.

[...]

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.
Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e cousas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro – os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.
Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas cousas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as cousas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do Chevalier de Pas... Cousas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida – ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura – cara, estatura, traje e gesto – imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto, vejo... E tenho saudades deles.

(Em eu começando a falar – e escrever à máquina é para mim falar –, custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz.)

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

Quando foi da publicação de Orpheu, foi preciso, à última hora, arranjar qualquer cousa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos – um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão...

Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos. Se há porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido – estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido –, diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!
[...]

Fernando Pessoa

in Fernando Pessoa Quando fui Outro,Luiz Ruffato, Editora Objectiva, 2010

imagem: António Costa Pinheiro

a noite pede música

Saudades

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência.

Clarice Lispector
imagem: Silvia Lorenzo

Book of Love

[...a pensar na Adelaide e no João...íssimas felicidades hoje, amanhã e pela vida fora...]

sábado, setembro 18

Eu gostava da minha casa na lua

Eu gostava da minha casa na lua, e coloquei-lhe uma lareira e um jardim no exterior (o que é que floresceria e cresceria na lua? Tenho de perguntar a Constance) e ia almoçar no ...meu jardim na lua. As coisas na lua eram muito brilhantes, e de cores estranhas; a minha pequena casa seria azul. (...) na lua falávamos uma língua suave, líquida e cantávamos à luz das estrelas...

Shirley Jackson

imagem: Leah Piken Kolidas

[depois claro que ando de muletas ;)]

O amor, quando se revela

O amor, quando se revela...
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p' ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.

Fernando Pessoa

imagem:Ursula I Abresch

sexta-feira, setembro 17

a noite pede música

Susannah McCorkle por Carlos Azevedo


[...] escrever sobre o quê?

Optei por escrever um curto texto sobre uma das minhas grandes paixões: a saudosa cantora Susannah McCorkle. Poucas cantoras me acompanharam tanto nos últimos anos como McCorkle: tenho todos os discos de estúdio que gravou, bem como as colectâneas publicadas pelas suas editoras, e raramente fico mais do que um dia sem ouvir pelo menos um; frequentemente, ouço diariamente mais do que um, ou passeio por vários.

The People that You Never Get to Love, de 1981, foi o primeiro disco de McCorkle que comprei, quando frequentava a universidade, nos anos 90 - o jazz era já, até mais do que hoje, o género musical que mais interesse me suscitava. A voz de McCorkle, apesar de ser um contralto extremamente sensual, era um instrumento modesto, sem grande amplitude, mas como o seu ídolo, Billie Holiday, McCorkle sabia retirar dela o máximo, através de ligeiras modulações e do enfase dado a certas palavras - ninguém interpretava uma letra com a precisão de McCorkle.

Susannah McCorkle (1946-2001) nasceu em Berkeley, na Califórnia, onde passou a infância e a adolescência. Estudou Literaturas Modernas na prestigiada Universidade da Califórnia. Nos anos 60 viajou para a Europa, onde viveu alguns anos. Em França apaixonou-se pela voz de Billie Holiday, cantora que passou a emular, ouvindo os seus discos e imitando o seu estilo – haveria de criar a sua própria voz, mas Lady Day seria sempre uma referência. Gravou os primeiros discos em Londres, tendo regressado aos Estados Unidos no final dos anos 70. Fixou residência em Nova Iorque, onde viveu até decidir por fim à própria vida, a 19 de Maio de 2001. Ao longo da sua carreira gravou 17 discos, alguns dedicados integralmente a um compositor ou letrista (Harry Warren, E. Y. Harburg, Leo Robin, Johnny Mercer, Cole Porter, Irving Berlin, George Gershwin). A música brasileira está presente em muitos dos seus discos, e é absolutamente fascinante ouvi-la cantar em português, sem sotaque, sendo quase sempre imperceptível que não se trata de uma cantora brasileira.

Enquanto escrevo, ouço Sabia, integralmente composto por canções brasileiras, gravado por McCorkle em 1990, e penso nas palavras sábias de Agustina Bessa-Luís: «Tanta coisa o naufrágio do tempo deixa na praia onde andávamos de pés nus, sem nos magoarmos. Magoamo-nos depois, no cristal das ondas altas.»

Carlos Azevedo

[um texto que adorei ler e fui buscar AQUI]

Cineliterário de volta, com Camille Claudel

após as férias, o Cineliterário está de regresso à Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão. hoje, às 21 e 30 horas, como habitualmente, lá estaremos, desta vez, para ver A Paixão de Camille Claudel.
o livro sobre o qual, depois do filme, incidirá o debate é a apaixonada obra de Anne Delbée, da Editorial Inquérito. e, como sempre, Cláudia de Sousa Dias a fazer as honras da casa...

mais outono em aguarela



[mais outono em aguarela. sons tons que nos acolhem e aquecem onde, às vezes, o sol de verão não chega]

imagem: Miguel Levy

[...acabei de o descobrir AQUI]

porque o outono está a chegar...

[um novo caminho musical que estou a gostar de descobrir...]

coisas de fada - [livros para a Guiné]

a Mafalda - já sabem - é uma fada. e, agora, como não pode estar connosco todos os dias, manda e-mails. o último diz assim:

[...] hoje peço-vos um livro. Um livro para a Guiné. Estou a começar a colaborar com a Acção para o Desenvolvimento (http://www.adbissau.org/adbissau/index.htm), que faz um trabalho meritório na Guiné-Bissau, sobretudo a nível de educação. Como devem imaginar, as carências são sempre muitas. Algumas delas têm a ver com a leitura. Leiam o ficheiro em anexo e acessem o site da associação que teve a ideia (http://www.afectoscomletras.com/pt/Arquivos.html). Têm lá o contacto da Prof.ª Isabel Levy, para onde podem enviar um livro. É tudo o que vos peço. Se cada um de nós enviar pelo menos um, já somos muitos. E se passarem esta campanha nos vossos locais de trabalho, pelos vossos amigos, nas escolas onde sei que alguns trabalham, seremos muitos, e os livros que eles receberão mais ainda. É assim que podemos ir mudando o mundo, um bocadinho de cada vez.

Vamos colaborar? Assim não se quebra a corrente da partilha... Conto com cada um de vocês! Depois digam-me que livro enviaram com todo o carinho! :)
Um abraço cheio de saudades, da vossa sempre amiga, Mafalda.

...ora digam lá que não são coisas de fada... :)

quinta-feira, setembro 16

às vezes tenho medo...


Às vezes tenho medo de esquecer tudo:

a casa onde nasci, o recreio

da escola, essas vozes

que lembram um copo de água

no Verão.


Jorge Gomes Miranda

o vento encantado, parou


[uma magnífica iniciativa, esta, de pedir a pintores para pintarem pára-ventos. lá, onde estive, na praia, estava o pára-vento pintado pela minha querida Catarina Machado. tamanha energia deixou o vento encantado. parado. e a mim também. parabéns. muitos, muitos.]

resumindo

[para a minha irmã]
[resumindo: o meu coração pertence-[te]]

My Everything

[há dias assim...e há pessoas que o adivinham ou lá o que é. obrigada]

quarta-feira, setembro 15

Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa


[para o Filipe porque também gosta de António Lobo Antunes]

Não estou deprimido, não me sobra tempo para depressões, sou apenas um homem, diante do seu espelho interior, que não gosta do que vê. O que poderia ter feito?
Este final de Setembro, o mês dos meus anos, tem-me custado. Perguntas sobre perguntas acerca de mim mesmo e a angústia do sentido da vida e da forma como me relaciono com ela. O que posso fazer, o que devo fazer? Há um livro a sair agora, trabalho noutro: e depois? Que significa isso para mim?
Os meus defeitos aparecem-me de forma muito clara e dolorosa. Não só os meus defeitos: as minhas insuficiências, os meus erros. Sempre imaginei que um livro resgatava tudo: não resgata. E no entanto continuo a escrever, como se esse acto contivesse em si a minha salvação. Sei bem que chegará um tempo em que apenas os livros hão-de contar porque eu, enquanto pessoa, não tenho importância alguma, às vezes nem para mim mesmo. Vou-me olhando de forma cada vez mais distanciada e sem indulgência. A impressão, melhor: a certeza de haver falhado. O quê? Não estou deprimido, não me sobra tempo para depressões, sou apenas um homem, diante do seu espelho interior, que não gosta do que vê. O que poderia ter feito? O que deveria ter feito? Esta permanente tortura que a gente disfarça. A ideia recorrente que aquilo, quer dizer que a única coisa que a vida nos dá é um certo conhecimento dela que chega tarde demais, sempre tarde demais. Grandes cães pretos que se entredevoram dentro de mim. Estas crónicas têm-se tornado, cada vez mais, um itinerário paralelo aos livros. Do ponto de vista da Arte recebi muito mais do que poderia ter desejado e no entanto trago as mãos vazias. Agora dei duas entrevistas, coisa que nunca deveria ter feito. Não ponho em causa a competência ou a honestidade dos jornalistas mas não me revejo em nada daquilo. Não sou assim e não sou capaz de exprimir o que sou. Os livros falam muito melhor do que eu.
O que aparece nos jornais é um estranho e até as fotografias são mentira porque não me pareço comigo. Acho-me cansado desses jogos. Apetece-me desaparecer atrás das palavras, ser de facto o ninguém que sou: um nome apenas, numa capa. E deixar o resto para mim, dado que não tem nenhuma importância colectiva.
Agora é manhã e está sol. Nenhum ruído à minha volta. Se eu pudesse passar a vida a limpo, como diz o Drummond, corrigia quase tudo. Que pena não podermos emendar os dias, o que fizemos, o que somos. Um demónio qualquer distorceu-me tudo ou fui eu quem distorceu tudo? Acabando esta crónica retomo a correcção do livro na esperança de, ao emendá-lo, emendar-me. Fui sempre honesto a escrever. E nas outras coisas? Estarei a ser pretensioso ao julgar que sim?
Agora é manhã e está sol. Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa, escreveu Fernando Assis Pacheco. Tão linda a minha cidade com sol, tão lindo o meu país com sol. Vem aí o outono, o inverno, o cinzento dos dias que desbota para nós. Não me apetece nada o frio, a chuva. Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa. Sinto-o na rua, mesmo com estes vidros baços.

- Está solzinho, que horas são?

perguntava o cego. Estes nossos diminutivos de que tanto gosto. Esta maravilhosa língua tão plástica, tão dúctil. Que sorte escrever em português. Fernão Lopes: esta minguada maneira de meu escrever. Esta minguada maneira de todos nós escrevermos. Nem há vento. Gatos e pombos. Fernão Lopes ou Fernão Mendes Pinto? Acabar a crónica, voltar ao livro na minha minguada maneira. Oxalá o sol continue parado sobre Lisboa, parado sobre mim e eu embalsamado nele. Vestido dele. Afogado nele. Se eu fosse Deus. Se eu fosse Deus era uma carga de trabalhos, não lhe invejo a sorte.
Ontem jantar em casa da minha mãe, com os meus irmãos. Valha-me isso. Umas noites saio dali mais em paz, outras numa guerra imensa comigo, levando todo o passado às costas, que alegra e dói. Nada mudou e tudo mudou: como eu gostava de ser pragmático em lugar de viver numa nuvem cujos limites, aliás, distingo mal. Ou então a nuvem sou eu. Gasoso. De que raio de substância sou feito? Estou a deixar a caneta correr ao gosto dela, sem policiar nada. Que
faça o que lhe apeteça. O sol desapareceu, voltou. Olho em volta, regresso
ao papel. Está solzinho, que horas são? O Júlio Pomar

- Aguenta-te

e há alturas em que é difícil aguentar, Júlio. Que raio de destino, que sina. A voz dele

- Como estás tu?

e a lata de me perguntar isto a mim que nunca sei como estou, nunca soube
como estava.

- Como estás tu?

é a pergunta mais difícil de responder do mundo. Na tropa tínhamos um dentista que era um soldado a quem ensinaram a arrancar dentes. A gente sentava-se numa cadeira de braços, ele pegava num alicate, dizia

- Frime-se

e começava a puxar. Estou a vê-lo tirar um molar ao capelão, com o joelho no peito dele porque o molar não vinha. Para o fim chorava o dentista, chorava o padre, secavam as lágrimas, o alicate avançava de novo

- Frime-se meu capelão

o capelão todo agarradinho aos braços da cadeira, o joelho imenso nas costelas, o barulho arrepiante do dente a quebrar-se, a ceder, a sair e o capelão branco como papel cavalinho a cambalear na parada. Nos momentos de desespero ordeno-me

- Frima-te

e começo a puxar o primeiro dente da alma que apanho, de joelho apoiado em mim mesmo. De modo que é o que vou fazer agora, neste final de Setembro que tanto me tem custado. Ao princípio escrevi: o que posso fazer, o que devo fazer. Pois bem, devo ordenar-me

- Frima-te

e tirar a minha chuva interior a alicate. Se com o capelão deu resultado porque bulas não há-de dar comigo? E depois de jogar aquilo tudo no balde

( - Quer ver o seu dentinho meu capelão?)

ser Deus por uns minutos e parar o sol sobre Lisboa. Ora aí está a solução: parar o sol sobre Lisboa, parar o sol sobre mim

- Frima-te António

até deixar de ter precisão de frimar-me

António Lobo Antunes

terça-feira, setembro 14

A noite desce, o calor soçobra um pouco


A noite desce, o calor soçobra um pouco.

Estou lúcido como se nunca tivesse pensado.

E tivesse raiz, ligação directa com a terra,

Não esta espúria ligação do sentido secundário chamado a vista,

A vista por onde me separo das coisas,

E me aproximo das estrelas e das coisas distantes -

[...]


Alberto Caeiro in Poesia, Assírio & Alvim, 2001

a noite pede música

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,

Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.


Há muitas coisas que eu quero ver.


Peço-Te que sejas o presente.

Peço-Te que inundes tudo.

E que o teu reino antes do tempo venha.

E se derrame sobre a Terra

Em primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Se você não pode amar, não ame;


Se você não pode amar, não ame; seja simples, seja humilde, faça calmo o seu trabalho, e deixe o resto. O amor é uma criação de beleza, como a pintura e a música; reserva-se a raros ser Ticiano ou Greco ou Mozart ou Bach; reserva-se a raros o privilégio de amar.

Agostinho da Silva in Sete Cartas a um Jovem Filósofo – Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro”, I, V, edição da Ulmeiro, 1990

imagem: Isabel Magalhães

Nomeei-te no meio dos meus sonhos

Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor

Ruy Belo

a noite pede música

domingo, setembro 12

Um homem ético


No centro de todos os olhares que confluem sobre Borges está a figura do notável e ponderado escritor. No entanto – e sem querer entrar com isto nesse requentado jogo do “duplo”, sobre o qual tanto se tem escrito – há outro Borges. Há um Borges que durante mais de oitenta e seis anos percorreu os corredores da vida social sem que ninguém tenha podido injuriar as suas atitudes.
Borges viveu a sua longa vida no quadro de uma constante austeridade. Habitou sempre em casas de classe média e, nos últimos quarenta anos - cerca de metade da sua vida – conviveu com a mãe no modesto apartamento de três divisões da Rua Maipú 994. Os Borges não eram uma família rica, embora nunca tivesses passado necessidades. Não eram latifundiários nem fazendeiros e não viviam de grandes rendimentos. Georgie começou a trabalhar de modo regular depois da sua segunda viagem à Europa, em 1927, quando foi admitido no diário La Prensa, e entregou-se depois, para ganhar a vida, a uma grande quantidade de tarefas, sempre ligadas à actividade literária. Foi secretário de redacção das revistas Obra e Anales de Buenos Aires, entre outras, trabalhou na Biblioteca Municipal Miguel Cané durante mais de sete anos, deu lições e conferências, foi professor na Universidade e escreveu uma infinidade de prólogos e textos com fins comerciais. São exemplos disso o trabalho que redigiu com Bioy Casares para a promoção do leite coalhado de La Martona ou o folheto que preparou para a companhia Varig a fim de salientar as virtudes turísticas do seu país.
Em matéria de alimentação, era sumamente austero: preferia um bom prato de arroz com queijo e prescindia, em geral, de bebidas alcoólicas. Quando bebia, nunca ia além de um copo de vinho. Gostava imenso de queijos. Quanto ao vestuário, era sóbrio e clássico; costumava usar fato e gravata e evitava as corres berrantes. Não teve automóvel e servia-se dos transportes públicos: o carro eléctrico, o metropolitano ou o autocarro. Também viajava, com frequência, de taxi. Durante os dezassete anos em que foi director da Biblioteca Nacional – nessa época, na Rua México – ia a pé para o local de trabalho, quer à ida, quer à volta, e nas viagens ao interir do país optava pelo comboio.
Nos seus últimos anos, quando era solicitado para uma infinidade de actividades e os seus rendimentos eram já importantes, confiou a gestão do seu dinheiro a terceiras pessoas e nunca soube, ao certo,quanto possuía. Em todos os momentos os seus interesses passaram sempre por questões literárias.
Alejandro Vaccaro in Fotobiografia de Jorge Luís Borges, pag. 170, Teorema

sábado, setembro 11

Sintó


Quando nos aniquila o infortúnio

o que nos salva por um segundo

são as infímas aventuras

da atenção ou da memória:

o sabor de um fruto, o sabor da água,

esse rosto que um sonho nos devolve,

os primeiros jasmins de Novembro,

o anseio infinito da bússola,

um livro que julgávamos perdido,

o pulsar de um hexâmetro,

a breve chave que nos abre uma casa,

o cheiro de uma biblioteca ou do sândalo,

o nome antigo de uma rua,

as cores de um mapa,

uma etimologia imprevista,

a lisura da unha limada,

a data que prócuravamos,

contar as doze badaladas obscuras,

uma brusca dor física.


Oito milhões são as divindades do sintó

viajando pela terra, secretas.

Esses modestos númenos tocam-nos,

tocam-nos e deixam-nos.

Jorge Luís Borges in Obras Completas, Editorial Teorema, 1989

A verdade


A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruina-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida.

Franz Kafka, in Conversas com Kafka

a noite pede música

sexta-feira, setembro 10

Arca D´Água


Há nomes mágicos, dizias tu, falando-me de lugares, pessoas, coisas: berlinde, Sara, Abril, concha ou jardim. Eu acrescentava: arca d`água, lembrando-me de um parque, altos plátanos, a continental cidade do Porto, azulejos amarelos entre o granito enegrecido pelos fumos.
As «ilhas» fugiam, numa paisagem de corredores estreitíssimos, celhas com a roupa da barrela, crianças e galinhas esgravatando a terra, humidade onde crescia o bolor e trepavam cogumelos. Arca d`Água ficava longe do centro e do rumor dos cafés. Alguém chorava junto a um dos plátanos.
Era um lugar de encontros clandestinos onde se trocavam pequenos jornais e palavras a meia-voz; onde se inventava a esperança desses dias. […]
Há nomes mágicos, insistias. Eu voltava a falar-te na Arca d´Água, como se pudesse, com qualquer abracadabra, atrair o espírito do lugar, o génio da lâmpada, o «abre-te Sésamo» para, desta vez, sair da caverna e ver a Luz.
Na ampla praça os plátanos moviam-se num soneto de Sena. As lâmpadas acendiam-se mais perto, rasgando o nevoeiro que rosnava nos telhados e já chegava às soleiras das portas. Era outro Dezembro, outra praça, outra vontade. […]

Eduardo Guerra Carneiro in Colectânea de Poesia sobre o Porto, Dom Quixote, 2001

imagem: Teresa Teixeira

[para ti, R., com toda a ternura de que sou capaz.
hoje.]

a noite pede música

[.....................................]

quinta-feira, setembro 9

Zaclis Veiga - luz, linha, papel

[ adoraria estar lá de corpo e alma. estarei de alma. muito de alma. com a alma inteira, nesta exposição da minha muito querida amiga Zaclis.
ficarei aqui, olhando pelas janelas que me abriste... sentindo muito. sentindo tudo.
e agradecendo a deus o cruzamento dos nossos caminhos e a árvore, aqui ao lado, que fizemos nossa ]

Os trabalhos de Zaclis revelam sua profunda intimidade com a luz, adquirida pela prática da fotografia – forma de expressão constante da artista.
Fotografou trabalhos feitos com dobraduras em papel, e, a partir do convite feito pela Secretaria Municipal de Esporte e Cultura para mostrar em Castro as fotos e os desenhos feitos em nosso atelier, pesquisou elementos que pudessem remeter à cidade e, assim, escolheu a partitura impressa da valsa “Vem”, de Bento Mossurunga. A partitura adquire, então, a função de suporte para novas experiências. Segundo Zaclis , “a sonoridade da canção de Mossurunga remete a idéia de vôo” e é por isso que recorta secções em forma de v nos papéis dobrados.
Ou seja, da simples proposta do desenho de observação das dobraduras do papel, Zaclis foi além dos contornos das formas. Seu olhar buscou os espaços vazados, registrando em nanquim sobre o branco do papel, a apreensão daquilo que já reside em sua essência: luz, clareza, objetividade.

Leila Pugnaloni
Agosto de 2010

quarta-feira, setembro 8

o Tarot de Tiago Taron

o resto do jogo está AQUI.
hoje, em Lisboa. inauguração: das 19 às 22 horas. até 1 de Outubro.
Tiago Taron na Galeria Bernardo Marques - Rua D. Pedro V, 81

Willow Weep for Me

II Soneto para Cesário


Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas


De uma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.

Dinis Machado
imagem: António Henriques

terça-feira, setembro 7

Blue Angel [íssimo]

[dedicado ao Prof. Funes... um ataque de ternura que nem eu própria sei explicar ;)]

Um eléctrico chamado desejo

[clicar na imagem para aumentar]

«A peça – que é já um clássico da dramaturgia do século XX e legitimou Tennessee Williams (1911-1983) como um dos maiores autores norte-americanos – retrata o confronto entre os valores tradicionais dos Estados norte-americanos do sul e o materialismo agressivo da América moderna.

A história é conhecida e tem sido profusamente encenada: Blanche Dubois, uma frágil e solitária mulher sulista que perdeu já o fulgor da juventude e tudo o resto que tinha, vai visitar a irmã, Stella (Lúcia Moniz), que vive num bairro pobre de Nova Orleães, acabando por entrar em confronto com o marido desta, Stanley Kowalski (Albano Jerónimo), um homem rude que lhe provoca simultaneamente desejo e repulsa.

Encenada por Diogo Infante, director artístico do D. Maria II, Alexandra Lencastre volta a pisar um palco após 12 anos de ausência, vestindo a pele de uma mulher de meia-idade, uma mulher em queda, que não quer ser exposta à luz «impiedosa» das lâmpadas e que afirma: «Eu, às vezes, digo umas mentirinhas. Mas afinal de contas, o encanto de uma mulher é 50 por cento de ilusão (…) Eu não quero realismo, quero magia. Às vezes, falseio um bocadinho a verdade, digo o que deveria ser a verdade».

Sobre a escolha da actriz para protagonizar esta peça, diz Diogo Infante que «era a personagem ideal» na altura certa.

«A Blanche é certa para a Alexandra, porque ela está numa fase da vida, como mulher e como actriz, em que atingiu um ponto de maturidade que lhe permite enfrentar uma personagem com a dimensão da Blanche, uma dimensão quase mítica, porque é uma personagem riquíssima, cheia de matizes, de contrastes, de ambiguidades e que só uma atriz com perfeito domínio da sua técnica e do seu ‘métier’ é que pode atacar de uma forma segura», defendeu.

«Tratou-se de conciliar duas vontades: por um lado, proporcionar à Alexandra um texto e uma personagem que a desafiasse e, por outro lado, eu poder rever um autor fantástico», disse o encenador.

Os atores José Neves, Paula Mora, André Patrício, Estêvão Antunes, Marques d’Arede e Sofia Correia completam o elenco desta peça, que estará em cena na sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II até 31 de Outubro, de quarta-feira a sábado às 21h30 e ao domingo às 16h.»

Fonte: Lusa / SOL
[mais uma "coisa" para rumar a sul :)]

segunda-feira, setembro 6

a noite pede música

A boca


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade

Hobbits e outras músicas

Entrevista com Marc Augé

«Marc Augé: [um dos antropólogos que mais gosto de ler] afirma:
"El mundo digital construye la ilusión de conocer todas las respuestas"
El antropólogo francés dio una conferencia sobre identidades virtuales y literatura, en el Malba, en la apertura del Festival de Literatura de Buenos Aires.»

[e eu, tanto tanto, queria tanto estar lá...]

Um barulho que se mantém enquanto alguém o lê

[...]
Os jornais, por via das notícias, produzem um barulho fixo. Um barulho que se mantém enquanto alguém o lê. Mas na notícia acontece isto:os sofrimentos individuais e as alegrias íntimas desaparecem, tudo se torna propriedade colectiva: o jornal como teoria geral da inexistência do indivíduo. Só existe pessoa-acontecimento se existir pessoa-espectador: a privacidade absoluta, verdadeira, a individualidade pura, não são acontecimentos, são não-acontecimentos, isto é, à letra: a individualidade (a de zero espectadores) não acontece. Quase que se poderia afirmar que a existência individual e privada será uma invenção, precisamente individual. Como provar a existência de momentos puramente íntimos, não testemunhados por nínguém, a não ser pela consciência do próprio? Não podemos provar, só acreditar. Acredito que o outro existe enquanto indivíduo, acredito: crença; não sei: não é um conhecimento. Mas de mim próprio sei: conheço os meus momentos individuais, e apenas posso esperar que os outros acreditem na existência de tal coisa. Toda a parte da nossa vida que é testemunhada constitui o modelo do jornal: vejam o que acontece ou aconteceu. E só existe na História. E o que fica de fora são os indivíduos. [...]

Gonçalo M. Tavares in Um Homem: Klaus Klump, pag. 115, Caminho, 2003
imagem: Crete. Chania. 1962. Man reading newspaper. © Costa Manos/Magnum Photos

pois...

I'll be seeing you

[muito alto, pf.]

domingo, setembro 5

a ver se me sai esta impressão...

faltam 4 dias. é já dia 9 em Lisboa. inauguração: das 19 às 22 horas. até 1 de Outubro.
Tiago Taron na Galeria Bernardo Marques - Rua D. Pedro V, 81

vou finalmente vê-los. olhos nos olhos. a ver se me sai esta impressão de que são imaginados...

Súmula

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

[...]

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder in «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001

imagem: Carla Salgueiro

sábado, setembro 4

café e cigarros [e a cena dos primos]

[a rever. íssimo.]

Quinta das Lágrimas


Fui há muitos anos à Quinta das Lágrimas, onde se diz que Inês foi morta. Lembro-me que se transpunha o rio atravessando uma ponte de madeira cujas tábuas gemiam e ba­loiçavam. Parecia uma ponte militar, para assédio à cidade.

A Quinta das Lágrimas esteve para ser comprada pelo meu pai quando ele veio do Brasil e se deixava sugestionar pelas lendas históricas e coisas famigeradas de glória antiga. Havia uma enorme árvore da cânfora nos arredores da casa, que era como uma estufa, com muitos vidros e caixilhos descascados. Numa caleira de pedra corria a água. sobre um líquen vermelho. Dizia-se que era «o sangue de Inês». Como disse, a moradia era decepcionante, um pouco ao estilo dos chalés de Sintra em que veraneavam os banqueiros do século XIX e os ricos-homens dos cafezais de S. Tomé. Esta­vam na moda os jardins de Inverno, e nesse tipo de casas havia pavilhões envidraçados onde se tomava chá e bebia água de sifão. Mas não posso garantir que na Quinta das Lágrimas fosse assim.

Era numa tarde muito quente, em Maio. O calor de Maio, em Coimbra, traz no coração o perfume da tília em flor; desde o alto do Jardim da Sereia ele abate-se até ao fundo da cidade como um lenço abafante e suave. É um calor e um perfume que deprimem. Acompanham os estudantes quando eles revêem a matéria, fumando com gesto irritado e deixando o olhar parar nas varandas da frente onde outros estudantes mourejam nas páginas das sebentas.

Mas, voltando à Quinta, que está num vale sem horizontes, que seriam dantes os fecundos campos de regadio, com manantes a visitar-lhe os muros para roubar capôes e melancias: estranhei-a, de tão deserta. Não havia um só visitante, ou um morador; e não vi também guardião. Só um cãozito sujo, de pêlo em que a lama secara, me lançava de longe alguns ladridos curtos, sem cólera, por simples obrigação.

A casa não tinha cortinas nem vestígios de ser habitada. Havia, em volta, alguns canteiros onde crescera a beldroega e umas açucenas tão altas que podiam chamar-se o bordão de S. José. Na parede, uma mancha de água que se infiltrara pelo telhado parecia a sombra de uma mulher; uma mulher alta e corpulenta, que risse, os ombros deitados para trás. Ouvi, ou pareceu-me, um arrastar de passas, mas durou pouco; tudo ficou silencioso outra vez. Porém, quando eu já me afastava vi, sentada numa velha cadeira de verga, uma senhora ainda nova, com uns óculos na mão direita e que olhava para mim com uma frieza condescendente. Se era a dona da casa era uma excêntrica, porque estava vestida com uma saia cor de ferrugem, tendo por cima um vestido verde, aberto, e um cinto dourado. Os cabelos usava-os soltos e eram de um belo loiro carregado com reflexos mais claros sobre as orelhas. O rosto era rosado, mas notava-se que usava carmim, muito fino e brilhante. Estendeu as pernas com um movimento preguiçoso; estavam nuas e eram tão brancas como o ventre das trutas. Até certo ponto parecia muito uma lavradeira abastada, dessas do Alto-Minho que se descalçam ao fim das tardes de Verão para ir regar, [...]

AGUSTINA BESSA LUIS, “Adivinhas de Pedro e Inês”, GUIMARÃES & C.a, EDITORES, 1983, pp. 7, 8

a noite pede música: esta

tecendo o sonho

[e por falar em fadas...o blog da Mafalda. da minha querida Mafalda.
tanto, tanto, tanto. espreitem. ora espreitem...como se tecem os sonhos por aqui]

sexta-feira, setembro 3

a noite pede musica [daqui a pouco]

A fada Oriana


Era uma vez uma fada chamada Oriana. Era uma fada boa e era
muito bonita. Vivia livre, alegre e feliz dançando nos campos,
nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias.
Um dia a Rainha das Fadas chamou-a e disse-lhe:
- Oriana, vem comigo.
E voaram as duas por cima de planícies, lagos e montanhas. Até
chegarem a um país onde havia uma grande floresta.
- Oriana - disse a Rainha das Fadas -, entrego-te esta
floresta. Todos os homens, animais e plantas que aqui vivem,
de hoje em diante, ficam à tua guarda. Tu és a fada desta
floresta. Promete-me que nunca a hás-de abandonar.
Oriana disse:
- Prometo.
E daí em diante, Oriana ficou a morar na floresta. De noite
dormia dentro do tronco de um carvalho. De manhã acordava
muito cedo, acordava ainda antes das flores e dos pássaros. O
seu relógio era o primeiro raio de sol. Porque tinha muito que
fazer. Na floresta todos precisavam dela. Era ela que prevenia
os coelhos e os veados da chegada dos caçadores. Era ela que regava as
flores com orvalho. Era ela que tomava conta
dos onze filhos do moleiro. Era ela que libertava os pássaros
que tinham caído nas ratoeiras.
À noite, quando todos dormiam, Oriana ia para os prados dançar
com as outras fadas. Ou então voava sozinha por cima da
floresta e, abrindo as suas asas, ficava parada, suspensa no
ar entre a terra e o céu. À roda da floresta havia campos e
montanhas adormecidos e cheios de silêncio. Ao longe viam-se
as luzes de uma cidade debruçada sobre o seu rio.
De dia e vista de perto a cidade era escura, feia e triste. Mas à noite
a cidade brilhava cheia de luzes verdes, roxas, amarelas,
azuis, vermelhas e lilases, como se nela houvesse uma festa.
Parecia feita de opalas, de rubis, de brilhantes, de
esmeraldas e de safiras.
Passou um Verão, passou um Outono, passou um Inverno. E chegou
a Primavera. E certa manhã de Abril, Oriana acordou ainda mais
cedo do que o costume. Mal o primeiro raio de sol entrou na
floresta, ela saiu de dentro do tronco do carvalho onde
dormia. Respirou fundo os perfumes da madrugada e fez uns
passos de dança. Depois penteou os cabelos com os dedos das
mãos a fazerem de pente e lavou a cara com orvalho.
- Que manhã tão bonita! - disse ela. - Nunca vi uma manhã tão
azul, tão verde, tão fresca e tão doirada.
E foi pela floresta fora dançando e dizendo bom-dia às coisas.
[...]
Sophia de Mello Breyner Andressen in A fada Oriana, Figueirinhas

até ao infinito e um pouco mais além

[acordei com o teu sorriso nos meus olhos, meu amor. ainda não fui ver o Toy Story 3 porque me falta a tua mão. e a do mano.

manda um beijo meu à Jessie e volta a dizer-lhe que não és miúda para te esqueceres. que sossegue.

se me aguento, hoje, sem ti dentro do meu abraço, serei uma mulher forte pela vida inteira.

PARABÉNS querida princesa Cisca :)

amo-te muito... até ao infinito e um pouco mais além.

tia marta.]

but you know they´re always there


[só assim como quem diz que os meus... são os melhores do mundo...]

quinta-feira, setembro 2

imagerie cerebral


Venha doutor ensinar-me a distiguir
a emoção do sentimento. Guie-me para que a mente
se torne clara, o espírito lúcido e a alma
- ah, talvez possamos dispensar a alma.
Enquanto espero ficarei escondida no armário
entre a roupa de verão e a de inverno
terei calor de um lado, termerei do outro,
mas no centro o coração estará a boa temperatura,
a uma tépida esperança. Porém se demorar a imobilidade
mudará as estações da roupa, as fases da lua. Esta atracção
por si é uma maré viva, uma maré cega se não vier
ensinar-me o que é a emoção e o sentimento. Faremos
uma ressonância antes do chá, uma sonda perfurando
o insondável. Venha doutor dizer-me se sinto fome, se
tenho sede, ou se não passo de uma ilusão dos sentidos.

Rosa Alice Branco, in Soleterar o Dia, Edições Quasi
imagem: Alexander Klevan

my one and only love

a matéria prima de um país

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que
é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória
política, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis
que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média
e beneficiar alguns.
-Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços,
ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada
finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro
e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas,
mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português,
apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.
Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTICE PORTUGUESA' congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte... Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco,
nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa ? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror ? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados!
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos: Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável,
não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa ?... medite.

Eduardo Prado Coelho
[encontrei-a aqui, no meio de outras crónicas que guardo religiosamente.
tanta lucidez até doi. e faz-me tanta falta encontrá-lo no Público
outro registo AQUI.]

Desconver [sax] por aí

poesia, muita música e - fundamental - sentido de humor.

A mulher certa

O epílogo de A Mulher Certa incide, quase todo, nas mudanças verificadas pela evolução da situação geopolítica no Continente Europeu e Americano, com a eclosão da Guerra Fria. Nesta fase do romance é explorada a forma de vida de um proletário, dentro dos diferentes sistemas político-económicos, onde narrador e interlocutor acabam por concluir que nenhum sistema é perfeito. Desde a arbitrariedade manifesta na prepotência do Estado ao interferir na esfera privada da vida do cidadão, nos regimes ditos comunistas, testemunhada pelo narrador, até à implacabilidade da selva humana presente nos sistemas liberais das grandes metrópoles do Ocidente, com as ruas controladas pelos gangs, pelos cartéis a liderar o tráfico de droga e humano ou, com a vida dos cidadãos e as instituições controladas pelos abutres que comandam a especulação financeira.
O local da acção é Nova Iorque no final dos anos 1970, altura em que a Cidade começa a ser dominada pelas máfias locais. Lajos, ou Ede, já não trabalha como baterista, em clubes nocturnos, como no tempo em que era amante de Judit. É apenas um barman. Hoje, a prioridade é a estabilidade, garantida pela segurança que lhe confere um emprego de salário modesto mas que lhe permite ter um automóvel, sustentar a casa e a família sem grandes luxos. O mergulho no passado dá-se, desta vez, ao balcão do bar, onde serve bebidas, em conversa com um cliente. Lajos recorda a mulher húngara que foi sua amante em Roma e gastou os últimos tostões com ele, até à morte.
É, também, abordada a questão da literatura e da pseudo-literatura e o oportunismo vazio dos escritores que escrevem, ou escrevinham apenas para ganhar dinheiro vendo na escrita nada mais do que um negócio como qualquer outro. Ou seja a questão do fenómeno marginal a que está sujeita a Grande Literatura.
O próprio Lajos, não deixa de se submeter a esta lógica materialista, embora noutra vertente: à semelhança dos escritores que deixam de o ser para escrever em função do que as massas ou um determinado regime político desejam ver escrito, Lajos também se vende. Neste caso, tornou-se gigolo profissional para elevar um pouco os rendimentos familiares. Prostitui o corpo como alguns prostituem o intelecto ou a escrita, desvirtuando-a, ao esvaziá-la de conteúdo ao escrever apenas para proporcionar a evasão ou o simples voyeurismo do leitor.
Um dia, um encontro casual ao balcão do bar onde trabalha dá-nos a conhecer em que se transformou Péter. Pesar de já não ter a fortuna colossal de outros tempos, mantém a atitude de um grande senhor, confirmando a opinião de Lázar de que “a cultura é um acto reflexo”. Péter é um grande senhor, mas de uma outra era, que não consegue nadar nas águas turbulentas do capitalismo selvagem da actualidade.
Fala-se ainda de consumismo. Dos bens adquiridos compulsivamente para exibição de status, do crédito desgovernado. De como apesar do poder de compra “o proletário é ainda proletário e o senhor ainda senhor”.
No entanto, sob um determinado prisma, as coisas inverteram-se: a produção é feita em, larga escala para as massas e não para uma élite ou um grupo mais ou menos restrito de consumidores. Por isso, O senhor mata a cabeça para me fazer a mim, proletário, consumir. (Lajos)
As últimas cenas são protagonizadas por Péter e Lajos, os dois homens mais importantes na vida de Judit: um que lhe proporcionou a mudança de estilo de vida, o portal de acesso a um mundo diferente, que antes apenas entrevia; e o outro, aquele que lhe proporcionou o prazer no sentido mais absoluto do termo. Ambos partilham a memória da mulher a cuja intimidade acederam, um dia. A conclusão a que chegam é a de que o amor é a única força motriz susceptível de colocar homens e mulheres em pé de igualdade e cuja lembrança é capaz de unir os seres mais improváveis. Uma força absolutamente revolucionária na sua essênncia. E, por isso mesmo, temida.

Caminhávamos como dois velhos amigos numa intimidade profunda que só pode existir entre dois homens que estiveram na cama com a mesma mulher (...). E esta é, na verdade a verdadeira democracia.

Claudia de Sousa Dias

[quem quiser ler tudo tem de se deslocar aqui. vale sempre a pena ler pelos olhos da Cláudia. eu, confesso, já sentia falta de me demorar por lá]

quarta-feira, setembro 1

a noite pede musica [daqui a pouco]

vamos à aula: What is Jazz?

[um dos músicos portugueses que mais gosto de ouvir: Laurent Filipe]

post-it [perfumado] para a Graça


o Verão já vai no fim, eu sei. mas, só agora, descobri esta versão. e, claro, lembrei-me de ti. e, também tu avolumas as saudades que trago cá dentro. que SAUDADES, Graça!
não é que eu use perfume diariamente, tu sabes. não é que não goste, mas esqueço-me. a maior parte das vezes, esqueço-me do perfume nos pulsos, no pescoço, no ar e saio de casa, como hoje, a cheirar a mim.

e Londres, minha querida, conta-me Londres pelos teus olhos, numa carta longa, longa como as minhas saudades. o certo é que ainda não morri delas, ao contrário das minhas expectativas.

hoje, ao ouvir The last shadow puppets, tentei recordar-me de uma outra música que me deste a conhecer. hoje, diversas coisas me levaram até ti. uma música, um perfume. o teu sorriso acomodado nas minhas recordações. coisas serenas.

de resto, por aqui, o tempo está quente e, às vezes, chove. como nos beijos de cinema. tu sabes.

I've Never Been In Love Before

Se ao menos soubesses

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

ou se ao menos me desses as mãos como quem beija

e não partisses, assim, empurrando o vento

com o coração aflito, sufocado de segredos;

se ao menos percebesses que eram nossos

todos os bancos de todos os jardins;

se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo

que ambos empunhámos na cidade clandestina

Quando as manhãs cheiravam a óleo e a flores

e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;

se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos

para guardar o teu corpo;

se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos

onde o teu rosto se esconde no meu rosto

e a minha boca lembra a tua despedida,

talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer

essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim Pessoa

imagem: Tozé

Jazz e fotografia

para quem gosta de jazz e fotografia. belíssimas imagens. eu adorei perder-me por lá, pelas fotografias de William P. Gottlieb.
[uma sugestão do Caderno de Sociologia ]

e a vossa posição, qual é?


eu, confesso, não gosto muito de ler na cama. quando o faço é porque não consigo mesmo parar de ler o livro e só pararei quando os olhos se fecharem, exaustos. então, a cama é o melhor lugar. e, na cama, a melhor posição para ler é de barriga para baixo. e a vossa qual, é?
[ora leiam este artigo do Guardian, de onde também retirei a imagem]