Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
[...]
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder in «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001
imagem: Carla Salgueiro
domingo, setembro 5
Súmula
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: Herberto Helder, Poesia
sábado, setembro 4
Quinta das Lágrimas
A Quinta das Lágrimas esteve para ser comprada pelo meu pai quando ele veio do Brasil e se deixava sugestionar pelas lendas históricas e coisas famigeradas de glória antiga. Havia uma enorme árvore da cânfora nos arredores da casa, que era como uma estufa, com muitos vidros e caixilhos descascados. Numa caleira de pedra corria a água. sobre um líquen vermelho. Dizia-se que era «o sangue de Inês». Como disse, a moradia era decepcionante, um pouco ao estilo dos chalés de Sintra em que veraneavam os banqueiros do século XIX e os ricos-homens dos cafezais de S. Tomé. Estavam na moda os jardins de Inverno, e nesse tipo de casas havia pavilhões envidraçados onde se tomava chá e bebia água de sifão. Mas não posso garantir que na Quinta das Lágrimas fosse assim.
Era numa tarde muito quente, em Maio. O calor de Maio, em Coimbra, traz no coração o perfume da tília em flor; desde o alto do Jardim da Sereia ele abate-se até ao fundo da cidade como um lenço abafante e suave. É um calor e um perfume que deprimem. Acompanham os estudantes quando eles revêem a matéria, fumando com gesto irritado e deixando o olhar parar nas varandas da frente onde outros estudantes mourejam nas páginas das sebentas.
Mas, voltando à Quinta, que está num vale sem horizontes, que seriam dantes os fecundos campos de regadio, com manantes a visitar-lhe os muros para roubar capôes e melancias: estranhei-a, de tão deserta. Não havia um só visitante, ou um morador; e não vi também guardião. Só um cãozito sujo, de pêlo em que a lama secara, me lançava de longe alguns ladridos curtos, sem cólera, por simples obrigação.
A casa não tinha cortinas nem vestígios de ser habitada. Havia, em volta, alguns canteiros onde crescera a beldroega e umas açucenas tão altas que podiam chamar-se o bordão de S. José. Na parede, uma mancha de água que se infiltrara pelo telhado parecia a sombra de uma mulher; uma mulher alta e corpulenta, que risse, os ombros deitados para trás. Ouvi, ou pareceu-me, um arrastar de passas, mas durou pouco; tudo ficou silencioso outra vez. Porém, quando eu já me afastava vi, sentada numa velha cadeira de verga, uma senhora ainda nova, com uns óculos na mão direita e que olhava para mim com uma frieza condescendente. Se era a dona da casa era uma excêntrica, porque estava vestida com uma saia cor de ferrugem, tendo por cima um vestido verde, aberto, e um cinto dourado. Os cabelos usava-os soltos e eram de um belo loiro carregado com reflexos mais claros sobre as orelhas. O rosto era rosado, mas notava-se que usava carmim, muito fino e brilhante. Estendeu as pernas com um movimento preguiçoso; estavam nuas e eram tão brancas como o ventre das trutas. Até certo ponto parecia muito uma lavradeira abastada, dessas do Alto-Minho que se descalçam ao fim das tardes de Verão para ir regar, [...]
AGUSTINA BESSA LUIS, “Adivinhas de Pedro e Inês”, GUIMARÃES & C.a, EDITORES, 1983, pp. 7, 8
Escrito/editado por Marta 5 Terráqueos
Etiquetas: Agustina Bessa Luís; Escritores
tecendo o sonho
[e por falar em fadas...o blog da Mafalda. da minha querida Mafalda.
tanto, tanto, tanto. espreitem. ora espreitem...como se tecem os sonhos por aqui]
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: blogs que leio
sexta-feira, setembro 3
A fada Oriana

Era uma vez uma fada chamada Oriana. Era uma fada boa e era
muito bonita. Vivia livre, alegre e feliz dançando nos campos,
nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias.
Um dia a Rainha das Fadas chamou-a e disse-lhe:
- Oriana, vem comigo.
E voaram as duas por cima de planícies, lagos e montanhas. Até
chegarem a um país onde havia uma grande floresta.
- Oriana - disse a Rainha das Fadas -, entrego-te esta
floresta. Todos os homens, animais e plantas que aqui vivem,
de hoje em diante, ficam à tua guarda. Tu és a fada desta
floresta. Promete-me que nunca a hás-de abandonar.
Oriana disse:
- Prometo.
E daí em diante, Oriana ficou a morar na floresta. De noite
dormia dentro do tronco de um carvalho. De manhã acordava
muito cedo, acordava ainda antes das flores e dos pássaros. O
seu relógio era o primeiro raio de sol. Porque tinha muito que
fazer. Na floresta todos precisavam dela. Era ela que prevenia
os coelhos e os veados da chegada dos caçadores. Era ela que regava as
flores com orvalho. Era ela que tomava conta
dos onze filhos do moleiro. Era ela que libertava os pássaros
que tinham caído nas ratoeiras.
À noite, quando todos dormiam, Oriana ia para os prados dançar
com as outras fadas. Ou então voava sozinha por cima da
floresta e, abrindo as suas asas, ficava parada, suspensa no
ar entre a terra e o céu. À roda da floresta havia campos e
montanhas adormecidos e cheios de silêncio. Ao longe viam-se
as luzes de uma cidade debruçada sobre o seu rio.
De dia e vista de perto a cidade era escura, feia e triste. Mas à noite
a cidade brilhava cheia de luzes verdes, roxas, amarelas,
azuis, vermelhas e lilases, como se nela houvesse uma festa.
Parecia feita de opalas, de rubis, de brilhantes, de
esmeraldas e de safiras.
Passou um Verão, passou um Outono, passou um Inverno. E chegou
a Primavera. E certa manhã de Abril, Oriana acordou ainda mais
cedo do que o costume. Mal o primeiro raio de sol entrou na
floresta, ela saiu de dentro do tronco do carvalho onde
dormia. Respirou fundo os perfumes da madrugada e fez uns
passos de dança. Depois penteou os cabelos com os dedos das
mãos a fazerem de pente e lavou a cara com orvalho.
- Que manhã tão bonita! - disse ela. - Nunca vi uma manhã tão
azul, tão verde, tão fresca e tão doirada.
E foi pela floresta fora dançando e dizendo bom-dia às coisas.
[...]
Sophia de Mello Breyner Andressen in A fada Oriana, Figueirinhas
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Sophia de Mello Breyner Andresen
até ao infinito e um pouco mais além
[acordei com o teu sorriso nos meus olhos, meu amor. ainda não fui ver o Toy Story 3 porque me falta a tua mão. e a do mano.
manda um beijo meu à Jessie e volta a dizer-lhe que não és miúda para te esqueceres. que sossegue.
se me aguento, hoje, sem ti dentro do meu abraço, serei uma mulher forte pela vida inteira.
PARABÉNS querida princesa Cisca :)
amo-te muito... até ao infinito e um pouco mais além.
tia marta.]
Escrito/editado por Marta 10 Terráqueos
Etiquetas: amor, aniversários, os meus sobrinhos são geniais
quinta-feira, setembro 2
imagerie cerebral

Venha doutor ensinar-me a distiguir
a emoção do sentimento. Guie-me para que a mente
se torne clara, o espírito lúcido e a alma
- ah, talvez possamos dispensar a alma.
Enquanto espero ficarei escondida no armário
entre a roupa de verão e a de inverno
terei calor de um lado, termerei do outro,
mas no centro o coração estará a boa temperatura,
a uma tépida esperança. Porém se demorar a imobilidade
mudará as estações da roupa, as fases da lua. Esta atracção
por si é uma maré viva, uma maré cega se não vier
ensinar-me o que é a emoção e o sentimento. Faremos
uma ressonância antes do chá, uma sonda perfurando
o insondável. Venha doutor dizer-me se sinto fome, se
tenho sede, ou se não passo de uma ilusão dos sentidos.
Rosa Alice Branco, in Soleterar o Dia, Edições Quasi
imagem: Alexander Klevan
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: Poesia, Rosa Alice Branco
a matéria prima de um país
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que
é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória
política, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis
que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média
e beneficiar alguns.
-Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços,
ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada
finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro
e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas,
mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português,
apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.
Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTICE PORTUGUESA' congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte... Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco,
nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa ? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror ? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados!
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos: Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável,
não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa ?... medite.
Eduardo Prado Coelho
[encontrei-a aqui, no meio de outras crónicas que guardo religiosamente.
tanta lucidez até doi. e faz-me tanta falta encontrá-lo no Público
outro registo AQUI.]
Escrito/editado por Marta 7 Terráqueos
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Desconver [sax] por aí
Escrito/editado por Marta 6 Terráqueos
Etiquetas: blogs que leio
A mulher certa
O epílogo de A Mulher Certa incide, quase todo, nas mudanças verificadas pela evolução da situação geopolítica no Continente Europeu e Americano, com a eclosão da Guerra Fria. Nesta fase do romance é explorada a forma de vida de um proletário, dentro dos diferentes sistemas político-económicos, onde narrador e interlocutor acabam por concluir que nenhum sistema é perfeito. Desde a arbitrariedade manifesta na prepotência do Estado ao interferir na esfera privada da vida do cidadão, nos regimes ditos comunistas, testemunhada pelo narrador, até à implacabilidade da selva humana presente nos sistemas liberais das grandes metrópoles do Ocidente, com as ruas controladas pelos gangs, pelos cartéis a liderar o tráfico de droga e humano ou, com a vida dos cidadãos e as instituições controladas pelos abutres que comandam a especulação financeira.
O local da acção é Nova Iorque no final dos anos 1970, altura em que a Cidade começa a ser dominada pelas máfias locais. Lajos, ou Ede, já não trabalha como baterista, em clubes nocturnos, como no tempo em que era amante de Judit. É apenas um barman. Hoje, a prioridade é a estabilidade, garantida pela segurança que lhe confere um emprego de salário modesto mas que lhe permite ter um automóvel, sustentar a casa e a família sem grandes luxos. O mergulho no passado dá-se, desta vez, ao balcão do bar, onde serve bebidas, em conversa com um cliente. Lajos recorda a mulher húngara que foi sua amante em Roma e gastou os últimos tostões com ele, até à morte.
É, também, abordada a questão da literatura e da pseudo-literatura e o oportunismo vazio dos escritores que escrevem, ou escrevinham apenas para ganhar dinheiro vendo na escrita nada mais do que um negócio como qualquer outro. Ou seja a questão do fenómeno marginal a que está sujeita a Grande Literatura.
O próprio Lajos, não deixa de se submeter a esta lógica materialista, embora noutra vertente: à semelhança dos escritores que deixam de o ser para escrever em função do que as massas ou um determinado regime político desejam ver escrito, Lajos também se vende. Neste caso, tornou-se gigolo profissional para elevar um pouco os rendimentos familiares. Prostitui o corpo como alguns prostituem o intelecto ou a escrita, desvirtuando-a, ao esvaziá-la de conteúdo ao escrever apenas para proporcionar a evasão ou o simples voyeurismo do leitor.
Um dia, um encontro casual ao balcão do bar onde trabalha dá-nos a conhecer em que se transformou Péter. Pesar de já não ter a fortuna colossal de outros tempos, mantém a atitude de um grande senhor, confirmando a opinião de Lázar de que “a cultura é um acto reflexo”. Péter é um grande senhor, mas de uma outra era, que não consegue nadar nas águas turbulentas do capitalismo selvagem da actualidade.
Fala-se ainda de consumismo. Dos bens adquiridos compulsivamente para exibição de status, do crédito desgovernado. De como apesar do poder de compra “o proletário é ainda proletário e o senhor ainda senhor”.
No entanto, sob um determinado prisma, as coisas inverteram-se: a produção é feita em, larga escala para as massas e não para uma élite ou um grupo mais ou menos restrito de consumidores. Por isso, O senhor mata a cabeça para me fazer a mim, proletário, consumir. (Lajos)
As últimas cenas são protagonizadas por Péter e Lajos, os dois homens mais importantes na vida de Judit: um que lhe proporcionou a mudança de estilo de vida, o portal de acesso a um mundo diferente, que antes apenas entrevia; e o outro, aquele que lhe proporcionou o prazer no sentido mais absoluto do termo. Ambos partilham a memória da mulher a cuja intimidade acederam, um dia. A conclusão a que chegam é a de que o amor é a única força motriz susceptível de colocar homens e mulheres em pé de igualdade e cuja lembrança é capaz de unir os seres mais improváveis. Uma força absolutamente revolucionária na sua essênncia. E, por isso mesmo, temida.
Caminhávamos como dois velhos amigos numa intimidade profunda que só pode existir entre dois homens que estiveram na cama com a mesma mulher (...). E esta é, na verdade a verdadeira democracia.
Claudia de Sousa Dias
[quem quiser ler tudo tem de se deslocar aqui. vale sempre a pena ler pelos olhos da Cláudia. eu, confesso, já sentia falta de me demorar por lá]
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: blogs que leio, Livros que li
quarta-feira, setembro 1
vamos à aula: What is Jazz?
[um dos músicos portugueses que mais gosto de ouvir: Laurent Filipe]
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
post-it [perfumado] para a Graça
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: amigos, coisas minhas
Se ao menos soubesses
Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;
se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;
se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhámos na cidade clandestina
Quando as manhãs cheiravam a óleo e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.
Joaquim Pessoa
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: Escritores, Joaquim Pessoa, poemas
Jazz e fotografia
Escrito/editado por Marta 5 Terráqueos
Etiquetas: blogs que leio, fotografia, jazz
e a vossa posição, qual é?
Escrito/editado por Marta 6 Terráqueos
Etiquetas: notícias
terça-feira, agosto 31
a caixa

meu querido,
é esta a razão: é transparente como eu e tu, quando nos encontramos e, também, quando nos perdemos. não. o perder não é de nós. é dos outros.
é assim, transparente, porque a procurei assim, exactamente igual aos teus sonhos sem nevoeiro. aqueles, onde há crianças e sons cristalinos, tão limpos e cheios como casas ao domingo.
lá dentro, encontras uma mesa infinita, sorrisos ternos, olhares de espanto e espanta-espíritos coloridos. encontras livros, cravos, memórias sem mágoa, um mar imenso. eu sei que sabes.
e tem uma tampa, para que o aroma e os sabores não percam intensidade.
lá dentro, como podes ver de qualquer ângulo tem, ainda, tudo que te possa fazer feliz. música, um arco íris, palavras e almendrados. um gato? claro que tem um gato. vê bem. tem quadros, cartas e até um cais. o de sempre. porque se gostas de partir - e eu sei que gostas – tens no regresso a tua autenticidade. essa coisa de pertencer a um lugar. um dia, a um coração ou a qualquer vento que te chame.
se olhares com atenção vês, ainda, uma estrela, a infância, t-shirts puídas, uma bola azul, filmes por ver. uma manta e um sofá. coisas simples que te dão chão.
é por isso que é transparente. para veres tudo. intacto e sereno. como gostas.
lá dentro, só não encontras o bem que te quero, porque o bem que te quero não cabe em nenhuma parte do mundo, nem sequer no mundo inteiro.
[quase um ano. e parei para reler. aconteceu-te. creio que te aconteceu, meu querido]
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: amigos, coisas minhas
segunda-feira, agosto 30
Tinha uma luz para voar
Tinha uma luz para voar
Tinha o dom e a dedicação
Para ir mais longe do que tudo
Mas esqueceu-se de que além do brilho
Só há uma oportunidade
Joaquim Castro Caldas in A Mágoa das Pedras
[retirado do blog da Deriva Editores. «Dia 31 se Agosto faz dois anos que Joaquim Castro Caldas, JCC, deixou a dimensão terráquea», lê-se AQUI.]
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: Joaquim Castro Caldas, Poesia, poeta
Tolerância [ups!]

Entre as palavras e as ideias detesto esta: tolerância. É uma palavra das sociedades morais em face da imoralidade que utilizam. É uma ideia de desdém; parecendo celeste, é diabólica; é um revestimento de desprezo, com a agravante de muita gente que o enverga ficar com a convicção de que anda vestida de raios de sol.
Agostinho da Silva in Sete Cartas a um Jovem Filósofo – Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro”, I, VI, edição da Ulmeiro, 1990
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: Agostinho da Silva, Filosofia
com a fabulosa Juliette Binoche
[quero ver. muito. muito. espreitem AQUI]Escrito/editado por Marta 7 Terráqueos
Etiquetas: Cinema, filmes, Juliette Binoche
domingo, agosto 29
Teoria da comunicação
Numa relação do homem com a vida,
E na crença que é necessária,
A todos nós, para estabelecermos um contacto com
Os outros através da memória.
No entanto, nem tudo
Transporta essa verdade;
E para que possamos sentir
Uma experiência alheia, com tudo aquilo
Que o tempo levou, para sempre, no seu curso
Irreversível, teremos de viver cada sentimento como se nos
Pertencesse. Mas também sei que tudo está nas palavras; e que
Elas terão de ser escolhidas, uma a uma
Na mais exacta proporção do humano. Só assim,
Em perfeita concordância com as regras da poesia,poderei descrever,
Cada um dos pormenores do teu rosto, quando a luz
O ilumina, saindo de entre os cabelos que o envolvem,
Como sublime aparição. De facto, todos os adjectivos me parecem pobres para descrever o que és; e nenhum verso poderá
Traduzir a música da tua voz, ou a sua branda ternura
Nos meus ouvidos, nem o riso inesperado que me distrai
Do teu corpo. No fundo, isto podia levar-me a por em causa
O verosímil, e a distinguir entre a realidade vivida,
no instante mais alto do ser, e a imagem que guardamos
quando, em frente do papel nos dispomos a cantá-la.
Talvez
Isto me aproxime dos clássicos,
E da ideia platónica
Da oposição entre o divino e a sombra. No entanto, para
Quem teve nos braços a mulher que, para ele, foi deusa,
Ninfa, a mais bela das amadas, pouco importa a filosofia,
E muito menos a serenidade dos conceitos. O poema terá
De obedecer às imposições do amor;
E um desequilíbrio
De estrofes,
Uma vertigem de rimas,
Uma desordem de
Metáforas,
Fará viver para sempre o que só existe no tempo
De um sentimento que nos pertence,
A mim e a ti, mas
Que estas palavras levarão a todo lado,
Para que não cesse.
Nuno Júdice in O Estado dos Campos, D. Quixote, pag. 153/154
Escrito/editado por Marta 5 Terráqueos
Etiquetas: Nuno Júdice, poemas
sábado, agosto 28
-Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.

"No dia seguinte,logo de manhã, o rapaz foi ao seu jardim e colheu uma rosa encarnada muito perfumada. Foi para a praia e procurou o lugar da véspera.
-Bom dia, bom dia, bom dia - disseram a Menina, o polvo, o caranguejo e o peixe.
-Bom dia - disse o rapaz. E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.
-Trago-te aqui uma flor da terra -disse; chama-se rosa.
É linda,é linda- disse a Menina do Mar,dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.
-Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
A Menina pôs a cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:
-É um perfume maravilhoso. No mar não há perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
-Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.
-Mas o que é a saudade?- perguntou a Menina do Mar.
-A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora."
Sophia de Mello Breyner Andresen in A Menina do Mar
Escrito/editado por Marta 5 Terráqueos
Etiquetas: Escritores, Sophia de Mello Breyner Andresen
As sete vidas do Porto
Sentado numa das mesas do Café Piolho, horas antes de a Praça Parada Leitão se transformar no habitual enxame das noites de sábado, o radialista Álvaro Costa folheia o Financial Times. A leitura das páginas salmão recorda-lhe uma evidência: agora, já não precisa de andar com uma lupa à cata de notícias sobre o Porto na Imprensa internacional. Dos jornais de referência às sedutoras Wallpaper e Monocle "têm sido publicadas muitas e boas coisas. Isto está a mexer!".
Nas artérias das redondezas borbulha esse novo burgo, renascido da oratória da lamúria. Arranham-se guitarras para os concertos de rua do Porto Sounds e reservar mesa para jantar pode ser um martírio antes do mergulho nas seduções que a noite tece. "Mistura de Antuérpia, Bruges e Amesterdão, com uma pitada de Dublin", eis a cidade que salta agora aos olhos, "sem mortos nem feridos", diz Álvaro Costa.
Baixa é conceito vago, não se sabe onde começa e acaba.
Das janelas da Rua da Torrinha saem sons de violinos desencontrados. Nas Galerias Lumière, dão-se os últimos retoques nos preparativos para mais um flashback musical até o dia raiar. No Espaço 77 da Travessa de Cedofeita fritam-se os rissóis que vão aconchegar os estômagos líquidos e dançantes da Casa de Ló ou do Pherrugem. O Rádio deixou a sua gruta em Miragaia e botou corpo: agora é esplanada, bar e discoteca com varanda para a Praça Filipa de Lencastre, desassossego das almas noctívagas e dos hóspedes do Hotel Infante Sagres (conta-se que, no início da movida, um sheik árabe terá saído desaustinado do quarto, a meio da noite, enfurecido com o marulhar da onda tripeira).
Na Rua da Galeria de Paris, a Meca do momento, a tarde cai lenta no bar-restaurante com o mesmo nome, rodeado de armários antigos que guardam velhos rádios, brinquedos, cartazes de cinema e outras memórias feitas relíquias.
Mas a noite não tarda e entupirá a rua.
Quase defronte, a Casa do Livro espera nova enchente madrugada dentro, enquanto o piano descansa de outras folias tardias.
Em dias de semana, o ritmo do camartelo e o corrupio de camiões com entulho anunciam um processo de renovação em curso na Rua do Almada, que já foi "dos ferreiros. Na artéria freak, onde o restaurante Cão Que Fuma ainda é, para alguns, ponto de partida para a noite, refazem-se fachadas e pintam-se casas para alugar e vender. Isto, anos depois da chegada da loja-galeria-livraria-bar Maria Vai com as Outras e das montras de vinis, de mobiliário vintage, de artesanato urbano, de vestuário, da seita da lomografia e outras devoções.
Design arrojado de interiores, espírito inventivo e filosofias não convencionais associadas aos negócios determinam cultos, diferenciam lugares, impõem estilos. "O Porto tem hoje espaços com um cuidado estético e um conceito associado que são quase imbatíveis", sugere Pedro Araújo, que abriu o Cafe au Lait no silêncio sepulcral da hoje incontornável e ruidosa Galeria de Paris. "Da arquitetura ao mobiliário, da música às bebidas, quis dar personalidade e coerência ao lugar", justifica o dono deste café-bar, moderno e antigo q.b., frequentado por senhoras "chá das cinco ", profissionais liberais e estudantes wireless, conforme as vagas do dia.
Noite dentro, com o cartão de consumo obrigatório abolido na maioria dos espaços bebíveis, o Porto, mais democrático, desagua em definitivo na rua, entrando e saindo dos sítios quando e como lhe dá na telha.
Para Álvaro Costa, este bulício deu à Baixa um ar de "centro Erasmus rock & roll", com ritmos e traços "da geração digital" a refletirem-se em "movimentos artísticos e tendências que vão do sítio x à maluqueira z". Não faltam o toque bourgeois, decorações e postura retro chic, ares de "capitalismo copofónico " e figuras como Rui Moreira, da Associação Comercial do Porto, "o nosso Bernard Henri-Lévy. Tão confortável a pensar a cidade, a comer uma francesinha ou a tomar café em Tóquio". A urbe vive "o seu PREC tardio. O 25 de Abril está ainda muito fresco, mas lá chegará o 25 de Novembro", antecipa o animador da emissora pública.
E, NO ENTANTO, MOVE-SE...
Foi tudo muito rápido. Mas não tão rápido assim.
Há uns anos, Álvaro Costa punha o pé fora do edifício da RDP na então deprimente Rua Cândido dos Reis e já sabia que ia encontrar "a puta que, todos os dias, prometia deixar a vida" e dar de caras com o "seu" Hitler Manson, "uma dessas figuras de cérebro avariado que vagueiam pela cidade com discursos a norte de Hitler e a sul de Charles Manson".
Nesse tempo, a Baixa era ainda "vida de esquina", recorda o jornalista. Sucediam-se, como na canção, ruelas e calçadas de "pedras sujas e gastas". Lampiões "tristes e sós" iluminavam prédios devolutos, moribundos armazéns de tecidos e o caminhar de uns quantos "fantasmas" inseguros.
Da animação gerada pela Capital Europeia da Cultura, em 2001, nem rasto. O Porto estivera in, é verdade, mas o novo executivo camarário estava out e com a ressaca de obras do evento para pagar. Acabadinho de chegar ao município, Rui Rio prometera guerra aos interesses instalados, pondo-se a jeito: "Ainda não me chamaram inculto, mas pouco falta." Chamaram-lhe isso. E muito mais.
O fascínio da Invicta sobrevivia, lá fora, à custa do habitual tom sépia, ilustrado com o Vinho do Porto, o Douro, as pontes e o casario da "pitoresca cidade" em cascata, vestida com aquilo a que alguns chamam "o charme da decadência ". Desafinado do eterno postal, só o quinteto Universidade, Arquitetura, Serralves, Casa da Música e FC Porto galgava fronteiras e impressionava a exigente e seleta Europa da champions league.
Contestado, La Féria ocupava, entretanto, o Rivoli. Famílias varreram a naftalina da toillete e voltaram a incluir o teatro na agenda. "Não sofro de complexos de intelectualismo. Por isso, no confronto com a cidade só para alguns, ainda bem que ganhou a cidade para todos", refere Hélder Pacheco, historiador do Porto.
Algo nunca visto anunciava-se, porém, no horizonte. [...]»
[este magnífico texto do jornalista Miguel Carvalho, continua AQUI.
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Milagres
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem
/amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?
Walt Whitman, in "Leaves of Grass"
[poema desviado daqui, do blog, do Senhor Músico. ora espreitem]
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quinta-feira, agosto 26
para ti, se quiseres

O que a vida apresenta de pior não é a violenta catástrofe, mas a monotonia dos momentos semelhantes; numa ou se morre ou se vence, na outra verás que o maior número nem venceu nem morreu: flutua sem norte, sem esperança. Não te deixes derrubar pela insignificância dos pequenos movimentos e serás homem para os grandes; se jamais te faltar a coragem para afrontar os dias em que nada se passa, poderás sem receio esperar os tempos em que o mundo se vira.
Agostinho da Silva, “Ir à Índia Sem Abandonar Portugal; Considerações; Outros Textos”, 2, 25, edição da Assírio & Alvim, Lisboa, 1994
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Devolução

Não sinto culpa por não saber o nome das flores.
Foram dúvidas o que sempre tive,
e as dores não admitem nomes.
Uma vez não acreditamos já tudo ter sido dito.
Espera-se numa palavra a devolução do amor.
Paulo José Miranda
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quarta-feira, agosto 25
cartas para o céu
eu gosto de a ler. muitíssimo. mas, confesso, quando escreve cartas, quando escreve cartas, bem..quando escreve cartas...eu adoro ler-lhe as cartas. acho que tem um dom epistolar. poderá ser uma espécie dom epistolar. ora leiam.
experimentem interceptar uma carta a caminho do céu. é um privilégio.
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salas de espera
também já são horas. a noite vai longa e a lua um espanto. Paulinho Moska vai para aí na sétima volta de muitas músicas. Não deveria se chamar amor, está um pouco mais gasta.
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terça-feira, agosto 24
o que é a escuridão?

-o que é a escuridão?
-esquecer os olhos.
-e o medo?
-nem tanto.
-como se ama?...
-a sério.
-e depois?
-ainda é cedo.
-para o amor?
-se amar.
-poeta?
-quem é.
Jorge Da Silva Oliveira
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blues da morte de amor
já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos
[não escrevendo, alguém escreve para nós. e sim, ainda se morre de amor. nem que seja só um pedacinho]
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segunda-feira, agosto 23
um dizer ainda mais puro
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sábado, agosto 21
quarta-feira, agosto 18
Mundo

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
Carlos Drummond de Andrade
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: Carlos Drummond de Andrade, Desenhos; Leila Pugnaloni, Poesia
terça-feira, agosto 17
Lóri e Ulisses
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: Clarice Lispector
segunda-feira, agosto 16
O mundo é de quem não sente
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.
Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Fernando Pessoa
sábado, agosto 14
Porque é que os portugueses são tristes?
Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.
Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.
Miguel Esteves Cardoso, in As Minhas Aventuras na República Portuguesa
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
sexta-feira, agosto 13
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
...you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?
Charle's Bukowski's poem
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
quinta-feira, agosto 12
não disse, pois não?
Escrito/editado por Marta 6 Terráqueos
Etiquetas: coisas minhas
quarta-feira, agosto 11
O que é que a distância faz ao amor?
A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.
Roger de Bussy-Rabutin
Escrito/editado por Marta 5 Terráqueos
Etiquetas: citações
segunda-feira, agosto 9
Se eu fosse eu
Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria?
Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria?
Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser LOCOMOVIDA do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir.
Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.
Clarice Lispector
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: Clarice Lispector
quinta-feira, agosto 5
Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
...Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.
Alberto Caeiro in O Pastor Amoroso
Escrito/editado por Marta 4 Terráqueos
Etiquetas: Fernando Pessoa, poetas
quarta-feira, agosto 4
Festivalar por aí - Andanças
Está a decorrer em Carvalhais, São Pedro do Sul [onde tenho uma árvore]. Falo do Andanças, o festival das danças populares. O ambiente é único. A programação diversificada. O que o ano passado girava à volta do SILÊNCIO, este ano gira à volta da COMUNIDADE. Só termina a 8 de Agosto. Ainda vai a tempo de um pé de dança.
A programação está toda aqui.
«O Andanças junta vários estilos de dança: kizomba, valsas mandadas, tango, forró, tarentelas, polskas, funk, fandango ou hip hop. Acreditamos que todas as danças citadas, e muitas outras, têm lugar no Festival.
Porque falamos em Danças Populares Internacionais no Festival Andanças e não danças tradicionais, urbanas, folclóricas, folk, ou somente danças do Mundo? Cada conceito refere-se a uma categorização cujo significado difere em função da pessoa que o usa, do contexto, do país.
Danças tradicionais reporta-se geralmente às danças transmitidas de geração em geração, dançadas num espaço delimitado, com características singelas, repetitivas e colectivas. Danças urbanas e danças do mundo? Hoje em dia, qualquer dança pode ser ensinada ou praticada em qualquer parte do país ou do mundo? O Kizomba está tão presente em Angola, como em Portugal ou na na Suíça.... Mas será a mesma dança? Kizomba é somente Angolana, por ter aí nascido? A dança, como qualquer arte, tem uma tendência para integrar novos elementos de acordo com a influência do tempo e do lugar onde é executada. Esta dinâmica é inerente à dança: umas perduram no tempo, outras desaparecem, outras alteram-se, novas aparecem e exportam-se para o mundo inteiro. O importante é identificar-se com a dança: sua gestualidade, expressividade, a música que lhe é associada...».
Escrito/editado por Marta 2 Terráqueos
Etiquetas: festivais
Prémio revelação
O Festlip, organizado pela Talu Produções e pelo SESC (Rio de Janeiro), reuniu, na sua terceira edição (de 14 a 25 de Julho), espectáculos dos oito países da CPLP-Comunidade dos Países da Língua Portuguesa.
"Contos em Viagem – Cabo Verde" foi escolhido pelo público para receber o prémio de revelação. “Este foi o segundo espectáculo do Teatro Meridional realizado no âmbito do projecto Contos em Viagem, que visa criar vários espectáculos com base no universo literário de cada um dos países da Lusofonia”, detalha a companhia em seu site oficial.
A obra retrata o arquipélago por meio de fragmentos de histórias e poemas encenados em português e crioulo. Com encenação de Miguel Seabra, dramaturgia de Natália Luiza e interpretação de Carla Galvão e Fernando Mota, o espectáculo reúne textos de diversos autores cabo-verdianos.
Com 34 produções em seu currículo, o Teatro Meridional é um grupo português “vocacionado para a itinerância”. O espectáculo galardoado teve sua estreia em Cabo Verde, em 2007, durante o Festival Mindelact.»
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
terça-feira, agosto 3
Houvesse um sinal a conduzir-nos
Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamenente ao movimento de crescer nos guiasse. Teremos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto.
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros.
Daniel Faria
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Daniel Faria, poemas
Em Vichy
[em Vichy não há só termas. há outras coisas. um museu surrealista; ao lado, encantadora, uma livraria. mais a baixo um salão de chá onde se fazem uns crepes divinais. um parque verde, verde cheio de sorrisos e crianças. um rio e um homem a tocar saxofone. um banco de jardim e uma mulher a fumar cachimbo. um cachimbo que não é um cachimbo, talvez. uma lua que não é uma lua e uma outra mulher que não é uma mulher. e um sonho que não é um sonho]
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: coisas minhas
segunda-feira, agosto 2
Gare de Vichy
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: estações de comboio, viagens
Há doenças piores do que as doenças
Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
Fernando Pessoa in Fernando Pessoa Quando fui outro, p.62, Editora Objectiva, Julho de 2010
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: Fernando Pessoa, Poesia

















