segunda-feira, agosto 30

a noite pede música: esta

Tolerância [ups!]


Entre as palavras e as ideias detesto esta: tolerância. É uma palavra das sociedades morais em face da imoralidade que utilizam. É uma ideia de desdém; parecendo celeste, é diabólica; é um revestimento de desprezo, com a agravante de muita gente que o enverga ficar com a convicção de que anda vestida de raios de sol.

Agostinho da Silva in Sete Cartas a um Jovem Filósofo – Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro”, I, VI, edição da Ulmeiro, 1990

com a fabulosa Juliette Binoche

[quero ver. muito. muito. espreitem AQUI]

domingo, agosto 29

a noite pede música

Teoria da comunicação


Aceito o conceito de verosimilhança, a sua origem,
Numa relação do homem com a vida,
E na crença que é necessária,
A todos nós, para estabelecermos um contacto com
Os outros através da memória.
No entanto, nem tudo
Transporta essa verdade;
E para que possamos sentir
Uma experiência alheia, com tudo aquilo
Que o tempo levou, para sempre, no seu curso
Irreversível, teremos de viver cada sentimento como se nos
Pertencesse. Mas também sei que tudo está nas palavras; e que
Elas terão de ser escolhidas, uma a uma
Na mais exacta proporção do humano. Só assim,
Em perfeita concordância com as regras da poesia,poderei descrever,
Cada um dos pormenores do teu rosto, quando a luz
O ilumina, saindo de entre os cabelos que o envolvem,
Como sublime aparição. De facto, todos os adjectivos me parecem pobres para descrever o que és; e nenhum verso poderá
Traduzir a música da tua voz, ou a sua branda ternura
Nos meus ouvidos, nem o riso inesperado que me distrai
Do teu corpo. No fundo, isto podia levar-me a por em causa
O verosímil, e a distinguir entre a realidade vivida,
no instante mais alto do ser, e a imagem que guardamos
quando, em frente do papel nos dispomos a cantá-la.
Talvez
Isto me aproxime dos clássicos,
E da ideia platónica
Da oposição entre o divino e a sombra. No entanto, para
Quem teve nos braços a mulher que, para ele, foi deusa,
Ninfa, a mais bela das amadas, pouco importa a filosofia,
E muito menos a serenidade dos conceitos. O poema terá
De obedecer às imposições do amor;
E um desequilíbrio
De estrofes,
Uma vertigem de rimas,
Uma desordem de
Metáforas,
Fará viver para sempre o que só existe no tempo
De um sentimento que nos pertence,
A mim e a ti, mas
Que estas palavras levarão a todo lado,
Para que não cesse.

Nuno Júdice in O Estado dos Campos, D. Quixote, pag. 153/154
imagem: Isabel Lhano

e quando deus se senta ao piano?

[]

sábado, agosto 28

-Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.


"No dia seguinte,logo de manhã, o rapaz foi ao seu jardim e colheu uma rosa encarnada muito perfumada. Foi para a praia e procurou o lugar da véspera.

-Bom dia, bom dia, bom dia - disseram a Menina, o polvo, o caranguejo e o peixe.

-Bom dia - disse o rapaz. E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.

-Trago-te aqui uma flor da terra -disse; chama-se rosa.

É linda,é linda- disse a Menina do Mar,dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.

-Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
A Menina pôs a cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

-É um perfume maravilhoso. No mar não há perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

-Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.

-Mas o que é a saudade?- perguntou a Menina do Mar.

-A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora."

Sophia de Mello Breyner Andresen in A Menina do Mar

Driva'Man Abbey Lincoln 1964.mov

As sete vidas do Porto


[só quem sente o Porto, o escreve assim...]
«Os portuenses trocaram o marasmo e a morrinha pela movida. Bares, galerias, lojas e eventos agitaram ruas e deram glamour a quarteirões decadentes. O Porto está no mapa e a Baixa na moda. Falta. habitá-la. Há vida para além dos copos?

Sentado numa das mesas do Café Piolho, horas antes de a Praça Parada Leitão se transformar no habitual enxame das noites de sábado, o radialista Álvaro Costa folheia o Financial Times. A leitura das páginas salmão recorda-lhe uma evidência: agora, já não precisa de andar com uma lupa à cata de notícias sobre o Porto na Imprensa internacional. Dos jornais de referência às sedutoras Wallpaper e Monocle "têm sido publicadas muitas e boas coisas. Isto está a mexer!".

Nas artérias das redondezas borbulha esse novo burgo, renascido da oratória da lamúria. Arranham-se guitarras para os concertos de rua do Porto Sounds e reservar mesa para jantar pode ser um martírio antes do mergulho nas seduções que a noite tece. "Mistura de Antuérpia, Bruges e Amesterdão, com uma pitada de Dublin", eis a cidade que salta agora aos olhos, "sem mortos nem feridos", diz Álvaro Costa.

Baixa é conceito vago, não se sabe onde começa e acaba.

Das janelas da Rua da Torrinha saem sons de violinos desencontrados. Nas Galerias Lumière, dão-se os últimos retoques nos preparativos para mais um flashback musical até o dia raiar. No Espaço 77 da Travessa de Cedofeita fritam-se os rissóis que vão aconchegar os estômagos líquidos e dançantes da Casa de Ló ou do Pherrugem. O Rádio deixou a sua gruta em Miragaia e botou corpo: agora é esplanada, bar e discoteca com varanda para a Praça Filipa de Lencastre, desassossego das almas noctívagas e dos hóspedes do Hotel Infante Sagres (conta-se que, no início da movida, um sheik árabe terá saído desaustinado do quarto, a meio da noite, enfurecido com o marulhar da onda tripeira).

Na Rua da Galeria de Paris, a Meca do momento, a tarde cai lenta no bar-restaurante com o mesmo nome, rodeado de armários antigos que guardam velhos rádios, brinquedos, cartazes de cinema e outras memórias feitas relíquias.

Mas a noite não tarda e entupirá a rua.

Quase defronte, a Casa do Livro espera nova enchente madrugada dentro, enquanto o piano descansa de outras folias tardias.

Em dias de semana, o ritmo do camartelo e o corrupio de camiões com entulho anunciam um processo de renovação em curso na Rua do Almada, que já foi "dos ferreiros. Na artéria freak, onde o restaurante Cão Que Fuma ainda é, para alguns, ponto de partida para a noite, refazem-se fachadas e pintam-se casas para alugar e vender. Isto, anos depois da chegada da loja-galeria-livraria-bar Maria Vai com as Outras e das montras de vinis, de mobiliário vintage, de artesanato urbano, de vestuário, da seita da lomografia e outras devoções.

Design arrojado de interiores, espírito inventivo e filosofias não convencionais associadas aos negócios determinam cultos, diferenciam lugares, impõem estilos. "O Porto tem hoje espaços com um cuidado estético e um conceito associado que são quase imbatíveis", sugere Pedro Araújo, que abriu o Cafe au Lait no silêncio sepulcral da hoje incontornável e ruidosa Galeria de Paris. "Da arquitetura ao mobiliário, da música às bebidas, quis dar personalidade e coerência ao lugar", justifica o dono deste café-bar, moderno e antigo q.b., frequentado por senhoras "chá das cinco ", profissionais liberais e estudantes wireless, conforme as vagas do dia.

Noite dentro, com o cartão de consumo obrigatório abolido na maioria dos espaços bebíveis, o Porto, mais democrático, desagua em definitivo na rua, entrando e saindo dos sítios quando e como lhe dá na telha.

Para Álvaro Costa, este bulício deu à Baixa um ar de "centro Erasmus rock & roll", com ritmos e traços "da geração digital" a refletirem-se em "movimentos artísticos e tendências que vão do sítio x à maluqueira z". Não faltam o toque bourgeois, decorações e postura retro chic, ares de "capitalismo copofónico " e figuras como Rui Moreira, da Associação Comercial do Porto, "o nosso Bernard Henri-Lévy. Tão confortável a pensar a cidade, a comer uma francesinha ou a tomar café em Tóquio". A urbe vive "o seu PREC tardio. O 25 de Abril está ainda muito fresco, mas lá chegará o 25 de Novembro", antecipa o animador da emissora pública.
E, NO ENTANTO, MOVE-SE...
Foi tudo muito rápido. Mas não tão rápido assim.
Há uns anos, Álvaro Costa punha o pé fora do edifício da RDP na então deprimente Rua Cândido dos Reis e já sabia que ia encontrar "a puta que, todos os dias, prometia deixar a vida" e dar de caras com o "seu" Hitler Manson, "uma dessas figuras de cérebro avariado que vagueiam pela cidade com discursos a norte de Hitler e a sul de Charles Manson".

Nesse tempo, a Baixa era ainda "vida de esquina", recorda o jornalista. Sucediam-se, como na canção, ruelas e calçadas de "pedras sujas e gastas". Lampiões "tristes e sós" iluminavam prédios devolutos, moribundos armazéns de tecidos e o caminhar de uns quantos "fantasmas" inseguros.

Da animação gerada pela Capital Europeia da Cultura, em 2001, nem rasto. O Porto estivera in, é verdade, mas o novo executivo camarário estava out e com a ressaca de obras do evento para pagar. Acabadinho de chegar ao município, Rui Rio prometera guerra aos interesses instalados, pondo-se a jeito: "Ainda não me chamaram inculto, mas pouco falta." Chamaram-lhe isso. E muito mais.

O fascínio da Invicta sobrevivia, lá fora, à custa do habitual tom sépia, ilustrado com o Vinho do Porto, o Douro, as pontes e o casario da "pitoresca cidade" em cascata, vestida com aquilo a que alguns chamam "o charme da decadência ". Desafinado do eterno postal, só o quinteto Universidade, Arquitetura, Serralves, Casa da Música e FC Porto galgava fronteiras e impressionava a exigente e seleta Europa da champions league.

Contestado, La Féria ocupava, entretanto, o Rivoli. Famílias varreram a naftalina da toillete e voltaram a incluir o teatro na agenda. "Não sofro de complexos de intelectualismo. Por isso, no confronto com a cidade só para alguns, ainda bem que ganhou a cidade para todos", refere Hélder Pacheco, historiador do Porto.

Algo nunca visto anunciava-se, porém, no horizonte. [...]»

[este magnífico texto do jornalista Miguel Carvalho, continua AQUI.

a noite pede música

Milagres


Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?

Por mim, de nada sei que não sejam milagres:

ou ande eu pelas ruas de Manhattan,

ou erga a vista sobre os telhados

na direcção do céu,

ou pise com os pés descalços

bem na franja das águas pela praia,

ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,

ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem

/amo,

ou à mesa tome assento para jantar com os outros,

ou olhe os desconhecidos na carruagem

de frente para mim,

ou siga as abelhas atarefadas

junto à colmeia antes do meio-dia de verão

ou animais pastando na campina

ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,

ou a maravilha de um pôr-de-sol

ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,

ou o estranho contorno delicado e leve

da lua nova na primavera,

essas e outras coisas, uma e todas

— para mim são milagres,

umas ligadas às outras

ainda que cada uma bem distinta

e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva

é para mim um milagre,

milagre cada polegada cúbica de espaço,

cada metro quadrado da superfície da terra

por milagre se estende, cada pé

do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:

os peixes nadando, as pedras,

o movimento das ondas,

os navios que vão com homens dentro

— existirão milagres mais estranhos?


Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

[poema desviado daqui, do blog, do Senhor Músico. ora espreitem]

quinta-feira, agosto 26

Every Time We Say Goodbye - 1961

para ti, se quiseres


O que a vida apresenta de pior não é a violenta catástrofe, mas a monotonia dos momentos semelhantes; numa ou se morre ou se vence, na outra verás que o maior número nem venceu nem morreu: flutua sem norte, sem esperança. Não te deixes derrubar pela insignificância dos pequenos movimentos e serás homem para os grandes; se jamais te faltar a coragem para afrontar os dias em que nada se passa, poderás sem receio esperar os tempos em que o mundo se vira.

Agostinho da Silva, “Ir à Índia Sem Abandonar Portugal; Considerações; Outros Textos”, 2, 25, edição da Assírio & Alvim, Lisboa, 1994

Devolução


Não sinto culpa por não saber o nome das flores.
Foram dúvidas o que sempre tive,

e as dores não admitem nomes.
Uma vez não acreditamos já tudo ter sido dito.
Espera-se numa palavra a devolução do amor.


Paulo José Miranda

Milonga De Amor

quarta-feira, agosto 25

cartas para o céu

eu gosto de a ler. muitíssimo. mas, confesso, quando escreve cartas, quando escreve cartas, bem..quando escreve cartas...eu adoro ler-lhe as cartas. acho que tem um dom epistolar. poderá ser uma espécie dom epistolar. ora leiam.
experimentem interceptar uma carta a caminho do céu. é um privilégio.

salas de espera


nunca sei como me acomodar no banco da sala de espera do hospital. não é que me aconteça muitas vezes, felizmente. mas é engraçado que a acomodação depende sempre do que tenho dentro de mim, dentro da carteira, dentro do ipod. nunca da ergonomia do banco.

o Braga ganhou e o resultado foi como o acidente, inesperado. percebo muito mais de acidentes do que de futebol, obviamente. e percebi de imediato de quem era a culpa. ia atrás, na minha condução defensiva, como se a estrada fosse um ringue.

o que mais me aflige são as ambulâncias. agora, menos. depois de se andar numa, percebemos que é o meio de transporte preferido dos anjos e sossegamos mais.

dentro de mim? imagino o resultado se fizesse a TAC que estás a fazer. por entre as costelas, um coração passado a ferro, sem vincos nem rugas. muito liso e verde como um prado.

o médico disse que talvez um colete para a cervical. mas fora de perigo. era o que queria ouvir. entretanto, já tinha fumado um cigarro. dois. de um lado para o outro, como convém. talvez tenha voltado a fumar. não sei.

dentro da carteira? Promessa, de Virgílio Ferreira. espólio. restos de um autor que me comove sempre. e me faz sorrir e compreender mais. mais, não. melhor. sempre.

sempre é uma palavra perigosa. mas é uma palavra de Virgílio Ferreira e, só por isso, gosto muito dela. ou melhor: para sempre. para sempre é que é.

do banco do hospital, enquanto espero pela Cris, posso ver o teu sorriso. ver não. imaginá-lo. e perder-me na leitura e voltar atrás, sem que o teu sorriso me entre no coração verde e liso como uma folha de papel. se soubesses fazer origami podias fazer-me um pássaro com ele.

talvez, assim, o pudesse reaver como era dantes. digo eu, enquanto espero. digo não, penso.

as salas de espera também podiam chamar-se salas de pensar. as salas de espera das urgências, podiam chamar-se pense rápido. lá estou eu a disparatar. ainda bem que me interromperam para dizer que mais meia hora e podias ir para casa.

também já são horas. a noite vai longa e a lua um espanto. Paulinho Moska vai para aí na sétima volta de muitas músicas. Não deveria se chamar amor, está um pouco mais gasta.

terça-feira, agosto 24

o que é a escuridão?


‎-o que é a escuridão?
-esquecer os olhos.
-e o medo?
-nem tanto.
-como se ama?...
-a sério.
-e depois?
-ainda é cedo.
-para o amor?
-se amar.
-poeta?
-quem é.

Jorge Da Silva Oliveira

Soultrane - Chet Baker Quintet

blues da morte de amor



já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

[não escrevendo, alguém escreve para nós. e sim, ainda se morre de amor. nem que seja só um pedacinho]

segunda-feira, agosto 23

a noite pede música

um dizer ainda mais puro


imagino que sobre nós virá um céu

de espuma e que, de sol em sol,

uma nova língua nos fará dizer

o que a poeira da nossa boca adiada

soterrou já para lá da mão possível

onde cinzentos abandonamos a flor.


dizes: põe nos meus os teus dedos

e passemos os séculos sem rosto,

apaguemos de nossas casas o barulho

do tempo que ardeu sem luz.

sim, cria comigo esse silêncio

que nos faz nus e em nós acende

o lume das árvores de fruto.


diz-me que ainda há versos por escrever,

que sobra no mundo um dizer ainda puro.


Vasco Gato

sábado, agosto 21

Can't Take My Eyes Off You

quarta-feira, agosto 18

Mundo


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.


Carlos Drummond de Andrade

Desenho: Leila Pugnaloni
[aliás, da minha querida Leila.
se é possível as pessoas serem nossas sem sequer o imaginarem? claro que sim.]

terça-feira, agosto 17

Lóri e Ulisses


[...]

- E quem era de primeiro plano na tua vida?

- Ninguém.

- Apaixonaram-se por você?

- Sim.

- É o que eu imaginava. Eu, por motivos ignorados, desde rapazola tinha um dom: o de acordar alguma coisa nas mulheres. Com você, esse dom de atrair os homens não lhe causa nenhuma impressão?

Ela apertou deliberadamente os lábios como indicando que não ia falar.

- Não precisa responder, sorriu ele. Assim como o seu dom de atração age em mim...Você sabe, disse com simplicidade, que nós dois somos atraentes como homem e mulher.

Lóri, já esquentada pelo uísque, sorriu a tanta franqueza.

- Você sorriu! Você sabe o que lhe aconteceu? Você sorriu sem pudor! Ah Lóri, quando você aprender vai ver o tempo que perdeu. A tragédia de viver existe sim e nós a sentimos. Mas isso não impede que tenhamos uma profunda aproximação da alegria com essa mesma vida.

- Não posso! quase gritou Lóri, não posso, estou perdida. E se me aproximar do que você fala estarei perdida para sempre.

Ele não respondeu, como se ela não tivesse falado. Ficaram em silêncio até que ela própria sentiu que se recompusera.

- Não estou aqui porque lhe quero dar lições, se não fosse por outros motivos,porque também eu estou aprendendo, com dificuldade. Mas já existem demais os que estão cansados. Minha alegria é áspera e eficaz, e não se compraz em si mesma, é revolucionária. Todas as pessoas poderiam ter essa alegria mas estão ocupadas de mais em ser cordeiros de deuses.

Apesar de ser outono era um dos dias mais quentes do ano, Lóri suava a ponto das costas do vestido estarem molhadas, a testa se perlava de gotas de suor que terminavam escorrendo pelo rosto. Parecia estar lutando corpo a corpo com aquele homem, assim como lutava consigo mesma, e que era simbólico suar e ele não. Enxugou o rosto com o lenço, enquanto sentia que Ulisses a examinava e ela percebeu que ele estava tendo prazer em olhá-la. Ele disse:

- Você é de algum modo bonita. Gosto do teu rosto suado sem pintura embora também goste do modo exagerado como você se pinta. Mas é que pintada você prova não sei de que modo que não é virgem. Não, não se engane, não pense que eu desejaria que você fosse virgem, aliás de certo modo você é.Quantos homens você já teve mesmo?

- Cinco, respondeu sabendo perfeitamente que ele se lembrava.

- Você sabe, não é, que enquanto sou apenas seu amigo, tenho dormido com outras mulheres. Com uma fiquei meio ano.

- Imagino, respondeu sem ciúme.

Nunca tivera ciúme dos seus homens mas sabia da possibilidade violenta de ciúme de Ulisses, se ambos fossem amantes.

- Se você chegar a ser minha, do modo como quero, gostaria de ter um filho seu, assim mesmo, com você sem pintura no rosto e coberta de suor.

Ela se assustou um poucom com o inesperado, ele sorriu:

- Não tenha medo. Em primeiro lugar, do modo como eu queria que você fosse minha, só acontecerá quando você também quiser desse mesmo modo. E ainda demorará porque você ainda não descobriu o que precisa descobrir. E além do mais, se vier a ser minha desse modo, possivelmente quererá um filho nosso. Porque além de nós nos construirmos, provavelmente vamos querer construir um outro ser. Lóri, apesar da minha aparente segurança, também estou trabalhando para ficar pronto para você. Inclusive de hoje em diante, até você ser minha, não terei mais nenhuma mulher na minha cama.

- Não! exlamou ela.

- Isso não lhe dá nenhuma responsabilidade, boba, riu ele. . Isto é problema exclusivamente meu. E certamente você tem também uma ideia errada dos homens: eles podem ser castos, sim, Lóri, quando querem.

O olhar dela tornara-se sonhador, abstracto, um pouco vazio. Ela pensava: se Ulisses estava pretendendo que ela tomasse consciência de alguma coisa para tornar-se uma espécie de iniciada na vida, teria que ser devagar, se fosse de súbito alguma coisa nela podia ser fulminada. Mas ela sabia que Ulisses também sabia disso, e já lhe conhecia a paciência. Quem esta perdendo a paciência e começando a sentir uma pressa de avidez era ela mesma.

- Você quer ir ao Posto 6? perguntou Lóri, às vezes a essa hora os pescadores estão colhendo peixes.

Ele perscutou-a um longo instante que ela não entendeu, e de repente com um suspiro e com um sorrisos disse:

- Não, estou certo de que você não sabe. É uma pena que seu apelido seja Lóri, porque seu nome Loreley é mais bonito. Sabe quem era Loreley?

- Era alguém?

Loreley é o nome de um personagem lendário do folclore alemão, cantado num belísimo poema por Heine. A lenda diz que Loreley seduzia os pescadores com os seus cânticos e eles terminavam morrendo no fundo do mar, já não me lembro mais de detalhes. Não, não me olhe com esses olhos culpados. Em primeiro lugar, quem seduz você sou eu. Sei, sei que você se enfeita para mim, mas isso já é porque eu seduzo você. E não sou um pescador, sou um homem que um dia você vai perceber que ele sabe menos do que parece, apesar de ter vivido muito e estudado muito. Agora que você está de novo com os olhos normais, podemos ir ver os pescadores, se bem que eu tivesse planejado nesse calor jantar com você na Floresta da Tijuca. Mas as duas coisas seriam de mais para a tua capacidade. Lóri, você esta se acordando pela curiosidade, aquela que empurra pelos caminhos da vida real. Mas não tenha medo da desarticulação que virá. Essa desarticulação é necessária para que se veja aquilo que, se fosse articulado e harmonioso, não seria visto, seria tomado como óbvio. Na desarticulação haverá um choque entre você e a realidade, é preferível estar preparada para isso, Lóri, a verdade é que estou contando a você parte do meu caminho já percorrido. Nos piores momentos, lembre-se: quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria.

Se você quer ver os peixes, Loreley, vamos.

[...]


Clarice Lispector in Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Relógio D´Agua, 1999

Ora multiplica lá...

[Marta, é para ti :)]

segunda-feira, agosto 16

O mundo é de quem não sente


O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alhieo, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.

Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.

Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego

Nalgum Lugar

sábado, agosto 14

Porque é que os portugueses são tristes?

Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.

Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.

Miguel Esteves Cardoso, in As Minhas Aventuras na República Portuguesa

sexta-feira, agosto 13

there's a bluebird in my heart that

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
...you.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?

Charle's Bukowski's poem

quinta-feira, agosto 12

não disse, pois não?


eu já vos disse que ando apaixonada por um livro de poesia? que me ofereceram o CD Graffti e um girassol? que o meu mano me fez uma festa surpresa e que eu o amo tanto tanto que não é surpresa para ninguém? que quem tem amigos como eu tenho não precisa de nenhum documento de identificação nem sequer de passaporte? que a qualquer momento morro de saudades apesar de isso já não se usar? já vos disse que comecei a escrever uma declaração de amor aos Sagitários? e que me comovi a olhar para um red fish congelado? e que encontrei um amigo dos tempos da universidade que me disse que eu estava igualzinha, após 15 anos? e que por isso descobri que existe uma espécie de convenção piedosa entre os amigos do tempo da faculdade que ficam sem se ver há anos? e que tenho mais três pares de brincos novos? e que à porta de minha casa se encontra estacionado um taxi inglês? e que acho graça ao ar blasé do meu novo vizinho? e que no vaso lá de casa para além da Maria Castanha, habita mais uma borboleta?e que o Homem Aranha, quando ninguém vê, faz legos do Darth Vader? e que este mês de Agosto me parece um deserto? e que ando estupidamente cansada apesar de adorar o que faço? e que tenho sonhado várias vezes com o fundo do mar? e que quando acordo me espanto por ainda não ter morrido de saudades? não disse, pois não?
eu não vos tenho dito nada. desculpem.

Para que serve o amor?

quarta-feira, agosto 11

O que é que a distância faz ao amor?

A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.
Roger de Bussy-Rabutin

Se Cuidas de Mim

segunda-feira, agosto 9

Se eu fosse eu

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria?
Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria?
Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser LOCOMOVIDA do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir.
Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.
Clarice Lispector

imagem: Anastasia Tikhonova

O rapaz de camisa vermelha

Entre Dos Aguas

quinta-feira, agosto 5

Quando eu não te tinha


Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
...Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.

Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.

Alberto Caeiro in O Pastor Amoroso

quarta-feira, agosto 4

Festivalar por aí - Andanças

Está a decorrer em Carvalhais, São Pedro do Sul [onde tenho uma árvore]. Falo do Andanças, o festival das danças populares. O ambiente é único. A programação diversificada. O que o ano passado girava à volta do SILÊNCIO, este ano gira à volta da COMUNIDADE. Só termina a 8 de Agosto. Ainda vai a tempo de um pé de dança.
A programação está toda aqui.

«O Andanças junta vários estilos de dança: kizomba, valsas mandadas, tango, forró, tarentelas, polskas, funk, fandango ou hip hop. Acreditamos que todas as danças citadas, e muitas outras, têm lugar no Festival.

Porque falamos em Danças Populares Internacionais no Festival Andanças e não danças tradicionais, urbanas, folclóricas, folk, ou somente danças do Mundo? Cada conceito refere-se a uma categorização cujo significado difere em função da pessoa que o usa, do contexto, do país.

Danças tradicionais reporta-se geralmente às danças transmitidas de geração em geração, dançadas num espaço delimitado, com características singelas, repetitivas e colectivas. Danças urbanas e danças do mundo? Hoje em dia, qualquer dança pode ser ensinada ou praticada em qualquer parte do país ou do mundo? O Kizomba está tão presente em Angola, como em Portugal ou na na Suíça.... Mas será a mesma dança? Kizomba é somente Angolana, por ter aí nascido? A dança, como qualquer arte, tem uma tendência para integrar novos elementos de acordo com a influência do tempo e do lugar onde é executada. Esta dinâmica é inerente à dança: umas perduram no tempo, outras desaparecem, outras alteram-se, novas aparecem e exportam-se para o mundo inteiro. O importante é identificar-se com a dança: sua gestualidade, expressividade, a música que lhe é associada...».

Prémio revelação


«O espectáculo "Contos em Viagem – Cabo Verde", apresentado pelo Teatro Meridional (Portugal), recebeu o Prémio Revelação 2010 do Festival de Teatro de Língua Portuguesa (Festlip), realizado no Rio de Janeiro.


O Festlip, organizado pela Talu Produções e pelo SESC (Rio de Janeiro), reuniu, na sua terceira edição (de 14 a 25 de Julho), espectáculos dos oito países da CPLP-Comunidade dos Países da Língua Portuguesa.

"Contos em Viagem – Cabo Verde" foi escolhido pelo público para receber o prémio de revelação. “Este foi o segundo espectáculo do Teatro Meridional realizado no âmbito do projecto Contos em Viagem, que visa criar vários espectáculos com base no universo literário de cada um dos países da Lusofonia”, detalha a companhia em seu site oficial.

A obra retrata o arquipélago por meio de fragmentos de histórias e poemas encenados em português e crioulo. Com encenação de Miguel Seabra, dramaturgia de Natália Luiza e interpretação de Carla Galvão e Fernando Mota, o espectáculo reúne textos de diversos autores cabo-verdianos.

Com 34 produções em seu currículo, o Teatro Meridional é um grupo português “vocacionado para a itinerância”. O espectáculo galardoado teve sua estreia em Cabo Verde, em 2007, durante o Festival Mindelact.»

terça-feira, agosto 3

La Valse d'Amelie

Houvesse um sinal a conduzir-nos

Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamenente ao movimento de crescer nos guiasse. Teremos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto.
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros.
Daniel Faria

imagem: parque de Vichy [tirada por mim]

Em Vichy

[em Vichy não há só termas. há outras coisas. um museu surrealista; ao lado, encantadora, uma livraria. mais a baixo um salão de chá onde se fazem uns crepes divinais. um parque verde, verde cheio de sorrisos e crianças. um rio e um homem a tocar saxofone. um banco de jardim e uma mulher a fumar cachimbo. um cachimbo que não é um cachimbo, talvez. uma lua que não é uma lua e uma outra mulher que não é uma mulher. e um sonho que não é um sonho]

segunda-feira, agosto 2

a noite pede música

Gare de Vichy


[eu já disse aqui que adoro estações de comboio e de andar de comboio, não já? nestas imagens podemos ver a estação de Vichy, em França. daqui a Paris, são duas horas e meia de comboio e, nesta altura do ano, atravessam-se imensos campos de girassóis.
atravessar campos de girassóis é assim uma espécie de brincadeira que nos faz parecer felizes. mesmo quando não estamos.]
imagens: tiradas por mim

Há doenças piores do que as doenças

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.

Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa in Fernando Pessoa Quando fui outro, p.62, Editora Objectiva, Julho de 2010

imagem: Catarina Poderoso

sexta-feira, julho 23

Meia dúzia de perguntas a ...


OLGA NORONHA
Gosta muitíssimo do que faz e isso vê-se à distância ou, então, de perto, nos seus olhos inquietos com sede de mundo. E o mais encantador é que, apesar dos seus 20 anos, o mundo nas suas mãos é mesmo uma jóia.
Começou com missangas e alicates, agora trabalha com safiras, rubis e diamantes. Até com ramos de oliveira...tudo o que o seu "engenho e arte" lhe pede.
Deixo-vos com Olga Noronha, uma menina, senhora de uma imensa criatividade. Inaugura hoje, dia 23 de Julho, em Santa Maria da Feira, na galeria Ao Quadrado, uma exposição que merece mais do que um olhar. Corpos estranhos/Foreign bodies pode ser apreciada até 14 de Agosto. A não perder, claro está.
Que peças podemos ver nesta exposição e quais os materiais usados?
São apresentados 23 + 3 anéis. Ou seja, não são um “todo” de 26 peças. É algo mais.
Quanto a materiais, adianto já que podem ser apreciadas peças que levam diamantes e ramos de oliveira. Podemos esperar tudo desta exposição [risos].
Sobre esta iniciativa, Fernando Norton de Matos, escreveu: "23 «Corpos estranhos» mais 3, sempre o carismático 3 (...), reclamam-se para anéis formados nos dedos da autora, elaborados na textura da sua pele, impostos e aceites «numa clara contradição, onde tudo se encaixa e nada se completa». Aí está Olga Noronha, enfim, a braços com uma ideia que sempre quis explorar, fazendo interagir a jóia com o corpo, ou seja, exaltando o conceito da jóia enquanto escultura. 23 em grande escala, de base prata, mais os inevitáveis 3, vedetas da mostra, com a dimensão do seu dedo mindinho, em pequena escala, apesar do maior destaque, e de ouro com incrustações de diamante, rubi e safira. «No meio da multidão ganha a discrição».
Como descobriste que serias designer de jóias?
Para ser franca não sei. Não há história de joalheiros nem nada que se pareça, na família. Talvez tudo tenha começado aos seis, sete anos, com as missangas. Como quase todas as meninas dessa idade, gostava dessa brincadeira e, um dia, um vizinho ofereceu-me uma caixa de madeira com diversos compartimentos e alicates. Comecei por pedir à minha mãe que comprasse arames e, assim, comecei a manipulá-los, juntamente com pedras e outros materiais, construindo as minhas primeiras “jóias”. Algumas delas estão publicadas no livro 1.000 Jewelry Inspirations, Sandra Salamony, Lark Books, USA, 2008.
Depois, em 2001, comecei a frequentar a escola de joalharia contemporânea Engenho & Arte. Entre 2004 e 2007 completei os meus estudos secundários na escola secundária artística Soares dos Reis e, em Setembro de 2007, mudei-me para o Reino Unido, começando por fazer um Foundation course in Art and Design, na Central Saint Martins College of Art and Design. Agora frequento o terceiro e último ano de licenciatura em Design de Joalharia, na mesma faculdade.
Como concebes uma jóia?
Com ideias permanentes, um moleskine e uma caneta preta 0.35mm, sempre na carteira e com um gravador de voz, na mesinha de cabeceira (para as ideias “notívagas”). Depois, passo à materialização do design/ideia, na minha oficina.
O que é que te inspira?
Considero-me adaptável e facilmente “inspirável” por tudo o que me rodeia. Mas há uma coisa que não dispenso aquando da idealização de uma peça: a obrigatoriedade de uma interacção activa e passiva. Por interacção passiva refiro-me à capacidade da peça veicular algo mais que a simples ideia de acessório/adereço; a jóia como escultura que tanto vive em contacto directo com corpo do utente, como também é apreciada e sentida de um ponto de vista “exterior”.
E influências, de onde as recebes?
Em teorias filosóficas relacionadas com a atitude humana perante a sua “aura” , intimismo e metáfora e um pouco de simbolismo teológico, culminando numa união de provocantes contrastes .
E a vida?
Vai bem muito obrigada! [risos]
Estou a um ano de terminar a minha licenciatura, ansiosa por o que ainda está para vir e com grandes projectos para o futuro. Antes de mais, quero terminar o BA, depois avançar, imediatamente, para um mestrado e doutoramento. No fundo, tentar chegar o mais alto possível em diferenciações curriculares. Ambição não me falta e sou cem por cento apologista do “lutar para vencer” porque, afinal, “quem corre por gosto não cansa”.

terça-feira, julho 20

Como se houvesse milagre


Não tenho postado. Não é só preguiça. Motivos há imensos.Sobra-me o espanto.
Histórias. O tecto do meu quarto está lotado. De repente, Viseu, Lisboa, Luanda.
O mundo ficou sem fronteiras. Para uma galaico-duriense, agarrada à meseta de afectos. E não pensem que não sei o que são terramotos. E sismos.
Sei bem. Não sei, se sei de sobra. Mas sei bem.
E sei o que é pegar na régua e no esquadro. Outra vez.
São 200 anos. É muita vida. E às vezes sinto-me cansada.
Eu de suplemento na mão, a desfolhá-lo,
em vez de o pôr no lixo, como sempre.
Espaços & casas ou vice-versa. Ou nada disto.
Casas em Lisboa em páginas de jornal.
Eu de marcador a fazer círculos à volta dos anúncios.
Eu a fazer e a não estar a acreditar no que fazia.
Eu a perceber que às vezes não acreditamos no que fazemos mas fazemos.
E fica feito. Eu a fazer analogias, a desviar-me do cerne da questão.
E os anúncios, tantos. E a faltarem-me as ruas, as zonas. Sei lá onde fica isto.
Eu, entre a luz e o granito. E o granito como retrato e a luz como estímulo.
Eu a telefonar. A perguntar por preços, voz segura. Coração trémulo.
Mas a perguntar. Como se nunca tivesse dito não a Lisboa. Convicta.
Eu a pesquisar na net. À procura de Luanda. No Belas Shopping.
Eu tentada. Já no avião. Nas nuvens.
Com vontade de regressar e ainda não tinha saído do sofá.
Eu a fazer contas e a apagar o sorriso dos meus sobrinhos do quadriculado do caderno. A sentir os xis-corações. Os seus braços a crescerem à volta do meu pescoço.
Deixa-te de ser lamechas. Vá. Deixa-te de tretas. Vai ser muito bom. E mesmo que não fosse.
[...]
Não vale a pena. Às vezes não vale. Mas há imagens que insistem.
Acontecem em minutos e repetem-se uma vida.
O pisa-papéis, pesado, precioso, na cabeça do Senhor Manuel.
O pisa-papéis inteiro na cabeça do pisa-mansinho que queria ir a Nova York mas não sabia falar inglês.
Como foste capaz?
A mercadoria do contentor por conferir. A recusa da assinatura.
Ò dra. não assina? Isso vai dar problemas. E deu.
A gajita de 26 anos a chamar-te demasiado educada. Como se fosse um insulto.
A dizer-te que era preciso ter tomates. Como se fosse um requisito.
E tu, polida, a dizer que tomates, tomates, tem quem recusa uma pipa de massa à porta de casa. Que - perdão - tomates, tomates, tem o Senhor Manuel, que levou com o pisa-papeis do Dubai nas trombas e nem chiou. Cambaleou. A sangrar. Pingas de sangue no mármore. Atrás de si. E depois, no Jaguar. Surreal.
[...]
A tentação, à flor dos lábios. Voz alta, dentro do carro.
- Porquê a mim? A ti, porque sim, porque se não fosse a ti, era a outra qualquer.
E depois, de repente, já perto de Lisboa ou Luanda, aconteceu.
O coração, feito casa de muito movimento.
Alfândega de novas mercadorias.
Voltado para o Douro, feito cais de afectos.
O granito como retrato, a luz como estímulo.
Como se houvesse milagre.

sexta-feira, julho 16

Fé nos burros


«A AEPGA (Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino) em parceria com o fotógrafo João Pedro Marnoto, pretende através da instalação fotográfica "Fé nos Burros" enaltecer a utilidade e importância da relação homem-animal, com especial relevância para as burras, burros, mulas e machos. Esta cultura rural associada aos habitantes das nossas aldeias, retratada nas suas maneiras de trabalhar com a terra e animais, a sua cumplicidade na relação com os mesmos.
Apesar da AEPGA, ser uma associação cujo objectivo se centra na recuperação e manutenção da Raça Asinina de Miranda, o burro e o gado muar assumem neste projecto uma figura, que simboliza a riqueza cultural e natural desta região.
Através da presença deste animal iremos descobrir facetas do quotidiano dos seus donos, desde a sua cultura material, saberes artesanais, tradição oral, conhecimento popular, até aos seus sentimentos e emoções.
Iremos à procura da presença de um mundo antigo que ainda resiste à avalanche da modernidade, e sobretudo daqueles que assistem e resistem ao seu desaparecimento.»
Em Alfândega da Fé. Até 21 de Agosto.

quinta-feira, julho 15

Leitores silenciosos


eu gosto de leitores silenciosos. às vezes também sou uma leitora silenciosa. às vezes gosto tanto, tanto de ler uma coisa que a única vénia que faço é um longo silêncio. às vezes, um silêncio definitivo. outras vezes, um silêncio intermitente de farol.
hoje li um e-mail de um leitor silencioso e gostei muito. diz-me que passa por aqui há já algum tempo e resolveu quebrar o silêncio. e ainda bem. fez uma sugestão de leitura que já tratei de concretizar, tentando comprar o livro. e foi tudo tão rápido que o livro parte amanhã em direcção às minhas mãos.
[eu gosto de silêncio. até do de elevador. raro, nos tempos que correm.
eu gosto de silêncios. até dos que ficam do outro lado da página, depois de desfolhada]
eu gosto de leitores silenciosos. daqueles que um dia quebram o silêncio e dos outros, daqueles que jamais saberei que passaram por aqui.
agradeço a todos.

Cansado


Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos

quarta-feira, julho 14

O Marido perfeito mora ao lado

a minha querida Zaclis já chegou. na mala, entre outros mimos, trouxe-me este livro: O Marido Perfeito Mora ao Lado, um romance de Felipe Pena. editado em Março.

à procura de informação sobre o autor e sobre o livro, encontrei este filme promocional :) e, aqui, uma entrevista com o escritor. 302 páginas que levaram Deonísio da Silva a escrever o seguinte sobre o livro: «Estamos diante de um grande romance, um dos melhores que tenho lido nos últimos anos. Há um novo romancista no Rio de Janeiro. E dos bons! Quando o segundo passo é melhor do que o primeiro, este é o prefixo que identifica um escritor que tem projeto literário e está empenhado em escrever, não por conveniências da hora, mas por vocação».

a ver vamos. digo eu, com vontade de lhe pegar.

Post-it para Aveloh


beijos, muitos, marta

terça-feira, julho 13

amor-perfeito


às vezes um amor-perfeito nasce no meio do nada. é verdade.
imagem: Belle Heywood

"Subtext" Tales Of Mere Existence



[When you write an Email, are you saying what you REALLY mean?]
Brilhante, como outros do mesmo autor. Ora espreitem :)

segunda-feira, julho 12

Qual foi a última vez que enviou uma correspondência...


A questão é colocada assim:
qual foi a última vez que enviou uma correspondência em papel?
É ali, para os lados de um fórum intitulado "gosto de ler e ver, de prefeência em papel".
Pois bem. Não pensei muito. Foi em Abril. Uma carta e meia dúzia de post-its.
Gosto muito de escrever cartas. Mas quando não tenho tempo, escrevo post-its. Escrevo post-its muitas vezes. Por tudo e por nada. Para me lembrar. Para me esquecer, também. Aliás, não vivo sem post-its. Enquanto escrevo isto, dou conta que talvez seja viciada neles. Quadrados ou rectangulares. Amarelos, quase sempre.
Fazem parte das coisas de papel que eu não temo que desapareçam.
Haverá sempre agendas, livros e jornais de papel. Acredito nisto piamente. Por muito que a tecnologia vá a trote ou a galope. Desenfreado.
O mesmo acontece com o papel de fantasia e os papagaios de papel. Por muito leve e inovador PVC que se invente.
Os papagaios de papel estão lá: na infância, na praia, no parque.
Onde o céu for azul. Mais azul.
Basta pôr o nariz no ar. E narizes empinados não faltam. Só que às vezes não vêem.

sexta-feira, julho 9

Entre santos e serial killers

[li o texto do Miguel Carvalho, primeiro. depois o da Inês Pedrosa. depois fui espreitar se o meu estava lá. fui ler o editorial. depois li o do Rui Zink. voltei a espreitar a ver se o meu ainda estava lá. e estava. li o do Francisco José Viegas, o da Hélia Correia e voltei, novamente,
quase ao fim da revista a ver se era mesmo verdade, a ver se o meu lá estava. e estava.
o nó de emoção ainda está cá. no sítio preferido dos nós. no peito. porque, confesso, uma coisa é admirar a Egoísta de longe, há dez anos; outra, é estar lá dentro.
para agradecer o convite à Patrícia Reis, editora da revista, não me chega nenhum superlativo absoluto sintético. provavelmente, só uma never ending story.
deixo aqui o texto que está nas páginas da EGOÍSTA. leve-a ao micro-ondas, antes de ler.
é verdade. verdade inovadora esta. e criativa. mas isso já todos sabemos. e não é de agora.
a minha já foi. só assim consegui ver esta capa. uma bela homenagem a Lispector.
uma edição inteiramente dedicada à liberdade]

Entre santos e serial killers

Aqui, voltada para o Muro, com uma oração que copiei de um livro, pronta a entalar entre as pedras milenares, sinto-me livre. Livre e grata. Exactamente a mesma liberdade que senti no Santuário da Multiplicação dos Pães e dos Peixes, em Tabga ou na Igreja Ortodoxa de São Jorge, em Madaba.

Depois, na Mesquita do Rei Hussein, de pés descalços e cabelo recolhido num véu, voltei, novamente, a essa sensação de liberdade que a fé ou a dúvida – não estou certa – me dá.

Uma liberdade comovida, mais sentida no Monte das Bem-Aventuranças ou mesmo nas margens serenas do Mar da Galileia. Uma brisa muito leve e uma certa paz, branca e negra como a igreja de Antonio Barluzzi, tomam conta das minhas inquietações.

«Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!» E das oito, mais nenhuma me vinha aos lábios. Talvez por ser a que menos o meu coração entende. Talvez por a terra ser o princípio e o fim de tudo. O grande motivo.

«Se tiverdes a fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível.» Sempre gostei desta parábola e, agora, ver o grão de mostarda feito souvenir, dentro de um vidro, com umas gramas de terra a dizer “Holy Land, 5 Shekels”, a dimensão profética esbate-se. Afinal, não há guerra, que não seja pelo poder da terra. Ainda por cima santa. E não há religião, que eu conheça, que não tenha os seus souvenirs.

A Terra Santa não é fácil. Ponto. Muito menos para espíritos inquietos. Muito menos quando se passam fronteiras. Que uma coisa é passar fronteiras outra, distinta, é ler jornais ou livros. Que uma coisa é imaginar e outra é ver. Ver o muro alto, de betão, coberto de grafites: «hipócritas». Lá o passei, para a Palestina. Tive liberdade para isso. E os que lá estão?

A liberdade religiosa é outra coisa. No seu conceito, dá-nos um certo conforto, pelo menos tal qual está declarada nos direitos humanos. «Todo o homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou
crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou colectivamente, em público ou em particular.»

E na terra das três grandes religiões monoteístas, com um deserto para atravessar, o tempo é outro. Para pensar e rever conceitos como este.
Para olhar para dentro e ouvir. Até porque o deserto tem esse poder escatológico. E sempre foi palco de grandes revelações. Encontramo-nos mais próximos de qualquer coisa, na mesma medida que não a sabemos explicar.

Ali, algures entre um Pai-Nosso do Padre Jardim e uma oração Bahai, do Guiora encontrei, talvez, a melhor definição de liberdade religiosa.
Talvez pela partilha generosa do conhecimento. Talvez pela convicção
com que cada um fez a sua oração. Talvez pela serenidade do abraço que deram. Não sei ao certo.

Sei que me é muito mais fácil acreditar no Bem e no Mal. Que é como quem diz, acreditar em santos e serial killers. Acredito na existência dos dois. Sem rebuço. [Sendo que é muito mais fácil acreditar nos segundos.] São os extremos de que o Homem é capaz. Pelo meio, andamos nós, os que duvidamos. Os que temos fé. Os que copiamos orações e as inventamos. Os que procuramos ser livres. Os que acreditamos, mesmo sem quipá, que há algo acima de nós.
Os que sentimos uma imensa gratidão por termos aprendido a dizer:
«Bem-aventurada é a região e o lugar, a casa e o coração».

[dedico, aqui, este texto ao grupo magnífico que fez esta viagem inesquecível]

Prémio Fotojornalismo 2010

Contas feitas


Arriscar
verbo transitivo e pronominal
1. expor(-se) a perigo(s)
2. sujeitar(-se) à sorte; aventurar(-se);

+

mulher que tem o dom de fazer acupuntura com as palavras. espeta no meridiano certo e sorri. como se não doesse nada. assegura indolência. e ampara.

-

está doer como o caraças

=

a gente vai continuar, do Jorge Palma

Eu, Mariana


[...e por falar em textos em que apetece fintar o fim.
para que não terminem.
fiquem com este. do Miguel Carvalho.]

«Lembro-me dos sons da liberdade chegarem de noite, pela calada, arranhados como uma canção usada. A verdade, naqueles anos, tinha um preço alto e era uma palavra que entrava em casa através de vozes raras e roufenhas. Pousávamos uma cafeteira em cima do rádio velho, a fazer de antena, e sintonizávamos o Portugal livre, que existiria longe da vista, mas nunca longe demais para os nossos sonhos.

Tinha 19 anos e era muito bonita, sabes?

Não punha pé na rua sem as sobrancelhas arranjadas com minúcia e um par de horas diante do espelho. Com a idade e os avessos da vida, a gente habitua-se ao desuso do corpo e dos caprichos. Mas ainda hoje morro de saudades do meu corte de cabelo soixante-huitard, falsamente despreocupado, do meu vestidinho de manga curta e saia acima do joelho, com pequenos e rebeldes quadrados coloridos a cinza e preto, e o sapatinho branco de fivela, de fino e curto tacão. Nos meses frios, não largava a boina – já devia ser tique revolucionário – e o meu amado casaco de gomos, que usava com calça branca. Havia ali um ar vagamente queque, é verdade. E sim, os rapazes rondavam-me, mas eu sempre à míngua de tempo para eles, exceptuando um outro «namorico», de amar e largar.

Graffiti:Tiago Taron/Júlio Pereira

há pessoas assim: multi talentos. no caso, Tiago Taron. pinta e desenha ou desenha e pinta. não sei. eu não percebo nada nem de uma coisa nem de outra. só percebo que gosto e quando gosto muitíssimo, como é o caso, nem sequer percebo. gosto e pronto.

foi dos blogs onde assentei arraiais logo que lá entrei. há talvez um ano. e vi e li. sim, também se encontram por lá textos, daqueles que apetece fintar o fim. para não o encontrar.
eu gosto tanto, tanto dos desenhos do Tiago Taron que ainda não sei dizer quanto. às vezes vou lá espreitar e fico a olhar, assim, só a olhar, com o rato para cima e para baixo e a imaginar o dia em que os verei realmente. o diálogo que estabelecemos - eu e os desenhos - podia dar-me para dizer exactamente o quanto gosto. de verdade. mas não.
dá-me para o silêncio. mas não é aquele silêncio de mosteiro. é mais um silêncio de afasia. que diz muitas coisas, significa muitas coisas, deixa muitas coisas cá dentro, mas não se conseguem dizer. o «baralho dos dias brancos», em exposição, lá, no Amor ao Quadrado, gosto tanto, tanto. tanto como gostei de ler Noites Brancas ou mais.
bem, o que eu gostava de vos dizer, com isto, é que já está à venda um novo disco do Júlio Pereira e os desenhos são do Tiago Taron. eu ainda não tenho o disco. mas vou ter.

A voz de Matilde

foi em Março, Abril. não estou certa. para mim foi ontem. tem a ver com um projecto que tenho em mãos. marquei o número fixo. 21 e mais uns tantos dígitos.
-boa tarde. eu gostava, se possível, de falar com Matilde Rosa Araújo. se possível...claro.
imagino que...
- sou eu.
e eu, em segundos, recordei O Palhaço Verde inteiro. os seus olhos brilhantes e o seu coração de ouro. mas mais viva, a indumentaria toda do palhaço: o casaco, as calças, as luvas, os sapatos. o chapéu da cor do nome dele. recordei tudo. mas escrito pela Matilde.
que é muito mais e maior e mais profundo.
e mais intenso e mais colorido e mais verdadeiro e mais simples.
e eu disse-lhe,
-obrigada querida Matilde, pelo Palhaço Verde. mil obrigadas. obrigada pelos poemas. pelo Mar.
obrigada.
e Matilde, disse-me,
- eu é que lhe agradeço. obrigada eu.
[disse. juro que disse. exactamente assim.
como se o mundo estivesse do avesso, completamente do avesso, Matilde, agradeceu]
e disse isto em voz de fada.
baixinho. muito baixinho.
assim como as fadas falam quando estão quase, quase a adormecer.

imagem: ilustração de Maria Keil

terça-feira, julho 6

A fita vermelha

Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias que tristezas.

Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.

Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.

A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antas, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.

O Quê? Português, francês. Hoje sei, acima de Tudo, o amor da vida.

Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.

Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez cm quando.

Porque, mais que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.

Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.

Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.

Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.

Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.

Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora.

Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste.

A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital.

Olhei o retratinho dela na caderneta.

Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.

– Vou vê-la no próximo domingo – anunciei às companheiras.

E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.

Mas o próximo domingo foi cheio de sol. Sol do próprio astro, quente, luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas.

E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores?

Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar.

Começava a Primavera.

Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo.

Hoje sei que o amor dos outros se não adia.

Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro.

Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido.

Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.

– Estou à espera da professora...

No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança.

A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital.

Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender.

Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.

Lembrem-se como de um ovo de um pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera. T morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo. E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.

E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia.

Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes, contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.

Aurora ensinou-me para sempre esta verdade.

As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo domingo.

Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O Sol. Flores vermelhas.

Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir.

Matilde Rosa Araújo




quinta-feira, julho 1

Um bom poema


um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.

Paulo Leminski

Enciclopédia da Estória Universal

Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores atribuído a Afonso Cruz e ao seu livro Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal).
Apesar da subida do IVA :( é a minha próxima aquisição.
O blog do autor é ESTE. Acabei de o descobrir. Antes tarde do que nunca.