quarta-feira, junho 30

Porto, naçom de falares


«Esta quarta-feira, pelas 18.30, no Palácio dos Viscondes de Balsemão (ao Carlos Alberto), é lançado o novo livro do jornalista e querido amigo Alfredo Mendes. A obra, intitulada naçom de falares (Âncora Editora) é a mais completa recolha de palavras e expressões do calão portuense (ao todo, 1735 termos) e inclui algumas das «estórias» reais que funcionam como bilhete de identidade do Porto.
Depois do sucesso do volume com a história do Café Piolho, publicado na mesma editora e já em segunda edição, o Alfredo regressa com um livro que, segundo Hélder Pacheco, autor do prefácio, representa «um acto de rebeldia contra o cosmopolitismo falsamente progressista, um assomo de autenticidade contra o rasurar das diferenças».
Em Abril de 2009, Alfredo Mendes, então no DN, foi escolhido para integrar um despedimento colectivo, tendo o seu posto de trabalho sido considerado «redundante» pelo mesmo grupo que agora fechou o 24 Horas e o gratuito Global Notícias.
Ao contrário do Diário de Notícias, que continua a afundar-se nas suas contradições, os 30 anos de jornalismo do Alfredo aí estão: vibrantes, talentosos, a dar frutos. Prova de que um repórter de excelência não esquece. E de que o andarilho de terras e gentes que habita dentro dele está mais vivo do que nunca. E recomenda-se.
Aqui ficam algumas das palavras e expressões incluídas no livro, só para abrir o apetite para uma sessão que terá algumas surpresas. Apareçam, pois!»

Cheio de nove horas – petulante
Enchousadela – porrada
Estar de gesso - sem trabalho
Gameleiro – tachista
Lontra – mulher forte, deselegante
Meter para a blusa - comer
Rosquedo – reboliço sexual
Sustrice – preguiça

[copiado daqui. e não é só copiado é subscrito.... na parte do querido amigo...aliás leva reforço: do meu absolutamente querido amigo Alfredo Mendes. a não perder.]

terça-feira, junho 29

Achei no lixo


Achei no lixo um velho caderno de significados
sem nome e com todas as páginas em branco
ando agora a preenchê-lo com as minhas dúvidas
por exemplo dor alegria distracção partilha dádiva
ou com respostas para as perguntas ainda por fazer
por exemplo dor alegria distracção partilha dádiva
logo que esteja completamente preenchido devolvo-o
ao lixo de onde o trouxe com pena de quem o encontrar
velho e usado e com todas as páginas em branco.


Carlos Alberto Machado in Talismã, Lisboa: A&A, 2004

One From The Heart

segunda-feira, junho 28

coisas boas?

...não. coisas boníssimas.

a minha querida amiga está a chegar. os braços estão abertos. vem logo, menina :)
Brasil, depois, só no relvado ;)

Esse comboio de corda


O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração

Fernando Pessoa

ir por aí

[ ir por aí, assim. em paz.]

coisas minhas

não há segredo nenhum nisto. todos o sabem:
tal como há gestos mínimos que nos fazem imensamente felizes,
há gestos mínimos que nos fazem imensamente tristes.
simples. como a vida.
todos o sabem. não há segredo nenhum nisto.

domingo, junho 27

Um Girassol da cor de seu Cabelo

OBRIGADA BRASIL :)

[acabei de a descobrir. obrigada Philippe. o CD é maravilhoso. desde a adolescência que eu não ouvia a mesma música 100 vezes, em meia hora ;)]

quarta-feira, junho 23

Bom S. João


'Quando o dia nos invade
na manhã de S. João,
fica a cinza da saudade,
espalhada, pelo chão'

'Não há fogueira sem lume,
profecias sem profeta;
não há amor sem ciúme
nem S. João sem poetas.'

'Se procuras ser feliz
não olhes para o balão;
o trevo tem a raiz
bem enterrada no chão'


Tinta Permanente
[autor que o ano passado deixou aqui estas quadras]

terça-feira, junho 22

Os objectos chamam-nos


Ele ia todas as semanas a Barcelona por causa de assuntos da empresa e ela imaginava que ele ficava lá para sempre. Barcelona era na sua fantasia um espaço irreal de onde algumas pessoas não conseguiam voltar. O marido, no entanto, voltava e sem ter perdido uma pitada da sua autenticidade. Quase poderíamos dizer que regressava mais autêntico do que quando fora. As terças-feiras, enfim, eram dias felizes até que à noite ouvia deslizar a chave dele na fechadura.
Naquela terça-feira ela teve a premonição de que o avião sofreria um acidente em que pereceriam todos os passageiros.Teve-a antes de sair da cama, com um pé no sono e outro na vigília, e pensou que a ideia lhe sairia da cabeça no duche, ou enquanto estivesse a fazer o café. (...)
Quando ficou sozinha, ligou o rádio e esperou ansiosamente que dessem a notícia. Demoraram um pouco mais de uma hora, mas caíra um avião, com efeito, e era aquele em que seu marido viajava.(...) À hora do almoço ainda não recebera nenhuma chamada, mas não se preocupou por achar que a identificaçãodas vítimas seria muito laboriosa. O importante era que morrera. Venderia a casa, que ficava nos arredores, e iria viver para o centro, para estar perto dos cinemas, dos restaurantes, do bulício. O marido dela nunca gostara de Madrid, e por isso viviam na periferia. Ela detestava a periferia. O seguro de vida era muito alto e duplicava em caso de acidente. Não teria problemas em seguir em frente. (...)
A meio da tarde começou a inquietar-se, mas ligou o rádio e disseram que nem tinham começado as tarefas de identificação.(...)
Às oito e meia, ao ouvir um ruído proveniente da porta, foi até ao corredor e viu o marido entrar com toda a naturalidade. A primeira coisa que pensou foi que era uma aparição. Muitos mortos não se apercebiam que estavam mortos e continuavam a fazer as mesmas coisas que faziam quando estavam vivos. (...)
Deduziu que às terças-feiras não ia a Barcelona, mas sim que se encontrava com alguma amante nalgum sítio muito isolado, pois nem sequer soubera do acidente.
- Não soubeste que o teu avião teve um acidente e que estás morto, meu cabrão?
- O que estás a dizer, mulher?
- Que ainda não te identificaram. Não ouviste a rádio durante todo o dia?
Ele ficou corado de vergonha e durante uns instantes hesitou em fingir que era uma aparição.
- Pois para mim, a partir de agora, estás morto - disse ela, indo para a cama sem ver a televisão.
Desde esse dia ele começou a fazer-se morto e as suas relações, com alguma surpresa, melhoraram inefavelmente. Às terças feiras deixou de fingir que ia a Barcelona e passavam o dia todo juntos, na cama, como se fossem amantes clandestinos.Descobriram a necrofilia os dois ao mesmo tempo e há alguns meses conheceram o prazer de ter filhos póstumos. Agora, por fim, são uma família feliz, normal, das que conhecemos todos os dias e das que nos despedimos todas as noites.
Os caminhos do Senhor são inescrutáveis.


João José Millás in Os Objectos Chamam-nos
imagem: Julia Fullerton Batten
[esta é a segunda vez que transcrevo JJ Millás. uma escrita que merece vénia, na minha opinião. este ainda não li. depois de Julio e Laura ando a ler O Mundo. este excerto roubei-o ao Paulo. com vontade de começar a ler]

Chet Baker - Almost blue

segunda-feira, junho 21

o outro anjo da guarda...

...da minha vida, chama-se Miguel. é verdade.

é verdade...


...eu tenho um anjo da guarda que se chama Paulina.

sexta-feira, junho 18

a maior flor do mundo

No Coração, Talvez




No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"


Imagem: Leila Pugnaloni

sexta-feira, junho 11

Não entendo


Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.

Não entender, do modo como falo, é um dom.

Não entender, mas não como um simples estado de espirito. O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doido.

É um desinteresse manso, uma doçura de burrice.

Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais, mas pelo menos
entender que não entendo.

Clarice Lispector

imagem : Edvard Munch

Caixinha de Música




[gostei tanto que já ouvi quase mil vezes em meia hora. é que adoro caixas de músicas...
obrigada Ricardo :) por esta descoberta]

quinta-feira, junho 10

o que Bach não escreveu


como são os teus dias, a tua respiração no silêncio?
agora, na memória despovoada, o teu sorriso é uma planície sem fim. sem ti. sem ti, está esta tarde de sol, como se os dias fossem todos contigo e eu não soubesse encher de música o espaço entre os dedos.
como são os teus dias, o teu olhar no meu?
sei que o fogo acende noites claras como luas, o fogo acorda sonhos altos, como plátanos e tudo acontece sem ti, tão perto do teu coração sem som, tão longe dos teus sentidos sem nome. gostava de te sentir e que a luz inteira do teu corpo me ficasse na ponta dos dedos, para te ver sempre assim, mesmo quando não souber a cor exacta dos teus olhos demorados.
corre um tempo imperfeito – de pérolas imperfeitas – como os meus dias sem ti; corre por ti um tempo, um compasso, qualquer coisa extraordinária que quase não vejo, mas guardo.
como são os teus dias, as tuas mãos sem rosto?
essa pauta em branco, essa partitura sem voz; esse dó transcrito, cadente.
como são os teus dias, a tua paz sem regresso?
sei a clareza dos teus gestos, a eternidade do indizível, mas não te sei inventar sem ritmo, sem pulso, sem toque. para saber se o mundo se acende; para saber se o desejo é breve, preciso de saber como são os teus dias.
como são os teus dias, a tua dor contra o meu peito?
a música, meu amor, é a fuga do silêncio que pouso nos teus lábios.

quarta-feira, junho 9

Adios Nonino (Astor Piazzolla)

terça-feira, junho 8

As palavras aproximam


As palavras aproximam:

prendem-soltam

são montanhas de espuma

que se faz-desfaz

na areia da fala

Soltam freios

abrem clareiras no medo

fazem pausa na aflição

Ou então não:

matam

afogam

separam definitivamente
Amando muito muito
ficamos sem palavras.


Ana Hatherly in «O Pavão Negro», Assírio & Alvim, 2003
imagem: Franco Gentilini
(para a Angélica, com um abraço enorme)