quinta-feira, abril 23

E se me recomendassem um livro?


E, ainda, para assinalar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, pedia-vos um favor! Que me recomendassem um livro! Isso, um livro de que tenham gostado muito! íssimo!

Eu, ando a ler várias coisas, como sempre! Mas não resisto a recomendar um! Ainda não o terminei e sei que será um dos livros da minha vida!

Chama-se SOMOS O ESQUECIMENTO QUE SEREMOS! E apetecia-me meter férias para o acabar de ler. Assim, de uma vez só! Por outro lado, não me apetece chegar ao fim! Sabem como é? Pois é! Entretanto, e porque falamos de livros, quero agradecer ao Paulo, a descoberta de Ondjaki e à Malina, a descoberta de Ingeborg Bachmann! São novos caminhos que descubro, por aí! E sabem-me tão bem!

Em breve, contarei o que dizem os novos livros do Valter Hugo Mãe. Ontem, fui ouvi-lo à Fnac. A verdadeira História dos Pássaros e O Homem Calado já estão na minha mesinha de cabeceira! Agora, vou visitar-vos!

Obras no planeta

Pedimos desculpa por qualquer incómodo causado! Este planeta está em obras! O antigo layout era de Inverno! Chovia, quase todos os dias! Agora, andamos a tentar arranjar um mais primaveril! Andamos, é uma forma de dizer...porque, na realidade, a minha querida Paula, anda a...eu sou, confesso, uma perfeita aselha [eu acho que escrivi esta palavra com um z, hoje!!!] nas andanças informáticas. Ela, a minha querida Paula, é que põe e dispõe. Tem as chaves cá de casa! Alguma sugestão...pois agradecemos!

Ver, ouvir e sentir Lhasa



Lhasa de Sela - a musa - tem um novo disco! E é com esta música e com este vídeo fantástico que, aqui, ao final do dia, celébro o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor!

Eu eu amo esta pequena, linda, frágil, genial, forte, absolutamente fantástica mulher! Um dia destes, conto como a conheci e o que senti a primeira vez que a vi, ao vivo! Se conseguir atinar palavras e sentimentos. Fechem os olhos e ouçam. Não! Abram os olhos e vejam e ouçam e sintam! [obrigada WOAB. um sorriso para ti.].

quarta-feira, abril 22

António Gedeão e Herberto Helder


Sabes, Miguel, não gosto de António Gedeão como gosto de Herberto Helder.

Claro que não!

Como te disse, descobri António Gedeão com nove, dez anos, era ainda uma criança.

Foi na biblioteca. Descobri-o num livro. Num poema. Numa lágrima de preta.

E foram muitas descobertas numa.

Já tinha lido outros poemas. Nos livros lá de casa. No meu livro de português.

O meu livro de português tinha poemas que, ainda hoje, sei de cor e salteado, como nunca soube a tabuada.Tinha um poema pequenino, cinco linhas, talvez. E nessa altura - já te disse isto - eu achava que poemas eram poucas palavras a dizerem muitas, muitas coisas.

Nesse tempo, eu achava também que poemas eram escritos que adivinhavam coisas nossas. Talvez porque aquele poema - o do meu livro de português - tinha uma coisa que eu também tinha. E só eu sabia disso. E, então, pensei que poemas e segredos eram a mesma coisa.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a palavras para dizer, como aquele, do António Gedeão.

Dei conta que as palavras faziam música.

Nunca um poema fora, para mim, palavras para ler em voz alta.

Depois de ler lágrima de preta, achei que um poema devia ser sempre sentido em voz alta.

E achei mais: achei que um poema era uma coisa útil. Tal e qual um objecto útil que nos facilita a vida. Foi, assim, com lágrima de preta. Descobri António Gedeão e foi com António Gedeão que descobri o que era um pseudónimo. E achei aquilo divertido. E descobri que, afinal, todos temos pseudónimos dentro de nós. Que revelamos ou não.

E, essencialmente, achei que ele fez bem, porque acho Rómulo um nome feio.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez dez anos.

Eu não gosto de Herberto Helder como gosto de António Gedeão.

Descobri Herberto Helder numa livraria. Num livro. Num poema.

Num não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

E foram muitas descobertas numa.

Já antes tinha lido poemas. Nos livros, em minha casa. Nos livros das livrarias.

No meu livro de quinhentas e setenta e uma página de poemas, há um poema que me faz emudecer.Por isso, eu nunca o vou poder ler em voz alta. Só sentir.

É um poema que acontece, que teima em acontecer até ao milagre.

Daqueles poemas que mantêm segredos. Secretos, seguros.

Poemas com guelras. Poemas que adivinhavam coisas nossas.

Poemas raros de carne e rosa.

Poemas de muitas palavras, a fazer sentir coisas únicas.

Mas eu regresso sempre ao não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

Foi com Herberto Helder que descobri a poesia toda.

E achei aquilo tudo. Terno. Eterno. Violento e voraz.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a suor.

Dei conta que as palavras faziam amor.

Depois de ler não sei como dizer-te que a minha voz te procura,

eu achei que quem não o lesse, seria certamente infeliz.

Mas, depois, dei conta que isso de ser feliz ou infeliz é patético,

quando o assunto é aquele poema. E outros.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez vinte anos.

Imagem da livraria Lello: Zaclis Veiga
[texto editado em 2006, ano em que se assinalou o centenário do nascimento de António Gedeão]

Ao som de...

E proponho o jantar ao som de...Camera Obscura! [obrigada Gracinha!]

Coisas que combinam comigo

Eu quero um SMEG só pra mim! Que é como quem diz, para a minha cozinha!

À procura de um certo tom de azul


Quando estou triste, uma das coisas que mais gosto de fazer, é entrar em livrarias e ver livros. [e o mesmo se passa, quando estou contente. Só que de outra forma.

Depois, outro dia, explico a diferença].

Este livro de que falo, agora, comprei-o num desses dias, num impulso. Dizem os estudiosos do marketing que o acto da compra é, acima de tudo, emocional. Mas não foi a capa - muito importante - que impulsionou o meu acto de compra. Foi a pequena sinopse, na contra-capa.

A história passa-se na Veneza de 1295.

«Teresa Fiolaro, uma mulher que há muito tentava em vão ter um filho, encontra um bebé abandonado num estreito canal. Chama-lhe Paolo». E só a partir daqui a história me começa a prender. Paolo cresce numa família de vidreiros de Murano e, na sua juventude, terá por missão encetar uma longa viagem que visa procurar e encontrar o azul - o azul ultramarino - o certo tom de azul extraído das minas de lápis lazúli. É um pintor florentino que lhe dá essa tarefa e lhe financia a odisseia, pois precisa desse exacto tom de azul. Paolo (só a sua mãe adoptiva terá dado conta) vê mal ao longe mas, ao perto, tem uma visão apuradíssima e uma invulgar capacidade de distinguir tons e cores. Reconhecendo-lhe esta capacidade Simone Martini, o pintor, confia-lhe a missão de encontrar a cor do céu. «Essa viagem vai levá-lo para lá do mundo conhecido, através da Pérsia, Afeganistão e China, onde terá a oportunidade para aprender mais sobre as cores, a beleza e o amor, mas também sobre a derradeira diferença entre ver e olhar».

Sim. Mas não só do ponto de vista filosófico. Este livro, da Saída de Emergência, dá-nos um pouco de como a vida de quem vê mal, mudou com a invenção dos óculos. Paolo partiu sem eles, mas regressa com uns. Com uns óculos, um inevitável novo olhar sobre o mundo e...com um amor...

[esta parte do amor é muito bonita. muito bonita mesmo.]


«A data precisa da chegada dos óculos a Itália é desconhecida, mas a 23 de Fevereiro de 1306, na Igreja de Santa Maria Novella em Florença, o Fra Giordano di Rivalto leu um sermão em que observou: "ainda não passaram vinte anos desde que se conhece a arte de fazer óculos, uma das mais úteis artes da terra..."Isto colocaria a data em 1287, o que se ajusta muito bem à referência de Marco Polo ao uso de óculos pelos idosos na China». Mas, para além desta, o autor - James Runcie - faz outras interessantes referências históricas sobre os óculos e deixa-nos saber que em 1462 havia já quem os usasse apenas como ornamento começando aí «a sua história intermitente como acessório de moda». E confessa, em nota, no final do livro: «Ainda acho isto extraordinário: mas eu sou daquelas pessoas míopes que cresceram com óculos de aros de arame do Serviço Nacional de Saúde britânico, mantidos inteiros com fita-cola. Nos anos 60 e 70 isto certamente não era uma vantagem em termos de estilo».


[Um certo tom de azul. A cor do céu. Quem não a procura? Com ou sem óculos...]
imagem: Paulo Vasques

Voltar a Volver


VOLVER é extraordinário! Como já disse, eu gosto de todos os filmes de Almodovar. E gosto de os rever. E rever. Às vezes, como quem regressa a um sítio onde já se foi feliz! Outras, como se nunca tivesse lá estado. VOLVER é uma comédia dramática. Tal como a vida, autêntica. Com saudações de enfiadas de beijos repenicados...gestos ancestrais, detalhes que decalcam quotidianos que, às vezes, temos a tentação de pensar que só nós conhecemos. Mentiras, omissões, apertos, palavras por dizer, histórias por contar, terríveis coincidências. Uma família. Mulheres por dentro. Como só Almodóvar sabe mostrar. E, claro, uma canção, intemporal, que atravessa o filme, nos embala e reconcilia com o passado.

Volver

con la frente marchita

las nieves del tiempo

platearon mi sien.

Sentir

que es un soplo la vida

que veinte años no es nada

que febril la mirada

errante en las sombras

te busca y te nombra.

Vivir

con el alma aferrada

a un dulce recuerdo

que lloro otra vez.


Tão lindo! Digo eu! Assim, sei lá!
imagem: retirada do site do filme

terça-feira, abril 21

Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi

[...] Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem nos meus sonhos. Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi. [...]

[excerto Canção da Saudade]
Almada Negreiros in Obras Completas, Vol. I, pag. 71, Imprensa Nacional Casa da Moeda

imagem: Sonja Valentina

Corrente de ar II


As portas e as janelas a abrir e a fechar... ao mesmo tempo, no mesmo sentido... enfim...correntes de ar! E há recaídas! Se há! Quem se constipa uma vez, pode constipar-se outras :)

Ilusão I

Nem tudo o que parece é! Ora, aí está! Tudo vai da forma...Depende. O certo é que, à primeira leitura é uma coisa e, depois, é outra! Rosto de mulher ou homem a tocar saxofone?

segunda-feira, abril 20

Nuvens e Vento


Ah, não mais ter a consciência de ser, como uma pedra, como uma planta! Não recordar sequer o nome! Estendidos na erva, com as mãos cruzadas na nuca, olhar no céu azul as nuvens brancas que pairam, deslumbrantes, inchadas de sol; ou vir o vento que soa lá em cima, entre os castanheiros, do bosque com um fragor de mar.
Nuvens e vento.
O que disse? Ai de mim, ai de mim. Nuvens? Vento? E não lhe parece que é tudo, olhar e reconhecer que aquilo que paira no azul interminável e vazio são nuvens? A nuvem sabe por ventura que existe? Nem a árvore nem a pedra, que se ignoram até a si mesmas, sabem que a nuvem existe; e estão sós.
Meus caros, olhando e reconhecendo a nuvem, podem pensar até na vivência da água (e porque não?) que se torna nuvem para depois se tornar de novo água. Bela coisa, sim. Para lhes explicar isso, basta um professorzeco de Física. E para lhes explicar o porquê dos porquês?

Luigi Pirandello in Um, Ninguém e cem Mil, pag. 38 e 39, 2003

a verdadeira história dos pássaros...


Eu adoro dizer o nome dele e, só por isso, compro os livros. Para Dizer o nome dele, em voz alta! Tou a brincar! [eu gosto do que ele escreve. bastante. e não é de agora]
Amanhã, dia 21, terça-feira, às 21h30, é dia de conversa na Fnac, de Braga.
Dia 22, à mesma hora, é a vez da Fnac do Norte Shopping. [O cartaz que vi na Fnac, a anunciar o evento, está muito interessante. Mas não o consegui encontrar]
«a verdadeira história dos pássaros» e «a história do homem calado» são motivo para ficar à conversa com o escritor. A chancela é da Booklândia/Quidnovi. E dizem que os livros - estes - são para as crianças. Mas eu vou gostar de certeza.
imagem: Pedro Magalhães

E se fossemos lá, num instante?


Pois é já daqui a dois dias! O concerto! Na "minha" cidade eterna. Dia 22. De Abril. E como não posso meter-me já no avião - porque o fazia, já, já - deixo-vos com Vanessa da Mata e Ben Harpar! Boa sorte!


Fica também a notícia, tal como me chegou! Em italiano [suspiro] Tão bonito! Enfim...
«Vanessa da Mata è una delle voci più importanti della musica popolare brasiliana. Autrice per Maria Bethania, Daniela Mercury e Caetano Veloso, nel 2008 ha vinto il Grammy Award per il miglior album contemporaneo brasiliano. Consacrata dalla stampa mondiale come la nuova diva dell'attuale scena brasiliana, con il terzo album SIM e il singolo Boa Sorte/Good Luck (in duetto con BEN HARPER), Vanessa balza alle vette delle classifiche mondiali, riscuotendo un successo planetario. Vanessa Da Mata e' senza dubbio uno degli artisti più interessanti, eclettici e straordinari che il grande patrimonio musicale del Brasile abbia mai prodotto».

Mais assim...


Eu hoje estou mais assim. E a culpa é do Escher! Ou da segunda-feira. Ou minha mesmo! Será que mais um café, ajudaria?

domingo, abril 19

Diz o que viu


Escreve numa sala grande e quase

Vazia

Não precisa de livro nem de arquivos

A sua arte é filha da memória

Diz o que viu

E o sol do que olhou para sempre o aclara
Sophia de Mello Breyner Andresen in Ilhas, pag. 69, Texto Editora, 1990
Imagem: autor desconhecido

Foi assim que comecei a amar Sophia


O meu amor mais antigo é a poesia. A seguir à minha mãe. Sendo que mãe e poesia são, tantas vezes sinónimo, no meu dicionário de afectos. Tenho a sensação de sentir poemas muito cedo. Mesmo antes de começar a ler. Uma vez, no início da infância, senti muito medo e a minha mãe abraçou-me com muita força. Foi um abraço extraordinário. E eu, dentro do abraço dela, tive uma sensação de poema, que ainda hoje se mantêm. Depois, na escola, os meus livros de leitura tinham poemas que decorei. E só aí percebi que os poemas também se fazem com letras. E recordo-me, por exemplo, que astronauta rima com pernalta. E flor com dor. E contou com enrolou. E lembro-me, de como a febre das rimas tomou conta do meu universo de palavras. Não havendo nenhum remédio para a baixar. Tal como não havia nenhuma palavra que eu não fizesse rimar com outra. Até à exaustão. Da minha mãe. Que dizia: deixa lá!Procuramos amanhã. Recordo-me de pôr o Meio Físico e Social, a rimar com jornal. E ainda sinto a tristeza de não ter sido eu a arranjar uma rima para a Matemática. Andava na primária.

Depois, foram as histórias mais compridas. Não rimavam. Mas a sensação de poema ficava cá dentro. Quando gostava muito delas. Até que, um dia, chegou a Menina do Mar. E eu percebi que os poemas e as estórias eram feitas por pessoas que conheciam outras pessoas, coisas e lugares que um dia, eu também queria conhecer. E pensei na sorte de Sophia! Por conhecer uma menina “de cabelos verdes, olhos roxos, com um vestido de algas encarnadas”. E um Rapaz de Bronze e uma Fada Oriana e um Cavaleiro da Dinamarca. E, depois, por Sophia, descobri que as estórias podiam ter poemas dentro. [Como os filhos, dentro dos abraços dos pais]. Como na estória A árvore, que tanto gostei de ler. E percebi, com clareza, que uma árvore pode transformar-se numa barca. E que, deste modo, uma árvore pode viver no mar. E descobri como um mastro se pode transformar numa guitarra e como essa guitarra pode ter voz. E como essa voz pode ser uma canção e como uma canção pode ser um poema. E como um poema pode ser a memória de uma árvore ou de um povo.

Ensinou-me o espanto. Foi assim que comecei a amar Sophia. Desde muito cedo. Ela cresceu em todos os meus sentidos. Em todo o meu sentir. E percebi, com ela, que não podia viver sem livros. Porque os livros dela me tinham ensinado a olhar para além do aparente. E foi, assim, que a fui procurar às livrarias. Pelo nome. E foi dela, o primeiro livro que eu comprei. Histórias da Terra e do Mar. E, depois, todos os outros que me chegaram. Até toda a sua poesia me entrar, letra a letra, nas veias. E circular como seiva. Até perceber a raiz do “inteiro” e do “original”. Até compreender todas as ilhas que habitam o mundo. Até me apaixonar pela Grécia. Até o mundo, não respirar sem ela. Sem a sua poesia.

E depois, ia-lhe escrevendo cartas. Até que um dia, em Viana do Castelo, durante uma Presidência Aberta, dei conta de nós, no mesmo lugar. Do lado de fora dos poemas. Peguei nas minhas cartas e nos seus livros. Na convicção mais funda do nosso encontro. E nas palavras iniciais que lhe queria dizer. Quando cheguei à Pousada de Santa Luzia, não havia santa que valesse a tanta ansiedade. Não sabia onde por as mãos e, muito menos, o coração. Não sabia nada. O seus poemas todos cá dentro. Como se fossem um só. As palavras apertadas na garganta. Os lábios colados. Quase não respirava. E acho que, mesmo assim, rezei. Para aquela gente ir toda embora. Mas não aconteceu. Até que ela se levantou e eu paralisei. Mas consegui ouvir e ver. E vi-a tão extraordinariamente bela. Tão extraordinariamente sábia. Tão extraordinariamente serena. Que não consegui fazer nada. Nem tão pouco aproximar-me. Admirei-a de longe. Como tinha de ser. Numa afasia total. Numa epifania absoluta. Dentro dos livros. No nosso lugar. Até ao dia da sua morte. Doze anos, depois, daquele dia, em que a vi. Sem a imaginar. Nessa noite de Julho, li-lhe as minhas cartas. Em voz alta. Só lá estava eu. E ela.

«Seu rosto seria a cintilante claridade
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia»
Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, abril 18

Animal olhar



Meus olhos não fabricam

a realidade ou tu:

limpos barcos,

novidade acesa como a terra viva,

movimento de braços, amálgama

exacta duna.


Meus olhos não fabricam mas encontram.


A terra que se enche já vem cheia,

o hálito começa na claridade do céu.

Os homens dançam por vezes.

Este momento é teu.

[...]

Silêncio no teu olhar, na tua boca.

Em tua língua primitiva o mar se olha.

É o deserto e falas, boca brusca

de ignorado alento.

Não te construo, constróis-me, construo-te

Construo-te, mar,

parede pura,

criada.


Aqui onde o sol se acende em carne,

onde a casa é um nome de mar,

e os frutos e os espelhos

amadurecem o corpo solidário:

É Verão.


Aqui tu és

lenta verdade no sossego do sangue:

circulação de nomes e de peixes.

[...]

Esta ciência de inocência e água

se toco, delicado, ou pão ou página,

ou corpo, ou fruto, ou verde folha,

este pisar que é duro e leve,

a frescura e a sombra, o ar, a luz

- tudo me dás, tudo te dou, tudo nos damos.


E a terra mais próxima e as ervas

e os bichos translúcidos entre pedras,

a serena eclosão dos nomes, cabeleira

sobre o corpo fresco, intenso e nu.

Verdade ainda mais próxima dos tranquilos campos,

paz que se alonga às searas por um corpo amado,

renhidamente amado entre a verdura

na noite de estrelas claras e estáticas.


Sobrio o teu corpo me pede

penetração:nomes puros:

os de boca, braços, mãos

sobre a terra e sobre os muros.


Sobrio o teu corpo me pede

nomes justos, nomes duros:

os da terra, fogo e punhos,

claros, acres, escuros.


António Ramos Rosa in Antologia Poética, pag 87,88, 89, Dom Quixote,2001
[excertos de um belo e extenso poema]
imagem: Maria E. Salvador

Pudesse eu

Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite —
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido — não ter medo de nada. Pudesse


eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo —
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse


eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi —
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse
eu morrer,mas ouço-te a respirar no meu poema.

Maria do Rosário Pedreira In O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES, Lisboa, Gótica, 2001

sexta-feira, abril 17

A noite pede música...

...e eu só pedia para já dançar assim...mas eu chego lá :) Se, não, não vale a pena...

A respiração das coisas

Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas – coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos mais tarde, escrevi estes versos:


A voz sobe os últimos degraus
Ouço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha


Sophia de Mello Breyner Andrese in Ilhas, pag.70, Texto Editora,1990
imagem:
daqui

Porque há músicas e palavras...

Porque há músicas que nos riscam a pele como fósforos.
Porque há palavras que se acendem como estrelas.

[para a E. e o E. eles têm esses dons. obrigada aos dois. por me abrirem caminhos novos. já o tinha dito/escrito.
mas nunca será demais repeti-lo]
imagem: Ju Gioli

Coisas que combinam comigo...


...mas não combinam com dieta de redução alimentar! Mas que bem! Diria o nutricionista. Sim, porque há dietas para engordar. Lógico. Mas nunca me tinha ocorrido. Aliás, há tantas coisas lógicas que não me ocorrem! Mas dizia eu, dieta de redução alimentar! E por ter dito tão bem, acho que merecia uma - vá duas - bolachas! Não acha, Senhor Doutor?
imagem: bateboca

quinta-feira, abril 16

Do desemprego


Só quem já esteve no desemprego, pode avaliar. Bem. Convenientemente. Com conhecimento. Como em [quase] tudo na vida! A expressão "eu já lá estive" ou "eu já estive lá" aplica-se para exprimir o quanto compreendemos como é passar por determinada situação.

Ser desempregado [é trazer a alma e o corpo e tudo num frangalho, é puxarem -nos até ao limite da nossa dignidade, e emparedarem-nos no conceito de desempregado de longa duração] é diferente de estar desempregado [algo mais provisório, que dura pouco tempo e mesmo o pouco tempo é sempre relativo, claro]. Eu, pelo menos, entendo-o assim. Pois já fiquei no desemprego, como se diz por aí. Já fiz parte, há alguns anos, das estatísticas desse flagelo social que, agora, sai do "volteio" para ir a galope, sabe-se lá até onde!

E fico, acreditem, agoniada. E fica a doer-me tudo. Como se a dor dos que lá estão, agora, realmente dolentes e tristes, me doesse a mim. De facto. Talvez porque, como disse, já soube o que é levantar-me e não ter para onde me dirigir. A não ser para as páginas dos jornais à procura de anúncios. A não ser para o computador, redigir cartas e curriculuns vitae. A não ser para entrevistas, tantas vezes, surreais. Mas isso seria o menos. Mau, mau, digo eu, é não obter nenhuma resposta, quando se responde a um anúncio de emprego ou se faz uma candidatura espontânea. Nenhuma. Como se não tivessem recebido nada! Como se as nossas esperanças e sonhos e anseios se tivessem extraviado! Para sempre! Será que custa muito responder por uma qualquer via: recebemos o seu CV. Ponto. Ficará em base de dados. Ponto. Obrigada. Ponto. Assim, tipo, como quem diz: olhe, recebemos. Nem tudo corre mal. Ao menos a sua candidatura não se perdeu. Ainda bem que lhe apetece vir trabalhar connosco. Mas, agora, não dá. Só podemos escolher um. Não desespere. Espere sentada. Porque a sua vez, chegará! Ponto final. Mudar de linha. Já não se pedia mais! Ao menos um feed-back. Qualquer sinal!

Será pedir muito? Aos Senhores dos Recursos Humanos. Aos gestores desses processos? Creio que não. Então se soubessem o que é ler o Expresso Emprego até à náusea, veriam que não! Que não é pedir muito! Ao menos que o trabalho da Revista Visão; ao menos, pelo muito menos, quem acompanhar diariamente estes desempregados dê conta da urgência de mudar atitudes, procedimentos. Sensibilizar para as pequenas coisas que em todo este processo e seus desdobramentos, podem ser feitas, sem investimento de dinheiros! Eu sei que as mudanças de mentalidade são difíceis e lentas! Mas, caramba, fazem a diferença. Principalmente para quem está emparedado no conceito de desempregado de longa duração!
Porque quem lê anúncios e envia CVs até ao desespero, precisa de um sinal. Precisa, ao menos, que lhe digam que a sua vida não se extraviou, nem foi trocada por outra!
Definitivamente!

O espaço com Helena Almeida dentro


Antes tarde, do que nunca! É o que sinto relativamente ao meu encontro com o trabalho de Helena Almeida. A primeira vez que vi trabalhos seus foi num dos mais belos edifícios da Invicta: a Alfândega. Creio que numa exposição realizada pela Galeria Cordeiros. E gostei tanto tudo íssimo do que vi. E ficou-me cá dentro. E fui em busca desse caminho. E continuo. O espaço por dentro ou o espaço com Helena Almeida dentro, encanta-me! E, ontem à noite, às voltas por aí, soube aqui, de uma exposição sua que inaugura já amanhã. No MEIAC - Museu Extremeño de Arte Contemporáneo, em Badajoz. Vale a pena! Estou certa disso!
imagem: Helena Almeida

quarta-feira, abril 15

Guardar uma coisa


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la

por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.


Antonio Cícero
imagem: Adam Dzidowski

Poemas de jantar

+



+


(...) Sou uma impudência
a mesa posta de um verso
onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Ora aí está: uma francesinha, uma stout [a minha cerveja preferida], e um excerto de A defesa do Poeta, de Natália Correia! Tão pouco! Para ser feliz! [por favor, ala privada, não perguntem pelos bróculos :)]

Contigo é isso tudo

Se eu te mandasse atirar de uma ponte
atiravas-te?
claro
porque a água era límpida e tinha um tesouro no fundo
mas se fosse um viaduto?


é evidente que caía no colo de uma bruxa que me raptava
e tu ias
[buscar-me e tiravas-me do caldeirão e isso tudo

isso tudo?

pois
isso tudo
contigo é isso tudo
se me mandas morrer
vivo
se me fazes sofrer
é sem dor
se me traíres
vai ser contigo
se me amares
é com outro
dás-me um chuto
e vou de ioió
e se o cordel sair
volto num pião


não há maneira
não há forma
não há jeito


vou voltar para ti mesmo que não queiras
mesmo que não gostes
mesmo que não existas
mesmo que me finem as forças
mesmo que sejas a imagem de um filme a preto e branco em que eras o cinzento]


e não te conheço
e não te mereço


mas amo-te e isso basta
não basta?
basta
não basta?
o amor chega
não chega?
ou queres que leve flores?

João Negreiros, in O Cheiro da Sombra das Flores, pag.71 e 72, 2007
imagem: autor desconhecido

terça-feira, abril 14

O lado esquerdo de uma mulher


Cara Isabel,
Ao ler este mail é essencial que tenha fairplay, como acho que tem. Mas é fundamental que não olhe para mim. E este momento é decisivo. Continue, por favor, mas não olhe para mim. Ficaria embaraçado, talvez. Apesar de eu, aqui na empresa, por força das circunstancias, ser o homem que mais longamente olha para si. Ou melhor, ser talvez o único homem que olha para o seu lado esquerdo oito ou mais horas por dia. Estamos a palmos de distância um do outro. Duvido, aliás, que alguém, alguma vez, olhasse para o seu perfil como eu olho, quase há quatro meses. Todos os dias úteis. E não é fácil. Olhar diariamente para o seu lado esquerdo, principalmente quando a janela que está à minha frente (do seu lado direito) deixa, a determinados dias e a determinadas horas do dia, passar uma luz que a desvenda, tantas vezes, sensualmente. Não me leve a mal. Mas é assim há quase quatro meses. E hoje resolvi-me a dizê-lo. Hoje, vou falar-lhe do seu perfil. Do lado esquerdo. Portanto, isto não é um mail de trabalho, como vê, é só destinado a si.

O sinal que tem, um pouco abaixo do maxilar, um tanto distante das maças do rosto é o primeiro que me chama a atenção. Consigo perceber, a veia que passa junto ao seu queixo e depois desaparece. O seu queixo tem um traço elegante. Gosto também do perfilar das suas pestanas, da ponta do seu nariz e das rugas de expressão que se distendem na sua testa como linhas de minas 0,5, às quais não consigo ver o fim. Quando sorri, as suas maças do rosto são a saliência mais sexy da sua face. Quando o usa, gosto particularmente do seu decote. Como imagina, é o perfil do seu seio esquerdo, que melhor conheço. Faz-me sempre lembrar de um trecho que li cujo o autor, nesse momento, nunca me vem à memória.Quando traz uma camisa de linho, a luz, deixa perceber ligeiramente o seu soutien. Há um cuja cor não consigo determinar. Mas é escuro. Não é preto. Percebem-se os tons.
Acho graça à forma como as migalhas das bolachas, quando as come à secretária, caem no seu decote. E sempre que bebe o iogurte líquido fico na expectativa de a ver com um bigode branco. Mas nunca aconteceu. Gosto muito do seu pescoço e, nestes quatro meses, nunca a vi sem brincos. Daqui, da minha secretária, o seu pescoço pede beijos. Sabia disso? Porque é liso e parece muito macio. Como se chamará o seu perfume, que nem sempre usa, e cujo o aroma se intensifica aqui, do lado esquerdo.
Gosto das suas mãos. A esquerda, é a minha preferida. Ao contrário da minha, não tem aliança. A que observo melhor, é a esquerda. Que surpresa. As unhas são perfeitas e, às vezes, a cor com que as pinta, combina com o seu batom. Penso em quais serão os desejos atados no seu pulso esquerdo, na fita do Senhor do Bonfim. Gosto da forma como desentala o cabelo, quando veste o blaser. Fico aqui a observar o seu lado esquerdo, enquanto o veste, quase sempre, em frente à sua secretária. Gosto das pontas desalinhadas do seu cabelo do lado esquerdo, da forma como o tenta arrumar para o lado direito, com a mão direita. Raramente usa a esquerda.
Gosto da forma como de vez em quando sorri para o seu computador. Gosto também de a ver séria. E já reparei que só fala ao telefone, do lado esquerdo. Às vezes, quando a sua cadeira desliza na direcção da minha secretária ouço sem querer as suas conversas. Ouço nitidamente a pessoa que está do outro lado, a falar ao seu ouvido esquerdo. Quando a cadeira desliza para traz, cruza a perna direita sobre a esquerda, raramente o inverso. E quando analisa papeis, por momentos, deixa a mão esquerda pousada sobre a haste esquerda dos seus óculos. Infelizmente, raramente vejo as suas pernas. Nem a esquerda, nem a direita. Da cinta para baixo, bem que podia ser uma sereia, que daqui, não vejo. Ainda bem que não é.
Um pouco acima do seu cotovelo esquerdo existe uma disposição interessante de sinais. O seu ombro esquerdo…tanto que eu poderia dizer sobre o seu ombro. Foram muito poucas as vezes que em todo este tempo vi os seus ombros descobertos.Poderia dizer outro tanto sobre o seu lado esquerdo. Mas começo a achar-me um imbecil. Só espero que não pense que os homens são todos uns sacanas. Não. Não são todos. Os piores talvez sejam os mal - casados como eu. E os mal-amados como tantos. E agora pode apagar este mail e fazer de conta que não o leu, que não lhe chegou. Ou, passar a tratar-me por tu e dizer: António, não queres ir ali ao bar tomar um café? E, com inteligência, pode pôr-me no meu lugar. E talvez eu deixe de observar, tão obstinadamente, o seu lado esquerdo.
imagem: Eduardo Cambuí Junior
[apesar de escrito em 2005, dedico este texto ao Paulo, meu professor, pois foi este um dos textos que me abriu as portas para o curso e, muito, tanto, tudo importante, me permitiu conhecer pessoas absolutamente maravilhosas. Com quem aprendi e aprendo muito.]

Mimos, blogs e selos

o leio desde 2005! É verdade! É meu desde essa altura. E tenho aprendido por lá. Feito muitas descobertas! E, agora, recebo um selo, como se fosse uma carta :) Obrigada querida menina que já foi pássaro! Das tuas asas - digo - mãos, é uma honra! Nem todos os dias penso, é certo! Mas agradeço-te o gesto. Muito. E dizem-me para nomear mais dez. E eu nomeio os seguintes jovens pensantes :) Assim, por ordem de chegada ao meu pensamento:

Miguel; Diva, Sonja; Claudia; Eduardo; Dalaila; Eduardo; Miguel; Paulo; Filipe

[Agora, as regras mandam que os meus nomeados utilizem o selo para me escreverem uma carta, combinado?!] Tou a brincar :) Mas bem que podia ser a sério, uma vez que eu adoro ler cartas!] Quem recebeu o selo deve passá-lo a mais dez. Ou então, fazer de conta! Ou, ou...ou! O que quiserem e como quiserem, para mim está bem!

Cotidiano nº 2


Há dias em que eu não sei o que me

passa

Eu abro o meu Neruda e apago o sol

Misturo poesia com cachaça

E acabo discutindo futebol



Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão...



Acordo de manhã, pão sem

manteiga

E muito, muito sangue no jornal

Aí a criançada toda chega

E eu chego a achar Herodes natural



Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão...



Depois faço a loteca com a patroa

Quem sabe nosso dia vai chegar

E rio porque rico ri à toa

Também não custa nada imaginar



Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão...



Aos sábados em casa tomo um porre

E sonho soluções fenomenais

Mas quando o sono vem e a noite

morre

O dia conta histórias sempre iguais



Às vezes quero crer mas não consigo

É tudo uma total insensatez

Aí pergunto a Deus: Escute, amigo

Se foi para desfazer, porque é que

fez


Vinicius de Moraes in Livro de Letras, pag. 139, Companhia da Letras, 1991
imagem: Fernando Penim Redondo

domingo, abril 12

Dias de [procurar a] sorte

...ora procurem lá, um de quatro folhas :)
imagem: Celina Mendes

Dias de pontes...para a vida

imagem: Marta

Dias do mesmo rio, noutro lugar

imagem: Celina Mendes

Dias de novos caminhos

imagem: Celina Mendes

Dias de segredo

imagem: Filipe Pereira

Dias de liberdade

imagem: Filipe Pereira

Dias de culto

Igreja de Almendra. Vila de amêndoas. Doces. Vila de amigos. Queridos. Vila de tradições. Senhora do Campo. A padroeira. A sua festa comemora-se por estes dias.
Em Almendra o Compasso Pascal não vai às casas. «Há mais de 40 anos... menina! É verdade! Já não há padres suficientes. O nosso, é nosso e de mais sete freguesias aqui ao redor. Anda sempre a correr e já tem mais de 70 anos!», explica-me a Senhora Dona Conceição.

imagem: Filipe Pereira

sábado, abril 11

Dádiva II

[a postar em condições adversas! depois conto! porque a rede falta a qualquer momento! deixo-vos com esta bela música que me acompanha em pleno parque natural do Douro Internacional...]

Dádiva


Tomai e recebei!

sexta-feira, abril 10

Deve ter 237 anos [II]


[cont.] E, mesmo incrédula, anotei: o coração não é um lugar seguro. E o adivinhador de passados perguntou-me como o tinha encontrado. E eu disse-lhe que tinha sido ele o primeiro encontrar-me. E ele disse que acreditava. E pediu desculpa por não o saber. Pois só sabia adivinhar o passado das outras pessoas. Não o dele. E, então, pedi-lhe ajuda. Expliquei-lhe que tinha inventado um abraço e andava preocupada. Porque apesar de ser passado, continuava a dá-lo todos os dias. A alguém que também tinha inventado. Ele sorriu. E eu corei. E perguntei-lhe se podia ajudar-me a deixar de dar esse abraço. E ele disse que era muito difícil. E pedi-lhe que procurasse nas gerações inteiras de palavras que o habitam, uma solução.
E ele anotou: abraço inventado. Em pessoa inventada. Urgente. [cont.]
Imagens: Sanithna Phansavanh

quinta-feira, abril 9

A Páscoa pelos rituais

[Para a Cristina. Onde quer que esteja]

Naquele tempo, a Páscoa chegava-me pelos rituais. A casa era o primeiro. Saia tudo do lugar. Para ficar tudo no mesmo lugar. A Cristina começava, pelo menos, quinze dias antes. Abriam-se as janelas, demoradamente. O sol entrava, demoradamente, na sala de estar, voltada para o terraço. E as cortinas ondulavam serenas nos reposteiros altos. As pratas brilhavam mais. As toalhas brancas cheiravam mais a linho. E a louça Vista Alegre era, ainda, mais alegre. E os copos de cristal tilintavam mais. E a minha mãe chamava mais vezes pela Cristina. E ela corria pela casa toda. De uma ponta à outra. Uma azáfama. Até ficar tudo puro e sagrado como água benta. A dispensa, ao lado da cozinha, cheirava a pão-de-ló e a doces de ervas e açucar. E na sala de jantar, a mesa abria-se e o carrinho de chá ficava vazio, para pousar as travessas. A cozinha era, então, poucos dias antes, um reino de pequenos saberes. E sabores. No quintal, a terra revolvia-se e os canteiros tinham muitas flores. Até os peixes vermelhos, no lago, pareciam novos. O pessegueiro, todo cor-de-rosa, vestia-se de novo. Como todos os anos, por aquela altura. O limoeiro ainda tinha limões e as pereiras já não tinham peras. E o quintal cheirava a tangerinas. Depois, a Páscoa, chegava também pelas roupas novas. Para mim e para os meus irmãos. A Cristina também tinha roupa nova e um avental novo. E ficava tão feliz! E nós com ela. Porque a Cristina sorria como se fosse a mulher mais feliz do mundo. Mesmo quando partia alguma coisa, lá em casa. Sorria. E pedia desculpa. E dizia, foi sem querer, minha senhora. E a minha mãe dizia que ela não tinha juízo nenhum. E eu pensava que ter juízo não era importante. Quando se sorria assim. Com a boca. E com os olhos. E com as mãos. Naquele tempo, o que eu mais queria, era sorrir, assim, como a Cristina. Por dentro e por fora. Depois, no dia de Páscoa, de manhã, muito cedo, íamos para o quintal, eu e os meus irmãos. E a minha mãe, à nossa frente, escolhia as flores e os arbustos que podíamos usar para fazer a passadeira para o Compasso passar. E, mais tarde, a minha mãe confiou-me essa tarefa. E eu, com uma tesoura, cortava, com muito cuidado, as flores mais débeis. Tirávamos-lhes as pétalas e fazíamos uma espécie de pot porri. E as nossas mãos ficavam com o cheiro da Primavera. Depois espalhávamos tudo, em desenhos pouco geométricos, deste o portão, até à porta do halle da entrada. O vinho do Porto já estava na mesa do centro da sala de estar, quando ao longe se ouvia a sineta do compasso pascal. Depois, a minha mãe colocava dinheiro num envelope e pousava-o junto da taça das amêndoas. O meu pai arranjava o nó da gravata e colocava um cartão de visita, dentro do envelope. A minha mãe, voltava a abrir o envelope, e tirava o cartão. E dizia que quando se dá, ninguém precisa saber quem deu. E voltava a fechar o envelope. Definitivamente. E o tilintar da sineta agudizava-se mais e mais, até o som de metal entrar todo dentro da casa. Os meus pais beijavam a cruz. Eu e os meus irmãos e a Cristina beijávamos a cruz e o Senhor Padre dizia sempre algumas palavras, como se rezasse. Benzia-nos a nós e aos móveis e a tudo em volta. Depois bebiam um cálice de vinho, despejavam as amêndoas para um saco de pano e pegavam no envelope. A sineta voltava a manifestar-se, estridente, até à próxima casa. E depois, antes do almoço, íamos à missa. E quando voltávamos o meu pai ficava a ler o jornal como se fosse um dia qualquer. Os meus irmãos brincavam. A minha mãe e eu púnhamos a mesa. Uma mesa nova, como as nossas roupas. E com flores no centro. Da cozinha, a Cristina fazia caretas, quando a minha mãe não via. E sorria. Como se fosse a mulher mais feliz do mundo. Como se soubesse que em todas as Páscoas, mesmo as que não me chegam pelos rituais, eu me lembraria sempre
do seu sorriso.
[Boa Páscoa! Estimados visitantes, deste mini planeta:)]

Imagem: José Pedro S. do Amaral

quarta-feira, abril 8

Deixa-me ser

Deixa-me ser assim só/ Ser nuvem, ser dó/Ser vento, ser norte/ Ser alma, ser sorte/ Ser dia nenhum/ Deixa-me ser margem/ Do rio que sou/ Ser rua estreita/ De qualquer viela/Ser barco à vela/ Do mar que não vejo

Imagem: Armindo Moreira

Jogo do Galo


Simples e divertido!

Sabias que...

...o Parque da Cidade para além de ser um espaço verde, tem espaço para andar de bicicleta?

Um coelho - anão...é verdade!

[A partir de hoje, tudo pode acontecer! Cedi e, agora, pronto! Mas como não ceder a um pedido da E.? Não tenho blog e tal... (um sem-blog é como um sem-terra, já repararam, claro!) e preciso Marta querida, querida Marta (aqui eu ainda não sabia o que ela ia pedir, mas já tinha decidido que sim) que publiques este texto, no teu blog, que escrevi para o Alfredo, (eu pensei, assim, tipo, é uma carta de amor, apaixonou-se...) o coelho da minha irmã!!!! Ganhou um prémio e ela está tão feliz e... pronto. Como não publicar o texto sobre o Alfi... (para os amigos ) e ...pelos amigos! Sim. A partir de hoje tudo pode acontecer. Neste blog! Deixo-vos, com o texto da E.]

Agora, confesso-me, até eu gosto do Alfredo. Eu, que resisti a todas as suas tentativas de aproximação. Eu, que só não o comi, porque me restam alguns princípios e algum (pouco) bom senso. Eu, que numa tentativa de o diminuir, sempre lhe chamei rato – ou ratazana – às vezes. O Alfredo é um coelho. Um senhor coelho. Agora, o mais medalhado elemento da família F. Discreto, com gostos muito próprios e vincados por cabos e carregadores de telemóveis. É um coelho receptivo às novas tecnologias. Propenso a saltar para os teclados dos computadores e com as suas patinhas (sim, agora já não são patorras), a escrever frases inteiras de carinhos coelheiros. Eu, comum mortal da raça humana, não poderei nunca entender os seus saltos mortais para trás do sofá, ou o porquê de insistir em comer folhas de papel, cartão e fichas eléctricas. Tão pouco, o seu descontrole intestinal que chega a ser assustador. Intrigam-me também as suas poses de múmia, quando entra em transe e nem um tufão o faz mexer. Aliás, foi num desses seus momentos Zen, que a máquina fotográfica captou o instante que viria a ser premiado. Tenho tido vários arrufos com o Alfredo. Verdadeiros braços/patas de ferro. Ele, às vezes, irrita-me solenemente. Faz barulhos estranhos enquanto tento escrever. Olho para ele, enfurecida, e ele cala-se. Volto a escrever, e ele recomeça... Salta que é uma coisa louca! E, diga-se, só estou com ele aos fins-de-semana. A primeira vez que o vi, não consegui perceber muito bem onde começava e onde acabava. Ou melhor, qual era a parte dianteira e traseira. Talvez o problema não seja dele. Não deve ser de certeza. Até porque ele já ganhou um prémio de beleza e eu não. Apesar disso, temos algumas características em comum: somos Sagitários, somos roda baixa, gostamos de cenouras, gostamos de escrever, e a mãe dele até tem o mesmo nome que eu. O pai chama-se Patusco, o que me leva a crer, que terá também algumas semelhanças com o que o futuro me reserva. De resto, o Alfredo é o Alfredo. Um coelho-anão, que ontem conseguiu fazer-me rir quando a tarde ameaçava dilúvios. Alfredo, estou contigo! E faço o apelo: vamos eleger este coelho como o melhor do ano! Todos juntos, em nome desse sentimentalismo coelheiro que nos une, nesta altura da Páscoa! Bem haja ao Alfredo e à P., a minha mais preciosa caixinha de surpresas. E.

Dedicada ao Homem do Leme, Funes, o memorioso...

...isto porque os ovos Kinder são para quem os merece!

«E mais que uma onda, mais que uma maré.../Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé.../Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,vai quem já nada teme, vai o homem do leme.../E uma vontade de rir nasce do fundo do ser./E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,/a vida é sempre a perder...

terça-feira, abril 7

E o camião quase a chegar e a estória por escrever


Sabes António, estou aqui numa situação inacreditável! Uma mesa, enorme, com pessoas à volta a analisarem um projecto urgente. Falam de estratégia, de campanha, de investimento, de retorno. Imensas coisas, António! E eu não entendo nada. E o pior, é que saem estas pessoas e entram outras, de seguida. Às vezes, nem consigo almoçar! Tem sido assim, por estes dias, António. Tenho a certeza que se enganaram! Só pode! Na terceira reunião [é assim que chamam a estes encontros em que se fala, fala, fala e nunca chega um bolo para cantarmos os parabéns...porque é evidente que quando se reúnem pessoas à volta da mesa, chega sempre um bolo e velas... mas aqui, não...] alguém se lembrou de me pedir a minha caneta emprestada, António! Acreditas? Pois! Nem eu acreditei! E depois, como não escrevia, disseram-me que não tinha tinta!! Imagina, António, tinta...
E eu, sempre a olhar para o relógio, disfarçadamente, claro.O tempo a passar e eu sem nenhuma estória! E o camião quase a chegar e ninguém arredava o pé dali! E eu sempre muito angustiada! Como ficarias desiludido, António, se entrasses ali, naquele momento! Até eu estava estranha. Sem sapatilhas! Estava com aqueles sapatos que tu não gostas, porque fazem barulho!
Para me abstrair pensei no Antonejo, o caranguejo, no Ouré, o ouriço do mar, no Guiminho, o lobo marinho, na Mariela, a estrela do mar, no Tubarel, o tubarão brincalhão e na Francibela, a sereia! Pensei, ainda, na Benedita, a bruxinha que veio de Praga, de avião, porque tinha a vassoura avariada! Pensei no quanto ela gosta de cerejas! [Lembras-te? Comeu as dela e as do José...]. E no quanto eu gosto de ti – tanto, tudo, íssimo António - e nas coisas que me ensinas.
E no que sinto, quando me ensinas a ver, com o rosto emoldurado entre as tuas mãos, a pedir em silêncio, olha para mim!
E eu olho e vejo que tudo faz sentido. Claro que faz, António!
Penso em todas as estórias e personagens das nossas brincadeiras para ver se o tempo passa mais depressa! [É engraçado António! Quando estou contigo, o tempo passa depressa de mais e, aqui, à volta de uma mesa, onde nunca chegam bolos de aniversário, o tempo emaranha-se e demora demasiado].
Estou apreensiva, António! Daqui a pouco, ouvirei o motor do camião, junto ao rio e temo não ter a estória pronta! Porque eles não saem daqui, António! Devem ter-se enganado, estes senhores das estratégias, das campanhas, dos investimentos e dos retornos!
Entraram na porta errada! Não sabem a verdade. Não sabem nada!
Não vêem como tu vês! Não descobrem, como tu descobres!

- Sabes tia, eu já sei o que fazes no teu trabalho! Escreves estórias com uma caneta mágica que tem sempre tinta! Depois, vai lá um camião, todos os dias, buscar as estórias para as lojas, para os pais comprarem e lerem à noite!

Pois é António! Mas só tu sabes, meu amor! Só tu descobriste!


[É tão bom crescer contigo! Feliz aniversário, António!]


[parabéns pais!]

Um hemisfério numa cabeleira

Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sequioso na água de uma nascente,e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar. Se tu pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma dos outros homens viaja sobre a música. Os teus cabelos contêm um sonho inteiro, cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e de pele humana. No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto a formigar de canções dolentes, de homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando as arquitecturas finas e complicadas sob um céu imenso onde se pavoneia um calor eterno. Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das horas passadas sobre um divã no camarote dum belo navio, embaladas pelo arfar imperceptível do porto, por entre os vasos de flores e as bilhas que refrescam a água. No lume ardente da tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado com ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas praias acetinadas da tua cabeleira, embebedo-me com os odores combinados de alcatrão, de musgo e de óleo de coco. Enquanto mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações.


Charles Baudelaire in O Spleen de Paris, p.49, Relógio Dágua,1991
Imagem: Molin Rouge

segunda-feira, abril 6

Onde se confessam os pianistas?


«Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto, cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento.
Porque ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

Basta-me escutar. Escutar não tanto a superfície das conversas, mas a dor que dentro delas nada silenciosamente. Os pianistas confessam-se nas teclas, no modo de atacar as notas. Sei quem são Adriano Jordão e Theodor Paraschivescu, conheço-lhes a infância e os sonhos, porque os ouvi tocar. (...) Ah, a terrível bondade daqueles a quem nenhum sentido falta. Esmagam-me de compaixão. Falam-me alto, espaçadamente, como se eu também fosse surda. Agarram-me no braço, continuamente. Queria conhecer alguém que tivesse a sensibilidade de me tocar apenas com o olhar. (...)».

Inês Pedrosa in A Eternidade e o Desejo, pag. 136, 137, Dom Quixote,2007
Texto a bold: fragmento discursos de Padre António Vieira
Imagem: Di Cavalcanti


[para a minha querida E.]

Corrente de ar


Ninguém está imune! Uma corrente de ar [es] e pronto! O vírus passa. E os Ray Ban ficam!! Intocáveis! De facto, o blog da Patti, é muito interessante! Mesmo! Dempsey, à parte!

domingo, abril 5

Oito à volta da mesa

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O acordo não foi ortográfico! Foi gastronómico! E entrou em vigor ontem à noite, à volta de uma mesa para oito. Eu e o João, equipa portuguesa. A Zaclis e a Sonia [sem nenhum assento], equipa brasileira. Enquanto a música corre, da cozinha, saem, a bom ritmo, caipirinhas. Limas, morangos, cachaça, açúcar, gelo. A sala aquece. Voltada para o jardim. As entradinhas boca dentro. Isso é o quê? Prova. Prova. Hummmmm. Que delícia! Muito bom! E como se faz? As perguntas e as respostas. A explicação possível! Em busca de uma imagem que fosse buscar o significado ao outro lado do mar! Não pode ser! Chama-se assim?! E cá, como se chama? Nossa!
Eu e João, incumbidos de pôr na mesa pratos de sabor bem português. Já fizemos dupla na cozinha, de outras vezes. Desta, a responsabilidade pesa mais. É como mostar a cidade ao coração! Talvez!

A Zaclis à volta de uma torta Mineira! Uma aventura! De comer e chorar por mais! Que os brigadeiros já estavam a postos para o café! E a conversa ininterrupta noite fora. Quase a volta ao mundo numa noite! À volta de palavras, à volta de viagens, à volta de livros. Experiências. Estórias relatadas na primeira pessoa. A Prosa, Douro D.O. C, reserva de 2006, enchia os copos de pura poesia.«Cor grenat, aromas a fruta madura vermelha e com um elegante toque a madeira. Encorpado com taninos elegantes e com um final de boca rico e prolongado». Prolongado foi o serão e o remate com um Vinho do Porto, vintage, de 1988!

Tudo tão bom! A companhia excelente! A mim, soube-me a vida!

sábado, abril 4

Ajuda-me a olhar



Diego no conocía la mar. El padre, Santiago Kovadloff*, lo llevó a descubrirla.
Viajaron al sur.
Ella, la mar, estaba más allá de los altos médanos, esperando.
Cuando el niño y su padre alcanzaron por fim aquellas cumbres de arena, después de mutcho caminar, la mar estalló ante sus ojos. Y fue tanta la inmensidad de la mar, y tanto su folgor, que el niño quedó mudo de hermosura.
Y cuando por fin consiguió hablar, temblando, tartamudeando, pidió a su padre:


- Ayudame a mirar!

Eduardo Galeano, La función del arte, in El Viaje,pag.27, H Kliczkowski, 2006
imagem: autor desconhecido

*Santiago Kovadloff

sexta-feira, abril 3

A noite pede música

Coisas que me irritam solenemente

Porque é que há pessoas que não querendo atravessar a rua escolhem a boca das passadeiras para colocarem a conversa em dia???? Tanto café, tanto banco de jardim, metros e metros de berma de passeio...mas não! Têm de parar ali! Haja ou não semáforo para lhes dar a vez que, afinal, não querem! Paramos, como manda o código mas, acima de tudo, o civismo, e as pessoas teimam, porque teimam, em dar-nos a vez, a nós automobilistas, felizes, com a boa acção, talvez! Porque não atravessam e, se não querem atravessar, porque param na entrada da passadeira a conversar????!!!!! Com tanto café, tanto banco de jardim... Arre...

quinta-feira, abril 2

A Biblioteca Infinita


Cheguei lá através do Devida Comédia. Espreitei e gostei. Não tencionava demorar muito. E demorei. Descobri várias coisas. Interessantes. Mas gostei muito, tanto, tudo de três textos. Com eles e sob o título «O meu coração pertence a estranhos», Alexandre Gamela, ganhou o XII Concurso Literário Hernâni Cidade. Deixo aqui este. O essêncial está nO Lago. Aliás, acho que está lá o mundo inteiro. Aos posts.

Mas vão lá ver e ler...Vale a deslocação. É já aqui.


Um blogue não é apenas um pedaço de realidade ou inteligência, é também ficção. É a oportunidade de qualquer um, com a suficiente educação e meios digitais, poder recriar o seu universo, escrever os livros que estão nas prateleiras da Biblioteca Infinita, deixá-los à mercê do olhar de outros. Escrever um blogue é como falar ao ouvido de estranhos, sem nunca podermos saber qual será a sua reacção, se a tiverem. É também uma mão estendida à identificação e à aproximação de indivíduos que de nunca de outra forma se encontrariam, é o ultrapassar das barreiras físicas através da partilha pessoal, intelectual e espiritual. E a cada pedaço que cortamos do nosso cordel para criarmos mais um nó, abrem-se possibilidades inimagináveis. Os volumes amontoam-se por magia nas prateleiras que ladeiam a nossa exploração sem fim, cada um com o seu traço, cada um prestes a ser descoberto. É o fruto e expressão desse mundo em contínua expansão onde a única barreira – e cada vez mais ténue – é o idioma, e as suas sementes são a partilha, o exercício da liberdade e, também, narcisismo. É escolher um pouco de nós e mostrá-lo a quem quiser ver.
Em cada segundo que se demorou a ler este texto foram criados 1.4 blogues, e publicaram-se 1000 posts por minuto. Nunca se leu nem escreveu tanto, o que só nos faz pensar quão longe estamos da revolução provocada por Guttenberg.

A caneca arrefece de vazia, mas ainda vive lá dentro o cheiro do café. Da janela podemos ver a rua, onde, no meio da multidão que prossegue no seu rumo, há já quem nos conheça, há já quem se tenha cruzado com os nossos pensamentos, há quem nos tenha influenciado, sem nunca lhes termos visto a cara ou sentido a vibração da sua voz. Somos figuras de carne e osso anónimas que se assumem famosas no mundo virtual. E a nossa obra não tem um fim, como nos romances.
Voltamos para a frente do ecrã, a nossa janela para as ruas cheias de janelas de todo o mundo, colocamos as mãos em cima do teclado, e começamos.


Alexandre Gamela in O meu Coração Pertence a Estranhos
Imagem: biblioteca infinita daqui

quarta-feira, abril 1

A mulher que não vende a SMS

Lê o jornal na diagonal, a correr. Só os títulos e os leads. Não dá para mais. Só as notícias suficientes do café matinal. Antes de começar a trabalhar. De repente, estanca no anúncio, a bold:
Vende-se SMS
107 letras
2 pontos finais
2 travessões
3 vírgulas
1 ponto de interrogação
Bom preço.

Não quer acreditar no que lê. O mundo é um lugar estranho. E belo. Está tudo louco. Não quero viver aqui! Pensa. Que a outra venda a morte em directo, o outro as desilusões da vida, a outra a virgindade. Pronto! Mas um SMS!!!!
Perdido nestes pensamentos, incrédulo, pede ao senhor do lado:
- importa-se de ler, este anúncio, por favor. Em voz alta. Rápido. Que eu já estou atrasado.
O senhor lê.
E o senhor que leu, em voz alta, rápido, sem se engasgar, pergunta-lhe:
- é de hoje o jornal?
E o homem sai para a rua, absolutamente perturbado com o anúncio, abanando a cabeça, lentamente, ora para a direita, ora para a esquerda. Quando volta a parar, mesmo em cima de um outdoor, colocado à frente do seu nariz:

Vende-se SMS
107 letras
2 pontos finais
2 travessões
3 vírgulas
1 ponto de interrogação
Bom preço.

A cidade emite aquele anúncio a uma velocidade vertiginosa! Em tudo o que é suporte publicitário, aparece o anúncio da SMS. Mupis, autocarros, fachadas de prédios devolutos! Até os jornais gratuitos e todas as revistas do quiosque fazem menção à venda da SMS. Até mesmo uma avioneta, sobrevoa a cidade com uma faixa ondulante a promover a venda. Entre os transeuntes, o homem dá, agora, conta – estupefacto - de uma autêntica brigada publicitária que coloca cartazes, calmamente, em todas as paredes desocupadas da cidade.
Mesmo naquelas em que é proibido fazer afixações.
Sobe ao terceiro andar do seu escritório e todos os colegas tem na mão um panfleto anunciando a venda da SMS! Todos, pela manhã, retiraram das caixas do correio a insólita mono folha. Todos! Mesmo daquelas que tem um autocolante amarelo a dizer: por favor não deixe publicidade.

No escritório comentavam, entre si, que no Ebay a licitação da SMS vai numa fortuna! E que quem teve a ideia de a vender, não precisaria de trabalhar mais. De repente, ficaria rico, milionário, talvez. Era ainda manhã e o valor da SMS já tinha ultrapassado todas as expectativas.
Entretanto, outros comentam que as televisões andam desesperadas para saber quem colocou o anúncio, quem accionou a campanha. Querem fazer um directo. Quem se teria lembrado de vender a SMS, o que diriam aquelas letras e sinais, qual era a mensagem.
Como, quando, quem, onde, porquê?
De repente, alguém informa, que no Twitter um homem seguia outro homem que por sua vez conhecia… quando, a rádio anuncia:

Campanha da venda da SMS cancelada. Encontrado homem que a roubou.
Pertence a uma mulher pobre que declarou não a querer vender.
Alegou que a SMS não tem preço. Para além de que ninguém sente o que ela sente ao lê-la.
É para ela. É única. É eterna.
Tem exactamente o tamanho do seu punho fechado.

[e foi assim que as SMS entraram para a Bolsa de Valores]

Se amar um marinheiro terei amado o mundo inteiro


Eu ia esrever qualquer coisa. Mas ela, a mulher que já foi pássaro, fê-lo primeiro e lindamente.
Acabei de o ler. Deixo aqui as suas palavras e estes fragmentos da "minha" Clarice Lispector.

Já que hoje e amanhã, amargamente, também não posso lá estar. Porque se vivesse em Lisboa, metia férias. Certinho, certinho. Tão certo como me chamar Marta!


Nada que existe escapa à transfiguração, não saberei que existi daqui a poucos anos.
Fez-se muitas perguntas mas nunca pode responder: parava para sentir.
A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem ao estado de coisas que ele criou.
eu me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando, mas usando de uma nova modalidade de respirar
não é o grau que separa a inteligência do gênio, mas a qualidade
Medo de não amar, maior que o medo de não ser amado.
Que façam harpas de meus nervos quando eu morrer.
... a vida sempre nos deixa intocados.
conto apenas o que vi, não o que vejo (não sei repetir)
Lalande - lágrimas de anjo. É o mar, que nenhumm olhar ainda viu.
a beleza das palavras, natureza abstrata de Deus
Se amar um marinheiro terei amado o mundo inteiro.
essa tristeza leve é a constatação de viver
Meu filho crescerá de minha força e me esmagará com sua vida
posso parir um filho e nada sei
compreende a vida porque não é suficientemente inteligente para não compreendê-la
- Bom é viver. Mau é...
Mau é não viver...
- Morrer?
- Não, não. Mau é não viver... morrer é diferente do bom e do mal
É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto, como o que sinto se transforma lentamente no que digo.


Clarice Lispector daqui