terça-feira, abril 7

Um hemisfério numa cabeleira

Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sequioso na água de uma nascente,e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar. Se tu pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma dos outros homens viaja sobre a música. Os teus cabelos contêm um sonho inteiro, cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e de pele humana. No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto a formigar de canções dolentes, de homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando as arquitecturas finas e complicadas sob um céu imenso onde se pavoneia um calor eterno. Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das horas passadas sobre um divã no camarote dum belo navio, embaladas pelo arfar imperceptível do porto, por entre os vasos de flores e as bilhas que refrescam a água. No lume ardente da tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado com ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas praias acetinadas da tua cabeleira, embebedo-me com os odores combinados de alcatrão, de musgo e de óleo de coco. Enquanto mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações.


Charles Baudelaire in O Spleen de Paris, p.49, Relógio Dágua,1991
Imagem: Molin Rouge

sábado, abril 4

Ajuda-me a olhar



Diego no conocía la mar. El padre, Santiago Kovadloff*, lo llevó a descubrirla.
Viajaron al sur.
Ella, la mar, estaba más allá de los altos médanos, esperando.
Cuando el niño y su padre alcanzaron por fim aquellas cumbres de arena, después de mutcho caminar, la mar estalló ante sus ojos. Y fue tanta la inmensidad de la mar, y tanto su folgor, que el niño quedó mudo de hermosura.
Y cuando por fin consiguió hablar, temblando, tartamudeando, pidió a su padre:


- Ayudame a mirar!

Eduardo Galeano, La función del arte, in El Viaje,pag.27, H Kliczkowski, 2006
imagem: autor desconhecido

*Santiago Kovadloff

domingo, março 22

Fazes-me falta

Ontem, encafuada no carro, recordei, num ápice, os livros dela. Os que li. E foi a voz dela, de outra escritora, que me levou a procurá-los por entre os livros todos lá de casa. Já estiveram ordenados. E era-me fácil acha-los. Agora estão mais ou menos como eu! Não estão por ordem nenhuma. Estão.
[Logo se verá, ou não. Se será fácil. Achar-me. Também...]
[...]
«O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu - íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus - quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam».
[...]
«Queria roubar-te a obsessão, ter outra vez os teus vinte anos. Mas eu era já demasiado velho, voltava a ser novo, como as crianças, trocando um brinquedo pelo outro, respondendo ao brilho da próxima mão, existindo à superfície das coisas, táctil. A sabedoria do gozo, avessa à ciência do prazer. A felicidade esgotava-te, o sofrimento exaltava-te, nada era fácil para ti. -Como podes ter vivido tanto e ser tão leve?, perguntavas-me. Eu respondia apenas com sorrisos. Ai de ti, se descobrisses que viver demasiado é desistir da vida».
[...]
«E eis-me preso à memória escura dos teus olhos, dos teus passos saltitantes, da tua alegria convicta que a partir de certa altura começou a açucarar demasiado a minha vida. Não consigo concentrar-me. Passo os dias com os olhos sobre as letras dos livros que tenho de ler e não consigo entrar neles. E ouço muitas vezes a canção de Pascoal:
«A sombra das nuvens no mar / O vento na chuva a dançar / Uma chávena a fumegar / Tudo me falava de ti / A sombra das nuvens desceu / O céu alto arrefeceu / E o mar bravio perdeu / A luz que lhe vinha de ti.» Há quanto tempo não me arde o coração?»
[...]

Inês Pedrosa in Fazes-me Falta, Publicações Dom Quixote, 2002

segunda-feira, março 16

A carta de amor


«Os Cus de Judas». Chama-se assim o primeiro livro que li do escritor. Depois outros e outros e outros e ainda outros. «Arquipélago da Insónia» espera-me, desde o Natal, na pilha de livros a ler. Na secretária do escritório, em casa. «D´este viver aqui neste papel descripto», foi devorado, quase ininterruptamente. Li-o com aquele sentimento de culpa de quem, presumo eu, espreita pelo buraco da fechadura ou encosta o ouvido à parede. Mas que, no entanto, não se arrepende de o fazer. Pior. Fá-lo repetidamente! Sim. Gosto de biografias e de livros - correspondência! Quem me ofereceu este, sabe o que me ofereceu: uma ostra com duas pérolas: o autógrafo do autor e a carta que deixo aqui. Todas as cartas de amor são ridículas, disse o poeta. Mas esta é a carta. A carta de amor. A mais rídicula e [im] perfeita carta de amor que alguma vez li. Pela mão de um dos meus autores de eleição.


Meu amor querido
Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerâneo minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinesinha minha Pauline Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Pasargada meu templo grego minha colina meu verso de Höderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu manjerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Karénine minha lâmpada de Aladino minha mulher.
António Lobo Antunes in D`este viver aqui neste papel descripto

Pode um desejo imenso...

Pode um desejo imenso
Arder no peito tanto,
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto,
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais,
Que faz que leia mais do que vê escrito.


Luís Vaz de Camões, Ode VI



[...e depois a pergunta certa no teste de Português: e o que é que o autor quer dizer com isto?
Paula, querida, esta é para ti... vá...e não fiques nervosa... ]

domingo, março 15

Emoções à prova

«Há alguns anos atrás, a brilhante pianista Maria João Pires contou‑nos a seguinte história: quando toca, através do controlo total da sua vontade, consegue reduzir ou permitir a passagem do fluxo de emoção para o seu corpo. A minha mulher, Hannah, e eu pensámos que se tratava penas de uma maravilhosa ideia romântica, mas apesar de a Maria João insistir que conseguia fazê-lo, nós permanecíamos incrédulos. Finalmente, resolvemos pôr a ideia à prova científica. Numa das suas visitas ao nosso laboratório, Maria João foi ligada por fios ao complicado equipamento psicofisiológico, enquanto escutava curtas peças musicais seleccionadas por nós em duas situações: uma de emoção natural «autorizada», outra de «emoção» voluntariamente «inibida». Os seus Nocturnos de Chopin tinham acabado de ser publicados e usámos alguns deles e outros tocados por Daniel Barenboim como estímulo. Na situação de «emoção autorizada», o registo de contundência da pele mostrou montes e vales, intimamente ligados ao perfil emocional destas peças. Seguidamente, na situação de «emoção reduzida» aconteceu, de facto, o impensável. A Maria João conseguia literalmente aplanar o seu gráfico de condutância da pele, de acordo com a sua vontade e conseguia até modificar o seu ritmo cardíaco. Sob o ponto de vista comportamental também se transformou. As emoções de fundo estavam reorganizadas e alguns dos comportamentos especificamente emotivos eliminados, registando‑se uma diminuição do movimento da cabeça e da face. Quando o nosso colega Antoine Bechara, totalmente incrédulo, quis repetir toda a experiência, pensando que os resultados poderiam ser devidos a um artefacto de habituação, a Maria João repetiu tudo. Afinal, podemos encontrar certas excepções, sobretudo entre aqueles cuja vida consiste em criar magia através da emoção».


António Damásio in o Sentimento de Si

quinta-feira, fevereiro 26

Conheci Cristina na 24ª página


Íamos os dois de mãos dadas.

Eu e a Cristina.

Um sonho louco. Louquíssimo. Extremissimamente louco. Enfim - um sonho. Não havia nuvem que nos segurasse, nem paraíso que nos satisfizesse. Estávamos loucos, pronto. Para quê mais frases? A manhã era terna e sabia bem passear assim.

Conheci Cristina na 24ª página. Os olhos que lhe inventei roçaram os meus e o corpo colou-se perfeitamente. Senti que a podia ajudar e as nossas mãos, em se dando, formavam um cometa. Os nossos lábios traziam o Universo quando se tocavam.

Ela não tinha aonde se agarrar e eu, apercebendo-me disso, tentei trazê-la à realidade com muito amor, devagarinho. Soltaram-se-lhe os sentimentos da garganta e contou-me as partes da sua vida que mais a tinham marcado.

Foi uma experiência curiosa, até porque tinha sido eu a imaginar as situações. Conclui então que a análise não estava má, embora enfermasse de uma certa falta de sequência. Mas era no pormenor do acontecimento que eu recolhia a imagem que depois reproduzia por escrito.

E havia dias de vento forte!

E havia dias de um sol aconchegador!

E os jornais (com raras excepções) começavam a encher de mentiras os leitores desprevenidos.

E as ameaças aumentavam constantemente!

E as bombas eram diárias!

E morriam pessoas que eu e a Cristina conhecíamos bem!

Comecei a interessar-me por Cristina. Ela era muita gente. E eu gostava muito da gente. Comecei a amá-la. Profundamente. Apaixonadamente. Com sinceridade. Tinha direito a isso. Era tão novo como a minha idade.
(...)


Alberto Augusto Miranda in Outubro de um Século, Edição Autor, p. 65 e 66, 1981
Imagem: Cometa Tempel 1; NASA/JPL-Caltech/UMD

domingo, fevereiro 22

Mortal e Rosa


«Quando me arranco ao bosque dos sonhos, à selva escura do sono, e me reanimo a mim mesmo, vou-me completando lentamente. Porque me deixei de interessar pelos meus sonhos. Quero que o Freud vá à merda.

Tudo o que somos, de facto, tem este reverso de sonho, este cimento, esta fossa escura, e alguém se interrogava, irónico, sobre os sonhos de Kant, de Descartes, de Hegel. Que tipo de sonhos teriam estes monstros da razão? Toda a repressão mental mental dos seus sistemas deverá ter tido, sem dúvida, um reverso caótico, aflito e angustiado. Como negar a metade da vida na sombra, se é lá que estão os sonhos? Há um período da existência em que nos decidimos a ser só os nossos sonhos e o surrealismo é uma forma de adolescência ao querer alimentar-se de sonhos. Há uma maturidade, um classicismo - em qualquer idade da vida - em que optamos pela nossa própria razão, pelo nosso próprio rigor, pela nossa própria estatura. Vai dar ao mesmo. Tão pueril é viver de sonhos como de silogismos. Claro que cada um vive daquilo que pode e é demorado aprender a viver de realidades, de coisas, de objectos, tal como vivem os seres naturais. O homem é um ser da longura, como dizia o outro. Sim, o homem é um ser de utopias, de distâncias, de "projectos líricos". O homem tem de aprender a ser uma criatura de proximidade, pastor do imediato.

Os meus sonhos dão-me apenas uma versão confusa do que para mim é claro. Quando sonho sou um exageta confuso de mim próprio, o amanuense incompreensível e molengão que quer anotar tudo e tudo baralha. O sonho comenta a minha vida de um modo ocioso e obscuro, sem segredos mas com sombras.

Concordo, neste aspecto, com monsieur Sartre, que nega aos sonhos qualquer significado e que lhes atribui a impossibilidade de representarem uma única imagem coerente, porque ao representar uma imagem coerente "já estou acordado".» (...)

Francisco Umbral, traduzido por Carlos Vaz Marques, in Mortal e Rosa, Campo das Letras, p. 9, Outubro de 2003
Imagem: Desculpem-me, mas desconheço o autor

quinta-feira, fevereiro 19

Os dados estão lançados


Continua a ser um dos livros da minha vida. E creio que fará parte da extensa lista, mantendo-se no top 10, mesmo no dia em que eu fizer 207 anos! É um livro recorrente. Falo dele, na expectativa de que alguém me diga: olha, já foi reeditado em Portugal. A informação que tenho é de que a última vez que o livro deu à estampa, no nosso país, foi há vinte e tal anos! Eu li-o há muitos, muitos anos. Numa tarde. Em Lisboa. Tinha atravessado o Tejo, com ele. E, já na outra margem, não consegui parar de o ler. Sentei-me num café qualquer e continuei a lê-lo, deixando o congresso para depois. Depois do livro. Desde então, essa história, habita-me.

Essa versão que li, emprestei-a e nunca mais a recuperei. A Teresa, a quem eu já tinha povoado o imaginário com a minha história da história do Jean - Paul Satre; a quem eu já tinha falado do artigo 140, como se estivesse consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, foi ao Brasil e trouxe-mo. Diz assim, na contracapa.

«O impossível é sempre mais sedutor que o possível. Depois que nossos valores já estão relativamente definidos, e a rotina, por mais tortuosa que seja, já triturou nossa semeadura inicial de ilusões, começamos a fantasiar as utopias. Poder voltar, refazer ou atar os nós das pontas soltas de nossos objetivos, talvez anulasse os nossos medos e insatisfações. E que espaço ocupariam o amor e o dever neste eterno retornar? Seríamos salvos pelo amor? Morreríamos pelo dever? Ora! Mas não é o dever uma forma altruísta de amor?».

Chama-se OS DADOS ESTÃO LANÇADOS. E na minha memória a edição nunca se esgota.



Ps. Para mim e para a MRF foi uma cumplicidade...