terça-feira, novembro 23

Teoria Sentada


III

A minha idade é assim - verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.
Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
com um espírito dentro.
Mergulham na sua solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
É uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.
Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.
Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.
Herberto Helder in Poesia Toda, pag. 151, Assírio & Alvim, 1990

[o escritor faz hoje 80 anos]
imagem: Ana Rita Carvalho

segunda-feira, novembro 22

O coração necessita de afinação, como os rádios

O coração necessita de afinação, como os rádios.
Por vezes, em simultâneo, executamos duas canções,
e uma perturba a outra,
e não é bom para os ouvidos.
Mas qual o botão que afina o coração?
...Não é assim tão fácil.
Gonçalo M. Tavares

domingo, novembro 21

aqueles que vivem sob os olhares imaginários

Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver. A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, por outras palavras, o olhar do público. É o caso do cantor alemão e da estrela americana, como é também o caso do jornalista de queixo de rabeca. Estava habituado aos seus leitores, e quando o semanário foi proibido pelos russos teve a impressão de ficar com a atmosfera cem vezes mais rarefeita. Para ele, ninguém podia substituir os olhos anónimos. Sentia-se quase a sufocar, até que um dia percebeu que a polícia lhe seguia todos os passos, que o seu telefone estava sob escuta e que chegava a ser discretamente fotografado na rua. De repente, tinha outra vez olhos anónimos a acompanharem-no: já podia voltar a respirar! Interpelava num tom teatral os microfones escondidos na parede. Voltava a encontrar na polícia o público que julgava ter perdido para sempre.
Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails. São mais felizes que os da primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Marie-Claude e a filha são deste género.
Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão. É neste tipo de pessoas que devemos incluir Tereza e Tomas.
Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Foi até à fronteira cambojana unicamente por causa de Sabina. Dentro do autocarro, que a estrada tailandesa faz baloiçar violentamente, só sente o seu longo olhar poisado em si.
Milan Kundera in a Insustentável Leveza do Ser

quarta-feira, novembro 17

Se os sentidos mudassem, a imagem mudaria


2. Admitamos o mundo tal como os nossos sentidos o revelam. Se fôssemos daltónicos, ignoraríamos algumas cores. Se tivéssemos nascido cegos, ignoraríamos as cores.
Há cores ultravioletas, que não captamos. Há silvos, que os cães ouvem, inaudíveis para o homem. Se os cães falassem, o seu idioma seria, talvez, pobre em indicações visuais, mas teria termos para indicar matizes de cheiros, que ignoramos. Um sentido especial adverte os peixes da mudança das pressões da água e da presença de rochas ou outros obstáculos profundos, quando nadam na noite. Não entendemos a orientação das aves migratórias, nem que sentido atrai as borboletas libertas em pontos distantes, numa grande cidade, e as quais o amor une. Todas as espécies animais que o mundo alberga vivem em mundos diferentes. Se olharmos através do microscópio a realidade varia: desaparece o mundo conhecido e este fragmento de matéria, que para o nosso olho é uno e está quieto, é plural e move-se. Não se pode afirmar que uma imagem seja mais verdadeira que a outra; ambas são interpretações de máquinas parecidas, graduadas de uma maneira diferente. O nosso mundo é uma síntese que os sentidos dão, o microscópio dá outra. Se os sentidos mudassem, a imagem mudaria. Podemos descrever o mundo como um conjunto de símbolos capazes de exprimir qualquer coisa; se alterarmos a graduação dos nossos sentidos, leremos outra palavra nesse alfabeto natural.
3. As células nervosas do homem são diferentes, de acordo com a diversidade dos sentidos. Mas há animais que vêem, que farejam, que tacteiam, que ouvem por um único órgão. Tudo começa na evolução de uma célula. A noir, E blanc, I rouge...não é uma afirmação absurda; é uma resposta improvisada. A correspondência entre os sons e as cores existe. A unidade essencial dos sentidos e das imagens, representações ou dados, existe e é uma alquimia capaz de converter a dor em deleite e as paredes da prisão em planícies de liberdade.

Adolfo Bioy Casares in Plano de Evasão, pag.111
tradução Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tentreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2007
imagem: Gilbert Garcin

Vantagens em Viajar de Comboio

Eu adoro viajar de comboio, já o disse. É só vantagens. Agora, encontrei mais uma. O livro é de Francisco Casavella. A tradução é do Jorge Fallorca. Pois quero!

O Príncipe Feliz

Lá no cimo da cidade, numa coluna muito alta, estava a estátua do Príncipe Feliz. Estava coberto com finas folhas de ouro maciço, tinha duas brilhantes safiras como olhos e um enorme rubi vermelho brilhava no cabo da sua espada. Era realmente muito admirado.

— Ele é tão bonito como um catavento — comentou um dos Conselheiros da Cidade, que queria ganhar reputação por ter gostos artísticos. — Só que não é tão útil — acrescentou, temendo que pensassem que ele não era uma pessoa prática, e realmente não era.

— Porque é que tu não és como o Príncipe Feliz? — perguntou uma mãe sensível ao seu filhinho que estava a chorar pela lua. — O Príncipe Feliz nem sequer sonha em chorar por alguma coisa.

— Fico contente por saber que há alguém no mundo que é muito feliz — murmurou um homem desapontado, enquanto admirava a maravilhosa estátua.

— Ele parece mesmo um anjo! — disseram as crianças do asilo ao saírem da catedral, nas suas capas vermelho-escarlate e nos seus bibes muito brancos.

— Como é que sabem? — perguntou o Professor de Matemática. — Vocês nunca viram um anjo.

— Ah! já vimos, nos nossos sonhos — responderam as crianças. O Professor de Matemática franziu as sobrancelhas e olhou-as severamente, pois não aprovava sonhos de crianças.

Uma noite, voou sobre a cidade uma pequena Andorinha. As suas companheiras tinham voado para longe, para o Egipto, seis semanas antes, mas ela tinha ficado para trás, pois estava apaixonada por uma linda Cana. Tinham-se conhecido no início da Primavera, quando a Andorinha voava rio abaixo, atrás de uma mariposa amarela e sentiu-se tão atraída pela cintura estreita da Cana, que parou para falar com ela.

— Posso amar-te? — disse a Andorinha que gostava de ir directa ao assunto, e a Cana fez-lhe uma vénia. E assim, ela voou à sua volta, tocando a água com as asas e fazendo ondulações prateadas. Esta era a sua forma de fazer a corte e durou todo o Verão.
— É uma ligação ridícula — riam-se, trocistas, as outras Andorinhas. — Ela não tem dinheiro e conhece gente a mais.

E realmente o rio estava cheio de juncos. Depois veio o Outono e elas voaram para longe. Depois de elas partirem, a Andorinha sentiu-se sozinha, e começou a cansar-se da sua amada. «Ela não sabe conversar», disse a Andorinha, «e acho que é muito namoradeira, pois está sempre a namoriscar com o vento.» Realmente, quando o vento soprava, a Cana fazia os mais graciosos movimentos. «Aceito que ela seja caseira», continuou, «mas eu gosto de viajar, e a minha mulher também terá de gostar.»

— Vens comigo para longe daqui? — perguntou um dia à Cana; mas a Cana abanou a cabeça, pois estava muito ligada à sua casa.

— Tu tens estado a brincar comigo — gritou ela. — Eu vou-‑me embora para as Pirâmides. Adeus!

E foi-se embora. Voou durante todo o dia e à noite chegou a uma cidade. «Onde é que eu vou hospedar-me?» disse ela. «Espero que a cidade tenha feito os preparativos necessários.» Depois, viu a estátua ao alto da enorme coluna. «Vou hospedar-me ali», gritou ela. «É um óptimo lugar, com muito ar fresco.»
E, assim, pousou entre os pés do Príncipe Feliz.

«Tenho um quarto de ouro», disse ela para consigo, enquanto olhava em volta e se preparava para dormir; mas, quando estava a pôr a cabeça debaixo da asa, uma enorme gota de água caiu-lhe em cima. «Que coisa curiosa!» gritou ela. «Não há uma só nuvem no céu, as estrelas estão muito claras e brilhantes e, no entanto, está a chover. O clima do norte da Europa é realmente horrível.»

E então caiu outra gota. «Para que serve uma estátua se não consegue abrigar-me da chuva?» disse ela. «Tenho de procurar uma boa chaminé». E decidiu ir embora.

Mas ainda não tinha aberto as asas quando uma terceira gota caiu e ela olhou para cima e viu — Ah! O que é que ela viu? Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheios de lágrimas e as lágrimas caíam pelas suas faces douradas. A sua cara era tão linda à luz da lua, que a pequena Andorinha ficou cheia de pena.

— Quem és tu? — disse ela.

— Eu sou o Príncipe Feliz.

— Mas então porque estás a chorar? — perguntou a Andorinha — Molhaste-me toda.

[...]

Oscar Wilde in o Príncipe Feliz e Outras Histórias

terça-feira, novembro 16

Intimidade


No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago
[hoje o escritor faz anos]

quarta-feira, novembro 10

O estranho em relação à vida


O estranho em relação à vida é que, embora sua natureza deva ter sido evidente para todo mundo há centenas de anos, ninguém deixou o registro adequado. As ruas de Londres estão mapeadas; nossas paixões não. O que vamos encontrar ao dobrar essa esquina?

Virginia Woolf in O Quarto de Jacob

terça-feira, novembro 2

Sophia


Colóquio internacional Sophia de Mello Breyner Andresen, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, nos dia 27 e 28 de Janeiro do próximo ano. Assinalando a entrega do espólio da escritora à Biblioteca Nacional de Portugal. Ver programa aqui.

"Aproximo-me apenas daquilo que admiro"


«As minhas aproximações são sempre amorosas, aproximo-me apenas daquilo que admiro.»

«O escritor tem uma responsabilidade, não apenas em relação ao momento presente e ao que aí vem, mas, antes de mais, em relação ao passado. As gerações passadas deixaram-nos muitos sinais. É responsabilidade do escritor contemporâneo estar atento aos sinais que os escritores clássicos nos deixaram...»

«"Os Lusíadas" é uma obra fabulosa, de uma grande riqueza; e ainda hoje dá enorme prazer ficar diante daquilo que percebemos que não envelhece. O meu prazer na leitura, ainda mais em relação aos clássicos, é, acima do mais, estético, e não ideológico...»


«"Uma Viagem à Índia" acompanha passo a passo, fragmento a fragmento, por vezes linha a linha, os conflitos físicos, os relatos sobre o passado, os tumultos, os enganos, as entradas em cena do narrador, etc, de "Os Lusíadas".»

«A experiência tem um forte valor moral e intelectual. Mas a modernidade alterou um pouco o valor e os termos dessa experiência. Classicamente a experiência pressupunha deslocação física. Se possível, a grande viagem. Na modernidade, a experiência é muitas vezes mental e, neste sentido, esta epopeia ou anti-epopeia é muito mais mental do que física.»

«Uma personagem sem qualidades, mas em queda. E o que parece é que é uma personagem que se entedia com a queda. Não tem medo, não fica desesperado, não faz um balanço último da sua vida. Não passa tanto por questões políticas, colectivas, por eventuais falhanços ideológicos ou do capitalismo. É muito mais uma questão centrada no indivíduo. O grande movimento do século XXI parece-me, é o da queda.»

«A tradição romântica do amor coloca-o numa espécie de círculo em redor de duas declarações - amo-te/eu também te amo ou amo-te/não te amo - e estas duas declarações impõem-se a tudo o resto: o mundo desaparece. Esta embriaguez não permite o desvio do olhar, nem a desatenção mínima. E estarmos obcecados por uma parte é estarmos desatentos a tudo o resto.»
Fonte: AQUI, uma entrevista de Pedro Mexia a Gonçalo M. Tavares

sábado, outubro 30

Au contrair, a vida é drama, a vida é acção...


- Uma carta! Outra carta! O que é isto, um jogo de xadrez postal? Dois dias para as notícias chegarem à Marijana, dois dias para a resposta dela chegar: havemos todos de expirar de aborrecimento antes de termos uma resolução. Não estamos na era do romance epistolar, Paul. Vá ter com ela! Confronte-a! Faça uma cena como deve ser! Bata o pé (falo metaforicamente)! Grite! Diga: «Não estou para ser tratado desta maneira!». É assim que as pessoas normais se comportam, pessoas como a Marijana e o Miroslav. A vida não é uma troca de notas diplomáticas. Au contraire, a vida é drama, a vida é acção, acção e paixão! Você, com o seu passado francês, sabe-o decerto. Seja cortês se quiser, a cortesia não faz mal nenhum, mas não à custa das paixões. Pense no teatro francês. Pense em Racine. Não se pode ser mais francês do que Racine. Racine não são pessoas abatidas, sentadas pelos cantos a maquinar e a calcular. Racine é confrontação, uma grande tirada a opor-se a outra.

Estará ela com febre? O que terá provocado esta explosão?

- Se há lugar no mundo para o Bálsamo de Friar - diz ele - , há lugar para cartas antiquadas. Pelo menos, se uma carta não soa bem, pode-se rasgar e começar de novo. Ao contrário da fala. Ao contrário das explosões de paixão, que são irrevogáveis.

Se há pessoa que devesse ter isso em conta, é você.

- Eu?

- Sim, você. Com certeza não escrevinha a primeira coisa que lhe vem à cabeça e a envia a de imediato ao seu editor. Espera com certeza para pensar melhor. Revê tudo, com certeza. Não é em pensar melhor que consiste a escrita - pensar melhor uma vez, duas vezes, três vezes, e mais vezes ainda?

- É isso, efectivamente. É isso que a escrita é: pensar melhor elevado à enésima potência. [...]
J. M. Coetzze in Homem Lento, pag. 254, Dom Quixote, 2008
[tradução de J. Teixeira de Aguilar]

imagem: Gilbert Garcin

quinta-feira, outubro 28

O mal-entendido


O mundo só caminha através do mal-entendido. É através do mal-entendido universal que toda a gente se põe de acordo. Porque se, por infelicidade, as pessoas se compreendessem, nunca poderiam pôr-se de acordo.
O homem de espírito, aquele que nunca se porá de acordo com ninguém, deve aplicar-se a amar a conversa dos imbecis e a leitura dos maus livros. Extrairá funções amargas que lhe compensarão largamente a fadiga.

Charles Baudelaire in Diário Íntimo

imagem: Brian Dettmer

quarta-feira, outubro 27

A última palavra

A vida não é uma linha na qual você escreve todos os nomes que você encontra no meio do caminho. A vida é feita principalmente das palavras interrompidas, daquelas que ficaram por dizer, ou ainda daquelas que a gente nunca soube como escrever. A vida é feita dos intervalos, principalmente através deles, dos capítulos censurados, das lembranças não vividas e das memórias apagadas.

Carlos Eduardo Leal in A última Palavra, Editora Rocco, 2009

[Carlos, não imagina como os seus livros chegaram, afinal, na hora certa. Este, começo a lê-lo hoje. Estou-lhe imensamente grata. As minhas outras palavras ficam para depois da leitura...]

terça-feira, outubro 26

Mistérios de Lisboa

...Gosta de mim, senhor Barão?
Esta pergunta de improviso, espécie de disparate com que a duquesa fechou o período. atarantou o fidalgo, a ponto de lhe roubar provisoriamente, a correcção da frase portuguesa, e mais ainda o dom de articular as ...poucas palavras com que se colhera da emigração (...)
- Não me responde?! Tornou ela, decifrando as revoluções que se alternavam na fisionomia grotesca do barão. - O seu silêncio, cavalheiro, não é delicado. Franqueza: gosta de mim?
- Se gosto de Vossa Excelência!...devora-me o ciúme. como não há-de ser palpitante o meu amor.
- Não me capacito...Desconfio sempre das paixões que fazem estilo. Acho que a pequenez do amor está na razão inversa da grandeza das palavras. Simplifique as suas respostas senhor Barão. Gosta de mim?
- Imensamente.
- Aí esta uma palavra muito grande!...Assim não quero. Tenho cisma com os advérbios...Não fuja do verbo da pergunta. Terceira vez: gosta de mim?
- Como quer que lhe responda?...Não há linguagem humana que responda convenientemente a tal pergunta.
- Pois não há? Ora, Barão, pergunte-me se gosto de Vossa Excelência.
- Gosta de mim?
- Gosto. Aqui tem!...há lá nada mais natural? Já sabe como eu quero o estilo em matérias de amor. Outra pergunta: que quer de mim?
- Adorá-la, amá-la eternamente; beijar humildemente os seus vestígios, dar a última gota de sangue pelos seus suspiros, contempla-la estaticamente...
- Três advérbios que somam dezasseis sílabas. Não me ame assim. senhor Barão. Não vê que tudo caminha para o espiritualismo? Subtilize as suas frases, espiritualize-as, basta de matéria indispensável!...Que quer de mim? Não me responde!...Não me quer nada!...Ora vejam que amor tão frio!...Nem tanto espiritualismo, cavalheiro...Peca pelo extremo!...Se me dissesse francamente que me queria fazer sentir o ardor do seu sangue, as palpitações das suas artérias. o aroma dos seus suspiro, as lúcidas cambiantes dos seus belos olhos...eu diria que o estilo é uma bonita maneira de encobrir certos pensamentos, que não tem estilo nenhum, pelo menos autorizado nos bons clássicos franceses e portugueses. Ora agora...amar-me eternamente, beijar os meus vestígios humildemente, contemplar-me estaticamente, tudo isto , além de ser impossível no estado actual do coração humano, é uma promessa assustadora, e um futuro insuportável que me anuncia. Amar eternamente!...Deus nos livre disso, não há amor que resista a vinte e quatro horas de filosofia! Eu de mim não aceito o programa; sem me promete amar-me três dias...
- É impossível!...Abandone-me; mas eu hei-de amá-la enquanto sentir no coração uma gota de sangue!
- É sanguinário, Barão! Já me falou em sangue duas vezes!...Adopte uma linguagem mais pacífica. Não gosto de Catões no amor. O sangue será muito proveitoso nas funções da vida animal; mas no nosso caso, dispensa-se. Acho-o até prosaico...
O barão abria a boca, e franzia a testa. O que ele exprimia com semelhante careta, não saberemos nós dizê-lo, nem a duquesa o saberia.


Camilo Castelo Branco in Mistérios de Lisboa

[este excerto delicioso foi desviado daqui]
..e, ainda, da obra de Camilo:

«Há na vida acasos e coincidências tão extravagantes que nenhum novelista ousaria inventá-los»

segunda-feira, outubro 25

Quase memória

No porta-luvas do carro tenho algumas fitas, estão embaralhadas, são músicas antigas, que gravei por aí em vários lugares, tecnicamente insuportáveis, cada qual uma espécie de embrulho em si e à parte.
Fico no primeiro cassete que apanho. Qualquer coisa servirá. Amanhã não farei grandes coisas, mas preciso desse amanhã, pelo menos hoje. Ouço o chiado que revela a seleção de músicas antigas, copiadas de velhos discos para a fita.
A voz de Vera Lynn (quem foi Vera Lynn?) enche o carro. Subo os vidros das janelas, ligo o ar-refrigerado para ouvir, no final de ontem, o começo do amanhã:


We´ll meet again,
don´t know where,
don´t know when,
but I know we´ll meet again
some sunny day

A canção foi relançada nos anos 60 num filme de Stanley Kubrick, final de Doutor Fantástico*, bombas nucleares explodindo, o balé de cogumelos atômicos, o fim da história. E o aceno para o dia onde nos encontraremos outra vez, não sabemos onde nem quando,mas nos encontraremos num dia ensolarado.
Começa a amanhecer, vejo a primeira fatia de luz cortar a linha do horizonte, lá longe, no mais longe do mar. A sensação agora é que estou sozinho, sobrevivendo de um mundo que acabou. Só não sei, ainda, se eu também acabei. Talvez o embrulho do pai tenha vindo apenas para me dar lucidez, a consciência da lucidez que substitui a fome que eu deveria sofrer, o sono que deveria sentir, a memória que eu deveria esquecer.

Carlos Heitor Cony in Quase Memória, pag.236, Palavra, 2005

* O título original do filme é Doctor Strangelove. Em Portugal chamou-se Doutor Estranhoamor

sábado, outubro 23

África Raiz I


África,
no teu corpo rugem feras,
uivam fomes e medos ancestrais,
no teu sangue há marés,
na tua pele há dardos e punhais.

Ventre de Continentes,
és mater e matriz.
Ásia é semente, Europa é flor,
outros serão essência ou tronco,
tu, África, és raiz.

Dos teus flancos de fémea fecundada,
nascem florestas, rios e montanhas.

Florestas venenosas de gigantes,
de monstros, de ciclopes vegetais,
de fungos, de landólfias e de orquídeas,
onde pastam manadas de elefantes,
onde flores carnívoras,
sob um céu baixo, de invisíveis brasas,
sugam antenas e digerem asas.


Fios de água, que vertes das entranhas
e te rasgam a pele
como pontas de lança,
como lâminas de aço,
prendendo, laço a laço,
matas, capim, tarrafe, canaviais.

Cascatas, cachoeiras,
furiosos caudais
saltando precipícios,
arrastando pirogas, crocodilos,
abrindo a golpes de água
os leitos abissais
dos Zambezes, dos Congos e dos Nilos.

Montanhas como dorsos de mamute,
gargantas de titans, abismos de nebelina,
e na crosta rugosa a lepra das florestas,
as pegadas do vento,
as aves de rapina.
Presença subterrânea
de lavas e de chamas,
de vulcões em potência,
ressonância, rumores
dos rios interiores,
promessas de esmeraldas, de rubis,
de metais raros,
Kilimanjaros
nos roxos da distância.
[...]

Fernanda de Castro in África Raíz
imagem digitalizada do livro: Teresa Vergani
[este poema , por ser muito extenso será publicado em partes.
mereceu os segintes comentários:
"...é o poema do século!" José Carlos Ary dos Santos
"...soube entender até ao âmago, até à raiz, a alma secreta do continente africano" David Mourão Fereira
"...é um poema extraordinário... Que força expressional e consecutiva, que fôlgo sem desfalecimento, que altura sem vertigens, que beleza sem interrupções..." Ferreira de Castro
faltam-me, agora, palavras de gratidão para Alberto Quadros (irmão da autora) que, conhecendo-me apenas do blog - e sendo, seguramente, o leitor mais sénior - teve a imensa generosidade de me oferecer este livro magnífico. e raro. um abraço imenso]

A parte desconhecida da minha vida

A parte desconhecida da minha vida é a minha vida escrita. Morrerei sem conhecer essa parte desconhecida. Como foi escrito isto, porquê, como o escrevi, não sei, não sei como isto começou. Não se pode explicar. Donde vêm certos livros? A página está vazia e, de repente, já há trezentas páginas. Donde vem isto? É preciso deixar andar, quando se escreve, não devemos controlar-nos, é preciso deixar andar, porque não sabemos tudo de nós próprios. Não sabemos o que somos capazes de escrever.
Conheci grandes escritores que nunca conseguiram falar disso - conheci Maurice Blanchot e Georges Bataille intimamente, conheci Genet, creio que menos. Eles nunca sabiam, nunca falavam disso. Penso que é errado, aliás. Há trinta anos, era uma espécie de pudor aprendido, em parte, na escola sartriana, não se podia falar daquilo que se escrevia, não era decente - e penso que em Les Parleuses é a primeira vez que alguém fala disso, pelo menos uma das primeiras vezes. É bom falar disso e, ao mesmo tempo, é muito perigoso dar a ler textos antes de estarem terminados.
(...) Após o final de cada livro é o fim do mundo inteiro, é sempre assim, de cada vez. E depois tudo recomeça, como a vida.
Quando se escreve, não se pode falar em vez de escrever. O que se passa quando se escreve, nunca se pode dizer. Eu consigo ler uma passagem, mas depressa fico assustada.
Sou mais escritora do que vivente, que uma pessoa que vive. Naquilo que vivi, sou mais escritora do que alguém que vive. É assim que eu me vejo.

Marguerite Duras in Mundo Exterior

Também o quero...

[ ...vi-o ali, no CHEIRO DOS LIVROS e tive de o trazer... mesmo assim, virtual...]

A vida, meu caro, é ilegível. Acontece
e desaparece. Não há inteligência
que a descodifique: vem em linguagem-nada,
surge no corpo como surge o dia, e como
se dia e vida individual fossem materiais paralelos.
...A vida não surge em prosa
nem em poesia — e a existência não fala
inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos
resiste às invasões matreiras da publicidade e
dos filmes. Já não é mau.

Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia

quinta-feira, outubro 21

quero...

"quero reaprender o amor na respiração das tuas mãos"
Ondjaki in Dentro de mim faz Sul

terça-feira, outubro 19

Que menino se recusou já a brincar num sotão...


Que menino se recusou já a brincar num sótão, a inventar inexistência?
Está-se fora do mundo, numa torre inacessível, as pessoas crescidas ficam longe, com as suas ocup...ações, ideias, hábitos incompreensíveis.
Aqui é o reino da fantasia, da realidade indescoberta.
Vêem-se as traves e as telhas do avesso, com teias de aranha, e há umas lucarnas pequeninas, muito engraçadas, viradas para o céu azul, o sol, o silêncio, às vezes o pio dum pássaro, uma paz de eternidade.
Assim, no cheiro de palha, de mofo e clandestinidade, de pó e madeira tostada de sol, entre murmúrios de palavras proibidas, gestos rituais de descobrimento, e acres emanações de suor infantil, pode-se ser feliz ou infeliz à vontade, e, apesar da carne ainda insensível, ir aprendendo os segredos do ser, que exalta e que dói.

José Rodrigues Miguéis in a Escola do Paraíso