quinta-feira, março 28

O meu sonho habitual




Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral


É uma generosidade



É difícil ser feliz; requer espírito, energia, atenção, renúncia e uma espécie de cortesia que é bem próxima do amor. Às vezes é uma graça ser feliz. Mas pode ser, sem a graça, um dever. Um homem digno desse nome agarra-se à felicidade, como se amarra ao mastro em mau tempo, para se conservar a si mesmo e aos que ama. Ser feliz é um dever. É uma generosidade.

Louis Pauwels, in "Carta Aberta às Pessoas Felizes"


A alma só acolhe o que lhe pertence


A alma só acolhe o que lhe pertence; de certo modo, ela já sabe de antemão tudo aquilo por que vai passar. Os amantes não contam nada de novo uns aos outros, e para eles também não existe reconhecimento. De facto, o amante não reconhece no ser que ama nada a não ser que é transportado por ele, de modo indescritível, para um estado de dinamismo interior. E reconhecer uma pessoa que não ama significa para ele trazer o outro ao amor como uma parede cega sobre a qual cai a luz do Sol. E reconhecer uma coisa inerte não significa identificar os seus atributos uns a seguir aos outros, mas sim que um véu cai ou uma fronteira se abre, e nenhum deles pertence ao mundo da percepção. Também o inanimado, desconhecido como é, mas cheio de confiança, entra no espaço fraterno dos amantes. A natureza e o singular espírito dos amantes olham-se nos olhos, e são as duas direcções de um mesmo agir, um rio que corre em dois sentidos, um fogo que arde em dois extremos.

E então é impossível reconhecer uma pessoa ou uma coisa sem relação connosco próprios, pois o acto de tomar conhecimento toma das coisas qualquer coisa; mantêm a forma, mas parecem desfazer-se em cinzas por dentro, algo delas se evapora, e o que resta é apenas a sua múmia. É por isso também que não existe verdade para os amantes; seria um beco sem saída, um fim, a morte do pensamento que, enquanto estiver vivo, se assemelha à fímbria arfante de uma chama, onde se abraçam a luz e a escuridão. Como pode uma coisa iluminar onde tudo é luz? Para quê a esmola do que é seguro e inequívoco onde tudo é plenitude? E como podemos ainda desejar alguma coisa só para nós, ainda que seja aquilo que amamos, depois da experiência que nos diz que os amantes não se pertencem, mas têm de se dar em oferenda a tudo o que vem ao seu encontro e se oferece aos seus olhares entrelaçados?

Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

sexta-feira, março 8

Marginal



« Hoje decidi que vou continuar a caminhar por aqui fora e a confundir -me com tudo o que for natural, com algumas aves, com esses fios de nuvens que percorrem todo o céu e lhe conferem um tom de certezas; vou confundir -me na pele de certos marinheiros, desses que gritaram e choraram e imploraram pela clemência divina e que não foram ouvidos, tal como eu, e aqui estou, ó povos deste mar, destas lonjuras tão próximas, aqui estou ó tempestades, ventos e desnortes que vos quero mais que a vida! É este o meu retrato, não o meu negativo mas a minha fotografi a: descalça no paredão, o cão que me acompanha rente aos joelhos, imperturbável e amigo, as línguas de fora, a minha e a dele, uma mais comprida que outra, e trotamos, trotamos não como cão e pessoa mas como qualquer outro animal que, no fundo, está aqui sempre presente.»


Cristina Carvalho, Marginal, Editorial Planeta, 2013, pp.83-84

Fonte: focussocial

quinta-feira, março 7

Kim Longinotto

 
HISTÓRIAS NO FEMININO
 
«Uma das mais proeminentes documentaristas em actividade, Kim Longinotto, é reconhecida internacionalmente pelos seus pungentes retratos e pelo seu sensível e apaixonante tratamento de tópicos difíceis.... Observando, reflectindo e contando as estórias de mulheres que desafiam convenções e lutam contra instituições, opressão e preconceitos, Longinotto documenta e revela as idiossincrasias e os costumes de sociedades oprimentes. Passando por temas tão diversos como o divórcio no Irão, a mutilação genital feminina no Quénia, a violência sobre mulheres e crianças nos Camarões, na África do Sul ou na Índia, a educação de crianças emocionalmente perturbadas em Inglaterra ou mesmo questões de género, identidade sexual e contradições culturais no Japão, Longinotto assume-se politicamente comprometida, viajando pelo mundo inteiro para documentar os aspectos mais difíceis da realidade das mulheres. Navegando pelas águas do documentário, desde que iniciou a sua carreira em 1976, trabalhando quase sempre com equipas reduzidas – a própria, na câmara, uma co-realizadora local e apenas uma pessoa no som – e mantendo-se sempre independente de quaisquer produtoras, Longinotto tem conseguido financiar o seu trabalho através da emissão dos seus filmes na BBC e vem conquistando a sua importância cinematográfica através do florescente circuito dos festivais de cinema. Quase todos os seus filmes foram premiados um pouco por todo o mundo, sendo que “Sisters in Law” recebeu o Prémio Arte e Ensaio do Festival de Cannes, “Hold me tight, Let me go” foi galardoado com o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Documentário de Amesterdão e “Rough Aunties” ganhou o Prémio do Júri na competição World Cinema do Festival de Sundance. Esta será a primeira retrospectiva dedicada a Kim Longinotto no nosso país, uma realizadora que importa descobrir urgentemente.

Local: Auditório Passos Manuel: Rua Passos Manuel, 137 – Porto Bilhetes: 3€
Sessões legendadas em Português. Maiores de 16 anos.
 
5ª FEIRA 28 MARÇO

22H00 – PINK SARIS
Kim Longinotto / 96’ / 2010

Em "Pink Saris", acompanhamos a história de Sampat Pal, uma complexa e singular activista política, líder do movimento Gulabi Gang, que trabalha pelos direitos das mulheres na região de Uttar Pradesh, no norte da Índia. Assistimos ao empenho individual de Sampat, referência para muitas mulheres maltratadas, na mediação de dramas familiares, testemunhada por dezenas de espectadores, defendendo pessoas em situações de vulnerabilidade e que desnudam as convenções da sociedade Indiana.


6ª FEIRA 29 MARÇO

17H00 – THE DAY I WILL NEVER FORGET
Kim Longinotto / 92’ / 2002

Documentário marcante, onde Longinotto retrata o tema da mutilação genital feminina no Quénia, com excepcional sensibilidade e franqueza. De depoimentos comoventes de mulheres que foram submetidas à circuncisão até entrevistas com idosas matriarcas que teimosamente defendem a prática, o filme retrata a complexidade das polémicas e conflitos em torno da angustiante questão do combate à tradição.

19H00 – SISTERS IN LAW
Kim Longinotto / Florence Avisi / 104’ / 2005

Em "Sisters in Law" assistimos ao trabalho de duas mulheres da Associação de Mulheres Juristas (WLA) de Kumba, nos Camarões, que prestam apoio jurídico a mulheres e crianças vítimas de abusos, que de outra forma não seriam considerados pelo sistema judicial numa sociedade fortemente patriarcal marcada pela tradição de abuso e de violência. Um filme marcante e por vezes hilariante, que mostra um feroz acto de coragem determinado a melhorar a comunidade e talvez mudar o país no processo.

22H00 – ROUGH AUNTIES
Kim Longinotto / 103’ / 2008

Filme sobre o dia a dia de um notável grupo de mulheres destemidas que lutam contra o abuso sexual de crianças e mulheres, negligenciadas e esquecidas de Durban, cidade da África do Sul. Apesar da dura realidade com que trabalham na organização de bemestar infantil, Bobbi Bear, permanecem firmes nas suas convicções pessoais, enquanto lutam contra a apatia e a corrupção, procurando justiça para as vítimas. Olhar inspirador e humanitário de uma realidade devastadora e cruel.


SÁBADO 30 MARÇO

17H00 – HOLD ME TIGHT, LET ME GO
Kim Longinotto / 100’ / 2007

A Mulberry Bush School, em Oxfordshire, na Inglaterra, é uma escola especializada em lidar com crianças emocionalmente perturbadas, com comportamentos violentos e excluídos do sistema de educação comum. Nesta escola recebem a atenção, paciência e empenho de mais de cem responsáveis, entre docentes e auxiliares, que enfrentam os seus constantes acessos de raiva, agressão física e destruição, mas também as manifestações de carinho e afeição. Uma difícil luta entre o desequilíbrio e a harmonia.

19H00 – DIVORCE IRANIAN STYLE
Kim Longinotto / Ziba Mir-Hosseini / 80’ / 1998

Um olhar intimo sobre a vida conjugal do Irão e seus conflitos através das histórias de seis mulheres que invocam o direito de se divorciarem num país onde a lei favorece os maridos. Num registo alternadamente cómico e trágico e tendo por cenário um tribunal de divórcio em Teerão, acompanhamos estas mulheres no seu esforço para chegar a um resultado favorável num meio de leis parciais, políticas administrativas contraditórias e severas restrições culturais.

22H00 – DREAM GIRLS
Kim Longinotto / Jano Williams / 50’/ 1993

“Dream Girls” é um documentário fascinante sobre a famosa escola de teatro musical japonesa Takarazuka, cujos espectáculos são reminiscências da Broadway dirigidos a um público feminino, nos quais a popularidade da actriz no papel masculino supera o das estrelas pop do mainstream. Ao contrário do teatro japonês tradicional, todo os membros desta escola são mulheres que se submetem a anos de reclusão e disciplina intensa. Uma reflexão sobre questões de género e identidade sexual e contradições culturais no Japão da actualidade.

Fonte:
www.artes.fmam.pt

quarta-feira, março 6

Era um violoncelo


Era um violoncelo pousado numa casa em ruínas, no meio de uma tarde que corria em contra-luz. Uma casa ressuscitada por um violoncelo e uma voz incontida ao primeiro acorde. E depois, o despertar dos gestos e o calor que se acendeu apesar do frio e da arca vazia. Provavelmente vazia e tão cheia de histórias. E na janela maior flores inesperadas e mansas como o rio que corria perto. Ontem foi dia de dias assim.


Fotografia:© André Henriques

a noite pede música







Eu não fui desde a infância
Como outros eram...não olhei
O que outros viam...não busquei
Na mesma fonte as minhas ânsias...
Não foi do mesmo poço que tirei
Minha amargura...meu coração
Não entoou, em coro, hinos de louvor...
E tudo o que eu amei, amei em solidão...
Então - na minha infância - no alvor
De minha vida atormentada, fui refém
Do mistério que ainda hoje sobrevém
Do abismo donde brota o mal e o bem...
Da torrente, da nascente...
Da rubra fraga ascendente...
Do sol que em mim revolveu
No seu fulgor outonal...
Do clarão que ascendeu
Pelo espaço, e em mim rasou...
Do trovão, do temporal...
Da nuvem que se moldou
(Conquanto azul fosse o céu)
Em demónio e me ensombrou.

Edgar Allan Poe


 

 [na página 199 do livro Edgar Allan Poe Obra Poética Completa, Tradução e Notas de Margarida Vale de Gato, Tinta da China, 2009]

imagem: Filipe Abranches