sábado, junho 30

Uma hora não é apenas uma hora


" Uma hora não é apenas uma hora, é um vaso repleto de perfumes, de sons, de projectos e de climas. O que chamamos realidade é uma determina relação entre sensações e lembranças a envolverem-nos simultaneamente...”

Marcel Proust, in Em busca do Tempo Perdido

a noite pedirá música...



[...acabadinha de chegar do Brasil...para mim! Não conhecia e estou a gostar de descobrir... ]

Aracne [fragmento]





Ir ao cinema, na caverna escura,

sentar-me na poltrona do teu ombro

numa t-shirt antiga de bom pêlo,

é o prazer mais certo que me resta.

Que bom deixar-me estar na oscilação discreta

que nasce do teu corpo e me transporta

a essa embriaguez chamada rima;

sentir o cheiro limpo do cabelo,

adivinhar-te o gosto da saliva.

Pois, embora eu veja a multidão compacta

(que a imagem tornou inofensiva)

estremecer e rir e comover-se

à imprecisa luz da narrativa,

eu sei que é tudo só um mero acto

de magia vulgar vinda do tecto

onde o olhar obsceno do arquitecto

ao longo da sessão vigia e julga;

e mesmo a clara forma da paisagem

é tosco véu de uma ilusão sensível,

metáfora ou reflexo de outro mundo

perfeito e puro, onde não entra gente

(mas entra, vê tu bem, a miserável pulga).

Tu porém és real, sentes lá dentro

um coração pulsar, e até parece

que tens em ti a inclinação secreta

a seres dono de ti, e partilhar

a vida verdadeira de um insecto.

Assim eu sonho e penso, já suspenso

por fino fio, à altura do teu peito;

mas já, impaciente, tu murmuras

que perdes o réu tempo em desgraçada fita;

melhor seria, em quente discoteca,

toda a noite dançar (uma invenção maldita,

alheia à condição de quem medita),

ou regressar a casa, onde de graça

te aguarda mais concreta companhia.

Ficar por aqui só, sem o mistério

da tua carne branca bem cheirosa,

é uma perspectiva que me assusta;

como dizer-te que também eu quero

afinal conhecer o nó do enredo?

De poucas horas feita a longa vida,

são estas as melhores e as mais justas;

está o filme a acabar, fica comigo até ao fim;

não sabes que te perdes, quando te perdes de mim?


António Franco Alexandre
in Poemas com Cinema, pag.25, Assírio e Alvim

porque sim II

O Deus da Ausência

[clicar na imagem para ler. HOJE, às 18.30 horas]

porque sim


Sábado, 30 de Junho, às 17 horas
Sousa Dias e Rui Manuel Amaral lêem textos de Manuel António Pina.
Gato Vadio (rua do Rosário, 281), no Porto.

quinta-feira, junho 21

5 linhas ou menos


E apesar de tudo [do tempo, do contratempo, da tarde de lima e da tarte, do livro, da falta de flores, da agenda, da pressa, dos dias a menos, da dor, da cor do bilhete de avião, do sorriso, das mãos, do turbilhão de tantas coisas e, até, do telefone esquecido...] proponho seguirmos viagem.

...e se...

a noite pede música

domingo, junho 17

Oh as casas as casas as casas




Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem

Enquanto vivas distinguem-se umas das outras

distinguem-se designadamente pelo cheiro

variam até de sala pra sala

As casas que eu fazia em pequeno

onde estarei eu hoje em pequeno?

Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?

Terei eu casa onde reter tudo isto

ou serei sempre somente esta instabilidade?

As casas essas parecem estáveis

mas são tão frágeis as pobres casas

Oh as casas as casas as casas

mudas testemunhas da vida

elas morrem não só ao ser demolidas

ela morrem com a morte das pessoas

As casas de fora olham-nos pelas janelas

Não sabem nada de casas os construtores

os senhorios os procuradores

Os ricos vivem nos seus palácios

mas a casa dos pobres é todo o mundo

os pobres sim têm o conhecimento das casas

os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas

Visitei casas apalpei casas

Só as casas explicam que exista

uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas

as ruas onde passamos pelos outros

mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer

na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas


Ruy Belo





imagem: Sergio Larraín





a noite pede música

Ode ao Gato




Os animais foram


imperfeitos,

compridos de rabo, tristes

de cabeça.

Pouco a pouco se foram

compondo,

fazendo-se paisagem,

adquirindo pintas, graça, voo.

O gato,

só o gato

apareceu completo

e orgulhoso:

nasceu completamente terminado,

anda sozinho e sabe o que quer.



O homem quer ser peixe e pássaro,

a serpente quisera ter asas,

o cachorro é um leão desorientado,

o engenheiro quer ser poeta,

a mosca estuda para andorinha,

o poeta trata de imitar a mosca,

mas o gato

quer ser só gato

e todo gato é gato

do bigode ao rabo,

do pressentimento ao rato vivo,

da noite até seus olhos de ouro.



Não há unidade

como ele,

não tem

a lua nem a flor

tal contextura:

é uma só coisa

como o sol ou o topázio,

e a elástica linha em seu contorno

firme e sutil é como

a linha da proa de um navio.

Seus olhos amarelos

deixaram uma só

ranhura

para jogar as moedas da noite.



Oh pequeno

imperador sem orbe,

conquistador sem pátria,

mínimo tigre de salão, nupcial

sultão do céu

das telhas eróticas,

o vento do amor

na intempérie

reclamas

quando passas

e pousas

quatro pés delicados

no solo,

cheirando,

desconfiando

de todo o terrestre,

porque tudo

é imundo

para o imaculado pé do gato.



Oh fera independente

da casa, arrogante

vestígio da noite,

preguiçoso, ginástico

e alheio,

profundíssimo gato,

polícia secreta

dos quartos,

insígnia

de um

desaparecido veludo,

seguramente não há

enigma

na tua maneira,

talvez não sejas mistério,

todo o mundo sabe de ti e pertences

ao habitante menos misterioso,

talvez todos o acreditem,

todos se acreditem donos,

proprietários, tios

de gatos, companheiros,

colegas,

discípulos ou amigos

do seu gato.



Eu não.

Eu não subscrevo.

Eu não conheço ao gato.

Tudo sei, a vida e seu arquipélago,

o mar e a cidade incalculável,

a botânica,

o gineceu com seus extravios,

o por e o menos da matemática,

os funis vulcânicos do mundo,

a casaca irreal do crocodilo,

a bondade ignorada do bombeiro,

o atavismo azul do sacerdote,

mas não posso decifrar um gato.

Minha razão resvalou na sua indiferença,

o seu olho tem números de puro.



Pablo Neruda
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)



sábado, junho 16

... parece que gostam os 2 de cerveja...



"Além de escritor, Afonso Cruz, é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Em Julho de 1971, na Figueira da Foz, era completamente recém-nascido.


Haveria, anos mais tarde, de frequentar lugares como a António Arroio, Belas Artes de Lisboa, Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de meia centena de países. Recebeu vários prémios e distinções nas várias áreas em que trabalha, vive no campo e gosta de cerveja.

Fique com um trecho do seu mais recente romance." AQUI



porque sim

Sei agora quando será a manhã derradeira

Sei agora quando será a manhã derradeira - quando a luz não afugentar mais a noite e o Amor – quando o sono for eterno e um sonho só inesgotável. Sinto em mim uma fadiga celeste – Longa e penosa foi a minha peregrinação ao Sepulcro Santo, opressiva a minha Cruz. A onda de Cristal, imperceptível aos vulgares sentidos, que jorra no seio obscuro do montículo de cujo sopé o terrestre caudal irrompe, quem dela alguma vez provou, quem esteve no cume das montanhas que delimitam o mundo e olhou para Além, para a nova terra, a morada da Noite – em verdade, esse não regressará jamais aos trabalhos deste mundo, à terra onde a Luz habita em eterna agitação.


Esse é o que levantará no alto as tendas da Paz, o que sente a ânsia e o amor e que olha para Além até que a hora entre todas bendita o faça descer ao imo da nascente – por cima, flutua o que é eterno, reflui ao sabor de tormentas; mas tudo aquilo que o contacto do amor santificou escorre dissolvido, por ocultas vias, para a região do Além e aí se mistura, como os aromas, com os seres amados para sempre adormecidos.

(…)

Novalis in Os Hinos à Noite



...gosto...

a noite pede música

sexta-feira, junho 15

5 linhas ou menos


Ele deu-lhe um beijo na palma da mão esquerda. Porque na outra ela tinha flores. A palma da mão, da direita ou da esquerda, é um lugar tão invisível como o coração. Mas igualmente seguro, disse ele.
Ela concordava. Pela primeira vez concordaram.

pois!

a noite pede música

Anote aí na agenda, por favor.

quinta-feira, junho 14

Um dia ANTES em ponto


Como chamar a  uma pessoa que chega um dia antes, em ponto, ao encontro marcado?

quarta-feira, junho 13

a noite pede música

segunda-feira, junho 11

"A pessoa não é a cara que tem. É a vida."


"A pessoa não é a cara que tem. É a vida."


Morreu Maria Keil. Para mim é a  ilustradora do meu livro da escola primária. Tenho um carinho imenso pelos seus desenhos. O Palhaço Verde, por exemplo, a ilustrar o texto da Matilde Rosa Araújo, é um desenho para sempre na minha vida. Obrigada Maria Keil. Muito muito muito.

Ler aqui e aqui


domingo, junho 10

Dizem...


Dizem que temos valor, mas que nos falta dinheiro e união; e todos nos prognosticam os fados que naturalmente se seguem destas infelizes premissas.


Pe. António Vieira, Cartas [1670]

in Citações e Pensamentos de Padre António Vieira, Casa das Letras, 2010

porque sim



porque é Dia de Portugal...

sábado, junho 9

O valor...



O valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo sine qua non de humanidade, é uma vida de dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo.

Zygmunt Bauman 



imagem: Andel Adams

Posso te contar uma história?

quinta-feira, junho 7

a noite pede música

Os Cavalos de Tarquínia



 
 
Sempre achei que mais ninguém o tinha lido, apesar de o ter emprestado e de nunca mais o reaver. Nunca soube se a Dona Isabel gostou dos Cavalos de Tarquínia. Também nunca mais soube dela. Guardo o seu silêncio, os seus cabelos grisalhos, o modo como atendia o telefone. Gosto de pensar que de mim, a Dona Isabel guarda bem o meu livro. O primeiro que li de Margarite Duras. Tinha 18 anos.


Mas sempre achei que mais ninguém o tinha lido, até há poucos minutos. Há poucos minutos eu disse - meu deus, os Cavalos de Tarquínia, Tiago! Disse alto como se o Tiago estivesse ali. E fui memória adentro . Como se todos os cavalos da memória fossem alados.

A Dona Isabel recostada na cadeira, a ler nos intervalos do silêncio do telefone.
Um silêncio muito diferente do seu.

Depois outra memória e ainda outra, mais clara, levou-me pelo tempo.

Perguntei-lhe, quando pediu Campari se tinha lido os Cavalos de Tarquínia. Disse-me que não. E acho que foi a partir daí que criei e mantive essa ideia de que mais ninguém o teria lido a não ser eu. Coisas que nos ficam até prova em contrário, como agora.
Naquela altura eu queria dizer -lhe o quanto tinha gostado do livro; o quanto tinha gostado da densidade, da espessura das personagens dos Cavalos de Tarquínia. Queria ter-lhe falado da vida e da morte. Queria dizer-lhe que quando li o livro eu já conhecia a dinastia dos reis etruscos, os últimos reis de Roma, e já imaginara histórias à sua volta, como imaginava histórias à volta dos seus olhos. Queria dizer-lhe que, entretanto, já tinha lido mais três livros dela. Queria dizer-lhe que se não fosse aquele primeiro livro, eu não teria sorrido quando ele pediu Campari. Muito provavelmente, nem saberia da sua existência. Queria muito dizer-lhe que o Campari era só uma gota de água no meio daquela praia simbólica cheia de personagens que falavam muito. Algo que me ficou pelo simples facto do cenário ser soberbo. Não estou certa, agora, se no livro se na minha imaginação. Queria ter dito que gostava de visitar Tarquínia. Com ele, de mãos dadas, mesmo que o amor pudesse ter o travo acidulado do Campari, que tinha acabado de provar nos seus lábios. Mas não disse nada do que queria dizer.

De qualquer forma, enquanto ele falava eu pensava em como gostava de lhe falar destas coisas. Das descobertas que fazemos quando lemos, do calor que sentimos, mesmo quando os dias não pedem Campari, mesmo quando dentro do livro, não estão 47 graus. Acho que eram 47.

Principalmente queria dizer-lhe que tinha descoberto os Cavalos de Tarquínia com Marguerite Duras. Pequenos cavalos esculpidos nos túmulos etruscos que se fizeram título de um livro que me chegou às mãos sem que eu o procurasse. E aproveitaria para lhe dizer que gostava de etruscos e da cultura etrusca. Da cerâmica, das esculturas, das jóias e, essencialmente, do alfabeto por descodificar. E do fulgor desta história, agora, tão longínqua.

a noite pede música

Manjericos de papel


Na papelaria Fernandes, no Chiado, descobri a Rita Vaz. Ou melhor, os seus manjericos em origami.
E fiquei encantada. E pensei na Leila. E na Zaclis. E no São João. E na noite que se acende nesse dia, na minha cidade. 

O grande Gatsby


«De cada vez que te apetecer criticar alguém […] lembra-te sempre que nem toda a gente neste mundo gozou algum dia das vantagens que tu tens tido.»

Francis Scott Fitzgerald


...um mistério...



Impertinências

Na mesa ao lado,


um jardim de senhoras ao domingo,

associadas na ordem da má-língua

e do chá com limão,

num café de inverno, pela tarde.



Queixam-se deste tempo, bebem, fumam,

discutem seus segredos, concordam com sorrisos…



e de súbito param a olhar-te.



Despreocupada contas

― e no local a tua voz é como um sabre

que fere o inimigo ―

uma história de cama com detalhes hábeis,

uma maneira de sentir a vida

que penetra e dissolve

a luz de igreja,

a humilhação do frio nos joelhos,

os caixões fechados e as fotos do casamento.



Certo tipo de gente

sofre de invernia nos olhos,

conhece as geadas

que passam por baixo da porta,

uma porta de quarto,

ali onde a noite tem sempre

um cheiro a espera inútil,

e depois da espera aceitam-se as mentiras,

e a seguir o silêncio.



Nada deixam os anos na mesa do lado,

senão um murmúrio que envelhece e uma sombra

que cruza os lábios como uma cicatriz,

um rancor na epiderme da consciência.



A tua voz é alta e jovem

e vestida de festa, e quando se desnuda

faz com que o sol de inverno, comovido,

se detenha um instante para apoiar a fronte

nas vidraças do café.



Luis García Montero, Espanha (n. 1958), traduzido por Nuno Dempster.



[poema retirado daqui, graças ao Rui Almeida, a ligação para este caminho. obrigada]

A janela para a rua

A janela para a rua

Franz Kafka

Quem vive à parte, mas aqui e ali procura algo a que venha se ligar; quem busca, no que respeita às alterações do dia, do tempo, do trabalho e coisas afins, não mais que um braço eventual qualquer, em que possa se apoiar — esse não irá muito longe sem uma janela para a rua. E se assim sucede, que ele nada espere e apenas, como um homem cansado, alternando os olhos ...entre o céu e o público, chegue ao parapeito de sua janela — e mesmo que não queira e recline a cabeça para trás um pouco —, o arrastarão para baixo os cavalos, com o seu séquito de rodas e rumores, e assim, finalmente, até o interior mesmo da harmonia humana.
(Trad. Artur A. de Ataíde)

Das Gassenfenster
Franz Kafka

Wer verlassen lebt und sich doch hie und da irgendwo anschließen möchte, wer mit Rücksicht auf die Veränderungen der Tageszeit, der Witterung, der Berufsverhältnisse und dergleichen ohne weiteres irgend einen beliebigen Arm sehen will, an dem er sich halten könnte, — der wird es ohne ein Gassenfenster nicht lange treiben. Und steht es mit ihm so, daß er gar nichts sucht und nur als müder Mann, die Augen auf und ab zwischen Publikum und Himmel, an seine Fensterbrüstung tritt, und er will nicht und hat ein wenig den Kopf zurückgeneigt, so reißen ihn doch unten die Pferde mit in ihr Gefolge von Wagen und Lärm und damit endlich der menschlichen Eintracht zu.

Fonte: aqui

Poema

Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça


da casa, uma luz violenta.

Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.

A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia

pensa-a, enquanto

o gato imagina a elevada casa.

Eternamente a mulher da mão passa a mão

pelo gato abstracto,

... e a casa e o homem que eu vou ser

são minuto a minuto mais concretos.



A pedra cai na cabeça do gato e o peixe

gira e pára no sorriso

da mulher da luz. Dentro da casa,

o movimento obscuro destas coisas que não encontram

palavras.

Eu próprio caio na mulher, o gato

adormece na palavra, e a mulher toma

a palavra do gato no regaço.

Eu olho, e a mulher é a palavra.



Palavra abstracta que arrefeceu no gato

e agora aquece na carne

concreta da mulher.

A luz ilumina a pedra que está

na cabeça da casa, e o peixe corre cheio

de originalidade por dentro da palavra.

Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.

Se toco (e é apaixonante)

a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.

Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.

Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher

com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.

A mulher da palavra. A Palavra.



Deito-me e amo a mulher. E amo

o amor na mulher. E na palavra, o amor.

Amo com o amor do amor,

não só a palavra, mas

cada coisa que invade cada coisa

que invade a palavra.

E penso que sou total no minuto

em que a mulher eternamente

passa a mão da mulher no gato

dentro da casa.



No mundo tão concreto.



Herberto Helder

...delicioso...

É nisso que eu creio.

Trecho da carta escrita por Franz Kafka a Oscar Pollak, em 1904


“Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de... livros que escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio.

5 linhas ou menos

 

No metro, em Lisboa, na estação do Chiado, enquanto caminhava, alguém se agarrou ao meu braço e disse: por favor, deixe-me ir aqui ao seu lado, enquanto passamos o viaduto. Tenho vertigens. E caminhamos, assim, até ao outro lado, estranhos e apavorados. Eu não tenho vertigens. Mas apavora-me andar de braço dado com quem não conheço.

...encantador...

...do genial Antonio Boffa

sábado, junho 2

Breve História da Alma



« Ao longo dos séculos, muitos tentaram perceber a essência da alma: para alguns estava acorrentada ao corpo, para outros era um espírito puríssimo; os seus traços conduziam à intimidade profunda do homem ou à sua consciência ou, ainda, ao seu cérebro. A investigação laica identificava-a com a psique ou com o sistema neuronal, a intuição religiosa percebia-a como um abismo de luz em que Deus se desvenda. Cada vez mais procurada, investigada, negada e afirmada, a alma continuou a escapar à imensa fila dos seus «buscadores», que povoaram a história da humanidade. Como sugere a origem do nome, ela é de facto semelhante ao vento (ánemos, em grego), algo que existe mas não se vê nem se toca; que nos roça, sacode,atormenta e penetra, mas escapa inexoravelmente à verdade material.

Gianfranco Ravasi quis repensar o que já tinha sido investigado e meditado durante a longa aventura do pensamento humano, a partir das culturas primitivas e das antigas civilizações do Egipto, Mesopotâmia, Índia e Arábia. E analisou as duas nascentes que alimentam o conceito ocidental de alma: as Sagradas Escrituras, em particular o Génesis, com o homem criado à «imagem de Deus», e a cultura grega com os mitos de Psique e de Orfeu, e pensadores como Platão, Aristóteles e Plotino. São muitíssimos os buscadores que Ravasi encontra: daqueles que pesquisaram a alma do ponto de vista teológico como os Padres da Igreja e São Tomás de Aquino, àqueles que a analisaram filosoficamente como Descartes, Hegel, Comte, Darwin, Popper, mas também a Freud e Jung, só para citar alguns.

Quando se chega ao fim destas reflexões, apercebemo-nos de que a história da alma coincide com a história do homem, criatura de Deus. Mas surge a dúvida de que a agitação febril da humanidade contemporânea não seja um avanço, mas um imperceptível retrocesso ou uma estranha ciranda girada sempre no mesmo espaço e que «a alma, com a sua fome de eterno e de infinito» seja o que, pelo contrário, nos obrigará a avançar «sempre em frente».
 
Daqui

a noite pede música

Anjos Hoje


"A 11 de maio inaugurou a exposição temporária Angelorum. Anjos em Portugal

Angels in Portugal, pela qual se contam quase mil anos da representação do anjo na Arte em Portugal.

Hoje inaugura a exposição temporária Anjos Hoje, que apresenta os anjos de Paulo Neves e Catarina Machado."  A não perder, no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.

...acontece...