terça-feira, fevereiro 28

Entre muitas coisas...


Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas.
Sozinho não o podia fazer.

Franz Kafka


imagem: José Luís

hoje chamei o teu nome



Hoje chamei o teu nome,

o teu dia cansado,

a tua ausência,

longo é o verbo da espera.

O dia também me fugiu,

foi um corrupio de ida em volta

ainda que breves tenham sido

as minhas conjugações.

Chegou ao fim o dia,

encontro‐me finalmente

de frente para este rosto

que também trago cansado.

 
São estes dias de suor

e esquecimento

que nos fazem esquecer

dos nomes, dos verbos,

de toda uma semântica

que nos aproxima – para além

de todo o esquecimento

que nos representa – assim.

 
Miguel Pires Cabral, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

Poema desviado daqui

imagem:henri cartier bresson

a noite pede música

O mundo vê Charlot pela primeira vez

‎28 de Fevereiro de 1914... O mundo vê Charlot pela primeira vez


A altura não podia ser mais apropriada para relembrar um dos nomes maiores do cinema mudo. “O Artista”, um filme em jeito de homenagem ao género, acaba de se sagrar o grande vencedor dos Óscares.

Aproveite-se então a onda de curiosidade momentânea para recordar o actor, director, produtor, bailarino, argumentista... e músico britânico.

Charles Spencer Chaplin foi um dos artistas mais famosos do período conhecido como “Era de Ouro” do cinema dos Estados Unidos. Tal como o protagonista do “Artista”, os seus maiores sucessos decorreram até ao aparecimento do cinema sonoro.

Tudo começou muito antes dessa “ameaça” da modernidade, em 1914, quando o actor se estreou em “Between Showers” (“Charlot e o Guarda-chuva”), uma curta-metragem realizada por Henry Lehrman e produzida pela Keystone Film Company. Charles tinha-se mudado para os Estados Unidos uns anos antes,
participando em peças de teatro, onde despertou o interesse da Keystone. Não foi fácil para o jovem actor, habituado aos palcos, adaptarse ao estilo cinematográfico e os primeiros papéis não foram consensuais. Com o tempo, contudo, Chaplin tornou-se inseparável da personagem “Charlot”, com o sucesso que se conhece. Na ressaca da cerimónia que celebra a indústria do cinema de Hollywood, valerá a pena recordar a relação pouco amistosa que Charlie Chaplin mantinha com a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Recebeu dois Óscares honorários e outro pela banda-sonora do filme “Luzes da Ribalta”, coleccionou algumas outras nomeações, mas não escondia o desprezo pelos prémios.

Conta-se que terá provocado alguma urticária junto da Academia por usar as estatuetas como auxiliares para impedir a porta de casa de bater.

Catarina Santos


Fonte: aqui

projecto" Espelhos"


«As quadrasoltas-espaço d'arte tem o privilégio de apresentar no próximo sábado dia 3 de março, pelas 16h30, o projecto" Espelhos" de musica barroca e contemporânea para duas guitarras e música para guitarra portuguesa com interpretação de Tiago Cassola e Eduardo Baltar Soares.


quadrasoltas // espaço d'arte// rua miguel bombarda, 529, porto».

segunda-feira, fevereiro 27

como são os teus dias, a tua respiração no silêncio?


como são os teus dias, a tua respiração no silêncio?


agora, na memória despovoada, o teu sorriso é uma planície sem fim. sem ti. sem ti, está esta tarde de sol, como se os dias fossem todos contigo e eu não soubesse encher de música o espaço entre os dedos.

como são os teus dias, o teu olhar no meu?

sei que o fogo acende noites claras como luas, o fogo acorda sonhos altos, como plátanos e tudo acontece sem ti, tão perto do teu coração sem som, tão longe dos teus sentidos sem nome. gostava de te sentir e que a luz inteira do teu corpo me ficasse na ponta dos dedos, para te ver sempre assim, mesmo quando não souber a cor exacta dos teus olhos demorados.

(...)

daqui
 
imagem: Candace Rose Rardon

a noite pede música

...borboletear por aí!


...Hoje assinalo o dia assim: com insectos no seu estado perfeito.E, borboletear deixa de significar divagar como as borboletas. Aliás, a ciência prova que elas sabem para onde vão!

«Uma equipa de investigadores ingleses do centro de investigação Rothamsted Research, em Hertfordshire, divulgou algo que vem alterar profundamente a visão tradicional que temos sobre o comportamento destes extraordinários insectos.


Os resultados de um estudo sobre os padrões de voo das borboletas, recentemente publicado na revista científica «Proceedings of the Royal Society», revelam que, mesmo quando voam aos ziguezagues, elas sabem precisamente para onde vão.

Depois de seguirem o voo dos lepidópteros com radares em miniatura, os cientistas concluíram que as borboletas são capazes de localizar um habitat favorável ou um bom sítio para hibernar, e de voar directa e deliberadamente até uma fonte de alimento.

Quando identificam estes alvos, elas empreendem um voo linear, que pode ir até aos 200 metros de extensão, e vão directas até ao objectivo identificado».

...ganha...mais uma vez :)


... terceiro óscar para a imensa Meryl Streep...

A mente livre está em perigo


A nossa espécie é a única espécie criativa, e tem apenas um único instrumento criativo, a mente e espírito únicos de cada homem. Nunca nada foi criado por dois homens. Não existem boas colaborações, quer em arte, na música, na poesia, na matemática, na filosofia. De cada vez que o milagre da criação acontece, um grupo de pessoas pode construir com base nela e aumentá-la, mas o grupo em si nunca inventa nada. A preciosidade reside na mente solitária de cada homem.

E agora existem forças que enaltecem o conceito de grupo e que declararam uma guerra de exterminação a essa preciosidade, a mente do homem. Através das mais variadas formas de pressão, repressão, culto, e outros métodos violentos de condicionamento, a mente livre tem sido perseguida, roubada, drogada, exterminada. E este é um rumo de suicídio colectivo que a nossa espécie parece ter tomado.
E é nisto que eu acredito: que a mente livre e criativa do homem individual é a coisa mais valiosa no mundo. E é por isto que eu estou disposto a lutar: pela liberdade da mente tomar qualquer direcção que queira, sem direcção. E é contra isto que eu vou lutar com todas as minhas forças: qualquer religião, qualquer governo que limite ou destrua o indivíduo. É isto que eu sou e é esta a minha causa. Posso até compreender que um sistema baseado num padrão tenha que destruir a mente livre, pois esta é a única coisa que pode inspeccionar e destruir um sistema deste tipo. Concerteza que compreendo, mas lutarei contra isso por forma a preservar a única coisa que nos separa das restantes espécies. Pois se a mente livre for morta, estaremos perdidos.

John Steinbeck in A Leste do Paraíso

Um óscar para o Senhor Lessmore

Jazz de jasm, ou espírito e energia...


«Jazz de jasm, ou espírito e energia, jazz do francês jaser, ou conversar animadamente, jazz de Jazbo Brown, um músico negro itinerante, e ainda jazz de jass, como na frase "Jass it up boy, give us some more jass!", que alguns pares entusiasmados exclamavam, quando a dança ao som do dixieland chegava ao fim, segundo um artigo de 1937.

A etimologia da palavra não é clara e são muitas as sugestões, até hoje, quanto à origem do termo jazz. O que sabemos com toda a certeza é que Livery Stable Blues é o primeiro disco de jazz gravado, e editado em Fevereiro de 1917, pelo colectivo Original Dixieland Jazz Band»:

Fonte: aqui

quinta-feira, fevereiro 23

porque sim



...e passam 25 anos após a morte de Zeca Afonso...

...Maria Bonita, na voz de Helena Sarmento...

...podia ser...


...podia ser assim, uma tarde cheia de paz no interior de um país farto de sol...

quarta-feira, fevereiro 22

...detalhes. palavras.


abajur



(francês abat-jour)


s. m.


1. Reflector. Refletor.
Refletor ou armação revestida que faz incidir a luz num outro plano ou lhe quebra a intensidade.

a noite pede música

terça-feira, fevereiro 21

...e ainda não estou acostumada à ausência dela.


Chorei porque não podia mais acreditar, e adoro acreditar. Ainda consigo amar apaixonadamente sem acreditar. Isso significa que amo humanamente. Chorei porque daqui por diante chorarei menos. Chorei porque perdi minha dor e ainda não estou acostumada à ausência dela.

Anaïs Nin  in  Henry & June

porque sim



...vou repetir, novamente: detalhes :)

...seus olhos pirilampiscavam.


[...] Aconteceu assim:

o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite.
Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro.
Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.
A mãe se afligia e pedia:
- Nunca atravesse a luz para o lado de lá.
Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo.
Mas fingia obediência.
Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá.
Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.

Mia Couto in O Gato e o Escuro
imagem: Danuta Wojciechowska

a noite pede música



...eu também... :)

...é preciso...


A nossa vida em grande parte compõe-se de sonhos.
É preciso ligá-los à acção.
 
Anaïs Nin 

porque sim II


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

... Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

Portugal Luz e Sombra

LANÇAMENTO //23 Fevereiro //15h00 //Auditório BNP //Entrada livre

« A encerrar as comemorações do Centenário de Orlando Ribeiro (1911-1997), é lançado o livro Portugal Luz e Sombra – O País depois de Orlando Ribeiro, de Duarte Belo, numa edição de Temas e Debates/Círculo de Leitores, apoiada pela BNP, o Turismo de Portugal e a Fundação INATEL.
Neste livro, Duarte Belo transporta-nos a cerca de 140 lugares do Portugal fotografado por Orlando Ribeiro contrapondo, a décadas de distancia, imagens atuais dos mesmos locais e tomadas de vista, resultado de um trabalho de campo em que viajou pelo território nacional mais de 6000 km. Uma visão diacrónica do Portugal contemporâneo, a revelação de transformações e permanências, de traços de uma evolução com múltiplas leituras. [...] »

Fonte: aqui

porque sim



"Florbela", de Vicente Alves do Ó, filme sobre Florbela Espanca está mesmo aí...

Dalila do Carmo, actriz que tanto aprecio - mesmo muito muito - tem o papel principal...

Um making of, no belo Alentejo, pode ser visto aqui

...o vento não as leva. às vezes, não.

Instruções para Cantar


Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.

Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.

Julio Cortázar

Arte privada





Deveria ter feito da minha música um amor mais silencioso

como se de uma arte privada se tratasse.


A ti, a quem falo de poesia, a ti

que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,

respondo-te que também eu não compreendo,

que não há que compreender,

porque nada nos condena à fala

antes que as palavras aconteçam.


Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junho

e nunca terminado: um princípio de verão,

a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas colinas.


A rua de dia de semana

e o arquipélago da solidão despertando

para as poucas coisas que procuro

e que o poema irá entretecer

se entretecer. -

A virtude que, cega,

vai conhecendo o seu caminho.


Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,

e se ficamos tristes não era para ficarmos,

pois não existem momentos irrepetíveis.

Eles aninham-se no sangue

e voltam a mergulhar-nos na experiência:

um dia de verão, um bosque, colinas

onde a serpente de alcatrão se enrola.

A ausência de tráfego como motivo.


A pouco e pouco vou recuperando a gravura.

Agora sei que havia uma ave sobre as colinas,

pois há sempre uma ave, ou a sombra dela,

nos meus poemas. Que havia água,

o cheiro das inusitadas chuvas

pela manhã de Junho.


O rumor da imagem colado aos dedos.

O ocre escuro das areias espalhado na mesa

é um símbolo da infância,

mas não o reconheço ainda.

O poema é uma enumeração que não teve lugar,

que nunca terá. Eu, à beira do fracasso,

não o reconheço ainda.


Enquanto isso tem lugar em mim o advento

do que me define,

e o barro de que sou feito coze por dentro.


Luis Quintais, de A Imprecisa Melancolia, in Anos 90 e Agora- Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa, pag. 149,150,  QUASI, 2001

segunda-feira, fevereiro 20

...um chá em Marte!


...muito bom!
[obrigada! a do rei...]

domingo, fevereiro 19

porque sim



«Exposição dedicada a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, que pretende mostrar toda a multiplicidade da obra do grande poeta de língua portuguesa, conduzindo o visitante numa viagem sensorial pelo universo de Pessoa, para que leia, veja, sinta e ouça a materialidade das suas palavras. Com curadoria de Carlos Felipe Moisés e Richard Zenith, nesta exposição encontra-se um espaço repleto de poemas, textos, documentos, fotografias e pintura, onde se incluem raridades como a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.
Nascida de uma colaboração entre a Fundação Roberto Marinho (Brasil) e o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, com o apoio da Fundação Gulbenkian, esta exposição foi inaugurada em São Paulo, em 2010, e apresentada no Rio de Janeiro em 2011.
Em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, a exposição assinala o Ano do Brasil em Portugal.»

...também vos acontece?


...provar que não são um robot... quando querem comentar...

Teoria do caranguejo


Tinham construído a casa no limite da selva, orientada para o sul evitando assim que a umidade dos ventos de março se somasse ao calor que a sombra das árvores atenuava um pouco.


Quando Winnie chegava

Deixou o parágrafo no meio, empurrou a máquina de escrever e acendeu o cachimbo. Winnie. O problema, como sempre, era Winnie. Quando tratava dela a fluidez se coagulava numa espécie de

Suspirando, apagou numa espécie de, porque detestava as facilidades do idioma, e pensou que não poderia continuar trabalhando até depois do jantar; as crianças logo iam chegar da escola e ele teria que preparar o banho, fazer a comida e ajudá-las nos seus

Por que no meio de uma enumeração tão simples havia como um buraco, uma impossibilidade de continuar? Era incompreensível, pois tinha passagens muito mais árduas que se construíam sem nenhum esforço, como se de algum modo já estivessem prontas para incidir na linguagem. Obviamente, nesses casos o melhor era

Largando o lápis, pensou que tudo se tornava abstrato demais; os obviamente os nesses casos, a velha tendência a fugir de situações definidas. Tinha a impressão de estar se afastando cada vez mais das fontes, de organizar quebra-cabeças de palavras que por sua vez

Fechou abruptamente o caderno e saiu para a varanda.

Impossível deixar essa palavra, varanda.

Julio Cortázar in Papéis inesperados, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010
Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman.



Oana Chaplin

Short list

a noite pede música

Puro Lusitano


Chama-se Rubi. Está entre os 50 cavalos melhores do mundo! Promete nos próximos Jogos Olímpicos! E é lindo...tão lindo este puro lusitano...

Dá-me a tua mão...





Dá-me a tua mão


Deixa que a minha solidão

prolongue mais a tua

- para aqui os dois de mãos dadas

nas noites estreladas,

a ver os fantasmas a dançar na lua.

[...]

José Gomes Ferreira, in Poemas de Amor,  pag 123, Publicações D. Quixote,2002


imagem: Denis Nolet

sábado, fevereiro 18

o mundo...hoje...

a noite pede música

...um pouco tarde!


Das 9 às 13 aulas. Almoço e, depois, ainda me rodeei dos livros. Dos que preciso para um dos trabalhos. Mas adormeci. Verdade! E lá se foi o chá das 5 que tinha combinado! E o cinema ao fim da tarde!
Cansada. Ando um pouco cansada é o que é. E os dias não sobram. Não param. Não esperam...

porque sim

sexta-feira, fevereiro 17

A espantosa realidade das coisas



A espantosa realidade das cousas

É a minha descoberta de todos os dias.

Cada cousa é o que é,

E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,

E quanto isso me basta.


Basta existir para se ser completo.


Tenho escrito bastantes poemas.

Hei de escrever muitos mais. naturalmente.


Cada poema meu diz isto,

E todos os meus poemas são diferentes,

Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.


Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.

Não me ponho a pensar se ela sente.

Não me perco a chamar-lhe minha irmã.

Mas gosto dela por ela ser uma pedra,

Gosto dela porque ela não sente nada.

Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.


Outras vezes oiço passar o vento,

E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.


Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;

Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,

Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;

Porque o penso sem pensamentos

Porque o digo como as minhas palavras o dizem.


Uma vez chamaram-me poeta materialista,

E eu admirei-me, porque não julgava

Que se me pudesse chamar qualquer cousa.

Eu nem sequer sou poeta: vejo.

Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:

O valor está ali, nos meus versos.

Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.


Alberto Caeiro in Poesia, pag.104, Assírio & Alvim

a noite pede música

A ti que não tens nome...


[...]

A ti que não tens nome e que os outros ignoram,

O mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,

Os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te

E o sangue espalhado nos melhores momentos,

O sangue da generosidade

Transporta-te com delícias.


Canto a grande alegria de te cantar,

A grande alegria de te ter ou te não ter,

A candura de te esperar,  [...]


Paul Eluard, in Algumas das Palavras, Tradução de António Ramos Rosa


imagem: Paul Eluard por Henri Cartier-Bresson 

urgente!

quinta-feira, fevereiro 16

porque sim

quarta-feira, fevereiro 15

Não disse nada, amor,





Não disse nada, amor, não disse nada:

foi o rio que falou ...com a minha voz

a dizer que era noite e é madrugada

a dizer que eras tu e somos nós.


A dizer os mil rostos e Lisboa

ao longo do teu rosto se te beijo.

À luz de um pombo chamo Madragoa

e Bairro Alto ao mar se te desejo.


Não disse nada, amor. Juro, calei-me:

foi uma voz que ao longe se perdeu.

Cuidei que era Lisboa e enganei-me

pensei que éramos dois e sou só eu.


António Lobo Antunes
imagem: Peter Turnley

diário de Paris / Júlio Resende


diário de Paris JÚLIO RESENDE

18 de Fevereiro a 29 de Abril

Galeria de Exposições Temporárias
 

terça-feira, fevereiro 14

o efeito dos dias


"Tão pouco do que pode acontecer acontece..."

Salvador Dali

a noite pede música

A Curva dos Teus Olhos



A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito


É uma dança de roda e de doçura.

Berço nocturno e auréola do tempo,

Se já não sei tudo o que vivi

É que os teus olhos não me viram sempre.



Folhas do dia e musgos do orvalho,

Hastes de brisas, sorrisos de perfume,

Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,

Barcos de céu e barcos do mar,

Caçadores dos sons e nascentes das cores.



Perfume esparso de um manancial de auroras

Abandonado sobre a palha dos astros,

Como o dia depende da inocência

O mundo inteiro depende dos teus olhos

E todo o meu sangue corre no teu olhar.



Paul Eluard, in Algumas das Palavras, Tradução de António Ramos Rosa

segunda-feira, fevereiro 13

a noite pede música

Dia Mundial da Rádio


«Segundo alguns autores, a tecnologia de transmissão de som por ondas de rádio foi desenvolvida pelo italiano Guglielmo Marconi, no fim do século XIX, mas a Suprema Corte Americana concedeu a Nikola Tesla o mérito da criação do rádio, tendo em vista que Marconi usara 19 patentes de Tesla em seu projeto.


Na mesma época em 1893, no Brasil, o padre Roberto Landell de Moura também buscava resultados semelhantes, em experiências feitas em Porto Alegre, no bairro Medianeira, onde ficava sua paróquia. Ele fez as primeiras transmissões de rádio no mundo, entre a Medianeira e o morro Santa Teresa.

As primeiras radioemissões
O início da história do rádio foi marcado pelas transmissões radiofônicas, sendo a transcepção utilizada quase na mesma época. Consideram alguns que a primeira transmissão radiofónica do mundo foi realizada em 1906, nos EUA por Lee de Forest experimentalmente para testar a válvula tríodo.
No Brasil, a primeira transmissão foi realizada no centenário da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1922, em que o presidente Epitácio Pessoa, acompanhado pelos reis da Bélgica, Alberto I e Isabel, abriu a Exposição do Centenário no Rio de Janeiro. O discurso de abertura de Epitácio Pessoa foi transmitido para receptores instalados em Niterói, Petrópolis e São Paulo, através de uma antena instalada no Corcovado. No mesmo dia, à noite, a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, foi transmitida do Teatro Municipal para alto-falantes instalados na exposição, assombrando a população ali presente. Era o começo da primeira estação de rádio do Brasil: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro». Fonte: aqui



Em Portugal
«Em Portugal, eram já muitos os que tentavam, às suas custas receber emissões, criando receptores que na maioria dos casos não funcionavam. Mas em tudo há excepções, e um desses curiosos merece o devido destaque, já que conseguiu ultrapassar e vencer a incompreensão e desanimo de muitos, até chegar à montagem de uma verdadeira estação de Rádio.


Abilio Nunes dos Santos foi esse homem. Dirigiu a estação que passaria à história sob a denominação CT1 AA. O seu esforço valeu bem a pena já que este projecto viria a ser desenvolvido e prosseguido por Américo dos Santos, que conseguiria constituir uma das mais populares estações emissoras na altura: A Rádio Graça.

Alguns interrogam-se sobre a origem do nome desta estação já que os seus maiores momentos foram passados e vividos não no velho bairro Graça mas sim numa vivenda do Restelo. No entanto foi na Graça que o seu fundador criou todas as condições para emitir e daí a denominação.

25 de Outubro de 1925 surgiram as primeiras emissões que eram preenchidas por mensagens de saudação ao auditório desconhecido.

Afinal até onde chegaria o sinal de rádio que era enviado? Nem o próprio Américo Santos sabia. Só algum tempo depois, recebeu uma carta de Tomar informando-o da recepção do sinal com qualidade razoável. Até finais dos anos 40 a loucura radiofónica traduzia-se na montagem desenfreada de emissores e de estações que, em disputa, poderiam ter posto em perigo o normal desenvolvimento das mesmas.
Incluído nesta onda de euforia, o Porto via nascer, em Maio de 1930, a primeira estação do norte: A Rádio Sonora. A iniciativa surgiu, na altura, de 3 irmãos. Um deles, Antero Calheirosa Lobo. Instalou-se no nº249 da rua Sá de Bandeira, num edificio que viria a ser totalmente ocupado pela emissora. Pena foi que o emissor fosse bastante fraco, já que ao nível de instalações a rádio Sonora era das melhores». [...]

Fonte: continua aqui

Sentar para ouvir rádio


Ao ler isto, chegaram saudades de um tempo em que me sentava para ouvir rádio. Verdade!

domingo, fevereiro 12

a noite pede música

Tu estás aqui




[...]

Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto

pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa

uma coisa para além disto que não isto

Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo

é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos

mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos

tu és em cada gesto todos os teus gestos

e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como

a palavra paz

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas

perdoa pagares tão alto preço por estar aqui

perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui

prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente

deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias

e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer

sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

Ruy Belo

...saia desse livro com as mãos para cima!

Clicklight!

O sabor do cinema regressa a Serralves


«A programação do Momento Treze do Ciclo O SABOR DO CINEMA - que pelo sétimo ano consecutivo se propõe chamar e cativar novos públicos para o Cinema - obedece ao duplo imperativo de reflectir sobre a função / o funcionamento das imagens - em consonância com o quadro temático que anima este ano o trabalho do Serviço Educativo - e de estudar a transformação do olhar sobre os objectos em olhar objectivado - numa tentativa de agarrar a imperdível oportunidade de estabelecer um diálogo com a exposição Robert Rauschenberg, patente no museu até finais de Março.

Apostados em honrar públicos já fidelizados e em chamar ao nosso círculo de espectadores-conversadores os muitos mais olhares que gostaríamos de trazer a este ciclos, é nossa preocupação prosseguir e aperfeiçoar o dispositivo de projecção-conversa, por um lado, e privilegiar não apenas a divulgação de obras de referência como a apresentação de experiências cinematográficas cujos resultados são menos conhecidos porque pouco ou nada difundidos nos circuitos de distribuição comercial, por outro. Na estimulante companhia de cineastas fora do baralho como Mekas, Vertov, Deren, Allen, Erice, Godard, descobriremos o trabalho de geniais experimentadores como Léger, Cunningham, Cage e Keersmaeker, questionando ainda e sempre, através de imagens-pensamento, a triste via do pensamento único.
Programação: Os Filhos de Lumière

Fonte: aqui

porque sim



...no passado dia 26 de Janeiro encontrei este filme fantástico...
guardei para partilhar, aqui, convosco :)

:)))

quinta-feira, fevereiro 9

O voo dos livros


Os meus chegaram e eu estou muito grata e feliz! Está aqui o sinal, como prometido :) Também sei que alguns já chegaram a Porto Alegre e a Niterói! Falta Curitiba e Rio de Janeiro. Os  livros fazem voar e voam. Literalmente! Só que alguns não estão a voar para o lugar certo! Parece-me...

Férias em Roma

Verde de inveja ;) Nem sei como lhe emprestei o meu guia :))) Amanhã, já estará em Roma. De férias.
Mas ela merece. Oh se merece! A minha mana merece tudo! Eu é que já estou para aqui nas recordações. Nas boas recordações de um Outubro em Roma. E no coração verde de Itália. Suspira-se!
Amanhã, lá estarei. No meu local de trabalho. Tão contente como se estivesse perdida numa rua estreita de Roma, a comer uma fatia de pizza e a beber um copo de vinho etrusco. Boa viagem :)

a noite pede música

Falta de abstracção


Não era falta de atenção. Não! Era falta de abstracção! 
Bem sei que a tendência, quando se perde algo é a de olhar para o chão. No caso, um pouco de azul excluiria de imediato essa possibilidade absurda.  Era para o ar, para cima, em direcção ao céu que ele deveria olhar. Como se procurasse uma janela alta, um papagaio de papel, um salto de golfinho. Nunca para o chão, onde caem moedas e rolam para sítios onde ninguém vai. Onde quase ninguém vai.
Onde quase nada se recupera.
Faltava-lhe muito azul. Azul e abstracção.

O que há de novo no amor?

quarta-feira, fevereiro 8

Resumindo...

...simples preconceito aritmético...


"A velhice é um simples preconceito aritmético, e todos nós seríamos mais jovens se não tivéssemos o péssimo hábito de contar os anos que vivemos. "


Júlio Dantas

Trabalhar até aos 75 anos...


«O chefe do governo sueco, Fredrik Reinfeldt, defendeu que os cidadãos trabalhem até aos 75 anos, em vez de o fazerem aos 65.
Fredrik Reinfeldt (na foto), primeiro-ministro da Suécia, quer que a idade de reforma no país passe dos actuais 65 anos para os 75. A proposta está a gerar controvérsia.


As declarações de Reinfeldt foram feitas numa conferência sobre o emprego, refere a Reuters. Posteriormente, numa entrevista ao jornal sueco "Dagens Nyheter", citada pela agência noticiosa, o primeiro-ministro sustentou a sua tese: "A questão é se um empregador terá uma atitude diferente perante alguém que tem 55 anos se este disser que está a pensar trabalhar mais 20 anos".

O governante, que preside à coligação de centro-direita, afirmou que a Suécia tem de enfrentar o facto de as pessoas estarem a viver mais anos e que, para se manterem os actuais níveis de bem-estar social e de pensões, deverão trabalhar mais tempo.»

Fonte aqui

"Temos cá dentro as idades todas"


«As circunstâncias podem mudar uma pessoa? Talvez residualmente. Mas, na verdade, somos aquilo que somos. Depois há a vida, para que possamos descobrir o que é isso, afinal.


Vou contar-lhe uma história. Quando tinha para aí uns 10 anos fui avaliar-me à frente de um espelho. Franzi o sobrolho, os olhos, a cara, e logo nesse momento pude contar onze rugazinhas. Ainda hoje tenho essas mesmas rugas no mesmo sítio. Já me sentia velha quando era mais nova. E agora que sou mais velha, sinto-me ainda uma menina. Todos nós somos assim.  Somos os velhos em que nos íamos transformar quando ainda éramos novos.»

Meryl Streep [numa entrevista ao Expresso]
 
Desviadíssimo daqui

a noite pede música

Anotem aí na agenda, por favor...


« "CoraSons" reúne um grupo de amigos, músicos e atores da Galiza, Portugal e Brasil, num concerto único, onde o tema do coração pulsa. Uxía, Sérgio Tannus, Aline Frazão, Najla Shami, Inês Salselas, Manuel Salselas, Ana Senlle, Chus Dominguez, Belen Cid, Magin Blanco, Tatán, Carlos Blanco, Xoán Curiel, Quiné, Bruno Cardoso, Pablo vidal Mendoza, Rui David e Isabel Leal são aqueles que dão som ao coração. Uma noite de afetos, onde brindaremos ao símbolo universal que nos une… CoraSons!
17 de fevereiro 23 horas Maus Hábitos Rua Passos Manuel 178, 4º 4000-382 Porto - Portugal »

imagem: Isabel Leal