segunda-feira, outubro 31

Dia D, de Drummond



Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, em Itabira (Minas Gerais)
e morreu no dia 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro


« Nada de Dia das Bruxas. 31 de outubro deve ser, a partir de hoje, o Dia D, ou o Dia de Drummond. Nesta data, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade completaria 109 anos de idade e o Instituto Moreira Salles organizou uma vasta programação em várias cidades brasileiras (e até em Lisboa, Portugal) para homenagear o escritor.

A inspiração veio do Bloomsday, efeméride celebrada todo 16 de junho na Irlanda (e em várias partes do mundo), para homenagear o livro Ulisses, de James Joyce. A versão brasileira dedicada a Drummond inclui a exibição de filmes, declamações, leituras, teatros e debates, que têm acontecido desde a semana passada, em algumas cidades, e termina hoje.


Um dos destaques da programação de várias cidades é o filme “Consideração do poema” (2011), produzido pelo Instituto Moreira Salles. O longa-metragem mostra uma visão geral da obra poética de Drummond, por meio de leituras de importantes artistas brasileiros, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto Fernanda Torres e Marília Pêra.

No site oficial, está disponível o vídeo “No Meio do Caminho” (2010), produzido pelo instituto para comemorar o lançamento da nova edição do livro “Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema”, que reúne o que foi dito sobre o tão conhecido poema de Drummond. No vídeo, os versos são recitados em 11 versões em língua estrangeira, declamados por personalidades como David Arrigucci Jr., Matthew Shirts e Jean-Claude Bernardet.

Além de assistir, o público também tem a chance de participar dessa festa. Qualquer pessoa pode enviar um vídeo para o site do evento com a declamação de um dos poemas do escritor. Esse material vai servir de inspiração para outro filme, produzido pelo instituto.

Ainda não há como saber se o Dia D terá a mesma força nos próximos anos, mas, em 2012, pelo menos um tributo estará garantido: Carlos Drummond de Andrade será o homenageado da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2011, quem recebeu as honras foi o modernista Oswald de Andrade.

Fonte: aqui

domingo, outubro 30

Está quase a chegar às livrarias

SINOPSE

«A 8 de dezembro de 2009, Rosalina Ribeiro, secretária e amante do milionário Lúcio Tomé Feteira, foi assassinada no Rio de Janeiro, no Brasil. O crime trouxe à luz do dia a violenta disputa da incalculável fortuna do industrial nascido em Vieira de Leiria. «O caso da herança Feteira», até aí assunto de advogados e tribunais, saltou então para as páginas da Imprensa e para o horário nobre das televisões.

Quem foi Lúcio Feteira? Que segredos e mistérios atravessaram a sua existência? O que se esconde por detrás da sua riqueza? Porque lhe chamavam génio, louco e perigoso? Que histórias e tragédias marcaram a família? Quem foram as mulheres da sua vida? Em que polémicas e conspirações se envolveu? Porque quiseram matá-lo?

Com recurso a dezenas de entrevistas e testemunhos, centenas de documentos inéditos e milhares de páginas de arquivos públicos e privados, esta é a primeira parte da história nunca contada de um homem poderoso, fascinante e controverso, que morreu à beira de celebrar cem anos, idolatrado e odiado.»

Lúcio Feteira – A história desconhecida, Miguel Carvalho, Volume 1, Das origens à glória, 304 páginas, Quidnovi Editores


APRESENTAÇÕES

  • Vieira de Leiria - 26 de Novembro (sábado), às 16.30, no auditório da Junta de Freguesia.
A apresentação fica a cargo de Paulo Vicente, vice-presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, e de Francisco Oneto Nunes, antropólogo e professor do ISCTE

  • Lisboa -  4 de Dezembro (domingo), às 17 horas, com apresentação do jornalista Mário Zambujal

  • Porto -  9 de Dezembro (sexta),  às 22 horas, na Fnac do Norteshopping, com apresentação do jornalista, Carlos Daniel

a noite pede música

uma pequeníssima, quase imperceptível chávena de café


[...pode uma pequeníssima, quase imperceptível chávena de café provocar uma fúria em alguém?
...pode uma quase imperceptível, pequeníssima chávena de café provocar saudades?

pode!!!]

...surround...

...bom dia :)


[... a hora mudou; tenho de trabalhar; tive um sonho estranho; está um dia lindo...]

porque sim

sábado, outubro 29

urgente!

a noite pede música

... a vida fez-me compreender os livros.




Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas (…). A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.



Marguerite Yourcenar in Memórias de Adriano, pag. 23-24, Editora Ulisseia, 1997

imagem: Di Li Feng

...when was the last time...

...é coisa dos cinemas...




nesse tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?


ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro

por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfado
o happy end é coisa dos cinemas

Fernando Assis Pacheco in Poemas com Cinema, pag. 29, Assírio & Alvim, 2010

sexta-feira, outubro 28

Graça Morais na Árvore


[Exposição de Graça Morais, na Árvore, até 20 de Novembro] 


« E aqui estão, primeiro, as criaturas do presente, recém-chegadas à sua obra: criaturas que deambulam ou avançam em fila, inseguras, reduzidas a vultos, a espectros, descarnadas pela condição de refugiados; soldados bem equipados de botas e capacetes, escudos e máscaras, armados; detidos; outros em pose de inspecção – suspeitos, radioactivos? É a comunidade internacional que faz e desfaz as catástrofes humanitárias – carrascos e vítimas; jornalistas e observadores (?); voluntários e agentes não-governamentais.


Aqui estão também as criaturas vindas do passado: figuras femininas de máscaras brancas com olhos fechados; ou de olhar atento e sobressaltado; mães auxiliadoras no rito da Pietà; um anjo; cabeças híbridas; e os cães vagabundos, rafeiros em pose de alerta ou de orelhas baixas e o olhar que nos fita, à espera.

Pensar que as personagens que chegam do passado poderiam ser um sinal reconfortante na perturbação geral é uma suposição que não se confirma, uma vez que o seu reino também é o da inquietação.

Na linguagem de Graça Morais, a visão do mundo não descarta a visão da sua obra, passado e presente confrontam-se, referentes de diversa natureza cruzam-se numa trama complexa.

Este é bem o nosso mundo, feito de realidades afastadas que nos chegam em simultâneo, numa sincronia enganadora. Valores e princípios têm, no seio dos conflitos que interessaram a artista, uma validade sempre provisória e contingente, ao sabor de circunstâncias políticas e de negociações de conveniência. As identidades são sempre transitórias – hoje num papel, amanhã no campo oposto; hoje como algoz, amanhã como mártir; hoje como personagem anónima, amanhã como figura da comunicação global. Não haveria melhor recurso artístico do que este mosaico de tempos e espaços em que se organizam os desenhos, para o demonstrar.

A artista permanece fiel ao mundo e fiel ao seu mundo.»

Fonte: aqui

porque sim

quinta-feira, outubro 27

Faz-me tanto sentido


É tão simples.

Há pessoas que todos os dias, todos os dias fazem mais e mais sentido na minha vida.

Todos os dias se torna mais claro e evidente porque chegaram. Porque permanecem.

Como se a minha vida existisse exactamente para isso, para as receber.

Para fazer sentido.

Sentido assim de sentir. Sentido assim de bússola.

Assim de fazer todos os sentidos numa só direcção.

Fazer sentido é fazer sol. É fazer um caminho.

É fazer um dia inteiro feliz.

O teu sorriso é a minha cor preferida.

E faz-me sentir. Faz-me tanto sentido.
 
imagem: Lazahr Ben-Ymanuel

Dois amigos diferentes...


É já hoje, às ‎18h30, na Cooperativa Árvore. [cliquem na imagem para informações mais detalhadas]

lançamento do livro de Alexandra Gandra [texto] e Nuno Gandra [desenhos]

Bora lá!

“Quase Nada”


“Quase Nada” a partir da obra poética de Eugénio de Andrade, no Teatro do Campo Alegre, no Porto, de 28 a 30 de Outubro, pelo Grupo de Teatro de Surdos do Porto.


A estreia a está marcada para 28 de Outubro e do projecto faz ainda parte o lançamento do livro "Eram Umas Quantas Vezes - Registo de um Processo", referente ao anterior Projecto Teatral com Surdos levado a cabo por esta instituição.

Programa:

- 28 de Outubro, às 21h30 (estreia)
- 29 de Outubro às 16h00 e às 21h30 (espetáculos)
- 30 de Outubro às 16h00 (espetáculo)
- 29 de Outubro às 17h00 (lançamento do livro)

”Júlio Dinis, 140 anos depois”


Hoje, nos Serões da Bonjóia, Isabel Ponce de Leão fala de ”Júlio Dinis, 140 anos depois”

«As Pupilas do Senhor Reitor; A Morgadinha dos Canaviais; Uma Família Inglesa; Serões da Província; Os Fidalgos da Casa Mourisca são alguns dos legados de Júlio Dinis, médico e escritor. Passado 140 anos da sua morte, o Serão da Bonjóia desta Quinta-feira evoca o escritor que "antecipou o futuro escrevendo de leve como diz Eça em Uma Campanha Alegre, mas ao contrário do que o mesmo Eça afirma, não vivendo de leve porque, do alto dos seus parcos 32 anos, previu e sentiu os vastos e vindouros problemas da humanidade". Aproveitamos e damos a conhecer, a exposição bibliográfica de evocação dos 140 anos da morte de Júlio Dinis, patente na Biblioteca Pública Municipal do Porto até ao dia 15 de Novembro.»

Harold Edgerton - fragmentos de tempo


Lá dentro estava muitíssimo agradável. Lá fora é que nem tanto, apesar do jardim [botânico] extraordinário que a circunda. A Casa Andresen, no Porto, é sempre, faça chuva ou faça sol, um excelente destino.
E para além da exposição da Armanda Passos,  há um outra exposição, no piso de cima, que vale a pena visitar:" Harold Edgerton - fragmentos de tempo". Fotógrafo e cientista, Harold Edgerton, é o pioneiro da fotografia de alta velocidade. Aqui e ali, imagens icónicas, cheias de movimento, velocidade e luz.


«A exposição conta com 58 obras inéditas que simbolizam, acima de tudo, o "avanço científico" e o "interesse estético de Harold pela fotografia". É possível ver obras como o "O Vidro Blindado Quebrando-se", onde se observa um vidro a estilhaçar-se por completo a uma velocidade de quase quilómetro e meio por segundo ou "Gussie Moran, Serviço de Ténis Multiflash", no qual Harold captou cerca de 20 flashes por segundo.» Fonte deste excerto aqui



[Obrigada JD pela companhia. Gostei muito :)]


quarta-feira, outubro 26

a noite pede música

Uma dor no joelho


Há perguntas simples e difíceis a que não sei, se sei responder convenientemente ou, assertivamente, como diz a psicologia. A psicologia diz tão bem coisas que eu sei tão mal. Adiante.

Mas há uma pergunta em especial que me deixa angustiada desde pequena. E como ficava angustiada, mentia. A minha mãe perguntava

- Ainda te dói? E eu dizia. Não. Mas doía. Imenso. Talvez tenha sido assim que aprendi a suportar a dor. Fazia qualquer coisa para não ir ao médico. Ainda hoje. Menos. Mas a pergunta atravessou os tempos. E quando o Senhor Doutor me fixa e atira, solene

- E a dor? Como é a dor?

Cava-se um silêncio tamanho à minha volta, que não me sai nada. Explicar uma dor, é uma coisa tremenda. Dói-me sempre mais do que a dor. Sei que sofro de défice de objectividade. Nunca sei explicar cirurgicamente.

Expectante, o médico arremessa frases curtas, contra a minha incapacidade de balbuciar analogias. E eu, digo que sim ou que não, conforme. Quase sempre inconformada com as hipóteses que me dá. Até porque me distraem da minha dor.

- Assim, uma dor como se fosse uma lâmina?

E eu a pensar – sim - que eu não sou capaz de dizer nada, mas penso - uma lâmina de metal, uma lâmina de sílex? Lá fico eu enfiada entre minutos de pensamentos estapafúrdios que me ocorrem em ocasiões impróprias e sérias.

Enquanto não lhe respondo, o Senhor Doutor, vai falando: as pessoas têm maior ou menor capacidade para aguentar a dor. A dor é um sinal do corpo. Um alerta. Por ínfima que seja, devemos prestar-lhe atenção. Pode não ser nada. Mas também pode ser tudo. Há pessoas que não ligam aos sinais, ignoram-nos, não lhes dão a importância que de facto tem. Há pessoas que os minimizam. Fazem de conta que não sentem dor. Até que ela se vá embora. É uma estratégia como outra qualquer. Que resulta ou não.

E enquanto o médico fala a dor alivia. A tensão só regressa, quando insiste

- e a dor, explique-me?

E eu novamente sem saber o que me dói mais. Se o ombro, o braço, o pé, o estômago, o joelho – não interessa – ou se a alma. A pressentir sempre aquela terrível pergunta objectiva como um termómetro. A minha ficha de paciente à sua frente. Tenho sempre a tentação de lhe pedir para me deixar ler as suas notas. Para ver o que é que, ao longo dos anos, ele foi apontando sobre as minhas dores. Nunca o fiz.

Olha-me, mais uma vez. Pousa a caneta, coloca as mãos unidas em cima da secretária, levanta a mão para ajeitar os óculos sob o nariz e está iniciada a mini coreografia que antecede a sua insistência.

- E a dor, como é a dor? Ora, tente...

E eu incapaz, sequer, de dizer ai! Uma aflição imensa. Como se não houvessem palavras no mundo.

- E então? É como se fosse uma agulha a picar ligeiramente? Assim mais picadelas espaçadas ou...

De um só fôlego, tomada pelo desespero de todas as vezes que não lhe respondi:

é assim uma dor como se eu nunca tivesse feito um papagaio de papel; como se nunca tivesse beijado o sorriso mais quente e húmido da terra; como se nunca ninguém me tivesse contado uma história antes de dormir; como se me roubassem a minha única carta de amor; como se a vida inteira tivesse de dançar sozinha; é como não terminar um puzzle porque se perdeu a última peça; mais concretamente é como se não houvesse literatura. Nem discos, nem quadros, nem cores. É uma dor como se a minha vida fosse de giz e me apagassem. A memória.

É assim a minha dor no joelho, Senhor Doutor.

Imagem: Alex Gozblam

[bem sei que é no braço...LM, de qualquer forma, desta vez, é para  ti :)]

terça-feira, outubro 25

Frente a frente



Nada podeis contra o amor.

Contra a cor da folhagem,

contra a carícia da espuma,

... contra a luz, nada podeis.



Podeis dar-nos a morte,

a mais vil, isso podeis

- e é tão pouco.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, outubro 24

a noite pede música

O que achas que devemos fazer...

porque sim



...porque é a minha cidade...

domingo, outubro 23

...quando o Outono nos chega... ao coração!



[...nós já nos conhecemos...tanto... só ainda...nunca... nos encontramos...]

imagem enviada por MB :) obrigada

a noite pede música

22º edição já abriu as portas


«O Amadora BD já chegou! Entre os dias 21 de Outubro e 6 de Novembro os quadradinhos regressam à cidade transformando-a no ponto de encontro internacional da banda desenhada em Portugal. Sexta- feira passada o Fórum Luís de Camões abriu portas à 22ª edição deste evento.Tendo O Humor como tema central, o Festival apresenta um conjunto diversificado de exposições de autores nacionais e estrangeiros representativos das várias tendências e correntes da BD, dos clássicos aos contemporâneos, do mainstream à vanguarda.  O ano de 2011 é um marco importante para a afirmação da banda desenhada portuguesa pois completam-se 100 anos sobre a criação da Sociedade dos Humoristas Portugueses, evento que simboliza uma alteração na forma de fazer e de pensar a BD que a partir desta data se autonomizou da caricatura. O Humor foi então o mote para a criação da imagem por Filipe Andrade premiado com o Melhor Desenho para Álbum Português em 2010. O desafio do artista foi o desenvolvimento de uma imagemforte, emotiva, atractiva, que promovesse o riso. O resultado foi a criação de quatro personagens divertidas — mãe, pai, filho e avó — os “super cueca” que têm o super poder de, com um simplesgesto, se rirem de si próprios». Mais informações em http://www.amadorabd.com/

4 palavras :)



PEACEFUL/ LOYAL/ PASSIONATE/  SWEEET

...e as vossas? ;)

Mês Internacional das Bibliotecas Escolares


Desviado daqui
imagem: Philippe Beha

a noite pede música

sábado, outubro 22

Uma carta


Meu Outono muito querido,


Setembro ainda ia no início quando disse cá para os meus botões que, este ano, te dispensava de bom agrado. Bem sei que sim, que me ocorreu por diversas vezes, mas estava a brincar! Coisas que nos passam pela cabeça, quando outras repassam pelo coração. Repentes!
De qualquer forma, não é rejeição suficiente para tanto amuo.
Repara: daqui a pouco chega o Inverno e os varredores de rua, de manga curta, amontoam folhas e folhas sob um sol esmagador!
Não sei se andas amuado porque te tiraram o ó maiúsculo ou se pura e simplesmente também andas farto do meu país, como eu, e foste embora deixando por aqui um Verão à toa, sem eira nem beira, completamente descapitalizado.
Está um calor desonesto! Um calor político! Um calor que não te pertence! Nem a nós. Nem aos frutos da época, que não chegam. Ou, se chegam, não apetecem e se apetecem, não há cenário. Pelo menos o que acorda a memória. Há muros de xisto, sem abóboras, a um sol demasiado; há castanhas adormecidas nos ouriços...enfim, há mães que não fazem compotas porque está muito calor e nem pensar, acrescentar-lhe o do fogão.
Tens noção dos rituais que ficam por cumprir, só porque não chegas como habitualmente?
As praias sem vigilância, apinhadas de gente, já não são trilhos solitários para descalçar os pés e vestir uma camisola de lã. A praia de Outubro – vamos ver Novembro – tem o mar mais onírico que conheço.
O que mais me faz sonhar, dentro da tal camisola...
Só os roupeiros e as montras das lojas estão cheios de conforto outonal que até faz impressão e a senhora da lavandaria anda triste, triste farta de dar a ferro roupa de Verão! É verdade! Não fui eu que inventei, foi ela que me disse. Mas no fim da conversa, sorri porque tem emprego. Mesmo triste, triste, tem emprego.
Podes não te dar conta da falta que fazes, na tua versão original, mas fazes. Até ao meu edredom! Numa altura em que pedem horas extraordinárias de trabalho, leve e lavado, sente-se um perfeito inútil, arrumado na parte de cima do armário. Sem ponta de luz, espera. Como todos nós, afinal. Só que nós, ao contrario dele, temos de bulir.
Depois, há as cores. Não sei se sabes mas acho-te um bálsamo para a alma e o olhar. Há quem se deprima, porque no sentido figurado, significas decadência. Eu não. Porque vejo sempre um certo encantamento na tua mutação matizada. Uma certa ternura na tua temperatura de meia-estação. [Ora aí está um termo que, agora, não te assenta nada bem: meia-estação]
Tens noção do argumento “faz-lhe lindamente a meia-estação”?
Gosto – gosto tanto – desse teu convite dissimulado para acrescentarmos, para irmos acrescentando ao corpo mais e mais. Até à derradeira camisola de gola alta.
Até ao par de botas, forradas, a pedirem um bom par de meias.
Gosto. Como gosto do convite inverso, mas igualmente dissimulado, que a Primavera nos faz. Um convite a tirar. A irmos tirando sempre, até ao último vestido de alcinhas.
Até pôr a descoberto, tudo o que há para descobrir no pico do Verão.
Isto para te dizer que não há condições psicológicas para passar do biquíni ao sobretudo!
Eu quero as meias-estações de volta, se faz favor! Vai avisando a Primavera!
E há, ainda, as músicas, algumas músicas que soam diferentes quando o sol coado pelas cortinas faz desenhos suaves no soalho da sala. Há aquele casaco de malha polar que ainda não consegui vestir no final do dia, enquanto beberico um chá de outono.
Há livros que ainda não revisitei, como revisito todos os anos por esta altura, porque não estás. Há passeios a pé que não fiz, há pinhas por apanhar, porque nem sequer me lembro que tenho – terei? - uma lareira para acender.
Até da chuva tenho saudades! E agora dizem que chegará de repente e excessiva , sob um alerta amarelo! Não brinques, Outono! Em alerta vermelho já está o meu país desnorteado. Já nada é previsível ! Nem as compotas da minha mãe! Nem o subsídio de Natal! Enfim...
E, só mais uma coisa, um pormenor, é certo, mas que me deixa um tanto irritada:  não dá jeito nenhum chutar folhas com sandálias! Palavra que não!

sexta-feira, outubro 21

porque sim

quinta-feira, outubro 20

Escrevias pela noite fora





Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava

o que ia ficando nas pausas entre cada

sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,

faz de conta que não sei as coisas que não queres

que saiba, acabei por te pensar com crianças

à volta. Agora há prédios onde havia

laranjeiras e romãs no chão e as palavras

nem o sabem dizer, apenas apontam a rua

que foi comum, o quarto estreito. Um livro

é suficiente neste passeio. Quando não escreves

estás a ler e ao lado das árvores o silêncio

é maior. Decerto te digo o que penso

baixando a cabeça e tu respondes sempre

com a cabeça inclinada e o fumo suspenso

no ar. As verdades nunca se disseram. Queria

prender-te, tornar a perder-te, achar-te

assim por acaso no meu dia livre a meio

da semana. Mantêm-se as causas iguais

das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina

dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono

custa. Porque estou contigo e me deixas

a tua imagem passa pelas noites sem sono,

está aqui a cadeira em que te sentaste

a escrever lendo. Pudesse eu propor-te

vida menos igual, outras iguais obrigações.

Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.



Helder Moura Pereira in De Novo as Sombras e as Calmas

quarta-feira, outubro 19

porque sim

terça-feira, outubro 18

Armanda Passos na Casa Andresen


Exposição de Armanda Passos, até 6 de Novembro no Jardim Botânico do Porto
/ Casa Andresen

«O historiador e crítico de arte José-Augusto França elogia-lhe “o malicioso bom gosto de intitular as suas telas só pelo que fisicamente são, a óleo". Luís de Moura Sobral, professor de história de arte, deixou-se "fascinar" pela sua “constante fidelidade" à pintura e à temática da “figura feminina". A mesma figura da qual surgem "ornitorrincos incompletos” “por partenogénese e gametócitos”, ou não estivéssemos "em pleno reino animal", lembra o cientista Manuel Sobrinho Simões. As três visões têm em comum a obra de Armanda Passos e, ao longo do segundo semestre de 2011, vão cruzar-se nas duas exposições que a Universidade do Porto dedica a uma das mais destacadas artistas plásticas contemporâneas portuguesas, tendo como pano de fundo as comemorações do Centenário da Universidade.»

Vamos lá?

vazio agudo

Escrever é procurar corresponder




Escrever é procurar corresponder

ainda que não se saiba a quê ou se esse quê existe

A nossa liberdade nasce de uma incerta radical

e a sua metamorfose é a invenção de um espaço

de correspondências que visam uma esfera inviolável



Nunca sabemos mas precisamos de desenhar a forma de um caminho

que vai até ao extremo do silêncio e reflui para o espaço

das nossas vidas sonâmbulas e incertas

e que nos abre o peito para uma respiração de estrelas vivas

embora continuemos a deambular no deserto



O silêncio do tempo diz-nos que é a única realidade

e que ela nos conduz à degradação e à morte

mas a ingénua energia de desejo impele-nos cada dia

a procurar a tranquila liberdade de um equilíbrio novo

no espaço da palavra dentro do incessante círculo do tempo

António Ramos Rosa



[o POETA fez ontem 87 anos! muitos e muitos parabéns!] 

segunda-feira, outubro 17

a noite pede música

pois!

porque sim



...porque era ele...porque era eu. ponto!

domingo, outubro 16

Haja Luz!


« TUDO está relacionado com tudo. No caldeirão onde fervilham as ciências e as artes há paralelos e influências mútuas. Haja Luz! é uma história heterodoxa, onde a química vem entrelaçada não só com as outras ciências mas também com a literatura, a música, as artes visuais, o cinema, a filosofia, etc. Aqui, o químico Humphry Davy aparece de braço dado com o poeta Samuel T. Coleridge, Richard Wagner partilha a divisão do trabalho com Adam Smith, e a pintura de René Magritte é invocada a propósito de Louis Pasteur; Marilyn Monroe está associada ao carbono, Jules Verne e Jacques Offenbach celebram o oxigénio, Sebastião Salgado fotografa a alquimia sufocante do enxofre. E tudo começa com Joseph Haydn, e a sua oratória, A Criação.


A química resulta de uma curiosidade básica: saber de que é que são feitas as coisas. Nesta fascinante digressão histórica, desde a época áurea dos Gregos (ou será desde o big bang?) até aos dias de hoje, Jorge Calado mostra como a química moderna deriva do conhecimento do fogo da combustão e do raio do relâmpago, isto é, da energia. Calor e electricidade permitiram analisar a terra, a água e o ar, até chegar ao conceito de elemento, representado pelo átomo. Para o melhor e para o pior, Prometeu e Frankenstein são os génios tutelares da química. Neste Ano Internacional da Química (2011) é útil recordar como a química pôde dar novas ciências à ciência – a farmacologia, a termodinâmica (ciência da energia), as ciências dos materiais, a bioquímica, etc.

A química é construída por pessoas: homens e mulheres, novas e velhos, com gostos e desgostos. A história da química faz-se com elas, e Jorge Calado dá sentido à narrativa (não cronológica) enquadrando as invenções e descobertas químicas nas disputas, guerras e conquistas sociais e políticas. Enquanto alguns químicos foram endeusados, muitos foram perseguidos, outros morreram na guilhotina. São centenas de personagens – químicos e não-químicos – aqui reunidos no palco da química. Haja Luz! é um livro para toda a gente: um livro sem princípio nem fim, concebido para ser aberto e lido a meio de qualquer capítulo; um livro onde os conceitos são mais importantes do que as equações; um livro que mostra como a química é útil, divertida, perigosa, bonita, estimulante, frustrante, e indispensável. Tal como as artes e o sexo, a química comanda a vida.»

O livro é apresentado no Porto, às 21 horas, nos Serões da Bonjóia.

[Obrigada, José Luís!]

Fonte: aqui

a noite pede musica

escrevo-te a sentir tudo isto


escrevo-te a sentir tudo isto

e num instante de maior lucidez poderia ser o rio

as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia

poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto

ao fogo

e deambular trémulo com as aves

ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios

poderia imitar aquele pastor

ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a

sua imobilidade

habito neste país de água por engano

são-me necessárias imagens radiografias de ossos

rostos desfocados

mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos

repara

nada mais possuo

a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã

repara

como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar



Al Berto in O Medo, pag.275, Assírio & Alvim, 2005

porque sim




...porque é brilhante...

...fecha-se uma janela...


....abre-se uma porta...


imagens: marta v.

São as palavras que nos contêm...


«Raul Brandão, que nasce (1867) na Foz do Douro e vive longos anos em Guimarães (cidade que viria a inspirar-lhe Húmus), morreu no dia cinco de Dezembro de 1930 em Lisboa, escravo até ao fim da «palavra»:

 "Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem".



Fonte: aqui

sábado, outubro 15

porque sim



...porque hoje o meu afilhado faz 1 mês :) ...

A criança está completamente imersa na infância




A criança está completamente imersa na infância


a criança não sabe que há-de fazer da infância

a criança coincide com a infância

a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono

deixa cair a cabeça e voga na infância

a criança mergulha na infância como no mar

a infância é o elemento da criança como a água

é o elemento próprio do peixe

a criança não sabe que pertence à terra

a sabedoria da criança é não saber que morre

a criança morre na adolescência

Se foste criança diz-me a cor do teu país

Eu te digo que o meu era da cor do bibe

e tinha o tamanho de um pau de giz

Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez

Ainda hoje trago os cheiros no nariz

Senhor que a minha vida seja permitir a infância

embora nunca mais eu saiba como ela se diz



Ruy Belo

imagem: marta v.

sexta-feira, outubro 14

Carta de Amor


Eu sabia que seria apenas depois de te teres ido embora que iria perceber a completa extensão da minha felicidade e, alas! o grau da minha perda também. Ainda não a consegui ultrapassar, e se não tivesse à minha frente aquela caixinha pequena com a tua doce fotografia, pensaria que tudo não teria passado de um sonho do qual não quereria acordar. Contudo os meus amigos dizem que é verdade, e eu próprio consigo-me lembrar de detalhes ainda mais charmosos, ainda mais misteriosamente encantadores do que qualquer fantasia sonhadora poderia criar. Tem que ser verdade. Martha é minha, a rapariga doce da qual todos falam com admiração, que apesar de toda a minha resistência cativou o meu coração logo no primeiro encontro, a rapariga que eu receava cortejar e que veio para mim com elevada confiança, que fortaleceu a minha confiança em mim próprio e me deu esperanças e energia para trabalhar, na altura que eu mais precisava.

Quando tu voltares, querida rapariga, já terei vencido a timidez e estranheza que até agora me inibiu perante a tua presença. Iremos sentar-nos de novo sozinhos naquele pequeno quarto agradável, vais-te sentar naquela poltrona castanha , eu estarei a teus pés no banquinho redondo, e falaremos do tempo em que não existirá diferença entre noite e dia, onde não existirão intrusos nem despedidas, nem preocupações que nos separem.

A tua amorosa fotografia. No início, quando eu tinha o original à minha frente não pensei nada sobre a mesma; mas agora, quanto mais olho para ela mais esta se assemelha ao objecto amado; espero que o rosto pálido se transforme na cor das nossas rosas, e que os braços delicados se desprendam da superfície e prendam a minha mão; mas a imagem preciosa não se move, parece apenas dizer: «Paciência! Paciência” Eu sou apenas um símbolo, uma sombra no papel; a tua amada irá voltar, e depois podes negligenciar-me de novo».

Eu gostaria imenso de colocar esta fotografia entre os deuses da minha casa que pairam acima da minha secretária, mas embora eu possa mostrar os rostos severos dos homens que reverencio, quero esconder a face delicada da minha amada só para mim. Vai continuar na tua pequena caixinha e eu não me atrevo a confessar a quantidade de vezes, nestas últimas vinte e quatro horas, que tranquei a minha porta para poder tirar a fotografia da caixa e refrescar a minha memória.

Sigmund Freud, carta [excerto] a Martha Bernays, 19 de Junho 1882

a noite pede musica

Helena Sarmento [en] cantou na Livaria Lello


A fadista Helena Sarmento cantou e encantou, ontem, na Lello, no Porto. E autografou o seu - mas também nosso - Fado Azul, primeiro disco de muitos... Uma noite muito especial...na livaria mais bela do mundo...

quinta-feira, outubro 13

porque sim

The Tea Cup


imagem: Pollock

Uma questão de química


Não sei explicar! Fui uma aluna insuficiente a Físico-Química no meu tempo de liceu. Mas gostava imenso de algumas matérias que aprendi! Tinha [tenho] uma paixão assolapada pela Tabela Periódica! Física quântica são duas palavras eternamente enamoradas no meu  vocabulário... Enfim, não sei explicar a minha antiga e constante atração pela física e pela química, mas ela existe! Passaria, de bom agrado, o dia inteiro a ouvir estes senhores! Uma questão de química, pois então!

olhar incipiente VII


O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente.‎


Ce que la Photographie reproduit à l'infini n'a eu lieu qu'une fois : elle répète mécaniquement ce qui ne pourra jamais plus se répéter existentiellement.

Roland Barthes in La chambre claire‎, pag. 15, Éditions de l'Étoile, 1980

imagem: marta v.

Maria Luísa


Não me importa uma porra que as mulheres tenham os seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Também é indiferente se amanhecem com um hálito afrodisíaco ou um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que arrecadaria o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas, isso sim – e nisso sou irredutível –, não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem tempo as que pretendam seduzir-me.


Foi esta – e não outra – a razão por que me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.

Que me importavam os seus lábios às prestações e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as extremidades de palmípede e os olhares de prognóstico reservado?

Maria Luísa era uma autêntica pluma!

Mal amanhecia, voava do quarto para a cozinha, da sala para a despensa. A voar preparava-me o banho, a camisa. A voar fazia as compras, terminava os seus afazeres.

Com que impaciência esperava que ela voltasse, voando, de algum passeio pelos arredores. Ali, bem longe, perdido entre as nuvens, um pontinho cor-de-rosa. «Maria Luísa! Maria Luísa!»… e em poucos segundos abraçava-me com as suas pernas de pluma, para me levar, voando, a qualquer parte.

Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras habitávamos uma nuvem, como dois anjos, e de repente, caindo em espiral, como uma folha seca, a aterragem forçada de um espasmo.

Que prazer ter uma mulher tão ligeira…, ainda que, de vez em quando, nos faça ver estrelas! Que volúpia passar os dias entre as nuvens… e as noites num só voo!

Depois de conhecer uma mulher etérea, pode achar-se algum atractivo numa mulher terrestre?
 
[...]
 
Oliverio Girondo in Espantalhos, edição Língua Morta, tradução de Rui Manuel Amaral
 
Disponível aqui e aqui

terça-feira, outubro 11

a noite pede música

La utopia



La utopía está en el

... horizonte, me acerco

dos pasos, ella se aleja

dos pasos.

Camino diez pasos y el

horizonte se corre diez

pasos más allá.

Por mucho

que yo camine, nunca

la alcanzaré.

Para que sirve la utopía?

Para eso sirve: para caminar.


Eduardo Galeano

imagem: Lazahr Ben-Ymanuel

Olhar incipiente VI


Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração.

Henri Cartier-Bresson

imagem: marta v.

Gestos cheios de aroma...


[...há gestos cheios de aroma! No último dia de formação, recebi este ramo de flores e um simbólico 19, "como diria o professor", disseram eles! Também lhes disse que formam um grupo raro, muito especial! Souberam receber e também deram. Tempo, atenção, assiduidade, motivação e saber!
E até sorrisos...logo pela  manhã :)
Não encontrei muitas turmas assim... e já dou formação há quase dez anos! OBRIGADA! ]

segunda-feira, outubro 10

a noite pede música

Música por uma causa...


...ajude o Porto a ACREDITAR ...

sábado, outubro 8

a noite pede música

Acha que pode ficar em casa?


Há passos felizes! A fadista Helena Sarmento gravou o tema “Fado dos Meus Passos”, um dos vídeos de promoção do seu disco “Fado Azul”, na Lello e, no próximo dia 13 de Outubro, às 21.30 horas, irá actuar numa das mais belas livrarias do mundo.

Quis o destino [ou o fado] que Helena Sarmento fosse convidada para cantar no âmbito da apresentação do livro “Ao Fado Tudo se Canta?” do também fadista, compositor, letrista, escritor e editor Daniel Gouveia. A obra resulta «de 5 anos de trabalho, resumindo 40 anos de reflexões, conversas e investigações sobre o tema». Entre as diversas abordagens efectuadas pelo autor, destaque para a «análise de todas as teorias actuais para as origens do Fado; revelação e publicação de pautas com fados do séc. XIX e princípio do séc. XX (tocadas nos exemplos musicais); propostas para definir as fases de evolução do Fado e dos fadistas; análise dos procedimentos poéticos e de classificação dos fados Tradicionais e do Fado-Canção; o bem cantar e o mal cantar o Fado; as relações do Fado com o Tango, o Bolero e o Flamenco; a revelação de um plágio feito por compositores argentinos de Tango a “O Cochicho” e, ainda, uma menção ao fado e Canção de Coimbra».

«Estou encantada com este convite! O Porto é a minha cidade do coração e a livraria Lello é um dos lugares mais simbólicos da Invicta. É um local magnífico e extremamente acolhedor, perfeito para esta simbiose entre livros e música», explica Helena Sarmento, acrescentando que «a ideia de filmar lá um dos meus vídeos promocionais foi sobretudo emocional. É de facto um espaço que me fascina. Depois, a simpatia imensa com que fui convidada para este evento por Antero Braga e Daniel Gouveia, torna o momento muito especial. Sinto-me em casa!».

Esta é uma oportunidade para conhecer o primeiro disco de Helena Sarmento e de contactar com Daniel Gouveia, na qualidade de autor de uma obra fundamental para melhor se compreender este género musical, candidato a património da humanidade.

Duas gerações que se cruzam em nome do Fado, numa noite de Outono, na livraria mais bela do mundo!
A entrada é livre.

Acha que pode ficar em casa?

imagem: Zaclis Veiga

hei-de conseguir adivinhá-los, eu sei





hei-de conseguir

adivinhá-los, eu sei


vagos e tão

imaginários,

desaguarão um dia em mim esses

acordes de um rio no céu estrelado


e então todas as marés e

melodias serão uma só


muito antes da noite sentir falta de música

acordarei a ouvir essa tua canção de água

repetida em mim sem cessar, segredando-me:

também há sons no silêncio, tens de os cantar

até que haja vida nesse teu planeta sem sol


José Luís
 
imagem: NASA/JPL Caltech
Foto: NASA/JPL-Caltech
Foto: NASA/JPL-Caltech

porque sim

olhar incipiente V


[...eu tanto quis que, este ano, o Outono demorasse...tanto quis que, eventualmente, se esquecesse de chegar... que ele veio disfarçado de Verão...]

imagem: marta v.

quinta-feira, outubro 6

A mulher descalça


[...já cá volto...a deixar-vos umas linhas desta história! fiquei feliz, agora...]


A mulher descalça acompanhou-o ao jornal. O trovão não aliviou o ar pesado, sobrecarregou-o. Respirava-se ameaça. Caminharam devagar, com passos diferentes sincronizados pela mesma dúvida:

De quem seriam as chaves que ela achou?, interrogava-se a mulher descalça.

Alguém teria encontrado as chaves?, interrogava-se ele.

Dispensavam a inutilidade das palavras.

Uma resposta esperava a mulher descalça na recepção do jornal. Ele correu a porta metálica do elevador e dirigiu-se à Redacção. Velhos conhecidos, dois?, três?, afastaram as máquinas de escrever e levantaram-se e vieram cumprimentá-lo. Vieram perguntar:

- Que é feito de ti?

- Ouvi dizer que viajaste?

- É verdade que foste para fora escrever um conto… ou é um romance?

Não respondeu. Não conhecia a pergunta e não conhecia a resposta. A intimidade redactorial aborrecia-o.

Publicou o anúncio das chaves perdidas. Pagou uma semana. Desceu no elevador. A mulher descalça esperava-o na recepção. Saíram para a rua e estendeu-lhe a resposta:

Obrigado pelo anúncio. Pela descrição, é muito possível que as chaves que encontrou sejam as minhas.

Terminava com uma direcção. Ele leu a resposta e releu a direcção. Várias vezes. A letra não lhe era estranha. Parecia disfarçada. Mal disfarçada. A direcção, nem por isso. Era aquela. A iluminação pública embaciava os transeuntes, poucos, que regressavam a casa. Dirigiram-se para a direcção, nos arredores da cidade.

Aquilo era uma cidade? Podia chamar-se cidade a um lugar?

Viram luzes acesas a meio de um prédio velho. Era o único iluminado, mas não era o único habitado. A mulher descalça pensou que podiam ter deixado a luz acesa e saído. Ele não soube o que pensar.

Um comboio apitou na estação e a praça acordou.

Tocaram à campainha. O trinco da porta abriu-se como quem espera há muito pelo momento. A escada ficava do lado esquerdo, em frente de um patamar com dois degraus. Quando passou junto das caixas de correio, ele levou a mão ao bolso deformado do casaco. A mulher descalça esperava por ele no patamar. Tinha uma mão no corrimão de madeira envernizada. E um pé no primeiro degrau de mármore. Sorria.

Subiram dois andares. Pararam em frente de uma porta. Via-se luz, por baixo. Olharam-se. Estavam ali porque responderam ao anúncio da mulher descalça. Ele tinha perdido as chaves.

Ela tocou à campainha.

Jorge Fallorca in a Mulher Descalça, pag. 43/44, 2011

a noite pede música

Poeta da natureza e da música...


...escrevem! Eu nunca lhe li nada, confesso! Tomas Tranströmer  é o Prémio Nobel da Literatura