quinta-feira, setembro 29

De Bragança a Lisboa...



Lembram-se daquela música dos Xutos - de Bragança a Lisboa são nove horas de distância ? Pois é! Ando assim por estes dias! Já não são nove horas, mas ainda demora bastante...e com o IP4 em obras, nem imaginam: desvio aqui, desvio ali e nunca mais...É por isso que, cansada do carro, esta semana, será Bragança - Porto e, depois, no sábado, Porto- Lisboa no "meu" alfa-pendular. Sim, bem sei que terá de ser o das 6.45 da manhã. Mas é por uma boa causa! Entretanto, em Bragança,  almoçar n` OManel tem sido o meu prémio de consolação :) Mas se tiverem outras sugestões... façam o favor...

imagem: Cristiano Abreu

quarta-feira, setembro 28

a noite pede música

Pusemos tanto azul nessa distância




Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficamos nas paredes do vento

a escorrer para tudo o que ele invade.



Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos na carne dum segredo.
 
 
Natália Correia

o efeito dos dias


imagem: "o efeito dos dias" Karin Somers

domingo, setembro 25

a noite pede música

porque sim



Menina palestiniana ajuda na colheita de pepinos, perto da cidade de Gaza.

imagem: Kai Wiedenhöfer

sexta-feira, setembro 23

Mestre Júlio Resende [1917-2011]


[uma das vezes que disse aqui o quanto gosto...  claro que fiquei triste ]

quinta-feira, setembro 22

a noite pede música

Helena Sarmento canta à janela da Casa de Amália


«A fadista Helena Sarmento é uma das convidadas das “Noites de São Bento”, iniciativa que decorre na Casa de Amália (hoje Museu Amália Rodrigues e sede da Fundação com o seu nome), em Lisboa, actuando no próximo dia 23, às 21.30 horas.

«Estou muito feliz e sensibilizada com o convite que me foi dirigido por Vítor Duarte Marceneiro. É um privilégio cantar num local tão emblemático, imbuído do espírito da referência maior do Fado, e uma honra, ser destinatária de tal convite», diz Helena Sarmento.O evento, organizado pela Associação dos Comerciantes da Rua de São Bento e que conta com o apoio da Fundação Amália Rodrigues, está agendado para os dias 22, 23 e 24 de Setembro. No primeiro dia actuarão Ana Filipa César e Miguel Ramos; no segundo dia, Helena Sarmento e João Paulo; no último, Carolina Tavares e Vítor Duarte Marceneiro. O acompanhamento musical, no dia 23, ficará a cargo de Luís Ribeiro e Jaime Martins. «É, como imaginam, uma grande emoção estar incluída no cartaz desta iniciativa e ter a oportunidade de cantar à janela da Diva do Fado», reforça Helena Sarmento, cujo reportório para esta noite especial incluirá temas do seu recente e primeiro álbum, Fado Azul, entre os quais se encontra um dos temas imortalizados por Amália: “Caldeirada (Poluição)”.Durante as três “Noites de S. Bento”, para além do comércio se encontrar aberto até às 24 horas, haverá várias actividades e supresas para os visitantes.

No Casino Estoril e em Santarém

Helena Sarmento tem, ainda, três espéctáculos agendados: um no dia 4 de Outubro, no Casino Estoril; outro no dia 22 do mesmo mês, no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém; pelo meio, actuará em Penedono, no dia 8.

Tanto no Casino Estoril como no Teatro Sá da Bandeira, o convidado especial da jovem fadista é Vítor Duarte Marceneiro. “Admiro imenso o Vítor. Como fadista, como pessoa, e pela forma como honra o nome que transporta, nome esse que é uma das maneiras mais belas de dizer a palavra fado», explica Helena Sarmento. A autora de Fado Azul, seu primeiro disco, conta com a presença de todos aqueles que apreciam fado, nestes dias de Outono que prometem...encantar.»

Bilhetes à venda nos locais habituais e em http://www.ticketline.pt/

Arco-íris do desejo

coisas imensas que ainda não sei dizer


[...um caminho...]

porque sim

amor
« AMOR é uma reflexão sobre as contradições e mal-entendidos existentes em toda a relação amorosa. As palavras sobrepostas, as frases contraditórias, as repetições até à exaustão, a ausência de sentido, a fronteira tão ténue com ódio, o testar de limites para a capacidade de aguentar aquilo que já se consegue entender, a descontextualização total ou parcial do discurso amoroso, cujas palavras adquirem novos sentidos – tudo isso é objecto deste vídeo.»
Claudia Clemente

terça-feira, setembro 20

...mais ou menos assim...


[...desfocada. a caminho do invisível...]

a noite pede música

Repensar Questionar Realidades Urbanas


«Realiza-se, entre 26 e 30 de Setembro, o Ciclo de Debates Tertúlias e Workshop de Fotografia no Centro Histórico do Porto – Repensar Questionar Realidades Urbanas, a ter lugar no Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, em pleno Centro Histórico do Porto.

Este ciclo de debates tertúlias e workshop de fotografia sobre o CHP tem como objectivo geral encorajar os participantes a (re)pensar (i) o media da fotografia, (ii) a fotografia como verdade e (iii) o significado do termo “imagem documental” como uma narrativa capaz de relacionar fotografia, arte, novos media e práticas digitais. Procura-se transmitir a ideia de que a fotografia documental não deixa de o ser, só pelo simples facto de ser manipulada, e que os participantes devem procurar formas não tradicionais de apresentar e utilizar a fotografia com o objectivo de dar ainda uma maior força aos testemunhos (registos) críticos sobre o espaço de cidade que os rodeia. Pretende-se que os participantes explorem o espaço de cidade através de um uso simultaneamente artístico e consubstanciado da fotografia.

Informações e inscrições:
http:/realidadesurbanas.cityscopio.com

OuTonalidades


Circuito de música ao vivo arranca a 23 Setembro, com 57 concertos em Portugal e na Galiza


« De 23 Setembro a 17 Dezembro, o “OuTonalidades - circuito português de música ao vivo” volta a estabelecer o intercâmbio musical entre Portugal e a Galiza, através de uma vasta rede de espaços que acolhe e promove a música que se faz dos dois lados da fronteira. Durante 12 fins-de-semana, o programa apresenta 57 concertos de 19 grupos em 21 espaços de música ao vivo, com uma eclética programação de géneros musicais que vão do jazz ao tradicional, do rock ao tango, do cabaret ao blues, do experimental às músicas do mundo.


Nesta edição, o OuTonalidades marca presença em 13 espaços de música ao vivo por todo o território português, literalmente de norte a sul do país.

Este é também o quarto ano da cooperação entre o OuTonalidades e a Rede Galega de Música ao Vivo, circuitos congéneres dos dois lados da fronteira, proporcionando a presença de 5 grupos portugueses na Galiza e 8 grupos galegos em Portugal, num total de 38 concertos em regime de intercâmbio luso-galaico.»

Mais informação aqui e aqui

Noite Europeia dos Investigadores

«A Noite Europeia dos Investigadores (NEI) permite a cientistas e público conviverem num ambiente descontraído. A troca de ideias e experiências que a NEI proporciona pretende aproximar os investigadores do público e demonstrar que, afinal, a ciência não é tão complicada quanto se julga.

A primeira edição da NEI data de 2005. A Comissão Europeia, promove e financia esta iniciativa que ocorre no mesmo dia em diversos países europeus e Israel. Através da realização de actividades que constituem uma boa alternativa ao típico programa de noite de sexta-feira, procura-se criar um ambiente propício à interacção entre a comunidade científica e o público, sejam jovens com interesse em seguir uma carreira na área, crianças e adultos curiosos, professores que procuram dinamizar as suas aulas, ou qualquer outra pessoa em busca de uma noite diferente».

Mais informação aqui: http://nei2011.eu/

segunda-feira, setembro 19

Há o perigo...



[...]
Há o perigo de um grito lindíssimo
quando andas assim comigo no invisível

[...]
Mário Cesariny



imagem: Man Ray

domingo, setembro 18

a noite pede música

Los justos



Un hombre que cultiva su jardín, como quería Voltaire.

El que agradece que en la tierra haya música.

El que descubre con placer una etimología.

Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.

El ceramista que premedita un color y una forma.

... El tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.

Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.

El que acaricia a un animal dormido.

El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.

El que agradece que en la tierra haya Stevenson.

El que prefiere que los otros tengan razón.

Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

Jorge Luis Borges

sábado, setembro 17

a noite pede música

Helena Sarmento à janela de Amália


A fadista Helena Sarmento actua dia 23 de Setembro nas Noites de S. Bento (Fado nas janelas da Casa de Amália), Lisboa. Se entretanto a quiserem ouvir cantar, cliquem, por exemplo, aqui, e se gostarem e quiserem acompanhar esta fadista, cliquem aqui, na sua página oficial.

...enganam-se sempre em duas coisas sobre mim...



« As pessoas enganam-se sempre em duas coisas sobre mim: pensam que sou um intelectual porque uso óculos; e que sou um artista porque os meus filmes perdem sempre dinheiro. »

Meia Noite em Paris

Estreia da semana

.........................................................................................................a não perder!

Poema do amor fóssil



Quem de nós falará aos homens que hão-de vir

quando o grande clarão encher de luz

e pasmo as nossas bocas?

E como?

Que língua entenderão eles?

Que símbolos, que sinais, que apagados murmúrios,

lhes falarão de nós,

desta fluida e versátil multidão,

destes seres que aparentam rosto humano

e como tal comovem,

mas que olhados do alto são lepra do planeta.

Que significará sofrer, amar, lutar,

quando as nossas misérias e tormentos

não forem mais do que pegadas fósseis?

Que palavras há-de o poeta reservar

para o coração de plástico dos homens que hão-de vir?

Que santo e senha entenderão

Que de nós restará neles?

Que parecenças terão com estes hominídeos

que amaram a Natureza porque lhes era hostil

e suportaram o próximo porque não eram livres?

Que verbo deverá ficar gravado na pedra que o vento não corroa,

que lhes fale dos humilhados e dos ofendidos,

dos sonhadores e dos impotentes,

dos ansiosos, dos bêbados e dos ladrões,

desta ridícula, miserável e corrupta humanidade

que instala os arraiais da morte alegremente

num campo que foi verde e que não volta a sê-lo?

Amor?

Como será amor em língua cibernética?
 
António Gedeão

a noite pede música

Poesia, último reduto da literatura


«Entretanto, que se passa com a poesia? A poesia há muito que deixara de ser narrativa, se é que alguma vez profundamente o fora. A poesia passou a viver daquilo que nunca deixara de ser: o exercício da sabedoria da linguagem, uma aventura da palavra. Reduziu-se ao achado artístico, à capacidade de surpresa, à exploração intensiva da fala.


Os concretistas, que fizeram a sua época, esgotaram-se em experiências que em si mesmas se compraziam, deixaram-se atrair perigosamente por outras artes com as quais não poderiam competir, esqueceram-se afinal da palavra que, mesmo desintegrada, pulverizada, explorada nas suas formas mínimas, não deixa de ter características específicas. A poesia concreta pode ser um limite a atingir, os poetas de vanguarda não poderão deixar de ter em conta as suas conquistas, mas os seus teóricos, ao convertê-la num absoluto, tinham necessariamente de chegar à conclusão de que a poesia morreu, quando o que morreu foi a poesia concreta.

A poesia está doente, a poesia morreu? A poesia continua. A linguística, uma das disciplinas mais importantes no domínio das ciências, veio dar-lhe um novo alento e um apoio insuspeito. A teoria da informação, a lógica matemática, a estatística permitiram iluminá-la melhor. A poesia já não tem mistério, a poesia é uma coisa que se aprende, o génio não tem sentido na época dos computadores. A história, o argumento, a intriga, que deixaram de apoiar o romance e o cinema desertaram de toda a arte.

A desmistificação artística é geral. O argumento, insistimos, nunca passara de uma maneira de assegurar a consistência da estrutura. Mas essa consistência podia ser garantida através de processos mais específicos e menos enganadores, como por exemplo as estruturas sintácticas, as enumerações, a anáfora, para só citar alguns. A poesia que, como vimos, nunca deixou de ser o núcleo de toda a arte, vê-se assim de súbito situada no centro da problemática artística, graças ao seu carácter precursor, à fidelidade ao destino da arte, à coerência que, se temporariamente se isolou, foi o penhor da fidelidade de toda a actividade artística à sua mais profunda natureza, à sua origem, à sua finalidade.

A poesia não tem nada, a poesia não promete nada que não ela própria. Há muitos séculos divorciada da sua origem religiosa, acabou por se emancipar dos últimos mitos. No meio do desconcerto pouco menos que geral, os poetas, tantas vezes isolados, incompreendidos, expulsos da cidade asseguraram a continuidade da única religião possível.

Tem poucos leitores a poesia? Toda a arte tem pouco público. A arte é exigente e, mesmo nos países mais desenvolvidos, apesar do elevado grau de alfabetização que apresentam, as exigências da organização da sociedade moderna submetem em geral o homem a um tipo de vida que se não compadece com a disponibilidade para um sector da actividade intelectual que ao fim e ao cabo, não produz dividendos, nem sequer assegura a tranquilidade das consciências. Aliás, a receptividade para a poesia já hoje por hoje é muito diferente nos países ocidentais ou nos países socialistas mas, embora pudéssemos tentar encontrar uma explicação para o facto, preferimos não nos arriscar a fazê-lo, quando nem sequer Georges Mounin o faz, no seu livro Poésie et Société.

A poesia subsiste, a poesia subsistirá. Independentemente de questões intrínsecas, que explicarão o êxito momentâneo de certas obras, apostamos numa forma de arte que particularmente se apoia na linguagem e nas suas mais profundas virtualidades, vizinha afinal de uma linguagem popular que, embora prejudicada pelo êxodo rural e pelo consequente domínio, mais aparente do que real, de um idioma reduzido, fundamental digest, não deixará de sobreviver enquanto sobre a terra algum homem houver. A poesia núcleo e limite das artes que se apoiam na linguagem que distingue o homem dos outros animais, apresenta-se-nos como o último reduto dessas artes. Atitude utópica, aposta, justificação própria? Depois do que já, ao longo deste artigo, dissemos, cremos honestamente que não. Na pior das hipóteses, mortal como o homem e como a sua única terra, a poesia permanecerá não só como a forma mais pura de arte literária mas também como a indisciplinadora mais audaz, como a afirmação mais vigilante de uma consciência individual e social capaz de acusar todas as traições do homem ao seu destino humano. Poesia, arte do passado, do presente e do futuro, principalmente do futuro, eu, teu ínfimo cultor, te saúdo, aqui do mais ocidental dos países.»

Poesia, último reduto da literatura, Ruy Belo in ”Na senda da Poesia” (Ed. Assírio & Alvim, 2002)



Texto desviado daqui

quinta-feira, setembro 15

a noite pede música



[...para o Francisco, com amor...]

nasceu!


[hoje, o meu coração tem 49 cêntimetros. exactamente o tamanho dos meus braços...
e a minha oração é intensamente azul, silenciosa e grata]

- quanto tempo dura o eterno?



- quanto tempo dura o eterno?
- às vezes apenas um segundo.



Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas

porque sim

quarta-feira, setembro 14

Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti



Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti

Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem

Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança

Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares

Diurnos, como se lêem

Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas

Que nos chegam da distância

Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos

Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se

E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas

Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas

Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas

Daniel Faria

a noite pede música

terça-feira, setembro 13

João Aguardela por Ricardo Alexandre

Sessão de Lançamento



HOJE


13 de Setembro,  às 18:30 horas na Fnac Chiado 
Apresentação a cargo de Tiago Pereira e Sandra Baptista

...a não perder!

« Dos cânticos de quem trabalha a terra, às batidas que marcam o ritmo da vida contemporânea, das canções subterrâneas à festa na estrada, das raízes punk e rock à portugalidade do novo fado; a tudo João Aguardela soube emprestar dedicação, arrojo, inovação e, acima de tudo, um profundo respeito pela tradição. Em defesa das referências qu...e nos fazem povo e vestem a identidade.
E, acima de tudo, em defesa da Liberdade. »

segunda-feira, setembro 12

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti




Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.

Acordei mais cedo que nos outros dias

e com o mesmo sono.

A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:

não o teu corpo todo como nos outros dias.

... As sombras por aqui são lentas e hoje não

comprei o jornal: o mundo que se ocupe da

sua própria melancolia.

ontem. há uma semana. há muitos meses.

um ano ensina ao coração o novo ofício:

a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.


Rui Costa

imagem: Edward Hopper [study for Morning in a City] 

a noite pede música

domingo, setembro 11

...Joshua Redman...entre outros...

Erros capitais de leitura


Julgamos que pelo fato de aprendermos a ler desde muito cedo, a juntar as letras, a formar palavras que juntamos a outras e a entender palavras e frases, que sabemos ler qualquer coisa. Pois nada mais errado. Para tudo é necessário uma preparação específica e a leitura não é menos do que tudo o resto.
Sempre fico fascinado quando qualquer pessoa julga que pode apreciar uma peça de teatro, um poema como qualquer outro, mas sabe que não pode correr a maratona e, ainda que a consiga correr, sabe que não a consegue correr com os melhores. Ou seja, quando se trata do corpo, aceitamos facilmente que outros podem ser melhores do que nós, porque se prepararam para isso, mas quando se trata de ler um texto, de apreciar uma obra de arte, não.

Há textos que oferecem ao leitor a mesma resistência que a maratona. Por exemplo, a Crítica da Razão Pura, de Kant, a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, o Ser e Tempo, de Heidegger. O leitor aqui chegado a estas páginas, ou já fez muito treino, e treino específico, ou não vai conseguir ultrapassar a primeira página, quanto mais os 42 km de livro que tem pela frente.

Mas não se julgue que é pelo fato de se tratar de textos filosóficos, de textos de filosofia, que o leitor encontra essa resistência e assume a sua incapacidade. Nem sequer de ser de filosofia alemã, pois o leitor assim que chega às páginas de Nietzsche, mesmo que nunca tenha corrido uma página de filosofia sequer, julga-se apto a lançar-se estrada a fora até ao fim do texto. O mesmo se passa com Platão, por exemplo. E também com o chamado segundo Wittgenstein. Se isto é assim com os filósofos, por maioria de razão será com poetas e escritores.

Esses, então, não oferecem resistência (com exceção de alguns casos raros). Assim, o leitor diante da maratona do poema ou do romance lança-se estrada fora e não admite que haja algum outro leitor mais preparado do que ele. Nem pensar! Aliás, é porque ele pensa, que não admite que outro pense melhor do que ele.

Depois abundam essas teorias de trazer pelos cafés e pelos bares: não há interpretações melhores, há interpretações. Lá está o iniciado na arte de pôr o pé na estrada a não admitir que alguém que já fez milhares de quilômetros possa correr melhor do que ele. Nem pensar! Evidentemente, o tempo de vôo não é garante de melhor leitura. Mas a falta de tempo de vôo deveria conferir mais humildade. Para além do tempo de vôo, do tempo de preparação, dos muitos quilômetros percorridos, há ainda um outro fator que os leitores esquecem com freqüência: o talento.

O talento, sim. Pois ninguém duvida que o Cristiano Ronaldo tem mais talento do que ele, sentado no sofá a assistir ao jogo. Aliás, mesmo 90% dos jogadores de futebol, que treinam tanto quanto Cristiano Ronaldo não têm o mesmo talento e nós admitimos “fácil”. Ora, cá estamos de novo diante do corpo. Desta feita do talento do corpo (e não só, mas é através do corpo). Mas quem é que aceita que o leitor ao seu lado ou à sua frente tenha mais talento para ler do que ele? Quem é que diz: “cara, você é show de bola a interpretar um texto! Você é mesmo bom, gostava de ler como você.” Esta fala nunca deve ter sequer existido e, se existiu, soou tão estranho que não deve ter sido repetida.

Que leva o humano a não aceitar que alguém leia melhor do que ele, quando facilmente aceita que alguém seja melhor do que ele a correr a maratona ou a jogar futebol? De onde vem esta idéia pré-concebida de que somos todos iguais na leitura?

Outro erro capital da leitura é julgar que, sendo capaz de ler bem uns determinados autores, somos capazes de ler bem todos os autores. Errado. É como se num jogo de futebol Cristiano Ronaldo fosse igualmente fera defendendo as redes do gol (baliza) ou comandado a zaga (defesa).

Vocês julgam que um excelente leitor de Gabriel García Márquez será um bom leitor de Fernando Pessoa, por exemplo, e vice versa? A resposta só pode ser um redondo e verdadeiro não. Imaginemos um leitor de Cem Anos de Solidão e um leitor de Livro do Desassossego. Ambos lêem muito bem cada um dos seus livros, jogam muito bem a cada uma das suas posições no gramado, seriam igualmente feras se trocassem de livro, de posição?

Poderia até acontecer, mas seria tão improvável quanto encontrarmos um goleiro que jogasse na frente tão bem quanto o Cristiano Ronaldo. Porquê? Pela simples razão que se trata de galáxias distantes. Um e outro livros não são planetas diferentes, são galáxias diferentes. Não está aqui em causa a qualidade literária de cada um deles, que não discuto sequer. O que está em causa é a qualidade extra-literária, a qualidade para além da escrita (partindo do princípio que são ambos textos excelsos do ponto de vista literário). O humano que acede a uma exemplar leitura do livro de Fernando Pessoa muito dificilmente fará uma leitura igualmente exemplar do livro do escritor colombiano; e o contrário ainda será mais difícil.

A dificuldade está no universo que se abre diante do leitor. O texto implica a vida, num e noutro caso. Mas as vidas implicadas são diferentes. Eu não consigo imaginar um homem casado, com filhos, de bem com sua vida, chegando em casa depois de um dia de trabalho, ajudar os filhos, no jantar, falar com a mulher, eventualmente fazer amor com ela e, depois, pôr-se a ler Livro do Desassossego. Desculpem, mas não consigo. Não consigo imaginar este homem a entrar no texto do Pessoa e conseguir respirar, com tanta solidão, tanto solipsismo, tanto cinismo. Não é que não possa ler, mas não vai ler bem, seguramente; é pôr o Cristiano Ronaldo no centro da zaga, marcando o centro-avante.

Pelo contrário, já imagino esse mesmo homem a ler bem Cem Anos de Solidão. Não há aqui um diferencial de qualidade literária, repito, insisto, mas de mundividência. Quem é que já não sentiu, aos 18, 19, 20 anos, um medo inexplicável pela coluna acima ao ler esse livro do Pessoa? E porquê? Porque usualmente nessas idades o humano ainda não está casado e com filhos, tem ainda as possibilidades todas em aberto, e ao confrontar-se com aquele texto sente dentro de si a possibilidade de isso vir a ser a sua vida. Isso assusta-o e fascina-o.

Mas o homem, que vimos atrás, que chega a casa depois do trabalho para a mulher e filhos, não sente mais isso. Mas pode muito bem sentir e compreender o livro de Gabriel García Márquez, pois este livro, independentemente da sua qualidade literária, não choca de frente com a sua vida. Por outro lado, o homem que não está mais casado ou que nunca esteve, sente isso como aquilo em que foi parar a sua vida.

Ler não é ler. Ler é viver.

Paulo José Miranda

imagem: Almada Negreiros

a noite pede música

[borboletas]








sábado, setembro 10

eu sei, são quase seis da tarde






eu sei, são quase seis da tarde

mas acabei de encontrar uma madrugada

para te dizer que o amor aconteceu

porque existem cartas e quadros

e outras coisas que não morrem.

[...]

imagem: Tiago Taron

a noite pede música

Eu estava farto de luz


[...]
Eu estava farto de luz. Todos os países que percorrera, todos os cenários que contemplara, inundava-os a luz do dia, e, à noite, a das estrelas.
Ah! que impressão enervante me causava essa luz eterna, essa luz enfandonha, sempre a mesma,sempre tirando o mistério às coisas...Assim parti para uma terra ignorada, perdida em um mundo extrareal, onde as cidades e as florestas existem perpétuamente mergulhadas na mais densa treva...Não há palavras que traduzam a beleza que experimentei nessa região singular. Porque eu via as trevas. A sua inteligência não concebe isto, decerto nem a de ninguém...
[...]
Narrar-lhe todas as minhas viagens seria impossível. No entanto quero-lhe falar ainda doutro país.
Que estranho país esse...Todo de uma cor que lhe não posso descrever porque não existe - duma cor que não era cor. E eis no que residia justamente a sua beleza suprema. A atmosfera deste mundo, não a constituía o ar nem nenhum outro gás - não era atmosfera, era música. Nesse país respirava-se música. Mas o que havia de mais bizarro era a humanidade que o povoava. Tinha alma e corpo como a gente da terra. Entanto o que era visível, o que era definido e real - era a alma. Os corpos eram invisíveis, desconhecidos e misteriosos, como invisíveis, misteriosos e desconhecidas são as nossas almas.

Mário de Sá-Carneiro, O Homem dos Sonhos in Livro de Verão, Alma Azul, 2003

imagem: capa sobre quadro de Edward Hopper

Ciao cari visitatori italiani!


Já disse aqui, várias vezes, que gosto muito muito muito de Itália. E de repente dou conta que, por estes dias, Itália é o terceiro país que mais visita este meu planeta !!! Gostava muito de conhecer mais. Aliás, gostava de conhecer tudo... e só conheço a belíssima região da Umbria e Roma. E o fabuloso festival de jazz...saudades!

...como se não tivesse mais nada para dizer...


[...por aqui chove...]

sexta-feira, setembro 9

a noite pede música

quarta-feira, setembro 7

Vou-me sentar aqui



Vou-me sentar aqui, respirar até doer

as coisas possíveis nunca reais,

aprender, nó a nó, como te soltas;

vamos cair num poço, sem

bússola e pára-quedas, vamos ser o primeiro

... amor a dois no mundo.


António Franco Alexandre, in Quatro Caprichos, Assírio &Alvim

imagem: Giovani Orlandi

a noite pede música

Esta vida de marinheiro...


Para já, com tempo, tomem nota, por favor:

  • 13 de Setembro, 18.30, Fnac Chiado - Lisboa

  • 16 de Setembro, 21:30h, Fnac NorteShopping - Matosinhos

  • 22 de Setembro, 21h, Almedina Estádio Cidade de Coimbra - Coimbra

  • 27 de Setembro, 21h, Fnac Braga - Braga

Apresentação do livro "João Aguardela - Esta vida de Marinheiro".
A não perder! Mesmo.

terça-feira, setembro 6

a noite pede música

Escrever, era a única coisa que povoava a minha vida...


«Escrever, era a única coisa que povoava a minha vida e que a encantava. Fi-lo. A escrita nunca mais me abandonou.


A solidão da escrita é uma solidão sem a qual o escrito não se produz, ou se esfarela, exangue de procurar o que escrever.

É sempre necessária uma separação das pessoas que rodeiam aquele que escreve livros. É uma solidão. É a solidão do autor, da escrita. Para iniciar a coisa, interrogamo-nos acerca desse silêncio à nossa volta. Praticamente a cada passo que se deu numa casa e a todas as horas do dia, sob todas as luzes, quer estejam do lado de fora, quer sejam lâmpadas acendidas durante o dia. Essa solidão real do corpo torna-se outra, inviolável, a da escrita. Eu não falava disso a ninguém. Nessa época da minha primeira solidão, tinha já descoberto que dedicar-me à escrita era o que eu tinha de fazer.

Não encontramos a solidão, fazemo-la. A solidão faz-se só. Eu fi-la. Porque decidi que era aqui que deveria estar só, que estaria só para escrever livros. Passou-se assim. Estive só nesta casa. Fechei-me aqui – também tive medo, evidentemente. E depois amei-a. Esta casa tornou-se a da escrita. Os meus livros saem desta casa. Desta luz também, do parque. Desta luz reflectida no tanque. Precisei de vinte anos para escrever isto que acabo de dizer. Creio que a pessoa que escreve está sem ideia de livro, que tem as mãos vazias, a cabeça vazia, e que não conhece, desta aventura do livro, senão a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, longínqua, com as suas regras de ouro elementares: a ortografia, o sentido.»

Marguerite Duras, escrever; trad. Vanda Anastácio, Difel, Outubro 2001;

Texto desviado daqui

porque sim

Amadeus


«Em Amadeus, teatro, música e ficção histórica cruzam-se e são muitos os caminhos abertos pelo ímpeto de vingança de um homem, Antonio Salieri (Diogo Infante), compositor da corte austríaca no século XVIII, em relação a Wolfgang Amadeus Mozart (Ivo Canelas).
Amadeus recebeu, em 1981, o Prémio Tony de Melhor Peça de Teatro e, em 1984, foi adaptada ao cinema, com direção de Milos Forman, tendo recebido vários Óscares, entre eles o de Melhor Filme. A estreia da peça no TNDM II marca ainda o regresso aos palcos portugueses do encenador inglês Tim Carroll, que se tem distinguido na encenação operática. O espetáculo conta também com a interpretação de Carla Chambel, João Lagarto, José Neves, Luís Lucas, Manuel Coelho, Martinho Silva, Rogério Vieira, entre outros.»

Mais informação aqui

segunda-feira, setembro 5

Se não receio...

a noite pede música

Click... que eu também!


Click no programa do workshop de fotografia aqui

Festival Internacional de Teatro Mindelact


« Todos os anos, antes que termine tão almejada festa do teatro, uma equipa de voluntários, por amor à camisola, começa a preparar o próximo festival. Muito se pensa tratar-se de um acto de loucura. Mas não, trata-se de um acto de amor. Amor ao teatro, amor à arte e a esta cidade em que o teatro se manifesta todos os dias por fenómenos diversos, sob o olhar incrédulo de tantos. E, durante vários anos, é com grande orgulho que sacrificamos parte das nossa vidas, para que a magia se faça e perdure.»

Fonte e programação aqui

Durão diz que não; Lagarde diz que sim...


imagem: Sebastien Pirlet/Reuters

...e tempo, temos?

domingo, setembro 4

a noite pede música...novamente ;)



[... lindooooooooooo... ]

Mais Galeano, desta vez, para crianças!



Este jornalista e escritor  - aqui bastante mais novo - fez ontem 71 anos. [ parabéns!] Aproveito a data para vos dizer que descobri, este Verão, que Galeano tem um livro para crianças! Pois não imaginava! É verdade. Kalandraka para cá, Kalandraka para lá e de uma assentada descubro [ pela mão de alguém] não só Eduardo Galeano como também Julio Cortázar. De pequenino...

Quando alguém parte...



Quando alguém parte, tem de deitar

ao mar o chapéu com as conchas

apanhadas ao longo do Verão,

e ir-se com o cabelo ao vento,

tem de lançar ao mar

a mesa que pôs para o seu amor,

tem de deitar ao mar

o resto do vinho que ficou no copo,

tem de dar o seu pão aos peixes

e misturar no mar uma gota de sangue,

tem de espetar bem a faca nas ondas

e afundar o sapato

coração, âncora e cruz,

e ir-se com o cabelo ao vento!

Depois, regressará.

Quando?

Não perguntes.

Ingeborg Bachmann

in O Tempo Aprazado (tradução de Judite Berkemeier e João Barrento),
Assírio & Alvim, 1992

a noite pede música


porque sim


nem sempre a lápis


Quando escrevo, parece que os textos, notas, entradas, são as pranchas do andaime com que levanto o edifício assente nos pilares dos meses. Encostam-se uns aos outros, apoiam-se indiferentes à condição provisória, a partir da primeira linha; a construção civil nunca foi o meu forte, admito que a licença de habitabilidade reprove. Termino o mês, consolidado o pilar, retiro os andaimes; é rara a vez que não venham bocados de argamassa, fragilidades da escrita.


Jorge Fallorca in nem sempre a lápis, pag. 7, tea for one, 2011