terça-feira, março 29

...vou ali...

[...e volto dentro de uma semana ou mais!
...um pico de trabalho a exigir muito, muito equilíbrio e atenção
...e focus, marta, focus...
até lá!]

Workshop de fotografia

Por Humberto Almendra, fotojornalista, dia 2 de Abril, Ofir, Esposende

Plano teórico: Análise de imagens;Dissertação sobre os fundamentos básicos da fotografia;Esclarecimentos técnicos e teóricos  - “Encontra-te para encontrares as tuas imagens”
As diferentes visões sobre as imagens; A fotografia como expressão plástica e artística ; As teorias da imagem; O significado das imagens; O poder visual; O poder narrativo; O domínio da Luz; Saída para trabalho práctico no Parque Natural do Litoral Norte; Recomendações, conselhos técnicos e esclarecimento de dúvidas; Acompanhamento pessoal; Análise de trabalhos práticos; A edição o tratamento e a construção narrativa; Análise e crítica de imagens - “Como ir de uma fotografia a uma imagem”
Como construir um portfólio; Este workshop de curta duração, é especialmente recomendado para quem pretende adquirir os fundamentos básicos da fotografia e com isto redescobrir ou descobrir a motivação e a técnica que lhe permitirão obter resultados aceitáveis em qualquer situação de luz.
Mais informação: humbertoalmendra@gmail.com

efe

...de forte
[recaída]...

...não, não...
........................................de fada :) convém que seja de fada. ......................
[...porque de fácil não tem nada]

Viveu em tempos um pintor...

Viveu em tempos um pintor que nunca conseguia acabar de pintar uma


ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça. Quando se preparava para dar

a última pincelada, ela levantava vôo.

E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la com o pincel no céu

...azul...

Jorge de Sousa Braga

Eduardo Souto de Moura: prémio Pritzker

«O atelier do arquitecto Eduardo Souto de Moura confirmou ao PÚBLICO a atribuição do prémio Pritzker 2011, o maior galardão mundial na área da arquitectura.
"Durante as últimas três décadas, Eduardo Souto Moura produziu um corpo de trabalho que é do nosso tempo mas que também tem ecos da arquitectura tradicional. Os seus edifícios apresentam uma capacidade única de conciliar características opostas, como o poder e a modéstia, a coragem e a subtileza, a ousadia e simplicidade - ao mesmo tempo”, pode-se ler no comunicado emitido pelo júri do prémio.".
Fonte: Público


imagem: R. Silva

segunda-feira, março 28

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!


[...]

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!

E quando o navio larga do cais

E se repara de repente que se abriu um espaço

Entre o cais e o navio,

Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,

Uma névoa de sentimentos de tristeza

Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas

Como a primeira janela onde a madrugada bate,

E me envolve com uma recordação duma outra pessoa

Que fosse misteriosamente minha.

[...]

Alvaro de Campos

a noite pede música

Fernando Pessoa, plural como o Universo

«Após uma temporada de grande sucesso no Museu da Língua Portuguesa a bela exposição em homenagem ao mais brasileiro dos poetas portugueses ficará em exibição no Centro Cultural Correios ( Rua Visconde de Iataboraí, no.20, Centro – Rio de Janeiro) entre os dias 25 de março e 22 de maio deste ano. A visitação é gratuita e poderá ser feita de terça-feira a domingo, sempre das 12h às 19h.

A exposição “Fernando Pessoa, plural como o Universo”, que é uma realização da Fundação Roberto Marinho e da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo através do Museu da Língua Portuguesa, foi visitada em São Paulo por mais de 250.000 pessoas no período de agosto de 2010 a fevereiro de 2011».
Fonte aqui

domingo, março 27

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas


Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.


Maria do Rosário Pedreira


poema desviado daqui

a noite pede música

Poema de los dones/Poema dos dons



Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.


De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden


las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.

Jorge Luis Borges


imagem: Sonja Valentina


porque sim

cantos.leituras. dias maiores


[cantos. leituras. dias maiores. mais luz.
mais longe. a memória]

O melro Coentrão

Tínhamos um pássaro e um ninho. E catorze linhas pela frente.
Foi assim, num destes dias em que eu e o António estudamos juntos.
- Podem ser só cinco linhas, tia?
O António tem oito anos. É bom aluno. Só lhe custa um bocadinho enfrentar catorze linhas.
Amplas catorze linhas a pedirem "conta-me". 
Afinal, ele consegue contar uma história em muito menos.
E tem uma imaginação fabulosa.
[tomara que o António consiga imaginar o quanto eu gosto de estudar com ele!
O quanto gosto de trancar, na minha agenda, as terças-feiras ao final da tarde, como se fossem jóias]
Tínhamos um pássaro e um ninho. E catorze linhas pela frente.
Uma redacção.
Começar. Ir por lá fora, até as catorze linhas nos parecerem, aos dois, apenas um preâmbulo.
- Tia Marta, temos de ter introdução, desenvolvimento e conclusão.
Pergunto-lhe como vai começar a história.
Olha pela janela, olha para mim
- A tia conhece muitos pássaros?
- Alguns.
- Quais?
- Milhafre, pardal, gaivota...
- Eu sei, eu sei...andorinha, águia. Águias são pássaros, não são tia?
E o pardal, como é?
 - Preto. Com o bico amarelo...
- Gosto desse, tia! O pássaro da história é um melro.
Pergunto-lhe se o melro tem nome.
Fica em silêncio. Olha para o lápis, volta a olhar pela janela e, depois, para mim, muito sério.
- A tia conhece o Fábio Coentrão? Não é um jogador do Porto, tia. Mas joga bem.
- Hum...e então, esse jogador também vai entrar na história?
- O melro pode chamar-se Coentrão, tia?

Vamos ao teatro?



[...hoje e sempre. amén...]

sábado, março 26

a noite pede música

Procurei-te em vão pela terra


[...]

Procurei-te em vão pela terra,

perto do céu, por sobre o mar.

Se não chegas nem pelo sonho,

por que insisto em te imaginar?

Cecília Meireles
 
 

Cimo de Vila

«A próxima sessão da Comunidade de Leitores da Almedina junta o escritor Carlos Tê e a ilustradora Manuela Bacelar, autores de um livro recente, belíssimo, onde o Porto se cheira e sente. Chama-se ele «Cimo de Vila» (Edições Afrontamento) e é um tratado poético sobre esse «estado de alma votado à imprecisão» praticado e sentido pelas gentes portuenses. Por aquelas páginas desfilam personagens que costuraram o imaginário de muitas gerações, ruas e vielas que viajam sempre connosco mesmo quando estamos longe, lamúrias e alentos que os portuenses trazem inscritos no seu código genético e arrastam pela vida fora. [Hoje], às 17 horas, no Arrábida Shopping, venham, pois, mergulhar nestas histórias, caminhos e afectos, levados pela mão dos autores. Sempre em jeito de tertúlia, claro!»

Desviado daqui 

...queria tanto, tanto estar lá...


27 Mar - 15:00h no CCB 


«Maria Gabriela Llansol é provavelmente a mais inclassificável das escritoras portuguesas. Escreveu “nas margens da língua” e “fora da literatura”, e viveu vinte anos no exílio da Bélgica, onde colheu inspiração para uma Obra sem paralelo na literatura portuguesa.

O núcleo principal da sua Obra inicia-se com duas trilogias (Geografia de Rebeldes e O Litoral do Mundo) que ensaiam uma releitura da história intelectual e espiritual da Europa, com recurso à metamorfose ficcional de uma ampla galeria de figuras, das beguines medievais e dos místicos flamengos e ibéricos a Camões, de Hölderlin a Nietzsche ou de Bach a Fernando Pessoa. Depois disso, envereda por uma “ordem figural do quotidiano” em cerca de vinte livros reveladores de uma escrita visionária e intensa de grande originalidade, que lhe valeu por duas vezes o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, e que faz jus ao prognóstico de Eduardo Lourenço segundo o qual “Llansol será o próximo grande mito literário português, por paralelo com o próprio Pessoa”. Deixou um imenso espólio manuscrito de milhares de páginas inéditas, em curso de publicação (Assírio & Alvim).
Organização Espaço Llansol».

sexta-feira, março 25

Os observadores estrangeiros...


Os observadores estrangeiros maravilham-se de que Portugal resista à crise política e económica com tal poder de adaptação. Há nos Portugueses uma sinceridade para com o imediato que desconcerta o panorama que transcende o imediato. O infinito é o que eu situo - dizem. E assim vivem. Protegidos talvez por essa condição de afecto pelas coisas, pelos seus próprios delitos, que não consideram dramáticos, só ao jeito das necessidades. De resto — quem se apresenta a salvar-nos que não esteja suspeitamente indignado? Os que muito se formalizam muito escondem; os que acusam demasiado privam-se de ser leais consigo próprios. O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo.


Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

Desviado daqui

...e os mercados?

[...e os MERCADOS, senhores? esses seres vulneráveis, sensíveis, misteriosos, agitados, implacáveis...]

Quem foi?

Sei fazer versos...

Sei fazer versos mas doem.
Fernando Assis Pacheco, O Garrote

imagem: escultura de João Cutileiro

a noite pede musica



[...]

quinta-feira, março 24

Não te chamo para te conhecer


Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen

A mulher dos olhos violeta

quarta-feira, março 23

porque sim

festa do jazz no São Luís


[...verdes é certo, mas folhas... e Lisboa e jazz.  não há-de ser nada!
é no São Luís]

a noite pede musica

Viagem nunca feita


 
Foi por um crepúsculo de vago outono que eu parti para essa viagem que nunca fiz.


O céu — impossivelmente me recordo — era dum resto roxo de ouro triste, e a linha agónica dos montes, lúcida, tinha uma auréola cujos tons de morte lhe penetravam, amaciadores, na astúcia do seu contorno. Da outra amurada do barco (estava mais frio e era mais noite sob esse lado do toldo) o oceano tremia-se até onde o horizonte leste se entristecia, e onde, pondo penumbras de noite na linha líquida e obscura do mar extremo, um hálito de treva pairava como uma névoa em dia de calor.

O mar, recordo-me, tinha tonalidades de sombra, de mistura com figuras ondeadas de vaga luz — e era tudo misterioso como uma ideia triste numa hora de alegria, profética não sei de quê.

Eu não parti de um porto conhecido. Nem hoje sei que porto era, porque ainda nunca lá estive. Também, igualmente, o propósito ritual da minha viagem era ir em demanda de portos inexistentes — portos que fossem apenas o entrar-para-portos; enseadas esquecidas de rios, estreitos entre cidades irrepreensivelmente irreais. Julgais, sem dúvida, ao ler-me, que as minhas palavras são absurdas. E que nunca viajastes como eu.

Eu parti? Eu não vos juraria que parti. Encontrei-me em outras partes, noutros portos, passei por cidades que não eram aquela, ainda que nem aquela nem essas fossem cidades algumas. Jurar-vos que fui eu que parti e não a paisagem, que fui eu que visitei outras terras e não elas que me visitaram — não vo-lo posso fazer. Eu que, não sabendo o que é a vida, nem sei se sou eu que vivo se é ela que me vive (tenha esse verbo «viver» o sentido que quiser ter), decerto não vos irei jurar qualquer coisa.

Viajei. Julgo inútil explicar-vos que não levei nem meses, nem dias, nem outra quantidade qualquer de qualquer medida de tempo a viajar. Viajei no tempo é certo, mas não do lado de cá do tempo, onde o contamos por horas, dias e meses; foi do outro lado do tempo que eu viajei, onde o tempo se não conta por medida. Decorre, mas sem que seja possível medi-lo. É como que mais rápido que o tempo que vimos viver-nos. Perguntais-me a vós, de certo, que sentido têm estas frases; nunca erreis assim. Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido.

Em que barco fiz essa viagem? No vapor. Qualquer. Rides. Eu também, e de vós talvez. Quem vos diz, e a mim, que não escrevo símbolos para os deuses compreenderem?

Não importa. Parti pelo crepúsculo. Tenho ainda no ouvido o ruído férreo de puxar a âncora a vapor. No soslaio da minha memória movem-se ainda lentamente, para enfim entrarem na sua posição de inércia, os braços do guindaste de bordo que havia horas haviam magoado a minha vista de contínuos caixotes e barris. Estes rompiam súbitos, presos de roda por uma corrente, de por cima da amurada onde esbarravam, arranhando, e depois, oscilando, se iam deixando empurrar, empurrar, até ficarem por cima do porão, para onde, súbitos, desciam (...), até, com um choque surdo e madeirento, chegarem esmagadoramente a um lugar oculto no porão. Depois soavam lá em baixo o desatarem-os: em seguida subia só a corrente chincalhante no ar, e recomeçava tudo, como que inutilmente.

Eu para que vos conto isto? Porque é absurdo estar-vos a contá-lo, visto que é das minhas viagens que disse que falaria.

Visitei Novas Europas e Constantinopolas outras acolheram a minha vinda veleira em Bósforos falsos. Vinda veleira espantais? É como vos digo, assim mesmo. O vapor em que parti chegou barco de vela ao porto [...] Que isto é impossível dizeis. Por isso me aconteceu.

Chegaram-nos, em outros vapores, notícias de guerras sonhadas em Índias impossíveis. E, ao ouvir falar dessas terras tínhamos importunamente saudades da nossa, deixada tão atrás quem sabe se naquele mundo.


Bernardo Soares in Livro do Desassossego, pag. 480/1, Assírio & Alvim, 2001


imagem: zwigmar

Artur Agostinho



[1920 - 2011]

entardecer...

[na Avenida do Brasil, Porto] 

imagem: marta

terça-feira, março 22

boa noite!


[...]
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
[...]

Fernando Pessoa

a noite pede musica

Dernières nouvelles d'un nouveau monde en train de naitre


[este Senhor faz anos hoje e está dia 31 de Março em Lisboa]

Ano Europeu do Voluntariado

Por isso, não me peças algoritmos

[...] Por isso, não me peças algoritmos. Pede-me, antes, palavras. Letras. Letras não! Que o alfabeto também se esgota. Pede-me números. Algarismos. Ou estrelas. Que deve ser a mesma coisa. Eu não percebo nada de matemática nem de astronomia. Mas sei o infinito. Sei o inesgotável. Sei que, mesmo frágil, em letras garrafais, vermelhas, te posso dar, sempre, números. Um número por dia. [Como se fossem comprimidos contra a fragilidade] Ou estrelas. E se as do mar forem poucas, vamos ao céu buscar mais. Pode ser?


[Ainda hoje. Porque amanhã, posso estar irremediavelmente frágil.

E os teus olhos estão de outra cor.]

imagem: Kumi Yamashita

individualismo?

segunda-feira, março 21

...mais mimo blogosférico...


[...e, mais uma vez, este mimo! obrigada Claudia; obrigada fallorca. muito.
dois blogs que não passo sem lá passar e demorar e, tantas vezes, desviar...matéria prima :)
...e desta vez o mimo vai para:

a noite pede musica

Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


[...]
 
Pus rosas cor-de-rosa em em meus cabelos...

Parecem um rosal!

Vem desprendê-los!


Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...



Florbela Espanca


imagem: Carl Larsson

do francês "surprendre"


[...pessoas que nos surpreendem...]

domingo, março 20

Palavras que disseste e já não dizes


Palavras que disseste e já não dizes,

palavras como um sol que me queimava,

olhos loucos de um vento que soprava

em olhos que eram meus, e mais felizes.



Palavras que disseste e que diziam

segredos que eram lentas madrugadas,

promessas imperfeitas, murmuradas

enquanto os nossos beijos permitiam.



Palavras que dizias, sem sentido,

sem as quereres, mas só porque eram elas

que traziam a calma das estrelas

à noite que assomava ao meu ouvido...



Palavras que não dizes, nem são tuas,

que morreram, que em ti já não existem

- que são minhas, só minhas, pois persistem

na memória que arrasto pelas ruas.


Pedro Tamen

imagem: marta

hoje a minha cidade acordou assim




Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é a Ribeira.

José Saramago
imagem: marta

sexta-feira, março 18

a noite pede musica



[façam o favor de olhar para a lua...]

A arte do fogo

Help...


Catarina Machado


[logo à noite, às 22 horas, na Galeria Alvarez, Av. da Boavista. Catarina Machado]

quinta-feira, março 17

A infância de Herberto Helder


No princípio era a ilha

embora se diga

o Espírito de Deus

abraçava as águas


Nesse tempo

estendia-me na terra

para olhar as estrelas

e não pensava

que esses corpos de fogo

pudessem ser perigosos


Nesse tempo

marcava a latitude das estrelas

ordenando berlindes

sobre a erva


Não sabia que todo o poema

é um tumulto

que pode abalar

a ordem do universo agora

acredito

Eu era quase um anjo

escrevi relatórios

precisos

acerca do silêncio


Nesse tempo

ainda era possível

encontrar Deus

pelos baldios


Isso foi antes

de aprender a álgebra


José Tolentino Mendonça in Anos 90 e Agora, pag.127, Quasi, 2001

imagem: marta [na ilha de Porto Santo]

a noite pede musica

quarta-feira, março 16

Nenhum Lugar


«Perto ou longe só crescia o vento, o resto parecia limitado a uma resignação vazia e imensa. Maurício, ao observar tudo isto, sentiu a vã necessidade de dizer-se o seu nome em voz baixa, de o recordar.

Maurício abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não soube que responder à distraída irreverência do condutor. Acabou por morder o lábio inferior, arrependido logo por ter falado, como se ao fazê-lo tivesse quebrado um pacto óbvio e necessário entre os dois homens que sulcam a noite na surda profundidade do deserto, como se o deserto fosse o caminho certo que os libertava de qualquer desvio do qual, suspeitava, não havia regresso, por não haver a onde regressar.

Depois disso, não se atreveu a dirigir-lhe a palavra, e limitou-se apenas a insistir uns minutos mais com o olhar no espelho retrovisor. Contudo, o taxista não voltou a procurá-lo. Imutável, olhava em frente, para a estrada interminável. Finalmente, Maurício desistiu e ocupou-se a observar o céu rígido e abundante através da janela. Não queria pensar em nada. As distâncias absorviam-no, como se o facto de tudo estar ou parecer distante o situasse num desterro intransitável entre ele e os seus pensamentos. Sem esforço foi-se deixando estar, inclinado sobre a janela, a olhar as fugidias figuras dos arbustos e das pedras e a sentir o frio da noite na testa apoiada no vidro.»

[Ricardo Romero, Nenhum Lugar; trad. Patrícia Louro, Deriva, Setembro 2010]

Desviado daqui

I can`t explain...


[...pessoas que nos comovem...]


[o óleo é de Tjarko Ten Have. Desviado daqui, onde está o texto que o acompanha]

A Divina Pestilência


[Dia 21 de Março, às 18 horas, na Bibioteca Eduardo Lourenço, apresentação da obra "A Divina Pestilência" de João Rasteiro]

a noite pede musica

Às vezes tenho medo, muito medo.


Às vezes tenho medo, muito medo.

Às vezes sofro.

Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na

possibilidade de as perder.

Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.

Pode não ser um amigo ou familiar.

Posso estar a vê-lo pela primeira vez.

Mas fico incomodado.

Aquela doença pertence-me.

Todas as doenças pertencem a toda a gente.

Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.

Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.

Às vezes sinto isso muito,

outras vezes sinto menos.

Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,

brincar com a poesia,

com a filosofia e com as palavras.

Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.

Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo

de querer ser inteligente.

Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.

Não fazem sentido as lógicas,

as filosofias,

as discussões.

Todo o nosso corpo sente.

E o que resta? Nada.

Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.

Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe

que amo e está a envelhecer.

Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.

Só aquele amigo que se tornou amargo

porque a mulher o deixou.

Só o amor e a falta de amor.

As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,

as mulheres e os homens que enganam.

Os amigos que deixam de o ser,

alguns inimigos que morrem, e temos pena.

Que importa o resto?

Onde está o livro importante?

O filme que resolve?

Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.

Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às

mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,

mas que adianta?

Estamos sozinhos.

Se não estamos, vamos estar.

Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.

Vão morrer ou nós vamos morrer.

Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de

lhes querer telefonar.

Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.

Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes

descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.

Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não

adianta nada e nada impede.

Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.

Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,

tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos

fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e

isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,

não resolve nada,

não adianta nada.


Gonçalo M. Tavares in O homem ou é tonto ou é mulher

imagem: Claudia Pinto

Jazz na 31 de Janeiro

terça-feira, março 15

Música e Poder


MÚSICA E PODER: para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu

Amanhã, às 21 horas, na Almedina do Arrábida Shopping, em Vila Nova de Gaia

Lisboa - Livraria Almedina Atrium Saldanha - 25 de Março às 19h;

Coimbra - Livraria Almedina Estádio Cidade de Coimbra - 30 de Março às 18:30h;

Nuno Abreu tocará a Suite para violoncelo solo (2008) em Lisboa e em Coimbra

segunda-feira, março 14

Café do Molhe


Perguntavas-me

(ou talvez não tenhas sido

tu, mas só a ti

naquele tempo eu ouvia)



porquê a poesia,

e não outra coisa qualquer:

a filosofia, o futebol, alguma mulher?

Eu não sabia



que a resposta estava

numa certa estrofe de

um certo poema de

Frei Luis de Léon que Poe



(acho que era Poe)

conhecia de cor,

em castelhano e tudo.

Porém se o soubesse


de pouco me teria

então servido, ou de nada.

Porque estavas inclinada

de um modo tão perfeito


sobre a mesa

e o meu coração batia

tão infundadamente no teu peito

sob a tua blusa acesa


que tudo o que soubesse não o saberia.

Hoje sei: escrevo

contra aquilo de que me lembro,

essa tarde parada, por exemplo



Manuel António Pina in Ao Porto, Colectânea de Poesia sobre o Porto, pag. 163, Publicações Dom Quixote, 2001

imagem: Edward Hopper

a noite pede música

hoje seria dia do seu aniversário



« ...a imaginação é mais importante do que o conhecimento... »