segunda-feira, fevereiro 28

Partir

«Ele sabia que já ninguém partia pelo mar e isso deixava-o triste.
Para ele não havia partidas nem despedidas sem mar, muito menos chegadas.
É uma banalidade partir para fora, empurrado para o interior de pássaros de ferro e depois desaparecer no meio do céu azul, com e sem nuvens.
Foi por isso que andou a cirandar rente ao cais e a perguntar onde se podia arranjar emprego como tripulante, de qualquer barca, um cargueiro, um graneleiro ou outra coisa qualquer, desde que estivesse distante das cidades ambulantes que atracavam em Lisboa, diariamente. Falaram-lhe de duas ou três empresas rente ao Cais Sodré.
Apontou os nomes.
Queria e precisava de partir. Estava farto de ser ninguém, de não ter um trabalho com um ordenado decente. Mas estava ainda mais cansado do ambiente pesado que o rodeava, empestado de lamuria, inveja,vaidade, incompetência e falsidade, que faziam do seu emprego um "teatro" muito mais trágico que cómico.»

Luís Milheiro

imagem: Cláudio Dantas
[desviado daqui. com grande dificuldade...mas depois vou buscar o cartaz...e não só...]

Pedro Tamen

«O escritor Pedro Tamen venceu o prémio Correntes d'Escritas com a obra de poesia O Livro do Sapateiro, editado pela D. Quixote. O júri do prémio literário Casino da Póvoa reuniu-se no dia 22 de Fevereiro de 2011 atribuindo por maioria o galardão.»

domingo, fevereiro 27

"volto já"


[eu gosto de partir. só não gosto de fazer a mala. desta vez, por mais uma semana. em trabalho]

a noite pede música

sábado, fevereiro 26

Dá-me tu um nome, para poder ficar contigo


[...]
-Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti, mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber. Chama-me o que quiseres, dá-me tu um nome para que possamos amarmo-nos. Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui. Pertencia a outra paixão, e já a esqueci. Dá-me tu um nome, para poder ficar contigo.[...]

Al Berto

a noite pede música

Who cares?


quinta-feira, fevereiro 24

É esta luta de pessoas dentro da própria pessoa

«É esta luta de pessoas dentro da própria pessoa, somos dois em cada um de nós, este drama nunca se esclarece, é terrível, luta sempre no auge quando o amor bate à porta, quando se é dominada pelo campo imenso da febre amorosa, momentos dissecados, dobrados, gémeos, de exame filatélico.(…)»

Ruben A., in Silêncio para 4, assírio & alvim, 1990

Desviado daqui

a noite pede música

quarta-feira, fevereiro 23

"às quintas falamos de BD"

Claro que gostava de ir. É já amanhã, na Amadora. Quando abri a carta, não soube só desta conversa! Soube também que na última quinta-feira dos meses de Fevereiro a Maio, sempre às 21 horas, o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, promove e recebe os encontros "Às Quintas falamos de BD". Amanhã, apresenta-se o livro E Tudo Fernando Bento Sonhou, da autoria de João Paulo de Paiva Boléo.

[...eu só não entendo como é que a Amadora não tem o Museu da Banda Desenhada! com menos, outras autarquias já tinham feito meia dúzia...! digo eu, distraída...]

terça-feira, fevereiro 22

...e uma leveza tal ao teu andar...

De bruços me debruço mais ainda
até sentir os olhos tumefactos
para saber até que ponto é linda
a intrigante cor desses sapatos

que às tuas pernas dão um brilho tal
e uma leveza tal ao teu andar,
que eu penso (embora aches anormal)
que nunca te devias descalçar.

Também porquê, se já não há verdura
nem tu és Leonor para correr
descalça, no poema, à aventura?

O mais difícil, hoje, é antever
quem é que vai à fonte em literatura
e que água dá aos versos a beber.

Joaquim Pessoa
[no dia em que o Poeta está de parabéns!]

Desviado daqui

imagem:Richard Avedon

a noite pede música



[obrigada :)]

Rui Rio na Almedina


«A sessão da Comunidade de Leitores da Almedina no próximo sábado, 26, tem um convidado especial: Rui Rio. Porquê o convite ao Presidente da Câmara do Porto para participar numa tertúlia literária? Simples: Rui Rio publicou em 2002 um livro que reúne algumas das suas principais reflexões sobre a política nacional e autárquica, cujas temáticas mantêm enorme actualidade. Nas páginas de «A Política in situ» (Porto Editora) fala-se das grandezas e misérias da actividade política através de temas que continuam na ordem do dia: financiamento partidário, leis eleitorais, o papel do Estado, o poder mediático, a herança do 25 de Abril, o estatuto dos deputados, a Justiça, a noção de interesse colectivo, a crise de valores, Lisboa e o País, entre outros. Podemos concordar ou não com as opiniões e posturas de Rui Rio, mas ninguém negará a importância deste debate numa altura em que o próprio autarca admite estar em risco o regime saído da Revolução dos Cravos, em 1974 (ver notícia de hoje no jornal «I»). Sábado, a partir das 17 horas, no Arrábida Shopping, lá estaremos, na livraria do costume».
Desviado daqui

segunda-feira, fevereiro 21

Correntes...


...está quase quase... o programa pode ser consultado aqui...

porque sim

Receita para fazer uma estrela

Primeiro misturam-se os ingredientes
com redobrados cuidados:
hidrogénio e hélio
e alguns metais pesados

Vai-se acrescentado massa
(é como se fizesses pão)
até que chega um momento
em que esta entra
em combustão
e começa
a brilhar

E está a estrela
pronta a usar.

Jorge de Sousa Braga

"..._azes-me ..._alta"

... _alta-me uma letra no teclado! ou de outra modo... _azes-me _alta...

- Uma múmia?...

Depois de ler a carta, Fradique Mendes abriu os braços, num gesto desolado e risonho, implorando a misericórdia de Vidigal. Tratava-se, como sempre, da Alfândega, fonte perene das suas amarguras! Agora tinha lá encalhado um caixote, contendo uma múmia egípcia...
— Uma múmia?...
Sim, perfeitamente, uma múmia histórica, o corpo verídico e venerável de Pentaour, escriba ritual do templo de Amnon em Tebas, o cronista de Ramsés II. Mandara-o vir de Paris para dar a uma senhora da Legação de Inglaterra, Lady Ross, sua amiga de Atenas, que em plena frescura e plena ventura, coleccionava antiguidades funerárias do Egipto e da Assiria... Mas, apesar de esforços sagazes, não conseguia arrancar o defunto letrado dos armazéns da Alfândega que ele enchera de confusão e de horror. Logo na primeira tarde,
quando Pentaour desembarcara, enfaixado dentro do seu caixão a Alfândega, aterrada, avisou a polícia. Depois, calmadas as desconfianças dum crime, surgira uma insuperável dificuldade: — que artigo da pauta se poderia aplicar ao cadáver dum hierograma do tempo de Ramsés? Ele, Fradique, sugerira o artigo que taxa o arenque defumado.
Realmente, no fundo, o que é um arenque defumado senão a múmia, sem ligaduras e sem inscrições, dum arenque que viveu. Ter sido peixe ou escriba nada importava para os efeitos fiscais. (...)

in A correspondência de Fradique Mendes de Eça de Queirós

Desviado daqui

"O Afeganistão" em debate no Porto

«O Seminário “O Afeganistão” é uma iniciativa da responsabilidade do Exército Português, que terá lugar no próximo dia 24 de Fevereiro, no Salão Nobre do Comando do Pessoal, no Porto(Praça da República). Entre os oradores encontra-se o docente da UFP, Prof. Doutor Ivo Sobral, que, no âmbito do Tema I – “Identificação de Vectores Sociais, Culturais e Religiosos”, apresentará a comunicação intitulada “Afeganistão: Navegar a Encruzilhada Histórica e Étnica».


imagem: Musadeq Sadeq / AP


domingo, fevereiro 20

Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera

de um sonho que viesse de repente

e às escuras dançasse com a minha alma

enquanto fosses tu a conduzir

o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,

toda a espiral das horas que se erguessem

no poço dos sentidos. Quem és tu,

promessa imaginária que me ensina

a decifrar as intenções do vento,

a música da chuva nas janelas

sob o frio de fevereiro? O amor

ofereceu-me o teu rosto absoluto,

projectou os teus olhos no meu céu

e segreda-me agora uma palavra:

o teu nome - essa última fala da última

estrela quase a morrer

pouco a pouco embebida no meu próprio sangue

e o meu sangue à procura do teu coração.

Fernando Pinto do Amaral


imagem: Rui Nuno Rodrigues

sábado, fevereiro 19

Colin Firth Talks 'The King's Speech'

The King's Speech by HM King George VI september 1939

O Discurso do Rei



[...brilhante e comovente...]

sexta-feira, fevereiro 18

...uma imagem...


imagem: Helder Reis

a noite pede música

quinta-feira, fevereiro 17

Jogo

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Nuno Júdice

Poema desviado daqui.

porque sim



[o primeiro quadro que comprei: Paul Klee]

Cineliterário traz O Véu Pintado

“Por vezes, a maior viagem é a distância entre duas pessoas”

Vou adorar rever o filme em mais um CINELITERÁRIO, da inteira responsabilidade da Cláudia de Sousa Dias. Mais coisas aqui, num dos blogs onde escreve.

O Véu Pintado passa no Cineliterário, amanhã, às 21.30 horas, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão. Vale a pena enfrentar o mau tempo e ir ver!

...Solar, muito romântico, recebe um livro...

Eu, sabem disso, sou sempre suspeita a falar da minha cidade, a mais bela do mundo :) Este - o Solar do Vinho do Porto - é dos lugares de que mais gosto, com uma vista belíssima sobre o meu rio Douro. Quem não conhece, devia ir só com esse intuíto, ficar a conhecer. E observar, muito devagar, tudo à volta.
Ainda por cima, ao lado, tem o Museu Romântico. E os jardins da Quinta da Macieirinha. Espreitem as fotografias aqui e digam lá se não dá vontade de um longo passeio?
Mas o que eu quero dizer é que há mais um excelente motivo para ir ao Solar do Vinho do Porto. E é já no próximo dia 22. A sessão de apresentação do livro " Vinhos: Arte e Manhas em Consumos Sociais. A Apresentação de uma Prática Sociocultural em Contexto de Mudança", da investigadora do Instituto de Sociologia, Dulce Magalhães. A apresentação da obra, agendada para as 18.30 horas, estará a cargo do Professor Luís Baptista. A entrada é livre.

imagem: Ana Pina

a noite pede música

...e a Foz do Douro está assim...


imagem: José Melim

Liberdade de expressão


Artigo 10.º

(Liberdade de expressão)

1. Qualquer pessoa tem direito à liberdade de expressão. Este direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber ou de transmitir informações ou ideias sem que possa haver ingerência de quaisquer autoridades públicas e sem considerações de fronteiras. O presente artigo não impede que os Estados submetam as empresas de radiodifusão, de cinematografia ou de televisão a um regime de autorização prévia.

2. O exercício desta liberdades, porquanto implica deveres e responsabilidades, pode ser submetido a certas formalidades, condições, restrições ou sanções, previstas pela lei, que constituam providências necessárias, numa sociedade democrática, para a segurança nacional, a integridade territorial ou a segurança pública, a defesa da ordem e a prevenção do crime, a protecção da saúde ou da moral, a protecção da honra ou dos direitos de outrem, para impedir a divulgação de informações confidenciais, ou para garantir a autoridade e a imparcialidade do poder judicial. »
in Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais

[conclusão de um dia de chuva,

...escreveu:tem os olhos mais lindos que eu nunca vi. e é tudo]
imagem: José Melim

Raul Brandão em Faro

«Numa parceria com a Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – Universidade do Algarve, a Biblioteca Municipal de Faro iniciou em Janeiro de 2010 o Ciclo Literário “A Hora dos Clássicos”. Com a colaboração mensal de docentes da UALg temos enriquecido a nossa programação, com um ciclo de palestras em torno da literatura.
CICLO LITERÁRIO
A Hora dos Clássicos

Profª. Doutora Carina Infante do Carmo
Autor: Raul Brandão
Leve os capítulos seleccionados pela Prof.ª Doutora Carina Infante do Carmo, disponíveis junto ao Balcão de Empréstimo. Leia e venha discutir as leituras no dia 25 Fevereiro, às 18 horas, na Biblioteca Municipal de Faro. A entrada é livre».

quarta-feira, fevereiro 16

Que tempo é o nosso?


Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.

E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à "sabedoria" do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em "cadáver adiado que procria", como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida?

Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.

Eugénio de Andrade in Os Afluentes do Silêncio

a noite pede música

terça-feira, fevereiro 15

Cronópios e famas... e a Cicatriz do Ar


Eu tenho sempre um bom pretexto para ir a Vila Real: os amigos! Desta vez tenho mais um - forte - até porque acabei de ler o livro, A Cicatriz do Ar, de Jorge Fallorca , mas não posso! Por isso, espero que alguém vá e me conte como decorreu esta iniciativa organizada por estes senhores.
[...e depois há a Gomes [ com empadas e cristas de galo] e o Chaxoila e o Teatro e aquele frio muito frio e branco. E a estrada que leva a São Leonardo de Galafura e a outros lugares mágicos, como o "mar de pedra" da minha querida Edu... e as saudades crónicas de que sofro, quando falo destas coisas... enfim...]

segunda-feira, fevereiro 14

a noite pede música



[...ora digam lá se não dá vontade de pegar num livro Lucky Luke...]

domingo, fevereiro 13

porque sim

Meu amor que te foste sem te ver

Meu amor que te foste sem te ver
que de mim te perdeste sem te amar
quem sabe se outra vida tu vais ter
ou se tudo se perde sem voltar

ou se é dentro de mim que tem de haver
tanta força no meu imaginar
que o poeta que é Deus o vá reter
e te dê vida e faça regressar

para de novo o sonho desfazer
num contínuo surgir e retornar
ao nada que dá ser ao que é querer
ao fado que só dá para se dar

por tudo estou amor e merecer
o que venha para eu te relembrar
só adorando o nada pretender
só vogando nas águas de aceitar.


Agostinho da Silva

As mulheres têm fios desligados


Há uns tempos a Joana,

- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a preseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é so copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontém jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.
António Lobo Antunes

Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe

Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.

Daniel Faria

imagem: Leila Pugnaloni
Poema desviado daqui

a noite pede música

sábado, fevereiro 12

The music never stopped

porque sim

The extraordinary world of...

sexta-feira, fevereiro 11

Um antropólogo em Marte [a]


[...e eu gosto tanto tanto de o ler...]

Lua adversa

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

a noite pede música

Diante da vastidão...


"Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época consigo".

...para ver AQUI. fabuloso...


[...faço minhas as palavras de Carl Sagan! ...com um imenso obrigada ao João D A]

quinta-feira, fevereiro 10

Metade


Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também

Ferreira Gullar


[obrigada querido amigo AM]

quarta-feira, fevereiro 9

a ninfa

Branca.
Branca era a ninfa,
Branca e prisioneira
E impaciente.

Sophia de Mello Breyner Andresen

[parabéns querida Leila. um abraço com carinho e admiração]

a noite pede música

Qualquer caminho leva a toda a parte

[...]
Qualquer caminho leva a toda a parte
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva a onde indica a estrada
Outro é sozinho.
[...]
Fernando Pessoa

imagem: João Paulo Coutinho

...são todas para ti...

[...querida Sónia! parabéns! tudo de bom hoje e sempre. gosto tudo de ti, linda...]

às vezes...

[...ainda olho o mundo devagar. e o mundo gira, azul, inteiro, inicial, cheio de tempo. de verdade que ainda olho. às vezes.]

terça-feira, fevereiro 8

Falas de civilização


Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro

a noite pede música

I am the escaped one

I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul
Never finds me.

Fernando Pessoa

imagem: Jacob Porat

Fernando Pessoa por Jacob Porat

"Homenagem a Fernando Pessoa" do pintor israelita Jacob Porat, que terá lugar entre os dias 3 e 18 de Fevereiro, das 10h00 às 20h00, no Átrio da Universidade Fernando Pessoa [sede].

Sobre as virtudes da esperança...

«Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Pense que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.»

[José Saramago, O Caderno; Caminho, Lisboa, Março 2009]

Desviado, com imagem e tudo, daqui

...é por estas e por outras...


Acho que em Portugal há um julgamento estranho da modéstia. Batem-se palmas a quem basicamente diz que não é muito bom a fazer o que faz. E quando alguém diz que tem confiança no que faz, utiliza-se uma palavra pejorativa: arrogante. Eu claramente tenho confiança no que faço, e nesse aspecto não sou modesto. Agora, precisamente porque tenho essa confiança não me passa pela cabeça falar mal de alguém. Não por eu ser um coração maravilhoso, mas porque seria perder tempo precioso para aquilo que tenho de fazer.
Gonçalo M. Tavares, in Mil Folhas, Público, 2005


[...que o acho um grande Senhor. Tal e qual os Senhores que escreve...]

...o café...

[para mim, sem açucar, p.f]

...era, não era?...

[pois!]

bom dia :)


[...tirem lá um, enquanto vou buscar o café...]

segunda-feira, fevereiro 7

a noite pede música

pulo de alegria...

...pelo que vai acontecer. melhor: pelo que já está acontecendo...

Porto Book Stock Fair

23 euros = a 9 livros! Pois é!
Uma equação possível de fazer na Porto Book Stock Fair, a decorrer no Pavilhão Rosa Mota [Palácio de Cristal], no Porto. A organização é da Calendário de Letras em parceria com a edilidade local. Comprei alguns da Cavalo de Ferro. A este, em especial, estou com vontade de lhe pegar. E a um outro do Jorge Amado, com a chancela da D. Quixote. Depois, darei notícias. Entretanto, podem passar por lá até 28 de Fevereiro.

domingo, fevereiro 6

porque sim



[porque há pessoas que não conhecemos e nos dizem muiíssimo. até porque é mais ou menos assim...]

A ponto de nós termos sido música somente?


A música é só música, eu sei. Não há outros termos em que falar dela a não ser que ela mesma seja menos que si mesma. Mas o caso é que falar de música em tais termos é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem mostrá-lo ou sem sequer havê-lo visto alguma vez. Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto, nenhum silêncio recolhido nos persiste além de alguns minutos. E não dura na memória como o silêncio. Ou, se dura, esse silência cala a própria música que adora. Porque a música não é silêncio mas silêncio que anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.
Se os sons, porém, não são de devaneio, e sim a inteligência que no abstracto busca ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas; se tudo se organiza como a variada imagem de uma ideia despojada de sentido;
se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos que os grupos, e os grandes números, e as proporções conhecem necessários; se tudo se repercute como em cânones cada vez mais complexos que não desen- volvem um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;
se tudo se acumula menos como som que como pedras esculpidas em volutas brancas e douradas cujos recantos de sombra são um trompe-l'oeil para que elas mais sejam em paredes curvas;
se uma alegria é força de viver e de inventar e de bater nas teclas em cascatas de ordem; e se tudo existiu na música para tal triunfo e dele descende tudo o que de arquitectura possa existir em notas sem sentido -COMO não proclamar que essa grandeza imensa não é não se comove com íntimos segredos ( mesmo implica que não haja segredo em nada que se faça a não ser o espanto de fazer-se aquilo), é como que uma cúpula de som dentro da qual possamos ter consciência de que o homem é, por vezes, maior do que si mesmo. E que nada no mundo, ainda que volte ao tema inicial, repete o que só foi proposto como tema para se transformar no tempo que contém. Quando, no fim, aquele tema torna não é para encerrar num círculo fechado uma odisseia em teclas, mas para colocar-nos ante a lucidez de que não há regresso após tanta invenção. Nem a música, nem nós, somos os mesmos já. Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga, para sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque o virtual de um pensamento se tornou ali uma evidência: se tornou concreto.
Um concreto de coisas exteriores -- e o espanto é esse -- igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam. Será que alguma vez, senão aqui, aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto de real e virtual serem idênticos, e de nós não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de nós termos sido música somente?»
Jorge de Sena, Bach: variações Goldberg, Arte de Música (1968)

Desviado [no dia certo] daqui

Clube dos escribas

Clube dos escribas no Porto, com a escritora Patrícia Reis

25 de fevereiro,sexta, 18h30 às 21h e
26 de fevereiro, sábado, das 9h30 às 13h
Investimento: 50 euros
Local: rua dos navegantes, 51, Porto
[ transversal da Fernão Magalhães entre a Praça Velasquez e o Campo 24 de Agosto]

MAIS INFORMAÇÕES:
http://vaocombate.blogs.sapo.pt
patricia_reis@netcabo.pt

Tela Habitada