segunda-feira, janeiro 31

porque sim

Se numa noite de inverno um viajante


«Estás a começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros: “Estou a ler! Não quero que me incomodem!”. Não devem ter-te ouvido, com aquele barulho todo; fala mais alto, grita: “Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!” Ou se não quiseres não digas nada; esperemos que te deixem em paz.
Arranja a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, se tiveres alguma cama de rede. Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de yoga. Com o livro virado ao contrário, bem entendido.
É claro que a posição ideal para ler nunca se consegue arranjar. Dantes lia-se de pé, diante de uma estante. As pessoas estavam habituadas a ficar de pé. Era assim que se repousava quando se estava cansado de andar a cavalo. A cavalo ninguém se lembrou alguma vez de ler; e no entanto agora essa de ler sobre o arção, com o livro pousado nas crinas do cavalo, se calhar até preso às orelhas com um adereço especial, é ideia que achas atraente. De pés nos estribos devia-se ficar com muita comodidade para ler; ter os pés soerguidos é primeira condição para desfrutar da leitura.
Bem, afinal de que estás à espera? Estende as pernas, estica também os pés numa almofada, em duas almofadas, nos braços do sofá, nas orelhas da poltrona, na mesinha de chá, na secretária, no piano, no mapa-mundo. Descalça primeiro os sapatos. Mas só se quiseres ficar de pés soerguidos, senão torna a calçá-los. E agora não fiques para aí de sapatos numa mão e livro na outra.
Regula a luz de modo a não te cansar a vista. Fá-lo já, porque assim que estiveres mergulhado na leitura, nem penses em mexer-te. Arranja-te de maneira a que a página não fique na sombra, um emaranhado de letras negras sobre fundo cinzento, uniformes como uma ninhada de ratos; mas tem cuidado para que não lhe bata de chapa uma luz demasiado forte e que não se reficta no branco cru do papel roendo as sombras dos caracteres como um meio-dia do Sul. Tenta prever tudo o que puder evitar-te o interromper da leitura. Os cigarros ao alcance da mão, se fumares, e o cinzeiro. Que mais é que falta? Tens de ir fazer chichi? Bem, tu é que sabes.
Não é por esperares alguma coisa especial deste livro em especial. És uma pessoa que por questão de princípios já não espera nada de nada. Há muitos, mais jovens que tu mas também menos jovens, que vivem na expectativa de experiências extraordinárias; dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, do que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. Foi esta a conclusão a que chegaste, tanto na vida pessoal, como nas questões gerais e até mesmo mundiais. E com os livros? É isso, exactamente porque o excluíste em todos os outros campos, achas que é justo concederes-te ainda este prazer juvenil da expectativa num sector bem circunscrito como é o dos livros, onde as coisas te podem correr mal ou correr bem, mas o risco de decepção não é grave.»
(…)
Se numa noite de Inverno um viajante [Se una notte d'inverno un viaggiatore], Italo Calvino (Tradução de José Colaço Barreiros, Ed. Teorema)

Desviado daqui

domingo, janeiro 30

Uma voz na pedra


Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
...Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa

sábado, janeiro 29

Lendas do Porto

«Amanhã, [HOJE] pelas 17 horas, JOEL CLETO, autor do livro «LENDAS DO PORTO» (Quidnovi), é o convidado da primeira sessão da III série da Comunidade de Leitores da Almedina do Arrábida Shopping. “Porto de Partida” é o mote para os debates e conversas das tertúlias da Almedina, num ambiente onde o Porto será sempre o pretexto para outras leituras, temas, lugares e reflexões. Apareçam!

SINOPSE «Lendas do Porto»
«Uma viagem pela História e Património da região do Porto a pretexto de mais de duas dezenas de lendas. Através destas páginas o leitor é convidado a (re)visitar monumentos como a Sé do Porto, a Torre de Pedro Sem, a Casa de Ramalde, a capela do Senhor da Pedra ou a igreja de Matosinhos. Mas também a contactar com personalidades históricas como o rei Ramiro, Zé do Telhado, Camilo Castelo Branco, D. Pedro IV ou o Infante D. Henrique. Aqui encontrará igualmente as explicações lendárias para a origem dos “tripeiros”, da associação da concha da vieira aos Caminhos de Santiago, ou de topónimos como Miragaia, Matosinhos ou Valongo.

Episódios fabulosos, transmitidos durante séculos através da oralidade, as lendas não deixam de encerrar pistas preciosas (por vezes as únicas que chegaram aos nossos dias) para a compreensão de muitos episódios históricos e para a génese de muitas localidades e seus monumentos.

Mas, para lá de lenda, o leitor encontrará também as respostas que, entretanto, a História e a Arqueologia encontraram para as dúvidas e questões que motivaram os nossos antepassados para as suas explicações lendárias».

Desviado daqui.

a noite pede música

sexta-feira, janeiro 28

Queridos terráqueos...



Queridos terráqueos este mini-planeta faz 2 anos !
[ups!]
Quero agradecer-vos muitíssimo muitas coisas e outras que, hoje, não sei dizer-vos! Desculpem-me, sim?

[ ...muito OBRIGADA...]

quarta-feira, janeiro 26

Bailias


a noite pede música



[ e deitar cedo? ]

...mas eu apanhei-a a ler Sylvia Plath...

[...aqui...]

Seeds on Hard Ground

A vida é cheia de som e de fúria...

"A vida é cheia de som e fúria, e, no final, isso não significa quase nada"
Frase de William Shakespeare [Macbeth] que abre o novo filme de Woody Allen. Não é brilhante como tantos, dele, mas vê-se muito bem. E não é preciso outra vida :))) para vermos no que dá uma série de escolhas erradas...de resto, cada um acredita no que quer acreditar. Resumidamente... e sem qualquer laivo de inspiração.

Espólio de Sophia na Biblioteca Nacional


«O espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen será hoje oficialmente doado pela família da escritora à Biblioteca Nacional, em Lisboa, onde se inaugura também uma exposição sobre a sua vida e obra.»

terça-feira, janeiro 25

porque sim



[simples. hoje, às dez em ponto, vou conhecer "o homem dos seus sonhos"]

segunda-feira, janeiro 24

Primavera primeira


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
- no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum

Vasco Gato

...de sol...

[...que todos os teus dias sejam de sol ...
sem nenhum "enclave" mas com a clave certa!
música, como tanto gostas e tão bem escolhes.
parabéns querida Dalila! íssimo de ti, minha amiga...
...muito muito muito. tudo.
de ti.sempre.]

pois há!

[...há livros assim...]

um movimento curioso

[...um movimento curioso ... o certo é que este senhores não deixam as barbas de molho!
deixar as barbas de molho é uma expressão idiomática que sempre me faz ...
sorrir...]

assim

[...não é fácil. não vou mentir. mas de qualquer forma, assim, é mais fácil...]

a noite pede música



[... e um pézinho de dança?]

...qual quê?...


[...foi até um dia muito inspirador... ainda sob os efeitos de uma notícia absolutamente maravilhosa, divina e sei lá que mais... recebida ontem... Afinal, os cientistas também se enganam :)))]

Magníficas

[...um filme que revi este fim-de-semana. Com estas magníficas actrizes. De resto, induzida por mais um início que levei até ao fim... em boa hora (s)...]

sábado, janeiro 22

às vezes


[...às vezes era assim que eu ouvia o mar...]

...finalmente...


[por aqui, está um dia lindo, lindo de frio e de sol.
Bom para caminhar...por exemplo...]

sexta-feira, janeiro 21

O segredo dos teus olhos



[ai se me apanho no sofá, enrrolada numa manta, lareira acesa e com este filme à frente :)]

When I am inside the Music, I am safe...


«Music is the expression of our dreams in waiting time. It's the sound we make when we are at our most human, our most frail, our most REAL. It makes itself, like love. It is every human word and no word at all; every sound in the world made out of infinite stillness and limitless silence. When I look at a Klee or a Van Gogh I HEAR it. When I listen to Filles De Kilimanjaro or A Love Supreme I SEE it. When I am inside the Music, I am safe, I am fully awake, and I am filled with wonder. Everything is exactly as it should be.»
Jessica Williams, texto publicado nas notas de Live At Yoshi's Volume Two
Desviado daqui.

...a não perder...

Alguém me explica como é que uma coisa destas só está em cena três dias?
Na verdade, amei [amo] o livro.
E adoraria ver a peça. Tomara que arranje bilhete!

a noite pede música

quinta-feira, janeiro 20

Bach, Mozart e Vivaldi na prisão...


«Violinos, violoncelos e violas de arco vão encher de música os corredores do Estabelecimento Prisional de Vila Real. O concerto realiza-se Sábado, dia 29 de Janeiro, às 18h30.
O Ensemble de cordas Música Esperança, vai levar aos reclusos música que passa pelo reportório de compositores mais afamados como Bach ou Mozart até outros menos conhecidos do público em geral como Henry Wieniasvsky.
O concerto será comentado. A vida atribulada dos compositores servirá de mote para um momento que se espera didáctico e de intervenção social.
O Ensemble Música Esperança faz parte da recém criada Associação Música Esperança de Portugal, cuja Associação mãe está sedeada em França e é liderada pelo reconhecido pianista franco-argentino Miguel Ángel Estrella.
Este ensemble é a parte mais visível da Associação Música Esperança de Portugal. Leva a música aos lares, prisões, escolas, hospitais e a todos os locais onde ela geralmente não chega. É também objectivo da Associação intervir junto de comunidades mais desfavorecidas, nomeadamente em Trás-os-Montes, fomentando o gosto e a prática da música.

A Associação Musica Esperança existe em 15 países da América Latina e Europa, é já uma Federação Internacional e - entre outras distinções - recebeu no ano passado o II Prémio UNESCO/Bilbau para a Promoção de uma Cultura de Direitos Humanos.

Miguel Ángel Estrella, mentor do projecto, foi preso e torturado nos anos 70 pela ditadura latino-americana pelo seu trabalho artístico e social junto das populações mais pobres. Miguel prometeu a si próprio que se saísse vivo da prisão ia criar uma associação para levar a música aos mais humildes, aos mais desamparados. Ia fazer da música um meio solidário, esbater o ruído da comunicação entre os ricos e pobres do mundo.
Nascia a Associação Música Esperança. E agora, neste inicio de ano de 2011, nasce em Portugal».
[Para mais informações, por favor contacte o número 91 225 69 77 ou 91 766 90 30, musicaesperacaportugal@gmail.com]

...so true!

Eu sei, não te conheço mas existes.


Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
[...]

Joaquim Pessoa

porque sim

quarta-feira, janeiro 19

...diz-me como a chuva...


[Well, talk to me like the rain and -- let me listen, let me lie here and -- listen ... [He falls back across the bed, rolls on his belly, one arm hanging over the side of the bed and occasionally drumming the floor with his knuckles. The mandolin continues] It's been too long a time since -- we levelled with each other. Now tell me things: What have you been thinking in the silence? -- While I've been passed around like a dirty postcard in the city ... Tell me, talk to me! Talk to me like the rain and I will lie here and listen.]
Tennessee Williams

a noite pede música

...just fruits...


[...há dias - poucos - em que concordo :)))...]

segunda-feira, janeiro 17

Chega-se a este ponto...


Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
...o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe


David Mourão-Ferreira

porque sim

há abraços que, às vezes, ficam por dar


imagem: Leila Pugnaloni

Variação sobre rosas

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.
Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.
E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.

Nuno Júdice

domingo, janeiro 16

de resto, também dizemos coisas quando não as dizemos

chega de conversa, diria o meu avô aníbal. e teria razão. pescador toda a vida, apreendeu essas secretas passagens que o silêncio incute e promove. falar, afinal, não é matar de modo inconsistente todos os modos do sossego?

o que, por agora, tinha para dizer deve estar nas páginas que se seguem. dez anos antes ou depois, há frases que nos vão resumindo – cicatrizam-se em nós (porque o mundo / assim como sou / não me basta). pensei também em dizer que, algures, entre estes dois livros, seguem longas linhas de uma sincera confissão. mas depois vi que isso seria uma redundância humana.
...
de resto, também dizemos coisas quando não as dizemos...



imagem: Luis Belrán

a noite pede música

sábado, janeiro 15

...livros...


[...] Os livros são como todos os vícios: a dado momento poucos nos retêm. E são precisamente essas excepções que nos comprometem, nos impelem à expectativa dos enunciados. Esse filão é que nos alimenta o prazer da leitura, compulsiva, quase visceral, desde que aprendemos a ligar as letras e dispensa a atrocidade (a veleidade) de qualquer explicação.

Paradoxalmente, há autores que admiro, que procuro e me são praticamente indispensáveis, mas de quem nunca li um livro. Alguns foram-me proporcionados pelo acaso - que continuo a considerar a melhor maneira de descobrir um autor, uma escrita - em insuspeitas crónicas semanais publicadas em jornais ou suplementos literários, nem sempre como mais-valia. Mais do que acreditar ou interessar pelos temas - as tricas. Juan Goytisolo ridiculariza-as com esta caricatura institucionalizada, «se me citas cito-te, se me louvas louvo-te, se me lês leio-te: original e castiço sistema crítico fundado na tribal, primitiva economia da troca! (...) fora de tom, inautênticos sempre, excepto quando recíproca, iradamente se combatem*» - , ainda vou considerando essas publicações como ferramentas necessárias para o ritual de um quotidiano de que me distancio.

Entretanto, os livros continuam a amontoar-se à minha volta. Comprados, oferecidos, trocados - poucos merecem a generosidade de pertencerem a alguém - ,são uma presença indissociável da minha; indispensável e tranquilizadora extensão de mim mesmo, objectualizada pelo volume, a dimensão, a qualidade do papel, o fascínio gráfico, o apelo da capa que nos assegura a disponibilidade do olhar e do tacto.

Exceptuando a presença temporal dos que traduzo, à falta deles, poderia considerá-los animais de estimação, sendo-me difícil, dolorosa mesmo, a indispensável depuração imposta pelo crescimento desordenado e quase daninho, mas nunca claustrofóbico. Até serem exilados para as estantes menos consultadas, cumprem um curioso movimento de rotação - vasos, livros comunicantes? - ,sobrepondo-se e impondo-se, reciprocamente, sobre a mesa que medeia entre o sofá e o nicho na estante onde trabalho.

Olhados à distância, considero-os o mais fidedigno testemunho da roda-livre dos meus interesses, e poucos sobrevivem ao regresso, porque entretanto outros acompanham os que me denunciam a ausência.
Esgotado o prazer de uma leitura, por vezes procuro-lhe a matriz editorial e uma polifonia de línguas, na expectativa de que esses novos livros me devolvam ou enriqueçam o prazer original.
«(...) quando se é jovem estabelece-se uma relação com os livros que nos marca para sempre: sermos filhos dos nossos livros, se os vivemos e nos viveram a tempo, ou cresceremos e morreremos orfãos da sua insubstituível progenitura (...)aos velhos, incluídos os velhos prematuros, resta-nos - e obrigado - a paixão secundária da releitura, precisamente porque, debilitadas a sensualidade leitora, a capacidade de surpresa, de amor pela novidade e de entusiasmo, torna-se-nos mais fácil reavivar brasidos do que criar novas fogueiras (...)».
Rodeado de livros pela força da sobrevivência como tradutor - declino a expressão vertedor, com que se pretende banalizar a alquimia da tradução como uma trasfega de idiomas - , nenhum dicionário, nenhuma enciclopédia, nada me resolve o confronto com a ausência de correspondência entre palavras tão simples como ar, sol,luz ou claridade, por exemplo.

A experiência tem-me demonstrado que a luz de um autor latino-americano é substancialmente diferente da luz escrita por um anglo-saxónico, um europeu, e que é um equívoco pretender que é sempre igual para os escritores do anel mediterrâneo. Existe uma tal variedade de nuances, de gradações nessa luz revelada ou iluminada por um escritor grego, egípcio, magrebino ou andaluz, que tornaria ridículo circunscrever a luz às cores pateticamente enunciadas pelo arco-íris, as estações do ano, as horas do dia, a memória.

Jorge Fallorca in a cicatriz do ar, pag.12-14, Edição de Autor, 2009

Cantar as Janeiras

[...e não é que estão a cantar as janeiras à minha porta?! :)))]



Sobre tantos Janeiros de nós dois,
Cansou-se a velha lua de sonhar
E, em se indo deitar, surgiu, depois,
Um sol que só nasceu pr`a vir espreitar…

Se, em cantando as Janeiras, tu me dóis,
Se me dóis mais ainda ao não cantar,
Que fazer se, por ti, me nascem sóis
E, enquanto me doeres, eles vão voltar?

Não cantaste as Janeiras… que me importa
Se, amanhã, me vieres bater à porta
Por sentires o vazio de uma saudade?
Olho o céu de Janeiro e fico absorta;

Nem uma estrela brilha, viva ou morta,
E tudo o que promete é tempestade…

Maria João Brito de Sousa

O regresso da Comunidade

A Comunidade de Leitores está de volta! É o terceiro ciclo. Mas o cenário não muda: Almedina do Arrábida Shopping. Nem o cenário, nem o dinamizador das tertúlias: Miguel Carvalho. Livros em volta. Olhares atentos. Mote: cidade do Porto.

«Aqui fica, pois, a lista definitiva dos participantes e as respectivas datas das sessões. Creio que os convidados garantem, pelo menos, uma ampla variedade de abordagens: da política à poesia, da religião às tradições populares, das memórias à escrita de um Porto sentido. Os interessados em participar devem fazer uma inscrição gratuita na Livraria Almedina do Arrábida Shopping».

Anotem, s.f.f.

Últimos sábados do mês – 17 horas

JANEIRO (dia 29)
JOEL CLETO
Livro: Lendas do Porto (Quidnovi)
FEVEREIRO ( dia 26)
RUI RIO
Livro: A Política In Situ (Porto Editora)
MARÇO (dia 26)
CARLOS TÊ / MANUELA BACELAR
Livro: Cimo de Vila (Afrontamento
ABRIL (dia 30)
D. MANUEL CLEMENTE (Bispo do Porto)
Livro: Porquê e Para Quê – Pensar com Esperança o Portugal de Hoje (Assírio & Alvim)
MAIO (dia 28)
FILIPA LEAL (+ sessão de poesia)
Livros: A Cidade Líquida e Outras Texturas, O Problema de Ser Norte e a Inexistência de Eva (Deriva Editores)
JUNHO (dia 25)
ALFREDO MENDES
Livro: Porto – Naçom de Falares (Âncora)
Fonte: aqui

imagem: Claudia de Sousa Dias

a noite pede música

...ser ou não ser feliz...

Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não ser feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se não quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e é mais difícil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obediência ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.
Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade, a cegueira, a inflexibilidade das leis mecânicas, que são bem as representantes do Fado, e cuja grandeza verdadeira só se pode sentir bem no desastre; é quando a catástrofe chega que a fatalidade se mede em tudo o que tem de divino, e foi pena que não fosse esta a lição essencial que tivéssemos tirado da tragédia grega; como pena foi que só tivéssemos olhado o fatalismo dos árabes pelo seu lado superficial.
Por outra parte, é igualmente na desgraça que se mede a outra grande força do mundo, a da liberdade do espírito, que permite julgar o valor moral no desastre e permite superar, pelo seu aproveitamento, o toque do fatal; não creio que Prometeu estivesse alguma vez verdadeiramente encadeado: talvez o estivesse antes ou depois da prisão; mas era realmente um espírito de liberdade e um portador de liberdade o que, agrilhoado a montanha, se sentiu mais livre ainda; porque podia consentir ou não no desastre, superá-lo ou não, ser alegre ou não. E este ser alegre não significa de modo algum a alegria daquele tipo americano de «Quebre uma perna e ria»; acho que eram muito mais alegres as pragas dos velhos soldados de Napoleão. No fundo é o seguinte: é necessário, ajudando a realizar o homem no que tem de melhor, que a mesma energia que se revelou pela física no mundo da extensão, se revele pelo espírito no mundo do pensamento e domine a primeira vaga de energia, como onda rolando sobre onda mais alto vai. E mais ainda: que pelo momento de infelicidade, o que não poderá nunca suceder no caso da felicidade, entenda o homem como as duas espécies ou os dois aspectos de energia se reúnem em Deus. Só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; às vezes por aquela piedade da fraqueza que leva a tomar crianças ao colo; só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.

Agostinho da Silva in Textos e Ensaios Filosóficos

imagem: Paul Bond

Na rota do chá


[mais uma vez e sempre.
soube tão bem...
a companhia, a conversa, o chá, o bolo brigadeiro e o inverno...quase de sol]
imagens: Ana Pina

sexta-feira, janeiro 14

Escrita criativa: turma do Porto


Aqui fica o programa do curso de Escrita Criativa orientado pela Patrícia Reis. No Porto, é já em Fevereiro. A ver se a turma da INVICTA se começa a organizar. Vamos lá! O contacto para mais informações fica aqui [96 606 63 62]

Primeira Sessão:Porque estamos aqui? Porque escrevemos? O que gostamos e o que não gostamos? Ler como função primordial de quem escreve. Exercitar a escrita como um pianista exercita todos os dias as teclas brancas e pretas. Talento sem técnica é como uma lâmpada fundida. Começar com uma descrição ficcionada de quem somos (texto de cada aluno, 20 minutos para o fazer). Partilha de textos. Um bom escritor será sempre um aprendiz. Seja auto-crítico (sem ser em excesso) e, ao mesmo tempo, capaz de perceber as criticas que lhe fazem. TPC: Com uma revista na mão escolher 8 personagens/imagens para que possam criar um texto.

Segunda Sessão:Leitura dos TPC (todos os trabalhos são fotocopiados e entregues aos alunos). Discussão sobre cada texto numa vertente positiva: crítica construtiva. Recomendação de leituras. Exercício curto para fazer na aula a partir de um clássico, escolher um mito/conto infantil/ clássico e modernizá-lo. Observar e escrever assumindo a condição de larápio da vida, basicamente é isso que faz um escritor. O mercado editorial. As vantagens e desvantagens dos exercício da escrita partilhada em blogues e sites. TPC: procurar um texto curto de que se goste, trazer para leitura e discussão.

Terceira Sessão:Ida à rua, para observar a rua, neste caso a praça Saldanha. A importância da pesquisa. Regresso para escrever em 20 minutos uma história. Leituras das histórias. Entrega das histórias que trouxeram para que os colegas levem para casa e possam ler. TPC: registar um sonho, recente ou antigo, dar-lhe uma roupagem de conto, encontrar o simbolismo. Dicas para bloqueios de escrita: reformular a ideia de ficção para uma ficção epistolar.
Discussão dos textos propostos pelos colegas. Exercício da aula, uma história sobre ou com o colega da frente em 20 minutos. Inspiração versus trabalho. Entrega de diplomas e de livros-prenda para todos os que participaram.
Materiais
Dicionário de sinónimos
De língua portuguesa
De mitologia
Gramática
Prontuário
Computador portátil
Folhas
Caneta

S de solidariedade

[... com a Austrália e com o Brasil...]

a noite pede música

Pudesse eu não ter laços nem limites

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen

Correio azul

[eu precisava ler. e tu escreveste uma carta. depois, claro, que acredito.
em fadas. duendes.mistérios.milagres. sorrisos. sonhos.pessoas.
eu acredito muito nas pessoas.
como tu.
li.reli.li.reli.li.reli.li.reli.li. reli...]

O bandido que sabia latim


[...chegou ontem, querida Leila! Gostei muito, muito, muito. Fiquei feliz. Com a sua dedicatória - linda linda - e com a de Toninho Vaz. Obrigada. Mil obrigadas.
E, sim, querida Leila, há um encanto imenso em tudo isto... Eu sinto...]


«Paulo Leminski foi uma inesquecível tempestade na cena cultural brasileira, antes de morrer aos 44 anos, em 1989, no auge do sucesso, como um mito. O poeta marginal de Curitiba chegou aos anos 80 fixando sua marca em trabalhos assinados na Veja, Folha de S.Paulo e na televisão, no Jornal de Vanguarda, enquanto encantava com suas impecáveis traduções de John Fante, Alfred Jarry, Yukio Mishima e Samuel Beckett.

O BANDIDO QUE SABIA LATIM resgata a vida deste artista que foi hippie; professor de judô, História e redação; publicitário; inveterado conquistador e bebedor de vodca; marido de Alice Ruiz; gênio e doido; ídolo e mestre que deixou muita poesia e saudade para gerações de leitores. Antonio Carlos Martins Vaz (Toninho Vaz) nasceu a 2 de outubro de 1947, em Curitiba. É jornalista e roteirista de televisão. Começou escrevendo no Diário do Paraná, em 1969. Foi editor e colaborador de diversos jornais alternativos nos anos 70 e 80 - Anexo, Raposa, Polo Cultural, Pasquim, Nicolau. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1974. É casado com Naná Gama e Silva e tem uma filha, Maria Carolina.

Trabalhou como editor de texto na Rede Globo durante quatorze anos. De 1995 a 1998 viveu em Nova York. Atualmente mora em São Paulo.» Fonte: aqui

terça-feira, janeiro 11

Pensar é mais interessante do que saber...


Pensar é mais interessante do que saber, mas menos interessante do que olhar
Johann Goethe
imagem: Luis Gonzalez Palma


segunda-feira, janeiro 10

a noite pede música

M

M de:
Meus manos [lindos, lindos, parabéns!]
Mafalda [saudades, fada. muitíssimas]
Mesa [rodeada de amigos e um jantar que me soube pela vida]
Muito [stresse...ainda. e alguns mergulhos para relaxar]
Mefistófeles [há ainda quem não venda a alma]
Mais [amigos e um delicioso final de tarde chuvoso em Guimarães]
Manga [ao pequeno-almoço]
Mar [sempre. mesmo dentro do carro, quando "raining cats and dogs"]
Mitónimo [mito de tão fabulosas]
Mostarda [ no cachorro, mesmo à secretária, a correr]
Mapa [a ver se não me perco]
Murmurar [um nome]
Manilha [ não sei jogar esse jogo]
Momento [de lucidez]
Manjerico [desenhar aromas]
Mustelídeos [marta]
Matriz [fundamental]
Malangatana [arte]
Milagre [às vezes]
Maça [com romã, uma experiência bem sucedida]
Música [vitaminas]
Mudança [continua]
Mundo [nos teus olhos]
Modo [de não lembrar]
Montanhas [não se sobem com cordas partidas]
Miles [Davis]

A Casa de Papel


«Todos os anos ofereço pelo menos cinquenta exemplares aos meus alunos, mas não consigo deixar de acrescentar uma nova estante, outra fila dupla; os livros avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los.
Amiúde é mais difícil desfazermo-nos de um livro do que obtê-lo. Ligam-se a nós num pacto de necessidade e de esquecimento, como se fossem testemunhas de um momento das nossas vidas ao qual não regressaremos. Mas enquanto aí permanecerem, presumimos tê-los juntado. Vi que muita gente coloca a data, o dia, o mês e o ano da leitura; traçam um discreto calendário. Outros escrevem o seu nome na primeira página, antes de os emprestarem, anotam numa agenda o destinatário e acrescentam-lhe a data. Vi volumes carimbados como os das bibliotecas públicas ou com um delicado cartão do proprietário no seu interior. Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio, o chapéu-de-chuva, do que o livro cujas páginas não mais leremos mas que conservam, na sonoridade do seu título, uma antiga e talvez perdida emoção.»
[Carlos María Domínguez, A Casa de Papel; trad. Henrique Tavares e Castro, ASA, (2.ª ed.) Maio 2010; ufff...]

Desviado daqui.

Pois!

[...desníveis e sustos...]
imagem:Luis Gonzalez Palma

a noite pede música



[...fico à espera desse "baile à moda antiga" meus amigos... :))))]

domingo, janeiro 9

Feliz aniversário!

[E brindamos, mais uma vez, à amizade! Aos 55 anos do meu muitíssimo querido Alfredo Mendes. Há caminhos assim: que se cruzam para sempre. Em boa hora!]

...o sol pela lareira...

[...trocar o sol pela lareira!
...a minha querida amiga chegou ao Porto... e deixou para trás o calor de Curitiba...]

Telegramas em vez de cartas

[...espero que tenhas encontrado menos neve em Londres!
dá-me (mais) notícias...]

Poema transitório


[...]
é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar...
Ah, como esta vida é urgente!
... no entanto
eu gostava era mesmo de partir...
e - até hoje – quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

Mario Quintana

porque sim

quinta-feira, janeiro 6

Glosa de "So we'll go no more a roving" de Byron


Não irei mais meu erro errando errante
Pela noite fora
Embora a lua brilhe tanto como outrora
Não cesse do amor a voz uivante
Que me devora

Pois o coração gasta o peito
E a espada gasta a bainha
O tempo rói o coração desfeito
E a alma é sozinha

Embora a noite sempre peça amor
E o dia volte demasiado cedo
E o luar corte como espada nua
Não irei mais em pânico e segredo
Sob a luz da lua



Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Completa, pag. 749, Caminho, 2010