quarta-feira, outubro 26

Uma dor no joelho


Há perguntas simples e difíceis a que não sei, se sei responder convenientemente ou, assertivamente, como diz a psicologia. A psicologia diz tão bem coisas que eu sei tão mal. Adiante.

Mas há uma pergunta em especial que me deixa angustiada desde pequena. E como ficava angustiada, mentia. A minha mãe perguntava

- Ainda te dói? E eu dizia. Não. Mas doía. Imenso. Talvez tenha sido assim que aprendi a suportar a dor. Fazia qualquer coisa para não ir ao médico. Ainda hoje. Menos. Mas a pergunta atravessou os tempos. E quando o Senhor Doutor me fixa e atira, solene

- E a dor? Como é a dor?

Cava-se um silêncio tamanho à minha volta, que não me sai nada. Explicar uma dor, é uma coisa tremenda. Dói-me sempre mais do que a dor. Sei que sofro de défice de objectividade. Nunca sei explicar cirurgicamente.

Expectante, o médico arremessa frases curtas, contra a minha incapacidade de balbuciar analogias. E eu, digo que sim ou que não, conforme. Quase sempre inconformada com as hipóteses que me dá. Até porque me distraem da minha dor.

- Assim, uma dor como se fosse uma lâmina?

E eu a pensar – sim - que eu não sou capaz de dizer nada, mas penso - uma lâmina de metal, uma lâmina de sílex? Lá fico eu enfiada entre minutos de pensamentos estapafúrdios que me ocorrem em ocasiões impróprias e sérias.

Enquanto não lhe respondo, o Senhor Doutor, vai falando: as pessoas têm maior ou menor capacidade para aguentar a dor. A dor é um sinal do corpo. Um alerta. Por ínfima que seja, devemos prestar-lhe atenção. Pode não ser nada. Mas também pode ser tudo. Há pessoas que não ligam aos sinais, ignoram-nos, não lhes dão a importância que de facto tem. Há pessoas que os minimizam. Fazem de conta que não sentem dor. Até que ela se vá embora. É uma estratégia como outra qualquer. Que resulta ou não.

E enquanto o médico fala a dor alivia. A tensão só regressa, quando insiste

- e a dor, explique-me?

E eu novamente sem saber o que me dói mais. Se o ombro, o braço, o pé, o estômago, o joelho – não interessa – ou se a alma. A pressentir sempre aquela terrível pergunta objectiva como um termómetro. A minha ficha de paciente à sua frente. Tenho sempre a tentação de lhe pedir para me deixar ler as suas notas. Para ver o que é que, ao longo dos anos, ele foi apontando sobre as minhas dores. Nunca o fiz.

Olha-me, mais uma vez. Pousa a caneta, coloca as mãos unidas em cima da secretária, levanta a mão para ajeitar os óculos sob o nariz e está iniciada a mini coreografia que antecede a sua insistência.

- E a dor, como é a dor? Ora, tente...

E eu incapaz, sequer, de dizer ai! Uma aflição imensa. Como se não houvessem palavras no mundo.

- E então? É como se fosse uma agulha a picar ligeiramente? Assim mais picadelas espaçadas ou...

De um só fôlego, tomada pelo desespero de todas as vezes que não lhe respondi:

é assim uma dor como se eu nunca tivesse feito um papagaio de papel; como se nunca tivesse beijado o sorriso mais quente e húmido da terra; como se nunca ninguém me tivesse contado uma história antes de dormir; como se me roubassem a minha única carta de amor; como se a vida inteira tivesse de dançar sozinha; é como não terminar um puzzle porque se perdeu a última peça; mais concretamente é como se não houvesse literatura. Nem discos, nem quadros, nem cores. É uma dor como se a minha vida fosse de giz e me apagassem. A memória.

É assim a minha dor no joelho, Senhor Doutor.

Imagem: Alex Gozblam

[bem sei que é no braço...LM, de qualquer forma, desta vez, é para  ti :)]

4 Comments:

TERESA SANTOS said...

Como compreendo este belo texto!

Como é que define uma dor? Como?

Dor fisíca?
E a outra, a tal que esmaga a alma?

E quando se fundem?!

E?...

Abraço, Marta.

Marta said...

abraço, Teresa :) obrigada!

deep said...

Um belo texto, sem dúvida, Marta.

Fica bem, sem dor, seja da alma ou de uma qualquer parte do corpo. :)

redonda said...

Que descrição mais incrível da dor!