sexta-feira, dezembro 31

a noite pede muitas músicas

Bom ano III


[...para todos!]

quinta-feira, dezembro 30

...previsões...


[...amanhã?
...na realidade, não quero saber!
....apenas me interessam previsões para daqui a 60 segundos...
...que tempo faz...AGORA...? cá dentro, lá fora...agora. ]

Bom ano! II

[...bom ano para todos aqueles que passam por aqui...]

José e Pilar - Trailer Oficial Portugal



[fui vê-lo ontem. e foi no momento certo.
não voltarei a olhar para o tempo com os mesmos olhos...]

Bom ano! I


[...saúde...e algumas viagens...no que me toca, não há assim muitas inovações... ]

quarta-feira, dezembro 29

a noite pede música

Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

porque sim



[faz frio. muito muito ... mas o jazz aquece...]

Sinais III











Aqui, aqui e aqui e ainda aqui e aqui, [sendo que este último é para trocar, pois já o tenho... e quase lido...]

Sinais II


Aqui.

Sinais I


[...sinais de que me portei muito bem em 2010 :)...digo eu...numa leitura pessoalíssima dos factos...]

Sabes que não sei estar contigo sem coração

Sabes que não sei estar contigo sem coração. Principalmente quando me encontras nas linhas imaginárias da tua mão, nos sons da tua nota azul ou em qualquer outro lugar sem fim.
E ontem não o tinha. Está por aí, num quinto da superfície da terra, no grande rio que a circundou. Foi assim, um dia, quando os gregos ditaram verdades ao mundo.
E nós sabemos, sabemos tão bem, meu amor, que verdade, verdade é apenas o que não [nos] aconteceu. De resto, aguardo o tempo. Esse tempo insofismável em que se fará o regresso ao Pacífico.

terça-feira, dezembro 28

Busca


Durante anos os procurei,
um amor, um lugar,
um sonho de casas eternas,
um cais de outrora quando se acendiam as
lâmpadas,
durante anos te procurei,
caminhante das estrelas solitárias, das
estrelas sem nome,
brilhando sobre as ilhas, sabe-se lá onde,
em que oceanos que levaste contigo,
no grande eclipse desta vida.

José Agostinho Baptista

sábado, dezembro 25

a noite pede música

sexta-feira, dezembro 24

Honrarei o Natal...


«Honrarei o Natal no meu coração e tentarei mantê-lo durante todo o ano»
Charles Dickens
[Feliz Natal estimados visitantes! Desculpem a minha ausência...]

quinta-feira, dezembro 23

Atravessei contigo a minuciosa tarde

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

José Tolentino Mendonça

fotografia: Sonja Valentina

quarta-feira, dezembro 22

...e o Outono foi embora...


Que fogo poderia igualar-se a um raio de sol num dia de inverno?
Henry Thoreau

a noite pede música

domingo, dezembro 19

Pilar, José e o Amor

Onde se prova que as pessoas podem ser felizes para sempre.
O estereótipo de há cinquenta anos rezava: «casaram e foram felizes para sempre». O estereótipo contemporâneo preconiza: «casamento, pantufas, aborrecimento». Um estereótipo não é melhor, nem mais inteligente, do que o outro – a ideia de que os casamentos estão condenados ao tédio só parece mais brilhante do que aquela que toma a felicidade como um dado adquirido porque o pessimismo dá sempre uns fumos de ilustração aos seus praticantes: quem futura em negativo passa facilmente por lustroso cérebro porque há sempre um desastre ao virar da esquina – e muito mais mirones para o desastre do que para a alegria. As relações nascem muitas vezes mortas por falta de fé – falta-nos amor por esse amor que é como uma espécie de terceira entidade gerada pela atracção entre dois seres, e que precisa de ser estimado como milagre concreto.

As pessoas casam-se trocando juras de amor já com os códigos do divórcio e das partilhas debaixo do braço. Ou casam-se ainda no mito da paixão inexpugnável, e depois deixam-se pasmar atarantadas diante dos cacos da paixão misturados com as peúgas de anteontem. Ou casam-se por interesse, isto é: escolhendo, como no supermercado, o pedaço de homem ou mulher que mais garantias dá de criar bem os filhos e de fazer uma boa dupla sócio-económica. Os casamentos «arranjados» desapareceram da civilização ocidental mas são frequentemente substituídos pelos casamentos de conveniência – versão ainda mais triste, porque sonsa, feita de faqueiros e fancaria, dos explícitos arranjos familiares e comerciais de outrora. Ganhámos medo do amor, e o medo amarfanha. A literatura lançou um estereótipo avassalador: o de que o amor só pode ser chamejante em estado de clandestinidade. A experiência das ditaduras, mais ou menos universal, criou um modelo infantil de relação: o do grupo de resistentes bonzinhos que agem pela calada contra a sociedade dos maus. É dessa matéria que são feitos os livros da Enid Blyton e os sonhos da adolescência. A associação absoluta entre o prazer e a clandestinidade mata as alegrias da vida adulta.

O belíssimo filme de Miguel Gonçalves Mendes, «José e Pilar», demonstra que as coisas não têm de ser assim: o amor pode ser público e oficial ( é difícil imaginar uma relação mais pública e oficial do que esta, assumida em duas cerimónias de casamento) e permanecer íntimo, faiscante, vivo. A história do início da relação entre Pilar e José é apenas aflorada por José, para esclarecer que Pilar nunca, ao contrário do que se disse, o entrevistou: telefonou-lhe dizendo que era jornalista, leitora e admiradora sua, e que queria conhecê-lo. José acrescenta que mal a viu chegar percebeu que aquilo era sério. Este abalo imediato e definitivo está descrito de um modo sublime no romance «História do Cerco de Lisboa» – mas isso já não consta do filme. Porque a singularidade deste filme está em começar anos depois do beijo fulgurante que sinaliza a união do par, para nos dar a ver exactamente isso em que nos custa tanto a acreditar: a vida que um amor pode ter, mais de vinte anos depois de ter começado. Pilar e José são duas personalidades fortíssimas, contrastantes, muitas vezes discordantes. A cena em que discutem por causa de Hillary Clinton ( que Pilar defende e José ataca) é exemplar quanto à vivacidade de cada um deles – e desse amor, que não só resiste a todas as discussões como parece alimentar-se delas. A química intensa que se desenha no ar sempre que eles estão juntos – um olhar, uma carícia, um abraço, o corpo de um procurando continuamente o corpo do outro – constitui a pedra de toque deste documentário, de uma imensa delicadeza. «Pilar e José» não é sobre a vida de uma vedeta da literatura ( embora a contenha, inevitavelmente) – é sobre a relação de amor entre duas pessoas particularmente expostas.

José dirá, a dado momento, que se pudesse voltar a viver a sua vida, repeti-la-ia toda, exactamente como foi. Parece estranha, esta afirmação, por parte do mesmo homem que diz: «Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer a Pilar, morreria muito mais velho do que aquilo que sou». Na dedicatória das suas memórias de infância ( « As Pequenas Memórias»), José escreveu: «A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar». Então, porque não diz José que, numa segunda vida, preferiria conhecer Pilar vinte anos mais cedo? Provavelmente, porque vinte anos antes não saberiam fazer durar o amor. Aprende-se a amar

(como a correr ou a desenhar) caindo, falhando, errando muitas e muitas vezes. Até ao momento em que ficamos prontos para ser felizes para sempre. Há é pouca gente para dar por isso.

Inês Pedrosa

[crónica publicada no Expresso]
imagem: Rui Duarte Silva

sábado, dezembro 18

o rio e o coração, o que os une?

Como ele sempre dissera:o rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida.
Mia Couto in A chuva Pasmada

imagem: Ansel Easton Adams

a noite pede música

Be thankful...

[...muito, muito, muito...]

O meu tempo...

[ ...voa! e o vosso, faz o quê?
...desculpem a ausência... trabalho, trabalho, trabalho...]

quinta-feira, dezembro 16

a noite pede música

Impulso de ternura

Quando ela nasceu eu tinha oito anos. Mudei-lhe a fralda, dei-lhe papa, contei-lhe histórias...enterneci-me, inúmeras vezes, a olhar para ela e enterneço-me ainda hoje. Por isso, não resisto a este impulso... de vos mostrar...a minha mana :)

Ser só abertura para amanhã


[...] Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio, do que vivê-la no imediato, na execução absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser só abertura para amanhã.[...]
Vergílio Ferreira in Aparição

um café como pretexto

[...e que bem me sabe. sempre...]

Morreu Carlos Pinto Coelho



Fiquei triste. Muito. Morreu Carlos Pinto Coelho

quarta-feira, dezembro 15

Uma árvore de Natal diferente

Árvore de Natal onde Homens e Mulheres são as Estrelas.
Avenida dos Aliados - Porto. Entre 15 de Dezembro e 7 de Janeiro. Uma iniciativa Espaço T.

porque sim



[amanhã, às 22 horas, no cinema Passos Manuel, no Porto]

«SINOPSE:
Era uma vez uma casa no meio do mar, onde uma mulher esperava enquanto tocava um melancólico violoncelo. Aguardava o seu amado, um pintor que sempre quis ser marinheiro para que pudesse navegar entre as medusas, as estrelas do mar e os peixes de mil cores que sonhava nos seus quadros. A sua fascinação levou-o a entrar numa viagem para descobrir a emocionante beleza e os mistérios das profundidades, mas isso significava que nenhum deles sabia se algum dia se encontrariam outra vez.»

O presépio da nossa imaginação


[...] Os Evangelhos sinópticos não possuem a maior parte das coisas que esperamos encontrar, hoje, na história de vida de alguém. O aspecto, a personalidade, o carácter - sabemos pouquíssimo acerca disso. No que diz respeito a outras figuras que rodeiam Jesus, estamos completamente às escuras. A Pilatos, curiosamente, Mateus e João atribuem alguns traços de personalidade e de carácter, mas a maioria de outras figuras são muito insípidas. Ficamos a saber que Pedro era um pouco insonso. Como era João? E Tiago? Não sabemos. E os fariseus? Aparecem em grupo, insultam Jesus, por vezes, são insultados e voltam a desaparecer. O que pretendiam? Tinham todos a mesma posição hostil em relação a Jesus? Para onde foram quando desapareceram? Se pensavam que os discípulos de Jesus estavam a violar a lei do sábado (Mc 2, 24), porque não apresentaram uma queixa, denunciando-os a um sacerdote (que os poderia ter multado, exigindo que cada um deles apresentasse um sacrifício expiatório - duas aves - quando voltasse a Jerusalém)?

Muitos dos leitores actuais nem sequer se apercebem de como os Evangelhos sinópticos são episódicos, já que os cristãos tiveram quase 2000 anos para criar uma visão mais novelesca dos acontecimentos e das pessoas que aparecem neles. Escreveram-se livros, fizeram-se filmes, ofereceram-se explicações. Aos domingos há muitos padres, pastores e catequistas que voltam a contar algum aspecto do relato evangélico, acrescentando-lhe personalidade e motivos. Judas, o discípulo que traiu Jesus, é descrito frequentemente como um zelota desiludido, que desejava ver Judas na liderança de uma revolução, que se via a si próprio como um grande homem no Reino de Jesus e que ficou profundamente irado quando percebeu que Jesus queria outro tipo de reino*. Isto dá cor e drama à história. Os Evangelhos não dizem absolutamente nada sobre a ambição de Judas. Talvez ele se tenha apercebido de que Jesus era um homem marcado e tenha decidido afastar-se enquanto era tempo, ganhando também alguma coisa. Uma suposição é tão boa como a outra. Maria Madalena também é uma figura imensamente atraente para as pessoas, que imaginaram todo o tipo de coisas sobre ela: ela teria sido uma prostituta, muito bonita, apaixonada por Jesus, e que fugiu para França à espera de um filho dele. Tanto quanto sabemos, a partir das nossas fontes, ela tinha oitenta e seis anos, não tinha filhos e cultivava instintos maternos para com jovens desalinhados.

Os cristãos começaram desde muito cedo a melhorar os relatos simples dos Evangelhos inventando histórias. Os Evangelhos apócrifos estão cheios de incidentes românticos e de toques encantadores, como, por exemplo, aquele que diz que, no estábulo onde nasceu Jesus, havia um boi e um burro, adorando-o. Isto encontra-se num Evangelho escrito no século VIII ou IX, conhecido actualmente como o Evangelho de Pseudo-Mateus. O autor tinha estudado o Evangelho de Mateus e escreveu no mesmo estilo. Como prova para a autenticidade do seu relato, cita a escritura Judaica, quando, na realidade, a sua informação tem origem na citação, tal como acontece com Mateus: «O boi conhece o seu dono, e o jumento, o estábulo do seu senhor...» (Is 1,3). A arte e a música utilizaram esta imagem viva, que é, provavelmente, tão conhecida como as histórias sobre Jesus que se encontram, de facto, no Novo Testamento. A única justificação para introduzir um boi e um burro na cena do nascimento é proporcionada por este evangelho, cujo autor descobriu uma frase em Isaías que ainda não tinha sido usada para fornecer informações sobre Jesus.

Tanta fantasia romântica foi desperdiçada nos Evangelhos durante tantos séculos que o leitor actual nem sequer se apercebe imediatamente da sua força. Acrescentamos automaticamente pormenores românticos, muitos dos quais são conhecidos até das pessoas que nunca entraram numa igreja, nem leram a Bíblia. À excepção das narrativas do nascimento em Mateus e Lucas, que já estão penetradas pelo interesse novelístico, não encontramos muito mais no resto dos evangelhos. As cenas são breves e centradas no essencial. Isto significa, provavelmente, que foram concebidas precisamente para transmitir o que pretendiam, tendo deixado de lado outras questões. É por isso que não podemos escrever uma biografia de Jesus. Não temos cartas nas quais ele reflicta sobre acontecimentos e apresente a sua própria versão a um amigo próximo ou a um familiar;não temos diários escritos por pessoas que o tivessem conhecido ou, sequer, ouvido falar nele; não temos jornais que nos digam o que se passava em Cafarnaum no ano 29 e.c. Dispomos de um esboço genérico da sua vida e, além disso de breves histórias, ditos e parábolas, a partir das quais podemos ficar a saber bastante, mas não podemos escrever «a vida de Jesus», no sentido moderno do termo; não podemos descrever a educação de Jesus, traçar o seu percurso, analisar a influência dos seus pais sobre ele,apresentar as suas reacções a determinados acontecimentos, etc.

Por isso, um livro sobre Jesus não pode ser muito semelhante a um livro sobre Jefferson ou Churchill (para regressar aos nossos primeiros exemplos). A nossa informação também é deficiente em comparação com o material disponível sobre a maior parte dos grandes homens do mundo greco-romano. Homens como Brutus, César, Pompeu, António e outros, eram provenientes de famílias conhecidas, passaram uma grande parte das suas vidas em público e rodearam-se de pessoas instruídas, que escreveram, por vezes, sobre eles ou sobre os acontecimentos nos quais participaram. Plutarco, o biógrafo dos ricos e famosos daquele tempo, em alguns casos, podia fazer algo muito parecido com uma biografia no sentido actual do termo, embora nem sempre tivesse essa possibilidade. [...] Sou académico, um investigador e um historiador profissional por tendência e formação. Farei tudo para preencher as lacunas e transformar as peças de que dispomos num todo coerente. Este trabalho (o leitor já deve ter reparado) assemelha-se a uma cirurgia de reconstrução: é necessário partir antes de reconstruir. No entanto, ao contrário do cirurgião, eu não tenho nenhuma imagem inicial sobre o nosso objecto na sua aparência original. Nem tenho uma ideia exacta de qual deveria ser o seu aspecto depois da operação. Começo com os resultados das intervenções da cirurgia plástica que visavam a glorificação do objecto e que nem sempre respeitaram a colocação e o significado originais dos vários pedaços. O meu objectivo é recuperar o Jesus histórico. Mas as dificuldades significarão sempre que os resultados, na melhor das hipóteses, serão parciais. O título adequado para este projecto seria: «Informações básicas sobre Jesus: aspectos importantes do que ele fez, do que ele pensou e daquilo que os outros pensaram sobre ele». [...]

E. P. Sanders, in A Verdadeira História de Jesus, pags. 104/7, Editorial Notícias, 2004
[Eu gosto de História e gosto muito da história das religiões. Li, entre outros, Mircea Eliade quando tinha, em boa hora, de estudar para Antropologia da Religião. E, ainda agora, mesmo sem ter de estudar gosto de o ler. Muito. Em 2004 li, fascinada, numas férias, este, do Sanders. A minha ignorância, ficou atenuada e, a minha fé, mais esclarecida. Mas claro, conhecer é um risco, pode provocar desilusões, arruinar imaginários. E, de certa forma, foi o que aconteceu com o presépio da minha imaginação...a esta passagem que transcrevi... estas peças, da imagem, são da autoria de Francesco Pinton, escultor italiano]

terça-feira, dezembro 14

a noite pede música

Eu vou


Finais de Janeiro de 1994
eu vou.
Este eu vou é como o cabeçalho de uma carta.

Eu vou,
o meu mundo «moderno» é perturbante. Só no fim do texto eu o deveria dizer, mas o fim do texto é imprevisível - estaca subitamente. Fica dito.
Levantei-me, pois, com dificuldade, sentindo na mão uma renda, mas pesada como uma salva de prata; choveu torrencialmente durante a noite, ventou, estou ao pé da letra, mergulhada dentro da água com imagens que passam rapidamente - releio Causa Amante, e admiro.me com a sua perenidade, estou-lhe grata por me ter tirado da cama, me acompanhar no banho e ter um som que me leva para outro lugar. Parece-me que Herbais está agora em toda a parte da casa, e que um poço profundo habita Sintra. Trago meias curtas muitas vezes, este inverno. Mal cobrem os tornozelos. É sendo criança nos pés que entro no meu mundo «moderno».

O território desta casa, hoje, dia de chuva,
estremece

como uma chávena nas mãos de Deus. Apesar de frágil, acho-o belo. Faz parte da minha sobrevivência actual, é o caderno guardado onde escrevo os meus pensamentos antes de ir à vida da rua, fazer as comparas do dia, tomar um café de máquina
e ouvir
outro cliente

dizer que é sensual e sublime. Ele refere-se à música e o que diz faz parte de um diálogo que se joga para cá e para lá do balcão - a propósito de um nome, o de quem serve - , e para quem eu olho com certa surpresa por deparar com um rosto de mulher que dá parte de inocente.

«Tudo isto se passa à maneira de Verlaine», segreda-me a árvore genealógica da minha sensibilidade e sabores. Não é que eu oiça, entretida a saborear o meu café; é o que me segreda o passo cadenciado da parelha de cavalos que estaca, abrupta, em frente do «bistrot». Dizem-me ainda, cobrindo o diálogo de sedução que se passa ao lado, ao ritmo da música, ao ritmo da música de Elvis « as metáforas dos cavalos sobre o texto não são metáforas. Não é o texto que estaca como nós - tudo estaca subitamente.» Tudo o que há pára de súbito. E, constantemente, recomeça.

Eu vou.

Eu vou pensar a minha vida do exterior. [...]

Maria Gabriela Llansol in Inquérito às Quatro Confidências, pag. 1, Relógio D´Água

segunda-feira, dezembro 13

...tentando conhecer...

[passados 7 anos de ter começado a ler Maria Gabriella Llansol, conheci-a e falei com ela. Foi uma tarde inesquecível. e esta é uma das dedicatórias mais lindas que tenho num dos seus livros. porque foi verdade. nesse «dia de um de Março, dia em que nos emocionamos, tentando conhecer»]

Há duas horas que fugia ao sol...


«Há duas horas que fugia ao sol, pela estrada calva de caniços, de árvores, de pássaros e de borboletas. Apenas via moscas que pareciam imobilizadas em frente do seu nariz pela gelatina do calor e a lastimosa tira alcatroada a fluir no horizonte, a grande distância do início e a grande distância do fim. Atormentava-o a comichão nos pés descalços, produzida por uma amálgama de poeira e de suor sobre o eczema ténue. Raspava-os no solo mas o atrito tornava o calor insuportável e sentia os pés, como as costas, chapeados de lume. Olhou em redor à procura de sombra, ainda que curta e linear, para ao menos beber a sua água. Adiante, no cotovelo fincado na estrada, uma pedra alta esvaziara-se num nicho pouco profundo e Simão introduzira-se na concavidade, raso de luz. Sentou-se em breve, com as pernas abertas e as mãos a agarrarem cada pé, numa inquietude sonolenta de Buda. Via a tarde poluir-se, concentrada num sol espesso (engrossado pelos raios de luz que a ele se haviam recolhido) e com limites.»
(…)
Os pregos na erva, Maria Gabriela Llansol (Ed. Rolim)


[desviado daqui.
este foi o livro que que me abriu portas à escrita de Maria Gabriela Llansol]

domingo, dezembro 12

Prece


Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
...Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner Andresen

a noite pede música

Portugal hipoglicémico

[Só nos faltava essa...em crise e amargos! Há qualquer coisa estranha aqui. Ainda bem que é pontual...............um Portugal hipoglicémico, com tonturas, a entrar em estado de coma.... e a precisar de aumentar a produtividade... não dava jeito nenhum... digo eu....]

A 3ª melhor do mundo

A Livraria Lello acaba de ganhar mais um título: a 3ª melhor do mundo! Para mim, claro, é a primeira, ou não fosse dos locais que mais prazer me dá visitar na minha cidade.
Uma visita rápida, aqui.

imagem: Koen DP

porque sim

Mais uma lista de pensamentos


Como sabem, quando estou nervosa, faço listas. Pois bem! Estou nervosa. Ando a mil e, depois, o Natal a chegar. E eu com mil coisas para fazer antes que ele chegue. Pessoais e profissionais. "Não se pode adiar o Natal?", perguntou-me o meu mano, há dias, ao telefone? Não. Nem o Natal, nem o coração, como diz - tão bem - António Ramos Rosa. Cá vai a minha lista de pensamentos, para ver se me acalmo :) Como se a fizesse num dos meus caderninhos de capa preta, sem nenhuma ordem lógica:

  • A minha querida Patrícia faz anos hoje, está longe e feliz e eu imagino-a com aquele sorriso imensamente autêntico do tamanho do seu coração e do seu dom. Parabéns!

  • Fui às compras com a minha irmã e com a minha mãe. Comprei os presentes para os meus sobrinhos lindos. Acho que eles vão adorar :)

  • Assim, a olho nu, entra-se num shopping e não se percebe onde anda a crise...mas, por outro lado, já há imensas promoções...Eu já não entrava numa catedral do consumo há quase dois meses. Prefiro o comércio tradicional, a baixa, as ruas, um céu de verdade. Nuvens ou azul ou sol ou chuva. Prefiro.

  • Este ano, pela primeira vez, passarei o Natal sem a Kika e o Migas. Está a custar-me tanto tanto tanto pensar nisso a sério.

  • «Defensor de que o atraso na educação foi o que mais penalizou Portugal, o primeiro-ministro, José Sócrates, disse hoje ficar "chocado" com as críticas ao facilitismo do programa Novas Oportunidades...». Já ouvi dizer o melhor deste programa e o pior também. Por pessoas que estão no terreno. E o facilitismo e o desfasamento da realidade, são exactamente as críticas que mais ouvi.

  • Preciso de uma excelente fotografia de um mapa da Europa e não imagino onde a vou arranjar para ontem.

  • Ter imensas saudades de quem nunca se viu é absolutamente possível. Sei-o bem, agora.

  • O meu escritório está do avesso. Nunca está muito arrumado, mas desta vez exagerei.

  • Estive ao telefone com a Leonor durante duas horas. Passou num ápice. É certo que já não falávamos há quase três meses. Mas a conversa retoma sempre no ponto onde ficou :)

  • Dizem-me que as viagens Porto-Faro, estão a 6 euros na Ryanair...a ser assim, vou :)

  • Há um chá de Natal com pedacinhos de fruta, canela e segredos que tenho de comprar, como todos os anos por esta altura.

  • Recebi com meses de atraso [o que me agrada sempre :)] um presente de aniversário: As Avis - Grandes Rainhas que Partilharam o Trono de Portugal na Segunda Dinastia. Adorei!

  • Eu devo ter mesmo cara de farol?, bússola?, sei lá! A orientação de estágios é-me sempre pedida a mim!E só Deus sabe o quanto, no momento, sou eu a precisar de orientação.

  • Dia 14, às 21.30, tenho o convite para um concerto: Jean Sibelius e Johann Strauss, pela Orquestra do Norte. Gostava mesmo muito muito de conseguir ir...

  • A minha Graça vem de Londres passar o Natal :) e a minha Zaclis, do Brasil, passar o ano :)

  • O Terráqueo diz que acredita que «os amores são possíveis, e que os grandes amores ficam juntos. Quando eles não ficam, é porque o amor não era tão forte assim. Era no máximo uma paixão». E o Paulinho Moska confirma...

  • «Dois palestinianos foram hoje mortos por militares israelitas quando tentavam entrar em Israel por Gaza, informou o exército de Israel.» Uma coisa é ler jornais, outra é passar fronteiras. Estive lá. E o mundo pareceu-me mesmo mesmo um absurdo...

sábado, dezembro 11

Precisa-se


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.

P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.


Clarice Lispector

a noite pede música

sexta-feira, dezembro 10

Uma corola

Em algum lugar
...
esplende uma corola
de cor vermelho-queimado

metálica

não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou da janela

não cheira
não atrai abelhas
não murchará

apenas fulge

em parte alguma

da vida

Ferreira Gullar

O escritor de notas à margem


[...] Ler bem é entrar numa reciprocidade de resposta com o livro que está a ser lido; é participar numa permuta total («perfeito para o comércio», diz Geoffrey Hill). A dupla condensação da luz na página e na face do leitor representa a percepção de Chardin do facto fundamental: ler bem é sermos lidos por aquilo que lemos. A palavra obsoleta responsion, que significa, como ainda acontece em Oxford, o processo de interrogatório e resposta dos exames, pode ser usada para resumir as várias e complicadas fases de leitura activa que estão intimamente associadas à pena.

A pena é usada para escrever notas à margem. As notas à margem são os sinais imediatos da resposta do leitor ao texto, do diálogo entre ele e o livro. São os transmissores activos da corrente de linguagem interior - laudatória, irónica, negativa, aumentativa - que acompanha o processo de leitura. As notas à margem podem, em extensão e densidade de organização,competir com o próprio texto, enchendo por completo, não apenas a margem em si, mas também o topo e o fundo da página e os espaços interlineares. Nas nossas grandes bibliotecas há contrabibliotecas constituídas pelas notas à margem e notas à margem de outras notas à margem, que gerações sucessivas de verdadeiros leitores estenografaram, codificaram, garatujaram ou escreveram com elaborados floreados ao lado,em cima, em baixo e entre as horizontais do texto impresso. Muitas vezes, as notas à margem são os pontos de articulação de uma doutrina estética e de uma história intelectual (vejam-se as notas de Racine na sua cópia de Eurípedes). Na realidade, elas podem representar um acto importante de autoria, como sucede com as notas à margem de Coleridge, que serão publicadas brevemente.

Também podem aparecer anotações na margem, mas são de natureza diferente. As notas à margem pretendem estabelecer um discurso impulsivo, talvez mesmo de protesto, ou uma controvérsia com o texto. As anotações, muitas vezes numeradas,tenderão para ser de carácter mais formal e cooperante. Serão feitas, sempre que possível, ao fundo da página. Esclarecerão um ou outro ponto do texto; citarão fontes análogas ou subsequentes. O escritor de notas à margem é, de modo incipiente, o rival do texto; o anotador é o seu serviçal.

Esse serviço encontra a sua expressão mais exacta e necessária no uso da pena do leitor para corrigir e emendar. Aquele que passa por cima de erros de impressão sem os corrigir não é meramente um filisteu: é um perjuro do espírito e do sentido. Pode muito bem ser que numa cultura laica a melhor maneira de definir uma condição de graça seja dizendo que é aquela em que não se deixam por corrigir nem os erros literais nem os substanciais nos textos que se lêem e se transmitem aos vindouros. Se Deus, como Aby Warburg afirmou, «está no pormenor», a honestidade está na correcção dos erros de impressão. A emenda, a reconstituição epigráfica, prosódica ou estilística de um texto válido, em vez de um texto espúrio, é uma arte infinitamente mais esforçada. [...]

George Steiner in Paixão Intacta, pag. 20/21, Relógio D´Água, 1996

:) :) :) :)


[desviado da Deriva Editores]

a noite pede música

..............................................................................

[imagem: Helena Almeida]

Traço comum

descalço-me de sombras para chegar a ti
as linhas do meu rosto são claríssimas
nelas não vês o velho, a criança, o adulto
vês apenas o traço comum
que é onde eu procuro a tua mão
na transparência da minha palavra inteira
Vasco Gato

imagem: Helena Almeida

quinta-feira, dezembro 9

O homem que tinha dois corações II



[ pela segunda vez , lembram-se?]

O homem que tinha dois corações


Era um homem que a natureza dotara com dois corações. Ou seja, em cujo peito pulsavam dois corações. Ou seja, que viera a este mundo com dois desses maravilhosos órgãos. Tudo muito bem.
Certo dia, porém, um dos corações parou. Nada de grave, uma vez que o homem dispunha ainda do segundo. O problema é que a história não é assim tão simples. Esqueci-me de referir* que os dois corações dedicavam um ao outro uma paixão antiga, profunda e avassaladora. Como se costuma dizer, no coração daqueles corações ardia a chama do mais puro amor. Assim, quando o primeiro parou, o segundo derreteu-se em lágrimas e deixou de bater por causa do desgosto.
Concluindo, o homem não resistiu e morreu. Seja como for, a morte não resultou destes sobressaltos cardíacos, digamos assim. O homem faleceu na Arcádia em virtude de uma mordedura de serpente. E agora que está morto, a vida também não lhe tem sido fácil.


* Não é verdade. Estava assaz ansioso por escrever isto. Mas procuro ser um narrador competente e, por isso, esperei pela altura certa para fazer esta significativa revelação.
Rui Manuel Amaral, in Doutor Avalanche, Angelus Novus, Setembro de 201º, pp. 101-102.

[desviado, na íntegra, deste blog que gosto muitíssimo de ler]

...trago-te assim...

[...e trago-te, assim, na ponta dos dedos, rente ao coração, como se fosses um barco de papel ou uma história inventada...]

quarta-feira, dezembro 8

a noite pede música



[Edu, roubei -aqui - para ti :) porque é lindo lindo. a tua cara]

terça-feira, dezembro 7

O sorriso da Nina


Se eu conseguisse traduzir os silêncios que me habitam seria mais feliz. Pelo simples facto de não haver equívocos no dizer o que sinto. Ou melhor, no revelar o que não sei dizer, mas sinto. Às vezes, fico muito quieta e distante a parecer que não estou ali, onde estou. E é verdade, não estou. Se estou sozinha, não faz mal nenhum. Porque mesmo conhecendo-me pouco, sei que é inócuo. Se estou acompanhada, recomendo que me segurem na mão, como a um fio de um balão que, no momento, não queremos que voe. A diferença, é que eu voo para dentro e, cá dentro, há mais do que um céu.
Se eu conseguisse traduzir os silêncios que me habitam, o sorriso da Nina seria das primeira traduções a fazer. Não sei se o sorriso, se a serenidade. Ou a sabedoria que está em ambos. É muito difícil separar. Às vezes estou quieta e o sorriso da Nina chega-me muito lento, de muito longe, muito bom. E, depois, por uma ordem sempre diferente, traz uma lareira e um quebra-nozes; uma toalha branca, de renda, chávenas de lacinho cor-de-rosa e bolo das rosas. Outras vezes, traz um telefonema, a perguntar como me correu o exame; ou a perguntar por um livro; ou a perguntar como estou. Outras vezes, traz uma banca branca de mármore, especiarias, receitas manuscritas, barcos do Gerês. E, ainda, os sinos da pequena capela, mimosas e pêssegos do mercado pequenino que já não existe. O sorriso da Nina levanta paredes altas e brancas onde a vida se escreve com determinação. E coragem. Alonga ruas estreitas, com histórias que jamais esquecerei e que jamais chegarão ao fim. Sei-o agora.
Bem sei que é só um sorriso. Mas é como uma baía, protege naturalmente. Uma espécie de reentrância na geologia dos afectos. E podemos ficar ali, atracados, à espera que a tempestade passe. E, no entanto, é só um sorriso, bem sei. Só que é o sorriso da Nina.
Outras vezes, o sorriso da Nina traz-me outros sorrisos e outras mãos e bordados de ponto de cruz. Traz-me o São Gonçalo, sempre depois dos Reis, e o olhar mais terno dos meus 20 anos. Traz-me – sempre – uma plateia, um palco e a voz da Maria do Céu Guerra. Uma tela, branca, de cinema e papeis coloridos de Natal. Amor filial em estado puro; um saber viver exemplar.
Não sei se algum dia conseguirei traduzir o sorriso da Nina em caracteres, mesmo que numa versão livre dos meus silêncios. Agora, importa que o tenho. É meu para sempre.

[para a Nina com amor e admiração, no dia dos seus extraordinários 76 anos. marta]

segunda-feira, dezembro 6

a noite pede música



[...tinha outra em mente...mas depois vi esta, aqui, e também me soube a Natal...]

Introdução à Saudade

[...] A palavra saudade é porventura o mais doce, expressivo e delicado termo da nossa língua. A ideia, ou sentimento por ela reportado, certo que em todos os países o sentem; mas que haja vocábulo especial para o designar, não o sei de nenhuma outra linguagem senão da portuguesa...

...De saudade quisera eu dizer ainda alguma cousa. - Saudade, palavra, cuido que vem, por derivação oblíqua, do latino solitudo.[...]
Almeida Garret: «Camões», Paris, 1825

[...] E pois parece, que lhes toca mais aos Portugueses, que a outra nação do mundo, o dar-lhes conta desta generosa paixão, a quem somente nós sabemos o nome, chamando-lhe: Saudade; quero eu agora tomar sobre mim esta notícia.

Floresce entre os Portugueses a Saudade, por duas causas, mais certas em nós, que em outra gente do mundo; porque de ambas essas causas, tem seu princípio. Amor e ausência, são os pais da saudade; e como nosso natural, é entre as mais nações, conhecido por amoroso, e nossas dilatadas viagens, ocasionaram as maiores ausências, de aí vem, que donde se acha muito amor, e ausência larga, as saudades sejam mais certas, e esta foi sem falta a razão, porque entre nós habitassem, como em seu natural centro. Mas porque tenho por certo, que fui eu o primeiro neste reparo, parece que não será repreensível, que me detenha algum tempo, por fazer anatomia em um afecto; o qual ainda que padecido de todos, não temos todavia averiguado, se compete às injúrias, ou aos benefícios, que do amor recebem os humanos: ou se sem amor, também, se podem experimentar saudades. [...]
D. Francisco Manuel de Mello: Epanáforas de Vária História Portuguesa, Lisboa, 1676
in Introdução à Saudade, Dalila Pereira da Costa e Pinharanda Gomes, Lello & Irmão,1976

um dia muito especial

[e amanhã...aniversário do meu Tom ;) junto com o da minha Nina e o da minha Edu :) tenho mil razões para terminar a minha declaração de amor aos Sagitários...]

Um dia de chuva...

Se ao menos fosse o fundo dos teus olhos

Se ao menos fosse o fundo dos teus olhos, o lado de dentro das tuas mãos,
a respiração suspensa dos teus lábios. Mas não.
É um abstrato fogo quieto, lento e macio.
Um lastro de navio a romper o mar. É quase o teu peito aberto nos meus dedos.
Um desejo à espera de um nome. Uma vela desfraldada no meu ventre.
Uma ciranda de longe, à tua espera. Berlindes coloridos soltos na chuva.
Uma tempestade de silêncio. Um swing que teima em arder.

imagem: NJC Photography

domingo, dezembro 5

a noite pede música

O idiota é geralmente competente...

O idiota é geralmente competente, moralmente irrepreensível e socialmente necessário. Faz o que tem a fazer sem dúvidas ou hesitações, respeita as hierarquias, toma sempre o partido do bem e acredita religiosamente nas grandes ficções sociais.
O idiota é todo liberdades.
A idiotia também faz bem às artes, principalmente às audiovisuais. A concentração do idiota numa ideia fixa, torna-o especialmente receptivo às músicas de ritmo simples e batida forte, o que facilita extraordinariamente o comércio discográfico, com todas as vantagens que daí advêm para producers e performers, enfim, para o tecido social. No que diz respeito às artes plásticas, tudo é mais fecundo se não houver interferências entre os olhos e as mãos. As ideias perturbam, turvam o olhar, atrapalham o gesto e, nos casos de ideologite aguda, daltonizam as cores. Sem imagens, uma cabeça vazia endoidece.
O idiota puro é o idiota jovem. Com o tempo, torna-se cínico, adquire hábitos esquisitos, sempre à procura do que lhe serve ou lhe rende, em busca de técnicas para obter sucesso e se sentir bem, sereno, de boa saúde e belo aspecto: cristianismo, ioga, dieta macrobiótica, drogas, parapsicologia, psicanálise, etc.
Entre os idiotas, também começa a manifestar-se, se bem que de modo caricatural, algo que recorda o hedonismo e o utilitarismo da aristocracia de outrora: o gosto de ser servido, de se distinguir do "vulgar". Como única crítica a filmes, espectáculos, livros, etc., é frequente ouvi-los dizer: "Mas que mau gosto!"
Os idiotas andam sempre juntos: consomem os mesmos produtos, frequentam os mesmos locais, lêem os mesmos livros e jornais, e têm uma habilidade notável para descobrir e evitar quem não é idiota. Graças a Deus! A política, porém, unifica o conjunto da sociedade sob o signo da idiotia: pessoas estimáveis, notáveis até nos diversos domínios do saber e da cultura, quando chegam à política tornam-se idiotas. Triunfam, quer-se dizer. Tornaram-se, enfim, públicas.»
Ernesto Sampaio

[roubadíssimo, sem ponta de arrependimento de O Cheiro dos Livros]

há...

[há palavras, gestos, olhares, chuvas, folhas, nuvens, silêncios, sombras, sorrisos, domingos... que passam muito devagar]

...noites iluminadas de saudade...


É esta a minha pobreza: nunca a minha mão descansar de dar; é esta a minha inveja: ver olhos à espera e as noites iluminadas de saudade. [...] Quem sempre dá, corre o risco de perder o pudor; quem sempre reparte, as mãos e o coração lhe criam calos de tanto repartir.

F. Nietzche, Poemas, Centelha, Coimbra, 1981

sábado, dezembro 4

a noite pede música

...um nome a acenar-me a acenar-me...

Há pouco, ao transcrever aquela frase do Hemingway, lembrei-me de mim a tropeçar no meu nome quando, depois de ter sido desligado do soro, me passeava no corredor como numa galeria sem história. Evadido do quarto e dos dois vultos de gaiola que saltitavam palavras mudas um para o outro como se fossem sopros de fumo, deslizava por entre portas e paredes duma brancura macia.

Andava por ali, transposto para qualquer Alguém de mim num território satélite sem vida. Ainda que árida, a atmosfera era leve e luminosa e eu transitava pelas pessoas como um longo olhar sem rumo. Um animal a planar dentro de uma redoma de vidro, é como me imagino naquela altura.

Nesse período, já o disse, as palavras que me chegavam vinham cegas. Sombras não havia nem podia haver numa claridade tão absorvente (só hoje

enquanto escrevo

é que me dou conta disso) não havia sombras não podia haver a não ser a do Outro que andava por lá o Outro que afinal não era mais que uma sombra saída de algures de mim e a deslocar-se por si só não se sabe em que direcção nem com que objectivo

uma sombra branca corrida no branco

como foi que desse apagamento consegui reter alguma luzinha a brilhar até agora é coisa que ainda estou para entender mas retive retive mesmo? retive -

- melhor assim.

Verdade, melhor assim.

Paredes mansas, as tais paredes em alvura - pérola; por entre elas, os sons, as figuras e o tempo, tudo num deslizar suave, sem densidade. Eu, em pessoa de coisíssima nenhuma, cumpria as tardes de hospital num vaguear inocente. Mesmo assim, aconteceu saltar-me ao caminho o meu nome. Saltou-me poucas vezes, é certo, três ou quatro se tanto mas era um nome que andava a monte repetido e desfigurado nos ficheiros da terapia da fala

um nome a acenar-me a acenar-me

José José José

numa espécie de provocação à distância José que nome tão feio considerava eu.

«Feio». No vocabulário das trevas brancas o meu qualificativo-chave era esse e provavelmente só utilizado na refutação dos nomes das pessoas. Estava longe de adivinhar que ao voltar um dia à comunidade dos vivos, iria ouvir o mesmo comentário da boca dum herói de Wim Wenders no filme Lisbon Story. O mesmo, sem tirar nem pôr. Com o mesmo sujeito e com a mesma frase, até. Viajante exótico no exótico duma cidade de que desconhecia em absoluto a língua, o passado e o presente (como me acontecera a mim no enquadramento para onde a doença me tinha atirado) o personagem de Wenders pretendia descobrir uma cidade de gente através de sons desabonados de quaisquer referências culturais (sons ausentes da memória, diria eu).

Uma sofisticação ociosa, essa de se querer reduzir a comunicação entre humanos a uma essencialidade tão artificiosamente concebida. Seria, mas Wenders tentou. Deve ter ficado tão encantado com a ideia que não perdeu tempo em enviar um viajante de microfone em punho à cidade de Ulissipo para a descobrir em metáfora num amontoado de palavras sem alma.

Mas aconteceu que ao longo das suas gravações o homem de Wenders deparou com alguém a pronunciar a palavra José. E achou insólito: José? Compreendeu que se tratava de um nome próprio, mas não conseguia mais do que classificá-lo como um articular de sílabas pobres. «Que nome tão feio», comentou de frente para a câmara. Textualmente como eu me tinha comentado a mim próprio no Hospital de Santa Maria. [...]

José Cardoso Pires in De Profundis, Valsa Lenta, pag. 40, Dom Quixote, 1997