domingo, outubro 31

Manuscritos

[hoje escrevi-te uma carta, querida Mafalda]
imagem: Francine Van Hove

a noite pede música

Eu também não sei

Eu também não sei. Mas ando a descobrir. Está tudo, ainda, muito desarrumado. E o tempo não ajuda. Por isso, fui comprar prateleiras para a alma. E umas caixas, também. Daquelas de cartão. Brancas. Como os livros em branco. A questão, agora, é a que altura coloco as novas prateleiras. É que vai apetecer-me sorrir quando estiver tudo arrumado e, depois, se for na parte superior da alma, lá terei de subir a uma cadeira para espreitar. Só para espreitar. E sorrir.

sábado, outubro 30

a noite pede música

Au contrair, a vida é drama, a vida é acção...


- Uma carta! Outra carta! O que é isto, um jogo de xadrez postal? Dois dias para as notícias chegarem à Marijana, dois dias para a resposta dela chegar: havemos todos de expirar de aborrecimento antes de termos uma resolução. Não estamos na era do romance epistolar, Paul. Vá ter com ela! Confronte-a! Faça uma cena como deve ser! Bata o pé (falo metaforicamente)! Grite! Diga: «Não estou para ser tratado desta maneira!». É assim que as pessoas normais se comportam, pessoas como a Marijana e o Miroslav. A vida não é uma troca de notas diplomáticas. Au contraire, a vida é drama, a vida é acção, acção e paixão! Você, com o seu passado francês, sabe-o decerto. Seja cortês se quiser, a cortesia não faz mal nenhum, mas não à custa das paixões. Pense no teatro francês. Pense em Racine. Não se pode ser mais francês do que Racine. Racine não são pessoas abatidas, sentadas pelos cantos a maquinar e a calcular. Racine é confrontação, uma grande tirada a opor-se a outra.

Estará ela com febre? O que terá provocado esta explosão?

- Se há lugar no mundo para o Bálsamo de Friar - diz ele - , há lugar para cartas antiquadas. Pelo menos, se uma carta não soa bem, pode-se rasgar e começar de novo. Ao contrário da fala. Ao contrário das explosões de paixão, que são irrevogáveis.

Se há pessoa que devesse ter isso em conta, é você.

- Eu?

- Sim, você. Com certeza não escrevinha a primeira coisa que lhe vem à cabeça e a envia a de imediato ao seu editor. Espera com certeza para pensar melhor. Revê tudo, com certeza. Não é em pensar melhor que consiste a escrita - pensar melhor uma vez, duas vezes, três vezes, e mais vezes ainda?

- É isso, efectivamente. É isso que a escrita é: pensar melhor elevado à enésima potência. [...]
J. M. Coetzze in Homem Lento, pag. 254, Dom Quixote, 2008
[tradução de J. Teixeira de Aguilar]

imagem: Gilbert Garcin

sexta-feira, outubro 29

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

a noite pede música

Apetecia-me...

[...uma estrada e meia dúzia de CDs...]

quinta-feira, outubro 28

Dieta emocional

Estou em dieta emocional, ou seja, não ouço jazz nem leio certos livros. Quinze dias - disse o médico - será o suficiente. Espero! Preciso da minha razão em estado puro e a funcionar duzentos por cento.

Lembro-me agora que tenho de marcar um


Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir até de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar; que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice
imagem: Jindrich Strei

a noite pede música

O mal-entendido


O mundo só caminha através do mal-entendido. É através do mal-entendido universal que toda a gente se põe de acordo. Porque se, por infelicidade, as pessoas se compreendessem, nunca poderiam pôr-se de acordo.
O homem de espírito, aquele que nunca se porá de acordo com ninguém, deve aplicar-se a amar a conversa dos imbecis e a leitura dos maus livros. Extrairá funções amargas que lhe compensarão largamente a fadiga.

Charles Baudelaire in Diário Íntimo

imagem: Brian Dettmer

Arre!

quarta-feira, outubro 27

A última palavra

A vida não é uma linha na qual você escreve todos os nomes que você encontra no meio do caminho. A vida é feita principalmente das palavras interrompidas, daquelas que ficaram por dizer, ou ainda daquelas que a gente nunca soube como escrever. A vida é feita dos intervalos, principalmente através deles, dos capítulos censurados, das lembranças não vividas e das memórias apagadas.

Carlos Eduardo Leal in A última Palavra, Editora Rocco, 2009

[Carlos, não imagina como os seus livros chegaram, afinal, na hora certa. Este, começo a lê-lo hoje. Estou-lhe imensamente grata. As minhas outras palavras ficam para depois da leitura...]

a noite pede musica [daqui a pouco]

Faits divers femininos

As transições de estação do ano oferecem sempre uma passerele sui generis. No outono, por exemplo, as sandálias e as botas coabitam por aí, em perfeita desarmonia. Umas com imensa vontade de calçar botas, outras com imensa relutância em tirar sandálias. Então, botas e sandálias, sapatos abertos e fechados, sedas, lãs e afins, alcinhas, meias mangas e mangas compridas, cachecóis, lenços e decotes, carteiras e sacos de praia, meias e pernas ao léu, convivem alegremente por estes dias híbridos.

Por esta altura, a minha mãe e a minha irmã, começam a dizer, dia sim, dia também que não têm nada para vestir nem calçar. Apesar de a minha mãe ser, há muitos anos, uma forte concorrente da Imelda Marcos e a minha irmã ter sempre vestidos que, por acaso, só por acaso
- ah este! já não me lembrava dele!
Nesta matéria, a minha mãe e a minha irmã são muito parecidas e, ainda bem, pois seria um deserto para a minha mãe ter outra filha como eu. Deus foi justo. A minha mãe, senhora de entrar religiosamente, três dias por semana, no cabeleireiro não podia ficar com uma única filha que, em bom rigor, não tem paciência para lá ir. (quando inventarem secadores silenciosos...) Era de uma crueldade atroz. Portanto, elas unem-se contra as minhas "manias". Unem-se contra a minha ignorância sobre coisas da moda e nomes de marcas, por exemplo. Sei as básicas, obviamente. Mas exasperam-se quando tentam falar comigo sobre esse complexo universo, mais hermético do que linguagem médica. Divertem-se quando vamos às compras. Pois se é verem-me de cabelos em pé, eu a pedir, por exemplo, um certo modelo de calças, mas em castanho, por favor, e responderem-me, indignados, mas os castanhos não se usam este ano, menina. Ora entramos em colisão frontal, pois entramos. Então, se me impingem uma "corzita da moda" e insistem, cheias de pena, para que desista do castanho e, ainda, me aconselham a mudar rapidamente de estilo... é que eu fico fora de mim.
A minha irmã - há dias fui jantar a casa dela - disse-me, feliz, depois vou mostrar-te o meu relógio novo, xpto. Eu olhei para ela como se o relógio fosse um Swatch. Ela olhou para mim como se eu fosse demente e balbuciou: da mesma marca daqueles teus brincos...?! E eu perguntei-lhe se ela tinha a certeza de que os meus brincos eram xpto, que eu nem sequer sabia pronunciar o que ela tinha dito! E ela disse: desisto, desisto. É impossível conversar contigo sobre estas coisas... é uma seca, na verdade.
E foi buscar mais uns queijos. Que de queijos e vinhos eu sempre percebo mais.
(E agora que saudades da minha mãe e da minha irmã, a implicarem com a minha "cara lavada". Não é por serem a minha mãe e a minha irmã mas são tão lindas. Lindas todos os dias, a parecer que acabaram de sair de uma caixa de música. Foi só um parêntesis)
Está um sol frio mas acolhedor. Estou de botas e de casaco. Um casaco que já não vestia desde o Outono passado. Ainda não meti as mãos nos bolsos. Ainda não encontrei qualquer coisa que me tenha esquecido de um ano para o outro. Gosto de me esquecer de coisas nos bolsos dos casacos e encontrá-las um ano depois. Às vezes, um ano depois, voltamos a sorrir.

terça-feira, outubro 26

Mistérios de Lisboa

...Gosta de mim, senhor Barão?
Esta pergunta de improviso, espécie de disparate com que a duquesa fechou o período. atarantou o fidalgo, a ponto de lhe roubar provisoriamente, a correcção da frase portuguesa, e mais ainda o dom de articular as ...poucas palavras com que se colhera da emigração (...)
- Não me responde?! Tornou ela, decifrando as revoluções que se alternavam na fisionomia grotesca do barão. - O seu silêncio, cavalheiro, não é delicado. Franqueza: gosta de mim?
- Se gosto de Vossa Excelência!...devora-me o ciúme. como não há-de ser palpitante o meu amor.
- Não me capacito...Desconfio sempre das paixões que fazem estilo. Acho que a pequenez do amor está na razão inversa da grandeza das palavras. Simplifique as suas respostas senhor Barão. Gosta de mim?
- Imensamente.
- Aí esta uma palavra muito grande!...Assim não quero. Tenho cisma com os advérbios...Não fuja do verbo da pergunta. Terceira vez: gosta de mim?
- Como quer que lhe responda?...Não há linguagem humana que responda convenientemente a tal pergunta.
- Pois não há? Ora, Barão, pergunte-me se gosto de Vossa Excelência.
- Gosta de mim?
- Gosto. Aqui tem!...há lá nada mais natural? Já sabe como eu quero o estilo em matérias de amor. Outra pergunta: que quer de mim?
- Adorá-la, amá-la eternamente; beijar humildemente os seus vestígios, dar a última gota de sangue pelos seus suspiros, contempla-la estaticamente...
- Três advérbios que somam dezasseis sílabas. Não me ame assim. senhor Barão. Não vê que tudo caminha para o espiritualismo? Subtilize as suas frases, espiritualize-as, basta de matéria indispensável!...Que quer de mim? Não me responde!...Não me quer nada!...Ora vejam que amor tão frio!...Nem tanto espiritualismo, cavalheiro...Peca pelo extremo!...Se me dissesse francamente que me queria fazer sentir o ardor do seu sangue, as palpitações das suas artérias. o aroma dos seus suspiro, as lúcidas cambiantes dos seus belos olhos...eu diria que o estilo é uma bonita maneira de encobrir certos pensamentos, que não tem estilo nenhum, pelo menos autorizado nos bons clássicos franceses e portugueses. Ora agora...amar-me eternamente, beijar os meus vestígios humildemente, contemplar-me estaticamente, tudo isto , além de ser impossível no estado actual do coração humano, é uma promessa assustadora, e um futuro insuportável que me anuncia. Amar eternamente!...Deus nos livre disso, não há amor que resista a vinte e quatro horas de filosofia! Eu de mim não aceito o programa; sem me promete amar-me três dias...
- É impossível!...Abandone-me; mas eu hei-de amá-la enquanto sentir no coração uma gota de sangue!
- É sanguinário, Barão! Já me falou em sangue duas vezes!...Adopte uma linguagem mais pacífica. Não gosto de Catões no amor. O sangue será muito proveitoso nas funções da vida animal; mas no nosso caso, dispensa-se. Acho-o até prosaico...
O barão abria a boca, e franzia a testa. O que ele exprimia com semelhante careta, não saberemos nós dizê-lo, nem a duquesa o saberia.


Camilo Castelo Branco in Mistérios de Lisboa

[este excerto delicioso foi desviado daqui]
..e, ainda, da obra de Camilo:

«Há na vida acasos e coincidências tão extravagantes que nenhum novelista ousaria inventá-los»

it takes courage

segunda-feira, outubro 25

Sabes, como eu

Sabes, como eu. Mas sabem mais os teus passos do que os meus. Porque são mais. São há mais tempo e mais firmes do que os meus. Sabes, como eu, a importância de caminhar à noite, porque a noite não tem fundo. E caminhar com a linha do horizonte no olhar dói. E custa menos um tecto de estrelas caladas do que um céu sem azul. E sabem mais as tuas dúvidas sobre o mundo do que a história da loucura de Foucault. Sabes, como eu, a delicadeza de ir pela berma da alma, devagar, como se o caminho fosse seda e lâmina. Sabes, como eu, a dignidade de avançar contra a solidão da casa distante que há dentro de nós. E sabes, como eu, o sabor da luz na noite quieta. Sabes a cautela de andar cá dentro sem acordar a memória. E sabes a dor de nunca mais poder abraçar. E a mim doi-me a dor de não o poder fazer. Ainda que os braços estejam aqui.

[para a P.]
imagem: Henri Cartier-Bresson

O que respira em ti são os olhos

Eugénio de Andrade in Com Palavras Amo, pag.74, Instituto Cultural de Macau, 1990

[um dia voltarei a Macau...]

Quase memória

No porta-luvas do carro tenho algumas fitas, estão embaralhadas, são músicas antigas, que gravei por aí em vários lugares, tecnicamente insuportáveis, cada qual uma espécie de embrulho em si e à parte.
Fico no primeiro cassete que apanho. Qualquer coisa servirá. Amanhã não farei grandes coisas, mas preciso desse amanhã, pelo menos hoje. Ouço o chiado que revela a seleção de músicas antigas, copiadas de velhos discos para a fita.
A voz de Vera Lynn (quem foi Vera Lynn?) enche o carro. Subo os vidros das janelas, ligo o ar-refrigerado para ouvir, no final de ontem, o começo do amanhã:


We´ll meet again,
don´t know where,
don´t know when,
but I know we´ll meet again
some sunny day

A canção foi relançada nos anos 60 num filme de Stanley Kubrick, final de Doutor Fantástico*, bombas nucleares explodindo, o balé de cogumelos atômicos, o fim da história. E o aceno para o dia onde nos encontraremos outra vez, não sabemos onde nem quando,mas nos encontraremos num dia ensolarado.
Começa a amanhecer, vejo a primeira fatia de luz cortar a linha do horizonte, lá longe, no mais longe do mar. A sensação agora é que estou sozinho, sobrevivendo de um mundo que acabou. Só não sei, ainda, se eu também acabei. Talvez o embrulho do pai tenha vindo apenas para me dar lucidez, a consciência da lucidez que substitui a fome que eu deveria sofrer, o sono que deveria sentir, a memória que eu deveria esquecer.

Carlos Heitor Cony in Quase Memória, pag.236, Palavra, 2005

* O título original do filme é Doctor Strangelove. Em Portugal chamou-se Doutor Estranhoamor

a noite vai pedir música

há dias assim

[já quase as sei de cor. e quanto mais conhecemos, mais gostamos de ouvir

domingo, outubro 24

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca



imagem: Amedeo Modigliani

a noite pede música

História do Beijo

Do beija-mão ao enlace amoroso, há muitas formas de beijos, uns dados à toa, "quase" inocentes, outros mais solenes, mais carregados de promessas. Mas, voláteis ou apaixonados, ternos ou simplesmente corteses, todos assinalam a dado momento o estado de uma relação entre duas pessoas. Todos revelam até que ponto pertencemos a uma sociedade e aos seus costumes. A determinado tempo e lugar.
Yannick Carré, Sinal de Paz, Símbolo de amor



Sinal de estima, de amizade, de afeição, o beijo na boca ocupa desde a Antiguidade um lugar nos ritos de saudação. Mas é sobretudo na Idade Média, nos séculos XI e XII, que adquire um significado público com a homenagem vassálica ou aquando das cerimónias de ordenação de padres. Essencialmente masculino e elitista, tem então o valor de um selo, de pacto indissolúvel. Ratifica solenemente a entrada numa comunidade.
Jean Claude Bologne, Do Sagrado ao Íntimo



A partir do Renacimento, o beijo irá perdendo pouco a pouco a sua função oficial e sagrada. Torna-se um gesto de ternura que toca, mas não compromete. Entre pessoas de categorias diferentes, entre parentes e amigos, passou-se a usar o encostar a face, ao passo que o beijo na boca, reservado aos amantes, assume, esse, uma conotação muito mais erótica.
Já não coroa uma relação, inicia-a, abre a festa amorosa.
David le Breton, Ritos de Intimidade



Como pintar ou esculpir uma sucessão de formas e de gestos que se fecha inexoravelmente em si mesma? Sim, como evocar visualmente o que antes do mais pertence à ordem do paladar, da consistência, da humidade, do calor, da intimidade? Neste sentido, um beijo é um desafio permanente para um artista, como se a sua representação só fosse possível à custa de devorar a própria representação...
Truffaut/Hitchcock, Jogo de Lábios




Em francês, a palavra baiser designa tanto a oferta de uns lábios como o próprio acto de amor. Como se o substantivo fosse apenas o prelúdio ao verbo, mas sem um prelúdio mais casto, mais poético e, por isso mesmo, mais próprio para exprimir os matizes dos sentimentos. Talvez seja por isso que pintores, romancistas, cineastas sempre se empenharam em pôr em cena o beijo, transformando assim um gesto efémero e frágil numa sumptuosa festa dos sentidos.
Gérald Cahen in História do Beijo, Teorema

imagem: Jindrich Strei


manhãs de domingo

[ ...a parte do dia que eu mais gosto [dos domingos] são as manhãs...]

imagem: Henri Cartier-Bresson

Poema de João Negreiros

Este poema do João Negreiros está em votação. Por favor, ouçam-no aqui e votem. Muito obrigada. A votação termina amanhã. E o João é o único poeta português no concurso.

Madame Freud; o livro

FREUD E O FEMININO A foto que Freud tirou com sua mulher, Martha, em 1886 (acima), tornou-se uma espécie de imagem oficial de ambos.
«Em três anos de noivado, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, escreveu 940 cartas românticas para a sua amada, Martha. Esse foi o início de uma histórica cumplicidade que só terminou em 1939 com a morte do psicanalista, aos 83 anos. Nas inúmeras biografias que foram publicadas postumamente sobre esse célebre neurologista, ela aparece como a esposa perfeita e a companheira ideal. Sempre obscurecida pela fama e importância do marido, Martha agora ganha voz no livro Madame Freud (Verus Editora, 210 págs., R$ 27,90), de autoria da psicanalista francesa Nicolle Rosen. Na obra (por meio de cartas trocadas com a jornalista americana Mary Huntington-Smith, personagem fictícia criada pela autora), conhecemos a esposa que abandonou a sua religião para atender ao desejo do marido e engravidou seis vezes em intervalos muito curtos (foram seis filhos em sete anos e meio) devido ao frêmito sexual do parceiro. Depois disso, entrou numa longa abstinência amorosa – Freud decidira abandonar o sexo (só com ela) para evitar novos filhos.
O livro é um romance histórico baseado em cartas que Martha trocou com amigos e familiares. Nicolle partiu desse material e criou uma ficção em que a esposa de Freud embarca numa viagem psicanalítica de autoconhecimento ao refletir sobre a sua vida. Esse é o recurso adotado pela autora para expressar as angústias e dúvidas que assombraram Martha quando ela se deu conta de que havia renunciado a sua vida em nome da carreira extraordinária de Freud. “Queria compreender por que me devotei completamente a uma vida e à execução de uma obra que não eram minhas”, escreve ela. No entanto, o leitor não fica sabendo o que é ficção e o que é verdade – uma licença literária de Nicolle que enfureceu a Academia Francesa de Psicanálise, que considerou a obra “ultrajante” à memória de Martha Freud.»
[Continua aqui, no DEPÓSITO DO MAIA, de onde o desviei, sem autorização prévia...]

sábado, outubro 23

África Raiz I


África,
no teu corpo rugem feras,
uivam fomes e medos ancestrais,
no teu sangue há marés,
na tua pele há dardos e punhais.

Ventre de Continentes,
és mater e matriz.
Ásia é semente, Europa é flor,
outros serão essência ou tronco,
tu, África, és raiz.

Dos teus flancos de fémea fecundada,
nascem florestas, rios e montanhas.

Florestas venenosas de gigantes,
de monstros, de ciclopes vegetais,
de fungos, de landólfias e de orquídeas,
onde pastam manadas de elefantes,
onde flores carnívoras,
sob um céu baixo, de invisíveis brasas,
sugam antenas e digerem asas.


Fios de água, que vertes das entranhas
e te rasgam a pele
como pontas de lança,
como lâminas de aço,
prendendo, laço a laço,
matas, capim, tarrafe, canaviais.

Cascatas, cachoeiras,
furiosos caudais
saltando precipícios,
arrastando pirogas, crocodilos,
abrindo a golpes de água
os leitos abissais
dos Zambezes, dos Congos e dos Nilos.

Montanhas como dorsos de mamute,
gargantas de titans, abismos de nebelina,
e na crosta rugosa a lepra das florestas,
as pegadas do vento,
as aves de rapina.
Presença subterrânea
de lavas e de chamas,
de vulcões em potência,
ressonância, rumores
dos rios interiores,
promessas de esmeraldas, de rubis,
de metais raros,
Kilimanjaros
nos roxos da distância.
[...]

Fernanda de Castro in África Raíz
imagem digitalizada do livro: Teresa Vergani
[este poema , por ser muito extenso será publicado em partes.
mereceu os segintes comentários:
"...é o poema do século!" José Carlos Ary dos Santos
"...soube entender até ao âmago, até à raiz, a alma secreta do continente africano" David Mourão Fereira
"...é um poema extraordinário... Que força expressional e consecutiva, que fôlgo sem desfalecimento, que altura sem vertigens, que beleza sem interrupções..." Ferreira de Castro
faltam-me, agora, palavras de gratidão para Alberto Quadros (irmão da autora) que, conhecendo-me apenas do blog - e sendo, seguramente, o leitor mais sénior - teve a imensa generosidade de me oferecer este livro magnífico. e raro. um abraço imenso]

a noite pede música

A parte desconhecida da minha vida

A parte desconhecida da minha vida é a minha vida escrita. Morrerei sem conhecer essa parte desconhecida. Como foi escrito isto, porquê, como o escrevi, não sei, não sei como isto começou. Não se pode explicar. Donde vêm certos livros? A página está vazia e, de repente, já há trezentas páginas. Donde vem isto? É preciso deixar andar, quando se escreve, não devemos controlar-nos, é preciso deixar andar, porque não sabemos tudo de nós próprios. Não sabemos o que somos capazes de escrever.
Conheci grandes escritores que nunca conseguiram falar disso - conheci Maurice Blanchot e Georges Bataille intimamente, conheci Genet, creio que menos. Eles nunca sabiam, nunca falavam disso. Penso que é errado, aliás. Há trinta anos, era uma espécie de pudor aprendido, em parte, na escola sartriana, não se podia falar daquilo que se escrevia, não era decente - e penso que em Les Parleuses é a primeira vez que alguém fala disso, pelo menos uma das primeiras vezes. É bom falar disso e, ao mesmo tempo, é muito perigoso dar a ler textos antes de estarem terminados.
(...) Após o final de cada livro é o fim do mundo inteiro, é sempre assim, de cada vez. E depois tudo recomeça, como a vida.
Quando se escreve, não se pode falar em vez de escrever. O que se passa quando se escreve, nunca se pode dizer. Eu consigo ler uma passagem, mas depressa fico assustada.
Sou mais escritora do que vivente, que uma pessoa que vive. Naquilo que vivi, sou mais escritora do que alguém que vive. É assim que eu me vejo.

Marguerite Duras in Mundo Exterior

Também o quero...

[ ...vi-o ali, no CHEIRO DOS LIVROS e tive de o trazer... mesmo assim, virtual...]

A vida, meu caro, é ilegível. Acontece
e desaparece. Não há inteligência
que a descodifique: vem em linguagem-nada,
surge no corpo como surge o dia, e como
se dia e vida individual fossem materiais paralelos.
...A vida não surge em prosa
nem em poesia — e a existência não fala
inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos
resiste às invasões matreiras da publicidade e
dos filmes. Já não é mau.

Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia

color your life


[...há dias em que tem mesmo de ser...]

sexta-feira, outubro 22

porque sim

Poesia...és tu.

Tão difícil...


Aqui tem você um conselho que lhe poderá servir para a sua filosofia: não force nunca; seja paciente pescador neste rio do existir. Não force a arte, não force a vida, nem o amor, nem a morte. Deixe que tudo suceda como um fruto maduro que se abre e lança no solo as sementes fecundas. Que não haja em si, no anseio de ...viver, nenhum gesto que lhe perturbe a vida.
Agostinho da Silva

Sete Cartas a um Jovem Filósofo – Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro”, I, V, edição da Ulmeiro, 1990

quinta-feira, outubro 21

a noite pede música

Mais barcos

[obrigada João! um belo cartaz. Conte-nos a história, por favor]

porque sim

...e porque eu adoro barcos de papel e pessoas que fazem barcos.

quero...

"quero reaprender o amor na respiração das tuas mãos"
Ondjaki in Dentro de mim faz Sul

Never...

quarta-feira, outubro 20

Minas e armadilhas


«Quando ouço as notícias sobre os mineiros do Chile lembro-me do livro do Zola, “Germinal” (1885). Neste é descrita uma comunidade de mineiros, as suas miseráveis vidas e a consequente greve geral onde exigem melhores condições de trabalho e melhores remunerações (se é que se pode aplicar tal palavra neste caso). E como não podia deixar de ser também acontecem derrocadas e também há mineiros que ficam soterrados. No entanto, sendo um livro que relata as condições de trabalho dos mineiros no século XIX haveria nesta mina, se não me falha a memória já que o li há algum tempo, uma norma de segurança mais eficaz do que as existentes naquela mina no Chile. Por exemplo, várias saídas de emergência. Há inclusive um episódio em que um dos mineiros escapa à derrocada utilizando uma das saídas mais distante e mais antiga. Não quero com isto fazer comparações, porque as actuais serão, ou deveriam ser, sempre mais seguras. Mas fica aos interessados o convite para a leitura deste livro. Isto se ainda tiverem paciência para histórias de minas e armadilhas.

E como a desgraça alheia é sempre um apetecível alvo de negócio, parece que já estão na forja dois filmes sobre a situação vivida pelos mineiros chilenos. Assim, quem quiser aprofundar a temática pode fazer o aquecimento com este livro e respectivos filmes (um de Claude Berri, 1993 ou um mais antigo de Albert Capellani, 1913). E ainda temos o do John Ford ou o “Grande Carnaval” (Billy Wilder). Quer dizer, há mais alguns, mas agora só me apetece falar destes.»
by MCS
[roubei tudo ao Marco Santos do blog NO VAZIO DA ONDA. título, texto, fotografia. e só não trouxe a música toda... porque dava muito nas vistas, mesmo sendo de noite]

a noite pede música

terça-feira, outubro 19

Há pessoas assim...

... parecidas com livros.

a noite pede música

Que menino se recusou já a brincar num sotão...


Que menino se recusou já a brincar num sótão, a inventar inexistência?
Está-se fora do mundo, numa torre inacessível, as pessoas crescidas ficam longe, com as suas ocup...ações, ideias, hábitos incompreensíveis.
Aqui é o reino da fantasia, da realidade indescoberta.
Vêem-se as traves e as telhas do avesso, com teias de aranha, e há umas lucarnas pequeninas, muito engraçadas, viradas para o céu azul, o sol, o silêncio, às vezes o pio dum pássaro, uma paz de eternidade.
Assim, no cheiro de palha, de mofo e clandestinidade, de pó e madeira tostada de sol, entre murmúrios de palavras proibidas, gestos rituais de descobrimento, e acres emanações de suor infantil, pode-se ser feliz ou infeliz à vontade, e, apesar da carne ainda insensível, ir aprendendo os segredos do ser, que exalta e que dói.

José Rodrigues Miguéis in a Escola do Paraíso

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.



Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

— E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

— não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,



que te procuram.

Herberto Helder



[excerto do poema «Tríptico»]

a noite pede música

segunda-feira, outubro 18

Mais sabedoria em "tirinhas"

Todo mundo é uma ilha

[obrigada Berzé! Gostei das "tirinhas" :)]

Curso de Teatro

[para quem gosta do palco. e mesmo para quem não gosta... o mais importante é aprender coisas com o João Negreiros. a não perder]

wake up

O melhor sonho, sem dúvida, o melhor sonho. A dormir. Tão real que consigo dizer todas as cores, todas as vírgulas, quantas nuvens. Posso dizer até, com precisão, quanta chuva naquele momento, como se fosse um pluviómetro. E o despertador tocou às oito em ponto.
«A vida não é justa, pois não?»

domingo, outubro 17

a noite pede música

Abraça-me

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser

este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na

palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos

para provar o sabor que tem carne incandescente das estrelas.

Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti possa buscar

o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me

com os teus antigos braços de criança

para desamarrar em mim a eternidade, a soma formidável

de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.

Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros

pequeninos. Só essa água fará reconhecer

o mais profundo, o mais imenso amor do universo,

e eu quero que dele fiquem a saber

até as estrelas mais antigas e brilhantes.

Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.

Uma vez que nem sei se tu existes.

Joaquim Pessoa
[Do livro a publicar, ANO COMUM]

Acho que é mais ou menos assim

Já o disse aqui. Gosto de silêncios e quando gosto muito muito muito de uma coisa [ou até mesmo de alguém] dá-me, algumas vezes, pró silêncio. Talvez dizer afasia esteja mais correcto, porque é uma incapacidade. Uma impossibilidade, temporal, mas uma impossibilidade, de facto. [Ainda hoje, por exemplo, li umas tantas páginas, mais de cem, que alguém me enviou e gostei tanto, tanto, tanto que ando para aqui a ver se lhe consigo dizer o quanto gostei. Mas não me sai nada.] Lá estou eu... com comportamento desviante! Não é por aqui que quero ir. Focus, Marta, focus!
O que eu quero dizer, ou seja, o cerne destas linhas é um outro blog fantástico que descobri. Quando o visito fico pasmada com a arte e a sensibilidade da Sininho. É verdade. Entro e fico num silêncio fundo fundo, com imensas emoções à superfície. Eu não imagino como ela faz aquilo. Aquilo são os trabalhos dela, como este, que ilustra o texto. Aquela, lá em cima, bem podia ser eu em silêncio, voltada para o que me espanta. Para o que admiro, para o que amo, para o que me comove. Podia ser eu, muda, com legendas. Mas não sou. Muda, não. Afásica.
Sabem quando sentimos que sentimos o mesmo que a outra pessoa sente? Mas assim, do nada. Do nada que é como quem diz, no meio de um deserto de sons e de gestos. Sem voz e sem corpo. Como se tudo fosse signos e sinais; grãos de luz, aqui e ali, até formarem uma estrela. E essa estrela fosse exactamente única e a mesma dentro de cada um. Acho que é mais ou menos assim.

imagem: Maria Cruz

porque sim

Às vezes...


[....às vezes eu encontro blogs fantásticos, outras vezes, blogs fantásticos encontram-me a mim...]

sábado, outubro 16

Tentativas para um regresso à terra

O sol ensina o único caminho

a voz da memória irrompe lodosa

ainda não partimos e já tudo esquecemos

caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente

os corpos diluem-se na delicada pele das pedras

falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam

passos

os poços onde nos debruçámos aproximam-se perigosamente

da ausência e da sede procurámos os rostos na água

conseguimos não esquecer a fome que nos isolou

de oásis em oásis



hoje

é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar

o peso de súbitas cassiopeias nos olhos

quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco a planície



caminhamos ainda

sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos

a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos

e um dia... quem sabe?

chegaremos

Al Berto

a noite pede música

Afinal, não é um hobbit

Tinha para mim, até ao momento, que era um hobbit. Tem nome de hobbit. Que, de certeza, conhecia bem Gandalf...e até pensei, enfim, eu penso muitas coisas. Mas não, não é, um hobbit. Afinal, não é um hobbit... mas que tem nome de hobbit, lá isso tem. E é simpático e sábio, como Gandalf. E deve viver numa espécie de Terra Média. Digo eu, que não tenho acertado uma. Mas pronto.

O copo e o problema que afinal não era


Fez-lhe tão bem conversar com a bruxa! Principalmente pelo seu pragmatismo. Ouve lá, disse a bruxa: "se é um problema, tem solução. Se não tem solução, é porque não é um problema". Quanto ao copo, a bruxa, com a mais funda convicção, afirmou: "ao menos tens o copo! Se meio cheio ou meio vazio... é o que menos interessa agora. Tens o copo, repara...". E ela reparou.

sexta-feira, outubro 15

Agustina Bessa Luís, hoje

Queria tanto estar lá, hoje, data de aniversário de Agustina Bessa Luís.
«Cada voz está só e é única e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa». Esta frase de Agustina acompanha-me todos os dias. Ilumina as tragédias dos telejornais como a tristeza quotidiana da mulher que confessa à amiga a sua decepção, numa mesa de café. As mulheres desiludem-se, ao contrário dos homens, que são ensinados a viver sem ilusões. Às mulheres, ensina-se-lhes a viver sem tudo menos isso. Por isso as mulheres são especialistas em sobrevivência: é-lhes muito difícil perder a esperança, uma nesga de esperança que seja. Há dias, um amigo dizia-me que a razão pela qual os homens mandam no mundo é o cuidado que têm em evitar conflitos directos. À primeira vista, isto parece uma qualidade – mas significa na realidade um exercício constante de desvio face às pequenas, médias e grandes iniquidades.»
este texto da Inês Pedrosa
CONTINUA no blog da Patrícia Reis

a noite pede música

quinta-feira, outubro 14

Carta de amor III


Meu amor querido
Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerâneo minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinesinha minha Pauline Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Pasargada meu templo grego minha colina meu verso de Höderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu manjerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Karénine minha lâmpada de Aladino minha mulher.
António Lobo Antunes in D`este viver aqui neste papel descripto

Carta de amor II


Meu amorzinho, meu Bébé querido:
São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estupida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o somno. É que, sem ter febre, eu tinha delirio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influencia directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermedio de meu primo, que aqui veio ás 7 1/2, uma serie de noticias desagradaveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.

Depois, estar doente exactamente numa occasião em que tenho tanta cousa urgente a fazer, tanta cousa que não posso delegar em outras pessoas.

Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!

Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta - a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d'elle, quando não tens para isso razão nenhuma?

Estou inteiramente só - pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimonia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remedio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sêde e não tenho quem me dê qualquer cousa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.

Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.
Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu

Fernando
19/02/1920
Fernando Pessoa

Carta de amor I

Good morning, on July 7

Though still in bed, my thoughts go out to you, my Immortal Beloved, now and then joyfully, then sadly, waiting to learn whether or not fate will hear us -
I can live only wholly with you or not at all -
Yes, I am resolved to wander so long away from you until I can fly to your arms and say that I am really at home with you, and can send my soul enwrapped in you into the land of spirits -
Yes, unhappily it must be so -
You will be the more contained since you know my fidelity to you. No one else can ever possess my heart - never - never -
Oh God, why must one be parted from one whom one so loves.
And yet my life in V is now a wretched life -
Your love makes me at once the happiest and the unhappiest of men -
At my age I need a steady, quiet life - can that be so in our connection?
My angel, I have just been told that the mailcoach goes every day - therefore I must close at once so that you may receive the letter at once -
Be calm, only by a calm consideration of our existence can we achieve our purpose to live together -
Be calm - love me - today - yesterday - what tearful longings for you - you - you - my life - my all - farewell.
Oh continue to love me - never misjudge the most faithful heart of your beloved.
ever thine
ever mine
ever ours

L.
Ludwig van Beethoven
[ após a morte de Beethoven encontraram uma carta de amor, escrita a lápis, sem o nome da musa inspiradora. "Meu anjo, meu tudo, meu eu… Esqueceu de que não é inteiramente minha e de que eu não sou inteiramente seu? Oh, Deus!". A descoberta originou o filme Immortal Beloved, de 1994, dirigido por Bernard Rose]

face A book


O leitor

It's a Book

quarta-feira, outubro 13

Memórias Sanjo


A adolescência liga memórias a objectos e, nessa época, os meus ténis eram 60 por cento da minha personalidade. Brancos, imaculados, ideais para tudo – lembro-me de argumentar que até condiziam com o vestido bege que levei ao casamento da minha prima. A minha mãe foi obrigada a procurar vários detergentes para garantir que os meus Sanjo estavam sempre impecáveis. Com o fim da adolescência começou a mania das botas.

Patrícia Reis

Memórias andadas
Até uma determinada fase da minha criancice, no gatinhar do meu imaginário, sapatilha era Sanjo.
Um par delas, brancas e inacessíveis, calcorreavam a vida e os dias claros nos pés do meu pai. Do regresso da rua, da peladinha ou do passeio domingueiro, parecia que nada lhes havia acontecido: eram arrumadas, quase imaculadas, na despensa lá de casa.
Quando me fiz menino, sapatilha continuou Sanjo.
Habituei-me a cobiçá-las, à espera de uma deixa paterna. Mas nem elas envelheciam nem os pés do meu cresciam. Uma pena.
Ele, desconfiado e cioso das suas roupas e calçado, passou a vigiar os meus atrevimentos e tentações.
Com paciência e cumplicidade materna, é verdade que vesti camisas, camisolas e até experimentei perfumes do meu pai, nas costas dele. Mas nunca o meu pé foi além do chinelo para alcançar as Sanjo.
Passaram-se anos, entretanto.
Ainda me lembro de ver o meu pai defender bolas impossíveis nas nossas jogatanas de fim-de-semana. Nos pés, as velhas Sanjo, quase novas, quase tudo, como se tivessem nascido com ele.
Herdei as Sanjo, com honra e parcimónia, poucos anos antes da morte do meu pai. Tinham atravessado os anos 80 e calcorreavam, senhoras de si, o início dos anos 90. Com buracos e cordões a desafiar vergonhas, ainda as usei um tempo, por um fio atadas.
Já não me lembro quando me desfiz delas.
Mas guardei, imaculadas, as memórias andadas.

Miguel Carvalho

Também tive umas Sanjo. Aliás, durante a adolescência não calcei outros ténis, pois estes eram os únicos que faziam parte da órbita de possibilidades nesses tempos de finanças apertadas e tão pouco cool de finais dos anos 70, inícios de 80, numa vilória algarvia. E entre os meus amigos, com raras excepções, a escolha em ténis ia, essencialmente, das Sanjo brancas até às Sanjo pretas. Éramos tão ignorantes de tudo o que é trendy que um amigo meu com propensão a efabular disse-me que a Sanjo era uma marca espanhola e eu acreditei (lembrem-se de que os inventores do Google tinham, por essa altura, uns seis anos). Nunca fiz a figura parva de pronunciar Sanjo com um “j” gutural, à castelhana, senão teria morrido de vergonha retrospectiva quando descobri, em 2010, que o nome vem de São João da Madeira.

José Carlos Fernandes
[a propósito de uma exposição patente no Museu da Chapelaria, em São João da Madeira, até ao próximo mês de Janeiro. Para além das sapatilhas Sanjo e da sua história, podem ler-se alguns testemunhos de pessoas que as usaram. Ficam aqui estes três. De três pessoas que admiro muito, muito, muito. E de quem gosto muitíssimo]

a noite pede música

Relações pessoais

Nunca tinha acreditado na companhia que os cães proporcionavam, nem na sua fidelidade. Mas estava sozinho há dois anos e fracassara em todas as suas tentativas para encontrar alguém, não já com quem viver,mas com quem se encontrar aos sábados ou aos domingos para não se esquecer da própria língua. Quando a sua mulher, pouco tempo depois de se irem embora, saiu também de casa, ele afundou-se na tristeza, mas depois pensou que a vida lhe oferecia outra oportunidade. Afinal de contas, não era assim tão velho, de modo que fantasiou com a ideia de ter novas relações, talvez de voltar a formar casal, de ir ao cinema, de fazer amor (ele chamava-lhe assim, «fazer amor») e de ver televisão com alguém ao lado.Mas a realidade tinha demonstrado que no âmbito das relações sociais ele era um incompetente. Com as coisas assim, cada dia estaria mais sozinho, falaria menos, sairia menos, sorriria menos. Envelheceria sozinho, adoeceria sozinho no sofá, talvez com a televisão ligada, como uma mulher do bairro cujo caso saíra nos jornais.

Então começo a pensar na hipótese do cão. Talvez fosse mais fácil a comunicação com um animal do que com um ser humano. Andava há vários meses a observar uma mulher que ao entardecer passava por baixo da sua janela conversando com um mastim que parecia entendê-la, pois de vez em quando levantava a cabeça e ladrava como em sinal de assentimento. Ao princípio observara-a com pena, como se se tratasse de uma pobre louca, mas à medida que as semanas passavam foi-lhe parecendo mais verosímil a possibilidade de que entre ela e o animal houvesse algum tipo de comunicação. Um dia saiu à rua quando a mulher passava por baixo da sua janela e acariciou a cabeça do cão ao mesmo tempo que dizia qualquer coisa agradável sobre ele. Depois comentou que andava a dar voltas à ideia de comprar um cão para lhe fazer companhia. Acrescentou que tinha um apartamento de tamanho médio e queria saber que raça mais lhe conviria. A mulher respondeu-lhe com desdém que os cães não se escolhiam.

- O senhor tem filhos?

- Dois - respondeu ele - , já crescidos.

-Por acaso escolheu-os?

- Na verdade, não.

- Pois com os cães é igual.

O homem balbuciou umas desculpas e continuou a caminhar.

Durante os dias seguintes percorreu algumas lojas de animais onde os cães lhe ladravam e moviam a cauda dentro das jaulas. Eram cachorros e transmitiam aquela energia especial com que, mais cedo ou mais tarde, a experiência acaba. Tê-los-ia levado todos e, por isso mesmo, era incapaz de se decidir por algum. Além disso, quando já estava quase a dar o passo, pensava nas vacinas, nas doenças, na obrigação de o levar à rua de manhã e à tarde, de lhe preparar a comida, de o assear (ele próprio passava dias inteiros sem se pentear)... Mas alguma coisa, no seu interior, lhe dizia que se tratava precisamente disso, de trabalhar para alguém em troca de um pouco de afecto. Passaram vários meses e, um dia, quando voltava das compras carregado de sacos, cruzou-se com um cão de raça e idade indefinidas, um vadio com pêlo curto e as patas compridas. Parou para o observar, pois parecia que estava sozinho, e, num dado momento, o cão virou a cabeça e dirigiu um olhar carregado de sentido ao homem, que continuou a andar preso de uma perturbação excitante. O animal seguiu-o. O homem sentia a sua presença atrás de si. «A seguir», disse para consigo, «dará meia volta e tomará outra direcção».

[...]

Juan José Millás, in Os objectos chamam-nos, pp. 189, 190, Planeta, 2010

imagem: Elliott Erwitt