quinta-feira, setembro 30

e malas?

[ eu gosto muito muito muito de viajar. mas não gosto de fazer malas. nesse momento penso sempre a mesma coisa banal: uma varinha de condão dava tanto jeito. e depois, claro, esqueço-me sempre de qualquer coisa. e, no caso, peco sempre - é verdade - por falta. nunca por excesso. uma mochila de fim-de-semana, é diferente; uma mala, mesmo que para quatro dias é um assunto sério. é uma arte, até! foi o que descobri quando procurava uma imagem. ora leiam.]

Tradutores de muitos mundos

Dia 30 de Setembro celebra-se, mundialmente, o Dia do Tradutor. A data está associada a São Jerónimo, tradutor da Bíblia para o latim, trabalho que durou 15 anos.
Fica o meu pequeno gesto de gratidão a todos os tradutores do mundo que vertem o texto de uma para outra língua. Um trabalho difícil e mágico, digo eu, plena de admiração.

há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida


há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Al Berto

imagem: Andrew Wyeth

Comer Rezar Amar



é um filminho para ver domingo à tarde, enroscada numa manta, sofá, lareira acesa. mas fui vê-lo ontem, com a Carla. já tinha lido o livro, há talvez um ano. nem literatura, nem manual de auto-ajuda. uma história verídica bem relatada. e com dicas interessantes sobre diversos assuntos, nomeadamente históricos. uma jornalista free-lancer que pôde interromper a vida que levava e ir em busca de uma outra, por três países: Itália, Índia, Indonésia. Liz [a belíssima Julia Roberts] acaba por encontrar em Roma o paraíso do dolce far niente [e que saudades me deu de Roma e das coisas que deixei por visitar; e da pizzaria que aparece no filme e onde não fui e queria tanto ter ido :(]; na Índia, a melhor forma de encontrar Deus dentro de si e, no Bali, um novo amor, Filipe [o charmosíssimo Javier Bardem]. um filme que vi com muitas saudades. saudades possíveis, saudades impossíveis. saudades a mais.

enfim. ando um pouco cansada de carregar tantas saudades.

quarta-feira, setembro 29

o filme impossível

A obra mais famosa de toda a literatura portuguesa, traduzida em 37 idiomas, é o "Livro do Desassossego", desse outro eu de Pessoa chamado Bernardo Soares. Um livro perfeito porque imortalmente imperfeito. Sem princípio nem fim, sem leme nem rumo, um livro inclassificável e invisível como os deuses, nascido dos destroços do céu, feito da temperatura das nuvens e dos rasgões da alma - fragmentos contínuos que conjuram a morte e apagam o tempo. Pessoa sabia que o "Livro do Desassossego" o manteria vivo, depois. Permanecemos na memória dos que nos sobrevivem porque não terminámos - sobra sempre o que não chegámos a dizer ou fazer. Somos retalhos de temas, mágoas e iluminações. Não uma colecção de momentos - nesse caso seríamos esquecíveis como fotografias de viagem. Tudo nos empurra hoje para essa ideia de viagem permanente: sofremos um desgosto, gritam-nos que viajemos, para levarmos para longe o nosso problema e não incomodarmos o rame-rame alheio. Momento - eis o que chamamos às nossas grandezas e às nossas falhas, a essa descontinuidade anímica, agora tão em moda. O "Livro do Desassossego" é o antilivro de viagem: Pessoa chegou ao âmago do Universo sem sair de Lisboa.

O "Livro do Desassossego" tem silêncio, ruído, tédio, sexo, angústia, felicidade. Abrimos uma página ao acaso e encontramo-nos lá inteiros, tenhamos 16 ou 30 ou 70 anos. Porque Pessoa realizou essa que é a viagem difícil, pouco praticada e muito desaconselhada: pôr-se no lugar dos outros. Ser cada um dos outros. Toda a identidade advém dessa viagem dura, ousada, que é a da entrega radical: não há outra.

Não há uma ordem no livro como não há uma história na nossa vida: há nós de dor e de prazer que vêm e vão, como ondas de um mar imprevisível, e encontros desencontrados que se potenciam fora de toda a lógica das historinhas que somos instruídos para seguir. Uma vida não é uma história nem um conjunto de histórias - nunca tem um fim, deixa sempre pontas penduradas, sonhos a rodar na cabeça dos sobreviventes. As histórias parecem mudar pouco e repetir-se muito porque raramente são vividas na sua intensidade. É essa a tarefa da arte - de qualquer arte: buscar mais verdade, uma luz mais exacta, sob o horizonte da verdade visível. O resto é treta, empate, bufonaria de quem foge de entender a mensagem da cova e do caixão.

Eduardo Lourenço afirmou que Pessoa se tornou a "máquina de rezar" da cultura portuguesa - e, em simultâneo, maior do que Portugal. João Botelho ousou criar o filme impossível a partir deste livro impossível que se tornou o mais real dos livros portugueses - o mais lido, o mais amado, o mais inspirador. E o "Filme do Desassossego" soube honrar o livro que lhe deu vida: arrastou o texto para o futuro que é ainda o seu território de origem, criando um Bernardo Soares fora do tempo e fazendo de Lisboa a cidade de todas as cidades, com prédios e monumentos cubisticamente empilhados, substituindo-se ao céu - e com vadios, boémios, funcionários tristes, casais, crianças, mulheres intensas, fadistas, a voz de Caetano Veloso (que criou uma canção para o filme) nas entranhas do metro, Lula Pena, Carminho e Ricardo Ribeiro cantando na rua - e Catarina Wallenstein, numa interpretação sublime, encarnando um texto que nos fala dos passos que deve seguir "quem faz do sonho a vida".

Nunca Lisboa foi filmada de um modo tão inesquecível. Cada imagem de João Botelho é uma pintura - ele filma como Caravaggio pinta, com o mesmo conhecimento carnal da densidade das luzes e das sombras, e neste filme essa semelhança é potenciada pela subtil e intensa paleta do rosto e do corpo de Cláudio Silva. Mas não caiu no engodo fácil de fazer um filme 'bonitinho', desvirtuando o vendaval lúcido e alucinado que é o livro de Pessoa.

A Floresta do Alheamento de Bernardo Soares transfigura-se numa ópera dramática (de Eurico Carrapatoso) encenada em plena serra de Sintra - ou não fosse Fernando Pessoa o rei da nossa Baviera, tema sobre o qual Eduardo Lourenço escreveu um livro prodigioso. Este filme desassossega-nos coração, cabeça e estômago, obriga-nos a pensar tudo de novo e a chorar o velho nada das lágrimas reprimidas - ou seja, a sermos mais livres. É para isso que servem a literatura, a música e o cinema.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

[Texto publicado na edição da Única de 25 de setembro de 2010 ]

24 horas contra a pobreza


Dia 6 de Outubro é dia de "non stop" na luta contra a pobreza. 24 horas de actividades a recordarem, mais uma vez, que esta luta não pode parar.
Em Portugal, existem quase dois milhões de pessoas em situação de pobreza e exclusão social. Na União Europeia são 85 milhões, cerca de 19 milhões são crianças.
Mais uma iniciativa a decorrer no âmbito do Ano Europeu de Luya Contra a Pobreza e Exclusão Social, promovida por diversas organizações, entre elas a European Anti Poverty Network - Portugal. Com o objectivo de concentrar numa só semana actividades de sensibilização e de lobby, promovem-se por toda a Europa, as "focus weeks". Estas iniciativas procuram garantir uma maior projecção e visibilidade da luta contra a pobreza e um maior impacto das actividades desenvolvidas. Em Portugal, a "focus week" decorre entre os dias 4 e 10 de Outubro. «É neste contexto que um grupo de organizações da sociedade civil se reuniu para desenvolver o evento “24h pelo Combate à Pobreza”, uma iniciativa de activismo, mobilização e sensibilização para a problemática da pobreza e de uma percepção, por parte da sociedade portuguesa, da pobreza enquanto uma efectiva violação dos Direitos Humanos», explica fonte da organização.

As iniciativas previstas para todo o país podem ser consultadas AQUI.

terça-feira, setembro 28

A respeito do Vento


A respeito do Vento circulam rumores , murmuram-se suspeitas, dizem-no velhaco e atrevido, capadócio a quem é perigoso dar ousadia.
Citam-se as brincadeiras habituais do irresponsável: apagar lanternas, lamparinas, candeeiros, fifós para assombrar a Noite; despir as árvores dos belos vestidos de folhagens, deixando-as nuinhas.
Pilhérias de evidente mau gosto; no entanto, por incrível que pareça, a Noite suspira ao vê-lo e as árvores do bosque rebolam-se contentes à sua passagem, umas desavergonhadas.
A caçoada predilecta do Vento é meter-se por baixo da saia das mulheres, suspendendo-as com malévola intenção exibicionista.
Truque de seguríssimo efeito nos tempos de antanho, traduzindo-se em risos, olhares oblíquos e cobiçosos, contidas exclamações de gula, ahs! e ohs! entusiásticos.
Antigamente, porque hoje o Vento não obtém o menor sucesso com tão gasta demonstração: exibir o quê, se tudo anda à mostra e quanto mais se mostra menos se quer ver?
Quem sabe, as gerações futuras lutarão contra o visível e o fácil, exigindo, em passeatas e comicios, o escondido e o dificil.

Jorge Amado in "O Gato Malhado E A Andorinha Sinhá - Uma História De Amor", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004,

a noite pede música

segunda-feira, setembro 27

Outono


Uma lâmina de ar

Atravessando as portas. Um arco,

Uma flecha cravada no outono. E a canção

Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.

E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como

Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.

É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza

Quando saio para a rua, molhado, como um pássaro.

Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se

Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.

Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede

Cumprimenta o sol. Procura-se viver.

Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.

Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se

Como se, de repente, não houvesse mais nada senão

A imperiosa ordem de (se) amarem.

Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.

Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.

Não há um nome para a tua ausência. Há um muro

Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho

Que a minha boca recusa. È outono.

A pouco a pouco despem-se as palavras.

Joaquim Pessoa

domingo, setembro 26

Jazz [ ou tentar explicar outra coisa]


«Os instrumentos, as melodias e as harmonias do jazz são essencialmente retiradas da tradição musical ocidental. O ritmo, o fraseado e a produção sonora, assim como os elementos da harmonia dos blues são derivados da música africana e da concepção musical dos afro-americanos. O jazz diverge da música europeia por três elementos fundamentais que visam incrementar a intensidade sonora:

- uma relação particular com o tempo, definida pelo termo swing

- uma espontaneidade e uma vitalidade na produção musical em que a improvisação ocupa um espaço vital

-uma sonoridade e um fraseado que reflectem a personalidade do executante

Estas características fundamentais, transmitem-se oralmente de geração em geração, criando um novo clima de tensão, onde uma diversidade de elementos geradores de tensão se mantém em permanência. Os diferentes estilos e as fases da evolução que o jazz conheceu após as suas origens, fizeram-se fundamentalmente a partir de novas relações entre as três características fundamentais enumeradas. É que no jazz o importante não é o que se toca mas como se toca.
José Carlos Santos

[uma coisa é saber, outra, é sentir. eu não sei nada. mas sinto muito]

Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo


Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.

Ruy Belo

a noite pede música

sábado, setembro 25

Folhas de Outono [outra vez]


Não sei se vos acontece. A mim, sim. Um episódio simples do quotidiano transforma-se sumariamente numa vida inteira. Outras vezes, uma frase, num livro,num bilhete de cinema, no muro do facebook ou da cidade, transporta-nos tão longe quanto o horizonte.
Às vezes, uma frase escrita do outro lado do oceano, estremece-nos o chão e o corpo. Como se tudo estivesse unido pelo mesmo fio condutor de emoções e afectos sem latitude. Uma frase, devolve-nos a infância intacta, como se nunca a tivéssemos pensado de outra forma, a não ser daquela: resumida e singela como um gesto.
Alavancas emocionais, talvez. Umas fustigam-nos, outras, elevam-nos.
Às vezes, coisas arrumadas dentro de nós, algumas sobre as quais nunca falamos, chegam-nos incrivelmente actuais como se tivessem estado sempre ali, à vista, diárias como um jornal. E é nesses momentos que os meus olhos e os meus ouvidos e, até, o meu coração, não me são suficientes para que acredite nessa hora. Fico sempre espantada. E chamo quem estiver por perto se, por perto, estiver alguém que me possa emprestar os olhos, os ouvidos. Eventualmente, o coração. Só para que, quando eu duvidar - porque eu duvido muitas vezes – me possam assegurar que foi verdade. Para que não fique incrédula, encerrada no breve acontecimento, como num escafandro. Os pequenos acontecimentos - pequenos e breves - são sempre os mais significativos. Acontecem discretamente na nossa vida e, às vezes, a nossa vida nunca mais regressa como era.
Eu li: «Outono... e o meu passatempo favorito: chutar as folhas caídas na calçada». Emocionada, li novamente e novamente, ainda. Levantei-me. Dei uma volta à secretária, como se fosse ao mundo. Ao meu mundo. E voltei a ler. É tão simples. Meio mundo gostará de chutar folhas secas, no Outono, pensei. Mas porque é que eu nunca o li antes, por aí?
Chamei outros olhos para testemunharem o momento. Sei que o vou pôr em causa muitas vezes. E vou precisar de perguntar, como quem precisa de um abraço.
- Ora lê, por favor. E agora escuta.
Liguei à minha mãe, para me obliterar as recordações. Mais, até, para as legitimar. As recordações são como o poder, precisam de ser legitimadas. Algumas.
Aquela infância que me chega e que, ainda hoje, me empurra para o meio dos parques e me impele a chutar as folhas caídas, na relva ou no passeio, mesmo quando estou de tacões altos, precisava de outra voz que não a minha, para se tornar autêntica.
Saber sozinha desse meu ritual de outono era como se não fosse verdade.
- Mamã, o que é que eu gosto mais de fazer no Outono?
- Compotas, filha. Porquê? precisas de frascos?
- Não! O que é que eu mais gostava de fazer no Outono, em criança?
- Ah! Chutar folhas secas... e riu-se...parecias um rapaz...o que tu gostavas de chutar as folhas... e correr e saltar atrás delas. Estragavas tanto as botas – ortopédicas – lembras-te das tuas botas?
- Sim, azuis. Escuras.
- E gostavas de atirar as folhas para o lago e ficar a vê-las deslizar, como barcos, e gostavas de as meter dentro dos livros e de as pousar numa folha de papel e contorná-las com o lápis... e gostavas de as triturar, uma de cada cor, como se fossem especiarias. Tinhas uma sisma com a origem das especiarias. Lembras-te, filha? E de onde nascem as especiarias, mamã? E a pimenta nasce, onde? E qual é a árvore que dá açafrão? As especiarias nascem da folhas do Outono?
Sempre gostaste do Outono, filha. É verdade. Eu não. Não gosto nada do Outono. Deprime-me, este tempo. Como te foste lembrar disso, agora, filha?
Desse Outono, filha, agora tive saudades.
imagem: Zaclis Veiga

Dizer que sim à vida

Dizer que sim à vida
Dizer que não à morte
Dizer na despedida
Que o tempo é o mais forte

Dizer que sim à vida
Dizer que não à morte
Jogar na despedida
A carta que é a sorte

Dizer a toda a gente
Que o amor de repente
Entrou no nosso jogo
Dizer a toda a gente
Que o nosso corpo é quente
A nossa boca ardente
E a nossa alma fogo...

E se não for verdade
Tudo o que nós dizemos
Tudo o que nós sentimos
Também não é saudade
Por isso é que nos rimos

José Carlos Ary dos Santos

Os números na nossa conduta

«Es muy probable que la mejor obra de Víctor Hugo haya sido El arte de ser abuelo, un caudal inagotable de sabiduría e instrucciones precisas para que los abuelos puedan entrar de lleno en el fascinante mundo de los niños. Es la quinta esencia de la capacidad de innovar.

Los abuelos descubren que hay dos maneras de pensar: una que es propia de los artistas y los niños y la otra que es la metodología científica. La primera se mueve impulsada por la imaginación, la intuición, y su manera natural de expresarse es mediante fórmulas innovadoras. En ese tipo de pensamiento no importa en absoluto romper los cánones de la realidad; esta última se puede triturar y poner en su lugar diseños fabulosamente irracionales.

Los abuelos de verdad, después de tantos años de engaños sorteando pequeñeces sórdidas, se dejan embrujar por los universos repletos de sueños de la infancia. Los habían olvidado. No pueden compararse con el mundo ajeno que acaban de dejar atrás.

El pensamiento científico es la única flor en el desierto del pensamiento adulto, pero es extremadamente minoritario entre tanto pensamiento dogmático, heredado de los exorcismos surgidos en torno a la hoguera de los primitivos. Sólo lo salva una condición única y extraordinaria, que lo hace respetable, por una parte, y lo arranca, por otra, de los sueños en los que se desenvuelve el niño. Me refiero, claro está, al hecho de que el pensamiento científico se apoya en los hombros gigantes de los sabios del pasado. Los niños y los artistas, no. No cuentan con la sanción de las grandes mentes del pasado, pero tienen la libertad de inventar otros universos surgidos de la nada o de los genes.

[especialmente para ti, Marta M. vais adorar ler... minha querida]

sexta-feira, setembro 24

a noite pede música

Porto, Portugal: the perfect break


Quem disse good news, no news? ;)... é a minha cidade:) ...e é sempre bom vê-lo escrito!

«O jornal britânico Telegraph recomenda a cidade do Porto para umas pequenas férias de Outono. O diário destaca os charmes da cidade portuguesa, conhecida mundialmente pelo vinho do Porto.»
Fonte: TSF

...quem manda é a Patrícia Reis

[clique na imagem para aumentar. se estiver em Lisboa, não perca]

A Gaivota - no Teatro Nacional S. João


«O encenador Nuno Cardoso optou por não ter protagonistas: todos os actores contam a história. Até 3 de Outubro, no Porto.

"Medvedenko ama Macha, que ama Tréplev, que ama Nina, que ama Trigórin, que ama Arkádina, amará e deixará de amar Nina, a qual apesar disso continuará a amá-lo. Até o Velho Sórin confessa a sua paixão por Nina. E há também Polina que ama Dorn, sendo esposa de Chamráev." Partindo deste enleado novelo amoroso, Anton Tchekhov criou a peça A Gaivota, que o Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, estreia hoje, às 21.30, e na qual mais do que as questões de coração das dez personagens, o autor reflecte sobre a prática artística, num texto que exibe uma actualidade estonteante, apesar de escrita em finais do século xix.

Este é um autor muito caro ao encenador Nuno Cardoso, "pela empatia que se sente na sua escrita, pelos defeitos da condição humana". "A Gaivota é muito especial porque consegue sintetizar uma história que tem todas as características do olhar clínico de Tchekhov sobre a condição humana e a sociedade, com uma reflexão absolutamente sintética e elegante sobre o que é o acto de fazer arte", explica Nuno Cardoso, que dirige esta co-produção do Ao Cabo Teatro e TNSJ, e ainda do Centro Cultural Vila Flor, Teatro Aveirense e Teatro Maria Matos, salas onde a peça será também apresentada.

Sem protagonistas - "a equipa de actores é que conta a história, não há papéis principais" -, toda a acção desenrola-se junto ao "lago enfeitiçante", cenário que assume um papel determinante em toda a trama, que releva a ligação do artista com a vida e a ligação do homem com a realidade.

Cristina Carvalhal, João Castro, João Pedro Vaz, Jorge Mota, Maria do Céu Ribeiro, José Eduardo Silva, Lígia Roque, Luís Araújo, Micaela Cardoso e Paulo Freixinho estarão em cena no TNSJ até 3 de Outubro.
Pedro Vasco Oliveira
Fonte: aqui
[eu vou...]

afectos pós-modernos...

[ou não!...e andam assim... os tempos... ]

a noite pede música

O género epistolar em Vergílio Ferreira


[a propósito de cartas na literatura...andava eu aqui em pesquisas e encontrei este trabalho. gostei de ler, só porque Vergílio Ferreira é, para mim, um escritor de eleição. Cartas a Sandra e Para Sempre continuam, apesar do tempo em que os li, muito presentes]


«A utilização da carta como estratégia romanesca em Vergílio Ferreira poderia levar-nos,se a ocasião o permitisse, a problematizar a função deste género de discurso num quadro mais amplo - o da literatura portuguesa contemporânea, uma vez que uma parte significativa da literatura dos nossos dias tende a aproximar géneros consabidamente literários (refiro-me aqui sobretudo a um deles - o romance) de géneros tradicionalmente não literários ou, pelo menos,de géneros cuja inserção no campo literário é frequentemente ambígua e sujeita a oscilações de vária índole - conceptuais, terminológicas ou outras.
Em Vergílio Ferreira, o género epistolar percorre vários textos e textos de índole muito diversa, como demonstrou já Rosa Goulart num texto dedicado precisamente a esta questão, mas o interessante é que neste autor a atracção pelo domínio da epistolografia coincide frequentemente com o seu universo ficcional: este tipo de registo epistolar "ficcionalizado" ocupa um lugar preponderante no conjunto da obra do autor, situando-se no próprio núcleo da intriga romanesca, como em Cartas a Sandra, ou traçando para esta mesma intriga uma espécie de moldura epistolar que enforma e contextualiza a história que o narrador vai contando, como
ocorre no romance Em nome da terra. Outros casos há em que na ficção de Vergílio Ferreira avultam mensagens epistolares com uma posição absolutamente marginal em relação ao essencial da intriga. Neste último caso, a inclusão num romance de um texto de filiação epistolar não é em nenhum sentido problemática porque, constituindo o registo epistolarclaramente uma excepção no contexto romanesco que o envolve, é completamente absorvido por esse tecido ficcional que o acolhe.
Como quer que seja, e independentemente dos problemas que a sua utilização pelo
romance possa suscitar, o texto epistolar é sempre em Vergílio Ferreira um modo de
comunicação assumidamente dialogal que não anula inteiramente a expressividade
comunicativa do monólogo. Como o próprio Vergílio Ferreira afirmou, numa obra também elasujeita aos protocolos enunciativos da narrativa epistolar, Carta ao Futuro, «a epistolografia é a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. »
Isabel Cristina Rodrigues
Continua aqui.

quinta-feira, setembro 23

ela vive com um gato :)

[para a minha irmã...e não só]

O amor


Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante e os olhos encherem d'água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente divino: o amor.
Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.
Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.
Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado... se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados...
Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite... se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...
Se você tiver a certeza que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela... se você preferir morrer antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. É uma dádiva.
Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.
É o livre-arbítrio. Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.

Carlos Drummond de Andrade
imagem: Monique Lestner
[para a minha mana, na data de hoje ;)]

advertência literária

["O melhor destino é aquele que nos faz sentir em casa"]


["É fácil transformar as fantasias em realidade"]

O que é que estes dois livros têm em comum? Eu digo. Nem um, nem outro podem ser lidos numa sala de espera, onde outras pessoas esperem também, aparentemente ensimesmadas. Ou num pequeno restaurante onde o tilintar das louças e dos talheres parece abafar outros ruídos. Não abafa. A cada virar de página, num e noutro livro, pode escapar-nos uma gargalhada estridente. Também acontece de ficarmos profundamente alheados e, na sala de espera, não ouvirmos chamar pelo nosso nome. Se, por exemplo, não sorri há muito tempo não deverá começar nem por um, nem por outro. Pois é o tipo de leitura que, com frequência, eleva as maças do rosto e a alma com elas. Com as maças do rosto. Isto para dizer que as pessoas à sua volta podem a qualquer momento, irritadas - mas educadamente - perguntar:
- mas, afinal, está a ler o quê?
De modo que o melhor é fechar-se em casa, como num cofre, e ler. Ler muito. É.

quarta-feira, setembro 22

Quero apenas cinco coisas

Quero apenas cinco coisas…
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o Outono
A terceira é o grave Inverno
Em quarto lugar o Verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da Primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda

a noite pede música

meu amor muito querido

[hoje acordei com o título deste livro nos lábios. li-o há muitos anos, de autocarro em autocarro, a caminho da universidade. é pequeno, lê-se numa paragem. em, talvez, seis paragens. para ser mais concreta. logo, vou procurá-lo...
gostava de ler nos autocarros. muitas vezes me esqueci de sair. e chegava a um destino qualquer, como se o tivesse escolhido. tanta verdade, às vezes, quando nos distraímos pelo caminho]

terça-feira, setembro 21

porque o outono boreal está aí



Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo verão.
Ruy Belo
imagem: João Paulo Coutinho

a noite pede música

[só para disfarçar. porque continuo sem ver nada claro...]

aquilo de sentir muito


ainda há dias jurava a pés juntos, jurava é só uma maneira de dizer, que eu não gosto de juras, mas dizia-te com a alma inteira que não são as flores que correm atrás das borboletas. de qualquer forma, eu estava quieta. estou quieta. e as flores não param de voar. já não sei mais que faça. por isso, agora, sou eu a pedir-te que penses comigo. em voz alta, novamente, está bem? só para que soe verdade. para que não pareça eu a imaginar. recapitulemos: aquilo do amor. do amor não. que exagero. aquilo de sentir muito. prontos, está bem: as emoções, o teatro onde decorrem: o corpo. nada a ver com a alma. nada. um beijo a pousar na pálpebra dos olhos. muito suave. e o efeito disso no mundo. faz de conta. como se estivessemos a brincar com as palavras. eu sempre achei que podíamos brincar com elas. agora não. nem pensar. acendem-se. inventamos palavras e depois acontecem-nos. nunca perguntes: como são os teus dias? se não quiseres mesmo saber. e a pessoa tem mesmo de existir. não vale imaginar. é que um dia acordas com essa pergunta nos lábios, como se fosse uma urgência. até as palavras cruzadas me fazem impressão, agora. não as cruzo mais. juro que não. juro é só uma maneira de dizer, já sabes.
novos paradigmas. é sempre assim. um cientista - os cientistas sociais, por exemplo - desenvolvem teorias, correntes. e, depois, vem alguém e diz que aquilo tudo já não é verdade. epistemologia pura. mas faz-me mais impressão quando sou eu própria a desenvolver teorias, algumas, cristalizadas em convicções, fundas, até, e, depois, num ápice, já nada é verdade. mais grave: nem sequer percebo como acontece. como estou para aqui a sentir muito a sentir tudo incrédula, mais incrédula do que um ateu em deus. e mais quieta do que um barco em terra. sim, porque agora já não é seguro dizer que as flores estão quietas.
voltemos ao início: aquilo do amor. do amor não. que exagero. aquilo de sentir muito. falavas-me das memórias pelas ruas de granito, à beira rio e das saudades e eu dizia-te que sim, as saudades, que percebia bem. e, afinal, mais uma vez, procurei dentro dentro de mim, fora de mim e nada. das minhas saudades sem memória, não entendo nada. das tuas sim, são povoadas. na história universal das saudades nada remete para que se sintam saudades assim. nenhum link para essa janela.
sabes que mais? vamos parar aqui esta conversa. estou furiosa com as flores e comigo e com com Bach. ah! como estou furiosa com Glenn_Gould_Bach_sinfonia_no_2_in_C_minor.
as palavras acendem-se. acontecem-nos. e as flores andam por aí atrás das borboletas como se nada fosse. é tão absurdo que, hoje, não te consigo explicar mais nada. sinto muito. só isso.
imagem: Leila Pugnaloni

segunda-feira, setembro 20

a noite pede música

Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio


II
Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio
há uma ave onde este texto se apoia.
fecho os olhos, e o poema traz para este lugar
o búzio dos cofres.

escrevo em filigranas de ar
secretas harpas de sombras
onde as primeiras letras ousam pousar.
durante anos treinei o lúmen do coração
em cântaros de sol subindo os primeiros degraus

depois habituei-me à confidência das aves
pousada na inteligência dos bosques
movidos a vento e água,
acácia entre mãos

por último a ciência da respiração
no sumo das auroras

Maria Azenha in de amor ardem os bosques, poesia, 2010

de amor ardem os bosques I


A solidão era eterna
e o silêncio inacabável.
Detive-me com uma árvore
e ouvi falar as árvores.

Juan Ramón Jiménez





[depois do título - de amor ardem os bosques - é este o poema que se lê. na página anterior, assinala-se que o meu livro é o número 13 de uma tiragem de 250 exemplares. sorte.
é este o livro de poesia pelo qual ando apaixonada. a desfolhá-lo num e noutro canto da casa, na rua, num e noutro passeio, na minha memória, como se fossem regressos. ando grata, também. ao leitor silencioso que uma noite resolveu quebrar o silêncio para me falar deste livro. só ainda não lhe agradeci - um obrigada electrónico, ao menos - porque apaguei o e-mail. ando, também, um pouco menos ignorante. agora sei quem é Maria Azenha. um templo de palavras. vénia.

espanto, silêncio, paixão. só que num novo abecedário. como se antes
ninguém soubesse de que ardem os bosques]

domingo, setembro 19

a noite pede música

A génese dos heterónimos de Pessoa por Pessoa

Lisboa, 13 de Janeiro de 1935

Meu prezado Camarada:
Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.

[...]

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.
Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e cousas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro – os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.
Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas cousas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as cousas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do Chevalier de Pas... Cousas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida – ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura – cara, estatura, traje e gesto – imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto, vejo... E tenho saudades deles.

(Em eu começando a falar – e escrever à máquina é para mim falar –, custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz.)

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

Quando foi da publicação de Orpheu, foi preciso, à última hora, arranjar qualquer cousa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos – um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão...

Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos. Se há porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido – estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido –, diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!
[...]

Fernando Pessoa

in Fernando Pessoa Quando fui Outro,Luiz Ruffato, Editora Objectiva, 2010

imagem: António Costa Pinheiro

a noite pede música

Saudades

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência.

Clarice Lispector
imagem: Silvia Lorenzo

Book of Love

[...a pensar na Adelaide e no João...íssimas felicidades hoje, amanhã e pela vida fora...]

sábado, setembro 18

Eu gostava da minha casa na lua

Eu gostava da minha casa na lua, e coloquei-lhe uma lareira e um jardim no exterior (o que é que floresceria e cresceria na lua? Tenho de perguntar a Constance) e ia almoçar no ...meu jardim na lua. As coisas na lua eram muito brilhantes, e de cores estranhas; a minha pequena casa seria azul. (...) na lua falávamos uma língua suave, líquida e cantávamos à luz das estrelas...

Shirley Jackson

imagem: Leah Piken Kolidas

[depois claro que ando de muletas ;)]

O amor, quando se revela

O amor, quando se revela...
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p' ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.

Fernando Pessoa

imagem:Ursula I Abresch

sexta-feira, setembro 17

a noite pede música

Susannah McCorkle por Carlos Azevedo


[...] escrever sobre o quê?

Optei por escrever um curto texto sobre uma das minhas grandes paixões: a saudosa cantora Susannah McCorkle. Poucas cantoras me acompanharam tanto nos últimos anos como McCorkle: tenho todos os discos de estúdio que gravou, bem como as colectâneas publicadas pelas suas editoras, e raramente fico mais do que um dia sem ouvir pelo menos um; frequentemente, ouço diariamente mais do que um, ou passeio por vários.

The People that You Never Get to Love, de 1981, foi o primeiro disco de McCorkle que comprei, quando frequentava a universidade, nos anos 90 - o jazz era já, até mais do que hoje, o género musical que mais interesse me suscitava. A voz de McCorkle, apesar de ser um contralto extremamente sensual, era um instrumento modesto, sem grande amplitude, mas como o seu ídolo, Billie Holiday, McCorkle sabia retirar dela o máximo, através de ligeiras modulações e do enfase dado a certas palavras - ninguém interpretava uma letra com a precisão de McCorkle.

Susannah McCorkle (1946-2001) nasceu em Berkeley, na Califórnia, onde passou a infância e a adolescência. Estudou Literaturas Modernas na prestigiada Universidade da Califórnia. Nos anos 60 viajou para a Europa, onde viveu alguns anos. Em França apaixonou-se pela voz de Billie Holiday, cantora que passou a emular, ouvindo os seus discos e imitando o seu estilo – haveria de criar a sua própria voz, mas Lady Day seria sempre uma referência. Gravou os primeiros discos em Londres, tendo regressado aos Estados Unidos no final dos anos 70. Fixou residência em Nova Iorque, onde viveu até decidir por fim à própria vida, a 19 de Maio de 2001. Ao longo da sua carreira gravou 17 discos, alguns dedicados integralmente a um compositor ou letrista (Harry Warren, E. Y. Harburg, Leo Robin, Johnny Mercer, Cole Porter, Irving Berlin, George Gershwin). A música brasileira está presente em muitos dos seus discos, e é absolutamente fascinante ouvi-la cantar em português, sem sotaque, sendo quase sempre imperceptível que não se trata de uma cantora brasileira.

Enquanto escrevo, ouço Sabia, integralmente composto por canções brasileiras, gravado por McCorkle em 1990, e penso nas palavras sábias de Agustina Bessa-Luís: «Tanta coisa o naufrágio do tempo deixa na praia onde andávamos de pés nus, sem nos magoarmos. Magoamo-nos depois, no cristal das ondas altas.»

Carlos Azevedo

[um texto que adorei ler e fui buscar AQUI]

Cineliterário de volta, com Camille Claudel

após as férias, o Cineliterário está de regresso à Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão. hoje, às 21 e 30 horas, como habitualmente, lá estaremos, desta vez, para ver A Paixão de Camille Claudel.
o livro sobre o qual, depois do filme, incidirá o debate é a apaixonada obra de Anne Delbée, da Editorial Inquérito. e, como sempre, Cláudia de Sousa Dias a fazer as honras da casa...

mais outono em aguarela



[mais outono em aguarela. sons tons que nos acolhem e aquecem onde, às vezes, o sol de verão não chega]

imagem: Miguel Levy

[...acabei de o descobrir AQUI]

porque o outono está a chegar...

[um novo caminho musical que estou a gostar de descobrir...]

coisas de fada - [livros para a Guiné]

a Mafalda - já sabem - é uma fada. e, agora, como não pode estar connosco todos os dias, manda e-mails. o último diz assim:

[...] hoje peço-vos um livro. Um livro para a Guiné. Estou a começar a colaborar com a Acção para o Desenvolvimento (http://www.adbissau.org/adbissau/index.htm), que faz um trabalho meritório na Guiné-Bissau, sobretudo a nível de educação. Como devem imaginar, as carências são sempre muitas. Algumas delas têm a ver com a leitura. Leiam o ficheiro em anexo e acessem o site da associação que teve a ideia (http://www.afectoscomletras.com/pt/Arquivos.html). Têm lá o contacto da Prof.ª Isabel Levy, para onde podem enviar um livro. É tudo o que vos peço. Se cada um de nós enviar pelo menos um, já somos muitos. E se passarem esta campanha nos vossos locais de trabalho, pelos vossos amigos, nas escolas onde sei que alguns trabalham, seremos muitos, e os livros que eles receberão mais ainda. É assim que podemos ir mudando o mundo, um bocadinho de cada vez.

Vamos colaborar? Assim não se quebra a corrente da partilha... Conto com cada um de vocês! Depois digam-me que livro enviaram com todo o carinho! :)
Um abraço cheio de saudades, da vossa sempre amiga, Mafalda.

...ora digam lá que não são coisas de fada... :)

quinta-feira, setembro 16

às vezes tenho medo...


Às vezes tenho medo de esquecer tudo:

a casa onde nasci, o recreio

da escola, essas vozes

que lembram um copo de água

no Verão.


Jorge Gomes Miranda

o vento encantado, parou


[uma magnífica iniciativa, esta, de pedir a pintores para pintarem pára-ventos. lá, onde estive, na praia, estava o pára-vento pintado pela minha querida Catarina Machado. tamanha energia deixou o vento encantado. parado. e a mim também. parabéns. muitos, muitos.]

resumindo

[para a minha irmã]
[resumindo: o meu coração pertence-[te]]

My Everything

[há dias assim...e há pessoas que o adivinham ou lá o que é. obrigada]

quarta-feira, setembro 15

Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa


[para o Filipe porque também gosta de António Lobo Antunes]

Não estou deprimido, não me sobra tempo para depressões, sou apenas um homem, diante do seu espelho interior, que não gosta do que vê. O que poderia ter feito?
Este final de Setembro, o mês dos meus anos, tem-me custado. Perguntas sobre perguntas acerca de mim mesmo e a angústia do sentido da vida e da forma como me relaciono com ela. O que posso fazer, o que devo fazer? Há um livro a sair agora, trabalho noutro: e depois? Que significa isso para mim?
Os meus defeitos aparecem-me de forma muito clara e dolorosa. Não só os meus defeitos: as minhas insuficiências, os meus erros. Sempre imaginei que um livro resgatava tudo: não resgata. E no entanto continuo a escrever, como se esse acto contivesse em si a minha salvação. Sei bem que chegará um tempo em que apenas os livros hão-de contar porque eu, enquanto pessoa, não tenho importância alguma, às vezes nem para mim mesmo. Vou-me olhando de forma cada vez mais distanciada e sem indulgência. A impressão, melhor: a certeza de haver falhado. O quê? Não estou deprimido, não me sobra tempo para depressões, sou apenas um homem, diante do seu espelho interior, que não gosta do que vê. O que poderia ter feito? O que deveria ter feito? Esta permanente tortura que a gente disfarça. A ideia recorrente que aquilo, quer dizer que a única coisa que a vida nos dá é um certo conhecimento dela que chega tarde demais, sempre tarde demais. Grandes cães pretos que se entredevoram dentro de mim. Estas crónicas têm-se tornado, cada vez mais, um itinerário paralelo aos livros. Do ponto de vista da Arte recebi muito mais do que poderia ter desejado e no entanto trago as mãos vazias. Agora dei duas entrevistas, coisa que nunca deveria ter feito. Não ponho em causa a competência ou a honestidade dos jornalistas mas não me revejo em nada daquilo. Não sou assim e não sou capaz de exprimir o que sou. Os livros falam muito melhor do que eu.
O que aparece nos jornais é um estranho e até as fotografias são mentira porque não me pareço comigo. Acho-me cansado desses jogos. Apetece-me desaparecer atrás das palavras, ser de facto o ninguém que sou: um nome apenas, numa capa. E deixar o resto para mim, dado que não tem nenhuma importância colectiva.
Agora é manhã e está sol. Nenhum ruído à minha volta. Se eu pudesse passar a vida a limpo, como diz o Drummond, corrigia quase tudo. Que pena não podermos emendar os dias, o que fizemos, o que somos. Um demónio qualquer distorceu-me tudo ou fui eu quem distorceu tudo? Acabando esta crónica retomo a correcção do livro na esperança de, ao emendá-lo, emendar-me. Fui sempre honesto a escrever. E nas outras coisas? Estarei a ser pretensioso ao julgar que sim?
Agora é manhã e está sol. Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa, escreveu Fernando Assis Pacheco. Tão linda a minha cidade com sol, tão lindo o meu país com sol. Vem aí o outono, o inverno, o cinzento dos dias que desbota para nós. Não me apetece nada o frio, a chuva. Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa. Sinto-o na rua, mesmo com estes vidros baços.

- Está solzinho, que horas são?

perguntava o cego. Estes nossos diminutivos de que tanto gosto. Esta maravilhosa língua tão plástica, tão dúctil. Que sorte escrever em português. Fernão Lopes: esta minguada maneira de meu escrever. Esta minguada maneira de todos nós escrevermos. Nem há vento. Gatos e pombos. Fernão Lopes ou Fernão Mendes Pinto? Acabar a crónica, voltar ao livro na minha minguada maneira. Oxalá o sol continue parado sobre Lisboa, parado sobre mim e eu embalsamado nele. Vestido dele. Afogado nele. Se eu fosse Deus. Se eu fosse Deus era uma carga de trabalhos, não lhe invejo a sorte.
Ontem jantar em casa da minha mãe, com os meus irmãos. Valha-me isso. Umas noites saio dali mais em paz, outras numa guerra imensa comigo, levando todo o passado às costas, que alegra e dói. Nada mudou e tudo mudou: como eu gostava de ser pragmático em lugar de viver numa nuvem cujos limites, aliás, distingo mal. Ou então a nuvem sou eu. Gasoso. De que raio de substância sou feito? Estou a deixar a caneta correr ao gosto dela, sem policiar nada. Que
faça o que lhe apeteça. O sol desapareceu, voltou. Olho em volta, regresso
ao papel. Está solzinho, que horas são? O Júlio Pomar

- Aguenta-te

e há alturas em que é difícil aguentar, Júlio. Que raio de destino, que sina. A voz dele

- Como estás tu?

e a lata de me perguntar isto a mim que nunca sei como estou, nunca soube
como estava.

- Como estás tu?

é a pergunta mais difícil de responder do mundo. Na tropa tínhamos um dentista que era um soldado a quem ensinaram a arrancar dentes. A gente sentava-se numa cadeira de braços, ele pegava num alicate, dizia

- Frime-se

e começava a puxar. Estou a vê-lo tirar um molar ao capelão, com o joelho no peito dele porque o molar não vinha. Para o fim chorava o dentista, chorava o padre, secavam as lágrimas, o alicate avançava de novo

- Frime-se meu capelão

o capelão todo agarradinho aos braços da cadeira, o joelho imenso nas costelas, o barulho arrepiante do dente a quebrar-se, a ceder, a sair e o capelão branco como papel cavalinho a cambalear na parada. Nos momentos de desespero ordeno-me

- Frima-te

e começo a puxar o primeiro dente da alma que apanho, de joelho apoiado em mim mesmo. De modo que é o que vou fazer agora, neste final de Setembro que tanto me tem custado. Ao princípio escrevi: o que posso fazer, o que devo fazer. Pois bem, devo ordenar-me

- Frima-te

e tirar a minha chuva interior a alicate. Se com o capelão deu resultado porque bulas não há-de dar comigo? E depois de jogar aquilo tudo no balde

( - Quer ver o seu dentinho meu capelão?)

ser Deus por uns minutos e parar o sol sobre Lisboa. Ora aí está a solução: parar o sol sobre Lisboa, parar o sol sobre mim

- Frima-te António

até deixar de ter precisão de frimar-me

António Lobo Antunes

terça-feira, setembro 14

A noite desce, o calor soçobra um pouco


A noite desce, o calor soçobra um pouco.

Estou lúcido como se nunca tivesse pensado.

E tivesse raiz, ligação directa com a terra,

Não esta espúria ligação do sentido secundário chamado a vista,

A vista por onde me separo das coisas,

E me aproximo das estrelas e das coisas distantes -

[...]


Alberto Caeiro in Poesia, Assírio & Alvim, 2001

a noite pede música

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,

Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.


Há muitas coisas que eu quero ver.


Peço-Te que sejas o presente.

Peço-Te que inundes tudo.

E que o teu reino antes do tempo venha.

E se derrame sobre a Terra

Em primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Se você não pode amar, não ame;


Se você não pode amar, não ame; seja simples, seja humilde, faça calmo o seu trabalho, e deixe o resto. O amor é uma criação de beleza, como a pintura e a música; reserva-se a raros ser Ticiano ou Greco ou Mozart ou Bach; reserva-se a raros o privilégio de amar.

Agostinho da Silva in Sete Cartas a um Jovem Filósofo – Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro”, I, V, edição da Ulmeiro, 1990

imagem: Isabel Magalhães

Nomeei-te no meio dos meus sonhos

Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor

Ruy Belo

a noite pede música

domingo, setembro 12

Um homem ético


No centro de todos os olhares que confluem sobre Borges está a figura do notável e ponderado escritor. No entanto – e sem querer entrar com isto nesse requentado jogo do “duplo”, sobre o qual tanto se tem escrito – há outro Borges. Há um Borges que durante mais de oitenta e seis anos percorreu os corredores da vida social sem que ninguém tenha podido injuriar as suas atitudes.
Borges viveu a sua longa vida no quadro de uma constante austeridade. Habitou sempre em casas de classe média e, nos últimos quarenta anos - cerca de metade da sua vida – conviveu com a mãe no modesto apartamento de três divisões da Rua Maipú 994. Os Borges não eram uma família rica, embora nunca tivesses passado necessidades. Não eram latifundiários nem fazendeiros e não viviam de grandes rendimentos. Georgie começou a trabalhar de modo regular depois da sua segunda viagem à Europa, em 1927, quando foi admitido no diário La Prensa, e entregou-se depois, para ganhar a vida, a uma grande quantidade de tarefas, sempre ligadas à actividade literária. Foi secretário de redacção das revistas Obra e Anales de Buenos Aires, entre outras, trabalhou na Biblioteca Municipal Miguel Cané durante mais de sete anos, deu lições e conferências, foi professor na Universidade e escreveu uma infinidade de prólogos e textos com fins comerciais. São exemplos disso o trabalho que redigiu com Bioy Casares para a promoção do leite coalhado de La Martona ou o folheto que preparou para a companhia Varig a fim de salientar as virtudes turísticas do seu país.
Em matéria de alimentação, era sumamente austero: preferia um bom prato de arroz com queijo e prescindia, em geral, de bebidas alcoólicas. Quando bebia, nunca ia além de um copo de vinho. Gostava imenso de queijos. Quanto ao vestuário, era sóbrio e clássico; costumava usar fato e gravata e evitava as corres berrantes. Não teve automóvel e servia-se dos transportes públicos: o carro eléctrico, o metropolitano ou o autocarro. Também viajava, com frequência, de taxi. Durante os dezassete anos em que foi director da Biblioteca Nacional – nessa época, na Rua México – ia a pé para o local de trabalho, quer à ida, quer à volta, e nas viagens ao interir do país optava pelo comboio.
Nos seus últimos anos, quando era solicitado para uma infinidade de actividades e os seus rendimentos eram já importantes, confiou a gestão do seu dinheiro a terceiras pessoas e nunca soube, ao certo,quanto possuía. Em todos os momentos os seus interesses passaram sempre por questões literárias.
Alejandro Vaccaro in Fotobiografia de Jorge Luís Borges, pag. 170, Teorema

sábado, setembro 11

Sintó


Quando nos aniquila o infortúnio

o que nos salva por um segundo

são as infímas aventuras

da atenção ou da memória:

o sabor de um fruto, o sabor da água,

esse rosto que um sonho nos devolve,

os primeiros jasmins de Novembro,

o anseio infinito da bússola,

um livro que julgávamos perdido,

o pulsar de um hexâmetro,

a breve chave que nos abre uma casa,

o cheiro de uma biblioteca ou do sândalo,

o nome antigo de uma rua,

as cores de um mapa,

uma etimologia imprevista,

a lisura da unha limada,

a data que prócuravamos,

contar as doze badaladas obscuras,

uma brusca dor física.


Oito milhões são as divindades do sintó

viajando pela terra, secretas.

Esses modestos númenos tocam-nos,

tocam-nos e deixam-nos.

Jorge Luís Borges in Obras Completas, Editorial Teorema, 1989

A verdade


A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruina-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida.

Franz Kafka, in Conversas com Kafka

a noite pede música

sexta-feira, setembro 10

Arca D´Água


Há nomes mágicos, dizias tu, falando-me de lugares, pessoas, coisas: berlinde, Sara, Abril, concha ou jardim. Eu acrescentava: arca d`água, lembrando-me de um parque, altos plátanos, a continental cidade do Porto, azulejos amarelos entre o granito enegrecido pelos fumos.
As «ilhas» fugiam, numa paisagem de corredores estreitíssimos, celhas com a roupa da barrela, crianças e galinhas esgravatando a terra, humidade onde crescia o bolor e trepavam cogumelos. Arca d`Água ficava longe do centro e do rumor dos cafés. Alguém chorava junto a um dos plátanos.
Era um lugar de encontros clandestinos onde se trocavam pequenos jornais e palavras a meia-voz; onde se inventava a esperança desses dias. […]
Há nomes mágicos, insistias. Eu voltava a falar-te na Arca d´Água, como se pudesse, com qualquer abracadabra, atrair o espírito do lugar, o génio da lâmpada, o «abre-te Sésamo» para, desta vez, sair da caverna e ver a Luz.
Na ampla praça os plátanos moviam-se num soneto de Sena. As lâmpadas acendiam-se mais perto, rasgando o nevoeiro que rosnava nos telhados e já chegava às soleiras das portas. Era outro Dezembro, outra praça, outra vontade. […]

Eduardo Guerra Carneiro in Colectânea de Poesia sobre o Porto, Dom Quixote, 2001

imagem: Teresa Teixeira

[para ti, R., com toda a ternura de que sou capaz.
hoje.]

a noite pede música

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quinta-feira, setembro 9

Zaclis Veiga - luz, linha, papel

[ adoraria estar lá de corpo e alma. estarei de alma. muito de alma. com a alma inteira, nesta exposição da minha muito querida amiga Zaclis.
ficarei aqui, olhando pelas janelas que me abriste... sentindo muito. sentindo tudo.
e agradecendo a deus o cruzamento dos nossos caminhos e a árvore, aqui ao lado, que fizemos nossa ]

Os trabalhos de Zaclis revelam sua profunda intimidade com a luz, adquirida pela prática da fotografia – forma de expressão constante da artista.
Fotografou trabalhos feitos com dobraduras em papel, e, a partir do convite feito pela Secretaria Municipal de Esporte e Cultura para mostrar em Castro as fotos e os desenhos feitos em nosso atelier, pesquisou elementos que pudessem remeter à cidade e, assim, escolheu a partitura impressa da valsa “Vem”, de Bento Mossurunga. A partitura adquire, então, a função de suporte para novas experiências. Segundo Zaclis , “a sonoridade da canção de Mossurunga remete a idéia de vôo” e é por isso que recorta secções em forma de v nos papéis dobrados.
Ou seja, da simples proposta do desenho de observação das dobraduras do papel, Zaclis foi além dos contornos das formas. Seu olhar buscou os espaços vazados, registrando em nanquim sobre o branco do papel, a apreensão daquilo que já reside em sua essência: luz, clareza, objetividade.

Leila Pugnaloni
Agosto de 2010

quarta-feira, setembro 8

o Tarot de Tiago Taron

o resto do jogo está AQUI.
hoje, em Lisboa. inauguração: das 19 às 22 horas. até 1 de Outubro.
Tiago Taron na Galeria Bernardo Marques - Rua D. Pedro V, 81

Willow Weep for Me

II Soneto para Cesário


Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas


De uma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.

Dinis Machado
imagem: António Henriques