segunda-feira, maio 31

FADOS

poema de Cecília Meireles


Teu bom pensamento longínquo me emociona.

Tu, que apenas me leste,

acreditaste em mim, e me entendeste...profundamente.

Isso me consola dos que me viram,

a quem mostrei toda a minha alma,

e continuaram ignorantes de tudo que sou,

como se nunca me tivessem encontrado.


Cecília Meireles
IMAGEM:Tagreed Al Baqshi - Saudi Arabia

domingo, maio 30

a noite pede música

sexta-feira, maio 28

um poema Hilda Hilst


(…)

Ama-me.
É tempo ainda.
Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ternura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me.
Embora eu te pareça
Demasiado intensa.
E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre
É singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra.
Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?

E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos ventura?

Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?


Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.

Hilda Hilst, Noviciado da Paixão

Comunidade de Leitores Almedina

«É já este sábado, dia 29, pelas 17 horas que Alexandra Lucas Coelho se desloca à Comunidade de Leitores da Almedina, do Arrábida Shopping. Habituada a trabalhos em zonas de conflito (escreveu também a obra Oriente Próximo), a jornalista do Público, convidada da nossa tertúlia, vem conversar sobre o seu livro Caderno Afegão (Tinta da China) e o papel do grande jornalismo e da reportagem numa sociedade cada vez mais «internética». Não faltem!»

(a imagem é de Rabiscos Vieira)

[copiado daqui]

ladys G

a nova rainha pop. dizem. lady Gaga.

Duas Contas

[lindddddddddddddddddoooooooooooooooooooo. obrigada.]

quarta-feira, maio 26

As velas da memória


Há nos silvos que as manhãs me trazem
chaminés que se desmoronam:
são a infância e a praia os sonhos de partida


Abrir esse portão junto ao vento que a vida
aquém ou além desta me abre?
Em que outro mundo ouvi o rouxinol
tão leve que o voo lhe aumentava as asas?
Onde adiava ele a morte contra os dias
essa primeira morte?
Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz
Que plenitude aquela: cantar
como quem não tivesse nenhum pensamento.


Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra
deste mês de junho? Como te chamas tu
que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela vez...»?


Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?


E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde
chegar à boca da noite e responder



Ruy Belo in Aquele Grande Rio Eufrates


[logo às 21.30 horas no labirintho]

Sentimental Heart

terça-feira, maio 25

Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade


A verdade é amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista. Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em. razão ou mesmo em inteligência. Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. E só o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros — a política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.

Vergílio Ferreira, in "Pensar"

segunda-feira, maio 24

Declaração de amor à Pantera-Cor-de- Rosa II

Declaração de amor à Pantera Cor-de-Rosa

domingo, maio 23

domingo também pode ser...


domingo também pode ser acordar às 11 horas, sem despertador, claro, no meio de um silêncio tão transparente que não parece real. tomar café, sentir o barulho da manteiga a deslizar na torrada, sem culpa;ler o jornal e todo supermercado que o jornal tem dentro, como se tivesse todo o tempo do mundo. até desfolhar o caderno sobre golfe. como se me interessasse. letra por letra sentir a crónica da Inês Pedrosa e agradecer-lhe a sensibilidade e o bom senso. mais uma vez. descobrir que Miley Cyrus é, afinal, a Hannah Montana que a minha sobrinha adora e sorrir com saudades dela, da minha sobrinha. inventar qualquer coisa para o meu almoço na varanda, em frente à árvore. continuar a ler jornais e livros, em paz, como se a subida da Euribor me fosse indiferente. tão indiferente como Gaga ser a nova rainha pop.

sexta-feira, maio 21

Não te rendas


Não te rendas, ainda estás a tempo

De alcançar e começar de novo,

Aceitar as tuas sombras,

Enterrar os teus medos,

Libertar o lastro,

Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,

Continuar a viagem

Perseguir os teus sonhos,

Destravar o tempo,

Remover os escombros,

e destapar o céu.

Não te rendas, por favor não cedas,

Mesmo que o frio queime,

Mesmo que o medo morda,

Mesmo que o sol se esconda,

E se cale o vento,

Ainda há fogo na tua alma

Ainda há vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo

Porque o quiseste e porque eu te quero

Porque existe o vinho e o amor, é certo.

Porque não há feridas que não cure o tempo.

Abrir as portas,

Tirar os ferrolhos,

Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o repto,

Recuperar o riso,

Ensaiar um canto,

Baixar a guarda e estender as mãos

Abrir as asas

E tentar de novo,

Celebrar a vida e retomar os céus.

Não te rendas, por favor não cedas,

Mesmo que o frio queime,

Mesmo que o medo morda,

Mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

Ainda há fogo na tua alma,

Ainda há vida nos teus sonhos

Porque cada dia é um começo novo,

Porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, porque eu te amo.


MARIO BENEDETTI traduzido por Inês Pedrosa


[gentilmente roubado à Patrícia Reis]
imagem: Magritte

22 de Maio

hoje é um dia muito importante. para uma das estrelas da minha vida, a Francisca. hoje é, ainda, o dia da minha Santa Rita :) e, também, o aniversário de uma amiga de longa data e de infinitas cumplicidades. hoje é um dia feliz. muito feliz. um dia tanto tudo íssimo.

Neologismo


Neologismo: Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
...Intransitivo:
Teadoro, Teodora.


Manuel Bandeira
imagem: Almada Negreiros

Ouvi Dizer

amigo a gente sente


Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas.

Machado de Assis

[para todos os amigos que passam aqui e também para os que não passam. saudades. a vida é tão louca.
hoje, especialmente hoje, para a minha amiga mais recente: a Mafalda.
só para dizer que estou aí. contigo. de manhã :( e de tarde :) e pela vida toda, se quisermos.]

imagem: Mafalda Branco/ rosa albardeira

as if you have a choice

quarta-feira, maio 19

Como se filma?


«Façam luto à literatura!»
[lembras-te?]
E o nosso olhar voltou a sintonizar-se num espanto.
Foi no tempo em que fomos aprender a escrever guiões, como se não os tivéssemos todos cá dentro.
O problema é que estão cheios de literatura ou lá o que é.
Tu, com «aquele chão conhecia-lhe os passos», deste a deixa ao professor.
E como se filma? Como é que se filma um chão assim? [lembras-te?]
Ele a perguntar e a dizer que não se escrevem essas coisas. [para os filmes]
É de madeira? É de pedra, de terra?
Toda a gente sabe como é um chão que conhece os passos de alguém. Mas, pronto!
[ainda não tenho o fim. ainda não sei como vai acabar, não é bom, pois, não? desde que me
ensinaste o que aprendeste, tenho desvalorizado os princípios. estou concentrada no fim, mas ainda não o vejo. tem de ser o mais importante. o fim.]
Aprendemos tanta coisa, enquanto nos prendemos. Enquanto nos ligamos.
Ou estaríamos só a restabelecer filamentos ancestrais. Arquétipos de sonhos comuns?
«Frágil, viva, sempre em mudança, o guião é a crisálida». Ou serias tu?
Não me demorei a ver-te as asas. Mas, a tua aparência era assim: frágil, viva, em mudança. [como os guiões. como a vida.]
Queres vir? «Eu vou. Não sei se vá…Não sei se fique...»
Como se filma a hesitação de uma borboleta decidida?
[longe da literatura. foi o que anotei. porque luto, luto não fui capaz].
O signo, o fonema, o grafema. É cinema. [lembras-te?]
Técnica. Line-up. Out-line. Aprendemos muitas coisas. Planificações. Story-board.
Escrever cenas. Ordenar cenas. Inventar elipses. Alternar o dia e a noite.
[como se na vida real não fosse assim!]

Desejo + obstáculos = emoção.

Matemáticas de aparente equação fácil.
[talvez tenha começado a fazer estas contas muito cedo!]
Agora, vão para casa, leiam o jornal e inventem uma personagem. [queria dizer vida, mas disse jornal; lembras-te?]
A partir da notícia, inventem uma personagem e tragam-na já construída. [ele queria dizer vida. mas enganou-se, novamente e disse notícia. lembras-te?]
Única, com coerência, profundidade, acção. Narrativa. Transformação. Tensão.
Não se esqueçam que a personagem é mais do que aquilo que está ali, na história.
[se é! Se és. Muito mais do que nas nossas histórias. Agora ele acertou, o professor.]
E nós a aprender como se faz, como se filma.
E eu cada vez mais convicta de que os filmes são exactamente como na vida.
[menos quando precisas de um táxi com urgência, e esticas a mão...]
Nunca nada me parece de filme. Parece-me sempre tudo de vida!
E tenho motivos. Tantos motivos. A vida tem milagres. Milagres e assaltos.

Como se filma a minha vida sem esse dia de Janeiro?
Como se filma o nosso olhar a sintonizar-se num espanto?
Como se filmam as tuas asas a percorrer as nossas vidas?
Como se filma toda a ternura que pousas sobre nós?
Como se filma a minha vida sem os teus passos?
Diz-me.
Como se filma?

A flor e o espinho

[gostei tanto que a trouxe comigo. dali, do Terráqueo]

Descobertas


há dias que guardamos na memória do coração
assim,
como quem protege um piano.
depois, um dia, descobrimos que outros, tão perto, o guardaram também.
noutro tom. noutra idade. noutra música. noutra tela.
o mesmo dia.
[obrigada, Hélder M.]

Homens de Escabeche


O título, à partida, sem mais, faz-me sorrir. No entanto, o e-mail da minha Marta, diz assim: «Queridas amigas: ontem fui à estreia da peça "Homens de Escabeche", no Teatro Campo Alegre. Aconselho-vos a ir ver, é muito bom. Bj Marta
PS. levem um pacote de kleenex (dois, no caso da Marta V.)»

Não há melhor "publicidade" do que o passa a palavra, realmente...apesar de eu não ficar muito bem na fotografia, não resisti à " [in]confidência".
E se a Marta M. gostou e recomenda, para mim está validado.
Ora, então, quem vem comigo ao teatro? :) ;)

Pó de Arroz

Um ritmo perdido


Se uma pausa não é fim
e silêncio nâo é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
...um amor que é perdido,será acabado?

um ouvido que escuta
uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?

Nuvem solitária,
silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...

nuvem,
esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido..

nuvem,
luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...

nuvem que foste
e já não és:
desejo formulado e incompreendido.


Ana Hatherly
imagem: Ursula Abresch

terça-feira, maio 18

um imenso SORRISO

[ fui uma resistente. andei andei e nada. o facebook não me convencia. agora estou lá. e não saio. nem por decreto. se não fosse esta rede social não teria encontrado, pelo menos agora, meia dúzia de pessoas com quem, um dia me cruzei e fui feliz. a Maria Anadon é uma delas. paletes de anos sem nos vermos e, agora, encontrei-a... a ela, ao sorriso dela e ao disco dela que sai já dia 31 de Maio.
UM SORRISO no JAZZ.
se eu podia viver sem o raio do facebook? claro que sim...mas...]

segunda-feira, maio 17

Se alguém me perguntar


Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi

verdade - que não amei ninguém depois de ti nem

o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio

que não fosse a memória de um instante junto

do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste

por não suportar as palavras maiores longe da tua boca;

e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa,

acreditando que, se não me alimentasse, acabaria

por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas

a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.

[...]

Maria do Rosário Pedreira in O Canto do Vento nos Ciprestes

Dia Internacional dos Museus


Programação AQUI.

Being Julia

Amor. Obsessão. Vingança.


A ACTUAÇÃO DE UMA VIDA

«AS PAIXÕES DE JÚLIA conta-nos a história de uma bela e talentosa actriz de teatro, Julia Lambert (Annette Benning) me final de carreira na Londres dos anos 30. Os seus papéis, histórias de amor e animadas comédias sociais, são grandes sucesso, fazendo de Julia uma das mais amadas actrizes do seu tempo. Mas, o teatro, como na vida, as aparências são muitas vezes enganadoras. Julia atravessa uma crise de meia-idade e tanto o seu sucesso profissional como o seu casamento com Michael Gosselyn (Jeremy Irons) tornam-se banais e insatisfatórios. É então que conhece Tom Fennell (Shaun Evans), um belo e charmoso jovem americano, por quem se acaba por apaixonar. A vida torna-se então mais ousada e as suas 'performances' voltam a incendiar os palcos. Mas depois de desfrutar do seu dinheiro e das suas relações sociais, Tom dirige a sua atenção para Avice Crichton (Lucy Punch) - uma jovem actriz à procura de uma oportunidade no mundo do teatro. Aparentemente resignada perante os acontecimentos, Julia reúne todas as suas qualidades como actriz e astúcia a fim de tecer um plano brilhante para a sua vingança... »

...isto para dizer que está aí mais uma sessão do CINELITERÁRIO com Claudia Sousa Dias, na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Famalicão, dia 21 de Maio, às 21.30 horas.

Adaptado do Romance "A Outra Comédia" de W. Somerset Maugham. Um Filme de István Szabó. No fim do filme, como sempre, a troca de ideias...

domingo, maio 16

A Silent Film - Aurora

[roubado aqui, à minha querida Dalila. Lindo. como tu]

sexta-feira, maio 14

Aumento de impostos...

... sem corte na despesa.

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um país para governar
E não o fazer!
[...] não sabia nada de finanças
nem consta que saiba como sair desta.

...continua-se à espera de D. Sebastião, quer venha ou não.
[com um pedido de desculpa a Fernando Pessoa]

Américo, eu te amo, Américo...


Américo, eu te amo, Américo. Você tem uma loja de tecidos, uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar o meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Américo, tem tudo para me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos.Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar conversa: "Leva também um metro de amorim". Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro não tens? Uma colecção de marcas de cigarro e o retrato de sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida pra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.
Você passa e eu digo: boa tarde, Américo.


Adélia Prado, in solte os cachorros, Livros Cotovia
Quadro: Fernando Botero


[roubado a uma das minhas paixões blogosféricas: o Marcas.
e, agora, Paulo, o que me apetecia mesmo era ir a correr comprar o livro.
obrigada]

quarta-feira, maio 12

Profecias literárias...

“Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal”.

Eça de Queirós, 1872, in “As Farpas”

Roubado na íntegra AQUI. Obrigada Mike.

O coração...



O coração, se pudesse pensar, pararia.
Fernando Pessoa
Imagem: Leila Pugnaloni

segunda-feira, maio 10

o primeiro músico

O primeiro músico seria para mim aquele que só conhecesse a tristeza da mais profunda felicidade, e que ignorasse qualquer outra: até agora ainda não foi encontrado.
Friedrich Nietzsche in A Gaia Ciência

imagem: Jean Coulon

Tiago Bettencourt & Mantha - Canção Simples

sexta-feira, maio 7

Laura e Julio



[...]


Não trabalhava fora de casa, pois revelou-se escritor. Ou era assim, pelo menos, que ele se apresentava, como um escritor de grande talaento, embora sem obra.


- Como é que sabes que tens talento, se nunca deste a ti próprio uma oportunidade de o demonstrar? - perguntou-lhe Julio certa vez.


- Isso sabe-se - respondeu com uma ponta de cinismo. - Foi o meu olfacto de escritor, por exemplo, que me impeliu a tornar-me vosso amigo.


- Como assim?


- Vocês não se apercebem, mas são umas personagens muito romanescas, tanto observados em conjunto, como cada um por si. Podia escrever um romance sobre os dois, mas é melhor vivê-los que escrevê-los.


- O que é que eu tenho de personagem de romance?


- perguntou Laura, apanhada de surpresa pelas palavras de Manuel.


- A ambiguidade.


- O que é que isso quer dizer?


- Que podes ser compreendida de muitas maneiras, todas elas plausíveis. És um texto cifrado.


- E eu? O que é que eu tenho de personagem de romance? - perguntou-lhe Julio, mais para romper a bolha de onde, de repente, se tinham instalado Manuel e a mulher.


- O facto de estares louco.


- Como, louco?


- Completamente. Se queres que te diga, eu imagino-te como uma personagem que, um dia, durante a juventude, percebeu que estava louca e que, desde então, passa a vida a tentar ocultar esse facto. E, embora ninguém se tenha apercebido disso, nem a tua família, nem a tua mulher, nem os teus amigos,ambos sabemos que és louco: tu, porque sofres; e eu, porque sou escritor.


- Um escritor sem obra - acrescentou Julio, a rir, para esconder a perturbação provocada pelas palavras do vizinho.


- Relativamente. A descrição que acabo de fazer de ti é uma peça magistral.


Riram-se os três, embora uns mais do que outros. Enquanto ria, Julio sofreu uma experiência de desdobramento que lhe recordou o seguinte episódio de infância: ele e a mãe dirigiam-se para a escola de mãos dadas, enquanto se cruzaram com um menino cego que também seguia de mãos dadas à sua. Julio observou o menino com curiosidade, mesmo até com impertinência,e, nesse instante,como se no interior do seu crânio tivesse estalado a luz procedente de uma explosão nuclear, a realidade encheu-se de uma aura branca tão intensa que os transeuntes se converteram em fantasmas e a rua num cenário. A experiência não deve ter durado mais do que dois ou três segundos, durante os quais Julio se viu a si próprio a partir do menino cego. Ao desaparecer a aura e regressar à ordem anterior, o cego estava a comtemplar Julio das suas órbitas apagadas, e este pediu à mãe que mudassem de passeio. Agora, acabava de se desdobar na pessoa de Manuel. Durante umas décimas de segundo, durante as quais se manifestou de novo a aura que congelou momentaneamente os risos, Julio soube - porque não se tratava de um sentimento, mas de uma informação - que tinha estado por uns instantes dentro do corpo de Manuel, sem terabandonado, no entanto, o seu.


- E de que é que vivem os escritores sem obra? - perguntou ainda, para disfarçar a experiência que tinha acabado de sofrer e também para pôr em evidência a inutilidade de Manuel.


- Não sejas grosseiro - limitou-se a responder o escritor. - Ambos sabemos que ganhar a vida é vulgar.


Juan José Millás in Laura e Julio, pag. 13 e 14, Quetzal, 2007


imagem: Clarence Hudson

Matosinhos Jazz

"O Canto"



à procura de um excerto do livro "A Poética do Espaço" de Gaston Bachelard, que adorei ler, encontrei este filme. gostei tanto.

Meu bem é teu amor



Amanhã, dia 8 de Maio, às 22 horas, no Espaço Vinyl, Edifício da Orquestra Metropolitana de Lisboa! A não perder. Diz-me o coração!

«Entre os sons e as palavras, a tradição servida de fresco.
Canções e poemas de Trás-os-Montes, salpicadas com canções de
Lacerda, Croner de Vasconcelos, Pixinguinha e Baden Powell.

Com a inquietação a procurar descanso para além das serras, molhamos os pés no sal do
mar. Numa esperança que guiou tantos dos nossos emigrantes, num
português de ancas, zarpamos ao Brasil.
Porque todos somos nós.

Os textos tradicionais foram recolhidos junto da avó Margarida Fidalgo e da avó Maria das Dores.
As palavras foram adaptadas por Eduarda Freitas. Os sons foram ambientados por Melissa Fontoura e Eduardo Baltar Soares.

O projecto Grupetto é uma formação constituída por vários
elementos que pretende divulgar a música e a poesia numa comunhão
onde se misturam os sentidos e as harmonias. Uma espécie de
ondulação criativa à volta das palavras e dos sons, tal como o grupetto
na partitura musical. Assumimos uma geometeria variável, aberta às
mudanças, adaptável e fluída...

Nós hoje somos:

Melissa Fontoura - piano
Eduarda Freitas - dizedora
Nádia Fidalgo - canto
Eduardo Baltar Soares – guitarra »
[E no Porto, é quando?]

Mulher Mim


Mulher Mim de Rafaela Santos estará amanhã no palco da escola Oliveirinha, Carregal do Sal, às 21.30 horas. A primeira produção Magnólia Teatro decorre no âmbito do festival Palco para Dois ou Menos.
Depois, dia 4 de Junho, é a vez do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, receber a peça.
[«Magnólia Teatro, Companhia Profissional de Teatro, apresenta, com Mulher Mim, a primeira produção. Fundada em 2009, na região de Viseu, no âmbito da Amarelo Silvestre – Associação Cultural, a Magnólia Teatro pretende afirmar-se numa perspectiva de continuidade da actividade performativa, com o fito da dinamização de espaços convencionais e não convencionais, urbanos e rurais. A direcção artística da Magnólia Teatro é assegurada por Rafaela Santos.»]
imagem: Luís Belo

Zoom à realidade europeia

CONCURSO. DIA 9 DE MAIO. AQUI.

Dia da Europa em Matosinhos

«Entre 7 e 9 de Maio decorrem, em Matosinhos, as comemorações do Dia da Europa sob o tema "Venha descobrir o que a Europa Social faz por si". «Durante este período decorrerá no Jardim Basílio Teles um evento subordinado à temática da Europa Social, centrado numa grande tenda inspirada e ilustrada por imagens de circo, no âmbito do qual diversos organismos e programas europeus apresentarão as suas acções no domínio educativo e social. No programa estão previstas animações circenses durante os três dias, assim como apresentações artísticas de escolas de diversos pontos do país, apresentações de projectos europeus nas áreas artísticas e de inclusão social, desporto, debates e outras iniciativas. Os horários da tenda "Venha descobrir o que a Europa Social faz por si" serão das 10h00 às 19h00 nos dias 7 e 8 de Maio, e das 10h00 às 18h00 no dia 9 de Maio. À noite estão previstas sessões de cinema europeu ao ar livre (Jardim Basílio Teles) e um concerto da Orquestra de Jazz de Matosinhos.» A organização é uma parceria entre o Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu, a Presidência Espanhola do Conselho da União Europeia, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Portuguesa, a Câmara Municipal de Matosinhos e a Coordenação Nacional do Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social». Notícia retirada daqui.

quinta-feira, maio 6

a voz de Sofia

é já amanhã, em Espinho. Sofia Ribeiro & Gui Duvignau. eu não conhecia. e fiquei encantada.
«Sofia Ribeiro, dona de uma magnífica voz e de um talento que tem vindo a ser distinguido por toda a Europa e E.U.A., lança o seu terceiro CD.
Porto, em estreia absoluta neste concerto, é um projecto musical de convergência cultural, realizado em parceria com Gui Duvignau, cuja produção e origem dos seus integrantes transcendem fronteiras geográficas. Com fortes raízes lusitanas e brasileiras, as suas músicas transitam entre culturas, e equilibram-se entre a improvisação e a escrita de composições originais e de arranjos: um poema de Fernando Pessoa, uma canção de Tom Jobim, um fado.»
Auditório de Espinho - Academia de Música de Espinho
Bilheteira - De segunda a sexta-feira, das 09:00 às 13:00 e 14:00 às 17:00; Ao sábado, entre as 10:00 e as 12:00:
Em dias de espectáculo, uma hora antes do início do mesmo.
Rua 34, nº 884 - 4500-318 Espinho, Portugal
Tel.: (00351) 22 734 11 45 / 22 734 04 69 - Fax: (00351) 22 731 19 32 -
Email: auditorio@musica-esp.pt
Podem ouvir AQUI

quarta-feira, maio 5

John Nash

[...] «Ninguém mostrou uma obsessão maior pela originalidade, nem um maior desdém pela autoridade, nem mais zelo em preservar a sua independência: em jovem teve à sua volta os sumos sacerdotes da ciência do século XX - Albert Einstein, John von Neumman e Norbert Wiener - , mas não aderiu a nenhuma escola nem se converteu em discípulo de ninguém, tendo pelo contrário, em larga medida, percorrido o seu caminho sem guias nem seguidores. Em quase tudo o que fez - da teoria dos jogos à geometria - desprezou os conhecimentos recebidos, as modas comtemporâneas e os métodos estabelecidos. Trabalhava quase sempre só, habitualmente enquanto caminhava e, com frequência, ia assobiando Bach. [...] »

Sylvia Nasar in Uma Mente Brilhante, Relógio Dágua, 2002

[ao passear pelo facebook encontrei excertos deste filme que adorei ver. e fui à procura deste livro que tenho sublinhado e cheio de notas. a lápis e musicais. obrigada António]

segunda-feira, maio 3

um dizer ainda puro




imagino que sobre nós virá um céu

de espuma e que, de sol em sol,

uma nova língua nos fará dizer

o que a poeira da nossa boca adiada

soterrou já para lá da mão possível

onde cinzentos abandonamos a flor.



dizes: põe nos meus os teus dedos

e passemos os séculos sem rosto,

apaguemos de nossas casas o barulho

do tempo que ardeu sem luz.

sim, cria comigo esse silêncio

que nos faz nus e em nós acende

o lume das árvores de fruto.



diz-me que há ainda versos por escrever,

que sobra no mundo um dizer ainda puro.


Vasco Gato in Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000

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[Campanha de Recolha de Alimentos do Banco Alimentar Contra a Fome – Porto
29 e 30 de Maio (sábado e domingo). Inscreva-se como voluntário. A sua ajuda é preciosa]

Banco Alimentar Contra a Fome – Porto
Contactos para voluntários:
Alda Maia Rosa
alda.rosa@bancoalimentar.pt
campanhasbancoalimentarporto@gmail.com
229983141

Leerestademoda.com - BOOK

[respondendo ao apelo do Marcas. cá está. muito bom!]

celebra-se hoje

domingo, maio 2

um dia perfeito, como os caracóis da Ritinha

há quantos anos não fazia uma corrida de sacos? mil anos! e há quantos anos não jogava aos jogo do lenço e...há quantos anos não me divertia a furar balões [azuis, a cor que saiu à nossa equipa] de olhos vendados? jogo das latas, da corda, futebol com e sem bola, corrida com 3 pernas!!! à noite, caí na cama como uma criança. cansada e feliz. um dia na quinta. com direito a piquenique e tudo. uma iniciativa fabulosa, organizada pela catequese da Francisca, minha sobrinha. o Miguel, irmão da Francisca, 4 anos [na imagem] resumiu, assim, o dia:
- sabes tia, foi um dia bonito como o cabelo da Ritinha!!!
[menina com quem brincou mais...nesse dia... dona de uns caracóis perfeitos]
bem!!! como será aos 14. aos 24. aos 44 anos, a capacidade de expressão do nosso Migas? :)

Lindo!

[obrigada, Mafalda. não conhecia. amei]