quarta-feira, março 31

Metade da Gente do Mundo


Metade da gente do mundo ama a outra metade,


metade da gente odeia a outra metade.


Por causa desta e daquela metade terei eu de vaguear


e me transformar incessantemente como chuva no seu ciclo,


terei eu de dormir entre rochas, tornar-me áspero


como os troncos das oliveiras,e ouvir a lua uivar para mim,


e camuflar o meu amor com receios,


e brotar como erva assustada entre os carris


do caminho de ferro,


e viver submerso como uma toupeira,


e quedar-me com raízes mas sem ramos,


e não sentir a minha face contra a face de anjos, e


amar na primeira caverna, e casar com a minha mulher


sob uma abóbada de vigas que sustentam a Terra,


e expressar a minha morte, sempre até ao último sopro e


às últimas palavras e sem nunca compreender,


e colocar mastros sobre o telhado da minha casa


e um abrigo antiaéreo debaixo dela.


E ir apenas para regressar e passar por todos os lugares –


gato, pau, fogo, talhante, entre o cabrito e o anjo da morte?


Metade da gente ama,metade da gente odeia.


E qual é o meu lugar entre tais iguais metades,


e por que fenda verei eu o bairro de casas


brancas dos meus sonhos e as pegadas nuas


na areia ou, pelo menos, o lenço da mulher que acena


junto às dunas?


Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita

retirado daqui.

Cosa dire!

Deixo um recado no Muro

[...] É aqui também que se crê estar o Centro do Mundo, simbolizado por uma bacia com água. Olhei-a longamente e, aí sim, senti que perante aquela bacia tosca, de pedra velha, podia estar uma ideia maior que o Homem. O centro do mundo deveria concentrar tudo o que temos de melhor. Os turistas acotovelam-se para ver. Os franciscanos cantavam qualquer coisa. E eu fiquei ali. Queria tanto entender[...].Chegas ao Muro. Homens do lado esquerdo com os kippa na cabeça, mulheres do lado direito. As mulheres são muito novas. Andam de trás para a frente e enfiam o rosto no «Livro das Lamentações» e não lêem, debitam, e é um choro constante que impressiona e arrepia. Os cânticos fúnebres, kinot,enchem-me os olhos de lágrimas. Lembro-me da minha mãe. Saio da zona do Muro às arrecuas, para não ofender a Deus.
Deixo um recado no Muro. Trabalhei nele uma noite inteira. Não sabia o que dizer. Escrevi: Perdoa-me, devolve-me a paz que tinha quando estava no teu regaço, no seio da minha mãe. Deixa-me. Encontra-me. Não posso continuar assim. Ouve-me hoje. Ajuda.me amanhã. Não sei se acredito. Não te minto. Mas hoje ouve o meu coração e junta-o ao teu [...].

[o certo é que sei esta oração de cor. gosto tanto.
tanto.tanto. mesmo muito. íssimo.]
Patrícia Reis in No Silêncio de Deus

imagem: daqui

viagem a uma das 7 maravilhas do mundo


Petra, Jordânia

[está quase, quase]

é lindíssimo!

poema de Constantino Cavafis.

[há dias assim. tanto. que não consigo dizer mais nada. ouçam. é lindíssimo]

terça-feira, março 30

Fala-nos da Conversa


Então um erudito disse, Fala-nos da Conversa.
E ele respondeu, dizendo:
Vós falais quando deixais de estar em paz com os vossos pensamentos, e
quando já não conseguis lidar com a solidão do vosso coração, viveis com os
lábios e o som é uma diversão e um passatempo.
E, em muita da vossa conversa, o pensamento fica amordaçado.
Pois o pensamento é um pássaro do espaço que numa gaiola de palavras pode
abrir as asas mas não pode voar.
Há muitos de entre vós que procurais a conversa com medo de estardes
sozinhos.
O silêncio da solidão revela aos vossos olhos os vossos eus despidos e eles
querem escapar.
E há aqueles que falam, e sem conhecimento ou premeditação revelam uma
verdade que nem eles próprios entendem.
E há aqueles que têm a verdade dentro de si, mas não a dizem por palavras.

E é no seio destes que o espírito habita em silêncio rítmico.
Quando encontrais o vosso amigo na rua ou no mercado, deixai que o vosso
espírito conduza os vossos lábios e dirija a vossa língua.
Deixai que a voz dentro da vossa voz fale ao ouvido do seu ouvido, pois a
sua alma guardará a verdade do vosso coração tal como se guarda o sabor do
vinho. Quando já se esqueceu a cor e já não temos a taça.

Khalil Gibran in O Profeta

Pequenos nadas

domingo, março 28

Carta


Nunca estive tão sozinho


nos caminhos da tristeza


nos campos de outra nobreza


nos lagos de tanto vinho




Nunca estive tão sofrido


nos trilhos da solidão


nas carreiras da paixão


nas dentadas desse pão




Nunca estive tão cansado


nas calmarias de um bar


nas paradas de um olhar


nas tatuagens de um fado




Nunca estive tão assim


tanta rama e tanta gana


tão maduro e tão sem cama


tão seguro e tão sem fim



lyrics: Ruy Gerra / música: Francis Hime
[roubado ao blog Papo Cultural]
imagem: Humberto Verdolia

Pelo Amor de Judith

está entre os livros que mais me disseram. que mais dei a ler. é uma história fortíssima. muito, muito bem escrita. em vez de capítulos, está dividido em refeições. já o li há uns anos e, agora, a caminho de Israel senti vontade de lhe pegar. como quem pega ao colo.
PELO AMOR DE JUDITH. chama-se assim. foi por ele que comecei a ler Meir Shalev. depois, li-lhe outros. mas este é tipo "não há amor como o primeiro".


«[...] O globo terrestre girava. O Inverno terminava. Como as criaturas da Primavera são submissas: os pombos cantavam, as flores da macieira agitavam a sua corola, à qual se apegavam as abelhas, suas damas de honor, e sob o olhar de Jacob vacilavam borboletas, entontecidas, presas na rede da sua memória.
Dominavam o dourado e o verde. O sol estava aceso - como eram familiares, como eram belas essas imagens - e já um pequeno pica-peixe planava por cima do seu reflexo, o vento rebolava-se nas folhas das bétulas, as raparigas partiam para o rochedo na curva do rio, para lavar os vestidos e os lençóis.
Então, contava-me Jacob, pintaram-se-lhe no coração as cores básicas do amor, porque no amor de uma criança, decretou ele, o espanto é mais importante do que a paixão, o encantamento leva a melhor ao ciume, e esse amor é maior do que todos os amores que hão-de vir, pois a sua força e o seu peso são os de todo o seu corpo.
Na sua infância, prosseguiu ele, não tinha gostado de uma mulher única, mas sim de todas as mulheres, tinha amado também a terra que lhes transportava a nostalgia do amor, e o céu que lhes protegia a beleza do rosto, e o Deus Um dos Judeus que as tinha colocado na ombreira da sua porta.
Invejava os joelhos delas sobre a ardósia negra.
Devido ao local e ao ângulo, as raparigas pareciam flutuar sobre as águas abundantes e radiosas de sol. O vento brincava com os seus vestidos, moldava, enfolava, desenhava.
«A imagem de sempre do amor», repetia-me Jacob, usufruindo não apenas a recordação, mas também a expressão que a sua língua hesitante tinha conseguido formular».


Meir Shalev in Pelo Amor de Judith, pag. 293, Difel, 1994

Um mistério em Serralves

já está aí e os meus sobrinhos - os mais velhos - vão adorar ler...
mais uma aventura. desta vez, na porta, aqui ao lado :)

sábado, março 27

Miguel Torga na voz de Aurelino Costa

a não perder, às 17 horas, na FNAC do Norte Shopping

a noite pede música

Vamos ao Lugar do Desenho


Eu já disse aqui que sou fã do grande Mestre Júlio Resende? Sim. Acho que sim. Mas não faz mal. Volto a dizer. E do Lugar do Desenho, também. Pois hoje - está sol lá fora - estão todos convidados. Deixo aqui o convite. Tal e qual o recebi.
«Pela presente vimos CONVIDAR e solicitar a V.Exª(s) a DIVULGAÇÃO da Exposição a inaugurar no próximo dia 27 de Março (Sábado) pelas 17h00 no “Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende”.
AGOSTINHO SANTOS
TÍTULO: Penso, logo Desenho
DATA: 27 de Março a 24 de Abril de 2010
LOCAL: Galeria de Exposições Temporárias

Continua patente:
JÚLIO RESENDE (obras do acervo do Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende)
TÍTULO: Caderno de Viagens JÚLIO RESENDE - Goa Cabo Verde
DATA: 31 de Outubro de 2009 a 18 de Abril de 2010
LOCAL: Galeria do Acervo

R. PINTOR JÚLIO RESENDE 346 -
4420-534 VALBOM GONDOMAR 224 649 061 / 62 - FAX.: 224 630 325
E-mail: info@lugardodesenho.org - Site: http://www.lugardodesenho.org
HORÁRIO DE VISITAS:
DE TERÇA A SEXTA-FEIRA DAS 14H30 ÀS 18H30
SÁBADO E DOMINGO DAS 14H30 ÀS 17H30
Encerrado Segundas-feiras, Feriados e mês de Agosto
ENTRADAS : € 1.00 - Entrada normal € 0.50 - Mais de 65 anos e estudantes Entrada livre: Associados e Amigos da Fundação, Crianças e Visitas organizadas.
Nota: em dias de Inauguração e outros eventos a entrada é gratuita
Agora, só falta mesmo estarem presentes :)
imagem: Mestre Júlio Resende

quarta-feira, março 24

ando a ler...

e por este andar, andarei... nunca mais é logo...a ver se lhe volto a pegar.

Poesia vertical


Cada poema faz olvidar o anterior,

apaga a historia de todos os poemas,

apaga sua própria historia

e até apaga a história do homem

para ganhar um rosto de palavras

que o abismo não apague.


Também cada palavra do poema

faz olvidar a anterior,

se desprende um momento

do tronco multiforme da linguagem

e depois se reencontra com as outras palavras

para cumprir o rito imprescindível

de inaugurar outra linguagem.


E também cada silêncio do poema

faz olvidar o anterior,

entra na grande amnésia do poema

e vai envolvendo palavra por palavra,

até sair depois e envolver o poema

como uma capa protetora

que o preserva dos outros dizeres.


Tudo isto não é raro.

No fundo,

também cada homem faz olvidar o anterior,

faz olvidar a todos os homens.



Se nada se repete igual,

todas as coisas são últimas coisas.

Se nada se repete igual,

todas as coisas são também as primeiras.

Roberto Juarroz
[tradução de Gerana Damulakis]

imagem: rosa meditativa, retirada daqui.

Entre dos Aguas

Mostra do Documentário Português


«Panorama reflecte sobre ensino e documentários
Sessenta e três documentários integram a Panorama - 4.ª Mostra do Documentário
Português, a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa, de 9 a 18 de Abril.
“Como se ensina o documentário português?” é o tema da edição deste ano da Panorama. Na rubrica “Percursos no documentário português” será visitada a obra de António Reis e Margarida Cordeiro, através de quatro filmes do casal: “Jaime” (este ainda não assinado por Margarida Cordeiro, mas no qual participou), filme que abre a mostra, “Trás-os-Montes”, “Ana” e “Rosa de Areia”.
Esta edição da Panorama pretende ainda traçar o retrato do cinema de hoje a partir da constatação de que num ano de produção se destacaram filmes que romperam com fórmulas e reinventaram soluções práticas.
A mostra integra ainda um debate sobre as relações entre o documentário e uma programação intermédia com fi lmes produzidos na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde António Reis foi professor e considerado “mestre”.
Entre estes encontram-se as primeiras obras de João Pedro Rodrigues,Joaquim Sapinho e Joana Pontes.»

Notícia retirada daqui.

segunda-feira, março 22

Tivesse ainda tempo e entregava-te o coração


A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça in A que distância deixaste o coração

post preguiçoso

[faça a sua, pf. ... não estou nervosa :) que eu, quando estou, como sabem, faço listas...]

sempre fabulosas


conta-me como foi...

água é vida


sexta-feira, março 19

Comunidade de Leitores



«É já este sábado, dia 20 (véspera do Dia da Poesia), que Maria do Rosário Pedreira, a poetisa e nova editora do grupo Leya, estará à conversa com a Comunidade de Leitores da Almedina do Arrábida Shopping. A tertúlia com a autora, que excepcionalmente começará às 16 horas, terá como ponto de partida o seu livro de poemas “O Canto do Vento nos Ciprestes” (Gótica), mas a discussão está, como sempre, aberta a todas os temas relacionados com a escrita e a literatura.»


Retirado daqui.


imagem: Nelson D´aires


As raparigas amam muito.



As raparigas amam muito. Riem

atrás das mãos uma manhã inteira

para esconder o vermelho dos

beijos que alguém lhes roubou e

um nome que vão deixar escapar

entre as primeiras palavras que

disserem. Vestem do avesso os



aventais de chita e fazem o leite

sobrar do fervedor e o caldo ser

mais salgado do que o mar. Mas



é bonito vê-las caminhar descalças

ao longo do corredor, como se

pedissem um par para dançar. As



raparigas amam tanto. Sentam-se

em rodas de segredos uma tarde

inteira e esquecem no tanque os

colarinhos sujos das camisas, e os

cueiros, e uma barra de sabão a



derreter-se como o seu coração.



Mas é bonito vê-las beijar a boca

ao espelho no quarto das traseiras

e também a outra boca no retrato

que a seguir escondem amordaçado

na algibeira, não lhes cobice alguém

o que não tem. As raparigas amam



de mais. Deixam-se ficar sem dizer

nada uma noite inteira, bordando

no linho dos enxovais letras secretas

ao calor do fogão. E picam os dedos



distraídos nas agulhas que usaram

para descobrir o sexo de cada filho

que terão num jogo que jogaram

entre elas à tardinha. Mas é bonito



vê-las ao serão, quando o vento as

chama atrevido da cozinha e dão

um pulo seco na cadeira, e largam o



bordado e a lareira, e correm até à

porta a colher beijos que lhes deixam

risos nos lábios tão vermelhos como

as mais doces cerejas deste verão.


Maria do Rosário Pedreira in “Nenhum nome depois", edição da Gótica
imagem: Tarsila do Amaral

quinta-feira, março 18

Segunda infância


À tua palavra me acolho lá onde

o dia começa e o corpo nos renasce

Regresso recém-nascido ao teu regaço

minha mais funda infância meu paul

Voltam de novo as folhas para as árvores

e nunca as lágrimas deixaram os olhos


Nem houve céus forrados sobre as horas

nem míseras ideias de cotim

despovoaram alegres tardes de pássaros

O sol continua a ser o único

acontecimento importante da rua

Eu passo mas não peço às árvores

coração para além dos frutos

Tu és ainda o maior dos mares

e embrulho-me na voz com que desdobras

o inumerável número dos dias

Ruy Belo , Obra Poética, vol. 1, Presença, Lisboa, 1981
[infelizmente desconheço o autor da imagem]

vá lá...votem neste olhar


faltam 6 dias para a votação terminar! espreitem o blog da SONJA e, depois, verão que é impossível não votar no seu ...olhar...tão especial. AQUI.

IMAGEM: Sonja Valentina

Pigmalião e Galateia


«O Teatro Oficina, em colaboração com o Centro de Computação Gráfica da Universidade do Minho, promove este projecto de criação, onde arte e ciência, teatro e tecnologia se unem para contar uma história, transformando a ficção científica de ontem no modo de representar hoje a realidade. Três cidades unem-se para contar uma história, onde recorrendo à literatura que construiu a civilização que somos hoje, fazemos um texto novo, que fala exactamente daquilo que nos interessa no teatro, a criação do humano.
Este espectáculo é uma variação sobre a história de Pigmalião e Galateia, contada pelo Ovídio nas “Metamorfoses”: o escultor solitário e esteta que constrói uma estátua da mulher perfeita, se apaixona por ela, e a vê depois transformada numa mulher real. Através do mito de Pigmalião é explorada a ideia da “invenção do feminino”. Partindo-se do Ovídio, e das várias traduções portuguesas e estrangeiras, fazendo da estátua um programa de computador e da Galateia um holograma. Já com Galateia materializada em pessoa, contesta-se a ideia de “mulher perfeita” perguntando-se porque é que a mulher há-de continuar a ser “inventada” pelo homem, em vez de ter o mesmo grau de realidade do homem. Do lirismo da homenagem ao mito, se caminhará para a crítica e ironia.»
Texto: Pedro Mexia Encenação: Marcos Barbosa Cenografia: Ricardo Preto Figurinos: Susana Abreu Desenho de luz: Pedro Carvalho Som e música: Sérgio Delgado Elenco: Diana Sá e Emílio Gomes Produção executiva: Teatro Oficina
A ver no Theatro Circo, em Braga. Hoje, amanhã e depois. Mais informação AQUI.

quarta-feira, março 17

Quem pagará o enterro e as flores...



Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?

«Documentário sobre a vida, a obra, a família, os amigos e os amores de Vinicius de Moraes, autor de mais de 400 poesias e cerca de 400 letras de música. Incrível longa-metragem que não restrige apenas à vida artística de Vinicius, à sua vida pessoal, marcada por muitas paixões, nove casamentos e amizades duradouras, mas também é retratada por raridades em arquivos, depoimentos de amigos e familiares.».

O filme de Miguel Faria Jr. é apresentado, hoje, na FNAC de Santa Catarina e no próximo dia 24 na do Gaia Shopping.

Poema para Galileu


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,

aquele teu retrato que toda a gente conhece,

em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce

sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.

Disse Galeria dos Ofícios.)

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.


Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…

Eu sei… eu sei…

As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.

Ai que saudade, Galileo Galilei!


Olha. Sabes? Lá em Florença

está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.

Palavra de honra que está!

As voltas que o mundo dá!

Se calhar até há gente que pensa

que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileo,

a inteligência das coisas que me deste.

Eu,

e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste,

ia jurar- que disparate, Galileo!

- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça

sem a menor hesitação-

que os corpos caem tanto mais depressa

quanto mais pesados são.



Pois não é evidente, Galileo?

Quem acredita que um penedo caia

com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.



Estava agora a lembrar-me, Galileo,

daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo

e tinhas à tua frente

um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo

a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,

que parecia impossível que um homem da tua idade

e da tua condição,

se tivesse tornado num perigo

para a Humanidade

e para a Civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,

e percorrias, cheio de piedade,

os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.



Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,

desceram lá das suas alturas

e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,

nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual

conforme suas eminências desejavam,

e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal

e que os astros bailavam e entoavam

à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias

nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,

aquelas abomináveis heresias

que ensinavas e descrevias

para eterna perdição da tua alma.

Ai Galileo!

Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo

que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,

andavam a correr e a rolar pelos espaços

à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.



Por isso eram teus olhos misericordiosos,

por isso era teu coração cheio de piedade,

piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos

a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,

resististe a todas as torturas,

a todas as angústias, a todos os contratempos,

enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,

foram caindo,

caindo,

caindo,

caindo,

caindo sempre,

e sempre,

ininterruptamente,

na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão

Sidereus Nuncius


«O Mensageiro das Estrelas [ou Sidereus Nuncius] é o primeiro livro de Galileu Galilei a ser traduzido integralmente em Portugal e é lançado hoje , às 18h, na sessão de encerramento do Ano Internacional da Astronomia»

Mais aqui.

terça-feira, março 16

Um livro para Vila D´Este


o objectivo é ultrapassar os 8 mil livros. até Abril - 30 de Abril - podem ser entregues aqui:



Faculdade de Direito da Universidade do Porto;
Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Instituto Politécnico do Porto;
CPipp - Casa do Pessoal do Instituto Politécnico do Porto;
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto;
Contrato de Desenvolvimento Social de V N Gaia: AGIR XXI;

ver reportagem aqui.

Para mais informações contactar directamente o AGIRXXI através do número de telefone 227843295 ou através do e-mail: agirxxi@gmail.com.

segunda-feira, março 15

O dia estava acabado.


«Mas o que enfim se não entende
É que aquele que se prende
É quem nos prende a nós»
Gustavo Matos Sequeira in Bocage

O dia estava acabado. Ao menos para aquela gente. Ao seu sinal de arrastar a cadeira tinham-se levantado, os apetrechos sumptuários já arrumados nas pastas, nas carteiras de marca enormes das mulheres, para todo o serviço. Alguns, em desfastio subreptício, guar­davam a esferográfica posta à disposição, as folhas A quatro virgens de notas e rabiscos, com o timbre da casa. A fadiga, o alívio. A reunião correra muito bem. As congratulações finais. A repugnância.

Diante do espelho enche a concha das mãos de água fria. Passa a cara, a água gelada dos canos desliza pelo interior dos punhos aos pulsos. O arrepio passa ànuca, às espáduas. Olha-se, vê-se. As bolsas do des­gaste, a cara sem decifração possível ainda afivelada. O sangue sobe ao estímulo do frio. Remoça em segun­dos para aparar a noite. A bela feição a cinzel. Nada mudou no espelho da emanação dos balneários, dos sanitários de liceu, de hotéis e casas. Nada. Dorian Gray ao invés. O olhar fixo que ainda transtornava os lugares públicos, passeado, fixo e solto. A avaliação que demite, o desprezo.

Enxuga a cara. Um rubor de pedra nos malares. As pessoas são escolhidas pelo que têm, não pelo que lhes falta. Lei da selva? Exactamente. Incompetentes, obtu­sos, cães da intriga uns dos outros, da sua. A figura no espelho encolhe os ombros, arremeda-o num esgar a reaver a lassidão da pele enxuta. Penteia-se, acha-se bem naquele rosto que vem da terra. Da terra, dissera-lhe o amigo há tantos anos. Da terra, como um usur­pador a cavalo, com esses olhos mongóis. A guinada na memória afasta-o do espelho.

A reunião correra bem. Iam satisfeitos consigo, coniventes com ele até à próxima intriga, aos vapores da cobiça e da intriga apaixonada em todos os escalões. Aquela gente não tinha vida própria sem noticiar-se, sem denunciar-se. O trabalho não era conseguir, era resultar contra alguém. E ele, onde chegara e porquê, o afecto, todo o afecto coarctado. Temido sem estima, informado a medo, arredio à convivialidade e à delação. O cargo. Exactamente. Uma carreira temível, esco­lhido sempre mais alto em momentos de risco, não dê fraqueza. Quando se requeria uma testa de ferro. Riu-se sozinho, que era como se ria, lembrando-se da mulher que já não tinha, que nunca quisera ter. Objec­tos que não consumia, não consumira ninguém. Reti­rava, sem desejo na alma, um mínimo. Os outros impacientavam-no, e as emoções.

No elevador os espelhos já foram como se não exis­tissem. Pelo palácio quase vazio onde não fez som, os funcionários menores levantaram-se à sua passagem. Eram os únicos que pareciam agradecidos da sua brus­quidão, que lhes enformava as vidas num sem sobres­salto: sem afabilidade e sem destemperos. Sem favor, nem desfavor.

Despediu o motorista que aprendera a colocar as fei­ções pelo seu registo. Aprendera, há muito, com as passagens de mão. Cada um e o tudo o que se ouve uma lição de impassibilidade e mutismo.

A noite estava de uma grande frialdade enevoada, sem chuva. Levantou a gola do sobretudo e não estu­gou o passo sobre o lajedo do grande átrio aberto, a praça lúgubre. Deixara a pasta para seguir de madru­gada. Estava uma noite de desafios parados, serenís­sima, as núvens de bafo a acompanharem-lhe a cabeça.

O homem caminha, cisma e olha. É assim que pensa, pondera, vê, em passos que não se ouvem. Não há vivalma, ouve-se o tráfego ao longe. Uma rata soer­gue-se na sarjeta próxima. As guias finas brilham aus­cultando o ar sem aragem. Retoma o seu que fazer. Reconhece, nas vibrissas, o que nele vibra, frio e cauto. Igual para igual. Macio, as patas frias. Medonho para quem não for dessa espécie, dessa variante. O homem avança para a outra praça que tem uma torre que sai do solo. Como é seguro o sereno. Na boca da noite o homem acha os lugares que fazem o sereno e lhe convem.

Helena pode estar lá, detrás da torre, é um dos luga­res onde se arrima. Não hoje. O homem refaz o cami­nho de regresso, lento, sem busca, às luzes da cidade, por outra trajectória possível nas rotinas da hora parada.

Helena está sentada no banco do espaço arborizado que confina com a fachada iluminada do palácio, a sul-poente. Da fachada com as altas janelas e portadas entaipadas que dão para o nada, dos debruns altíssi­mos das salas e quartos de que só resta uma quarta parede, as chagas das obras incompletas há décadas. Iluminada ao alto, a bela ruína, mas não o banco de pedra onde está Helena, à sombra dos eucaliptos já idosos, os sós eucaliptos daquele lugar de passagem ermo, eucaliptos e detritos e escaras de estuque arcaico do palácio contíguo, com as suas arcadas cegas.

Ai, diz Helena, hoje vem mais tardio, doutor. Não épetulante, Helena, nem popular no dizer. Mais parece suspiro de mágoa mundana, a frase feita. O homem senta-se ao lado dela, as mãos nos bolsos com os pole­gares agarrados nos punhos. Não se enfrentam, mas ele vê com o horror crescente de todas as vezes o que ela traz vestido: um casacão roto que decerto perten­ceu a homem ou a mulher alentada, uma camisa de noite de flanela com motivos infantis que lhe tapa os joelhos. Numa das pernas tem uma ligadura suja, enrodilhada já. Nos pés, as botinas cambadas deste Inverno, peúgas de lã descaídas.

Não é um jardim, não é uma alameda, não há pas­santes. [...]

Maria Velho da Costa, in Vozes e Olhares no Feminino
imagem. Mónica Garcia

e por falar em oftalmologista...


o melhor oftalmologista do mundo:

o meu! [pretexto para contar que a minha micro cirurgia à vista correu bem. muito bem.]

O mar que a gente faz


Os dias passam e eu estou quase a ser maior. A mãe põe um calendário que nesse mês tem uma flor azul a contar os dias até ser grande e eu mal posso esperar para que a flor caia. O calendário está na cozinha e eu também a riscar, todos os dias, o que me falta. A mãe e o pai já me perguntaram o que eu queria para os anos e eu respondi:

- Qualquer coisa.

Eu sei que não é real um menino não querer as coisas todas, mas eu sou assim... e só quero uma: ser grande para poder ganhar guelras como o Lito e o pai e não ter medo do mar nem das coisas que lá andam.

O dia vai calhar no fim-de-semana. Acho que vai...acho que vai...acho que vai...calhou.

É um sábado. Acordo na minha cama, a que também faz as vezes de sofá. O Lito dorme como quem ressona sem sonhar,parado como um morto. O pai e a mãe não se ouvem. O relógio marca as horas, mas não as sei ver, mas pelas frinchas do sol muito morno deve ser cedo, muito cedo. [...]


João Negreiros in O Mar que a gente faz, pag. 71, Camões e Companhia

intuição e decisão


e assim


ando assim

Pássaros de Pangim


«Pássaros de Pangim será uma série de concertos diferentes daqueles que Leão tem apresentado à volta do disco "A Mãe". [...]».

Troque de agenda! Por uma boa causa.

eu sou daquelas pessoas antigas que não funcionam sem agenda de papel. agora tenho duas. a que comprei em 2009 para 2010 e a que comprei em 2010 para 2010. por uma boa causa. claro.
pelo ANO EUROPEU DE DO COMBATE À POBREZA E À EXCLUSÃO SOCIAL. e porque tem fotografias de fotógrafos portugueses sobre o tema e porque o design é da Mariana Mattos e porque a agenda é muito mais do que uma agenda. mais aqui. e aqui.

sexta-feira, março 12

muito alto está bem

quinta-feira, março 11

Um pai em nascimento

[clicar na imagem para aumentar]
é hoje. finalmente. na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto.
valter hugo mãe apresenta o livro UM PAI EM NASCIMENTO.

«A partir de que momento nasce um pai? Com a notícia da sua anunciada paternidade? Quando sonha pela primeira vez com o filho ou vislumbra as suas formas difusas na primeira ecografia?Ao primeiro toque ou ao primeiro choro? De que forma transforma a vida de um pai?»

José Eduardo Agualusa está, hoje, às 21.30, na Biblioteca do Palácio de Cristal :)

terça-feira, março 9

tia dinossauro




- és a tia dinossauro.

- tia dinossauro? porquê tia dinossauro?

- porque os dinossauros são muito importantes para mim.



[eu ainda não acredito que o Miguel, 4 anos, meu sobrinho me disse isto!!!!!

o que vale é que há testemunhas. e fica aqui. e fica em mim. e ficará para sempre.

e eu ando com um sorriso que não me sai do rosto desde ontem.

e vai permanecer para o resto da vida.

sou uma tia babada. já sabem. e, com esta, vou ficar insuportável :) tia dinossauro. moi-même ]

segunda-feira, março 8

Antes de ser Feliz I


Quando era pequenino, lembro-me bem, a minha professora chamava-se Carminda. Era da Póvoa de Varzim e falava-nos muitas vezes da linguagem inventada pelos pescadores e do vento poveiro. Achava a temática fascinante e arvorava a teoria de que o linguajar piscatório merecia tantos ou mais estudos do que o mirandês, língua perdida, mas reconhecida como língua oficial em Portugal.
Isso agora não interessa. Ela contava que vivia perto do cemitério, mesmo ali à beira dos mortos, do cheiro das flores das senhoras que fazem o favor de manter esse negócio, do barulho do portão de ferro que rangia, gemia e chorava sempre que entrava mais um carro funerário. A morte era um ritual normal na vida da minha professora. Do que ela mais gostava era de observar o cemitério à noite. Tinha um fascínio enorme por aquilo e fazia apostas.
Há quem olhe para o céu à espera de uma estrela cadente, ardentemente à espera de pedir um desejo, condensar naquele rasgo luminoso, em queda livre, todas as esperanças de uma vida. Carminda preferia olhar para o cemitério e perceber onde estavam os mortos novos
pelos gases que passeavam no ar, como uma última manifestação dos corpos que partiam.
A mãe dizia-lhe que tinha demasiada imaginação.
Carminda jurava o conto do coveiro como verdadeiro:os gases eram como as almas a ir para o céu, devagar, a libertarem-se dos cadáveres e ela gostava de os ver, a desfazerem-se no negro da noite, contra a parca iluminação dos candeeiros velhos, de ferro antigo e ruidoso, que compunham o cenário do cemitério.
Eu gosto de pensar que morreu ali, na Póvoa, a olhar as almas gaseadas enquanto atormentava uma prol de netos que reviravam os olhos de cansaço por ser sempre a mesma história.
Patrícia Reis in Antes de ser Feliz, Dom Quixote

o autêntico conceito

"chave na mão".
[pois...]

STOUT is out

...a petição está aqui. para quem a quiser assinar.

mas a cerveja preta é a minha preferida. ah pois é.

...o que me aborrece é a falta de criatividade. uma enorme falta de criatividade.

Há tertúlia... no Piolho


«A Provedoria dos Cidadãos com Deficiência em colaboração com Reitoria da Universidade do Porto e o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, inicia na próxima segunda-feira, dia 8 de Março, uma série de Tertúlias sobre a Cidadania de Todos e a República». Dia 8 de Março, a Tertúlia terá lugar no Café Piolho, no Porto, às 18.30 horas.
O tema “As Ideias Republicanas e o seu Impacto nos Direitos das Mulheres” será apresentado por Beatriz Pacheco Pereira e por Lia Ferreira.

Notícia retirada daqui.

sexta-feira, março 5

Hoje, nas livrarias




o Outono visto pela janela


na casa onde nasci havia sons e cheiros meus
as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória
e eu incluía-os como amigos íntimos
nesta não tem gente
ou se tem não têm cheiro
nem som porque eu não me lembro
gastei toda a memória nas pessoas antigas
e o espaço para as novas é um T1 que fica muito para além do T
onde eu estou sem visitas
fechado à medida de não deixar entrar
preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom
eu já fui bom
agora não sei
mas já fui
juro que fui
e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias
p’ra que nenhuma se perca
era pena
é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe
e quero mantê-los ligados à máquina para sempre
e a máquina sou eu
e para sempre sou eu
anda
aconchega-te no mofo do T1
finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino
cheiras à minha avó
à roupa no estendal
à canção do fim dos bonecos
ao banho que está a ficar frio
ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair
tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair
que foi no mesmo dia em que resistiu
como se estivesse ali desde o início dos tempos
e os tivesse começado para eu os acabar
acabar
acabar
acaba comigo que me falha a lembrança
e restas-me como a folha que esteve para cair
e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono


João Negreiros in a verdade dói e pode estar errada
Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência

Lenha

[...o que quer que eu diga você não vai entender...]

quarta-feira, março 3

amanhã, no FANTASPORTO, "os esquecidos"


[amanhã, às 17.15h, no FANTASPORTO, OS ESQUECIDOS, de Pedro Neves]
«Queria realizar um documentário sobre o mundo de hoje. Sobre um mundo de progresso que se esquece das pessoas. Queria mostrar gente que é gente, gente que se esconde e é escondida, gente que não se vê e é esquecida. Não quis nunca rotular nem limitar-me a expôr a miséria e a pobreza. Preferi sempre tentar compreender causas e consequências, entender como um determinado acontecimento na vida pode provocar mudanças profundas, como de um momento para o outro podemos cair no abismo. E como é difícil sair de lá. São gerações a crescer e viver dentro de um buraco sem fundo, de hábitos marcados pela impotência, muitas vezes pela apatia ou incapacidade de reagir. Conversei muito com muitas pessoas. Aprendi. Deixei falar muito mais do que falei. Filmei e voltei a filmar. Fui regressando aos locais, às pessoas, às conversas. Fui conhecendo os personagens, aprofundando relações. Deixaram-me entrar um pouco nas suas vidas, no quotidiano difícil da sua condição. É a habitação precária, o trabalho estilhaçado, o amor que se tem, o afecto que não existe. É a prisão sem grades e de muros transparentes. Neste filme fui a lugares onde morreu a esperança colectiva, onde há gente viva à beira da morte social. São rostos que encaram a vida como um castigo, actores sociais despidos de qualquer sucesso material. São olhares cansados de tanta falta de sorte, porque não se pode falar de má sorte quando nunca se entendeu o significado da palavra. São mulheres e homens, esquecidos.»
Pedro Neves, jornalista e documentarista

terça-feira, março 2

é verdade


O que em mim sente está pensando
Fernando Pessoa
imagem: Edward Hopper

Indignados com a pobreza

retirado daqui, do blog da Amnistia Internacional.

e, já agora, assine aqui, a petição nacional "ACABAR COM A POBREZA JÁ".

outro café. o mesmo actor.

não pensem que é só o spot publicitário. Há 3 opções... e pronto... ELE é incontornável... pois é. quanto ao café... prefiro outro. este é muito asséptico... e tem um clube e as pessoas fazem fila para o comprar...enfim. coisas minhas. já o George, a história é outra ;) AQUI.


[obrigada querida Sónia]

segunda-feira, março 1

Águas de Março

Prémio para "Myra"


Maria Velho da Costa vence Prémio Casino da Póvoa.
Com "Myra". Notícia aqui. e aqui.

Prémios


+ /- Fixação Proíbida



«Paredes que falam connosco! Cartazes,
stencils e tantas mensagens mais ou menos discretas.
Alguém procura um percurso nessas mensagens.
Envolta de histórias, observa.
É fascinante a pulsação nas paredes frias.
Trovadorescas provas de amor gravadas no corpo da cidade.
Tornam-se nossas. Fazem-nos testemunhas dessa intimidade pública.
Manuela Pimentel traz-nos essas mensagens. Mas traz-nos também a "revolta dos azulejos". Desta vez são os azulejos tradicionais portugueses que se impõem aos cartazes de rua.
Mais ou menos...fixação proíbida!»

Exposição de Manuela Pimentel, na GALERIA JORGE SHIRLEY, Rua Escola Politécnica, 21-23, em Lisboa

imagem: Manuela Pimentel