sexta-feira, fevereiro 26

Ayer te besé en los labios...



Ayer te besé en los labios.
Te besé en los labios. Densos,
rojos. Fue un beso tan corto,
que duró más que un relámpago,
que un milagro, más. El tiempo
después de dártelo
no lo quise para nada ya,
para nada
lo había querido antes.
Se empezó, se acabó en él.

Hoy estoy besando un beso;
estoy solo con mis labios.
Los pongo
no en tu boca, no, ya no...
-¿Adónde se me ha escapado?-.
Los pongo
en el beso que te di
ayer, en las bocas juntas
del beso que se besaron.
Y dura este beso más
que el silencio, que la luz.
Porque ya no es una carne
ni una boca lo que beso,
que se escapa, que me huye.
No.
Te estoy besando más lejos.

Pedro Salinas


imagem: Carlos Carreto

é mesmo verdade...


...o tempo voa...

quarta-feira, fevereiro 24

parabéns, querida Marta


é tão simples. há pessoas que todos os dias, todos os dias fazem mais e mais sentido na minha vida. todos os dias se torna mais claro e evidente porque chegaram. porque permanecem. como se a minha vida existisse exactamente para isso, para as receber. para fazer sentido. sentido assim de sentir. sentido assim de bússola

assim de fazer todos os sentidos numa só direcção.

fazer sentido é fazer sol. é fazer um caminho. é fazer um dia inteiro feliz.

o teu sorriso, Marta, é a minha cor preferida.
e faz-me sentir. faz-me tanto sentido.

Paciência

eu sei que está no YouTube mas eu roubei-a aqui.

O meu quero-o nuvem


Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.

No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.

Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.

Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeirissímo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comercia palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra e me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada

Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira vez. Como se aquele momento fosse, afinal toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por a parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.

No entanto, algo nele aparentava distância. O último escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco aí mesmo se consumia.

Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas.

Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insisti, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.

Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.

Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.

Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.

Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.

Assim, ele virá para renovar despedidas. Quando a lágrima escorrer no meu rosto eu a sorverei, como quem bebe o tempo. Essa água é, agora, meu único alimento. Meu último alento. Já não tenho mais desse amor que a sua própria conclusão. Como quem tem um corpo apenas pela ferida de o perder. Por isso, refaço a despedida. Seja esse o modo de o meu amor se fazer eternamente nosso.

Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.

Ninguéns.

Mia Couto, in O Fio das Missangas

terça-feira, fevereiro 23

é já amanhã


« Depois da festa apoteótica que o ano passado marcou o 10º aniversário do Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, o evento regressa entre 24 e 27 de Fevereiro na sua versão habitual – o número de escritores ronda os 60, ao invés dos 130 do ano passado, mas o programa continua a incluir as actividades que fazem do Encontro um dos eventos culturais de maior sucesso no país. »

«Isabel Alçada, Ministra da Educação, irá proferir a Conferência de Abertura do Correntes d’Escritas, tendo escolhido o tema “Leitura, Escrita e Educação”. Esta foi uma das novidades desvendadas hoje na apresentação do programa do Encontro de Escritores de Expressão Ibérica que decorrerá na Póvoa de Varzim de 24 a 27 de Fevereiro.»

« [...] traz 66 escritores provenientes do Brasil, de Moçambique, de Cabo Verde, do México, da Colômbia, de França, de Espanha, de Angola, do Uruguai, da Argentina e, claro, de Portugal. »

Escritores convidados AQUI

Cinema e Psicanálise: imagens reversíveis


«Quando vemos Cinema e o pensamos (de Chaplin a Fellini, de Hitchcock a Truffaut, de Welles a David Lynch, e assim sucessivamente encontramos um continente de sonhos. A Psicanálise é, como se sabe, uma forma de conhecimento que tem contribuído, e de modo decisivo, para a compreensão e interpretação dos fenómenos estéticos.
Pela sua natureza (imagem em movimento ) e pela sua estranheza (diluição das fronteiras entre o real e o imaginário), o Cinema revela-nos, de sessão para sessão, um mistério cheio de jogos de luz e sombra. Tal como o inconsciente. Conceitos fundamentais da construção freudiana, como prazer, realidade, conflito e representação, encontram não raras vezes uma réplica no trabalho cinematográfico. Esta perspectiva acolhe um diálogo com a tripartição das séries freudianas elaborada pelo filósofo Paulo Tunhas num texto recente, onde defende que “a própria natureza profunda da psique, e o pensamento que nela se desenrola, por mais originários que sejam só são pensáveis a partir dos critérios do pensamento vigil, isto é, do pensamento que, à partida, reconhece já o princípio da realidade”.
Num mundo feito de imagens reversíveis, reconhecidas como tal em função do princípio da realidade, construído a partir de afectos e sofrimentos, existem planos e fotogramas de incalculável valor simbólico. Trata-se agora de saber como se podem guardar.
Este curso procura, ao longo de dez módulos, pretende acompanhar alguns desenvolvimentos da relação entre filmes e olhares, uns e outros pontuados por ideias nucleares da Psicanálise.


A filmografia constitui apenas uma hipótese entre outras de filmes que reflectem ou testemunham as questões psicanalíticas formuladas em cada uma das sessões, centra-se fundamentalmente em obras clássicas, pode naturalmente ser ampliada e reflecte um gosto pessoal.»

[09 Mar - 18 Mai 2010 - das 21:30 às 23:30 - Terças - BIBLIOTECA DE SERRALVES]


Concepção: Eduardo Paz Barroso
Orientação: Maria de Fátima Cabral e Eduardo Paz Barroso
Moderação: Rui Mota Cardoso

Inscrições AQUI

segunda-feira, fevereiro 22

O corpo não espera.


O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

Jorge de Sena
imagem: Leila Pugnaloni

para a Sonja

[querida Sonja, obrigada pela gargalhada! são todos para ti. depois, ensinas-me. combinado?]

deixa-te ficar em minha casa




Tenho livros e papeis espalhados pelo chão

A poeira de uma vida deve ter algum sentido

Uma pista, um sinal de qualquer recordação

Uma frase onde te encontre e me deixe comovido



Guardo na palma da mão o calor dos objectos

Com as datas e locais. Porque brincas, porque ris.

E depois o arrepio: a memória dos afectos

Que me deixa mais feliz



Deixa-te ficar na minha casa

Há janelas que tu não abriste

O luar espera por ti quando for a maré-vasa

Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste

[...]

João Monge/João Gil

quinta-feira, fevereiro 18

no ruído do meu silêncio


no ruído do meu silêncio não me perco, traço pontos entre linhas imaginárias, os pontos reais , os pensamentos incorpóreos, e entre um ponto e outro anoto as variantes de silêncio que percebo:

o silêncio do vento parado, o silêncio do ar respirado, o silêncio do meu coração, o silêncio da minha alma


custa-me mais ouvir a alma, esse silêncio que toco de uma a outra

letra à música que faço no silêncio que afogo


há silêncios tão longos como uma noite longe
imagem: [não sei]

segunda-feira, fevereiro 15

ouvi dizer

[...]
A cidade esta deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros,
Nas pontes, nas ruas...
Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura
Ora amarga,ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura

Mínimo Ajuste

agora, também estou aqui. obrigada pelo convite. é uma honra integerar esta equipa.
estimados visitantes apresento-vos o MÍNIMO AJUSTE

quarta-feira, fevereiro 10

felicidade é...

...felicidade é: reencontrar uma amiga dos tempos do liceu... e saber que vamos conversar como se estivessemos no intervalo e...e nunca mais tocasse para dentro ...

e muitas coisas. muitas. :)
imagem: limpid

terça-feira, fevereiro 9

eu, por mim [um dia]


lembro-me de ter nascido triste. depois, fui crescendo e tendo acesso a pequenas felicidades até ter experimentado, já adulta, um dia inteiro feliz.
agora, com trinta e poucos anos, percebo que estar contente e estar feliz, não são a mesma coisa. percebo também a importância que dou à tristeza genuína e vou compreendendo, cada vez com mais clareza, porque é que as pessoas são tão importantes na minha vida.
as pessoas e os afectos. que são a mesma coisa.
queria ter sido bailarina como tantas outras meninas.
mas sou professora e mais não sei o quê.
gosto de ler. muito de ler. e o silêncio é fundamental na minha vida. cada vez mais.
gosto de música mas não consigo ler e ouvir música ao mesmo tempo. ou bem que leio ou bem que ouço música. ao mesmo tempo, só consigo amar as pessoas. e cozinhar e, por exemplo, ao mesmo tempo, tirar a roupa do estendal.
não há assim muito mais coisas que consiga fazer ao mesmo tempo.
e por falar em tempo. o tempo é algo que me comove. as rugas da minha mãe comovem-me. de tão lindas que são.
o sorriso da minha mãe não seria tão terno sem as rugas à volta dos olhos.
não percebo como há operações para tirar rugas.
mas eu também não percebo imensas coisas.
as manchas castanhas pequeninas nas mãos da minha avó comovem-me.
as crianças a crescer, comovem-me.
a vida a tornar-se recordação comove-me.
é o tempo a comover-me.
os meus amigos comovem-me.
e eu até nem sou de me comover.
mas quando, na primavera, os pessegueiros começam a florir sinto uma felicidade imensa. e quando no outono a paisagem aquece eu sinto-me numa casa enorme de paredes altas vermelhas e amarelas. só minhas. a escutarem-me.
e corro. corro nos campos, como nos corredores. mas corro como as borboletas.
no verão gosto de ir à praia. desde que deixei de fazer castelos com convicção, deixei também de gostar de areia. mas não vivo sem o mar aos pés.
gosto do mar da minha esplanada e gosto do fundo do mar.
acredito em sereias. interrogo-me vezes sem conta:
as estrelas do mar sonham o mesmo que as estrelas do céu?
às vezes penso que não. são universos diferentes.
a matéria onírica não é a mesma. são signos diferentes.
outras vezes penso que sim. exactamente por serem universos diferentes.
gosto muito de viajar. e em todas as viagens olho para o céu. e penso sempre a mesma coisa banal. não fosse babel as fronteiras não fariam sentido.
e não fazem.
e sempre que posso vou ao fundo do mar.
e penso sempre a mesma coisa sem sentido: gostava de viver aqui.
posso parecer, mas não sou distraída.
não há sonho nenhum que me passe ao lado.
quando for sénior gostava de ter uma boa colecção de dias inteiros felizes.
e não ter alzheimer para me poder recordar de tudo. e de todos.
e ter netos para lhes poder contar histórias verdadeiras e inventadas.
quero morrer muito velha. muito sábia. e feliz.
e com rugas serenas à volta dos olhos.
imagem: Philippe Ramette

Intervalo

segunda-feira, fevereiro 8

Mãos Dadas


Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considere a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.



Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.

não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.

não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade

insensatez



exposição de pintura da Rosa Maria. na Galeria Soledade Malvar, em Vila Nova de Famalicão. até 19 de Fevereiro. bem dita insensatez.
[obrigada Paula]
imagens: Rosa Maria

era uma vez uma mulher


era uma vez uma mulher tão devota, tão devota que em vez de escrever Rua Maria Rita das Chagas Lima, escreveu Rua Santa Rita de Cássia.
envergonhada, não contou a ninguém porque é que a carta não tinha chegado ao destinatário.
[fez nova tentativa. agora, com mais atenção e menos devoção...]
imagem: Francisco Monforte

Onde está o manual de instruções?


Está à venda desde Janeiro!
«Os Filhos! Onde é que está o manual de instruções?, coordenação de Ana Cardoso de Oliveira - «Pais afectivos» e «pais biológicos» – uma distinção que faz sentido? Há modelos familiares melhores do que outros para a formação de uma criança? No mundo actual, as crianças criarão laços afectivos mais fortes com as educadoras do que com os pais? Quais as características do autismo e da síndrome de Asperger? Asma, rinites, alergias, eczemas – estaremos a proteger demasiado as crianças da natureza? Intervenções dos especialistas Nuno Lobo Antunes, Nuno Colaço, Maria João Fagundes, Constança Furtado, Marta Gautier, Eduardo de Sá e Paulo Sargento, numa iniciativa organizada pela Associação Lavoisier.
Leitura obrigatória para todos os pais.».

[para a minha amiga Inês ;)]

quinta-feira, fevereiro 4

raios de sol e centeio


e, se de repente, lhe oferecerem uma lata de tinta com um campo de centeio maduro, dentro?
ou, então, uma lata de tinta a transbordar de raios de sol?
isso é...isso é um gesto que nunca mais se esquece. não. não é pela memória.
é pelos raios de sol. pela seara infinita de afectos. em pleno inverno.
[Pedro, Paula, António, José. obrigada. tanto tudo íssimo]

Leva-me aos fados




«Ana Moura chega a Braga com o novo disco na bagagem. ‘Leva-me aos Fados’ é o quarto álbum de estúdio da fadista e o sucessor do multi-galardoado ‘Para Além da Saudade’ (2007).
Após a consagração obtida com o trabalho anterior, Ana Moura regressa aos palcos com um conjunto de temas que anuncia uma leveza de espírito e uma contextualização do género musical mais português fora dos clichés lúgubres, mostrando na alma mais raça que melancolia e cantando mais um lamento revoltado do que uma aceitação contemplativa dos males da vida.
Os anos mais recentes de Ana Moura têm sido felizes. O dueto com Mick Jagger em pleno concerto dos Rolling Stones no Estádio de Alvalade, o Disco de Platina que o álbum anterior “Para Além da Saudade” venceu por vendas superiores a 20 mil unidades, a aclamada digressão mundial do ano passado ou o Prémio Amália para Melhor Intérprete empurram Ana Moura para um estatuto de estrela.
Em “Leva-Me aos Fados”, Ana Moura aproveita o vento e cresce na proporção do momento.»
Sexta-feira, 5 de Fevereiro, 21h30, Sala Principal do Theatro Circo, em Braga

quarta-feira, fevereiro 3

Os Dias Legíveis


1
A noite cicia.
Um silêncio de palavras
é pura a melodia do vento.

O sol da tarde.
O que a vida freme.
A memória esquece.



2
Ouço
Num arco de fogo a manhã
Escrevo e medito :
a rosa no lume
as mãos dolentes
o mar lavrado de lonjura
grita fundo na tábua e no fumo

3
O que foi um pássaro
a cantar dentro de horas ?
Ali

4.
Estive voltado para um relógio
indiferente a quem vinha pela estrada

Escrevi caminhos
por entre palavras e pássaros

José Ribeiro Marto
imagem: Emir Ozsahin

João, querido amigo,

[ora diz lá... ;)]

terça-feira, fevereiro 2

SEIVA - a sobrevivência dos cactos

[clicar na imagem para aumentar]

«Numa terra árida e quente, apenas pontuada por alguns cactos, uma mãe (Hécuba) e duas filhas (Yerma, a filha biológica, e Ofélia, a filha adoptiva), nunca param, como se cumprissem uma espécie de penitência. Todas escondem segredos que, pouco a pouco, vão sendo confessados, e mantêm-se auto-suficientes graças aos cactos que vão comendo. Mas caminhar para onde e para quê? O que fazer quando descobrem que todas partilham do mesmo desejo, o de assumir as suas verdadeiras identidades?

Hécuba – A vida vive-se, não espera que a vivamos. As coisas acontecem.
Ofélia – E como é que vives depois de ser atropelada por um camião?
Hécuba – Levantas-te e caminhas, Lázaro.
Ofélia – Até quando?!
Hécuba (austera) – Até teres esgotado realmente as tuas energias. (pausa; o tom adocica-se) Às vezes, quando pensas que estás morta, descobres que ainda podes arrastar-te mais um pouco e, com o tempo, recobras as forças.

[gostava tanto de ir! é no Teatro Dona Maria II. dia 9 de Fevereiro. a entrada é livre]

Conversa de SMS´s


marta - já tens dicas no blog.

inês - vou já ver.

marta - ontem deitei-me a pensar em ti. na tua vida. mas vai correr bem.

inês - eu também me tenho deitado a pensar em mim!!! acho que nunca pensei tanto em mim. mas, hoje, vou-me deitar a pensar num tal Funes. conheces???

marta - só do blog. mas tens lá outras sugestões sérias.

inês- é verdade. até pensei abrir um blog. para me ajudarem.
diário de uma mãe de aluguer :) parece-te bem?

marta - sim. boa ideia...se tiveres tempo!

inês - ups! tempo!

segunda-feira, fevereiro 1

conselhos, precisam-se!


ela telefonou-me feliz. sim, muito feliz. mas também apavorada. apavorada como quem diz receosa. a vida estava à porta de mudar!
- tenho 38 anos. não tenho filhos, como sabes. não tenho cão. nem gato, sequer. e para a semana, terei dois filhos: uma menina, de oito anos. e um menino de 4 anos.
vêm viver comigo. até ao Verão. enquanto os pais não chegam.
eu, habituada a ir para todo o lado, a qualquer hora.
é assim, há quase vinte anos. mais coisa menos coisa.
tens algum conselho para me dar?
algumas dicas? sugestões para refeições? desculpas plausíveis se, por acaso, se chegar mais tarde à escola? o horário das matines? programação infanto-juvenil? que livros lê uma menina de oito anos? o que são gormitis? [é assim que se escreve gormitis?] todas as crianças gostam de ovos kinder? e de legos? as aulas deles começam às 9 da manhã. a que horas devem estar a dormir? quanto tempo, mais ou menos, se levam a arranjar, de manhã? eu não gosto de sopa. devo insistir para eles comerem a sopa? e se me perguntarem se gosto de sopa?
quais são as bandas; os heróis. ainda há heróis? e o nome da bonecada? o que devem ver, na televisão? devem ver televisão? que jogos são mais adequados? há algum dicionário recomendado? um guia? diz qualquer coisa.
se não me conseguires dizer nada - lembrei-me, agora, também não tens filhos - importaste, por favor, de pedir conselhos aos pais que, eventualmente, frequentem o teu blog?
todas as dicas são bem-vindas, como imaginas.
imaginas, não imaginas?
imagem: ilustrações do livro "Coração de Mãe", Planeta Tangerina

que desilusão é esta...


[...que desilusão é esta que faz sombra ao meu gostar...]

imagem: Edward Hopper

aniversário XXI


Ava Gardner poderá ter sido "o mais belo animal do mundo".

Mas a "marta" deste blogue, sem dúvida o mais patusco...!

Parabéns atrasados pelo aniversário...! um grande, grande beijinho, Cláudia

[texto e "marta" enviados pela minha querida Cláudia.onde há sempre um livro à nossa espera]

aniversário XX


Eu sempre soube que havia vida em Marta. Outros precisariam de expedições, fotografias por satélite, sinais de água no corpo. Eu não. Há vida em Marta desde que me conheço. Porque haver vida em Marta não é obra do acaso, nem é negociável. É a verdade, simplesmente. Fosse Marta um planeta, seria de morar nele em nome dos nossos melhores dias. E sonhos. Há vida em Marta. Claro que sim. Caso contrário, a terra, as palavras, a alma e o coração seriam lugares menos habitáveis.
Miguel
[enviado pelo meu mano. conhecedor absoluto de um planeta chamado meu coração. e de um outro, ainda mais à esquerda. aqui]

o que será...