quinta-feira, outubro 29

The Soloist Trailer



já está nas salas de cinema. eu ainda não tive tempo para o ver. dizem-me que a crítica o arrasa. mas eu também ainda não li nada sobre o filme. só li o livro. há quase um ano. estou mortinha por me sentar em frente ao grande ecrã. lá isso estou. mas tem faltado tempo...alguém já o viu?

Aqui na Terra, país fora


Depois do Porto, Guimarães, Viana do Castelo, Chaves, Castelo de Paiva, Alvito, Braga, "Aqui na Terra", de Miguel Carvalho, é apresentado, amanhã, às 21.30h, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão. «As palavras ditas estarão por conta da minha querida Cláudia Sousa Dias (socióloga e bibliomaníaca assumida) e do padre Salvador Cabral», diz o autor, no seu blog [de onde também retirei a imagem]. É. A "pão de forma" anda pelo país fora... com o "Aqui na Terra" com o país dentro... A não perder. Claro!

quarta-feira, outubro 28

una nueva vida

«Siempre había oído decir que una separación es una experiencia desgarradora;ahora sé que es verdad: la mía lo ha sido».
[uma crónica de Javier Cercas, na revista do El País, de 18 de Outubro. clicar na imagem para continuar a ler. se apetecer... uma história de um dicionário...tanto. tudo. íssimo ]

casual...


imagem: idunadesign

terça-feira, outubro 27

folhas de outono


Estava a olhar para a fotografia e lembrei-me de ti, como se nela visse o teu rosto ou
o teu sorriso, até mesmo as tuas mãos cor de Outono.

Lembrei-me de ti a fazer um castelo com as claras de ovo. Naquela tarde, na cozinha, eu havia de aprender contigo o que eram árvores de folha caduca enquanto fazias o bolo que só tu sabias fazer de cor e salteado. Havia de ficar para sempre, na minha memória olfactiva, aquele cheirinho a bolo da avó Clotilde que, ainda hoje, me faz respirar fundo.
Era um bolo sem nome, enquanto não lhe demos o teu.

- Tenho de fazer uma redacção sobre o Outono, avó. Podias dizer-me coisas sobre o Outono.

E tu começaste a bater o bolo mais devagar, enquanto eu brincava com a lata pequenina do fermento Royal, fazendo-a rolar sobre a mesa.
Uma lata pequenina vermelha que tu abrias com a ajuda de uma colher de café.

-Deixas-me pôr o fermento, avó?

E tu disseste que sim, sem dizer que sim. Tu eras a pessoa que mais falava, sem falar.

- No Outono as árvores de folha caduca ficam sem folhas. Se fores ao quintal, reparas que há folhas na relva, no lago, nos canteiros. As árvores à volta do lago, são árvores de folha caduca, ao contrário das laranjeiras ou dos limoeiros.

No Outono, depois das vindimas, os dias ficam mais pequenos. E faz-se marmelada, porque os marmelos chegam com o Outono, assim como as castanhas. Cada estação do ano tem os seus frutos...

- E o que são árvores de folha caduca, avó?

- Ora vai ao quintal ver as árvores junto ao lago.

E eu saí a correr da cozinha, para ir ver a árvores como se nunca as tivesse visto. Como se não tivesse crescido com elas.

- Avó, junto ao lago tem pereiras e o pessegueiro mais ao lado.

- Exactamente. A pereira, o pessegueiro, o diospireiro, a macieira, a figueira, são árvores de folha caduca. Árvores que no Outono e no Inverno ficam sem folhas.

Quando cheguei à cozinha pousei algumas folhas sobre a mesa.

- Se escolheres as mais bonitas, podes po-las dentro de um livro. Secam protegidas. E vais poder guardá-las, como se guardasses as cores do Outono.

No dia seguinte, na escola, fiz uma redacção sobre folhas que caem e folhas que ficam para sempre nas árvores. Escrevi sobre frutos que chegam com o Outono, sobre dias pequenos que, afinal, ficam imensos. Escrevi sobre folhas que ficam dentro das folhas dos livros.
Como essa tarde de Outono ficou dentro de mim.


imagem: @ João Menéres


[este texto foi inspirado numa fotografia do João Menéres. Um desafio que aceitei com muito gosto. foi uma honra João, fazer esta parceria consigo :)
para quem ainda não conhece é favor visitarem o Senhor Dom GRIFO PLANANTE aqui é a arte de planar por aí... com sensibilidade e sabedoria... ao alcance de um clique...]

segunda-feira, outubro 26

sabotada por um alternador


eu de carros, como já aqui confessei, não pesco nada. ontem os meus planos para a tarde de domingo foram sabotados por um ALTERNADOR. é verdade. hoje, quando me ligaram da oficina, disseram: é o alternador. sim, e depois, disse eu.
depois,são 309 euros. ao fim da tarde está pronto. pode ser?

pois claro que pode. o que é que havia de dizer?
deixe-me ir ao mini-preço a ver se tem alternadores mais baratos?
não. claro que não.
não tenho bagagem para discutir essa matéria. mas que fui saber o que é um alternador, lá isso fui. e onde fica e para o que serve.
enfim... não pensem que ensandeci lá por postar esta imagem absolutamente, como direi... [fica ao vosso critério] mas que estou a uns passos de estar à beira de um ataque de nervos por ter de pagar 309 euros por um alternador, lá isso estou!
imagem: Ricardo Coroado

sábado, outubro 24

Alexandra

Que Alexandre, o Grande é grande
Todos sabemos de cor
Mas nunca como Alexandra
Porque Alexandra é a maior!

Olhem bem o nome: rima
Com força locomotriz
Pode subir serra acima
Pode voar a Paris.

No entanto é nena pequena
Tamanho de um berço exato
Coube dentro da Madeleine
Cabe na mão do Renato.

Alexandra Archer: em francês
É Arqueira – fora ou não fora
Mas em língua brasileira
É Alexandra, a Caçadora!

Vai, caçadorinha, caça!
A vida com as tuas setas
E caça o tempo que passa
No olhar triste dos poetas.

Porque, anjo, um já flechaste
De fato há muitos indícios...
– Broto de rosa ainda em haste
Nem tem dúvidas! – caçaste
O coração do
Vinicius

Vinicius de Moraes

[a nossa querida Alexandra já nasceu. mãe e filha estão bem. o pai, superou-se :)



... e a pequenina ALEXANDRA já "caçou" o coração de todos nós...]
imagem: Google

sexta-feira, outubro 23

João Cutileiro em Bragança

"A Galeria Vera Cruz convida V.ª Ex.ª para a inauguração da exposição João Cutileiro – Escultura, Desenho e Fotografia, a realizar no próximo dia 24 de Outubro, pelas 17h00, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança."


Podem ver algumas peças do mestre João Cutileiro aqui. Belíssimas.
imagem: escultura de João Cutileiro - A Menina Mulher
p.s: ora vamos lá rumar a Bragança...motivos não nos faltam. João Cutileiro, agora. Até 10 de Janeiro. O centro de Arte Contemporânea Graça Morais, magnífico, como ela. e, ainda, os docinhos da casa do chá , no fim da exposição. ou no início. tanto faz. o importante é ir. a Bragança. desta vez, para apreciar João Cutileiro. De perto.

lista de pensamentos


quando estou nervosa e não posso fazer mais nada, faço listas. não interessa. até pode ser de compras. agora, é uma de pensamentos:

  • estou mortinha por ler a entrevista do Lobo Antunes, hoje, no ípsilon


  • gostava de estar, hoje, na abertura do festival de banda desenhada da Amadora


  • grande alarido à volta de "Caim"! já o li e não gostei. este ano, gostei muito mais do Prémio Saramago - As 3 vidas, de João Tordo - do que do Prémio Nobel


  • hoje à noite vou ficar a tomar conta de 4 dos meus 6 sobrinhos. será uma brincadeira pegada, porque os pais não estarão lá para ver... ;)


  • cinco mulheres na equipa do novo Governo, continuam a ser notícia. pois então, isto vai devagar, mas vai. valha-me a antropologia do género.


  • será mesmo verdade que adivinhei que o Prof. Funes anda a ler Tolkien?!


  • toda a gente sabe que uma imagem vale mais do que mil palavras e as fabulosas fotografias do João Menéres deixam-me sem elas. tantas vezes.


  • tomara que no tasquinho onde vou almoçar me digam: pataniscas de bacalhau com arroz de feijão vermelho

  • os meus amigos são os melhores do mundo[este é recorrente]


  • este ano não fui ao doclisboa. termina domingo.


  • às vezes um blog parece-me um lugar muito estranho. outras, não.


  • amanhã sai a revista Nós..., do i. mais uma para a minha colecção.


  • ainda não comi castanhas assadas.... este Outono.


  • faz um ano que estava em Itália. ai, ai... e no dia 12 de Outubro do ano passado, Lobo Antunes era capa da Pública. Aterrei com as suas palavras em Roma. comovida.


  • o Guimarães Jazz está quase a chegar

quinta-feira, outubro 22

4 perguntas


O meu querido Marcas lançou-me o desafio. Cá vai. É agora.

[De acordo com o regulamento, temos de responder a estas quatro perguntas e passá-las a três blogues, avisando os destinatários.]

Quanto às perguntas, aqui estão, com as respectivas respostas:

1) Se o azul não existisse de que cor pintaria o céu?

pintava-o da cor do mar. para baralhar.

ou, então, seria transparente. só para ver o rosto de quem segura as estrelas.

2) Há um mar vago. Onde o põe?

Em frente a minha casa. Mesmo juntinho à varanda.

3) Se encontrar um sonho perdido o que é que lhe faz?

peço mais canela e como-o. discretamente. antes que alguém dê conta que o perdeu. depois, calmamente, tomo um café. curto. sem açúcar e sem culpa. um sonho não se perde, ora...

4) Ir por aqui ou por ali. Qual a escolha?

hoje vou por ali. pelo lado mais difícil, mais sentido, mais emotivo, mais frágil, mais positivo e mais cheio de sonhos. com fé. muita fé. a Alexandra nasce amanhã. prematura. e vai-nos fazer sorrir. força pais. estamos TODOS convosco. vai correr tudo bem. muito bem.

A [minha] história devida


No passado dia 18 eu não estava em Portugal e, por isso, não ouvi o programa A História Devida, na Antena 1. Acabei de o ouvir, aqui.
O entrevistado foi Mark Deputter, director do Teatro Maria Matos que comemora hoje 40 anos. [parabéns.muitos]

Isto para vos dizer que ouvi o programa de forma diferente. Desta vez, uma das histórias foi escrita por mim e, confesso, é uma história que me é muito querida. «Era uma vez um mini azul escuro e um casaco vermelho» lida pelo actor Dinarte Branco comoveu-me. Porque é um episódio da minha infância. E porque Dinarte Branco a leu de uma forma muito divertida e muito, muito sei lá que mais... [Na minha opinião - absolutamente suspeita - claro! ] Agora esta história, é uma história mais longa, que escrevi para os meus seis sobrinhos e passou a chamar-se apenas «Os bolsos de papel».


«A História Devida é um programa apresentado pela Inês Fonseca Santos e Dinarte Branco e baseia-se num conceito posto em prática por Paul Auster nos Estados Unidos da América. A ideia passa por pedir aos ouvintes da RDP que enviem as suas próprias histórias para serem lidas em antena. A História Devida depende, assim, da participação dos ouvintes, já que o programa é praticamente «feito» por eles. Regras, há só duas: as histórias têm que ser curtas e têm que ser reais, e a sua selecção depende não de critérios literários, mas sim do mérito e da humanidade das mesmas. A História Devida não é nem um concurso nem uma competição. Ninguém anda à procura dos novos talentos da ficção portuguesa. O que verdadeiramente importa é que as histórias enviadas sejam histórias de vida – da vida dos ouvintes. Quanto ao mais, não há restrições de conteúdo nem de forma. As histórias podem ser episódios cómicos, tristes ou brutais; gaffes hilariantes ou mágoas profundas; pequenos ou grandes dramas; coincidências bizarras ou inesperadas; sonhos, pesadelos, pressentimentos, intuições ou premonições. Podem ser sobre a velhice ou sobre a infância, sobre a amizade, o ódio ou o amor; e podem ter a forma de poemas, diálogos, narrativas ou pequenos relatos. Podem ser escritas num estilo seco ou elegante, irónico ou sincero… Enfim, a lista de possibilidades é infinita.

A única certeza é que toda a gente tem uma história para contar

Vá...PARTICIPEM :)
imagem: Leonor Peralta Lopes

quarta-feira, outubro 21

magníficos

magníficos. digo eu. rendida a esta dupla fabulosa.

[o meu coração, às vezes, bate assim...] vem aí dias tranquilos. mas com muito bom ritmo...

eu aguento-me. eu aguento-me [quase] sempre.

já faltou mais. agora, meus queridos, ouçam :)

...e deixem-se encantar. com o Outono também. com a vida, sempre.

segunda-feira, outubro 19

desculpem, sim? eu volto já.


tenho andado numa lufa-lufa! por aqui - OURENSE - em trabalho. muito trabalho. cidade de que gosto bastante. principalmente quando a visito em lazer. puro lazer. e fico aqui. já faltou mais. para voltar à normalidade. e ter tempo para blogar. e ter ter tempo. TEMPO... já está quase. quase. digo eu. cansada. mas animada.
é que não se muda de vida de um dia para o outro :) desculpem, sim? eu volto já.

quarta-feira, outubro 14

Festivalar por aí - Amadora BD

É um festival! Uma alegria de lés a lés. De Norte a Sul, durante todo o ano, Portugal soma festivais. Ele é o festival do chocolate, da melancia, do chícharo, do esóterico e do caracol. Da sardinha, da castanha, do jazz, da banda desenhada, do teatro, do erótico e da dança. Da francesinha, das papas de sarrabulho, do fado, da canção redentorista, de robótica, do queijo, pão e vinho, da ópera, do islamismo, de gigantes, de tunas, dos descobrimentos e dos jardins. Da cerveja e das marcas patrocinadoras, que sem apoios não se faz nada. Ou faz-se pouco e sem visibilidade nenhuma.

Um festival é quando um Homem quer! É assim há muitos anos. E não me refiro aos 45 que já leva o famigerado Festival da Canção. Esse festival que silenciou famílias, em tempos idos, à volta da televisão. Para ouvir a Europa cantar. Agora, em cada vez mais idiomas. E com cada vez menos união. Familiar. Porque a oferta lúdica é maior. Creio.
De qualquer forma, em causa estão os festivais que tiram as pessoas de casa. E em Portugal são incontáveis. E de todos os géneros.

Pelo mundo fora, os festivais celebram-se evidenciando um aspecto único de uma comunidade. Na sua origem, estão práticas antigas. Refiro-me, por exemplo, aos que Roma celebrou em honra de deuses e vitórias; os que brindam a lua, a abundância e a união, na Ásia; ou os que celebram a chegada da Primavera. É o Festival das Cores. Ou Holi. Acontece na Índia, Guyana e Nepal. Já o judaísmo, tem um Festival das Luzes, ou Chanucá. Começa depois do pôr-do-sol do 24º dia do mês judaico de Kislev. Só para exemplificar que os festivais, não são de agora. Nem são todos filhos dos festivais da canção!
Nem pouco mais ou menos.
Falo dos festivais pautados pelos solstícios, ditados pelo calendário litúrgico de cada religião. Os festivais de todos os calendários, onde o sagrado e o profano justificam, no seu cruzamento, a festa que há por detrás de cada festival.
A palavra festa nasceu primeiro. Dizem os estudiosos. Latina, na sua origem, começou a usar-se como substantivo, depois como verbo. E da festa deriva o festival, com significados bastante próximos. Porque onde há festival, há festa, alegria, salsifré, celebração, elogio. E Portugal tem espírito festivaleiro. Novos e velhos não resistem a sair à rua para comemorar!

Sair à rua – festivalar por aí - seja para dançar, ir ao teatro, ouvir música ou simplesmente admirar jardins. Seja porque a cerveja abunda e refresca; seja porque vem aí a banda do coração. O importante é ter um motivo para festejar. E motivos não faltam. A imaginação é prodigiosa. E até o silêncio, a palavra e o riso, são mote de festival.
Os festivais, são como os cogumelos! Imensos.Todos os anos nascem mais. E há os de sempre. Como os amigos. Tão familiares que todos sabemos a sua sigla ou o seu petit-nom de cor. [...]


in nós Festivos, revista nº16 do Jornal i

Isto para vos dizer que no próximo dia 23 abrem as portas do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora!

AMADORA BD! Assim é que é. Agora :)

Porque em Outubro, manda a tradição, celebra-se a BD. Este ano é a 20ª edição de um festival mundialmente conhecido e reconhecido. E lá vou eu :) festivalar por aí...

Celebram-se os 50 anos de Astérix [o que eu aprendi História com eles...]e os 50 anos de carreira de Maurício de Sousa [turma da Mônica].
A não perder, evidentemente! Até 8 de Novembro. O programa tem mais, muito mais. É a festa da BD na Amadora! A 9ª arte à nossa espera...

terça-feira, outubro 13

a fé e a dúvida


Uma vez, há muito tempo, quando para mim as coisas simples ainda eram todas óbvias e ver televisão nas tardes de domingo era quase inevitável, retive a frase, no meio de um filme, do qual não recordo o título: “a fé só existe, porque existe a dúvida”.
Foi assim que vi revista e aumentada, a minha lista de axiomas adolescentes.
Então, a fé e a dúvida, pensei, coexistirão infinitamente.
Numa idade especialmente fértil em dúvidas, temi tornar-me monja, asceta, sei lá.
Isto caso as dúvidas fossem proporcionais à fé, claro.
Desligada do filme que, para mim, tinha terminado ali, naquela frase, emaranhava-me nos meus pensamentos pueris e lineares, condicionada, evidentemente, pela minha educação católica. E por outras vertentes do meu processo de socialização em curso.
A dúvida é condição de fé. E ia moendo aquilo à minha maneira.
À maneira dos meus catorze anos.
E pensei nas cruzadas e nas missões. Nos auto manos e nos bizantinos, no Concílio de Clermont e nas barbas grisalhas do professor de história que nos estava a ensinar aquilo tudo. E nada daquilo me fez sentido (e pensei mesmo em ir tirar satisfações com o professor) pois não concebia encontrar alguém que não tivesse dúvidas. Nem cristãos nem muçulmanos. Nem ateus nem agnósticos. Ninguém. Todos com dúvidas. Alguns com fé.
Logo, se as dúvidas eram certas, mais cedo ou mais tarde todos achariam a tal fé.
Era só uma questão de paciência, de esperar pelo tempo certo...
Pensava assim, retida naquele axioma novo, acabado de adoptar.
E, mais tarde, perguntei à minha mãe se tinha dúvidas. E ela perguntou-me sobre quê. Sobre alguma coisa. E ela disse logo que não. Sem vacilar.
Fiquei de rastos, porque achei que ela deveria ter imensas dúvidas. Íamos todos à Eucaristia dominical e, naquele tempo, para mim, ir à missa era ter fé. E, agora, pela frase do filme, sinónimo de ter dúvidas.
Lembro-me de todos estes pensamentos cruzarem no meu cérebro como jactos.
E, no domingo seguinte, dentro da igreja, pus-me a pensar em quais seriam as dúvidas de toda aquela gente. Olhava-os, tentando descortinar as dúvidas que teriam. E se teriam tanta fé como dúvidas. Ou se teriam mais dúvidas do que fé. E se não tivessem dúvidas nenhumas, também não precisavam da fé para nada. Mas não devia ser bem assim, porque a minha mãe disse que não tinha dúvidas e estava lá. E a fé era ainda algo que eu não sabia definir. Eu entendia o que era ter dúvidas porque as tinha. E achava que quando rezava tinha fé. E, afinal, pareceu-me evidente que tinha fé porque tinha dúvidas. E que talvez rezasse para as deixar de ter.
De resto não achava mais nada. Nunca tinha experimentado as consequências de ter ou não ter fé. Mas já tinha levado com as consequências de ter ou não ter dúvidas. A Eucaristia tinha chegado ao fim e, foi por esta altura que dei comigo a pensar numa tribo imaginária onde ninguém tivesse dúvidas de nenhuma espécie.
E não fosse à missa nem a nenhuma outra celebração.
Não duvidar de nada, nem de ninguém. Não acreditar em nada nem em ninguém. Viver.
Aquilo agradou-me especialmente e, não fosse a igreja estar repleta de gente muito mais velha teria defendido, para mim, que as dúvidas tenderiam a desaparecer com o passar dos anos. Mas não. Era evidente que não.
À noite, no diário de bordo da minha adolescência, registei uma historieta intitulada «existir sem dúvidas», longe de imaginar o quanto esse relato me faria sorrir de mim e das minhas estapafúrdias deambulações.
Uns anos mais à frente, ainda no liceu, cruzei-me com os primeiros filósofos e, já na universidade, com Mercia Eliade, Santo Agostinho, entre outros.
Kierkegaard foi o mais cirúrgico a mexer, novamente, no assunto da fé e da dúvida. Obrigando-me a uma nova revisão dos meus postulados adolescentes, quase adultos. Ainda adolescente, li com certa angústia, O Desespero Humano e nunca mais optei por nada nem por ninguém, sem uma certa inquietação. Às vezes nem me mexia. Só para não optar. Não dava resultado.
Depois, Nietzsche também deu cabo de umas tantas auto-evidências da minha existência. Uns de uma forma, outros de outra, foram diversos os autores que pulverizaram o meu modus vivendi. Tal como acontece hoje. Nunca mais as certezas foram as mesmas. Tirando uma ou outra. Evidentemente. E as dúvidas somavam-se – somam-se – numa equação interminável.
- Mas responde-me, deixa-te dessas considerações, responde-me
dizia-me ela impaciente.
- Tens fé, Isabel?
- Às vezes caio. Deixo-me cair. E, lá em baixo, não há nada. Nada visível que me ampare a queda.
imagem: ⓒ M&M's

Para o Ricardo


Mal nos conhecemos


Inaugurámos a palavra «amigo».


«Amigo» é um sorriso


De boca em boca,


Um olhar bem limpo,


Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,


Um coração pronto a pulsar


Na nossa mão!


«Amigo» (recordam-se, vocês aí,


Escrupulosos detritos?)


«Amigo» é o contrário de inimigo!


«Amigo» é o erro corrigido,


Não o erro perseguido, explorado,


É a verdade partilhada, praticada.


«Amigo» é a solidão derrotada!


«Amigo» é uma grande tarefa,


Um trabalho sem fim,


Um espaço útil, um tempo fértil,


«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca

[este poema é dedicado ao meu querido RICARDO. Parabéns pelo dia 4 de Outubro. Muitos 4 de Outubro nas nossas vidas. Felizes como nesse magnífico Domingo que ainda não vos tinha agradecido. Aqui. Eu sei que sabem, aquilo da felicidade... de te/vos ter como amigo (s)]

é triste...

eu gostava dela. assim como quem simpatiza com uma figura pública. é!

sexta-feira, outubro 9

II edição da comunidade de leitores Almedina

clicar na imagem para ver a agenda

«Portugal morreu? Em que sentido? É este o ponto de partida para a primeira das sessões da segunda série da Comunidade de Leitores da Livraria Almedina, do Arrábida Shopping
Começa hoje, às 17 horas, e o mote da tertúlia - A Morte de Portugal - é dado pelo título de um livro do escritor Miguel Real. O autor estará presente na próxima sessão, dia 31.
«Como há tempos se escreveu na Imprensa, o livro de Miguel Real faz o diagnóstico “do Portugal forjado nos seus pesados complexos. Da riqueza à pobreza, da euforia à depressão, dos senhores de um império a europeus de periferia. Uma visão sobre o fim de um certo país.”. Um bom tema, portanto, para debater entre períodos eleitorais…
Miguel Real é o pseudónimo do professor e escritor Luís Martins. Nascido em Lisboa, em 1953, tornou-se sintrense por adopção. É licenciado em Filosofia e Mestre em Estudos Portugueses com uma tese sobre Eduardo Lourenço. A sua extensa obra abrange o ensaio, o romance e o teatro – este último em colaboração com Filomena Oliveira – e já foi galardoada com diversos prémios:
1979 – Prémio Revelação de Ficção da APE/IPLB com O Outro e o Mesmo;
1995 – Prémio Revelação de Ensaio Literário da APE, para Portugal – Ser e Representação;
2000 – Prémio LER/Círculo de Leitores para A Visão de Túndalo por Eça de Queirós;
2005 – Prémio Fernando Namora da Sociedade Estoril Sol para A Voz da Terra.
Uma bolsa do programa “Criar Lusofonia” do Centro Nacional de Cultura, permitiu-lhe seguir, em 2001, o itinerário do Padre António Vieira pelo Brasil, do qual resultou um diário e material para o romance O Sal da Terra, cuja publicação, em simultâneo com o ensaio O Padre António Vieira e a Cultura Portuguesa, coincidiu com a comemoração dos 500 anos do nascimento do jesuíta luso-brasileiro, em 2008.
Para além de escritor, especialista em cultura portuguesa e crítico literário, Miguel Real é professor de Filosofia na Escola Secundária de Mem Martins e membro, desde sempre, da equipa da biblioteca.
Tem publicadas várias obras, entre as quais “A Morte de Portugal” (Campo das Letras), “O Último Negreiro” (Quidnovi) e “A Ministra” (Quidnovi).
imagem: Almedina

quinta-feira, outubro 8

Coração independente


Foi por vontade de Deus

que eu vivo nesta ansiedade.

Que todos os ais são meus,

Que é toda minha a saudade.

Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida

tem este meu coração:

vive de forma perdida;

Quem lhe daria o condão?

Que estranha forma de vida.

Coração independente,

coração que não comando:

vive perdido entre a gente,

teimosamente sangrando,

coração independente.

Eu não te acompanho mais:

para, deixa de bater.

Se não sabes aonde vais,

porque teimas em correr,

eu não te acompanho mais.
Amália Rodrigues/Alfredo Duarte
imagem: coração independente, Joana Vasconcelos

Estranha forma de vida

...da enorme Amália...

...e a ver se arranjo um atalho para ir à capital... em lazer.

Mudam-se os tempos


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Luís Vaz de Camões
imagem: google

esta espera que é para já

sexta-feira, outubro 2

É ter cá dentro um astro que flameja


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca
imagem: Google

Perdidamente

[eu vou, num instante, dar um salto a 1988 e venho já. meia-hora. não mais. muito alto]