quarta-feira, setembro 30

Lembranças

1.Devia lembrar-me de lembranças minhas, mas lembro-me de lembranças alheias (lembranças de pessoas que nunca conheci nem nunca me conheceram).


2.Um dia, há muitos anos, cruzei-me na rua comigo numa cidade estrangeira. Recordo agora, do lado de fora, esse instante. Eu era muito jovem e julgava então que desejava morrer. Quem em mim se lembra olhou-me alheadamente, passando, e, por qualquer motivo pareci-lhe familiar. Talvez alguém encontrado um dia,, por acaso, em algum lugar da nossa (da minha e da sua) vida, talvez algum amigo de infância para sempre perdido (quando a infância era como uma vez foi, verosímil e única). Eu não me olhei ou , se me olhei, não me reconheci (é, pois, o Desconhecido aquilo que em mim, agora, se lembra). Sem saber porquê, desejava, ou julgava que desejava, morrer. Contudo era já muito tarde. Alguns anos antes, sim, poderia ter morrido, tão perto estivera então da dor e da perfeição. Mas nessa altura não o sabia ainda. Lembro-me de mim passando e do meu confuso e incerto medo como se fosse eu, como se o medo fosse meu.
Aquele lugar, que lugar era? Que fazia eu ali, tão longe? E eu, que fazia ali? Lembrar-me-ei, também eu, desse lugar e desse momento? Quem, ou o quê, se lembra de isto? Agora sei que, se me tivesse olhado, por um momento que fosse, poderia ter-me visto. Alguma vez voltarei a estar, assim, de de novo diante de mim?

3. C. tinha longos cabelos escuros e uma voz do Norte, levemente cantada. Lembro-me de isso e, ainda,de algumas poucas palavras e de uma respiração ao telefone respirando.

Telefonara para dizer-me, entre mais coisas, que o melhor era eu fazer como se ela, e eu também, tivéssemos morrido há muito e lembrar-me de tudo (já não me lembro de quê) como de um vago sonho sonhado por outras duas pessoas, ou como se eu próprio fosse outra pessoa lembrando-se. Não era (não sei se lhe disse eu isso ou ela quem mo disse a mim) algo que se dissesse a alguém com 20 anos, mas era o género de coisa que só alguém com 20 anos pode completamente compreender. Lembro-me de que comprei, por esses dias, uma camisola castanha, de lã, e de que pensei então: «A quem falarei agora de todas as coisas sem importância?» A solidão é uma sôfrega evidência, alimenta-se de pequenos materiais, de circustâncias e de passagens, devorando a vida por onde ela é mais óbvia: por dentro.

Assim morremos os dois, tu e eu. Como poderíamos nós, ao telefone, saber que falávamos já, distantemente, de dois estranhos?


Agora o mundo é pequeno e incompreensível. Lembro-me (não sei quem) de quando o mundo e o tempo eram imensos e de quando também eu era imenso. As palavras podiam, então, conter inteiramente o destino:


- Fala-me, não pares de falar. Ouvindo-te tenho a certeza de que sou real, e de que também tu és, fora de mim, real.


- Somos reais, vês? - E seguravas-me na mão, sossegando-me, ou pousavas levemente a mão sobre a minha cabeça para eu adormecer.


[...]


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag. 263, 264, 265, Assírio & Alvim, 2001
imagem: Carla Salgueiro

muda de vida

terça-feira, setembro 29

Sei muito bem


(Sei muito bem que na infância de toda

[a gente houve um jardim

Particular ou público, ou do vizinho.

Sei muito bem que brincarmos

[era o dono dele.

E que a tristeza é de hoje.)


Sei isso muitas vezes,

Mas se eu pedi amor, porque é que me

[trouxeram

Dobrada à moda do Porto fria?

Não é prato que se possa comer frio.

Não me queixei, mas estava frio,

Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Fernando Pessoa
imagem: Google

desenhos de Leila Pugnaloni em livro


[vou antecipar a minha viagem ao Rio de Janeiro...mais concretamente para daqui a um mês :) mas enquanto não partimos, podemos sempre deliciar os sentidos aqui LIN DOS. muito lindos...]

o correio está atrasado

só para agradecer as cartas. a quem as escreveu. adorei. e, com tempo, responderei. claro:)

segunda-feira, setembro 28

da inveja


1. Tranquilize-se: não é uma característica marcadamente portuguesa. É mais...marcadamente humana.

2. É um dos sete pecados capitais

3.O neurocientista japonês Hidehiko Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológica, Tóquio, descobriu onde se situam, no cérebro, os neurónios associados à inveja: na região do córtex anterior. Curiosamente, o mesmo local onde se processa a dor física.

4. Os psicanalistas distinguem dois tipos de inveja - construtiva e destrutiva - e dentro da destrutiva dois subtipos: depressiva e hostil.

5.Entre sites e blogs sobre o tema, gostámos especialmente da Inveja do Biquíni, da Catalina, "o alter ego de uma menina muito comilona" conta a sua "saga rumo a um bikini bem pequenininho que me assombra há muito tempo".

6. A revista brasileira "Isto é" perguntou em edição recente "porque há pessoas muito invejosas e outras que passam a vida quase sem sentir essa emoção?". A psicóloga Sueli Damergian, da Universidade de São Paulo (USP), respondeu:"A inveja é sempre fruto da admiração. Se ela ficar restrita a isso, pode funcionar como impulso para o desenvolvimento. Mas "se o impulso destrutivo for muito forte, o invejoso passa a viver a vida do outro e isso pode ser danoso tanto para ele quanto para o invejado".

7. Foi estudada pela psicanalista austríaca Melanie Klein (1882 - 1960) , que no livro "Inveja e Gratidão" conta a história de um homem que invejava profundamente o seu vizinho. Um dia encontrou uma fada que lhe deu a oportunidade de pedir um desejo. Havia apenas um pequeno senão: o desejo também seria concedido ao invejado vizinho, e em dobro. O invejoso não hesitou: pediu à fada que lhe arrancasse um olho...


in Revista Nós Invejosos, nº 21

domingo, setembro 27

É preciso esquecer devagar


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou de coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo.Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doida, devidamente honrada. É uma dor que é preciso, primeiro, aceitar.É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos moí mesmo e que nos da cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrrássemos da carga que lhe damos, aceitando o que não tem solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos distrairmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos, amigos, livros e copos, pagam-se depois em conduídas lembranças a dobrar.Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. Porque é que é sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais falta das pessoas que amamos? O cansaço faz-nos precisar delas. Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. O cansaço é uma coisa que só o amor compreende. A minha mãe. O meu amor. E a felicidade. A felicidades faz-nos sentir pena e culpa de não a podermos participar. É por estarmos de uma forma ou de outra sozinhos que a saudade é maior.Mas o mais difícil de aceitar é que há lembranças e amores que necessitam de afastamento para poderem continuar. Afonso Lopes Vieira dizia que Portugal estava tão mal que era preciso exilar-se para poder continuar a Pátria dele. Deixar de vê-la para ter vontade de a ver. Às vezes, a presença do objecto amado provoça a interrupção do amor. É a complicação, o curto-circuito, o entaralamento, a contradição que está ali presente, ali, na cara do coração, impedindo-o de continuar.As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se. Custa a aceitar que os mais velhos, que nos deram vida, tenham de dar a vida para poderem continuar vivos dentro de nós. Mas é preciso aceitar, é preciso sofrer, dar urros, murros na mesa, não perceber.E aceitar. Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração. Perderíamos a religiosidade, a paciência, a humanidade até. Há uma presença interior, uma continuação em nós de quem desapareceu, que se ressente do confronto com a presença exterior. É por isso que nunca se deve voltar a um sítio onde se tenha sido feliz. Todas as cidades se tornam realmente feias, fisicamente piores, à medida que se enraízam e alindam na memória que guardamos delas no coração. Regressar é fazer mal ao que se guardou.Uma saudade cuida-se. Nos casos mais tristes separa-se da pessoa que a causou. Continuar com ela, ou apenas vê-la pode destruir a beleza do sentimento, as pessoas que se amam mas não se dão bem só conseguem amar-se bem quando não se dão. Mas como esquecer? como deixar acabar aquela dor? É preciso paciência. É preciso sofrer. É preciso aguentar.Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor. No meio de remoinho de erros que nos resolve as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor - temos de encontrar a raiz daquela paixão, a razão original daquele amor.As pessoas morrem, magoam-se, separam-se, abandonam-se, fazem os maiores disparates com a maior das facilidades. Para esquece-las, é preciso chora-las primeiro. Esta é uma verdade tão antiga que espanta reparar como ainda temos esperanças de contorná-la. Nos uivos da mulheres nas praias da Nazaré não há "histerias" nem "ignorância" nem "fingimentos". Há a verdade que nós, os modernos, os tranquilizados, os cools, os cobardes, os armados em livres e independentes, os tanto-me fazes, os anestesiados temos medo de enfrentar.Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas nas Caraíbas, livros de poesia - só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar o fôlego.Esta dor tem de ser aguentada e bem sofrida com paciência e fortaleza. Ir a correr para debaixo das saias de quem for é uma reacção natural, mas não serve de nada e faz pouco de nós próprios. A mágoa é um estado normal. Tem o seu tempo e o seu estilo. Tem até uma estranha beleza. Nós somo feitos para aguentar com ela.Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amámos de nos vingarmos delas, de nos pormos a milhas, de lhe pormos os cornos, de lhe compormos redondilhas, mas tudo isso não tem mal. Nem faz bem nenhum. Tudo isto conta como lembrança, tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por ter sido apanhada na via pública, como um bicho preto e feio, um parasita de coração, uma peste inexterminável, uma barata esperneante: uma saudade de pernas para o ar.O que é preciso é igualar a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu. Para esquecer, é preciso dar algo em troca. Os grandes esquecimentos saem sempre caros. É preciso dar tempo, dar dor, dar com a cabeça na parede, dar sangue, dar um pedacinho de carne.E mesmo assim, mesmo magoando, mesmo sofrendo, mesmo conseguindo guardar na alma o que os braços já não conseguem agarrar, mesmo esperando, mesmo aguentando como um homem, mesmo passando os dias vestida de preto, aos soluços, dobrada sobre a areia da nazaré, mesmo com muita paciência e muita má vontade, mesmo assim é possível que não se consiga esquecer nem um bocadinho. Quanto mais fácil amar e lembrar alguém - uma mãe, um filho, um grande amor - mais fácil deixar de amá-lo e esquecê-lo. Raio de sorte, ó lindeza, miséria suprema do amor. Pode esquecer-se quem nos vem à lembrança, aqueles de quem nos lembramos de vez em quando, com dor ou alegria, tanto faz, com tempo e com paciência, aqueles que amámos com paciência, aqueles que amámos sinceramente que partiram, que nos deixaram, vazios de mãos e cheios de saudades, esses doem-se e depois esquecem-se mais ou menos bem. E quando alguém está sempre presente? Quando é tarde? Quando já não se aguenta mais. Quando já é tarde para voltar atrás, percebe-se que há esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar. Como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar! Aí, está o sofrimento maior de todos. O luto verdadeiro. Aí está a maior das felicidades.

Miguel Esteves Cardoso in Último Volume, Assírio & Alvim, 1996
imagem: Sonja Valentina

sábado, setembro 26

a noite pede música

esta do Tom Waits... do filme abaixo...e porque não consegui retirar Hold On...

a poesia por Roberto Benigni

" O Tigre e a Neve". aqui podem ler-se diversas opiniões sobre este filme comovente...

[o caminho de casa]


«As palavras fazem

sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),

um sentido justo,

feito de mais palavras.

(A impossibilidade de falar

e de ficar calado

não pode parar de falar,

escrevi eu ou outro).


Volto a casa.

ao princípio,

provavelmente um pouco mais velho.

As mesmas árvores,

mais velhas

a lembrança delas

passando sem tempo nos meus olhos,

como uma ideia feita ou um sentimento.


Entre o que regressa

e o que partiu um dia

ficaram palavras;


talvez (quem sabe?)

algum sentido.


Agora, como um intruso, subo as

escadas e abro a porta; e entro, vivo,

para fora de alguma coisa morta.


Senta-te aqui, fala comigo,

faz sentido

e totalidade à minha volta!»


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag.205, Assírio e Alvim, 2001
imagem: Google

sexta-feira, setembro 25

Deixem os oxímoros para os poetas, senhores políticos


Ando eu a dizer - e tenho testemunhas - qual arruada, qual carapuça... Se ainda fosse uma arrozada...de tamboril, por exemplo...

Ora leiam...quem sabe, sabe... :)


”Arruada” e “asfixia democrática” inaceitáveis em português
A campanha eleitoral deu sinais de que o termo “arruada”poderá entrar em definitivo no léxico político-partidário. Vários “jornalistas-seniores” ouvidos pelo Página1 apontam para que a utilização do termo tenha surgido na década de 80, nas campanhas da CDU, mas “arruada”
consta hoje das agendas de todos os partidos. O linguista Salvato Trigo diz, contudo, ser errado o uso da expressão. Sendo certo que “muitas vezes, o uso acaba por consagrar normas”, o termo “arruada” é “canhestro” não estando sequer ”consagrado” nos dicionários.
O reitor da Universidade Fernando Pessoa diz que a alternativa correcta seria “passeata”, termo que não define apenas um passeio ligeiro, já que “também pode ter a significação de uma marcha colectiva”. Salvato Trigo deixa ao Página1 outro reparo sobre a expressão “asfixia democrática”, agora corrente. Trata-se, segundo Trigo, de uma expressão “semântica e sintacticamente errada”, porque “um termo anula o outro”.“Ou há democracia ou há asfixia”, sublinha o reitor da
Fernando Pessoa, defendendo que “não é aceitável conjugar dois termos que são a contradição um do outro, aquilo a que se chama, vulgarmente, em retórica um
oxímoro”. O oxímoro aceita-se “no discurso poético, mas não é possível usá-lo num discurso político sério”, uma vez que “o substantivo não é acompanhado por um adjectivo pertinente”.

Retirado do Página 1 com vénia ;)
imagem: The wall of no-words” © Alberto G. Baccelli

É brando o dia...



É brando o dia, brando o vento.

É brando o sol e brando o céu.

Assim fosse meu pensamento!

Assim fosse eu, assim fosse eu!


Mas entre mim e as brandas glórias

Deste céu limpo e este ar sem mim

Intervêm sonhos e memórias...

Ser eu assim, ser eu assim!


Ah, o mundo é quanto nós trazemos.

Existe tudo porque existo.

Há porque vemos.

E tudo é isto, tudo é isto!


Fernando Pessoa
imagem: Ana Jeremias [devidamente roubada à Devida Comédia)

fotografia + declaração de amor




é uma fotografia como nunca, antes, tinha visto... novas tecnoligias é o que é...

nota 1.[obrigada Nina. não por este e-mail - espectacular - não por todos os e-mails que, tantas vezes, são o sorriso de paz do meu dia.
obrigada por existir na minha vida. por existir agora, hoje, sempre. obrigada por tudo que me ensina. obrigada pela ternura. obrigada pelo exemplo de vida. gosto tanto tudo íssimo de si. tanto que nem sei dizer quanto. olhe: é a sogrinha com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir... :)]
nota2: leve a flor, é para si ;)

quinta-feira, setembro 24

Cinco


Cinco,

Cinco crianças que têm o mesmo de uma,

Uma que tem mais de cinco.

Cinco mil em entretenimento,

Outras sem cinco por dia.

Cinco dias de escola a cinco mil por ano,

Cinco vezes sem futuro,

Cinco,

Sinto,

Sim é isso que sinto.

Cinco estrelas no céu que não vêem,

Cinco momentos dispersos,

Cinco olhares de sorriso solto,

Cinco minutos sem conversa,

Cinco palavras que ouço,

Sem sentir o que me dizem.

Cinco anos passados,

Somente Cinco.

Cinco pedaços sem ti,

Sem mim, sem nada.


Jorge Gracia Pereira

quarta-feira, setembro 23

O sétimo dia [excerto de uma crónica]


Queria escrever sobre a dor. As diferentes cores da dor. Quando no hospital, em Nova Iorque, todos os dias o cancro levava os nossos meninos, eu olhava nos olhos da enfermeira Mary, a mulher que conheci que mais se parecia com um anjo, e perguntava-lhe:

"E a dor? Onde a pomos?", sabendo que já não havia espaço para mais. Às vezes, estava tão cansado, tão cansado...A Mary é irlandesa e tem uma fé inabalável. Confrontada com a crueldade de Deus, dizia que estava de certo muito ocupado, num Universo tão grande, que até Ele, por vezes, se distraía.

Todos os meses, na capela do hospital, médicos e enfermeiras juntavam-se para lembrar as crianças que tinham partido. A propósito de cada uma delas se contava uma história, uma graça, um episódio de coragem. A dor era lavada com lágrimas, e a coragem reconstituída no abraço que nos fazia partilhar a humanidade. Durante a cerimónia, um dos médicos mais velhos, e o que mais teimava disfarçar a sua enorme ternura, tocava piano. A dor comia bocadinhos de nós. Partes de mim deixaram de existir. A certeza que fica é que para a vida valer a pena é necessário amar e ser amado, e ter muito cuidado com o cristal de que os outros são feitos. Os outros sim, que nós somos de aço. Excepto, claro, quando choramos.

(...)

Nuno Lobo Antunes, Neuropediatra
imagem: Google

a felicidade e a felicidade completa




felicidade é:

alguém arriscar tomar um café connosco, sem telefonar e encontrar-nos no meio do turbilhão.

felicidade completa é:

alguém arriscar tomar café connosco, sem telefonar e encontrar-nos no meio do turbilhão e oferecer-nos uma caixa de bombons. da ARCÁDIA.

a noite pede fado

...este. da Ana Moura.

segunda-feira, setembro 21

o poema de Eugénio


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certezade que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
imagem: Carla Salgueiro

A crise dos falhanços espectaculares

Houve um tempo em que, nos amores e nas paixões, se falhava de forma espectacular. Com baba e ranho. Dava-se tudo. Saíamos rasgados de pele e coração. Valia sempre a pena, mesmo quando perdíamos o chão.

Os erros, as faltas, as vertigens, o pé à beira do abismo existiam para nos lembrarmos de que somos humanos. A regra era cair e levantar, prontos para outra depois de lutos intensos, sofridos, partilhados. Agora tudo isso existe sob a forma de prevenção. Para nos lembrarmos do que não devemos fazer, dos riscos que não devemos correr, contra o vírus da solidão.

Fomos ficando higienizados. Da alma à cama. Uma espécie de “se conduzir, não beba” para evitar os males do coração. Como se pudéssemos dizer “se amar, não se magoe”.

Com o passar dos anos, aprendemos a contornar os sintomas a bem da decência, da pose e da anestesia geral ou local, conforme as necessidades. O importante é não dar parte de fracos.
O ciúme é uma coisa moderna, para ser compreendida. A discussão acalorada está fora de moda.
A vingança é um prato que não se serve frio nem quente nas relações mais conceituadas. É coisa do povo, ementa de vidas de tasco, entre um tiro de caçadeira e um facalhão de meter respeito.

O civismo entrou definitivamente na nossa intimidade para amansar os corpos, os gestos, as palavras. A postura é um fato de pronto-a-vestir que usamos para entrar e sair das relações. Talvez até já nem se rasguem roupas quando chega a hora. O sentimento não ferve, a aprendizagem das loucuras que fizemos é renegada e a história do que fomos não tem disco duro porque a caixa de mensagens é mais prática e descartável. De resto, já não há cartas para guardar porque ninguém as escreve. Quem as leria, de resto, se tivessem mais de 140 caracteres?

Como num poema do Eugénio, já não há nada que nos peça água. E estamos como ela: insípidos, inodoros e incolores. Leves. Capazes de ir do tudo ou nada sem efusão de sangue. Deve andar a escapar-nos o momento em que deixamos de olhar a vida nos olhos e a desregrada infinidade de coisas que vinha junto com ela.

Miguel Carvalho in Revista Egoísta
imagem: Google

domingo, setembro 20

Síntese da felicidade


Desejo a você...

Fruto do mato

Cheiro de jardim

Namoro no portão

Domingo sem chuva

Segunda sem mau humor

Sábado com seu amor

Filme do Carlitos

Chope com amigos

Crônica de Rubem Braga

Viver sem inimigos

Filme antigo na TV

Ter uma pessoa especial

E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico

Frango caipira em pensão do interior

Ouvir uma palavra amável

Ter uma surpresa agradável

Ver a Banda passar

Noite de lua Cheia

Rever uma velha amizade

Ter fé em Deus

Não Ter que ouvir a palavra não

Nem nunca, nem jamais e adeus.

Rir como criança

Ouvir canto de passarinho

Sarar de resfriado

Escrever um poema de Amor

Que nunca será rasgado

Formar um par ideal

Tomar banho de cachoeira

Pegar um bronzeado legal

Aprender um nova canção

Esperar alguém na estação

Queijo com goiabada

Pôr-do-Sol na roça

Uma festa

Um violão

Uma seresta

Recordar um amor antigo

Ter um ombro sempre amigo

Bater palmas de alegria

Uma tarde amena

Calçar um velho chinelo

Sentar numa velha poltrona

Tocar violão para alguém

Ouvir a chuva no telhado

Vinho branco

Bolero de Ravel

E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade
[para a querida Xana, com um um xi-coração]

20% de Portugal não tem dono

Sob o "Título Terra de ninguém" o Expresso Economia conta que «metade do território nacional não tem cadastro geográfico. O levantamento cadastral vai custar perto de 1000 milhões de euros».
E só de pensar que é pelo poder [também] da terra que se travam as guerras...
bem... no caso, a leitura política feita pelo Secretário de Estado do Ordenamento do Território, João Ferrão é a seguinte:
«Isto é um problema até do ponto de vista da soberania nacional. O Estado não pode ignorar a quem pertence 1/5 do seu território. Mas isto é também um problema de cidadania porque, não havendo cadastro organizado, não se garante devidamente o direito dos proprietários».
E à pergunta «Se todos pagassem devidamente sobre a terra que possuem, todos pagaríamos menos impostos sobre propriedade?», João Ferrão diz que prefere não se pronunciar sobre isto.
mais aqui
imagem: Google

fidelidades [ou nem por isso]

«E da minha fidelidade não se deveria duvidar; pois, tendo-a sempre observado, não devo aprender a rompê-la agora; e quem foi fiel e bom por quarenta e três anos, como eu, não deve poder mudar de natureza: da minha fidelidade e da minha bondade é testemunha a minha pobreza»


Maquiavel (1469 - 1527) numa carta a F. Vettori


«Um senhor prudente não pode nem deve cumprir a palavra dada, quando tal observância lhe for prejudicial e quando as razões que levaram à sua promessa deixarem de existir. E se os homens fossem todos bons tal preceito não valeria: mas como são pérfidos e não cumprem a palavra contigo, tu também não és obrigado a cumprir a palavra com eles»


Maquiavel in O Príncipe


Conclusão: faz o que digo, não faças o que eu faço. Ou o contrário. A escolha é sua.


in Nós fiéis, nº20, revista do I.

Editorial da revista aqui
imagem: Google

ter a EGOÍSTA ajuda a AMI


digo ter, no sentido de a comprar. à revista. porque ao comprá-la estará a ajudar a AMI. e claro, como habitual, a ter acesso a conteúdos interessantes de muitos pontos de vista. esta edição é dedicada à CRISE. mas, garanto-vos, nenhum dos autores sofreu uma crise de inspiração. muito pelo contrário. a crise deu a alguns, momentos brilhantes.
Crise de Bolso, cabe mesmo num bolso. o que a torna ainda mais apetecível. digo eu.

para além dos parágrafos citados, pode, ainda, ler textos de Mário Santos, Muhammad Yunus, Carla Mendes, Nuno Artur Silva e Miguel Carvalho. a edição, como habitual, é da Patrícia Reis.



«(...) No curto prazo, é essencial estabilizar e restaurar a confiança no sector financeiro, de preferência no contexto de uma maior cooperação no espaço da União Europeia e da zona euro. Mas é essencial que este processo seja acompanhado pela defesa do emprego e por uma resposta pronta e eficaz aos problemas da natureza social».

Aníbal Cavaco Silva


«(...) Nas origens do termo "crise", está o sentido de mudança ou transição. O que exige alteração de rotinas e certezas. Adaptação e flexibilidade. Meios e confiança. Segurança e energia. Não há mudança sem aflição. Perdem-se raízes, não se encontram os caminhos. Mesmo quando é para melhor, a mudança é sempre exigente (...) »

António Barreto


«Afinal, o drama desta Crise (ainda em curso), ao fim de um ano de pânico e, sobretudo, de justificada preocupação pelos seus efeitos em matéria de desemprego universal, foi ou é uma espécie de "comédia" de um género novo: uma colossal sopa aos ricos com a China no papel de Coluche. Quem diria que o país para quem há uns setenta anos o Ocidente se mobilizava para dar a cada chinês uma "malga de arroz" estaria um dia em condições de socorrer os Mandarins da História(...) »

Eduardo Lourenço


«Por isso a partir de agora, devemos estender a todo o Portugal o que uma agência de publicidade decidiu fazer: eliminar a palavra maldita. Nunca se referir à coisa. Nunca lhe dizer o nome. Olhar sempre para o futuro que, como é óbvio, há de ser bem melhor que o presente. Não é, claro, que não estejamos já muito bem no presente. Mas no futuro é que vai ser. Vamos estar muitíssimo melhor: uma espécie de Suécia sem suecas mas com muito mais calor (...)».

Nicolau Santos


Excertos de textos publicados na revista EGOÍSTA - Crise de Bolso
Ao comprar esta edição da revista está a ajudar a AMI

a noite pede música

gostei tanto que roubei ao Marcas. com título e tudo :)

"o rapaz, o comboio e o tango"...

Sometimes


[sou absolutamente rendida ao trabalho de Sara Fanelli]

Caminho para casa



quando Lee Jeong-Hyang, realizadora de Caminho para Casa (The Way Home) viu Eul-Boon Kim (a avó, no filme) disse: é ela.

depois tiveram de a persuadir a ser uma das principais personagens; a ela que nunca tinha sido actriz nem nunca sequer tinha visto um filme.
é assim que Kim encarna o papel de uma avó muda.
«Sang-Woo, um miúdo com sete anos é levado pela mãe da capital sul-coreana, Seul, para uma vila remota onde mora a avó. Nascido e criado na cidade, Sang-Woo entra rapidamente em conflito com a matriarca da família, uma mulher dura e tradicionalista. Ele com 7 anos e a avó com 70, vão desenvolver uma peculiar relação de amizade e amor».
o filme é de uma sensibilidade imensa. uma lição de educação, compreensão, amor. inesquecível.
a realizadora dedica-o a todas as avós.
imagem: do filme

sexta-feira, setembro 18

perdoar não é esquecer, pois não?


sabem o filme do homem aranha vestido de preto? não foi dos melhores. mas gostei de o ver.

a história…uma metáfora. claro.

se quisermos todos os heróis são metáforas. hiperbólicas ou não.

o lado negro, obscuro que vive em cada um de nós. banal.

quem não o sabe? quem não o sente?

quando tudo parece estar bem, há sempre algo que transborda, numa perfusão de sentimentos e atitudes que não sabíamos ter cá dentro. de que não nos sabíamos capazes.

o filme traz à baila o perdão. um tema que me deixa sempre muito introspectiva.

afinal, o que é o perdão? o que significa perdoar? o que é perdoar?

«O mal. Um desafio para a filosofia e para a teologia» e «O perdão pode curar?» são textos de Paul Ricoeur que já li e que me trouxeram ainda mais inquietação.

depois, parece-me haver o perdoar a nós próprios e o perdoar aos outros. é distinto.

o perdão divino é uma instância superior, condicionada pela religião. obviamente. não vou por aí.
de acordo com Allen Dvorak “a palavra grega traduzida como "perdoar" significa literalmente cancelar ou remir. Significa a liberação ou cancelamento de uma obrigação e foi algumas vezes usada no sentido de perdoar um débito financeiro. Para entendermos o significado desta palavra dentro do conceito bíblico de perdão, precisamos entender que o pecador é um devedor espiritual (…)”.
o mesmo autor defende, com textos biblícos, que o perdão de Deus é condicional.

se esse é, imagine-se o perdão dos homens! alguém será capaz de perdoar sem pôr, pelo menos, uma única condição, por pequena que seja?
– estás perdoado. mas vai para longe de mim – ou – não te desejo o mesmo que me fizeste – mas afasta-te.
perdoar não é esquecer, pois não? digam-me que não, por favor.

como é que se esquece o que nos magoa profundamente?

como é que se esquece o que nos faz profundamente bem?

não consigo processar estes esquecimentos.

na índole das pessoas há uma espécie de etimologia.
demora é mais tempo do que a das palavras, a decifrar.

descobri que perdoar é o superlativo da doação. o prefixo per - (per)dão - assume o “por”; “através de”; e, ainda, o significado de plenitude. ou seja, parece-me, por muitos motivos, inclusive este, etimológico, que esta capacidade de doar, ou perdoar, é algo mais para deuses do que para homens. ou, então, de demiurgos!
eu creio que o perdão pode fazer renascer ou aniquilar.
e confunde-me a distância aparentemente curta entre dois pólos opostos.
provoca-me um jet-lag emocional.
mas o que dá cabo de mim é a associação esquecer/perdoar.
eu não esqueço.

eu, sem querer, identifico-me mais com Funes, do conto de Jorge Luís Borges. o rapaz que tinha uma memória prodigiosa e que não conseguia articulá-la com a sua pouca inteligência! o rapaz a quem era difícil dormir. o rapaz solitário e espectador lúcido de um mundo multiforme...tão belo este conto...
o perdão não passa pelo esquecimento. não pode passar.
a bem da memória.
imagem: quadro de Vieira da Silva

quinta-feira, setembro 17

a noite pede fado

...um fado da extraordinária Aldina Duarte.

Pin - uma explicação de ternura


É já no próximo domingo, dia 20, às 16 horas que o Ateneu Comercial do Porto recebe os amigos e admiradores de Luísa Azevedo. O motivo? O lançamento do seu livro “Pin – Uma explicação de ternura”, com textos e imagens de sua autoria. Votos de que seja mais um dia especial :) informação aqui.

On the road

(clicar para aumentar)

On the Road à procura do senhor, de Irene Loureiro

Inaugura no próximo Sábado, às 15 horas. - Rua do Rosário, 147, Porto

Ynari, a menina das cinco tranças

Vi-o ao longe, na Fnac. E pensei: Danuta. Eu só penso Danuta, porque não sei dizer o segundo nome. Não porque a conheça pessoalmente. Conheço-lhe as ilustrações. Para aí desde 2003. E gosto tanto, tudo íssimo.
Depois aproximei-me e vi que o livro é da autoria de Ondjaki. Não imaginava. Bela dupla, pensei. Levei-o para casa e li-o nessa noite. Gostei bastante. Até porque, Ynari que me perdoe «o meu coração também inventa palavras...» e nada como nos identificarmos com o texto para que nos prenda e nos fique cá dentro.

Ondjaki in Ynari A Menina das Cinco Tranças
Ilustração (C) Danuta Wojciechowska

sms

eu ando numa roda viva


meus amigos


e o pior


é que vai piorar.

é favor concederem-me umas horitas a mais. pode ser? ;)



imagem: Leila Pugnaloni

quarta-feira, setembro 16

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

A minha face?


Cecília Meireles

terça-feira, setembro 15

Aqui na Terra, na estrada

era tão simples. eu ao volante de uma "pão-de-forma". na bagagem estantes com Aqui na Terra, do Miguel Carvalho. e um punhado de amigos. claro. depois, era só arrancar Portugal fora... e seria este o meu novo trabalho. a levar todos os livros às pessoas.
se souberem de uma vaga avisem :)
enquanto o sonho não se torna realidade, fica a agenda para os próximos dias. anotem aí s.f.f.

18 de Setembro - Guimarães - Associação Convívio, 21:30. Largo da Misericórdia. Com Esser Jorge, Carlos Mesquita e DJ Mike
19 de Setembro - Viana do Castelo - ATL Descansa a Sacola, 16:00. Rua General Luís do Rego, 215. Com João Ogando.
23 de Setembro - Chaves - Sr. Pastel Café. 21:30. Rua do Sol.
imagem: Google

Um vendedor de flores

«É isso aí...Como a gente achou que ia ser/A vida tão simples é boa/Quase sempre.
[...]
Um vendedor de flores/Ensina seus filhos/A escolher seus amores...»
[Parabéns minha muito QUERIDA Leonor]
imagem: Google

segunda-feira, setembro 14

o Outono visto pela janela


na casa onde nasci havia sons e cheiros meus

as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória

e eu incluía-os como amigos íntimos

nesta não tem gente

ou se tem não têm cheiro

nem som porque eu não me lembro

gastei toda a memória nas pessoas antigas

e o espaço para as novas é um t1 que fica muito para além do t

onde eu estou sem visitas

fechado à medida de não deixar entrar

preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom

eu já fui bom

agora não sei

mas já fui

juro que fui

e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias

p’ra que nenhuma se perca

era pena

é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe

e quero mantê-los ligados à máquina para sempre

e a máquina sou eu

e para sempre sou eu

anda

aconchega-te no mofo do t1

finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino

cheiras à minha avó

à roupa no estendal

à canção do fim dos bonecos

ao banho que está a ficar frio

ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair

tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair

que foi no mesmo dia em que resistiu

como se estivesse ali desde o início dos tempos

e os tivesse começado para eu os acabar

acabar

acabar

acaba comigo que me falha a lembrança

e restas-me como a folha que esteve para cair

e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono


João Negreiros in arranha os céus e chove
imagem: Google

Prémio Nuno Júdice para João Negreiros

“Parece tudo muito simples, sem qualidades, digamos assim, para usarmos uma expressão que já faz parte do nosso aparato crítico contemporâneo, mas não é", afirmou o Professor Doutor António Manuel Ferreira, da Universidade de Aveiro, acrescentando que “um homem que manifesta uma relação tão sincera com a língua portuguesa só pode ser um verdadeiro poeta. E dizer isto é, para mim, dizer tudo”.

Foi assim que o Professor se referiu à poesia de João Negreiros, vencedor do Prémio Literário Nuno Júdice, com a obra arranha os céus e chove, explicando que “para situarmos estes textos na sua genealogia ético-estética temos de recuar no séc. XX e revisitar alguns textos essenciais de Fernando Pessoa, nomeadamente, as desalentadas confissões de Álvaro de Campos”. Os poemas de João Negreiros, prosseguiu “integram-se em pleno direito num dos trilhos mais vitais da Poesia Portuguesa.” São magníficos, disse, após ter lido alguns excertos.
imagem: sessão de entrega do prémio na Universidade de Aveiro retirado do blog do autor

Passeggiata

«Passeggiata é um texto sobre a ambiguidade da amizade, da confrontação entre as pessoas. Quem é o outro? Quem somos nós, afinal? Quais os sentimentos que nos movem na relação com os outros? Observamos, estudamos, imitamos. No fundo, no encontro com o outro, procuramos o reflexo da nossa imagem. Na medida do que somos. Ou não». Dia 15, às 21.30, no Theatro Circo, em Braga. Reserve aqui.

Conjuga-me muito




eu esmiúço
tu esmiúças
ele esmiúça
nós esmiuçamos
vós esmiuçais
eles esmiúçam
...e assim cai um verbo - "discreto" - nas bocas do mundo!

Desejos de consumo

Obrigada Maggie :) mais uma vez.

Regras: listar 5 desejos de consumo que te deixariam glamourosa e indicar 10 blogues.

Passo o desafio: Farol do Vento Norte; Viajar pela Leitura; Só falta um 31 na minha Vida; Vórtice; Um dia [e depois o outro; Falabarata; O mundo através de lentes de plástico; Tal Qual Sou; Pedras no Sapato; Os meus óculos do Mundo.


1.Fazer uma viagem de 7 dias, todos os meses

2.Comprar um bilhete para Itália sempre que me apetecesse

3.Comprar aquele chapéu que vi em Paris, com um preço absolutamente insultuoso

4.Comprar 2 originais de mestre Júlio Resende que eu cá sei

5.Comprar 7 livros por semana

domingo, setembro 13

Mais mimo e muitas perguntas

Este selo foi-me atribuído pela querida Maggie. Vem com estas perguntas e tem de ser atribuído a 11 blogs. Assim, as minhas vítimas são: Devida Comédia; Marcas Dágua, Um Blog que seja seu; A Matriz dos Sonhos; Divas & Contrabaixos; O blog secreto de Leila Pugnaloni; Operador Fotográfico; Há sempre um livro...; O meu sofá amarelo; O que é o jantar; Ares da Minha Graça e Impressões Digitais.

1.Qual o livro que está lendo ou qual o último que leu?
Estou a ler Barroco Tropical.
2. Qual é o livro preferido?
É uma pergunta à qual nunca saberei responder.
3. Autor, capa, recomendação ou sinopse?
Autor, recomendação, sinopse, afectos, impulsos...
São os caminhos mais habituais que me levam a comprar e a ler livros.
Há atalhos. E caminhos inesperados também.
4.Um livro que não consegue terminar de ler.
Fiquei-me pela página – só um bocadinho que vou ver onde está o marcador – 87 do Código. Há um outro que não passei das primeiras páginas, mas como gosto muito da poesia que o autor escreve, não vou dizer o nome do romance.
5. Aquele que não sai de sua cabeceira.
A minha mesa-de-cabeceira é uma livraria. Uma estante de livraria :)Tenho lá imensos. Recorrentes. Principalmente de poesia. Ramos Rosa;Eugénio de Andrade;Pessoa; Herberto Hélder; Cesariny; O`Neil; Borges; Jorge de Sena; Ary dos Santos;Cesário Verde; Sophia; Natália; Florbela Espanca; Rosa Alice Branco; Maria do Rosário Pedreira;Ana Luísa Amaral; Clarice; Manuel António Pina; Nuno Júdice; João Negreiros; José Tolentino Mendonça, José Luís Peixoto, Pedro Tamen, Daniel Faria, Valter Hugo Mãe, Kafka, Lautréamont, Rimbaud, Rilke, Baudelaire, Yeats, Tomas Bernhard, Whitman, Siylvia Plath Yourcenar. Enfim... muitos. E Eduardo Galeano. Gosto também muito de o reler.
6. Escritor preferido.
Não tenho um. Tenho vários.
7. Eu recomendo:
Vai, assim, de chofre. O que estiver na ponta dos dedos. Se não, nunca mais respondo, pois recomendar livros é das coisas que mais me inquieta.
Aqui na Terra; Luto Lento; O Apocalipse dos Trabalhadores; Longe de Manaus; No Silêncio de Deus; Somos o Esquecimento que Seremos; Mortal e Rosa; As últimas Tardes com Teresa; A Casa de Papel; Pelo Amor de Judith; Talvez a Lua; A Estrada; A Eternidade e o Desejo; Noites Brancas; Os Dados estão Lançados; O Jardim das Dúvidas; O Homem Sem Qualidades; A Viagem do Elefante; Jesusalém; Ficções; A apresentação do Eu na vida de todos os dias; A Poética do Espaço; Sinais de Fogo, ai Sinais de Fogo; Aparição; História da Loucura; O Arquipélago da Insónia; A Sombra do Vento; Mendigos e Altivos; Plano de Evasão; Diferença e Repetição e por aí fora.
8. Não recomendo:
… que leiam alguns posts do Prof. Funes porque, na minha opinião, são abomináveis. Por outro lado, há outros, raros, brilhantes.

a noite pede música

como são?

[como são os teus dias, a tua respiração no silêncio?]

imagem: Joep Roosen

sábado, setembro 12

um lugar em que me encontro




"Mesmo que o nosso querer seja pequeno: Deus está a amadurecer."

Rilke


Se deus for este lugar

interior em que me reconheço

tu és o prolongamento exterior

desse lugar

em que o meu olhar recai


E a existência sem existência

prolonga-se na incerteza

de todos os conceitos e limites

porque tu és parte

do que não podes ver

porque se deus for este lugar interior

em que me reconheço


Tu és o nome e o tempo

de tudo o que me pode configurar


Gisela Ramos Rosa, Agosto de 2009
imagem: Gisela Ramos Rosa


[*um lugar em que me encontro sempre que o visito: A Matriz dos Sonhos]

Os abraços desfeitos em Lanzarote

todos os filmes de Almodóvar devem ser vistos. mesmo os menos emocionantes do que Volver, Fala com ela ou Tudo Sobre a Minha Mãe...Todos.

sexta-feira, setembro 11

é daqui a pouco, a sessão de abraços

todos conhecem assim aquela sensação de borboletas no estômago. pois é o que sinto. a poucas horas de o ir ver. isso e ansiedade. é sempre assim. com os filmes deste SENHOR.

Abraços Desfeitos. estou à espera dele desde o início deste blog. desde Fevereiro. lembram-se? não. é há mais tempo. em boa verdade eu espero ansiosamente pelo próximo filme de Almodóvar, quando acabo de ver o último.

Afectos em estado sólido

Soube aqui que A VIDA PORTUGUESA abrirá no Porto. Já vi, a Norte, umas coisas aqui e ali. Soltas. Mas uma loja inteira não. Espero que chegue a tempo das lembranças de Natal :) É um projecto "fabulástico". Com um conceito muito interessante, inteligente, criativo. E apela à memória. Individual e colectiva. O que me toca. Compram-se objectos como quem compra estórias. Como quem leva para casa, afectos em estado sólido. Assim, já não terei de ir à belíssima loja do Chiado para me perder, para ficar encantada, para colar o nariz na montra.
Artefactos e mentefactos. Cultura, afinal. A nossa.
imagem: Google

Erro de "casting"

Esta capa seria perfeita se a bola de berlim fosse da Natário. [Manuel] Não é.

Debates para esquecer o eleitorado

*Não, não me importo, João Fazenda.

Não tenho para ti quotidiano


Não tenho para ti quotidiano

mais que a polpa seca ou vento grosso,

ter existido e existir ainda,

querer a mais a mola que tu sejas,

saber que te conheço e vai chegar

a mão rasa de lona para amar.


Não tenho braço livre mais que olhar

para ele, e o que faz que tu não queiras.

Tenho um tremido leito em vala aberta,

olhos maduros, cartas e certezas.


Neste comboio longo, surdo e quente,

vou lá ao fundo, marco o Ocupado.

Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.

Batem-me à porta e digo que está gente.


Pedro Tamen in as palavras da tribo, Volume I, Co-edição Altamira e Quetzal, pag. 191, 1985
imagem: Angela Bacon-Kidwell

quinta-feira, setembro 10

quase, quase

estou quase, quase a cumprir um sonho antigo: arrumar o meu escritório.

My mistakes were made for you

quarta-feira, setembro 9

O Dia


Fresco era o dia, plantado na chuva,

jovens os relógios tocando Mozart...

Os carros corriam, os passos passavam

e os velhos sentados dormiam no tempo

regressos perdidos de todas as sombras.


Pássaro pousado na alma da tarde,

era todo o sol natural inverno...

O mar estava perto nos olhos da gente,

um barco chegava em cada minuto

e o segredo bailava nas mãos da criança.


Recordo uma paz sob as gabardinas,

recordo humidade nas rodas dos carros...

(Tão solta no ar corria a memória

que as folhas tão verdes marcavam os anos).

A chuva nascia da terra para o ar

e ria na cara da gente perpétua

- cada riso dela era a rua inteira

e era o cão vadio cheirando esta terra

gerada no vento pelo grande gesto.

Rua colocada por amor das formigas

pequeno brinquedo achado no bosque,

eras mão aberta para todos os sons,

para cada assobio de vapor de água,

para a bela frescura da brisa salgada.

Ligeiros, os céus brincavam escondidos

com a tarde criança presente no ar,

jogavam às pedras ao pé dos passeios

e corriam juntos fugindo do vento...

Passavam pessoas de faces vermelhas,

de um sono pequeno agora acordadas,

seus passos miúdos de nada sabiam

- nada estava feito e tinham dez anos.

A branca neblina sentada no sol

sorria de perto a tudo que era

e tudo saltava na sua presença.


Escorregavam horas do berço dos ramos

ficando caladas, respirando fumo...

E, leves, cheirosas, perpassavam mãos,

tão estreitas e fortes, do primeiro mundo...

Algo se esperava, algo estava perto,

algo era preciso faltava a resposta,

o rio que fosse a cama da chuva,

a sombra final para o sol se deitar,

a torre perfeita com todos os olhos,

a mão que apertasse as coisas dispersas...

E eis que o rio vem, a sombra e a torre,

e se estendem dedos com a tua chegada.


Saltaram coelhos de todas as tocas

e a fonte da serra sorriu-se no musgo.

Manaram os beijos no ar respirado

e as malas abertas mostraram o fundo.

Fugiram cavalos de pernas de espuma

levando no pêlo noticias em branco.

E o vento corria em busca da lua

e a tarde e os céus calavam os gritos...

Silêncio se fez, e a erva cresceu

mais verde e mais fresca, segura certeza.

Espreitaram os sinos, riam-se as escadas,

tudo estava pronto e de novo erguido...


Tão bela que vinhas como que de infância,

tão pura e tão simples, tão gesto benigno,

tão nova palavra rasgada no mar...

Menina dos anos, dos anos perdidos,

sombra de outras noites, noiva de outros dias,

perfeita miragem, pele das próprias mãos,

eis que então chegavas e eis que eu te via,

e as horas sorriam, felizes, completas...


Teu rosto era a concha dos quatro oceanos,

teu corpo era a praia de areia molhada,

teus olhos erguiam o toldo do céu

e enchiam os mastros de verdes bandeiras.

Tu eras o vento, tu eras a força,

dançavam secretas tuas mãos de aragem...


Nasceste presença na tarde de bronze

e agora já nada seria indeciso.

Agora eras tu a essência dos nomes,

os galos cantavam, era bom respirar

Os prados distantes ficavam tranquilos,

esperando os teus pés, berlindes pequenos.

A chuva e a brisa, a jovem frescura,

ganhavam certeza, seguras estavam

- morena lembrança, segundo natal.


Nunca mais a noite mordida no escuro,

nunca mais o dia manchado de cuspo,

nunca mais o véu tapando-me tudo,

nunca mais os dedos procurando flores...

A estátua plantada na nudez do largo

devolvia a calma aos olhos fechados

e enchia de sombra as pedras queimadas.


Agora eu sabia em cada manhã

nasceria o sol atrás dos teus ombros.


Pedro Tamen in as palavras da tribo, Volume I, Co-edição Altamira e Quetzal, pag.167, 1985
imagem: Matteo Mignani


terça-feira, setembro 8

onde fica, exactamente?


algures, por aqui, encontra-se uma saída. sei que sim.

e por falar em crónicas, Leonardo


Antes que anoiteça

Por razões que não vêm ao caso, as últimas semanas, difíceis para mim, têm-me obrigado a pensar no passado e no presente e a esquecer o futuro. Sobretudo o passado: tornei a encontrar o cheiro e o eco dos hospitais, essa atmosfera de feltro branco, onde as enfermeiras deslizam como cisnes, que nos tempos de interno me exaltava, o silêncio de borracha, brilhos metálicos, pessoas que falam baixinho como nas igrejas, a solidadriedade na tristeza das salas de espera, corredores intermináveis, o ritual de solenidade apavorante a que assisto com um sorriso trémulo a servir de bengala, uma coragem postiça a mal esconder o medo. Sobretudo no passado porque o futuro se estreita, e digo sobretudo o passado visto que o presente se tornou passado também, recordações que julgava perdidas e regressam sem que se dê por isso, os domingos de feira em Nelas, os gritos dos leitões
(lembro-me tanto dos gritos dos leitões agora)
um anel com o emblema do Benfica que aos cinco anos eu achava lindo e os meus pais horrível, que aos cinquenta anos continuo a achar lindo apesar de achar horrível também, e julgo ser altura de começar a usá-lo uma vez que não me sobra assim tanto tempo para grandes prazeres. Quero o anel com o emblema do Benfica, quero minha avó viva, quero a casa da Beira, tudo aquilo que deixei fugir e me faz falta, quero a Gija a coçar-me as costas antes de me deitar, quero o pinhal do Zé Rebelo, quero jogar pingue-pongue com o meu irmão João, quero ler Júlio Verne, quero ir à Feira Popular andar no carrocel do oito, quero ver o Costa Pereira defender um penalti do Didi, quero trouxas de ovos, quero pastéis de bacalhau com arroz de tomate, quero ir para a biblioteca do liceu excitar-me às escondidas com a «Ruiva» de Fialho de Almeida, quero tornar a apaixonar-me pela mulher do faraó nos «Dez Mandamentos» que vi aos doze anos e a quem fui intransigentemente fiel um verão inteiro, quero a minha mãe, quero o meu irmão Pedro pequeno, quero ir comprar papel de trinta e cinco linhas à mercearia para escrever versos contadas pelos dedos, quero voltar a jogar hóquei em patins, quero ser o mais alto da turma, quero abafar berlindes
olho de boi, olho de vaca, contramundo e papa
quero o Frias a contar filmes na escola do senhor André, a falar do Rapaz, da Rapariga e do Amigo do Rapaz, filmes que nunca vi a não ser atrvés das descrições do Frias ( Manuel Maria Camarate Frias o que é feito de ti?)
e as descrições do Frias eram muito melhores do que os filmes, o Frias imitava a música de fundo, o barulho dos cavalos, os tiros, a pancadaria no «saloon», imitava de tal forma que a gente era com se estivesse a ver, o Frias, o Norberto Noroeste Cavaleiro, o homem que achou que eu lhe estava a mexer no automóvel e se desfez num berro
- Trata-me por senhor doutor meu camelo
a primeira vez que uma pessoa cerscida me chamou nomes e eu com vontade de responder que o meu também era doutor, que ao entrar no balneário do Futebol Benfica para me equipar o Ferro-o-Bico explicou aos outros
- o pai do ruço é doutor
e houve à minha roda uma nudez respeitosa, o pai do ruço é doutor, quero voltar a apanhar um táxi à porta de casa e o chofer perguntar:
- É aqui que mora um rapaz que joga hóquei chamado João?
e quero tornar a espantar-me por ele tratar assim o pai do ruço, quero partir um braço e ter gesso no braço ou, melhor ainda, uma perna para andar de canadianas e assombrar as meninas da minha idade, um miúdo de canadianas
achava eu, acho eu
não à rapariga que não deseje namorar com ele e além disso os carros param para a gente atravessar a rua, quero que o meu avô me desenhe um cavalo, eu monte no cavalo e me vá embora daqui, quero dar pulos na cama, quero comer percebes, quero fumar às escondidas, quero ler o «Mundo de Aventuras», quero ser Cisco Kid e Mozart ao mesmo tempo, quero gelados do Santini, quero uma lanterna de pilhas no Natal, quero guarda-chuvas de chocolate, quero que a minha tia Gogó me dê de almoçar
- Abre a boca Toino
quero um pratinho de tremoços, quero ser Sandokan Soberano da Malásia, quero usar calças compridas, quero descer dos eléctricos em andamento, quero ser revisor da Carris, quero tocar todas as cornetas de plástico do mundo, quero uma caixa de sapatos cheia de bichos de seda, quero o boneco da bola, quero que não haja hospitais, quero que não haja doentes, quero que não haja operações, quero ter tempo para ganhar coragem e dizer aos meus pais que gosto muito deles
( não sei se consigo)
dizer aos meus pais que gosto muito deles antes que anoiteça senhores, antes que anoiteça para sempre.

António Lobo Antunes

crónica de 15 de Dezembro de 1996, in Crónicas do Público

e por falar em Lobo Antunes, Claudia

quando o coração se fecha faz muito mais barulho que uma porta

António Lobo Antunes

imagem: Mattias Gustafsson

deixa-me inventar [te] I


quero lá saber. pior. irritam-me os que querem saber.

e tem uma opinião sobre tudo. opinam sobre o estado da nação e sobre os peixinhos de prata que infestam a casa de banho. sobre o sabor dos peixinhos da horta, sobre os aquários dos peixinhos vermelhos;

opinam sobre os benefícios da gelatina vegetal e sobre as subtilezas da liberdade de expressão. opinam sobre decisões políticas que são meramente políticas.
opinam sobre decisões políticas que não são meramente políticas.
opinam sobre cantores, palhaços, jornalistas, políticos, astrólogos.
opinam sempre com o mesmo ar. sempre no mesmo tom.
"tutólogos" é o que são. "tutólogos".
especialistas em tudo. o Pierre Bourdieu é que tem razão. às vezes.
têm sempre qualquer coisa a dizer sobre qualquer coisa.
falam sobre tudo. sobretudo falam. opinam. irritam-me.

- nem parece teu. olha lá. a televisão está sem som. nem sabes o que estão a dizer. do que falam.

- não importa. só está sem som, porque a senhora da recepção não sabe do comando. e com som ou sem som, as pessoas ouvem na mesma. e a esta hora da manhã, são muitos a ouvir.

- estás impaciente. irritada. é natural. eu quando estava à espera dos resultados do exame ao meu pulmão estava assim. parece que mais nada tem importância a não ser o nosso pulmão. e pensamos logo em alternativas. em como viver só com um pulmão. se formos optimistas.

- natural é tu estares para aí com esse discurso. para que não fique nervosa. como se fosse possível. para que não desfolhe as revistas sem as ler, para que não leia os livros sem os desfolhar, para que não ouça televisão sem ver. sabes? gostei muito de ouvir o Francisco Anacleto Louça e a Manuela Ferreira Leite. sobretudo o Francisco Louça. é um cavalheiro. um cavalheiro. por acaso nunca reparei se tem umas mãos bonitas. tem? e os cartazes? um horror. o da Ferreira Leite, então, está muito mal. desfavorece-a. e há um, do Sócrates, com um tremendo ar gozão. ele que podia ser uma espécie de Clooney se fosse um grande actor. mas o título de Clooney português pertence ao tio do meu amigo. aquele meu amigo, sabes?

-como te sentes? olha lá para mim. não se nota nada. na verdade não se nota nada. vês-me melhor? olha lá bem para mim. é incrível. parece que nunca nos acontece e, de repente, zás. vai passar. claro que vai passar. isso não é nada. é um susto. mais nada. olha. é a tua vez. queres que entre contigo?

-entra. pode ser grave. e se for muito grave, vou desmaiar. tu sabes. quando eu não quero ouvir, desmaio. espera aí, deixa-me por as gotas. Optive. no olho, transformam-se nos componentes naturais das lágrimas. e posso não as ter, para chorar. até me ficava mal. eu que choro por tudo e por nada. e agora diziam-me que eu estava com os pés para a cova e nem uma lágrima me corria.

- não é por aqui. o seu exame está óptimo. temos de saber qual é a origem dessa cegueira, mas não é por aqui. o resultado da TAC é normalíssimo. por outras palavras: não tem nada na cabeça.

- e não imagina, senhor doutor, como é bom ouvir isso da sua boca. apesar da conversa dela, lá fora, já o ter denunciado.
imagem: René Magritte