domingo, agosto 30

Elegia da lembrança impossível


O que não daria eu pela memória

De uma rua de terra com baixos taipais

E de um alto ginete enchendo a alba

(Com o poncho grande e coçado)

Num dos dias da planície,

Num dia sem data.

O que não daria eu pela memória

Da minha mãe a olhar a manhã

Na fazenda de Santa Irene,

Sem saber que o seu nome ia ser Borges.

O que não daria eu pela memória

De ter lutado em Cepeda

E de ter visto Estanislau del Campo

Saudando a primeira bala

Com a alegria da coragem.

O que não daria eu pela memória

Dos barcos de Hengisto,

Zarpando do areal da Dinamarca

Para devastar uma ilha

Que ainda não era a Inglaterra.

O que não daria eu pela memória

(Tive-a e já a perdi)

De uma tela de ouro de Turner

Tão vasta como a música.

O que não daria eu pela memória

De ter sido um ouvinte daquele Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões

Enquanto a morte azul ia subindo

Dos seus pés já tão frios.

O que não daria eu pela memória

De que tu me dissesses que me amavas

E de não ter dormido até à aurora,

Dissoluto e feliz.


Jorge Luis Borges in Obras Completas, pag. 127, Teorema, 1989
imagem: Leila Pugnaloni

Ouvir um post na Antena 1 ou A História Devida


Foi assim: comecei por ouvir a história da Bola de Berlim. Achei o programa uma delícia. Por e-mail, no dia anterior, dei a dica a alguns amigos. Ouviram e gostaram. Mesmo os que ouvem habitualmente a Antena 1 e não tinham o hábito de ouvir rádio ao Domingo. Agora, aos Domingos, às 13 horas, estamos todos sintonizados. Hoje, graças a um amigo :) «Foi assim que comecei a amar Sophia», escrito em Abril, é lido nA História Devida. Apresentado por Inês Fonseca Santos e Dinarte Branco, o programa é baseado "no conceito do escritor Paul Auster e pretende dar a conhecer as histórias de vida dos ouvintes da RDP. Histórias de amor, de amizade, de saudade, histórias alegres, bonitas, eufóricas, histórias de paisagens, sonhos ou lugares. Histórias curtas e reais." Estão todos convidados a sintonizar a rádio e a ouvir. Todos os Domingos há uma história, um entrevistado e, claro, música. E..."participem... porque toda a gente tem uma história para contar"!


O meu amor mais antigo é a poesia. A seguir à minha mãe. Sendo que mãe e poesia são, tantas vezes sinónimo, no meu dicionário de afectos. Tenho a sensação de sentir poemas muito cedo. Mesmo antes de começar a ler. Uma vez, no início da infância, senti muito medo e a minha mãe abraçou-me com muita força. Foi um abraço extraordinário. E eu, dentro do abraço dela, tive uma sensação de poema, que ainda hoje se mantêm. Depois, na escola, os meus livros de leitura tinham poemas que decorei. E só aí percebi que os poemas também se fazem com letras. E recordo-me, por exemplo, que astronauta rima com pernalta. E flor com dor. E contou com enrolou. E lembro-me, de como a febre das rimas tomou conta do meu universo de palavras. Não havendo nenhum remédio para a baixar. Tal como não havia nenhuma palavra que eu não fizesse rimar com outra. Até à exaustão. Da minha mãe. Que dizia: deixa lá!Procuramos amanhã. Recordo-me de pôr o Meio Físico e Social, a rimar com jornal. E ainda sinto a tristeza de não ter sido eu a arranjar uma rima para a Matemática. Andava na primária.
Depois, foram as histórias mais compridas. Não rimavam. Mas a sensação de poema ficava cá dentro. Quando gostava muito delas. Até que, um dia, chegou a Menina do Mar. E eu percebi que os poemas e as estórias eram feitas por pessoas que conheciam outras pessoas, coisas e lugares que um dia, eu também queria conhecer. E pensei na sorte de Sophia! Por conhecer uma menina “de cabelos verdes, olhos roxos, com um vestido de algas encarnadas”. E um Rapaz de Bronze e uma Fada Oriana e um Cavaleiro da Dinamarca. E, depois, por Sophia, descobri que as estórias podiam ter poemas dentro. [Como os filhos, dentro dos abraços dos pais]. Como na estória A árvore, que tanto gostei de ler. E percebi, com clareza, que uma árvore pode transformar-se numa barca. E que, deste modo, uma árvore pode viver no mar. E descobri como um mastro se pode transformar numa guitarra e como essa guitarra pode ter voz. E como essa voz pode ser uma canção e como uma canção pode ser um poema. E como um poema pode ser a memória de uma árvore ou de um povo.
Ensinou-me o espanto. Foi assim que comecei a amar Sophia. Desde muito cedo. Ela cresceu em todos os meus sentidos. Em todo o meu sentir. E percebi, com ela, que não podia viver sem livros. Porque os livros dela me tinham ensinado a olhar para além do aparente. E foi, assim, que a fui procurar às livrarias. Pelo nome. E foi dela, o primeiro livro que eu comprei. Histórias da Terra e do Mar. E, depois, todos os outros que me chegaram. Até toda a sua poesia me entrar, letra a letra, nas veias. E circular como seiva. Até perceber a raiz do “inteiro” e do “original”. Até compreender todas as ilhas que habitam o mundo. Até me apaixonar pela Grécia. Até o mundo, não respirar sem ela. Sem a sua poesia.
E depois, ia-lhe escrevendo cartas. Até que um dia, em Viana do Castelo, durante uma Presidência Aberta, dei conta de nós, no mesmo lugar. Do lado de fora dos poemas. Peguei nas minhas cartas e nos seus livros. Na convicção mais funda do nosso encontro. E nas palavras iniciais que lhe queria dizer. Quando cheguei à Pousada de Santa Luzia, não havia santa que valesse a tanta ansiedade. Não sabia onde por as mãos e, muito menos, o coração. Não sabia nada. O seus poemas todos cá dentro. Como se fossem um só. As palavras apertadas na garganta. Os lábios colados. Quase não respirava. E acho que, mesmo assim, rezei. Para aquela gente ir toda embora. Mas não aconteceu. Até que ela se levantou e eu paralisei. Mas consegui ouvir e ver. E vi-a tão extraordinariamente bela. Tão extraordinariamente sábia. Tão extraordinariamente serena. Que não consegui fazer nada. Nem tão pouco aproximar-me. Admirei-a de longe. Como tinha de ser. Numa afasia total. Numa epifania absoluta. Dentro dos livros. No nosso lugar. Até ao dia da sua morte. Doze anos, depois, daquele dia, em que a vi. Sem a imaginar. Nessa noite de Julho, li-lhe as minhas cartas. Em voz alta. Só lá estava eu. E ela.
«Seu rosto seria a cintilante claridade/De uma praia/
E em sua humana carne brilharia/A luz sem mancha do primeiro dia»
Sophia de Mello Breyner e Andresen
imagem: Google

sexta-feira, agosto 28

A pior capa que lhe passou pelos olhos

Esta é de fugir! Mas há pior. A iniciativa é da Pó dos livros. Quais as 10 piores capas de sempre da edição de livros em Portugal? Participe. Aqui.

Corrente de ar


Uma corrente de ar muito, muito veloz...é!

imagem: Google

Cá entre nós, que ninguém nos ouve


Vão ver. Um dia destes, vão ver. E não vão acreditar! Não saberei, apenas, indentificar-lhes a função. Saberei usá-los. Com destreza. Todos os dias! Vá. Tá bem. Todos os dias é um exagero. Mas três vezes por semana. E um dia, saberei conduzir e pôr batom sem ser o do cieiro. Ao mesmo tempo. Conduzir e pôr batom vermelho. Tudo ao mesmo tempo. Assim, enquanto a fila não anda. Vá. Tá bem. Vermelho não. Mas um batom de cor. Assim, num ápice. Como se a minha boca fosse desenhada a batom desde que nasci e eu apenas a retocasse.
Um dia destes. Vão ver. Vão ver e não vão acreditar! Eu de pincéis em riste. A enfrentar o dia. Como se já tivesse nascido a maquilhar-me.
Vão ver se um dia destes eu não aprendo! Ai aprendo, aprendo...que nunca é tarde...

Logo à noite lá estaremos

Para a Carla; o António e o José :) e...logo à noite, lá estaremos, no Palácio de Cristal! Por muitos motivos e mais este ;)

Saia um filme, sff


Já tenho aqui ao lado a Visão desta semana mas ainda vou falar da outra. A que saiu a semana passada. [É que não há forma de a dona deste blog me contratar definitivamente...] Os segredos do Barro Branco, uma reportagem do Miguel Carvalho. E que reportagem! Excelente. Com muita investigação, claro. Lê-se e, depois, apetece mesmo o filme. Tem os ingredientes todos! Todinhos. Nem sequer faltam dicas para o guarda-roupa da época. Nada. Nada. Tá lá tudo. Só falta mesmo quem faça sair o filme. Que a partir da reportagem, escreve-se o guião. Oram leiam, se ainda não leram. Alguns excertos e, creio eu, não restam dúvidas.


«Joaquim Ferreira Torres, industrial e financiador da rede bombista de extrema-direita, foi assassinado a 21 de Agosto de 1979. A morte serviu conveniências privadas e políticas. Mentores e autores não foram descobertos. O crime prescreveu. Trinta anos depois, a VISÃO traz a público novos dados e documentos.

Esta é a história de um homem controverso, de fortuna suspeita, que tentou cair nas graças do fascismo, deu dinheiro à oposição democrática, tirou comunistas da cadeia e ajudou “pides” e empresários a fugir. Um dia, ameaçou “abrir o saco” e calaram-no. A tiro. Por Miguel Carvalho Naquela manhã, Joaquim Ferreira Torres levantou-se mais tarde do que o habitual. Normalmente, estaria a pé às seis horas. Mas o jantar terminara para lá da meia-noite e ele havia passado a madrugada com dores na coluna. Estava, contudo, bem-disposto ao pequeno-almoço. Era Verão e a família mudara da vivenda das Antas, no Porto, para a sua Quinta de Vila Nova, em Penafiel. A mulher, Elisa, ia para as termas de São Vicente, ali perto. O marido continuava a fazer o percurso diário entre a casa e a fábrica têxtil de que era proprietário, em Famalicão, ignorando o significado da palavra férias.Apesar de discreto e reservado, regressara uma das últimas noites carregando uma mala com mil contos, fruto de um negócio com ciganos. Atarefado, nem deu importância ao facto de naquele período alguém lhe rondar a quinta, questionando os caseiros sobre as suas rotinas. Estranhara apenas as avarias no telefone, quase sempre ao final da tarde. O aparelho parecia ter vontade própria e os técnicos tardavam em descobrir o defeito.Tal não o impediu de marcar o referido jantar. Encomendara uns melões no restaurante Tanoeiro, em Famalicão, onde almoçava amiúde. O tenente-coronel Oliveira Marques e a esposa eram esperados à noite, vindos de Lisboa. Torres juntou à mesa a mulher, o “Quinzinho” - sobrinho que criou como verdadeiro filho desde os onze meses após a morte de um irmão - a irmã Sãozinha e o cunhado Mota Freitas, major da PSP, entre outros familiares. Antes e depois da refeição, os homens reuniram no escritório. Oliveira Marques foi embora já passava da meia-noite. Quando acordou, mal dormido, Torres vestiu uma camisa, casaco e calças claras, tipo caqui. Apertou o cinto de cabedal vermelho e calçou uns sapatos castanho claros picotados, de pala. No pulso, um Ómega de ouro. Num dedo, o anel, também em ouro, com brilhante de sete quilates. Guardou a carteira com umas dezenas de contos e numa pequena pasta preta colocou vários documentos, cerca de 42 mil pesetas e duzentos marcos. No casaco, levava a inseparável caneta em ouro e a agenda, recheada de contactos. Na lista, nomes de homens de negócios, policias e militares de várias patentes, velhos conhecidos do antigo regime, cónegos, políticos e cadastrados. O industrial fez-se à estrada no seu Porsche vermelho 911 T, por volta das oito horas. Em Paredes, comprou os três matutinos do Porto e seguiu viagem. Três quilómetros à frente, na estrada nacional que liga Paredes a Paços de Ferreira, talvez vendo um rosto familiar, abrandou. Numa emboscada de execução tipicamente militar, desconhecidos, munidos de armas pouco habituais no País, disparam contra ele vários tiros, atingindo-o sobretudo no crânio. Torres tombou, morto, para o lado direito do condutor. Passavam quinze minutos das oito horas do dia 21 de Agosto de 1979. O Porsche contava mais de 77 mil quilómetros. Duas jovens iam comprar vinho quando deram o alerta. Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que “abriria o saco” sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como “o crime do Barro Branco”, lugar onde o calaram para sempre.


A ascensão, “à americana”


Até ali, ele tinha granjeando fama e fortuna vindo do nada e do esquecimento, ao estilo do mito americano. Nascera no simbólico 13 de Maio, em 1925, em Rebordelo, Amarante, um de 17 irmãos. Fez o ensino básico e vendeu carvão em Vila Pouca de Aguiar, onde o pai trabalhou nas minas. Também passou madeiras para Espanha, clandestino. Foi marçano numa loja de mercearias finas e, no final dos anos 40, já andava por terras transmontanas, de bicicleta ou motorizada, como comissionista e vendedor de rifas, ganhando bom dinheiro com sorteios de chocolates e navalhas.Em Murça, conhece Elisa, da aldeia de Noura, com quem haveria de casar. A rapariga trabalhara numa padaria e era governanta. “Uma lasca de mulher, muito cobiçada”, diz quem a conheceu. Namoram pelos quintais. E ela é sua cúmplice nas fugas à polícia que metiam saltos pelos telhados e esconderijos em tonéis de vinho. Os mandados de captura contra ele sucediam-se. E do tribunal de Chaves desapareceria, mais tarde, o seu registo criminal, que incluiria um historial considerável de abusos de confiança.Nos anos 60, já negociante de vinhos em Rio Tinto, Torres abre em Angola armazéns “com tudo do bom e do melhor para comer e beber”, segundo um antigo inspector da PIDE. As relações e os negócios fluem. A partir de 1964, Sousa Machado, empresário, recorre a ele para fazer face a problemas económicos na Companhia Mineira do Lobito e nos hotéis Presidente e Panorama, em Luanda. Ao longo de anos, pedirá montantes da ordem dos 200 mil contos, empréstimos cuja totalidade não liquidará até à morte do amigo. O filão, porém, é o tráfico de diamantes e divisas. Torres conhece Tschombé que, com ajuda da CIA e de diversos mercenários, tenta a secessão da província diamantífera do Katanga, no Congo. Quando o líder africano cai em desgraça, Salazar – que lhe cedera armas – dá refúgio aos familiares. Mas será o homem de negócios de Amarante a velar pelos interesses dos herdeiros de Tschombé. E pelos seus, claro.Torres regressara com uma fortuna incalculável.Deposita lingotes de ouro na banca e dedica-se à especulação bolsista, mantendo laços com amigos de África. Os bancos disputam-no e negoceia, fazendo-se caro. “Já ganhei mais mil contos!”, ouviam-no, ao telefone, com gestores e administradores. Entre outros investimentos, compra terrenos, uma tipografia, uma casa de câmbios e chegará a ser dono de 27 quintas no Norte do País. Passeia-se num Jaguar 4.2, anda de Porsche e num Mercedes amarelo 350 SLC, desportivo. É amigo do banqueiro Pinto de Magalhães e do empresário Xavier de Lima, quase dono de Setúbal, a quem ajudaria a recuperar a fortuna. É avalista de negócios no turismo e outras áreas. Credor dele, Sousa Machado abre-lhe portas nos meios políticos e militares. Hábil e desconfiado, anota tudo. Dos 110 contos que gasta nuns botões de punho a uma pulseira para a mulher no valor de 90 contos. O círculo íntimo sabe apenas o estritamente necessário. É de fúrias e impõe rotinas de forma quase militar, sem transigências. Rigoroso, manda repetir textos à máquina por causa de vírgulas. Na ascensão meteórica, cultiva gostos a preceito. Os fatos e sapatos são feitos às dúzias, por medida, nas melhores lojas de Santa Catarina, no Porto. De Londres, traz tecidos, sem falar mais do que o português. Em casa, cultiva uma decoração imponente e aparatosa, com móveis franceses, que convidados classificam como “neo-barroco da burguesia”. Os jantares são opíparos e a garrafeira não destoa. Comprara mais de cem garrafas de Barca Velha, ao preço de muitos ordenados da época. Preferia colheitas de 64 e 65. Ou um Faustino I, Rioja, de 66. Se acompanhassem uma perdiz cozinhada pela mulher, tanto melhor.Conquistado o estatuto financeiro, ao ritmo de “pronto-a-vestir”, Torres procura a legitimação social que lhe faltava. Os seus ciúmes tinham um nome: Gonçalves de Abreu, comendador, dono de um império industrial, figura prestigiada, presidente da Câmara de Amarante. A autarquia e uma comenda eram o seu sonho. Ele esmera-se. Em finais dos anos 60, compra a fábrica têxtil Silma, em Famalicão à família do destacado anti-fascista e comunista Lino Lima. Por mais de uma vez fará uso dos seus contactos para tirar o advogado dos calabouços da PIDE. Na Silma, onde a sirene marcava os ritmos das gentes de Brufe e Calendário, Mário Sousa, Maria de Sousa e Maria da Glória somaram 66 anos de trabalho. “O senhor Torres foi um bom patrão. Tinha as suas manias, mas pagou sempre os ordenados, mesmo quando esteve preso e fugido”, contam. A sindicalista Ondina Coutinho travou com ele braços-de-ferro, a doer. “Nada era dado sem luta. Mas tivemos condições de fazer inveja na região”.
[...]
Colecciona medalhas de benemérito e benfeitor. Mas antes de tudo isso, já tinha um convite irrecusável… A comenda que não veioTorres é nomeado para presidir à Câmara de Murça em 1971. Influências de um amigo salsicheiro a quem emprestara dinheiro. As verbas que faltavam ao município e que o Estado, somítico, não libertava, tinha-as ele. A terra dá um salto, ganha urbanidade. Oferece a cada morador um balde de plástico para o lixo que uma viatura camarária recolhe diariamente. Na rua, homem cénico que era, gesticula e dá ordens. “Exercia o mando, tinha dinâmica e visão”, assinala José Gomes, antigo presidente da autarquia. Manda electrificar aldeias, abrir caminhos, construir estradas. Aparece de surpresa nas freguesias e, “quando a verba se encontra esgotada, abre a bolsa e resolve os problemas”, contava o seu vice-presidente.
Deu vida a lugares isolados, escolas. “Foi um santo homem. Quem não é agradecido é melhor não andar neste mundo”, rende-se o lojista Alfredo Meireles. Adianta dinheiro que o Estado lhe pagará depois, aos bochechos. Cria uma extensão da sua fábrica têxtil, dá terrenos pessoais para a construção de casas e inaugura uma piscina de fazer inveja na região. “Com ele, Murça seria a Suíça de Trás-os-Montes”, crê José Gomes. [...]»

E é assim, até ao fim. De ler e pedir aos realizadores portugueses: saia um filme, sff!
imagem : google


Os amigos



Esses estranhos que nós amamos

e nos amam

olhamos para eles e são sempre

adolescentes, assustados e sós

sem nenhum sentido prático

sem grande noção da ameaça ou da renúncia

que sobre a luz incide

descuidados e intensos no seu exagero

de temporalidade pura


Um dia acordamos tristes da sua tristeza

pois o fortuito significado dos campos

explica por outras palavras

aquilo que tornava os olhos incomparáveis


Mas a impressão maior é a da alegria

de uma maneira que nem se consegue

e por isso ténue, misteriosa:

talvez seja assim todo o amor


José Tolentino de Mendonça


[Dedicado à Claudia com um grande, grande beijinho de PARABÉNS! Tudo de BOM hoje e sempre, minha querida... e, leva as rosas, também são para ti :)]

quinta-feira, agosto 27

Fotobiografia


[Ando mais feliz do que um sino a ler esta fotobiografia de Jorge Luís Borges! Ofereceram-ma há dias e já vai no fim. Ai Argentina, Argentina se me apanho lá! Com o meu roteiro pessoal, revisto e aumentado...Chega Janeiro, a ver se é verdade!]


«Admirado no mundo inteiro, Jorge Luis Borges é, sem sombra de dúvida, um clássico da literatura do Século XX. Os seus textos influenciaram autores das mais diversas culturas; o idioma castelhano não é o mesmo depois da escrita dos seus contos, ensaios e poemas. Esta completa e compacta biografia é um percurso exaustivo pela vida e obra do autor de Ficções. Desde o seu nascimento até à sua morte, vemos Borges na sua intimidade e também no seu tempo: a relação que estabeleceu com os seus contemporâneos e com os seus amigos, as mulheres por quem se apaixonou, a fundamental presença da mãe, a devota leitura dos escritores que o precederam e o marcaram, a sua intervenção (tantas vezes polémica) na política, o amor inalterável pelos livros e pela leitura. Graças à inclusão de uma grande número de cartas, fotos e documentos pessoais até agora desconhecidos e à minúcia da investigação, Alejandro Vaccaro consegue esclarecer muitos acontecimentos que se conheciam pouco ou mal e oferece-nos um relato da vida de Borges que se ajusta àquela que efectivamente viveu. Este livro é uma homenagem ao universo Borges e também ao seu criador, quando se cumprem 20 anos do seu desaparecimento. Em cada uma destas páginas recuperamos os temas e os valores que o cativaram e que defendeu, o seu humor e a sua grandeza, esse espírito ímpar que faz de toda a sua obra um verdadeiro tesouro literário.»
imagem e texto daqui

quarta-feira, agosto 26

Um Mini azul escuro e um casaco vermelho


Desenganem-se. Não vou escrever sobre carros; não sei. Vou falar-vos de um carro. Um Mini, azul-escuro de estofos creme. Aliás, o único cuja matrícula ainda hoje sei de cor. Nunca mais soube uma matrícula de cor. Quando vou ao shopping, raramente, e no sistema sonoro se ouve: pede-se ao proprietário do veículo matrícula xpto para…
fico sempre num sobressalto a pensar se será o meu ou não. Adiante.
Na hora do almoço fui a um dos tasquinhos onde costumo comer qualquer coisa e apanhei o final do noticiário da RTP. Fechou com a notícia de que o Mini faz 50 anos. Acho que era isso. A dado momento deixei de ouvir. Não só porque o som estava estranhamente muito baixo mas porque, num ápice, fui remetida para a minha infância.
A minha mãe tinha um Mini. Azul escuro, de estofos claros. E dizia-nos a mim e ao meu irmão [os mais novos ainda não tinham chegado] que não podíamos comer gelados lá dentro, por causa dos estofos. No dia em que o carro chegou – lembro-me perfeitamente – novinho em folha, eu e a minha mãe fomos à costureira. Às vezes a costureira ia lá casa. Aliás, a penúltima prova do meu casaco vermelho, de pelo, quentinho, tinha sido feita num dos quartos que tinha um espelho enorme, o do guarda-vestidos. Estávamos no mês de Setembro e as aulas começariam, em breve, no colégio. Aquele colégio do baloiço azul todo debruado a ciprestes verdes.
Nesse dia, em que o Mini da minha mãe chegou, ela estava mesmo contente e fomos à Candidinha. Acho que fomos fazer tudo o que a minha mãe podia fazer naquele fim de tarde ao volante do seu Mini.
Estacionou e lá fomos nós, de mão dada, à costureira mais faladora do mundo. A minha mãe fez mais uma prova do seu saia-casaco e eu vesti o meu casaco vermelho, a três quartos, já pronto a levar para casa. Vesti-o sob o olhar de ternura da minha mãe e o olhar atento da Candidinha.
A Candidinha, feliz, a abotoar-me o casaco, até à golinha, enquanto dizia: quem é que vai ficar tão linda, tão linda, quem é? O casaco tinha uns botões vermelhos, redondos como cerejas e eu a olhar ora para o espelho ora para o casaco, com uma imensa vontade de chorar.
A minha mãe, agora da minha altura, a procurar os meus olhos e eu com eles rasos de água e a minha mãe a perceber, a perceber, até que as lágrimas me caíram cara a baixo e, num instante, já soluçava.
A Candidinha a perguntar e, então Martinha, dói-te alguma coisa, filhinha? Tas tão bonita, de casaco novo, o que é que te dói? O que é que a menina tem?
E eu, ainda cheia de soluços, dentro do meu casaco de pelinho vermelho, cheia de calor, disse à minha mãe, muito baixinho, que não queria aquele casaco. E a minha mãe, a perguntar-me porquê, se era tão lindo e me ficava tão bem. E eu, ainda mais baixinho, disse-lhe que não gostava dos bolsos, que os bolsos não eram assim, eram de papel. A última vez que eu tinha vestido o casaco, os bolsos eram de papel, presos com alfinetes a toda a volta e, agora, nem bolsos de papel nem alfinetes e eu tinha sonhado com o casaco, assim, com bolsos feitos de papel de jornal, onde com jeitinho, haveria de conseguir meter as mãos.

A gente não faz amigos, reconhece-os


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências ...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários,de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer.
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado,morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam - ou talvez nunca vão saber -que são meus amigos! A gente não faz amigos, reconhece-os.
Vinicius de Moraes
[Para o João, com um beijo de PARABÉNS, feio :) ! Tudo de BOM, hoje e sempre! Que o teu "céu" seja sempre muito azul :)]
imagem: Jonathan Blondiau

terça-feira, agosto 25

a ver se alguém me ouve

Eu também não, D. Duarte! Mas esta manhã, está a ser difícil... É que ninguém me escuta, percebem? Vou ter de falar muito baixinho...a ver se alguém me ouve!


[enfim, desabafos na hora de almoço...e eu li o jornal, a entrevista e sei que D. Duarte não se refere à escuta a que eu me refiro ;)ok. estamos esclarecidos!]

Um sorriso intemporal


Conheci a Sílvia em 1993. Houve anos em que a via todos os dias. Depois deixei de a ver durante alguns anos. Voltei a vê-la, há dias. Está igualzinha!!! Há pessoas que conseguem fintar o tempo! E não sou só eu que acho! Portanto, não é dos meus olhos! Mantém -se bonita, elegante e com aquele sorriso afável que nunca lhe beliscou a postura hiper-profissional. Eu nunca lho disse. Mas sempre a achei imensamente competente e, até nisso, achava que o nosso grupo - os candidatos a antropólogos - tinha sorte!
Agora, sabendo que ela de vez em quando vem aqui espreitar; agora que sei que até arranjamos uma cumplicidade lá pró Alentejo, não resisto a dizer-lhe que foi bom ter-me cruzado com ela! É que quando regressamos "a casa", mesmo que alguma mobília não exista e/ou se encontre fora do lugar, damos conta que ainda pertencemos ali, porque ela está lá! A "nossa Sílvia" dá-nos esse conforto! E quando sorri - juro - não acredito que já se passaram 16 anos!
imagem: Sílvia R.

De novo o sol, das novas tecnologias



Isabel Coutinho, jornalista do Público e autora do blog Ciberescritas esteve sete dias desligada. Das novas tecnologias, entenda-se. A sua vida longe dos telemóveis, dos computadores e das outras "ferramentas" facilitadoras da comunicação instantânea [assim como a mousse alsa, só que em vez de água, basta carregar numa tecla e já está...] é-nos contada pela própria na Pública do passado fim-de-semana.

Gostei especialmente do relato do dia 8 de Agosto. Sem recurso à Net Isabel Coutinho teve de escrever um obituário. O de Raul Solnado. E não tem acesso a telexes, nem à Net, nem à sua agenda telefónica electrónica. Só tem um computador que usa como uma máquina de escrever e uma pen! Pede ajuda a uma colega e, entretanto, procura fontes, documentos.
«Enfio-me no Centro de Documentação à procura da pasta com os recortes dos jornais dedicados a Raul Solnado, organizada ao longo dos anos. Encontro-a. Uff! Depois, vou à procura das revistas Pública encadernadas. Está lá a entrevista que Duarte Mexia fez ao actor em 2002. Volto à minha secretária. (...) Mergulho nos imensos papéis para escrever cinco momentos importantes na carreira de Solnado. Agradeço várias vezes em pensamento a quem durante anos fotocopiou e organizou aquela pasta onde está contida uma vida inteira. (...)»
Sim. Este trecho tocou-me. Os arquivos de papel. Os recortes. Que tantas vezes vi fazer. Num outro jornal. No DN. E achei muito nobre a Isabel Coutinho agradecer, em pensamento, a quem os fez. E fiquei a pensar: será que nesse arquivo "arcaico" haveria alguma coisa que não se encontre na Net? Enfim...gostei de ler. Gostei do relato dessa experiência que, afinal, não deixa ainda de ser o quotidiano de muitas pessoas. Sim, porque o relato do inverso, também seria interessante...
imagem: Tonho Oliveira

segunda-feira, agosto 24

Um filme dentro dos olhos


Luís Miguel Oliveira, do Público, dá-lhe 3 estrelas. [só li o ípsilon, depois de ver o filme, mesmo tratando-se da edição de 14 de Agosto] Mas eu, que não sou especialista na matéria, dou-lhe 5! Nem que seja apenas pelos pormenores. Pelo pormenor da barba de três dias e mais do velho Carl, pelo envelhecimento da Ellie, – o que eu gostei da Ellie! – pela forma como, sem palavras, num ápice, percebemos que o casal não pode ter filhos; pelas bolas de ténis no andarilho; pela voz mariquinhas do cão com ar de mau!

« (…) Pelo contrário, e não nos ocorre melhor elogio a UP , é mais adulto – e emocionalmente mais sincero, mais genuíno e mais maduro – do que muita coisa que por aí anda, em “live action”, a ser vendida aos adultos. É o que lhe permite, por exemplo, começar o filme por uma morte.», escreve Luís Miguel Oliveira, acrescentando (…) Mexendo nuns pormenores aqui e ali, não ficávamos longe de um “Gran Torino” em desenho animado. Exagero? Um bocadinho. Mas a justeza e a autenticidade do “trânsito” emocional entre aquelas duas personagens pedem que se exagere um bocadinho».

Exactamente! Ambos têm mau feitio! Mas quebram! Ambos nos fazem rir e chorar...

Uma delícia de história. UP – Altamente é um excelente filme de animação da Pixar. Fui vê-lo com a Francisca, quase 8 anos. Pusemos os óculos 3D e, no fim, ela diz-me: sabes tia, ver um filme 3D, com estes óculos, é como ter o filme dentro dos olhos. Pois é, Francisca, é como ter o filme dentro dos olhos. E ficar com o brilho dos teus, nos meus :)

Sobre o filme, aqui.

Homens a leilão


Ainda há dias eu e uma amiga falávamos dos Homens T da Avenida dos Aliados. Sempre cheia de gente a tirar fotografias. Uma animação. Tanto para os turistas que os abraçam e lhes dão a mão, como para nós, que passamos lá todos os dias, a caminho do trabalho. São cem, para todos os gostos. E, depois, que lhes irão fazer? E, se um dia antes da exposição terminar, viéssemos cá buscar um...pois é! Congeminamos diversas hipóteses. Todas discretas, na nossa cabeça :) Agora, soube que os Homens T vão a leilão. Dia 19 de Setembro, às 15 horas, em plena Avenida dos Aliados. Quinhentos euros é a base de licitação.
Cada Homem T tem a assinatura de um artista plástico. E o dinheiro vai para o auto-financiamento do Espaço t – Associação para Apoio à Integração Social e Comunitária, promotor desta iniciativa. Eu já sei qual é o meu!

Fragilidades

Há dias assim. Em que encontramos a imagem perfeita para ilustrar o nosso estado de espírito.
"Fragilidades". É um cartoon do Tonho. Descobri-o porque ele me descobriu. E quem fica a ganhar sou eu. Gosto imenso de cartoons! Muito mesmo. Vale a pena ir lá espreitar. E ficar!

felicidade versus tristeza

Sábado, dia 22 - garanto-vos - foi um dia muito feliz. Jamais o esquecerei. Feliz. Absolutamente feliz. Sem reservas. Fomos jantar. Um grupo de amigos. Entre esses amigos, estava uma amiga com quem, a cada encontro, ganho uma afinidade. Afinidades invulgares, diga-se. Um dia explico.
Conversamos, rimos, recordamos. Falamos de férias - sim, que ainda não as esgotamos - fizemos planos para amanhã. Para depois de amanhã. Para Setembro.
Hoje, dia 23, a mãe dessa amiga já não está entre nós. Assim, sem mais. Sem que nada o fizesse prever. Exactamente como na vida!
E não me larga o pensamento aquela frase do Chaplin: "a felicidade completa é algo que está muito próximo da tristeza".
imagem: cirandar

sexta-feira, agosto 21

E peço ao vento

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas maravilhosas da noite.
Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
Herberto Helder Excerto do poema Amor em visita
imagem: há vida em marta

Cinema ao ar livre

Uma noite de calor em Beja. O marulhar da folhagem, como se o mar tivesse alagado o Largo do Museu. Por entre os rostos, por entre as mãos, por entre os arcos, uma brisa suave. Mas ninguém pestanejava na plateia. Uma noite de cinema ao ar livre. Como há muito tempo não via. Uma noite de calor. Um calor apertado que empurrava as estrelas contra o céu. O filme, seguramente para pais e filhos, não sei. Não lhe soube o nome. Mas sentei-me. A entrada era livre. E eu cheguei por acaso. O calor apertado empurrava as estrelas contra o céu. E em vez de gritarem, brilhavam. Intensamente.

E a melhor receita de sangria...

...quem a tem? Para eu dar ao meu amigo Neville! Agora, está na Escócia. E pede que lhe mande a melhor receita de sangria! O meu "kiwi friend" adorou esta bebida com frutos dentro! Quer experimentar fazê-la, lá na Nova Zelândia. Portanto, quem tiver a melhor receita, por favor, dê-ma! Obrigada :)

Mais parabéns

ou





Este blog, hoje, dia 21 de Agosto, está em festa! Duas amigas, muito queridas fazem anos! Este é para a Paulinha. Ela sabe porquê :) :) :) :) parabéns minha querida! Tudo de BOM...

O Porto é só uma certa maneira...


O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar.

O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas horas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lágrimas todas das crianças de São Vítor correndo nos sulcos de sua melancolia.

O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me assim cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida.

Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal.

[minha querida amiga, deixo-te este poema de Eugénio de Andrade sobre esta cidade que também é tua. Tão tua, como tu, nossa! A ilustração é de uma fotógrafa que muito admiro...

Feliz aniversário, querida Zaclis:) TUDO de bom hoje e sempre ]


Eugénio de Andrade

imagem: Zaclis Veiga

quinta-feira, agosto 20

Fífias, frames e muitos sorrisos

Eu não sabia jogar snooker! Agora já sei. Quer dizer, sei mais ou menos :) O mestre [o meu absolutamente querido e paciente cunhado] ensinou-me! Mas ao lado da minha irmã - para meu espanto - tenho de ter, ainda, mais umas cem lições. No mínimo! Ele é break, atrás de break! E eu a vê-los jogar! Obrigada! Foi uma excelente semana. Com momentos excepcionais e muito, MUITO divertidos :)
imagem: há vida em marta

Voltar ou não, eis a questão

Sabem aquela música do Rui Veloso - as regras da sensatez? - um hino aos não-regressos; uma música que oblitera aquela máxima do não voltes...; uma espécie de filosofia heraclitiana aplicada aos lugares onde já fomos felizes. Substitui-se o rio pelo lugar, o banho pela felicidade e pronto, vai dar ao mesmo, digo eu!

Mas o certo é que fico sempre naquela de será, não será. Vou não vou. Não sei se vá, não sei se fique [ ou o filme da sala ao lado deve ser melhor do que este... não resisti :) private joke]

Fico sempre a pensar nos lugares onde fui imensamente feliz; fico sempre a pensar algo muito básico. É que me ocorre sempre a mesma coisa. A felicidade devia ser como a idade: nunca menos. Assim, esta questão não faria sentido nenhum! E se calhar não faz. Mas o certo é que a letra do Carlos Tê adverte: "nunca voltes ao lugar/onde já foste feliz/por muito que o coração diga/não faças o que ele diz". Mas eu fiz! Estar em Évora e não regressar a este restaurante soa-me a pecado mortal! Regressei. E a açorda de marisco do "1/4 para as nove" estava igualzinha. Quase vinte anos depois! Divina. Absolutamente divina. E aquela dose recomendada para duas pessoas dava para três. E olhem que eu e a minha irmã somos um bom talher!

1/4 para as nove, recomenda-se vivamente, como se não houvesse outros magníficos restaurantes na cidade!

imagem: há vida em marta

terça-feira, agosto 18

Volto já

Entre o Alentejo e o Minho. O verde Minho. Tantas coisas. Muitas. Sem internet, às vezes. Évora, novamente. Um regresso, muitos, muitos anos depois. Alvito. Branco, silencioso e quente. Com um coreto fabuloso. [eu adoro coretos] Uma revista toda saudade, de que voltei a gostar especialmente. Um aniversário, o do José, por dizer, no passado dia 16. Um filme, UP, com a Francisca ao lado. E, ainda, uma encomenda à minha espera nos CTT. Literalmente a mais doce. A provar que os SONHOS voam. E valsam. A validar memórias e afectos.
Eu volto mais logo, com tempo. À margem esquerda do Rio Douro.
imagem: há vida em marta

quinta-feira, agosto 13


Para mim o

amor

fica-me justo


Eu só visto

a paixão

de corpo inteiro


Maria Teresa Horta in Poesia Reunida, p. 713, Dom Quixote, 2009
Desenho: Leila Pugnaloni

Preto, colorido. Forte, suave. E secreto.


Descobri-a quando andava por aí a planar, como um grifo, no blog do João. Agora, quando a visito cai-me o R. Sinto-me uma autêntica Ma [r] ta Hari. É verdade!

É um blog SECRETO. Pleno de TALENTO. E de outras coisas mais. Os seus desenhos são lindos. Eu gosto. Muitíssimo. A autora chama-se Leila. Leila Pugnaloni. Tem um sorriso cativante. Autêntico. Uma criatividade imensa. Gosta de fado. Vive em Curitiba. O resto, é ir à descoberta! Eu, entretanto, já me apaixonei pelo traço. Preto, colorido. Forte, suave. E pela ideia de vos deixar aqui a sugestão de um blog secreto. Qual gruta do Ali Babá, cheia de tesouros!
Desenho: Leila Pugnaloni

É um homem que sabe jogar com os outros


Foi a Milão para o entrevistar e gostou de José Mourinho. "Parece prosaico, mas é a mais pura das verdades; aquela que mais vezes falta numa entrevista: foi um prazer conhecê-lo e falar com ele", escreve Miguel Esteves Cardoso depois de afirmar: " O maior elogio que lhe posso fazer é este: é um homem que sabe jogar com os outros. Sabe jogar no lugar dele e sabe pôr os outros a jogar. Mourinho é igual ao próprio futebol: lida mal com a derrota. Ainda não aprendeu a perder. Nem tem pressa nenhuma. Faz bem. E lucram todos os que tem a sorte de trabalhar com ele. Mesmo eu, no meu breve encontro, saí de lá bem disposto e com coragem para emagrecer."
A entrevista que até a mim me deu quase vontade de fazer dieta... :) aqui
imagem: Kenton Thatcher

quarta-feira, agosto 12

Por causa de um poema


[O que mais me custa, nesta matéria, é partilhar da opinião do Prof. Funes.

Acontece raras vezes. Felizmente.]

Mia Couto é um excelente prosador. Um prosador brilhante.Gosto da forma como os seus olhos captam. Aliás, gosto da forma como todos os seus sentidos sentem. Gosto da forma como imagina, inventa, cria. Da forma como burila tudo isto e mais sei lá o quê, até o escrever. Em prosa.

O poema que transcrevi data de Janeiro de 1981. E gosto do poema por razões irracionais. Razões que não são para aqui chamadas. Gosto e pronto. Desde 2001.

Gosto, ainda, porque gosto da ideia de Mia Couto ter cedido a republicar aquele livro de versos.

Gosto, também, porque em tom confessional, escreveu, assim, à entrada do livro:

«A edição original foi publicada em Maputo, em 1983. Rapidamente o livro se esgotou e tenho, ao longo deste tempo, recebido várias sugestões para o reeditar. Desde então, porém, a minha escrita derivou para outros universos e hoje sou um poeta cuja prosa é muito distante daquilo que se pode pressentir em Raiz de Orvalho. Eu próprio não me reconheço em muitos desses versos. Alguns não resistiram ao tempo, outros adoeceram de serem tão íntimos. Assim, ao aceder a publicar a minha poesia inicial eu senti que devia escolher apenas alguns dos poemas da primeira versão de Raiz de Orvalho. Acrescentei outros versos inéditos, todos eles datados da década de oitenta. Assumo estes versos como parte do meu percurso. Foi daqui que eu parti a desvendar outros terrenos. O que me liga a este livro não é apenas memória. Mas o reconhecimento de que, sem esta escrita, eu nunca experimentaria outras dimensões da palavra.»


Como todos sabemos, há escritores que começaram as suas incursões literárias pela poesia, outros pela prosa. Mas a tentação por um, por outro, ou mais géneros é quase inevitável. Podem ou não destacar-se mais num do que noutro. Raramente em todos.

E depois nenhum escritor brilhante, um dia, não escreveu algo que, aos olhos de outros, não mereça estar na constelação de escritos que os notabilizam.

Eu de literatura não percebo nada. Ou gosto ou não gosto. Ou gosto e sei perfeitamente que não gostaria, se apenas lesse o que estivesse lá escrito.

Até o meu Eça de Queirós, esse realista fracturante, escreveu umas melices que não lembrariam ao mais romântico dos Românticos. Até o meu venerando Agostinho da Silva escreveu uns versos que eu não reconheceria como seus. Porque lhe sei outra obra, outro pensamento.

Escrever é algo que passa, também, por rituais de passagem; por rituais iniciáticos. Por letras bambas, pueris. Letras comuns que nos mostram lugares e pessoas sem o não sei quê que os distingue e eleva. Assumir que se parte daí e que não se nasceu a escrever pérolas, em minha opinião, já faz de um escritor um grande Senhor. Como Mia Couto. Mia Couto é um grande senhor e um excelente escritor. Inventa, imagina, cria. E respeita e assume o que deixou para trás. Mesmo a poesia que tem muito pouca poesia. E, até, o que não tem poesia nenhuma.

terça-feira, agosto 11

Pergunta-me


Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue


Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos


Pergunta-me

se te voltarei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

e se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente


Qualquer coisa

Pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer


Mia Couto in Raiz de Orvalho e Outros Poemas, p. 29 e 30, Caminho, 2001
imagem: Google

5 estrelas e 6 meninos Jesus

« [...] A reportagem, ensina-se nas escolas, é o género mais nobre do jornalismo. E o lugar-comum deve ser evitado no jornalismo."A reportagem é o género mais nobre do jornalismo" já é um lugar-comum. Mas convém fixá-lo na hora de ler "Aqui na Terra", de Miguel Carvalho, pois terá pela frente 118 páginas da melhor reportagem que se faz em Portugal e nenhum lugar-comum. Apenas retratos de um país onde, mostra o autor, anda mesmo tudo ligado», escreve Ricardo Marques na Actual, do Expresso. E dá-lhe 5 estrelas. Ao livro.
É um livro 5 estrelas e 6 meninos Jesus! Abençoado, portanto! [mas disso eu já sabia...;)]

segunda-feira, agosto 10

O artista

«Uma noite chegou à sua alma o desejo de moldar uma imagem d ´O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento. E lançou-se ao mundo para procurar bronze.
Mas todo o bronze da Terra tinha desaparecido; em parte nenhuma deste mundo existia metal desse que pudesse ser encontrado. A não ser o que cobria a imagem d´ O Lamento Que Dura Para Sempre.
Na verdade tinha ele mesmo, com as suas próprias mãos, criado e deposto esta imagem no túmulo da única coisa que alguma vez amara na vida. Na sepultura daquilo que antes de morrer ele mais amara, colocou ele esta imagem do seu criar, para que pudesse servir como um sinal do amor do homem que não morrerá nunca, e um símbolo do lamento do homem que durará para sempre. E em todo o mundo não havia outro bronze excepto o bronze desta imagem.
Ele pegou na imagem que tinha esculpido e colocou-a numa grande fornalha, entregando-a ao fogo.
E a partir do bronze da imagem d´O Lamento Que Dura para Sempre criou uma imagem d ´O Prazer Que nos Habita Um Só Momento.

Oscar Wilde in Poemas em Prosa, p. 25, Cavalo de Ferro, 2002

«Então adeus, Raul»

Em poucas linhas, está tudo dito na ante penúltima página do Público de hoje. É o Miguel Esteves Cardoso que assina.
imagem: Google

sábado, agosto 8

Paga-me um café...


«Paga-me um café e conto-te a minha vida»

O inverno avança

nessa tarde em que te ouvi

assaltado por dores

o céu quebra-se aos disparos

de uma criança muito assustada

que corria

o vento batia-lhe no rosto com violência

a infância inteira

disso me lembro

Outra noite cortaste o sono da casa

com frio e medo

apagavas cigarros nas palmas das mãos

e os que te viam choravam

mas tu não, tu nunca choraste

por amores que se perdem

Os naufrágios são belos

sentimo-nos tão vivos entre as linhas, acreditas?

e temos saudade desse mar

que derruba primeiro no nosso corpo

tudo o que seremos depois


«Pago-te um café se me contares o teu amor»

José Tolentino Mendonça in A que distância deixaste o coração, p.27 e 28, Assírio e Alvim
imagem: Google

Agosto no B Flat

a noite pede música

"Porto Sentido" para a minha querida amiga Zaclis! Porque a nossa árvore está com saudades!

sexta-feira, agosto 7

My kiwi friend


Chegou na terça-feira passada ao Porto, vindo de Madrid. Já não o via há sete anos! Está igual. Igualzinho. Ele concorda comigo. Diz que é um homem de sorte. Com muita saúde. E sorri. Como se o mundo fosse um lugar absolutamente bom. E o tempo fosse apenas de uma benevolência irrefutável.

Ofereci-lhe um quarto, lá em casa. Aceitou. Pousou a mochila num dos cantos e disse: está perfeito, Marta. Obrigado.

À noite, ao jantar, fiz sopa de cação. Ainda influenciada pelos sabores alentejanos. Cação fresco, coentros frescos, pão alentejano. Com três dias. Como pede a receita. Abrimos um vinho branco. Brindamos. Conversamos. Conversamos. Conversamos. Lovely dinner, Marta. Very aromatic. Thank you. E eu é que lhe agradeço-lhe tanta gentileza. Tanta sabedoria.
E tem sido assim. Eu a trabalhar. O Neville a passear pelo Porto. É a segunda vez que visita o Porto. Encanta-se com o rio Douro. Com as pontes. Com a história do Vinho do Porto. O Porto tem carácter, Marta. E eu sorrio. E aceno que sim. Com o sorriso e com a cabeça.
Hoje, de manhã, deixei-o em Serralves. No caminho, contou-me que faz parte de um clube que ensina os jovens a plantar árvores, a tratar das árvores, a saber o nome das árvores. O Neville ensina-me muitas coisas interessantes. O Neville sabe imensas coisas extraordinárias. Ao pequeno almoço falamos de Samoa island. E de Margaret Mead, claro. Falamos, ainda e sempre das suas longas viagens. Domingo parte para Londres, depois Escócia. O Neville tem sangue escocês. Depois, da Escócia, parte para Hong-Kong. Ontem à noite, estive a mostrar-lhe o meu albúm de fotografias de Hong-Kong. Ele não tira fotografias. Regista tudo na memória. No coração e num caderno de viagem. O Neville é um neozelandês muito especial que viaja pelo mundo desde que se reformou dos 43 anos de ensino. Foi professor. Sabe, para minha delícia, umas palavras maori. Pedi que mas ensinasse. Pedi, também, para me explicar as regras do rugby! O Neville adora rugby. E eu gosto de ver o Haka.

O Neville tem quase 79 anos. Fá-los em Dezembro. Eu também gostava de um dia ter 79 anos assim, como os dele. No dia 4 de Setembro regressa à sua Nova Zelândia. À espera estão os três filhos, as noras e os netos. O Neville tem uma história de vida incrível. Eu gosto muito dele. E admiro-o bastante. E pronto. Vou almoçar. Com o meu kiwi friend. Como ele diz. E muito bem.
imagem: Google

Curiosos

... i é já amanhã... que matamos a curiosidade!

quarta-feira, agosto 5

Como se tu, sem o querer


Como se tu,


Sem o querer,


Em mim tocasses


Para dizer


Qualquer mistério


Súbito e etéreo


Que nem soubesses


Que tinha ser.



Assim a brisa


Nos ramos diz


Sem o saber


Uma imprecisa


Coisa feliz.





Fernando Pessoa

imagem: Helena Margarida Pires de Sousa

Homens perfeitos


imagem: Zaclis Veiga

Diferença nos [di] lemas



A crise é mundial. Mas há diferenças ou dissemelhanças. Como quiserem ;)

Trânsito de pantanas

Ontem disse que o Porto, em Agosto, estava mais desimpedido do que uma planície alentejana! Cheguei a casa, atravessando a cidade, em 10 minutos. Hoje, um percurso que habitualmente faço em 15, 20 minutos, demorou uma hora e meia a fazer! Pois é verdade! E, mesmo assim, não consegui atravessar a avenida dos Aliados sem dar umas voltas inesperadas por ruas e vielas! O trânsito a conta gotas! No mês de Agosto, no Porto. Nunca tal tinha visto!
O que se passa, perguntei a um dos polícias parados na berma do passeio?
- São as comemorações do dia da Polícia!
Ora aí está! À conta da Polícia, hoje de manhã, o trânsito no coração do Porto estava de pantanas! Pior do que num dia chuvoso de Inverno. Em hora de ponta! Se eu sabia, tinha saído de skate! Palavra que tinha!

terça-feira, agosto 4

No entardecer dos dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as àrvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Fernando Pessoa

imagem: há vida em marta

Portugal não está! Ou está em horário de Verão

Sim. Já todos sabemos, eu sei. De manhã, após seis telefonemas percebi: Portugal não está! Foi de férias. É sempre assim, em Agosto. Portugal não está! Ou, então, está em horário de Verão. Como a Biblioteca Pública Municipal do Porto. Por um triz, não bati com o nariz na porta. Porque um amigo chegou primeiro e avisou-me: não venhas, fecha às seis. Às seis? Pois! O horário habitual 09.00 -19.30h passou a 10-18h! E eu com tanto trabalho em mãos. Com uma vontade enorme de me atirar à pesquisa de alma e coração. Resta-me o Google. A funcionar 24 horas por dia, indiferente aos meses de estio. E o caminho até casa, desimpedido como uma planície alentejana. Ao menos isso! Amanhã, às dez, lá estarei.

imagem: mjfsantos

A porta em frente


...para que a encontrem ;) facilmente!

Ícones do design [e do sabor, na porta em frente]


Até 30 de Setembro a exposição ícones do design - colecção Paulo Parra, pode ser visitada na Igreja de S. Vicente, no largo com o mesmo nome, em Évora. O site da Câmara Municipal, organizadora do evento, diz assim:

«A qualidade dos objectos fabricados pelos seres humanos foi uma das características emblemáticas do século XX e algumas marcas distinguiram-se pela vontade de aproximar os seus produtos às necessidades dos seus utilizadores. Domésticos, portáteis ou microportáteis estes objectos estabelecem progressivas relações de proximidade com o corpo humano, complementando as suas características físicas no relacionamento com o meio ambiente e melhorando as condições de vida do homem. Estes objectos desempenharam um papel social fundamental no desenvolvimento humano e permitem-nos compreender melhor a nossa história.
Grande parte destes objectos são considerados ícones do design e foram integrados em colecções de museus, como nos casos do Museu de Arte Moderna em Nova Iorque, do Design Museum de Londres ou do Centre Georges Pompidou de Paris. Nesta colecção podem encontrar-se peças criadas por nomes como Peter Beherens Wilhelm Wagenfeld, Henry Dreyfruss, Walter Dorwin Teague, Mario Bellini, Jacob Jensen ou Philipe Stark. A estes nomes, protagonistas no processo de humanização dos sistemas tecnológicos, é atribuída a autoria de algumas das peças mais importantes da história do design industrial.
Esta mostra estará patente ao público até dia 30 de Setembro e pode ser visitada no seguinte horário: terça a sexta-feira das 11:00 às 13:00, e das 15:00 às 19:00; e sábados, domingos e feriados só no período da tarde

No fim da visita, pode entrar na porta em frente, no outro lado da rua, claro está, e escolher um, dois, três sabores, entre os muitos que a gelataria oferece. São artesanais. São ZOKA! São divinos. São imperdíveis. São uma ZOKA, é o que é!

imagem: Google

Esbanjar o que dói

Nós alegres, a revista número 13, que integra a edição do I do passado Sábado, é das que mais gostei de ler! E a abrir lê-se de imediato uma citação de Vergilio Ferreira, escritor que aprecio muitíssimo. Diz assim:

« A alegria do que nos alegrou dura pouco. A dor do que nos doeu dura muito mais. Vê se consegues poupar a alegria e esbanjares o que te dói. Vive aquela intensamente e moderadamente. E atira a outra ao caixote. Talvez chegues a optimista profissional e tenhas uma bela carreira de político.»

É!...esbanjar o que dói, parece-me lindamente!

segunda-feira, agosto 3

No princípio era o napron...

No princípio era o napron, agora é o menino da lágrima! O anúncio está genial. Parabéns ao mentor! E o diálogo é surreal. Non sense absoluto. Como eu gosto ;)



- Oh menino da lágrima, outra vez a chorar?

- É que levaram o meu amigo napron...

- É normal! Agora podes trocar coisas menos... bonitas por Coca Cola Light. É só ir a um ponto de troca

- Ai é?

- Sim. Ele vai para a Experimenta Design para ser recriado e apresentado numa exposição

- Oh! que bonito! Eu quero tanto que gostem dele. Assim fico feliz...

- Então, continuas a chorar?

- É...é o hábito...

Obra de Machado de Assis na net


Leio na revista "Os meus livros" que o portal da Universidade de S. Paulo acaba de disponibilizar, em pdf, a obra de Machado de Assis. Ao todo são 26 títulos (todos em primeira edição), entre romances, contos, peças de teatro e poesia. Aqui.

Obrigada VIDA!




A felicidade completa é algo que está muito próximo da tristeza. Disse o Charles Chaplin. E um dia eu concordei!

Hoje - porque amanhã pode ser outra - minha versão é esta:

A felicidade completa é algo que está muito próximo de Évora!

Acordar num silêncio sábio de oliveiras centenárias. Esperar por nós um pequeno almoço para degustar em duas horas ou mais... enquanto se lêem todos os jornais que foram ali parar por magia. Todos.

E o dia começa assim, demoradamente...

Tão bom! Tão extraordináriamente bom! Obrigada vida!