terça-feira, junho 30

O que o dia deve à noite


Foi o título que me agarrou ao livro. Não gosto da capa. Não conhecia o autor. Peguei nele, sem sentir o peso da grande história que tem dentro. Paguei e saí da livraria. Juntei-o aos outros dois que levei para férias. Li este e outro. E já há muito tempo que não tinha a sensação de ter efectuado duas viagens tão fantásticas. Seguidas. Uma massagem, duas refeições e umas braçadas na piscina foram a escala para sair de um livro e entrar noutro. Para sair da Colômbia e entrar na Argélia colonial [1936/1962]. Para conhecer a escrita poderosa de Yasmina Khadra. No fim do livro senti que tinha vivido intensamente aquelas vidas todas. Estava cansada, muito cansada mas muitíssimo satisfeita e triste e feliz. E então pensei que se quando morresse, [velha, sábia e serena] sentisse algo semelhante relativo à vida que vivi, era bom. Muito.
E, claro, no meio de toda a história política, contendas violentíssimas, desolação e paixão, religiões e culturas, desenrola-se a história de amor de Younes ou Jonas e Émilie. Tão incrível que ninguém - nem o próprio autor - me demoveria de acreditar que tudo o que li aconteceu. Aconteceu e Yasmina Khadra teve o dom de o converter em literatura. Pura.
Não consigo dizer mais. Só lendo. Só sentindo. E senti tanto que ainda me dói aqui. No peito. Tamanha foi a sofreguidão com que o li.

mais montanhas de mimo blogosférico



Oferecido por Sight Xperience

E, como sempre, não cumpro as regras e ofereço os meus selos a todos os blogs que leio/linko. Podem levar, porque merecem :) Quanto a escolher 5 situações da vida para passar em câmara lenta - Maggie, Maggie - vou pensar e venho aqui dizer! Está bem? Desafio aceite!
A todos muito obrigada! é só mimo...um dia destes, ninguém me atura ;)

Pedaço de céu I



O que é nacional é bom! Vá pra fora, cá dentro! Foi o que fiz!

segunda-feira, junho 29

Benuron party

Mesmo no fim das férias, fazem-se descobertas extraordinárias!
Eu conheço uma pessoa que toma Benuron como quem dá cá um halls! Um Benuron para quando não dói, um Benurom para quando há a possibilidade de doer, dois Benurons para quando dói efectivamente. A cabeça! O braço, a perna, a alma! Não importa! O importante é ter Benuron sempre à mão. Eu conheço uma pessoa que não se desloca sem Benurons no bolso, na mochila e numa terça parte da mala de viagem! Uma pessoa que inclui os Benurons na lista de super-mercado e/ou em qualquer lista que faça! Uma pessoa que oferece Benurons, como quem oferece pipocas! Uma pessoa que louva o Benuron como se fosse o deus do está resolvido! Melhor: a senhora dos remédios! Conheço uma pessoa que não precisa de médicos porque existem bulas médicas! Pessoas sui generis, digo eu, que tomo um BenuroN por ano!
Agora não conheço só uma pessoa. Conheço duas! O Pedro e o João gostam tanto, mas tanto de Benuron que resolveram organizar a Benuron party! Pelo sim e pelo não. Para prevenir! Não nos faltem noites temáticas.[Nem Benurons!] Verão adentro. Noite fora!
[as inscrições estão abertas] ENTRADA: uma caixita! Dentro da validade, claro!

faz de conta

Faz de conta que a minha secretária não está assim!
E faz de conta que o regresso não me está a custar nadinha!
Foram poucos - é certo - mas foram muito bons! E não é preciso fazer de conta quando fecho os olhos e me imagino, ainda, no pedaço de céu a que tive direito POR ESTES DIAS! Eu depois explico! Tudinho. Para já SAUDADES. Vossas. Que começarei a matar ainda hoje, ao anoitecer.

domingo, junho 21

Uma quadra popular, pró S. João festejar

Em muitos muitos anos, é a primeira vez que não vou estar no Porto em noite de S. João!
Vou de férias. Mas aqui dentro, só de pensar nessa noite
...ah...
[Grupo dos Guindais estou convosco!]
Agora, o que vos deixo é um desafio:
puxem pela vossa veia António Aleixo e - vá lá -
deixem aqui uma quadra popular
para celebrar o S. João, de longe,
quando vier cá espreitar :)
água na boca. sardinhas suculentas. no São João do "meu" Porto...

balões acesos. com muitos desejos dentro...

cascatas de manjericos. aroma de manjerico na palma da mão...


Ó Anjo da minha guarda
Quem vos varreu o terreiro?
As cachopas de Alpedrinha
C'um raminho de loureiro.


S. João adormeceu
Debaixo da laranjeira,
Cobriu-se todo de flores,
S. João que bem que cheira.


Na noite de S.João
Vou fazer uma fogueira
Com folhas de verde louro
Com rosmaninho que cheira.


Hei-de deixar ao relento
Uma folha de figueira
Se S. João a orvalhar
Hei-de encontrar quem me queira.

in Velhas Canções e Romances Populares Portuguesesde Pedro Fernandes Thomás,
Coimbra: F. França Amado Editor, 1913
imagens:
1) sardinhas [ Sonja Valentina ]
2) balão [Inês Cunha Salgueiro ]
3) manjericos [ Carlos Silva]

eu volto daqui a nada

este blog está a minutos de fazer uma!
para férias! mas sabem o que mais me está a custar nesta partida... algo a que nunca falto...

Queria tanto entender


« [...] No Santo Sepulcro não sentes nada. Eu não senti nada. As pessoas beijam uma lage que foi ali colocada no princípio do século XIX. Beijam a laje como se ela fosse o local exacto onde o corpo de Cristo foi depositado. Não acredito. As diferentes igrejas de índole cristã disputam o espaço do Santo Sepulcro, há uma custódia repartida, como se o espaço fosse uma criança e as igrejas os seus pais separados. Chamam-lhes Status Quo. Para que não haja lutas e desavenças as chaves do Santo Sepulcro, duas chaves, foram entregues a duas famílias muçulmanas há novecentos anos. Todos os dias, às cinco da manhã, abrem a porta velha e vão à sua vida, deixando os peregrinos e os padres fazerem a sua. Regressam às sete e fecham a igreja da discórdia.

É aqui também que se crê estar o Centro do Mundo, simbolizado por uma bacia com água. Olhei-a longamente e, aí sim, senti que perante aquela bacia tosca, de pedra velha, podia estar uma ideia maior que o Homem. O centro do mundo deveria concentrar tudo o que temos de melhor. Os turistas acotovelam-se para ver. Os franciscanos cantavam qualquer coisa. E eu fiquei ali. Queria tanto entender[...].Chegas ao Muro. Homens do lado esquerdo com os kippa na cabeça, mulheres do lado direito. As mulheres são muito novas. Andam de trás para a frente e enfiam o rosto no «Livro das Lamentações» e não lêem, debitam, e é um choro constante que impressiona e arrepia. Os cânticos fúnebres, kinot,enchem-me os olhos de lágrimas. Lembro-me da minha mãe. Saio da zona do Muro às arrecuas, para não ofender a Deus.

Deixo um recado no Muro. Trabalhei nele uma noite inteira. Não sabia o que dizer. Escrevi: Perdoa-me, devolve-me a paz que tinha quando estava no teu regaço, no seio da minha mãe. Deixa-me. Encontra-me. Não posso continuar assim. Ouve-me hoje. Ajuda.me amanhã. Não sei se acredito. Não te minto. Mas hoje ouve o meu coração e junta-o ao teu [...].

Nota 1.[excertos do e-mail que Sara envia à sua amiga Madalena, dando-lhe conta das suas impressões sobre o que viu e sentiu em Israel]

Nota 2. [livro a ler até 11 de Julho, data agendada para o jantar-tertúlia-abrótea-com-maionese-de-toranja. Senhoras e senhores é favor lerem :) Gracinha, eu já sei que o tens...alguém ofereceu ;)]

Conheço o sal


Conheço o sal da tua pele seca

depois que o estio se volveu inverno

da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos

quando das bocas se estreitavam lábios

e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros

ou louros ou cinzentos que se enrolam

neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos

como nas praias o perfume fica

quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca,o sal

o sal da tua língua,o sal dos teus mamilos,

e o da cintura se encurvando das ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,

ou é de mim em ti,ou é de ti em mim,

um cristalino pó de amantes enlaçados.


Jorge de Sena
imagem: Google [desconheço o autor]

sexta-feira, junho 19

O solista - o poder redentor da música


Chama-se Steve Lopez, é jornalista. E como tantos jornalistas por esse mundo fora, escreve livros.Trabalha aqui. Eu leio-lhe as crónicas, desde o passado mês de Dezembro.
Ofereceram-me um livro dele no Natal e, num ápice, devoreio-o. Lopez escreveu O SOLISTA.
O filme vem aí. Dizem. Era para Fevereiro. Li algures. Depois, Abril. Não sei. Estou atenta.

Filme, filme, só mesmo o meu. O que fiz enquanto li o livro. É sempre assim, não é? Nós imaginamos aquilo tudo. Cada livro que lemos é um filme que realizamos. Acredito que é, só porque acontece assim comigo. E a maior parte das vezes não temos oportunidade de conhecer o personagem. As personagens. Os cenários. Com o Solista, temos. Nathaniel Ayres existe. E tudo o que tem para viver, cabe num carrinho de super-mercado. O seu génio é que não.

Gostei tanto tudo. Do livro. E eu não gosto muito de um livro sempre pela mesma razão emoção. Nem pouco mais ou menos. No caso, a veracidade da história, a força que tem, os sentimentos que provoca, contribuíram para a minha paixão. «Um sonho perdido, uma amizade improvável e o poder redentor da música». A história de dois homens que se cruzam. Um músico brilhante, ex-aluno da Juilliard cujos neurónios, um dia, queimam! Um jornalista que quase enlouquece, para o tirar da rua. Inteligente e com sentido de humor, Lopez narra uma história que dá a conhecer o lado interior das ruas de Los Angeles. E alerta para o problema das doenças mentais da população sem-abrigo. Que a sociedade tem e terá de enfrentar. Tantas vezes sem condições; outras tantas, sem conhecimento...


«Não precisava que ele me pedisse desculpa. Só precisava de saber que a nossa amizade continuava a ser importante para ele». pag.226

Tempo de cerveja

As cervejas estão a ficar como as águas!
Complexas. Diversas. Múltiplas.
De todas as cores e sabores. Imensas.
Só falta mesmo uma cerveja para emagrecer!
Eu que há muitos anos, aprendi a gostar de cerveja numa esplanada transmontana, onde a possibilidade era só uma – Super-Bock com tremoços – fico sempre surpresa com as novas invenções. Confesso, a de sabor a pêssego não me entusiasma.
Nunca a provei. Nem faço intenção.
Gosto muito de pêssegos. E gosto muito de certa cerveja. Numa garrafa, não me convencem.
Gosto de cerveja preta. Gosto da Stout. E gosto também da Bohemia. E, claro, sempre, da Super-Bock com tremoços. Em recipientes diferentes. Entenda-se. São sabores afectivos.
Como o da Bud - para os amigos - em certos-fins-de-tarde-mais-citadinos-da-minha-vida.
E com ela, contra o tempo, chegam-me as saudades das conversas com a Cláudia. Ali na Foz. Numa esplanada qualquer frente ao mar. Aromas invadem a memória. Fermentam num coração Atlântico. Muito fundo, ao sol. No teu sorriso, uma brisa muito quente.

Para a Malina

com saudades. das palavras. e das partilhas. só isso. ossos do ofício. [inquieto.] de blogger!

quinta-feira, junho 18

Confissões inconfessáveis

Estou viciada nestas. Exactamente nestas! Uma vergonha! Ando nisto. Mastiga e deita fora...e juro que não é nenhuma homenagem aos TAXI! podia ser. que eu - claro - gosto deles! muito. mas não é! é o sabor. mesmo! é viciante!

Quando a criança era criança

Para a Mathilda

Quando a criança era criança

caminhava agitando os braços,

Queria que o riacho fosse um rio,

o rio uma torrente,

e esta poça, o mar.


Quando a criança era criança,

não sabia que era uma criança,

tudo lhe parecia ter alma,

e todas as almas eram uma só.


Quando a criança era criança,

não tinha opinião para nada,

não tinha costumes,

sentava-se com as pernas cruzadas,

corria sobre o solo,

tinha um redemoinho no cabelo,

e não saía mal nas fotografias.


Peter Handke


Nota 1.[tradução da querida Amazonas Stereo, uma mulher muito perspicaz, bonita e inteligente. digo eu, que não a conheço, mas sou dada a estas certezas...]


Nota 2.[poema lido pelo anjo Damiel no início do filme Nas Asas do Desejo, Wim Wenders. poema e filme, dizem-me muito. íssimo.]


Nota 3.[eu adoro a Carroça do Jguitar. lá, para meu espanto, acontecem coisas incríveis! "conhecem-se" pessoas lindas como a Mathilda e a Amazonas :) pois é... há quem lhe chame coincidências! eu e o João não nos conhecemos de agora! nem pouco mais ou menos! já nos cruzamos diversas vezes, em casa de amigos comuns. no entanto, o meu planeta nunca tinha chocado com a carroça dele. ou a carroça dele com o meu planeta! um de nós, anda na rota errada :) ou a carroça do João anda na lua; ou o meu planeta anda muito por terra! mas ainda bem :) ]
imagem: google [não sei o autor]

quarta-feira, junho 17

Agir. Agilizar. Não?

A adopção é uma questão que me diz sempre muito. Muitíssimo.
Li na Visão sobre o caso do Martim. E, depois, por coincidência, através de um blogger que deixou aqui um comentário, descobri este blog. Gostei muito. Gostei bastante. De ler. Tantas reflexões pertinentes. Tanta falta de acção. Agir. Agilizar. Amar. Pelas crianças. Por nós. Não?


«Em Março de 2009, a Segurança Social Registava:
11 mil crianças em instituições
2154 crianças em situação de adoptabilidade
2541 candidatos seleccionados para adopção
101 em vias de integração na família»
imagem: Google
números, fonte: Visão

terça-feira, junho 16

Abrótea com maionese de toranja

E entretanto ando às voltas com a maionese de toranja. E com a abrótea. Não me sai da cabeça. Eu numa reunião e abrótea com maionese de toranja, Eu no trânsito e abrótea com maionese de toranja. Eu no super-mercado e abrótea com maionese de toranja. Eu no cinema e abrótea com maionese de toranja... Uma obsessão!
E a culpa é da Patrícia Reis. Sim, que isto não é só escrever bem. Comover-nos. Fazer-nos rir. E sorrir. Encontrar identificações. E essas coisas que nos prendem. É preciso pensar nas papilas gustativas do leitor. «Coração, Cabeça e Estômago».
Sim, estou cansada, é certo! Mais frágil, portanto. Mas mesmo que não estivesse. Não é assim, caramba! Devia sair uma lei que obrigasse os escritores a indicarem, em nota de rodapé, a morada dos restaurantes que mencionam nos livros. Se existirem, claro. É preciso pensar nos leitores que adoram experimentar novos sabores! A Sara e o Manuel ainda por cima, nem um nem outro pediram o raio da abrótea com a maionese de toranja. Por isso, chuta para canto. Nem mais uma linha sobre o assunto. Não se faz! Juro que nas férias [para a semana], vou à procura de um restaurante que tenha na ementa abrótea com maionese de toranja. Para já, só encontrei a receita. Não é mau. Existe. Dado que um escritor tem o direito e o dever de inventar. Obviamente. E o restaurante pode nem existir de facto! Mas, no caso, o petisco não é inventado! E eu adoro peixe e maionese e toranja. E uma abrótea com maionese de toranja, já me está a saber deliciosamente. Como o livro. No Silêncio de Deus. Li-o em dois dias. Mas eu depois, digo-vos o quanto gostei. Ou o que mais gostei. Tem pérolas dentro. [Só falta mesmo o nome do restaurante]. Agora a prioridade...exactamente! Se souberem onde, é favor deixarem-me a morada. Obrigada!

Silêncio e tanta palavra

Quando todos os dias são segunda-feira

Se não, daqui a pouco estou assim! E não é segunda-feira!
Para não esquecer NADA! [Versão feminina, claro!]

Sabem que mais?

Estou a precisar de férias!

segunda-feira, junho 15

Pronome pessoal tónico; o meu lugar

para ti. para nós

Quando o nosso olhar se encontra e eu só preciso de estar como sou;

Quando estou longe e a minha voz, à primeira sílaba, te dá as coordenadas do meu coração;

Quando - choras antes aqui. estou à tua espera, faço-te um chá;

Quando - vou ter contigo, temos de brindar, o momento é único;

Quando no meio da conversa me dizes - ah, é verdade, tens de ler isto, vais adorar;

Quando me trazes um doce, de qualquer lugar - esquece a dieta;

Quando me escreves uma carta [de envelope e selo] a contar as férias e a contar-te a ti;

Quando - estou apaixonado, ela é linda, estás a ver... assim como... lembras-te...;

Quando - anda daí, vamos às compras;

Quando - vais lá cozinhar, divides a cozinha com o João;

Quando vais viajar e - dá de comer ao gato; olha a água, a porta, o alarme;

Quando sonhamos alto - um dia os nossos filhos vão brincar juntos;

Quando palmilhamos a geografia das nossas infâncias, para que nada nos falte;

Quando tomamos café e são cinco minutos uma tarde inteira;

Quando partilhamos todas as histórias de que somos feitos e, ainda, a tarte de maça;

Quando filmes, livros, tupperwares e tabuleiros andam por nossas casas, como se fossem uma;

Quando descobrimos que, afinal, fomos separados à nascença e, por dentro, nem a mãe nos distingue;

Quando ligas a banda sonora das nossas viagens, estrada fora, noite adentro;

Quando se faz mais um silêncio cúmplice ou inventamos um sorriso novo;

Quando a paz de nos termos é o cordão umbilical que nunca cortamos;

Quando se me esquecer, poderás dizer quem sou - o bom e o mau;

Quando dentro do nosso abraço estamos para sempre;



...sinto-me em casa.



É aí, exactamente aí, nesse pilar monossilábico que assenta o lugar mais acolhedor da minha gramática de afectos. Nós, é o pilar e o lugar. O pronome pessoal tónico que me faz sentir em casa. Que me fará chegar sem nunca partir. Partir, sem nunca me afastar.


[participação na tertúlia virtual]
imagem: daqui

sábado, junho 13

Sei, enfim, que nunca saberei de mim

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.




o dia dos santos comemora-se no dia em que morrem.

o dia dos Homens e dos Poetas, no dia em que nascem.




Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos...O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas.
In Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa

sexta-feira, junho 12

Um bilhete para o Santo António

Uma das coisas que mais me impressionou, nalgumas igrejas em Itália foi a quantidade de pedidos/agradecimentos escritos a alguns santos. Junto desta imagem de Santo António, na igreja de Santa Maria in Trastevere, podem ver-se os numerosos bilhetes e cartas [bem como algumas fotografias] que os devotos deixam no altar.
A basílica de Santa Maria in Travestere foi, provavelmente, o primeiro local oficial de culto cristão a ser construído em Roma, tornando-se num centro de devoção à Virgem Maria.
De acordo com o meu guia da viagem «a igreja foi fundada pelo Papa Calisto I no século III, quando o cristianismo ainda era um culto minoritário. A igreja actual é, na sua maior parte, uma construção do século XII, notável pelos mosaicos, especialmente os de Pietro Cavallini. Esta igreja tem fortes ligações com a comunidade local».
De Pádua ou de Lisboa o dia, hoje, é dele! E de quem o comemora. Por mim, fico à espera do São João e, já agora, do São Pedro! Ou não fosse o mês dos santos populares.
imagem: Marta [ainda sem as dicas da Zaclis :)]

Pata. Tia pata.

Quase faz de mim gato sapato! De todos, é o mais irrequieto! Corre, pula, sobe, desce, põe, tira. Tudo numa fracção de segundos. Quer a bola, quer o jogo, quer o Homem Aranha, quer os carrinhos. Quer o mundo de uma vez. Fala imenso. Mas na verdade, só a irmã o compreende! E o traduz.Troca os ÉMES pelos PÊS. E não diz os erres! Sim. Só ele e só ele tem autorização para me chamar PATA. Tia Pata! E eu derreto-me!
O meu querido Migas [Miguel] faz hoje 4 anos!
Parabéns meu amor! É muito bom crescer contigo!

[Parabéns pais. Muitos.]

quinta-feira, junho 11

Nem todas as loucas são piedosas

Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana
D. Maria I, primeira rainha reinante de Portugal
Chamaram-lhe a piedosa e a louca. Nasceu em Dezembro de 1734 e morreu com 81 anos.
«Os protagonistas da História são, invariavelmente, traços verticais sobressaindo do grande risco irregular da época em que viveram. Maria I não é excepção. Destaca-se pelo contraste que assina perante o seu próprio pai e antecessor, José, em especial por ser, enquanto governante, muito mais identificável. José viveu na sombra protectora e indutora de impunidade de um ministro, Pombal, que muitos relatos da História confundem com a magna omnipotência, sendo este o escoadouro das régias culpas.
Nesta visão, Pombal era o facínora e José era o rei nubloso que empunhava as cordas que manipulavam o títere.
Maria esteve sob o foco dos acontecimentos, enfrentou e resistiu aos ventos das mudanças, teve como inimigos a Revolução Francesa, Napoleão e os seus próprios súbditos, com a memória em sangue, esventrados pela crueldade do passado mais próximo.
Maria foi a primeira mulher a ocupar o trono português como protagonista e governante.
Muitos procuram vê-la como a figura frágil e psicótica que acabará por desembocar no terrível beco da loucura.
Esta loucura, todavia, assenta em antecedentes próprios e parece a vários títulos providencial.
Mulher sensível, Maria resistiu a muitos abalos. O que despoletaria a sua loucura? E era de facto loucura a sua enfermidade? A loucura da rainha D. Maria foi providencial? Quais são os símbolos do poder que asseguram a um estado soberano conquistar outro estado soberano e submetê-lo?
Tomar a sua capital, depois de invadir-lhe o território, e obrigar à capitulação da sua figura mais importante? Com a deslocação da capital para o Rio de Janeiro, Lisboa não ficava à mercê dos conquistadores como cidade mais importante do reino. E com uma rainha de cérebro ausente, uma aura de intangibilidade pairava sobre a coroa e a sua mais importante figura. Teria sido por isso que Maria se manteve rainha durante tantos anos e João apenas regente? Essa intangibilidade teria alguma aura de mentira? João VI instalou a sua sede de governo no Brasil na vizinhança e com passagem directa para o convento das Carmelitas - a nova residência da rainha louca. Uma louca que andava com as suas aias - Maria vai com as outras, a primeira rainha de Portugal é uma pobre louca, dizia-se - pelas ruas cariocas, sem grande aparato.
[...]
Maria viveu confortavelmente no Brasil, apesar das grandes restrições iniciais, dos limites da doença, das diferenças climatéricas - o Rio de Janeiro tinha temperaturas como as de hoje, altas em média,uma humidade tremenda, mas sobretudo, há duzentos anos, era muito mais perigoso para a saúde: epidemias, lixos,falta de higiene... - e de todas as incertezas.
Foram nove anos: a rainha morreu no dia 20 de Março, no Rio de Janeiro. Anos mais tarde, o seu corpo faria a viagem de volta, para ficar sozinho na Basílica da Estrela, à espera de uma memória como esta, que a revisite e perpetue...»
Alexandre Honrado in D. Maria I, A biografia da Rainha que teve a coragem de despedir o Marquês de Pombal, Editora Guerra e Paz, 2007
imagem daqui

Vestígios


noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas e

envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído

pelas salivas proibidas - noutros tempos

os dias corriam com a água e limpavam

os líquenes das imundas máscaras

hoje

nenhuma palavra pode ser escrita

nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras

ou se expande pelo corpo estendido

no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se

onde se pode - num vocabulário reduzido e

obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua

e nada mais se consiga ouvir

apesar de tudo

continuamos a repetir os gestos e a beber

a serenidade da seiva - vamos pela febre

dos cedros acima - até que tocamos o místico

arbusto estelareo mistério da luz fustiga-nos os olhos

numa euforia torrencial


Al Berto, in Horto de Incêndio, pag. 11/12, Assírio e Alvim, 1997
imagem/pintura: Marc Chagall

Corrente de ar


Mais uma corrente de ar sénior! Para mim ele será sempre o verdadeiro 007. O autêntico. Assim, tipo "os verdadeiros bolinhos de amor";" os verdadeiros bordados da Madeira"; "o verdadeiro Galo de Barcelos"; "a verdadeira ginginha de Óbidos" e por aí fora. Ele será sempre o verdadeiro James Bond! Um charme!

quarta-feira, junho 10

Depois das Europeias, votem nas Aldeias


Queridos visitantes:

Este blog encontra-se em campanha! Pois é verdade :) Sob o slogan - Depois das Europeias, votem nas Aldeias - chamo a vossa atenção para a blogagem colectiva em que eu e outros bloguers, participamos. O desafio foi lançado pela Susana. Em boa hora!

O que vos peço é que visitem o blog A Aldeia da Minha Vida e votem no texto que mais gostarem de ler. O meu é muito extenso mas algumas pessoas já tiveram coragem!!!

De coração. Obrigada :) No entanto, as regras da blogagem só validam os comentários se os colocarem AQUI. Na caixa de comentários do meu texto.

Até ao dia 28 de Junho, por favor, VOTEM!
A vossa avaliação [1 comentário = a 1 voto] pesa 49% e a do júri 51%.
O resultado da votação será publicado no blogue da Susana, no dia 30 de Junho.
E o prémio? Um fim-de-semana na aldeia de Monsanto!
E que ganhe o melhor :) Pois a experiência já vale pela partilha!
Não queremos a abstenção das últimas eleições! E o tempo - o culpado do costume - nesta matéria, estava horrível! Por isso faça chuva ou faça sol...
Depois das Europeias, votem nas Aldeias!
[...ai, ai... bem que me podiam contratar para o marketing das Aldeias de Portugal :) :) :) eu preferia, a ir para Estrasburgo ou Bruxelas ;)]

terça-feira, junho 9

Chacim - na rota [do coração] da seda

Tinha quinze anos quando me apaixonei por Chacim. E não imaginava que um dia – este – falaria desta aldeia, como sendo a aldeia da minha vida. É. E vou contar-vos porquê.

O melhor das férias grandes era a temporada na casa da tia. O ritual foi sagrado durante alguns anos. Deixar a cidade, naquela altura do ano, foi sempre um caminho com regresso. De carro ou de comboio, Trás-os-Montes era o destino. Naquela altura, era muito, muito longe. Agora, quando faço o IP4 é impossível não sorrir a cada curva cortada ao Marão. Essa estrada alcantilada que me fez vomitar a bílis e perguntar a cada vómito: “ainda falta muito?”. Depois, na adolescência, o comboio da linha do Douro embalava-me a ansiedade de chegar. Dividia o olhar entre a paisagem e um livro. Sentia-me adulta, quando a minha mãe dizia vezes sem conta “juízo, já és uma mulherzinha”. Depois acenava e eu abria a janela para ouvir pela centésima vez “obedece à tia. Porta-te bem.”. À chegada, a minha tia obliterava, sem diminutivos, o que a minha mãe dizia: “olha para ti, estás uma mulher.” E beijava-me e abraçava-me e dizia repetidas vezes “olha para ti, tão grande” E era aí, nesse instante, que eu crescia todos os meus centímetros de Verão.
As férias na aldeia onde a minha mãe nasceu foram, durante anos a fio, o mote preferido para as minhas redacções. Da primária ao ciclo. A viragem deu-se da infância para a adolescência, quando em vez das redacções comecei a escrever “querido diário, eu quero ir para Chacim e não sei como convencer a tia”.

As brincadeiras no pátio da escola ou no adro da igreja, a sombra da fonte ou da figueira da casa da tia Ana Maria, o lavar a roupa no ribeiro com as mulheres da aldeia, o partir feijões na soleira da porta dos vizinhos, o correr atrás de galinhas e perus até levantarem voo, o imitar rãs e patos e as mil e uma coisas diferentes que inventava para me entreter, um dia, deixaram de me seduzir. Os miúdos da minha idade escasseavam de ano para ano. Nesse Verão, não havia nenhum. Noutra aldeia, não muito longe dali, viviam umas primas da minha mãe. Certa tarde, eu e a tia fomos visitá-las e eu já não quis vir embora. Conheci a Jacinta e a Balsinha. E fomos todas até à Avenida, ao café do Senhor Avelino, tomar um Sumol. Chacim não era uma aldeia absolutamente quieta como a da minha mãe. Nem no pico do Verão, quando os xistos ardiam ao sol. Chacim tinha miúdos da minha idade na rua. E tinha biblioteca na Casa do Povo. Esse lugar transformista onde nalguns dias havia baile e, noutros, consultas médicas.
Convencer a tia a deixar-me ficar um fim-de-semana na casa da prima Otília não foi difícil. Difícil foi ficar mais dias.

Numa dessas tardes, na sombra contínua dos plátanos da Avenida, li pela primeira vez poemas que ainda hoje sei de cor. Fiz amigos nascidos em Chacim. Mostraram-me caminhos e montes. Levaram-me a fazer regatas de barcos de papel na Ribeira dos Moinhos. Descobri como as amoreiras já tinham sido rainhas e ouvi as primeiras histórias sobre as ruínas da fábrica da seda. À noite, no Pelourinho, enquanto as casas respiravam pelas janelas abertas, as pessoas juntavam-se para contar histórias de encantar. Foi assim que conheci a lenda de Balsamão. Foi numa dessas noites de amora, que soube o porquê do nome da Balsinha. Maria de Balsamão. Em homenagem à Nossa Senhora que, a três quilómetros dali, habita o santuário com o mesmo nome. A primeira vez que o visitei, foi num final de tarde. Um monte com olivais a perder de vista. Então, como hoje, acreditei: o silêncio nasceu ali.

Chacim é uma freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros, mas noutros tempos estas posições administrativas estavam invertidas. Foi elevada a concelho pelo Foral concedido em 1514 por D. Fernão Mendes de Congominho, Senhor de Chaves, protegido do rei D. João I. Nessa altura o país estava dividido em seis grandes comarcas e províncias. A província de Trás-os-Montes aparecia subdividida em quatro corregedorias: Vila Real, Bragança, Miranda e Moncorvo, sendo que era nesta que o concelho de Chacim se integrava. Foi necessário esperar mais de trezentos anos para que se verificasse uma alteração profunda neste quadro. Inspirado pelas correntes liberais da época, Mouzinho da Silveira encetava uma verdadeira revolução administrativa, separando as autoridades administrativa e judiciária. É nesta altura que Portugal adopta a actual fórmula de divisão em distritos, concelhos e freguesias. Chacim resistiu como concelho até 1853, altura em que o “título” passou para Macedo de Cavaleiros.
Paralelamente à história factual, das fontes documentadas, as lendas resistem. De memória em memória. Relativamente à toponímia há duas versões: a do cruel rei mouro e a familiar. A família dos Chacins, cujo brasão de armas tem timbrado um javali – chacim - em português arcaico.
Ocupado sucessivamente por romanos e árabes, a lenda conta que este território foi resgatado com a batalha de Chacim e o milagre de Balsamão. Durante uma sangrenta batalha entre mouros e cristãos, Nossa Senhora terá aparecido com um bálsamo na mão, curando as feridas e revitalizando os combatentes cristãos. A refrega terá sido travada por causa de um rei mouro que obrigava todas as donzelas a passarem a noite com ele, antes de se casarem! A peleia travada e ganha pelos cristãos pôs fim a esse tributo e, desde então o povo, grato, presta culto à Nossa Senhora. E a chacina nunca mais voltou a ter lugar por aqueles montes.
De qualquer das formas, a importância do monte de Caramouro [ou de Balsamão] é incontornável quando se fala desta aldeia. O Santuário de Nossa Senhora de Balsamão, ali edificado, é um templo mariano, dirigido por padres polacos. A História dá conta que em 1733 se iniciou a construção de um hospício, contíguo à ermida, onde, em 1754 se instalou a Congregação de Balsamão. Facto que se fica a dever a Frei Casimiro Wiszynki, padre polaco em missão no nosso país.

Actualmente, apesar de ser um retiro, Balsamão figura ao lado do Solar de Chacim, entre a oferta hoteleira local. Recomendado para quem quer fugir da agitação, o convento acolheu, em 1996, Edgar Morin. O cientista social revelou ter descansado e meditado «neste local privilegiado». Por seu lado, o Solar de Chacim, fica dentro da aldeia. É um palacete convertido ao turismo de habitação. Restaurado e aprazível. Ao pequeno-almoço, entre as iguarias, encontram-se deliciosas compotas caseiras.

Hoje são apenas ruínas da indústria sericícola. Ruínas que testemunham e contam a História. É esta a glória das ruínas. Contar o que já não é visível na sua forma original. Entre 1750 e 1775 Chacim tinha uma fábrica de sedas onde se podia escutar o labor de vinte tornos de torcer, cerca de cinquenta teares de sedas lisas, dois teares de veludo, oito teares de sedas lavradas e dez de toda a variedade de fitas. Na época de maior prosperidade, esta fabrica fora dirigida pelo grande negociante Mestre de Campos, falecido poucos anos antes de 1783. Na época pombalina, incentivava-se a protecção a esta indústria, estendendo-se as plantações de amoreiras a várias comarcas do reino.
Depois da crise de 83, no ano de 1786 foram chamados de Turim José Maria Arnaud e seu filho, Caetano Arnaud, piemonteses, conhecedores profundos da manufactura da seda, no seu país. Depois de um período na capital, foram para Chacim, aliciados pelos bons salários. Foram contratados mais operários piemonteses, cuja mestria levou à criação de uma verdadeira escola de fiação da seda, criando fama. Ali se preparavam veludos, glacés, tafetás, cetins e pelúcias de primeira qualidade, impondo-se rapidamente por todo o reino. Em 1791, a fábrica de Chacim, melhor apetrechada e na qual o Estado investira trinta mil cruzados, era uma das melhores do reino. Mas a existência de diversos problemas levou a uma quebra na produção, acentuada pela entrada em desuso da seda. Em 1811 morre Arnaud-Pai e o Governo extingue as duas corporações de fabricantes de sedas. No entanto, Caetano Arnaud permanece em Chacim já com a fábrica quase parada. Dois anos depois, foram dadas instruções para que a Fábrica de Chacim recuperasse o trabalho ou aumentasse os rendimentos. A dada altura chegou-se ao extremo da produção da seda ser insuficiente para o consumo nacional e recorresse às exportações. Por volta de 1821, Chacim conserva ainda o filatório, mas os fundos da companhia tinham desaparecido devido à má administração que os consumia em despesa e ordenados. A trabalhar por conta exclusiva do Estado e a caminhar inexoravelmente para a ruína, a agonia dura até meados da década de quarenta do último século.


Assente na meseta ibérica, aliás como todo o distrito de Bragança, Chacim é feita de terra xistosa, encontrando-se aqui e ali, manchas graníticas, nomeadamente entre as serras de Bornes e de Nogueira. Montanha e planície coexistem num firme contraste, tornando a paisagem surpreendente. Por todo o lado há pequenos cursos de água, regatos e ribeiros. O rio Azibo murmura sempre muito perto, até encontrar o Sabor que por sua vez desagua no Douro. E tenho a impressão de que o Tua, em noites de silêncio absoluto, também se faz ouvir. Em Chacim é a Ribeira dos Moinhos que levanta a voz por entre giestas, tojos, arça e urze. Ao seu clamor, no tempo em que um pequeno aqueduto levava a água à fábrica da seda, respondiam as amoreiras, que entre os séculos XV e XVIII reinavam entre castanheiros, oliveiras, amendoeiras e outra vegetação arbórea. Ainda se encontram amoreiras em Chacim. E há uma particularmente majestosa. Devido ao Real Filatório foram rainhas sem manto, em cada palmo de terra. Hoje são apenas ícones. Provas vivas, de raiz funda de que por ali passa a Rota Europeia da Seda. Hoje, um percurso cultural e histórico; ontem uma indústria florescente.
A barragem do Azibo não fica longe dali. Por estas bandas, a praia é fluvial. Tomando a aldeia como base, as viagens ao redor de Chacim são muito diversas. As minhas preferidas são entre Maio e Setembro. Talvez porque o frio seco, dificilmente me arranca à borda da lareira. Pois é sabido que o clima, assim o caracteriza o povo, é de extremos. «Nove meses de inverno e três de inferno».

Chacim é uma aldeia, entre as aldeias de Portugal. No meu coração é a aldeia da minha vida. Uma viagem recorrente e única. Visitando-a, visito-me. Encontrando-a, encontro-me. Não é apenas o património edificado e natural; não é só a paisagem e o clima, a lenda e a história. Eu tenho em Chacim uma geografia de afectos, um património afectivo pintado à mão, no meu coração de seda. Chacim não tem apenas as ruínas da fábrica, os resquícios do bairro operário, a Pontinha, a igreja matriz, o solar, o Pelourinho, a casa do povo, a Avenida.
Chacim não tem só as suas gentes, sedas centenárias guardadas nas arcas de madeira, estórias por contar na boca dos anciãos. Montes e amoreiras. Rios e regatos.
Chacim tem a festa popular onde dei os primeiros passos de dança. Tem o mês de Agosto mais desejado da minha vida; o arraial mais animado da minha memória. Tem as ruínas da minha paixão adolescente; tem o café onde aprendi a jogar matraquilhos. Chacim tem segredos na soleira da porta da Jacinta, o parapeito da janela mais alta do mundo. O rapaz que me ensinou a jogar ao peão; os plátanos que testemunharam a minha primeira leitura de Chuva Oblíqua. Chacim tem a minha primeira inscrição numa casca de árvore; a minha tristeza do último dia de férias; a minha certeza de que o mundo acabaria, se nunca mais voltasse. Por Chacim passa a rota dos meus sentidos. Do meu sentir o mundo. Em silêncio.
imagens por ordem de edição: bairro operário; ruínas da fábrica da seda [ambas tiradas por mim]; Avenida, Capela do Convento de Balsamão
Dados bibliográficos recolhidos por mim, para um trabalho sobre a seda em Portugal e em Chacim em particular, realizado em 1995

sábado, junho 6

Caderno de emoções

Veio do outro lado do mar, este caderno à flor da pele. Tem o meu nome e, dentro, tem palavras que me comoveram. Muitíssimo. E tem uma receita: Torta Mineira. Para servir gelada. E tem outra receita: Emoções em Estado Puro. Para servir quente.
É um dos lados visíveis de uma amizade que começou à mesa.
Fez-se de uma noite, uma vida inteira. Num ápice. As cumplicidades tomaram a vez do tempo.
Raras vezes acontece assim: a empatia é tal; as afinidades são tantas que fazem acontecer. Coisas boas. Fortes. Importantes. Únicas. A amizade. Ou a outra fórmula. A que não sobrevive à distância. A que não abdica do toque: o amor.
Querida Zaclis, quanto conseguir articular melhor o que sinto, eu venho aqui dizer-to. Como se fosse um segredo para o mundo escutar. Para já, estou tomada pelo “emocionês”. Uma linguagem de difícil expressão escrita, quando não temos à frente a pessoa que, no momento, queremos muito abraçar.

Mais detalhes aqui, no blog do culpado...
imagem: Zaclis, a fotógrafa que também vê com as mãos...

sexta-feira, junho 5

As mãos da Paulina

Conhecem a psicóloga e professora de violino que faz as massagens mais extraordinárias do mundo? Eu conheço. Chama-se Paulina. E mora aqui. Porque há sempre um MODUS!
Eu, hoje, não tinha saído de lá. Aliás, eu nunca sairia de lá. Das mãos dela. DI VI NAS!

Private joke. Melhor: blague privée!

Querida Gracinha, o teu jantar de aniversário "obrigou-me" a mudar os planos de fim-de-semana! Mas os planos fazem-se para isso mesmo. Para os contornarmos, para os alterarmos, para os [des]planearmos. Em maré de surpresas: SURPRESA :) muitos, montanhas, paletes, resmas...! Ou pensas que eu me esqueço! ;)

Noite de vinil


Às vezes apetece uma noite de vinil.
De rituais. De gestos antigos, de som e significado.

Mais mimo blogosférico

Mais mimo blogosférico.
E, mais uma vez, eu não cumpro as regras. Ofereço-os a todos
os blogs que visito!
uma sugestão:
A querida Su leva o selo que a Angélica me ofereceu e a querida Angélica leva o da Su :)

E se...

E se de repente lhe oferecessem uma viagem para uma ilha paraíso, com partida marcada para 15 de Junho e não pudesse ir?

quinta-feira, junho 4

Entre os teus lábios



Entre os teus lábios

é que a loucura acode,

desce à garganta,

invade a água.

No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.

Nos teus flancos

é que a fonte começaa ser rio de abelhas,

rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.

Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.


Eugénio de Andrade
imagem: ?

Correntes de Ar


Da importância de uma t-shirt branca ou
há constipações que não se curam.

Verbo Twittar [esclarecimento à navegação]


Presente do Indicativo


eu [não] Twitto [é uma opção]

tu Twittas

ele Twitta

nós Twittamos

vós Twittais

eles Twittam



Futuro do Pretérito do Indicativo


eu Twittaria [se tivesse vontade e tempo]

tu Twittarias

ele Twittaria

nós Twittaríamos

vós Twittaríeis

eles Twittariam


Futuro do Presente do Indicativo


eu Twittarei [um dia, talvez...ou não]

tu Twittarás

ele Twittará

nós Twittaremos

vós Twittareis

eles Twittarão

a noite pede música

vinte, vinte e cinco anos? muitos. tão poucos. nenhuns.

as tuas mãos tão iguais a esses dias.

tão iguais. tão próximas. tão perfeitas.

as tuas mãos são vinte anos de ternura e trinta dias de mar.

O meu olhar é nítido como um girassol


O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos

quarta-feira, junho 3

O melhor do mundo à fatia

O melhor bolo de chocolate do mundo à fatia. Dizem eles! E eu acredito! E parece que há fatias na Foz! A hora do lanche é quando uma mulher quiser, não é?

Desmentido


Depois deste post, sobre futebol, a minha vontade secreta era a de manter a brincadeira. Mas não estaria a ser leal para com os meus amigos e outros leitores deste blog! Eu explico. Por muito que, alguns, fiquem desiludidos comigo! Mas, vá, não se esqueçam que humor é fundamental! Eu, apesar de ser do FCP não sei escrever sobre futebol! Pelo menos, não saberia como escrever este post. Porque, ao contrário da opinião da Cristina - desculpa, linda :) - eu acredito que é necessário talento! Talento e conhecimento. E eu não os tenho!

Aliás, eu quando li o post, a primeira coisa que me ocorreu foi: se o Hulk joga no Porto, onde jogarão o Spider Man e o Batman? Eu sou uma portista de resultados e de coração :) Agora, quem é quem, isso terei de aprender - já comecei - com as minhas queridas Dalila, Xana e Sónia! [Dalila chorei a rir com o teu comentário; Xana: fiquei com vontade de te ligar, logo de imediato! Quem tem de estudar, sou eu, linda. Contigo!] Como diz o meu/nosso querido Mike terei de praticar :) Ou voltar a praticar! Parei de o fazer um pouco depois do "calcanhar de Madjer"!!!! [o meu calcanhar é de Madjer, JG :) e está, agora, a descoberto] Ainda acho que é o Vitor Baía quem está na baliza! Nem tanto, nem tanto :)

Enfim! A minha sorte, foi que o João alinhou na brincadeira! ["o nosso amigo, João que se ponha fino!" Dalila, minha linda, obrigada por este momento :) sublime ] Quem quiser ler sobre futebol terá de visitar o blog do João, aqui]. Por outro lado, sempre que o João me quiser dar a honra de publicar aqui um post sobre um jogo, o convite está feito.

K, xpto, Maggie, Passos, JG, Claudia, e anónimo que não o é! [eu até casava, mas afinal não sou assim tão prendada ;)]

Espero, pois, que me perdoem a brincadeira! E obrigada pelos vossos simpáticos comentários, e-mails e sms! Foi muito divertido! Mas o mérito é do João! A ele também o meu muito obrigada :)


ps: o meu coração continuará azul esverdeado, defeito genético :)
ps2: qualquer coisa escrita neste blog sobre carros que vá para além de: é vermelho, azul, rosa, branco, também não fui eu que escrevi! já avisei :)

imagem:daqui