domingo, maio 31

Cartolinas, pássaros e monstros

O que ouvi - se é que ouvi bem - pareceu-me algo extraordinário! Não fossem as cartolinas coloridas, Valter Hugo Mãe não tinha escrito estas duas histórias! Olhou para as cartolinas, as cartolinas para ele e resolveu comprá-las. Ainda não sabia que dessas cartolinas faria pássaros e monstros. Mas esse dia chegou! Felizmente. Não só ilustrou como escreveu estas duas histórias que hoje - Dia Mundial da Criança - bem podem assinalar a data. Com sonho e imaginação.

«Num tempo perdido na memória, quando o céu era ainda um lugar quieto e desabitado, o vento sentia-se muito sozinho enquanto corria pelos ares.Precisava mesmo de amigos que lhe fizessem companhia.Então teve uma ideia: e se ensinasse a voar algumas das criaturas que viviam no chão e as trouxesse para perto de si?»

«Numa pequena rua todos achavam que o vizinho que não tinha braços e que só tinha um olho era um homem calado e antipático. Foi uma surpresa quando, um dia, alguém chocou com ele sem querer e descobriu um sorriso de orelha a orelha. Afinal, ele só se clava porque os vizinhos não lhe dirigiam a palavra e sentia mesmo um desejo grande de ter amigos.»

Entre o sofá e Serralves

O resumo deste fim-de-semana é simples: sofá, livro [A história de D. Maria I], torradas, leite com café, revistas, jornais, Rosa Escura. Mais livro, cerejas, comédia romântica [com um dos meus actores preferidos] futebol, Serralves. Amigos, dois dedos de conversa, um queque de canela, sentar na relva, mais conversa. Telefonar a alguns amigos. Trocar mensagens com outros. Telefonar à mãe. Sofá. Cerejas. Tão simples. Tão bom.

sexta-feira, maio 29

Poema VIII



[...]

como ter-te procurado tanto


que haja qualquer coisa quebrada


como percorrer uma estrada


com memórias a cada canto





como os lábios prendem o corpo


como o copo prende a tua mão


como se o nosso louco amor louco


estivesse cheio de razão





e como se a vida fosse o foco


de um baço lento projector


e nós dois ainda fôssemos pouco


para uma tempestade de cor





um ao outro nos fôssemos pouco
meu amor meu amor meu amor





Mário Cesariny in Manual de Prestidigitação, pag.81, Assírio & Alvim
imagem: Pedro Moreira

"Ménage à Moi" em Serralves


Serralves está em festa. Todos sabem. O programa promete. São 20 anos! 40 horas non stop.
Agora, o que nem todos sabem é a festa que os amigos do Carlos fazem, por ele ter ganho um prémio! O vídeo intitulado “Ménage à Moi” foi um dos dez projectos artísticos seleccionados e premiados. A projecção acontecerá na parede do Museu de Serralves [Clareira das Bétulas] amanhã, sábado, 30 de Maio, quando soarem as 12 badaladas.
Outro vídeo, também da autoria do Carlos Morais, incluído no ciclo “Cinema Frágil, Cinema Ágil” passa, ainda, dia 30, às 20 horas, no Auditório de Serralves. Este trabalho chama-se “M. Nasceu no Fundo do Mar”. A protagonista é a Maria José Mendes e os textos são da Carla Carvalho. A não perder. Evidentemente. Parabéns a todos. E, claro, um beijo especial para o Carlos. Afinal, é preciso saber dormir! Ou será sonhar?
Filmar, é de certeza!
[e mais não digo :) apareçam ]
imagem: Carlos Morais

O dia pede água


Hoje o dia é de Verão! E apetece água! Salgada e doce. Para que não me acusem de promover certas correntes de ar, aqui ficam com a belíssima Mylla Christie acabadinha de sair do mar! Mais a baixo, pois é! água também! Do lado esquerdo, Diego Alemão, do lado direito - o meu, neste caso - o meu lado preferido :) sim. já confessei. Ele já passou por aqui em forma de corrente de ar e não só! a surfar nunca! Cata, minha amiga, preciso de umas lições de surfe :) oh meu deus, a natureza é tão poderosa! ...palavras, actos e omissões! fico-me pelas últimas ;)

quinta-feira, maio 28

Turista na minha cidade



imagens: daqui e daqui

Hoje, agora, apetecia-me ser turista na minha cidade! Sair para almoçar e não regressar! Está um dia lindo. Quente. E leve. Apetecia-me um autocarro à volta do Porto. Sem tecto. Um barco Douro acima. Sem volta certa. Um eléctrico até à Foz. Uma stout na Ribeira. Um livro numa esplanada, frente ao mar. Uma subida à Torre dos Clérigos. Um passeio no Parque da Cidade. Um lanche em Serralves. Uma máquina fotográfica. O nariz no ar, à procura da cidade mais perto do céu. Um olhar da Serra do Pilar. Mais perto da noite. E a admiração e o espanto inicial. Como se não me deitasse nem acordasse com ela. Todos os dias.

O amor...

Há muitas formas de o dizer :)
imagem: escaphandro

quarta-feira, maio 27

Blind date

Foi assim: ele disse anda daí. Estive vai que não vai. Mas fui. Que a reunião foi adiada. Às vezes tenho mesmo muita sorte! Não sabia ao que ia, mas com ele, onde vou é o menos importante. Chegamos, jantamos, conversamos. Eu ainda não sabia ao que ia. Sentei-me. As luzes apagaram-se. Ele entrou. Alto, esguio. Especial, de tão comum que era. É. Uns breves minutos e ele tirou as botas. Depois o cascol. E depois o talento. A espreitar. O violino. A guitarra. O talento todo a converter-se em música. À flor da pele. Ele continuava sozinho. Às vezes em bicos de pés. Assobiava. Cantava. Encenava. Às vezes falava. Mais e mais música. Muito, muito bom! Depois tirou o casaco. A camisa desfraldada. Mais violino. Menos luzes. Eu já suspirava. Aliás, aos primeiros acordes, eu já estava completamente rendida. Foi ontem, no Teatro Circo, em Braga. A primeira vez que me encontrei, às cegas, com Andrew Bird. Para sempre!

[Em que planeta vivo? Às vezes, nem eu sei! Devo-te esta meu amigo! Foi excelente. Obrigada!]

[Mas a dúvida ainda cá está a atormentar-me: os desenhos das meias dele! não consegui perceber :)]

terça-feira, maio 26

A arte do desenrascanço

O canivete é suíço. Mas a arte do desenrascanço é nossa! Portuguesa!

É a palavra que eles queriam ter!
The 10 Coolest Foreign Words The English Language Needs

E vale a pena ler alguns dos duzentos e tal comentários!

O site enumera as dez palavras estrangeiras que mais falta fazem à língua inglesa. A palavra portuguesa "desenrascanço" lidera. E MacGyver ilustra o invejado "conceito"!

Eu, cá por mim, nem sei como se viverá sem o dito desenrascanço! Sem ele e sem fazer omeletas sem ovos! Uma das minhas especialidades! Aliás, pensando bem, nem sei para que me quero inscrever no workshop de cozinha criativa!!!

segunda-feira, maio 25

Cozinha criativa


«O objectivo deste workshop é deitar por terra a dependência do livro de receitas, será, desenvolver uma postura criativa e inventiva, no que concerne à confecção de pratos ou molhos. Misturar ingredientes não usuais, encontrar suportes variados para a apresentação final destes alimentos. Criando um constante paralelo com as artes plásticas no que diz respeito a composição, equilíbrio visual e gustativo. Para além disso será também trazer e partilhar variados conhecimentos, experiências e descobertas de cada um nessa área. O final de cada sessão consistirá em degustar o resultado da aula, analisar, registar e debater as sensações obtido pelos vários elementos do grupo, acompanhado de um vinho ou de uma bebida experimental. Será com certeza no final uma experiência agradável e enriquecedora, repleta de boa disposição para todos.»
Orientador: João Pedro Rodrigues
Data: Dia 03, 10, 17 e 24 de Junho
Horário:6ª Edição: Quartas feiras das 19h00 às 22h30.
Custo:125€
Lotação: 10 pessoas

domingo, maio 24

Errar é humano. E o que haveria de ser?


Errar é humano. Diz-se com frequência. Geralmente como remate desassisado e conclusivo sobre algo irremediável ou não. Não será um pleonasmo? Será que os bichos se enganam? Será que as pulgas erram o salto? As aves erram as rotas? Os macacos erram o gesto?
Errar é humano! O que haveria de ser?
Erra-se quando não atingimos o resultado esperado, o objectivo delineado. Erra-se quando as consequências do que fazemos causam dor, dúvida, angustia, falha, ruína?
Quando construímos carreiras, relações, projectos de todas as latitudes – pessoais e profissionais – sobre pressupostos falsos? Sob a nossa verdade?
Quando é que erramos? Ou será simplesmente a ilusão a culpa do erro. Logo nós, porque nos iludimos. Não sei. Há quem culpe o coração. Outros, a burrice. E o assunto arruma-se.
Onde está o código desta estrada? Onde está o manual dos contratempos? O tratado das emoções? A enciclopédia dos sentimentos?
A primeira vez [fora de casa] que tive a noção clara de que o erro tinha punição, foi na escola primária. Com uma conta de dividir. Matemática. Pura objectividade. Mais tarde, apercebi-me dos erros que tinham concerto aparente. Uma vez, na casa dos meus pais, parti uma peça muito valiosa. Os cacos não eram muitos. Colou-se. Não se nota, disse a minha mãe, mas perdeu todo o valor. Aquilo ficou-me.
Entre os 14 e os 18 anos, descobri os erros emocionais. Tipo aqueles que cometemos tomados de paixão [faltar às aulas para ir jogar flippers; sair de casa, sem autorização, para ir dançar;] tão ou mais nociva do que o álcool e os seus efeitos aleatórios. Mas que ainda hoje, porque nem sempre aprendemos com os erros – não troco por nenhum gim tónico bem servido! Inícios. [Às vezes apetecia-me que a vida fosse apenas uma eterna sucessão de inícios.]

Depois, nas aulas de Português descobri claramente os erros de interpretação. «Não. O autor não quer dizer isso, o autor quer dizer...». E nós anotávamos o que o professor dizia sobre o que o autor quis dizer. Naquele tempo, eu não imaginava que os erros de interpretação seriam dos mais recorrentes durante a vida. Pensei que só teriam utilidade no teste sobre as Folhas Caídas, do Almeida Garrett. Mas não.
Acho que só aos 30 anos, mais coisa menos coisa, descobri os erros irremediáveis. Daqueles que não tem concerto. E onde se pode aplicar, levianamente, errar é humano! Pois haveria de ser o quê? Insisto. É uma afirmação sem siso.

Errar é humano, é embaraçoso, é cómico, é demolidor, é trágico. É um direito!
Errar a porta de casa é embaraçoso e cómico. Tentar abrir furiosa e insistentemente uma porta que não é a nossa, até nos perguntarem o que estamos ali a fazer, é de se fugir e nunca mais colocar os pés numa reunião de condomínio. É de ponderar mudar de casa, até!

Errar numa teoria, pode até trazer prestígio e reconhecimento. Por muito tempo que a teoria em vigor, esteja errada, já serviu. Foi verdadeira, até ao momento de se provar que já não o é. A construção do edifício cientifico é feita desse cimento de verdades destronadas. De verdades temporárias. Ou não.
Na ciência, o erro é, tantas vezes, uma bênção. Do erro faz-se luz. Há erros de uma longevidade secular. De uma utilidade impressionante.

O Erro de Descartes, por exemplo. Dei graças ao Manuel Damásio. É que sou do género emociono-me, logo existo. E andei tantos anos por me explicar! Andei tanto tempo a pensar que no lugar da cabeça me tinha nascido um coração. De cabelos claros, com olhos, boca, ouvidos. E um ou dois neurónios que, mesmo assim, metiam férias, quando mais eram precisos. Um horror!

E na vida, qual é o papel do erro? Cometer erros tanto na esfera pessoal como profissional pode ser trágico. Mesmo que daí se parta para uma nova verdade. Ou não.
Será que quando se segue o coração se erra ou, simplesmente, se desacerta? Não assertar é mais leve do que errar. E sempre dá a impressão de se estar a jogar às setas. Por exemplo.
E jogar às setas sempre é mais parecido com viver. Digo eu. Assim, como quem não encontra o alvo. Ou as setas. Tanto faz.
Na matemática diz-se do erro que é o valor absoluto da diferença (desvio) entre o valor exacto e o valor calculado ou registado por observação.
E na vida, o que é o erro? Um cálculo mal efectuado? Uma observação mal registada?
Um desvio? Seguramente. Um desvio. Ou um desacerto.
Entre muitos valores e outros tantos sonhos.

[Errar é humano. É demasiado humano.

E o que haveria de ser?]

sexta-feira, maio 22

a noite pede música...para a SANDRA!

Fui vê-los e ouvi-los ao Coliseu, no passado dia 18! Nunca o imaginei tão falador e com um imenso sentido de humor! Foi quase perfeito. Tudo.

Sandrinha, minha querida, esta hoje é especialmente para ti! Até já, daqui a pouco, na tua festa SURPRESA! :) Feliz aniversário! Agora, que estou certa, já não vens aqui espreitar!

Na paragem do autocarro


Esperamos pelo autocarro. Na longa avenida que desagua num mar verde, azul, cinza. Da cor dos dias que vestimos. Ou despimos. Não importa para o caso. Falamos durante horas. Horas de dias inteiros. Ora de pé, ora sentados no passeio. Falamos de nós, muito de nós, tudo de nós. Do mundo, de vez em quando. Quando ele era o apêndice do nosso universo de afectos. De crenças. De olhares. De dar-de-mãos. Criamos cumplicidades do tamanho de grãos de arroz. De arrozais infinitos. Alagados e brancos. Transparentes e fundos. Nós quisemo-nos, como agora, sem querer, não nos queremos. Iguais e dissemelhantes como aves. Como asas de borboleta. Uma aguarela. Outra carvão. Tanta fragilidade. Dentro dos teus olhos, principalmente nas palmas das tuas mãos e, de vez em quando, dentro do teu sorriso, vive um dom inexplorado. Ao teu lado, eu sou um penedo. Sem jeito para coisa nenhuma, a não ser para sentir. Esperamos pelo autocarro. Felizes e com tempo. Até darmos conta que a paragem do autocarro está desactivada. Como nós. Agora. Um sorriso a menos, um olhar a menos, uma confissão a menos. Qualquer subtracção ao nosso universo, é uma violência demasiado silenciosa. Insuportável ao ouvido tísico do nosso coração.
imagem: Ethno Scap

Coisas que combinam comigo

Ontem foi o aniversário do Pedro. Depois de jantar fomos ao B Flat! O "novo" B nada tem a ver com o primeiro B! Esse que ficava junto à Câmara de Matosinhos! Muito bons momentos. Muito boa música e músicos ao vivo. É a marca! Mas o actual BFlat mantêm a essência! Num espaço muito agradável. Ontem, o mais agradável foi mesmo a conversa! Ficava ali com a Paula e com as outras queridas no blá, blá a noite inteira! Mas hoje é dia de trabalho! Valha-me a hora de almoço prá postagem. A correr! E espreitem. Espreitem o blog. Hoje está lá a Lara Li [aos anos! e, confesso, só sei o nome de uma música dela: Telepatia] com o Miguel Braga. Ontem foi dia de "O piano convida". Vale ainda a pena ver a curiosa exposição intitulada The lady a pintura e o jazz, de Ana Maria. Ao que percebi haverá um leilão. Há já diversas ofertas para a compra das 44 paletas da exposição. B... happy! Ou B Flat. Vai dar ao mesmo!

Coisas que me irritam solenemente

Quando acordo tarde é pior! Muito pior! De qualquer forma é sempre um momento para esquecer. Tomar um duche, acertar na exacta temperatura da água. Ir despertando, despertando, despertando... até pegar no frasco de champô e não ter nem uma gota para amostra!!! Em dias que começam assim, não há nada a fazer! Está tudo perdido! Quando começo o dia às avessas, comigo mesma!

quinta-feira, maio 21

Sinto muitíssimo

Morreu João Bénard da Costa. Gostava tanto tudo íssimo de o ler. Gostarei sempre da forma como escreve. Sobre filmes. Sobre a vida. De forma excepcional. Ensinou-me, em poucas linhas, muitos caminhos. Descobri tantas coisas com as suas palavras.

Lugares e pessoas. Mundos inteiros. Não sabia apenas olhar. Sabia ver. Por dentro e por fora. E via tão bem!

«Esta estranha Primavera de 2005 vai-se infiltrando muito outonal. Em qualquer sentido da palavra, das nuvens e do vento. Olhem bem à volta e reparem nas caras das pessoas.Já atentaram bem no número de caras que as pessoas agora têm? O número de pessoas é grandessíssimo, eu sei, mas o número de caras é obscenamente maior, porque, nesta estranha Primavera, quase todos andam com várias.No ano passado, por esta altura, as pessoas andavam com as caras do costume. Não direi com as caras com que nasceram, porque essas, já se sabe, duram umas horas ou uns dias. Também não estou a pensar nas caras com que se fizeram gente e que acabam quando ficam gente feitas. Mas com essa, que vem depois daquela, e que é a cara com que nos habituamos a vê-las, mais ruga menos ruga, mais dente menos dente. Cara com que se começa a parecer a cara dos filhos deles, quando ficam tal pai tal filho. Cara que, às vezes, até se pega à mulher (ou ao marido) que, depois de muitos anos de matrimónio, acontece ficar parecida. Cara que, outras vezes, passa deles para o cão, igual ao dono.É estranho? Não acho nada.Uma cara é uma cara e não há assim tantas que não se compreenda alguma economia, sobretudo quando há que baixar o consumo. Estranho é o que está a acontecer agora. Com inquietante dissipação, as pessoas mudam de cara. Experimentam uma, acham que não lhes fica bem, usam outra, depois outra e mais outra. Para mim, que levo tempo a habituar-me a uma cara nova, esta sucessão de caras assusta-me.Qualquer dia, ainda me acontece o que aconteceu a Malte na Rua Toullier, num 11 de Setembro. Vou por uma rua vazia, e uma mulher deita a cara às mãos, e fica-lhe a cara nas mãos. Que visão será mais horrível? Uma cara do avesso nas mãos de uma mulher? Ou uma cabeça toda nua, esfolada viva, sem cara?E o Malte, de Rilke para quem não saiba (se não souberem Rilke já não tenho cara para vos aparecer mais), viu isso tudo, em Paris e em Setembro, há um ror de anos. Ver isso em Lisboa, em Março, nos dias que correm, não há cara que aguente. Mas, com o balanço que isto leva, qualquer dia acontece. Pode ser já para a semana. Deus nos acuda, ou aquele rei que era irmão de Valentina Visconti, essa que - diz-se - morreu de desgosto».

Continua aqui sob o título MORRER FACE AO OUTONO.
Vale a pena reler outras crónicas aqui.

Essas ficarão


Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade
Imagem: Jacek Gasiorowski

quarta-feira, maio 20

Imperdoável, Marta!


Imperdoável! Como é que me fui esquecer dele! O tanto que me fez rir! ALF, acrónimo de Alien Life Form. Uma série que eu não perdia. De jeito nenhum! O ALF que não comia gato desde que saiu de Melmak e que seria eternamente acusado de comer o gato da família que o acolheu! :)

E as suas, quais são?


O Miguel, lançou o desafio! Mas depois de ler a lista dele bem que poderia fazer copy/past! Resisto! Mas não resisto a enumerar o meu saudoso Verão Azul. Agora, tenho os DVD´s e mato saudades de vez em quando! Ora cá vão as 15 séries de televisão, arrancadas num ápice à minha memória! E as suas/tuas, quais são? Eu vou espreitar aos vossos blogs, a ver se aceitaram o desafio :)


O Polvo - adorava os enredos com a máfia italiana!


As Teias da Lei - Acreditei no Direito! [Esqueci-me que era o americano!]


Sim, Senhor Ministro - Muito Bom! Ria para dentro!


Allô, Allô - Eu só digo isto uma vez! Ria até não aguentar mais! Delicioso!


Duarte & Companhia - o que eu gostava da Joaninha! e das aventuras bem portuguesas!


A Tragédia da Rua das Flores - via com a minha mãe!


Cheers, aquele bar - divertia-me, às vezes!


Monty Python's, absolutamente genial!


Black Adder - um must! mais non sense no seu melhor!


Verão Azul - tanto, tudo. íssímo! O que chorei e ri e sonhei e, e, e... e quase morri, quando morreu Chanquette! Aliás, morri um bocadinho!


Wickie - adorava! tb tinha a caderneta! e os cromos que trocávamos nos intervalos :)


Tom Sawyer - ainda hoje sei a letra de cor e salteado: «tu andas sempre descalço Tom Sawyer, junto ao rio a passear, mil amigos deixarás aqui e além»... e o que sonhei viver naquela casa no cimo da árvore!


Os Cinco - soube-me tão bem! Mas não tão bem, como os livros. Todinhos.


Uma com Cybill Shepherd e Bruce Willis - não me lembro do nome da série! mas lembro-me de ver!


Uma Casa na Pradaria - ao Sábado à tarde, ora pois!
imagem: série Verão Azul

terça-feira, maio 19

Deu-lhe a mais limpa manhã


Deu-lhe a mais limpa manhã

Que o tempo ousara inventar

Deu-lhe até a palavra " lã"

E mais não podia dar

Deu-lhe o azul que o céu possuía

Deu-lhe o verde da ramagem

Deu-lhe o sol do meio dia

E uma colina selvagem

Deu-lhe a lembrança passada

E a que ainda estava por vir

Deu-lhe a bruma dissipada

Que conseguira reunir

Deu-lhe o exato momento

Em que uma rosa floriu

Nascida do próprio vento

Ela ainda mais exigiu

Deu-lhe uns restos de luar

E um amanhecer violento

(Que ardia dentro do mar)

Deu-lhe o frio esquecimento

E mais não podia dar.


Carlos Pena Filho in Vertigem Lúcida,1958
imagem daqui

segunda-feira, maio 18

Entre o esquecimento e o perdão

Aos 40 anos uma mulher descobre que a sua vida é uma mentira. O pai não é seu pai, os seus irmãos, não são seus irmãos e o avô que visitou, durante tantos anos, no cemitério de Coimbra, cidade onde nascera, vive na Holanda.
Poderia não ser importante descobrir a verdade, uma vez que a sua família de coração e de fé, eram todas as outras Carmelitas Descalças do convento onde vivia. E Deus. Vivia para Ele e com Ele. Em silêncio e oração. Numa fé só de eleitos.
Abandonou a sua vida de recolhimento. Colocou o hábito dentro de uma caixa. Despediu-se de toda a gente no mosteiro que sempre a consolou e resguardou do mundo.
Voltou a chamar-se Helena. Leni, como lhe chamavam os irmãos e a mãe. E partiu em busca de si, da sua história. Com fé. Talvez na força de um pedido da sua mãe, expresso numa carta deixada, antes de morrer. Tinha ela 14 anos.
Já na Holanda, na praça de Dam Square, ainda desajeitada naqueles trajes de mulher comum, comprou um chapéu que lhe tapasse a cabeça.
Ainda bem que tudo lhe estava a acontecer no Inverno. Assim vestida e calçada, o desconforto não era total. Não saberia como lidar com o sol na pele.
Helena caminha em direcção ao hotel. Sente medo. Medo e desejo.
Medo de saber quem é; desejo de saber quem será.
Com quem se parceria? De quem herdou os olhos esverdeados, o rosto angular, o cabelo claro e sedoso, o corpo esguio, as mãos de pianista?
E, principalmente, de quem herdou aquela vontade de ajudar o mundo em silêncio e recolhimento, só com o poder da oração?
E de onde lhe vinha aquele fascínio pelo céu, principalmente quando a noite cai e o telescópio vigia as estrelas. A astronomia, que estudou, ainda hoje a fascina e comove. Passou a infância a olhar para o céu e a adolescência a ponderar se Deus mora lá. Acredita que sim, que mora.
Tantas certezas sobre as estrelas e sobre Deus e, agora, enquanto caminha, nenhuma sobre si. Helena é o dogma da sua existência. Disseram-lhe que era filha de Mário Vila Franca e Antónia Vila Franca e ela acreditou. Disseram-lhe que era a irmã mais velha, de dois irmãos, e ela acreditou. Nunca colocou nada em causa. Nada.
Até porque estava escrito. E as coisas escritas parecem indesmentíveis.
E agora, na mala que desliza atrás de si, tem a carta que o pai lhe escreveu para o convento, poucos dias antes de morrer. E como pesam as cartas que chegam dias antes de quem as escreveu morrer.
Que sempre a amou como filha mas que não era sua filha. Que procurasse o avô materno, na Holanda. Que o paterno, é verdade, tinha morrido, mas não tinha campa, em Coimbra.
Que guardasse os documentos que lhe envia com a carta. São originais. E que perdoasse ao seu verdadeiro pai e lhe perdoasse a ele, também, por nunca ter tido a coragem de lhe contar a verdade. Mas, fosse qual fosse a verdade que encontrasse, morria certo do seu perdão. Afinal, uma freira, tem por dever perdoar. E sabe fazê-lo melhor do que qualquer outra pessoa.

Helena caminha em direcção ao hotel, tão absorta nos seus pensamentos, que não repara num velho vigoroso que a segue desde que deixou o aeroporto em direcção ao centro da cidade. O velho que a viu comprar o chapéu sem o experimentar, segue-lhe os passos.
Os passos de uma mulher comum, para a qual a vida deixou de fazer sentido no recolhimento e na oração. Uma mulher entre a memória e a mentira. Entre o esquecimento e o perdão.
Imagem daqui

domingo, maio 17

a noite pede música

[...]

Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.

[...]
Que perfeito coração

no meu peito morreria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde perfeito

bateu o meu coração.

sábado, maio 16

As gavetas


Não deves abrir as gavetas

fechadas: por alguma razão as trancaram,

e teres descoberto agora

a chave é um acaso que podes ignorar.

Dentro das gavetas sabes o que encontras:

mentiras. Muitas mentiras de papel,

fotografias, objectos.

Dentro das gavetas está a imperfeição

do mundo, a inalterável imperfeição,

a mágoa com que repetidamente te desiludes.

As gavetas foram sendo preenchidas

por gente tão fraca como tu

e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.

Há um mês ou um século, não importa.
Pedro Mexia, in Anos 90 e Agora, pag. 215, Quasi, 2001
imagem: desenho de Salvador Dali

Desculpa-me

Claudinha: DESCULPA-ME!!!!!!!!
Não podia ter-me esquecido do teu aniversário! Estou mesmo envergonhada :( e triste!

A vida nunca é uma via rápida


Mais uma sessão de home cinema! Sofá e manta! Que volta a fazer frio! Chama-se Elizabethtown. E como o meu querido Miguel escreveu um dia «é um filme acima do céu porque mostra, de uma forma absolutamente tocante, que a vida nunca é uma via rápida. É feita de estradas secundárias, caminhos imprevistos, apeadeiros...» E é o que me está mesmo a apetecer. Com chá e bolachas. E tudo muito quieto. E a luz apagada. E mais nada. Que o filme vai começar.

Eu parei no mail...


...e nem devia ter começado! Compreendem, agora? :)

sexta-feira, maio 15

a noite pede música





Coincidências! Eu ali parada a olhar para o título! O título ali parado, a olhar para mim! Enfim! Coisas estranhas! Win some, lose some. E depois, sem esforço, a letra nos lábios «She touched my face and called me her lover/I never thought that I'd need another». Aos anos que não ouvia isto! Ele há - como direi? - não direi! Porque eu hoje, não direi nada de jeito... se abrir a boca! Ora ouçam!

SIM

Sim, quero dizer sim ao inacabado


que é o princípio de tudo

e o que não é ainda,

sim ao vazio coração que ignora

e que no silêncio preserva o sim do início,

sim a algumas palavras que são nuvens

brancas e deslizam amplas

sobre um mundo pacífico,

sim aos instrumentos simples

da cozinha,

sim à liberdade do fogo

que adensa o vigor da consciência,

sim à transparência que não exalta

mas decanta o vinho da pesença,

sim à paixão que é um ajuste ao cimo

de uma profunda arquitectura íntima,

sim à pupila já madura

que se inebria das sombras das figuras,

sim à solidão quando ela é branca

e desenha a matéria cristalina,

sim às folhas que oscilam e brilham

ao subtil sopro de uma brisa,

sim ao espaço da casa, à sua música

entre o sono e a lucidez, que apazigua,

sim aos exercícios pacientes

em que a claridade pousa no vagar que a pensa,

sim à ternura no centro da clareira

tremendo como uma lâmpada sem sombra,

sim a ti, tempestade que iluminas

um país de ausência,

sim a ti, quase monótona, quase nula

mas que és como o vento insubornável,

sim a ti, que és nada e atravessas tudo

e és o sangue secreto do poema.

António Ramos Rosa
[de No Calcanhar do Vento, 1987] in Os Quatro Elementos, pag. 39, ASA, 2004

imagem: pintura de Magritte

Um bilhete para qualquer lado

Ontem, a minha versão masculina dizia-me que há momentos em que só é preciso ter um bilhete para qualquer lado! Qualquer lado parece-me o lugar ideal! [E as férias aproximam-se!] Aliás, qualquer lado, é o melhor lugar do mundo!

Coisas que combinam comigo

Mesmo à porta do Verão, a minha dúvida mantêm-se. Nunca se dissipa. Um tormento. Muito pouco sério, é certo. Mas um tormento! Sapatos ou botas? Botas ou sapatos? Que às vezes é preciso determo-nos em questões divertidas, superficiais, inofensivas, parvas, descontraídas! A vida são quantos dias? E este já entra na conta, não é?

quinta-feira, maio 14

a noite pede música

Qual é a aldeia da sua vida?

A ideia é da Susana e parece-me muito boa! Tem o mérito de divulgar as aldeias portuguesas.
A Susana apela a uma blogagem colectiva no intuito de cada um escrever sobre a aldeia da sua vida. Há um prémio. Terá de haver uma inscrição prévia. E há datas a cumprir. Por isso, muita atenção. O melhor é espreitarem o blog da Susana. Ela explica. Tim tim por tim tim. Participem! Divulguem. Contem-nos tudo sobre a aldeia da vossa vida! E habilitem-se a ganhar um fim-de-semana em Monsanto, a Aldeia mais Portuguesa de Portugal!

quarta-feira, maio 13

Deve ter 237 anos [III]

[...] Depois de ter estudado bem todas as gerações de palavras que o habitam, o adivinhador de passados, disse-me que tinha encontrado a solução. Desabraçar. Essa era a palavra para que jamais voltasse a dar um abraço inventado, numa pessoa inventada. E eu disse-lhe que isso era impossível, porque nunca tinha inventado um desabraço. E que me parecia absurdo. E que nem sequer nunca tinha visto ninguém desabraçar alguém. E ele riu-se. E autorizou-me a procurar a palavra para que acreditasse. E garantiu-me que só um beijo inventado não tinha solução. Porque a palavra desbeijar não existe. E perguntou-me se algum dia eu tinha dado um beijo inventado numa pessoa inventada. E disse-lhe que, antes de mais, ia procurar a palavra desabraçar. Desabonar; desabono; desabordar; desaborrecer; desabotoadura...[cont.]

O amor tornou-se uma questão prática


«[...] O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como nãopode. Tanto faz. É uma questão de azar.O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.


Miguel Esteves Cardoso, Excerto do texto Elogio ao Amor
[este texto é conhecido universalmente. e se não é, devia ser! MEC no seu melhor! Mas, como diz o editor da nova revista, todos nós já o recebemos, repetidas vezes, por e-mail! ao abrir a revista do i, no passado sábado, ei-lo a celebrar o tema da capa! Adorei a publicação e, apesar de não ter onde as arrumar, vou coleccionar as 50!]

Assim

Há desertos, assim, nas palmas das mãos que nunca se fecham.

A noite vai pedir música

Eu não imaginava o "meu" Rui Veloso a cantar isto! Num dueto com Leila Pinheiro!Digo isto, para não dizer mais nada! E como tudo o que eu possa dizer sobre isto, nunca será fiel ao que sinto, dedico esta música à Leonor. Porque ela sabe ler o meu silêncio. E a minha felicidade ao dar de caras com esta música, numa versão que eu nunca tinha ouvido antes!

[...e porque um dia me escreveste que «a saudade é a memória do coração»]

Roubado aqui! Com vénia ao Passos!

Da importância de por paixão no que se faz

Mais mimo blogosférico


Mais uma vez não cumpro as regras! Mas agradeço. Muito! Agradeço ao Whesley e à Isabel. Muito obrigada pela gentileza! E como não vou cumprir as regras, porque é difícil escolher eu ofereço os selos a todos os blogs que visito! [Isabel, minha querida, quanto a cinco coisas que eu adoro: amigos/família; escrever;viajar;ler; cozinhar :)]

segunda-feira, maio 11

A tabela a loba e eu

Eu nunca fui uma aluna brilhante. Muito menos no secundário. As minhas notas iam do 19 ao nove. Tinha um pouco de tudo. Só estudava o que gostava. E nem era bem estudar. Era ler a matéria e tirar notas que acabava sempre por perder. Os cadernos eram verdadeiros tratados observacionais-poéticos, com sumários pelo meio. Uma desgraça! Nessa altura a única coisa que me brilhava, eram os olhos. Na leitura dos poemas. E no caminho para a biblioteca. E quando via o Filipe. Concedo. Mas dizia eu que não fui uma aluna brilhante. E quando digo brilhante, digo constante. Com método. Ou seja, com boas notas a tudo. Como a Leonor , por exemplo. Que tanto admirava. E admiro. Felizmente, ainda está na minha vida. Constantes. Como as notas dela. Eu era aquele tipo de aluna [quando tiver filhos apago o blog] que passava os dias encafuada em leituras, que ninguém me pedia. Passava as aulas de Matemática e de Físico-Química a escrevinhar e a anotar as palavras novas, que os professores iam dizendo. A professora de físico-química, por exemplo, passava os dias a dizer a palavra análogo. E era um tanto distraída com as experiências. Aquilo quase nunca corria bem. Uma vez, a colher de combustão derreteu. Excesso de química! Talvez por isso, eu gostasse tanto dela. Afinidades. Mas era a tabela periódica a única coisa a fascinar-me, naquelas aulas. E lá ia eu à procura do inventor da Tabela e da sua história.Coisas que não interessavam para o caso. Nem nunca a pergunta saiu no teste. Obviamente! Depois, perdia tempo infinito à volta dos nomes dos elementos da Tabela. Quanto mais estranhos, mais me seduziam. E lá me punha a escrever e a descrever personagens com nomes tipo manganês, cádmio, ósmio, dúbuio, actínio. Enfim, fazia dos metais e não-metais verdadeiros heróis! Nem o bronze, a prata e o ouro escapavam a um papel secundário! De acordo com as suas características. Sabia-ás de cor e salteado, como nunca soube a tabuada!
A tabela periódica ajudou-me a compreender a composição do mundo. Até do amor. Da química e da falta dela. E os alquimistas conquistaram-me para sempre. Mas nada disto me foi alguma vez perguntado no teste de físico-química. Daí os apontamentos marginais, no miolo dos cadernos. Ninguém os entendia. Só eu. Eram de uma inutilidade tremenda.
Entre as aulas onde, de facto, eu estava em tempo real, ou seja, sintonizada com o professor, contava-se a de História. Nas aulas de História, eu não precisava ir atrás da história. Era a História que vinha atrás de mim. E eu à frente. Por vezes. Com devoção. Sumérios, fenícios, cartagineses. Ainda hoje sei o nome do rei da Suméria e qual a função do patési. Detive-me na escrita cuneiforme difundida por toda a Mesopotâmia. Nos pictogramas que, depois, os fenícios passaram a alfabeto fonético, com 22 letras. Antes do nosso.
Depois, Roma, Grécia. O tanto que me apaixonei por elas, ali, nas páginas dos manuais. O tanto que as imaginei. O tanto que me fizeram compreender o porquê do mundo. A importância das civilizações fundadoras. Nas artes , nas leis, na religião, na economia, na arquitectura. Tudo. Fixei coisas improváveis. Coluna: base fuste e capitel. Entablamento: arquitrave, friso, cornija. Ordens dórica, jónica e coríntia. Romanas: toscana e compósita. E por aí fora. Os deuses todos. Ou quase. A minha cabeça, como se fosse Olimpo. A Grécia Antiga do helenismo. Minóicos e micénicos. Tudo cá dentro. Sem esforço.
Eu, em Roma, a rememorar isto tudo. Em cada esquina. Conhecimentos adolescentes à flor da pele. Ansiosa. Emocionada. O Coliseu, o Fórum. Os imperadores e os seus Arcos do Triunfo. Todos.Mas foi numa das salas dos museus capitolinos que os meus olhos mais brilharam! A capa do meu livro de História a três dimensões! Real. Carregada de significado. Lupa. A Loba. Ali, à minha frente. Lendária e tocável. Século V a.c. Mais real, só se o bronze etrusco respirasse!

[esse bronze resistente, sonoro e dúctil da "minha" Tabela periódica]


imagem: daqui [não consigo editar a que eu tirei :(]

As 3 super estrunfinas

Elas vestiram-se de azul! E a sorte não se fez rogada. A sorte e a competência técnica. Evidentemente! Mas nem a estrunfina é mais azul do que elas! Um dia, ainda vou saber falar de futebol como estas três grandes senhoras: Dalila, Sónia e Xana! Obrigada. Foi muito divertido! Aos estrunfes, também agradeço, claro :) Mas eles sabem sempre falar de futebol. De futebol e de... estrunfinas. De qualquer cor :)

domingo, maio 10

a noite pede música. esta!

Em tons de azul e vento




Está uma ventania! A minha árvore, verde, verde dança. Sem sair do lugar. A empanada já está no forno. Tamanho XL. Deve estar quase pronta. Pelo aroma que sai da cozinha e chega aqui, ao escritório. Ainda somos bastantes! A maioria portistas. Ferrenhos. E, lá no meio, um sportinguista. Altivo. Lúcido. E sofredor! O jogo, como sabem, é mais logo. A cidade, não fosse o vento e, agora, a chuva, poderia ouvir-se respirar. Está tudo quieto. Ainda mais quieto do que num domingo qualquer. Daqui a pouco olhos postos na televisão. E eu, confesso, de olhos a cirandar de rosto em rosto. E de vez em quando na televisão. Mas o melhor do jogo, para mim, é a cara deles, as expressões deles e, claro, os comentários da minha querida Dalila! Eu gosto destes jogos. Que nos reúnem na casa mais quente que conheço. Mais uma vez. E sempre.
Depois, a cidade despertará. Confio. Em tons de azul e vento.
E chuva.
Adenda: afinal, no grupo, há um Vitoriano... de Guimarães. Convicto e com um excelente sentido de humor!
Adenda nº2: afinal as queridas Sónia e Xana também são um espanto, a comentar o jogo! O que eu aprendo com elas! mais azuis do que a estrunfina!
imagens: Cristina Bottallo

Seria o amor português

[variações sobre um fado]

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs.
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
Do teu amor tudo seja novo,
Um homem e uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?


Fernando Assis Pacheco, in Poemas de Amor, Antologia de Poesia Portuguesa,pg.195, Dom Quixote,2002

sábado, maio 9

a noite pede música

sexta-feira, maio 8

Legenda


Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas
Só necessito que tu existas
David Mourão-Ferreira
imagem: Antonina

Eu sugiro...

...que coloquemos um ponto final. Destes. No jantar. Eu mereço!
imagem: Miguel Coelho

O diabo veste...

... aliás, despe! Estaríamos numa reunião? Não tem a noção de que uma camisa branca faz milagres! E uma árvore de natal de marcas à vista, até doí! E o cabelo demasiado amarelo pode parecer uma esfregona. Mas não uma esfregona qualquer. Claro. Uma Vileda! E que adiantam os tacões do tamanho de um poste. Quando mesmo assim não se vê nada! Nem eloquência! E pergunta se estamos a ver, mil vezes. E nós a ver tudo. Tudinho. Tá ver? Tudo giro. Giríssimo!
Valha-me o Diário Económico. De ontem. Que explicou tudo. Como se eu fosse burra. Sobre o efeito da descida dos juros para 1% na prestação da casa. Há dias que custam mesmo a passar. Principalmente quando não se tem orçamento. E se anda de sabrinas.

Coisas que combinam comigo

Só para dizer que chegaram! Gosto TANTO. íSSIMO. Delas. E de conversas. Das boas. Quem diz boas, diz inteligentes. As cerejas? Maduras. E doces.

quinta-feira, maio 7

i*... o que é que Obama anda a ler...


Não lhe perguntei. Infelizmente. Mas alguém perguntou por mim. Dizem que é ÍSSIMO. Eu ainda não o li. Li, aqui, uma entrevista exclusiva com o Senhor Presidente. E li mais coisas. A correr. Ainda não vi a versão papel do novo diári*o. O design, assim, à primeira parece-me muito apetecível. Mas preciso ver com as mãos. E só depois poderei emitir a minha opinião. Para já, fiquei-me pelo on line. E dou-me por agradecida... porque o meu dia - nem vos digo nem vos conto - não fica por aqui, hoje! Aliás, isto vai piorar. Que, no caso, é como quem diz, melhorar!Sim, porque em época de crise, mesmo que tenhamos de trabalhar por três, temos de agradecer! E cá estou eu a fazê-lo. Sem nenhuma ironia. Apenas temo, porque gosto da vossa companhia, ter de me afastar. Por um período de tempo. A ver vamos.
De qualquer modo, o Grupo Lena está de parabéns. Com este novo jornal, criou 100 postos de trabalho, num sector que, ainda há uns meses, despedia aos magotes! Tomara que lhes corra tudo bem. E, sabem que mais, eu gosto do Grupo Lena. Estou à vontade para o dizer. Pois não tenho a mínima ligação às empresas. Nem sei exactamente quem são as pessoas. Mas, ao longo dos anos, por diferentes motivos tenho lido - como direi - sobre projectos que concretizaram em diversas frentes e, tenho para mim, que tem líderes de visão e acção. E são portugueses. E não só! Agora, não tenho tempo de explicar porquê. Mas estava capaz de abrir um Grupo Lena Fã Clube! Depois, com tempo, explico tim tim por tim tim!

* não é gralha... :) versão on line aqui

quarta-feira, maio 6

Se alguma vez eu tivesse vivido em Roma


Se alguma vez eu tivesse vivido em Roma, ou permanecido na cidade um período razoável, talvez este livro não fosse possível. Toda a gente sofre da síndrome de Lyautey: o marechal francês, nomeado governador de Marrocos nos primeiros anos do século XX, confessaria mais tarde que, no dia em que chegou, pensou escrever um livro; um mês depois, achava que tinha material para uma série de artigos de jornal; mas,ao fim de um ano, concluiu que não era capaz de produzir uma linha. Talvez isso aconteça com todas as cidades. Também Elias Canneti escreveu um livro admirável, impressionista e diverso, sobre Marraquexe;mas esteve lá umas semana e nunca mais voltou.
Para mais, Roma “é um arquétipo demasiado forte”, como disse Yves Bonnefoy: tudo, na cidade, é estímulo à escrita, tudo é recurso aos sentidos, tudo exalta a criatividade. Admirem-se as suas ruínas; mas admirem-se, como dizia Stendhal, “imaginando o que falta e abstraindo do que existe”. Percorram-se as suas igrejas; mas não se esqueça que elas nascem de uma pulsão religiosa sem paralelo. Visitem-se os seus museus; mas não deixemos que a pressão da quantidade nos gaste o olhar para aquilo que é essencial, as obras supremas casualmente alinhadas com as dos seus epígonos. E há as ruas, a beleza da gente, o seu bozear cantado, as cores, o clima, os jardins, os terraços debruçados do alto dos prédios sobre o vazio; e as laranjeiras, as mil e uma espécies de pinheiros, as azáleas e as magnólias, “faluas brancas num mar de verde carregado”, como escreveu o poeta Giuseppe Conte.
Este livro não descreve Roma: toma-a como pretexto para incursões em territórios que vivem comigo há muitos anos, seja o cinema italiano do pós-guerra ou a paixão da Tosca, a tragédia de Caravaggio ou a graça requintada de Rafael. E o meu longo fascínio, sempre ambivalente, pela arquitectura; o gosto pelas cenografias fantásticas de Bernini; a sugestão de uma grandeza impensável nas ruínas imperiais; o sonho de Adriano vazado nos restos da villa que fez construir nos arredores de Roma.Roma é uma tradição literária que conta mais do que se vê e uma tradição visual que nos mostra mais do que aquilo que qualquer literatura seria capaz de imaginar.
[...] A minha Roma, que só é a cidade que mais amo porque Lisboa não está a concurso, é muito mais do que aquilo que se dá neste livro. E o pouco que aqui está, se calhar, nem sequer o seria capaz de o escrever sobre Lisboa.
Às vezes, não estar lá é a melhor maneira de não se esquecer uma cidade. Este livro é um agradecimento, impessoal e indeterminado: viver faz todo o sentido, quando se conheceu Roma.


António Mega Ferreira [com fotografia de Clara Azevedo] in Roma, Pag. 131/133

imagem: Vista do Forum
[isto é até uma heresia quando este livro tem magníficas fotografias da Clara Azevedo]

Germano Silva na Comunidade de Leitores



Germano Silva é o próximo convidado da Comunidade de Leitores, uma iniciativa da livraria Almedina. Miguel Carvalho é o perguntador do costume. Desta vez, uma conversa entre jornalistas aberta a quem quiser participar e ficar a saber mais sobre o livro Porto: Sítios com História, editado pela Casa das Letras.
Como sempre, a iniciativa promove autores portugueses contemporâneos e permite, de forma intimista, uma conversa plena de curiosidades. Os bastidores do livro, as motivações, as entrelinhas e tudo o mais que se queira perguntar sobre a obra em questão!
No próximo Sábado, dia 9, na Almedina do Arrábida Shopping há mais uma conversa informal, desta vez sobre a cidade mais bela do mundo! Digo eu...assim como quem nunca o disse antes, aqui :) Excepcionalmente, o autor estará presente em ambas as sessões, 9 e 16 de Maio. Sempre às 17 horas.