quinta-feira, abril 30

Estou tentando me entender...

Do escrever


«Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável».


Clarice Lispector

O homem que tinha dois corações

[AVISO: eu já fui "insultada" quando mostrei esta história e disse que tinha gostado. muito.]

Não deixeis um grande amor


Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha
não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava
por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendios

do mundo


José Tolentino Mendonça in Anos 90 e Agora, Uma antologia da Nova Poesia Portuguesa, pag, 131, Quasi
imagem: Claudio Solera

Das coisas importantes


"Descobri que as coisas importantes, se as pusermos num monte, passados uns meses deixam de ser importantes. É tudo inútil!, são urgências que entretanto deixaram de ser urgências”
Manuel António Pina, na Pública do último domingo
[a) olho fixamente para a minha secretária.
b) haverá outras coisas que eu possa amontoar?]
devidamente roubado aqui

No hands

poemas... sem mãos :)

imagem: infelizmente desconheço o autor [foi-me enviada por mail]

quarta-feira, abril 29

E o prometido é devido



Naquele trilho secreto,/Com palavra santo e senha./Eu fui língua e tu dialecto./Eu fui lume, tu foste lenha./Fomos guerras e alianças,/Tratados de paz e passangas./Fomos sardas, pele e tranças,/Popeline, seda e ganga./Dessa vez tu não cumpriste,/E faltaste ao prometido./Eu fiquei sentido e triste./Olha que isso não se faz./Disseste se eu fosse audaz,/Tu tiravas o vestido,/E o prometido é devido./Rompi eu as minhas calças./Esfolei mãos e joelhos./E tu reduziste o acordo,/A um montão de cacos velhos./Eu que vinha de tão longe,/Do outro lado da rua./Fazia o que tu quizesses,/Só para te poder ver nua./Quero já os almanaques./Do Fantasma e do Patinhas,/Os Falcões e os Mandrakes./Tão cedo não terás novas minhas./Dessa vez tu não cumpriste,/E faltaste ao prometido./Eu fiquei sentido e triste./Olha que isso não se faz./Disseste se eu fosse audaz,/Tu tiravas o vestido,/E o prometido é devido.

[sim. é uma das minhas músicas de sempre! Dos "meus" Rui Veloso e Carlos Te. tanto.tudo íssimo:)]

terça-feira, abril 28

À espera de Godot

Tendo convivido muito com Nora e James Joyce durante a juventude – o seu primeiro texto publicado é um ensaio sobre o autor do Ulysses - o irlandês Samuel Becket veio a traçar o seu próprio caminho não só através de textos que exprimem um profundo mal-estar existencial, mas sobretudo pela via do teatro. A sua peça mais decisiva continua a ser À Espera de Godot, escrita em francês, vinda a lume em Paris em 1952, encenada por George Blin no ano seguinte e traduzida pelo próprio autor para inglês em 1955.
Decorrendo à beira de uma estrada no campo, junto de uma árvore, a acção envolve dois dias na vida de Estragon e Vladimir, dois vagabundos que esperam em vão a chegada de um misterioso ausente que nunca virá a aparecer – Godot, cujo nome pode ser legível como um diminutivo de God (Deus). Enquanto dialogam entre si e com mais duas personagens – o arrogante Pozzo e o seu lacaio Lucky – Estragon e Vladimir acabam por extravasar nas suas oscilações de humor (Estragon mais pessimista, Vladimir, apesar de tudo, mais entusiástico) todo o vazio da existência humana, condenada à incerteza, ao negrume e ao sofrimento. Esta obra radicalmente negativa é uma das principais contribuições para o chamado teatro do absurdo e representa um dos grandes símbolos da melancolia e do desespero do século XX.

in Guia da Exposição 100 Livros do Século

[também é só para dizer que me apetece ir ao TEATRO]

As tuas mãos


É só para dizer - nada urgente - que com o teu olhar e com a tua voz fiz uma noite branca. Faltam-me as tuas mãos para fazer o poema. E faltas-me tu, para ser verdade.

imagem: Pedro Camara

Os adultos estão sempre a crescer?


Já aqui confessei que sou uma tia babada! E tenho motivos. Claro :) Aprendo imenso com eles. Tanto! E fazem-me tão feliz! A Francisca, agora com sete anos, já me deu o mote para algumas estórias. Este é mais um. E acheio-o delicioso!


- Tia, os adultos estão sempre a crescer?

- Bem...em altura não, se não, não cabiam dentro das casas...mas...

- Sabes, tia, eu acho que os adultos sempre que fazem anos crescem mais um bocadinho, como as árvores para o céu.


[oh pra mim, derretida]

A maior flor do mundo

«A maior flor do mundo» Para a minha querida Dalila! Porque sim!

Com uma vénia ao comboio turbulento! Porque foi lá que a encontrei.

Olhares antropológicos


Não resisto a partilhar! Hoje gostei especialmente de ler dois posts. Um do Paulo, outro da Zaclis. Dois olhares distintos. Ambos antropológicos. Um por Helen Fisher; outro por Pierre Verger. Que me trouxeram muitas coisas. Uma avalancha de coisas. Boas. Quer dizer, o post do Paulo, avolumou-me as dúvidas intemporais! [apesar do livro da Relógio dÁgua :)] Porquê ele? Porquê ela? Mas deixou-me um sorriso imenso nos lábios. O post da Zaclis, avivou-me o rastilho das saudades de estudar e uma vontade imensa de ir procurar a obra! Obrigada aos dois. Por estes dois olhares tão antropológicos.

Mais mimo blogosférico

A Paula, do viajar pela leitura, selou-me :) E, agora, eu devia selar mais 15 blogs! Mas há dias em que não gosto nada de cumprir regras e - Paulinha, perdoa-me - ofereço o selo a todos os blogs que gosto de visitar! Assim, quem quiser, ao espreitar o Viajar pela Leitura, pode dirigir-se ao canto inferior esquerdo e levar o selo para o seu blog! Mas, mais importante, é parar por lá, para ler um livro da estante da Paula :) E obrigada pelo mimo, Paulinha!

É desta que me mudo para uma roulote

Parece que dantes estava isenta. E deve ser verdade. Porque nunca paguei um tostão. Mas deixou de ser! Porque, agora, vou pagar quase 400 euros de seis em seis meses!!! Chama-se Taxa de Contribuição Autárquica ou lá que é! Primeiro foi o spread que, o ano passado, me levou a questionar o meu modo de vida! Agora, esta taxa! Mas para que é que eu comprei uma casa, quando há roulotes tão bonitas!??? E viver dentro de um morango deve ser tão inspirador! Pelo menos, no Verão! [e não me falem em taxa de contribuição autárquica, tão cedo, tá?]

imagem: Sabinsen

segunda-feira, abril 27

A única verdade absoluta


As pessoas quando sentem
fazem-no com o coração
é no trajecto p`ra cabeça
que se perde a informação
João Negreiros in O Cheiro da Sombra das Flores, pag.76
imagem: autor desconhecido

Experimente um conflito cerebral


domingo, abril 26

Uma dor no joelho



Há infinitas perguntas cuja resposta não sei. E há ,ainda, perguntas difíceis a que não sei, se sei responder convenientemente ou, assertivamente, como diz a psicologia. A psicologia diz tão bem, coisas que eu sei tão mal. Adiante.

Não vale rir. De mim. Mas há uma pergunta com a qual fico angustiada desde miúda. E como ficava angustiada. Mentia. A minha mãe perguntava - ainda te dói? E eu dizia. Não. Mas doía. Imenso. Talvez tenha sido assim que aprendi a suportar a dor. Fazia qualquer coisa para não ir ao médico. Ainda hoje. Menos. Mas a pergunta atravessou os tempos. E quando o Senhor Doutor me fixa e atira, solene - E a dor? Como é a dor? Cava-se um silêncio tamanho à minha volta, que não me sai nada. Explicar uma dor, é uma coisa tremenda. Para mim, que sofro de défice de objectividade.
Expectante, o médico arremessa frases curtas, contra a minha incapacidade de balbuciar analogias. E eu, digo que sim ou que não, conforme. Quase sempre inconformada com as hipóteses que me dá. Até porque me distraem da minha dor. - Assim, como se fosse uma lâmina? E eu a pensar - sim, que eu não sou capaz de dizer nada, mas penso - uma lâmina de metal? Uma lâmina de sílex? Lá fico eu enfiada entre minutos de pensamentos estapafúrdios que me ocorrem em ocasiões impróprias e sérias.

As pessoas, diz o Senhor Doutor, têm maior ou menor capacidade para aguentar a dor. A dor é um sinal do corpo. Um alerta. Por ínfima que seja, devemos prestar-lhe atenção. Pode não ser nada. Mas também pode ser tudo. Há pessoas que não ligam aos sinais, ignoram, não lhes dão a importância que de facto têm. Há pessoas que os minimizam. Fazem de conta que não sentem dor. Até que ela se vá embora. É uma estratégia como outra qualquer. Que resulta ou não. E enquanto ele fala a dor alivia. A tensão regressa, quando ele insiste - e a dor, explique-me. E eu já sem saber o que me dói mais. Se o ombro, o braço, o pé, o estômago, o joelho – não interessa – se a alma. A pressentir aquela terrível pergunta objectiva como um termómetro. A minha ficha de paciente à sua frente. Tenho sempre a tentação de lhe pedir para me deixar ler as suas notas. Para ver o que é que, ao longo dos anos, ele foi apontando sobre as minhas dores. Nunca o fiz. Ele olha-me, novamente. Pousa a caneta, coloca as mãos unidas em cima da secretária, levanta a mão para ajeitar os óculos sob o nariz e está iniciada a mini coreografia que antecede a sua insistência. E a dor, como é a dor? Ora, tente. E eu incapaz, sequer, de dizer ai! Uma aflição. Como se não houvessem palavras no mundo. E então? É como se fosse uma agulha a picar ligeiramente? Assim mais picadelas espaçadas ou uma lâmina...


E eu, de um só fôlego, tomada pelo desespero de todas as vezes que não lhe respondi. É assim uma dor, como se eu nunca tivesse feito um papagaio de papel; como se nunca tivesse beijado o sorriso mais quente e húmido da terra; como se nunca ninguém me tivesse contado uma história antes de dormir; como se roubassem a minha única carta de amor; como se toda a vida eu tivesse de dançar sozinha; mais concretamente, é como não terminar um puzzle porque se perdeu a última peça; já sei. É exactamente como se não houvesse literatura. Nem discos, nem quadros, nem cores. Para nos recordarem como sentimos. Olhe. É como se a minha vida fosse de giz e me apagassem. A memória.


É assim a minha dor no joelho, Senhor Doutor.


imagem:daqui

Corrente de ar [3]

Ele entra em imensos filmes da minha vida! Sempre o achei um excelente actor. Depois, em Madrid, li uma entrevista, longa, deliciosamente longa, que ele deu a uma revista. Não me recordo do nome da revista. Nem me apetece ir saber dela. Que a tenho para ali. E apaixonei-me, definitivamente por ele! Jack Nicholson: uma séria corrente de ar... sénior!

Trintinhas e trintões


Só existe uma coisa melhor do que fazer novos amigos: conservar os velhos.

Elmer G. Letterman



E mais uma vez à volta da mesa. Tão bom. Tudo. Um jantar de trintinhas e de trintões. Eu explico: os trintinhas são os que ainda não passaram os trinta e cinco e, os trintões, são os que ainda não chegaram aos quarenta! A anfitriã, para além de excelente cozinheira é uma DJ fantástica. E depois do polvo [não, não é e depois do adeus] à lagareiro, do vinho de Tormes, do DIVINO bolo de chocolate com morangos - meu deus, como pequei - e do aveludado leite creme, café e bombons! A conversa, como sempre, animadíssima e, como sempre, quando se juntam velhos amigos, as recordações! Com banda sonora! Tipo discos pedidos. E as gargalhadas e o - não acredito, estamos velhos - andávamos no liceu! E ele a desafiar-nos a memória em notas soltas! Ora ouçam esta, o que é isto? E lá vinha outro não acredito!As músicas, maioritariamente dos anos oitenta, dominaram a noite! E recorremos ao youtube a ver o vídeo. Olha as roupas! Os penteados! A nossa vida está toda no youtube! Na net! É impressionante! Quase como se não precisássemos de genealogia para atestar a existência! Nem de genealogia, nem de bibliotecas! Arre, que é assustador! E depois, os filmes, os programas de televisão. Tudo em catadupa. Tudo a fervilhar. Desta noite, meus queridos, ainda vos voltarei a falar. Gracinha, meu amor, obrigada! Estava tudo delicioso! Até o chão :) Até o dia. Daqui a pouco.

Quando o assunto é desconstruir


Quando o assunto é desconstruir, não tenho como não regressar aos seus livros. Jacques Derrida é incontornável nesta matéria. A escrita e a Diferença é um dos livros que tenho por perto. Em 1998, a exposição 100 Livros de um Século, no Centro Cultural de Belém, dedicou-lhe espaço. O guia que trouxe comigo diz assim:


«Um dos filósofos centrais deste fim de século, Jacques Derrida leva mais longe a crítica heideggeriana à metafísica e elabora uma desconstrução das bases da filosofia ocidental e do seu "logocentrismo", para o qual existiria sempre uma verdade exterior à linguagem. Pelo contrário, para Derrida existe uma indeterminação geral do sentido, que deriva de uma relação entre significantes - e daí advém a falibilidade de antigas oposições conceptuais (por exemplo, essência vs. aparência, profundidade vs. superfície, presença vs. ausência, etc) diluídas numa gramatologia sem pontos de apoio sólidos e sujeita à différence. Em A Escrita e a Diferença, Derrida introduz precisamente essa noção, que em português poderia traduzir-se pela convergência entre diferença e diferimento (no tempo e no espaço), pressupondo um desvio de sentido, que assim surge sempre como que extraviado e se estabelece numa disseminação que faz ressaltar a natureza metafórica de toda a linguagem. Além das suas implicações filosóficas, o pensamento derrideano mostrou-se essencial para a renovação da teoria da literatura através da sua influência no desconstrucionismo norte-americano.»
Porque é que eu me lembrei disto? Pois dava uma longa conversa :)

imagem: daqui

Bom Dia Domingo

Lindo.Lindo.Lindo. Infinitamente LINDO!

sábado, abril 25

Uma carta aos Serviços de Censura


Por ordem de V. Exa. Foi o meu livro HISTÓRIAS DE AMOR proibido de circular. Por ordem, ao que creio, do Ministério do Interior e em complemento da decisão de V. Exa.sobre a citação da Obra, foi encarregada da apreensão da PIDE. A intervenção inesperada desta Polícia Especial num assunto de índole exclusivamente literária é de todo o ponto injustificada e veio dar à questão um significado que lhe é totalmente alheio, podendo, em síntese, definir-se como atitude abusiva de direito policial.
Em verdade, não vejo eu – nem a Censura, ao que parece – que em HISTÓRIAS DE AMOR se atente por qualquer forma contra a segurança do Estado. Tão-pouco me parece motivo de polícia a atitude de um escritor português que se debruça sobre aspectos reais e concretos da realidade portuguesa, condenando, por exemplo, o adultério (Week-end), a vadiagem de pior extracção (Ritual dos Pequenos Vampiros), o amor clandestino (Rapariga dos Fósforos), etc. – aspectos da realidade quotidiana que qualquer moral consequente ataca. Muito pelo contrário,entendo que tal atitude é meritória e vem em abono dos mais elementares princípios morais. Nunca, seja em que caso for, ele seria objecto de polícia e muito menos de Polícia Especial.

Não é meu propósito fixar-me aqui em considerandos que com justiça viessem sublinhar a ilógica intromissão da PIDE no caso. Permito-me apenas trazer ao conhecimento de V. Exa. Este meu necessário protesto, certo de que, como Director de um organismo destinado expressamente a tratar de direito de assuntos literários, não deixará de lhe dar a merecida atenção.Isto porque cuido que os Serviços de Censura, sob a Direcção de V. Exa., não são de modo algum instrumento activo de política sectária mas um «meio de harmonizar trabalho dos escritores com a lei e os superiores interesses da Nação».
Consideraram os Serviços de Censura a minha obra HISTÓRIAS DE AMOR como:
a) De conteúdo social – V. Exa. Decerto avalia a que ponto tal classificação é pessoal e arbitrária e por mim, Senhor Director, permitindo-me observar aqui que nem o romântico Garrett escapou na boca de muitos críticos a esse rótulo.
b) Demasiado realista em certas passagens – Pelo exemplar censurado que me foi cedido para consulta e que justamente restituo, pude verificar que a quase totalidade dos «cortes» é, no mais exigente e puritano dos conceitos, infundada pois trata-se de frases comuns, e comummente aceites sem intuito pornográfico ou sentido aliciante de baixa literatura. Tomo a liberdade de submeter a V. Exa. Estes exemplos que propositadamente não escolhi constituem os «cortes» totais de 3 páginas:

«de novo tombavam para o lado e ficavam assim, as bocas entreabertas – misturado com a saliva dos beijos – É indecente, estou a molhar-te com suor» (pag.33); «lá estava ela ainda no leito com uma perna abandonada entre os lençóis – o sol e a perna loura entre os lençóis ainda quentes – o moço saltou da cama e veio até à janela enrolado na coberta – e novamente os apertou nos dentes» (pag.40); «nu» (pag.153).

No que respeita a este último aspecto, afigura-se-me de único interesse saber em que medida estas palavras funcionam como elementos eróticos ou deturpadores da realidade e não como em si mesmas podem ser tomadas. As palavras são sempre vazias e só tomam corpo e sabor autênticos quando informadas de intenção.
[...]
É evidentemente certo que Maiakowski e Eluard são poetas e cidadãos comunistas, mas uma leitura mais circunstanciada do texto poderá demonstrar que os cito de mistura com Gide, Pessoa e Debussy não foi por pretender camuflá-los (tão conhecidos eles são! ) Mas para sugerir que naquele momento do conto não interessava ao protagonista qualquer evasão literária ou artística fossem quais fossem as suas preferências [...]
Mais razoável, perante as justificações que acabo de apresentar, e mais consentâneo com o desejo do meu editor, seria o de se considerar o livro em bloco, não exigindo emendas a cada um dos «cortes» de per si, substituindo-se um caderno de 32 páginas em todos os exemplares apreendidos para que desta forma se aproveitasse a quase totalidade dos exemplares com as restantes páginas impressas.
Convicto de que este alvitre e as razões aqui alegadas merecerão a consideração mais justa e oportuna, subscrevo-me...
Excertos da carta de José Cardoso Pires ao Director dos Serviços de Censura (26.10.52)
Escrita após a proibição e retirada do mercado de Histórias de Amor, classificado como «Imoral. Contos de misérias sociais e em que o aspecto sexual se revela indecorosamente. De proibir.»
Texto citado a partir de Cândido de Azevedo, in A censura de Salazar e Caetano , Editorial Caminho 1999
José Cardoso Pires in Histórias de Amor, Edições Nelson de Matos, pag. 165-171, 2008
[Porque me é impossível imaginar o mundo sem que todas as palavras respirem! Esta é a minha forma de celebrar o 25 de Abril. É também a minha homenagem a José Cardoso Pires que tanto, tudo, íssimo gosto de ler. Uma forma de agradecer o poder dizer, hoje, o abecedário inteiro. O meu superlativo absoluto sintético de liberdade.]

sexta-feira, abril 24

Telegrama


... O estranho em relação à vida é que, embora sua natureza deva ter sido evidente para todo mundo há centenas de anos, ninguém deixou o registro adequado. As ruas de Londres estão mapeadas; nossas paixões não. O que vamos encontrar ao dobrar essa esquina?

Virginia Woolf in O Quarto de Jacob,Nova Fronteira. 2º Ed, 2003; p. 105

A noite pede música

Chama-se Pitingo! Descobri-o no blog desta Senhora! Fui à procura e o rapaz é uma explosão de sentidos! Deixo-vos com esta versão de Killing me softly... Há outras. No woman no cry, por ele, e também gostei. Apesar de ser fidelíssima a Bob Marley! Mais aqui.

poemas segredos


poemas são segredos
infinito
por tocar
na ponta
dos teus dedos

Um mau livro


Continuando na senda dos livros. Ontem, ao procurar a capa do livro de Héctor Abad Faciolince, que acabei por não editar, encontrei este blog! E muitos dirão: só ontem! Pois foi. Só ontem! Podia inventar e tal...mas foi só ontem! Mais vale tarde do que nunca. É o que me ocorre, nestes casos! E li lá este post que vos deixo aqui, a bold. Roubei-o. Está simplesmente delicioso na sua simplicidade. E escrito por um livreiro tem - como direi? - valor acrescentado! E, depois, claro, a analogia...eu toda coração, identifiquei-me num ápice :) Mas...

...quem nunca leu um mau livro, levante o dedo! E a sensação? Mas pior do que ler um mau livro - digo eu - é não conseguir chegar ao fim de um livro! Eu fico triste, triste! Angustiada, até! Como se fosse eu, o livro abandonado! E pesa-me! Até hoje, não foram muitos! Alguns. Sem que eu tenha conseguido avançar páginas fora, história adentro!


«A vida é demasiado curta para se ler maus livros». Eis o que diz muita gente que faz da qualidade um fetiche. Só se deve ler bons livros, ver bons filmes, ouvir boa música ou falar apenas com gente inteligente, e tudo o resto é pura perda de tempo, blá, blá, blá... No entanto, ler maus livros é uma inevitabilidade. É como ter tido uma péssima relação amorosa: faz parte da aprendizagem da vida e permite-nos distinguir o que é bom do que é mau. Mas, tal como nas relações amorosas, não sei porquê, também no caso dos maus livros temos tendência para reincidir».
Nota: Post de um livreiro que acabou de ler um mau livro.
Jaime Bulhosa
Imagem: capa do livro

quinta-feira, abril 23

E se me recomendassem um livro?


E, ainda, para assinalar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, pedia-vos um favor! Que me recomendassem um livro! Isso, um livro de que tenham gostado muito! íssimo!

Eu, ando a ler várias coisas, como sempre! Mas não resisto a recomendar um! Ainda não o terminei e sei que será um dos livros da minha vida!

Chama-se SOMOS O ESQUECIMENTO QUE SEREMOS! E apetecia-me meter férias para o acabar de ler. Assim, de uma vez só! Por outro lado, não me apetece chegar ao fim! Sabem como é? Pois é! Entretanto, e porque falamos de livros, quero agradecer ao Paulo, a descoberta de Ondjaki e à Malina, a descoberta de Ingeborg Bachmann! São novos caminhos que descubro, por aí! E sabem-me tão bem!

Em breve, contarei o que dizem os novos livros do Valter Hugo Mãe. Ontem, fui ouvi-lo à Fnac. A verdadeira História dos Pássaros e O Homem Calado já estão na minha mesinha de cabeceira! Agora, vou visitar-vos!

Obras no planeta

Pedimos desculpa por qualquer incómodo causado! Este planeta está em obras! O antigo layout era de Inverno! Chovia, quase todos os dias! Agora, andamos a tentar arranjar um mais primaveril! Andamos, é uma forma de dizer...porque, na realidade, a minha querida Paula, anda a...eu sou, confesso, uma perfeita aselha [eu acho que escrivi esta palavra com um z, hoje!!!] nas andanças informáticas. Ela, a minha querida Paula, é que põe e dispõe. Tem as chaves cá de casa! Alguma sugestão...pois agradecemos!

Ver, ouvir e sentir Lhasa



Lhasa de Sela - a musa - tem um novo disco! E é com esta música e com este vídeo fantástico que, aqui, ao final do dia, celébro o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor!

Eu eu amo esta pequena, linda, frágil, genial, forte, absolutamente fantástica mulher! Um dia destes, conto como a conheci e o que senti a primeira vez que a vi, ao vivo! Se conseguir atinar palavras e sentimentos. Fechem os olhos e ouçam. Não! Abram os olhos e vejam e ouçam e sintam! [obrigada WOAB. um sorriso para ti.].

quarta-feira, abril 22

António Gedeão e Herberto Helder


Sabes, Miguel, não gosto de António Gedeão como gosto de Herberto Helder.

Claro que não!

Como te disse, descobri António Gedeão com nove, dez anos, era ainda uma criança.

Foi na biblioteca. Descobri-o num livro. Num poema. Numa lágrima de preta.

E foram muitas descobertas numa.

Já tinha lido outros poemas. Nos livros lá de casa. No meu livro de português.

O meu livro de português tinha poemas que, ainda hoje, sei de cor e salteado, como nunca soube a tabuada.Tinha um poema pequenino, cinco linhas, talvez. E nessa altura - já te disse isto - eu achava que poemas eram poucas palavras a dizerem muitas, muitas coisas.

Nesse tempo, eu achava também que poemas eram escritos que adivinhavam coisas nossas. Talvez porque aquele poema - o do meu livro de português - tinha uma coisa que eu também tinha. E só eu sabia disso. E, então, pensei que poemas e segredos eram a mesma coisa.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a palavras para dizer, como aquele, do António Gedeão.

Dei conta que as palavras faziam música.

Nunca um poema fora, para mim, palavras para ler em voz alta.

Depois de ler lágrima de preta, achei que um poema devia ser sempre sentido em voz alta.

E achei mais: achei que um poema era uma coisa útil. Tal e qual um objecto útil que nos facilita a vida. Foi, assim, com lágrima de preta. Descobri António Gedeão e foi com António Gedeão que descobri o que era um pseudónimo. E achei aquilo divertido. E descobri que, afinal, todos temos pseudónimos dentro de nós. Que revelamos ou não.

E, essencialmente, achei que ele fez bem, porque acho Rómulo um nome feio.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez dez anos.

Eu não gosto de Herberto Helder como gosto de António Gedeão.

Descobri Herberto Helder numa livraria. Num livro. Num poema.

Num não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

E foram muitas descobertas numa.

Já antes tinha lido poemas. Nos livros, em minha casa. Nos livros das livrarias.

No meu livro de quinhentas e setenta e uma página de poemas, há um poema que me faz emudecer.Por isso, eu nunca o vou poder ler em voz alta. Só sentir.

É um poema que acontece, que teima em acontecer até ao milagre.

Daqueles poemas que mantêm segredos. Secretos, seguros.

Poemas com guelras. Poemas que adivinhavam coisas nossas.

Poemas raros de carne e rosa.

Poemas de muitas palavras, a fazer sentir coisas únicas.

Mas eu regresso sempre ao não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

Foi com Herberto Helder que descobri a poesia toda.

E achei aquilo tudo. Terno. Eterno. Violento e voraz.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a suor.

Dei conta que as palavras faziam amor.

Depois de ler não sei como dizer-te que a minha voz te procura,

eu achei que quem não o lesse, seria certamente infeliz.

Mas, depois, dei conta que isso de ser feliz ou infeliz é patético,

quando o assunto é aquele poema. E outros.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez vinte anos.

Imagem da livraria Lello: Zaclis Veiga
[texto editado em 2006, ano em que se assinalou o centenário do nascimento de António Gedeão]

Ao som de...

E proponho o jantar ao som de...Camera Obscura! [obrigada Gracinha!]

Coisas que combinam comigo

Eu quero um SMEG só pra mim! Que é como quem diz, para a minha cozinha!

À procura de um certo tom de azul


Quando estou triste, uma das coisas que mais gosto de fazer, é entrar em livrarias e ver livros. [e o mesmo se passa, quando estou contente. Só que de outra forma.

Depois, outro dia, explico a diferença].

Este livro de que falo, agora, comprei-o num desses dias, num impulso. Dizem os estudiosos do marketing que o acto da compra é, acima de tudo, emocional. Mas não foi a capa - muito importante - que impulsionou o meu acto de compra. Foi a pequena sinopse, na contra-capa.

A história passa-se na Veneza de 1295.

«Teresa Fiolaro, uma mulher que há muito tentava em vão ter um filho, encontra um bebé abandonado num estreito canal. Chama-lhe Paolo». E só a partir daqui a história me começa a prender. Paolo cresce numa família de vidreiros de Murano e, na sua juventude, terá por missão encetar uma longa viagem que visa procurar e encontrar o azul - o azul ultramarino - o certo tom de azul extraído das minas de lápis lazúli. É um pintor florentino que lhe dá essa tarefa e lhe financia a odisseia, pois precisa desse exacto tom de azul. Paolo (só a sua mãe adoptiva terá dado conta) vê mal ao longe mas, ao perto, tem uma visão apuradíssima e uma invulgar capacidade de distinguir tons e cores. Reconhecendo-lhe esta capacidade Simone Martini, o pintor, confia-lhe a missão de encontrar a cor do céu. «Essa viagem vai levá-lo para lá do mundo conhecido, através da Pérsia, Afeganistão e China, onde terá a oportunidade para aprender mais sobre as cores, a beleza e o amor, mas também sobre a derradeira diferença entre ver e olhar».

Sim. Mas não só do ponto de vista filosófico. Este livro, da Saída de Emergência, dá-nos um pouco de como a vida de quem vê mal, mudou com a invenção dos óculos. Paolo partiu sem eles, mas regressa com uns. Com uns óculos, um inevitável novo olhar sobre o mundo e...com um amor...

[esta parte do amor é muito bonita. muito bonita mesmo.]


«A data precisa da chegada dos óculos a Itália é desconhecida, mas a 23 de Fevereiro de 1306, na Igreja de Santa Maria Novella em Florença, o Fra Giordano di Rivalto leu um sermão em que observou: "ainda não passaram vinte anos desde que se conhece a arte de fazer óculos, uma das mais úteis artes da terra..."Isto colocaria a data em 1287, o que se ajusta muito bem à referência de Marco Polo ao uso de óculos pelos idosos na China». Mas, para além desta, o autor - James Runcie - faz outras interessantes referências históricas sobre os óculos e deixa-nos saber que em 1462 havia já quem os usasse apenas como ornamento começando aí «a sua história intermitente como acessório de moda». E confessa, em nota, no final do livro: «Ainda acho isto extraordinário: mas eu sou daquelas pessoas míopes que cresceram com óculos de aros de arame do Serviço Nacional de Saúde britânico, mantidos inteiros com fita-cola. Nos anos 60 e 70 isto certamente não era uma vantagem em termos de estilo».


[Um certo tom de azul. A cor do céu. Quem não a procura? Com ou sem óculos...]
imagem: Paulo Vasques

Voltar a Volver


VOLVER é extraordinário! Como já disse, eu gosto de todos os filmes de Almodovar. E gosto de os rever. E rever. Às vezes, como quem regressa a um sítio onde já se foi feliz! Outras, como se nunca tivesse lá estado. VOLVER é uma comédia dramática. Tal como a vida, autêntica. Com saudações de enfiadas de beijos repenicados...gestos ancestrais, detalhes que decalcam quotidianos que, às vezes, temos a tentação de pensar que só nós conhecemos. Mentiras, omissões, apertos, palavras por dizer, histórias por contar, terríveis coincidências. Uma família. Mulheres por dentro. Como só Almodóvar sabe mostrar. E, claro, uma canção, intemporal, que atravessa o filme, nos embala e reconcilia com o passado.

Volver

con la frente marchita

las nieves del tiempo

platearon mi sien.

Sentir

que es un soplo la vida

que veinte años no es nada

que febril la mirada

errante en las sombras

te busca y te nombra.

Vivir

con el alma aferrada

a un dulce recuerdo

que lloro otra vez.


Tão lindo! Digo eu! Assim, sei lá!
imagem: retirada do site do filme

terça-feira, abril 21

Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi

[...] Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem nos meus sonhos. Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi. [...]

[excerto Canção da Saudade]
Almada Negreiros in Obras Completas, Vol. I, pag. 71, Imprensa Nacional Casa da Moeda

imagem: Sonja Valentina

Corrente de ar II


As portas e as janelas a abrir e a fechar... ao mesmo tempo, no mesmo sentido... enfim...correntes de ar! E há recaídas! Se há! Quem se constipa uma vez, pode constipar-se outras :)

Ilusão I

Nem tudo o que parece é! Ora, aí está! Tudo vai da forma...Depende. O certo é que, à primeira leitura é uma coisa e, depois, é outra! Rosto de mulher ou homem a tocar saxofone?

segunda-feira, abril 20

Nuvens e Vento


Ah, não mais ter a consciência de ser, como uma pedra, como uma planta! Não recordar sequer o nome! Estendidos na erva, com as mãos cruzadas na nuca, olhar no céu azul as nuvens brancas que pairam, deslumbrantes, inchadas de sol; ou vir o vento que soa lá em cima, entre os castanheiros, do bosque com um fragor de mar.
Nuvens e vento.
O que disse? Ai de mim, ai de mim. Nuvens? Vento? E não lhe parece que é tudo, olhar e reconhecer que aquilo que paira no azul interminável e vazio são nuvens? A nuvem sabe por ventura que existe? Nem a árvore nem a pedra, que se ignoram até a si mesmas, sabem que a nuvem existe; e estão sós.
Meus caros, olhando e reconhecendo a nuvem, podem pensar até na vivência da água (e porque não?) que se torna nuvem para depois se tornar de novo água. Bela coisa, sim. Para lhes explicar isso, basta um professorzeco de Física. E para lhes explicar o porquê dos porquês?

Luigi Pirandello in Um, Ninguém e cem Mil, pag. 38 e 39, 2003

a verdadeira história dos pássaros...


Eu adoro dizer o nome dele e, só por isso, compro os livros. Para Dizer o nome dele, em voz alta! Tou a brincar! [eu gosto do que ele escreve. bastante. e não é de agora]
Amanhã, dia 21, terça-feira, às 21h30, é dia de conversa na Fnac, de Braga.
Dia 22, à mesma hora, é a vez da Fnac do Norte Shopping. [O cartaz que vi na Fnac, a anunciar o evento, está muito interessante. Mas não o consegui encontrar]
«a verdadeira história dos pássaros» e «a história do homem calado» são motivo para ficar à conversa com o escritor. A chancela é da Booklândia/Quidnovi. E dizem que os livros - estes - são para as crianças. Mas eu vou gostar de certeza.
imagem: Pedro Magalhães

E se fossemos lá, num instante?


Pois é já daqui a dois dias! O concerto! Na "minha" cidade eterna. Dia 22. De Abril. E como não posso meter-me já no avião - porque o fazia, já, já - deixo-vos com Vanessa da Mata e Ben Harpar! Boa sorte!


Fica também a notícia, tal como me chegou! Em italiano [suspiro] Tão bonito! Enfim...
«Vanessa da Mata è una delle voci più importanti della musica popolare brasiliana. Autrice per Maria Bethania, Daniela Mercury e Caetano Veloso, nel 2008 ha vinto il Grammy Award per il miglior album contemporaneo brasiliano. Consacrata dalla stampa mondiale come la nuova diva dell'attuale scena brasiliana, con il terzo album SIM e il singolo Boa Sorte/Good Luck (in duetto con BEN HARPER), Vanessa balza alle vette delle classifiche mondiali, riscuotendo un successo planetario. Vanessa Da Mata e' senza dubbio uno degli artisti più interessanti, eclettici e straordinari che il grande patrimonio musicale del Brasile abbia mai prodotto».

Mais assim...


Eu hoje estou mais assim. E a culpa é do Escher! Ou da segunda-feira. Ou minha mesmo! Será que mais um café, ajudaria?

domingo, abril 19

Diz o que viu


Escreve numa sala grande e quase

Vazia

Não precisa de livro nem de arquivos

A sua arte é filha da memória

Diz o que viu

E o sol do que olhou para sempre o aclara
Sophia de Mello Breyner Andresen in Ilhas, pag. 69, Texto Editora, 1990
Imagem: autor desconhecido

Foi assim que comecei a amar Sophia


O meu amor mais antigo é a poesia. A seguir à minha mãe. Sendo que mãe e poesia são, tantas vezes sinónimo, no meu dicionário de afectos. Tenho a sensação de sentir poemas muito cedo. Mesmo antes de começar a ler. Uma vez, no início da infância, senti muito medo e a minha mãe abraçou-me com muita força. Foi um abraço extraordinário. E eu, dentro do abraço dela, tive uma sensação de poema, que ainda hoje se mantêm. Depois, na escola, os meus livros de leitura tinham poemas que decorei. E só aí percebi que os poemas também se fazem com letras. E recordo-me, por exemplo, que astronauta rima com pernalta. E flor com dor. E contou com enrolou. E lembro-me, de como a febre das rimas tomou conta do meu universo de palavras. Não havendo nenhum remédio para a baixar. Tal como não havia nenhuma palavra que eu não fizesse rimar com outra. Até à exaustão. Da minha mãe. Que dizia: deixa lá!Procuramos amanhã. Recordo-me de pôr o Meio Físico e Social, a rimar com jornal. E ainda sinto a tristeza de não ter sido eu a arranjar uma rima para a Matemática. Andava na primária.

Depois, foram as histórias mais compridas. Não rimavam. Mas a sensação de poema ficava cá dentro. Quando gostava muito delas. Até que, um dia, chegou a Menina do Mar. E eu percebi que os poemas e as estórias eram feitas por pessoas que conheciam outras pessoas, coisas e lugares que um dia, eu também queria conhecer. E pensei na sorte de Sophia! Por conhecer uma menina “de cabelos verdes, olhos roxos, com um vestido de algas encarnadas”. E um Rapaz de Bronze e uma Fada Oriana e um Cavaleiro da Dinamarca. E, depois, por Sophia, descobri que as estórias podiam ter poemas dentro. [Como os filhos, dentro dos abraços dos pais]. Como na estória A árvore, que tanto gostei de ler. E percebi, com clareza, que uma árvore pode transformar-se numa barca. E que, deste modo, uma árvore pode viver no mar. E descobri como um mastro se pode transformar numa guitarra e como essa guitarra pode ter voz. E como essa voz pode ser uma canção e como uma canção pode ser um poema. E como um poema pode ser a memória de uma árvore ou de um povo.

Ensinou-me o espanto. Foi assim que comecei a amar Sophia. Desde muito cedo. Ela cresceu em todos os meus sentidos. Em todo o meu sentir. E percebi, com ela, que não podia viver sem livros. Porque os livros dela me tinham ensinado a olhar para além do aparente. E foi, assim, que a fui procurar às livrarias. Pelo nome. E foi dela, o primeiro livro que eu comprei. Histórias da Terra e do Mar. E, depois, todos os outros que me chegaram. Até toda a sua poesia me entrar, letra a letra, nas veias. E circular como seiva. Até perceber a raiz do “inteiro” e do “original”. Até compreender todas as ilhas que habitam o mundo. Até me apaixonar pela Grécia. Até o mundo, não respirar sem ela. Sem a sua poesia.

E depois, ia-lhe escrevendo cartas. Até que um dia, em Viana do Castelo, durante uma Presidência Aberta, dei conta de nós, no mesmo lugar. Do lado de fora dos poemas. Peguei nas minhas cartas e nos seus livros. Na convicção mais funda do nosso encontro. E nas palavras iniciais que lhe queria dizer. Quando cheguei à Pousada de Santa Luzia, não havia santa que valesse a tanta ansiedade. Não sabia onde por as mãos e, muito menos, o coração. Não sabia nada. O seus poemas todos cá dentro. Como se fossem um só. As palavras apertadas na garganta. Os lábios colados. Quase não respirava. E acho que, mesmo assim, rezei. Para aquela gente ir toda embora. Mas não aconteceu. Até que ela se levantou e eu paralisei. Mas consegui ouvir e ver. E vi-a tão extraordinariamente bela. Tão extraordinariamente sábia. Tão extraordinariamente serena. Que não consegui fazer nada. Nem tão pouco aproximar-me. Admirei-a de longe. Como tinha de ser. Numa afasia total. Numa epifania absoluta. Dentro dos livros. No nosso lugar. Até ao dia da sua morte. Doze anos, depois, daquele dia, em que a vi. Sem a imaginar. Nessa noite de Julho, li-lhe as minhas cartas. Em voz alta. Só lá estava eu. E ela.

«Seu rosto seria a cintilante claridade
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia»
Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, abril 18

Animal olhar



Meus olhos não fabricam

a realidade ou tu:

limpos barcos,

novidade acesa como a terra viva,

movimento de braços, amálgama

exacta duna.


Meus olhos não fabricam mas encontram.


A terra que se enche já vem cheia,

o hálito começa na claridade do céu.

Os homens dançam por vezes.

Este momento é teu.

[...]

Silêncio no teu olhar, na tua boca.

Em tua língua primitiva o mar se olha.

É o deserto e falas, boca brusca

de ignorado alento.

Não te construo, constróis-me, construo-te

Construo-te, mar,

parede pura,

criada.


Aqui onde o sol se acende em carne,

onde a casa é um nome de mar,

e os frutos e os espelhos

amadurecem o corpo solidário:

É Verão.


Aqui tu és

lenta verdade no sossego do sangue:

circulação de nomes e de peixes.

[...]

Esta ciência de inocência e água

se toco, delicado, ou pão ou página,

ou corpo, ou fruto, ou verde folha,

este pisar que é duro e leve,

a frescura e a sombra, o ar, a luz

- tudo me dás, tudo te dou, tudo nos damos.


E a terra mais próxima e as ervas

e os bichos translúcidos entre pedras,

a serena eclosão dos nomes, cabeleira

sobre o corpo fresco, intenso e nu.

Verdade ainda mais próxima dos tranquilos campos,

paz que se alonga às searas por um corpo amado,

renhidamente amado entre a verdura

na noite de estrelas claras e estáticas.


Sobrio o teu corpo me pede

penetração:nomes puros:

os de boca, braços, mãos

sobre a terra e sobre os muros.


Sobrio o teu corpo me pede

nomes justos, nomes duros:

os da terra, fogo e punhos,

claros, acres, escuros.


António Ramos Rosa in Antologia Poética, pag 87,88, 89, Dom Quixote,2001
[excertos de um belo e extenso poema]
imagem: Maria E. Salvador

Pudesse eu

Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite —
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido — não ter medo de nada. Pudesse


eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo —
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse


eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi —
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse
eu morrer,mas ouço-te a respirar no meu poema.

Maria do Rosário Pedreira In O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES, Lisboa, Gótica, 2001

sexta-feira, abril 17

A noite pede música...

...e eu só pedia para já dançar assim...mas eu chego lá :) Se, não, não vale a pena...

A respiração das coisas

Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas – coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos mais tarde, escrevi estes versos:


A voz sobe os últimos degraus
Ouço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha


Sophia de Mello Breyner Andrese in Ilhas, pag.70, Texto Editora,1990
imagem:
daqui

Porque há músicas e palavras...

Porque há músicas que nos riscam a pele como fósforos.
Porque há palavras que se acendem como estrelas.

[para a E. e o E. eles têm esses dons. obrigada aos dois. por me abrirem caminhos novos. já o tinha dito/escrito.
mas nunca será demais repeti-lo]
imagem: Ju Gioli

Coisas que combinam comigo...


...mas não combinam com dieta de redução alimentar! Mas que bem! Diria o nutricionista. Sim, porque há dietas para engordar. Lógico. Mas nunca me tinha ocorrido. Aliás, há tantas coisas lógicas que não me ocorrem! Mas dizia eu, dieta de redução alimentar! E por ter dito tão bem, acho que merecia uma - vá duas - bolachas! Não acha, Senhor Doutor?
imagem: bateboca

quinta-feira, abril 16

Do desemprego


Só quem já esteve no desemprego, pode avaliar. Bem. Convenientemente. Com conhecimento. Como em [quase] tudo na vida! A expressão "eu já lá estive" ou "eu já estive lá" aplica-se para exprimir o quanto compreendemos como é passar por determinada situação.

Ser desempregado [é trazer a alma e o corpo e tudo num frangalho, é puxarem -nos até ao limite da nossa dignidade, e emparedarem-nos no conceito de desempregado de longa duração] é diferente de estar desempregado [algo mais provisório, que dura pouco tempo e mesmo o pouco tempo é sempre relativo, claro]. Eu, pelo menos, entendo-o assim. Pois já fiquei no desemprego, como se diz por aí. Já fiz parte, há alguns anos, das estatísticas desse flagelo social que, agora, sai do "volteio" para ir a galope, sabe-se lá até onde!

E fico, acreditem, agoniada. E fica a doer-me tudo. Como se a dor dos que lá estão, agora, realmente dolentes e tristes, me doesse a mim. De facto. Talvez porque, como disse, já soube o que é levantar-me e não ter para onde me dirigir. A não ser para as páginas dos jornais à procura de anúncios. A não ser para o computador, redigir cartas e curriculuns vitae. A não ser para entrevistas, tantas vezes, surreais. Mas isso seria o menos. Mau, mau, digo eu, é não obter nenhuma resposta, quando se responde a um anúncio de emprego ou se faz uma candidatura espontânea. Nenhuma. Como se não tivessem recebido nada! Como se as nossas esperanças e sonhos e anseios se tivessem extraviado! Para sempre! Será que custa muito responder por uma qualquer via: recebemos o seu CV. Ponto. Ficará em base de dados. Ponto. Obrigada. Ponto. Assim, tipo, como quem diz: olhe, recebemos. Nem tudo corre mal. Ao menos a sua candidatura não se perdeu. Ainda bem que lhe apetece vir trabalhar connosco. Mas, agora, não dá. Só podemos escolher um. Não desespere. Espere sentada. Porque a sua vez, chegará! Ponto final. Mudar de linha. Já não se pedia mais! Ao menos um feed-back. Qualquer sinal!

Será pedir muito? Aos Senhores dos Recursos Humanos. Aos gestores desses processos? Creio que não. Então se soubessem o que é ler o Expresso Emprego até à náusea, veriam que não! Que não é pedir muito! Ao menos que o trabalho da Revista Visão; ao menos, pelo muito menos, quem acompanhar diariamente estes desempregados dê conta da urgência de mudar atitudes, procedimentos. Sensibilizar para as pequenas coisas que em todo este processo e seus desdobramentos, podem ser feitas, sem investimento de dinheiros! Eu sei que as mudanças de mentalidade são difíceis e lentas! Mas, caramba, fazem a diferença. Principalmente para quem está emparedado no conceito de desempregado de longa duração!
Porque quem lê anúncios e envia CVs até ao desespero, precisa de um sinal. Precisa, ao menos, que lhe digam que a sua vida não se extraviou, nem foi trocada por outra!
Definitivamente!

O espaço com Helena Almeida dentro


Antes tarde, do que nunca! É o que sinto relativamente ao meu encontro com o trabalho de Helena Almeida. A primeira vez que vi trabalhos seus foi num dos mais belos edifícios da Invicta: a Alfândega. Creio que numa exposição realizada pela Galeria Cordeiros. E gostei tanto tudo íssimo do que vi. E ficou-me cá dentro. E fui em busca desse caminho. E continuo. O espaço por dentro ou o espaço com Helena Almeida dentro, encanta-me! E, ontem à noite, às voltas por aí, soube aqui, de uma exposição sua que inaugura já amanhã. No MEIAC - Museu Extremeño de Arte Contemporáneo, em Badajoz. Vale a pena! Estou certa disso!
imagem: Helena Almeida

quarta-feira, abril 15

Guardar uma coisa


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la

por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.


Antonio Cícero
imagem: Adam Dzidowski

Poemas de jantar

+



+


(...) Sou uma impudência
a mesa posta de um verso
onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Ora aí está: uma francesinha, uma stout [a minha cerveja preferida], e um excerto de A defesa do Poeta, de Natália Correia! Tão pouco! Para ser feliz! [por favor, ala privada, não perguntem pelos bróculos :)]

Contigo é isso tudo

Se eu te mandasse atirar de uma ponte
atiravas-te?
claro
porque a água era límpida e tinha um tesouro no fundo
mas se fosse um viaduto?


é evidente que caía no colo de uma bruxa que me raptava
e tu ias
[buscar-me e tiravas-me do caldeirão e isso tudo

isso tudo?

pois
isso tudo
contigo é isso tudo
se me mandas morrer
vivo
se me fazes sofrer
é sem dor
se me traíres
vai ser contigo
se me amares
é com outro
dás-me um chuto
e vou de ioió
e se o cordel sair
volto num pião


não há maneira
não há forma
não há jeito


vou voltar para ti mesmo que não queiras
mesmo que não gostes
mesmo que não existas
mesmo que me finem as forças
mesmo que sejas a imagem de um filme a preto e branco em que eras o cinzento]


e não te conheço
e não te mereço


mas amo-te e isso basta
não basta?
basta
não basta?
o amor chega
não chega?
ou queres que leve flores?

João Negreiros, in O Cheiro da Sombra das Flores, pag.71 e 72, 2007
imagem: autor desconhecido

terça-feira, abril 14

O lado esquerdo de uma mulher


Cara Isabel,
Ao ler este mail é essencial que tenha fairplay, como acho que tem. Mas é fundamental que não olhe para mim. E este momento é decisivo. Continue, por favor, mas não olhe para mim. Ficaria embaraçado, talvez. Apesar de eu, aqui na empresa, por força das circunstancias, ser o homem que mais longamente olha para si. Ou melhor, ser talvez o único homem que olha para o seu lado esquerdo oito ou mais horas por dia. Estamos a palmos de distância um do outro. Duvido, aliás, que alguém, alguma vez, olhasse para o seu perfil como eu olho, quase há quatro meses. Todos os dias úteis. E não é fácil. Olhar diariamente para o seu lado esquerdo, principalmente quando a janela que está à minha frente (do seu lado direito) deixa, a determinados dias e a determinadas horas do dia, passar uma luz que a desvenda, tantas vezes, sensualmente. Não me leve a mal. Mas é assim há quase quatro meses. E hoje resolvi-me a dizê-lo. Hoje, vou falar-lhe do seu perfil. Do lado esquerdo. Portanto, isto não é um mail de trabalho, como vê, é só destinado a si.

O sinal que tem, um pouco abaixo do maxilar, um tanto distante das maças do rosto é o primeiro que me chama a atenção. Consigo perceber, a veia que passa junto ao seu queixo e depois desaparece. O seu queixo tem um traço elegante. Gosto também do perfilar das suas pestanas, da ponta do seu nariz e das rugas de expressão que se distendem na sua testa como linhas de minas 0,5, às quais não consigo ver o fim. Quando sorri, as suas maças do rosto são a saliência mais sexy da sua face. Quando o usa, gosto particularmente do seu decote. Como imagina, é o perfil do seu seio esquerdo, que melhor conheço. Faz-me sempre lembrar de um trecho que li cujo o autor, nesse momento, nunca me vem à memória.Quando traz uma camisa de linho, a luz, deixa perceber ligeiramente o seu soutien. Há um cuja cor não consigo determinar. Mas é escuro. Não é preto. Percebem-se os tons.
Acho graça à forma como as migalhas das bolachas, quando as come à secretária, caem no seu decote. E sempre que bebe o iogurte líquido fico na expectativa de a ver com um bigode branco. Mas nunca aconteceu. Gosto muito do seu pescoço e, nestes quatro meses, nunca a vi sem brincos. Daqui, da minha secretária, o seu pescoço pede beijos. Sabia disso? Porque é liso e parece muito macio. Como se chamará o seu perfume, que nem sempre usa, e cujo o aroma se intensifica aqui, do lado esquerdo.
Gosto das suas mãos. A esquerda, é a minha preferida. Ao contrário da minha, não tem aliança. A que observo melhor, é a esquerda. Que surpresa. As unhas são perfeitas e, às vezes, a cor com que as pinta, combina com o seu batom. Penso em quais serão os desejos atados no seu pulso esquerdo, na fita do Senhor do Bonfim. Gosto da forma como desentala o cabelo, quando veste o blaser. Fico aqui a observar o seu lado esquerdo, enquanto o veste, quase sempre, em frente à sua secretária. Gosto das pontas desalinhadas do seu cabelo do lado esquerdo, da forma como o tenta arrumar para o lado direito, com a mão direita. Raramente usa a esquerda.
Gosto da forma como de vez em quando sorri para o seu computador. Gosto também de a ver séria. E já reparei que só fala ao telefone, do lado esquerdo. Às vezes, quando a sua cadeira desliza na direcção da minha secretária ouço sem querer as suas conversas. Ouço nitidamente a pessoa que está do outro lado, a falar ao seu ouvido esquerdo. Quando a cadeira desliza para traz, cruza a perna direita sobre a esquerda, raramente o inverso. E quando analisa papeis, por momentos, deixa a mão esquerda pousada sobre a haste esquerda dos seus óculos. Infelizmente, raramente vejo as suas pernas. Nem a esquerda, nem a direita. Da cinta para baixo, bem que podia ser uma sereia, que daqui, não vejo. Ainda bem que não é.
Um pouco acima do seu cotovelo esquerdo existe uma disposição interessante de sinais. O seu ombro esquerdo…tanto que eu poderia dizer sobre o seu ombro. Foram muito poucas as vezes que em todo este tempo vi os seus ombros descobertos.Poderia dizer outro tanto sobre o seu lado esquerdo. Mas começo a achar-me um imbecil. Só espero que não pense que os homens são todos uns sacanas. Não. Não são todos. Os piores talvez sejam os mal - casados como eu. E os mal-amados como tantos. E agora pode apagar este mail e fazer de conta que não o leu, que não lhe chegou. Ou, passar a tratar-me por tu e dizer: António, não queres ir ali ao bar tomar um café? E, com inteligência, pode pôr-me no meu lugar. E talvez eu deixe de observar, tão obstinadamente, o seu lado esquerdo.
imagem: Eduardo Cambuí Junior
[apesar de escrito em 2005, dedico este texto ao Paulo, meu professor, pois foi este um dos textos que me abriu as portas para o curso e, muito, tanto, tudo importante, me permitiu conhecer pessoas absolutamente maravilhosas. Com quem aprendi e aprendo muito.]

Mimos, blogs e selos

o leio desde 2005! É verdade! É meu desde essa altura. E tenho aprendido por lá. Feito muitas descobertas! E, agora, recebo um selo, como se fosse uma carta :) Obrigada querida menina que já foi pássaro! Das tuas asas - digo - mãos, é uma honra! Nem todos os dias penso, é certo! Mas agradeço-te o gesto. Muito. E dizem-me para nomear mais dez. E eu nomeio os seguintes jovens pensantes :) Assim, por ordem de chegada ao meu pensamento:

Miguel; Diva, Sonja; Claudia; Eduardo; Dalaila; Eduardo; Miguel; Paulo; Filipe

[Agora, as regras mandam que os meus nomeados utilizem o selo para me escreverem uma carta, combinado?!] Tou a brincar :) Mas bem que podia ser a sério, uma vez que eu adoro ler cartas!] Quem recebeu o selo deve passá-lo a mais dez. Ou então, fazer de conta! Ou, ou...ou! O que quiserem e como quiserem, para mim está bem!

Cotidiano nº 2


Há dias em que eu não sei o que me

passa

Eu abro o meu Neruda e apago o sol

Misturo poesia com cachaça

E acabo discutindo futebol



Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão...



Acordo de manhã, pão sem

manteiga

E muito, muito sangue no jornal

Aí a criançada toda chega

E eu chego a achar Herodes natural



Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão...



Depois faço a loteca com a patroa

Quem sabe nosso dia vai chegar

E rio porque rico ri à toa

Também não custa nada imaginar



Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão...



Aos sábados em casa tomo um porre

E sonho soluções fenomenais

Mas quando o sono vem e a noite

morre

O dia conta histórias sempre iguais



Às vezes quero crer mas não consigo

É tudo uma total insensatez

Aí pergunto a Deus: Escute, amigo

Se foi para desfazer, porque é que

fez


Vinicius de Moraes in Livro de Letras, pag. 139, Companhia da Letras, 1991
imagem: Fernando Penim Redondo

domingo, abril 12

Dias de [procurar a] sorte

...ora procurem lá, um de quatro folhas :)
imagem: Celina Mendes

Dias de pontes...para a vida

imagem: Marta

Dias do mesmo rio, noutro lugar

imagem: Celina Mendes

Dias de novos caminhos

imagem: Celina Mendes