sexta-feira, fevereiro 27

Ontem à noite...


Gostei muito do concerto de ontem à noite, na Casa da Música. Muito mesmo. Íssimo.


[No entanto, ando a arranjar coragem para fazer uma confissão inconfessável...que pode arruinar a minha vida. Mesmo que momentaneamente. Tenho de ponderar. Coisa que faço raras vezes.]


John Zorn, Cyro Baptistas e Ttukunak (duas gémeas divinas, instrumentistas de txalaparta).


Só mesmo ouvindo! E txalaparta não imaginava o que era! Pelas mãos delas é...é qualquer coisa de genial.
Fotografia: roubada aqui

Coisas que combinam comigo

Gosto imenso de jogar e já não jogo há bastante tempo. E prefiro jogar ao ar livre.

Advertência


Tanto a blogger como o blog são omnívoros. Com tendência para cometer alguns excessos.

Egocentrismos

A minha cidade é a cidade mais bela do mundo!
Fotografia: MRF

quinta-feira, fevereiro 26

Conheci Cristina na 24ª página


Íamos os dois de mãos dadas.

Eu e a Cristina.

Um sonho louco. Louquíssimo. Extremissimamente louco. Enfim - um sonho. Não havia nuvem que nos segurasse, nem paraíso que nos satisfizesse. Estávamos loucos, pronto. Para quê mais frases? A manhã era terna e sabia bem passear assim.

Conheci Cristina na 24ª página. Os olhos que lhe inventei roçaram os meus e o corpo colou-se perfeitamente. Senti que a podia ajudar e as nossas mãos, em se dando, formavam um cometa. Os nossos lábios traziam o Universo quando se tocavam.

Ela não tinha aonde se agarrar e eu, apercebendo-me disso, tentei trazê-la à realidade com muito amor, devagarinho. Soltaram-se-lhe os sentimentos da garganta e contou-me as partes da sua vida que mais a tinham marcado.

Foi uma experiência curiosa, até porque tinha sido eu a imaginar as situações. Conclui então que a análise não estava má, embora enfermasse de uma certa falta de sequência. Mas era no pormenor do acontecimento que eu recolhia a imagem que depois reproduzia por escrito.

E havia dias de vento forte!

E havia dias de um sol aconchegador!

E os jornais (com raras excepções) começavam a encher de mentiras os leitores desprevenidos.

E as ameaças aumentavam constantemente!

E as bombas eram diárias!

E morriam pessoas que eu e a Cristina conhecíamos bem!

Comecei a interessar-me por Cristina. Ela era muita gente. E eu gostava muito da gente. Comecei a amá-la. Profundamente. Apaixonadamente. Com sinceridade. Tinha direito a isso. Era tão novo como a minha idade.
(...)


Alberto Augusto Miranda in Outubro de um Século, Edição Autor, p. 65 e 66, 1981
Imagem: Cometa Tempel 1; NASA/JPL-Caltech/UMD

Do jornalismo... hoje


«Chegou ao jornalismo em 1972, entrou no Diário de Notícias em 1977. A Controlinveste quer dispensá-lo. Nos últimos cinco anos, pelo menos 180 jornalistas perderam o emprego na área de influência do Porto. Está em marcha um "processo de desertificação" na área dos media».



É este o lead que nos faz avançar com avidez para a prosa de Ana Cristina Pereira. A jornalista entrevistou o jornalista Alfredo Mendes «Despedido num minuto e meio - dois minutos, vá lá».

(...)

«Até à década de 90, trabalhar no DN foi "exaltante". Com a saída do PÚBLICO, concorrente directo, o diário "começou a perder identidade. Depois, "entrou numa estratégia de ziguezague: quer ser tudo»

(...)

«Não era o único jornalista do pacote. Dentro dos 122 profissionais que a Controlinveste quer dispensar, estão 75 jornalistas - do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, do 24 Horas, d`Jogo e de outras pequenas publicações: 54 na zona de influência do Porto. Motivos avançados: "Desequilíbrio económico-financeiro num mercado em queda", "necessidade de reestruturar a empresa, nomeadamente eliminando postos de trabalho redundantes e adequando o nível de recursos humanos à actividade desenvolvida e à evolução tecnológica".

Pelo mundo inteiro a imprensa tem perdido leitores. Em tempo de crise, o investimento em publicidade, é um dos primeiros a ressentir-se, como refere o director do centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, Manuel Pinto. E a publicidade é "vital" para a viabilidade dos media".

(...)

«Dos importantes títulos de imprensa do Norte, mantém-se hoje, como seu baluarte e com um forte enraizamento social, o Jornal de Notícias, lembra Carlos Lage, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. O comércio do Porto morreu em 2005 (...) e o Primeiro de Janeiro transformou-se numa caricatura do que era (32 jornalistas despedidos em Agosto de 2008).

Nos últimos cinco anos, pelo menos 180 jornalistas da área de influência do Porto perderam o emprego (...) o ano passado o Expresso dispensou dois; há dois anos o Público, dispensou 11 - o que implicou acabar com as delegações em Braga, em Aveiro e em Vila Real.

Estará o Norte a tornar-se irrelevante? "Não, o Porto, o Norte, não é irrelevante. O Porto e o Norte estão é a merecer pouca atenção dos media", reponde o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia. "Todo o Portugal real - que tem a ver com as regiões, com as localidades - está".

No final dos anos 80, havia uma dinâmica de descentralização, lembra Joaquim Fidalgo. Depois, o país recuou. Se cairmos de pára-quedas numa reunião de autarcas e outras personalidades, veremos como isso é verbalizado. O centro de todas as decisões está em Lisboa, resume Armindo Abreu, presidente da Câmara de Amarante.

(...)

Este "processo de desertificação", na opinião de Carlos Lage, "deve suscitar preocupação e ponderação". "Não existem sociedades sem espaço público, nem vontades ou destinos colectivos, sem voz. Uma informação pública construída a partir de uma base social ou geográfica única é tão inaceitável e danosa como a que é construída por um código ideológico e de opinião exclusivista", diz.

Haverá muito quem ache que a "informação está tão disponível, que há tantas agências, tanta Net, que não é preciso ter jornalistas onde as coisas acontecem", admite Fidalgo. Mas a tecnologia não substitui o contacto com as pessoas". Não se pode "fazer adequada cobertura à distancia". Alfredo Mendes não podia estar mais de acordo: "Como é que os jornais podem ser uma alternativa à televisão, à Internet? Fazendo o jornalismo de "rabo-sentado", seguindo a grelha da televisão, indo à Internet? Estão a basear-se demasiado na Internet. Não há ligação ao público. Vão a Nova Iorque buscar ideias, mas não vão à Praça da Liberdade, à Avenida dos Aliados».

(...)

Não será fácil recomeçar aos 53 anos: "Aumenta a esperança média de vida e um jornalista com mais de 40 anos é para abater".

Proliferam cursos de Comunicação Social. Todos os anos, centenas de jovens tentam entrar na profissão. Alfredo Mendes desanima perante o que chama "estratégia chinesa": "Em vez de se ter profissionais com experiência, com qualidade, nos quadros das empresas, tem-se estagiários a trabalhar à borla. E sai um jornalismo padronizado, sem memória, sem génio e sem arte. E as redacções transformam-se em espaços frios, tristes".


[a entrevista pode ser lida na íntegra no PÚBLICO de hoje. O rapaz da mercearia, ali do lado - a quem roubei o jornal - já me tinha dito. «Ela escreve...» e escreve. Eu, para ler, coloquei o coração no bolso. Que faz frio. apesar do sol. é que ler tão bem escrito, o que está tão mal feito, dói ainda mais. obrigada Ana Cristina Pereira. digo eu, entre parêntesis.]







A presença mais pura

Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixasteo coração?»

José Tolentino Mendonça

quarta-feira, fevereiro 25

Telegrama

Podes chegar onde quiseres. E eu quero muito contigo. Tu és rara. No meu coração e no de todas as estrelas que queiras tocar. E o jantar estava óptimo, com ou sem p. O acordo, agora, é o que fizeste contigo e mais nada.

Vinganças quase inócuas...


Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
(...)
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
(...)
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Poema: Miguel Torga
Imagem: José Paulo Andrade
[ao estimadíssimo Prof. Funes. Ele sabe porquê.]

Ilhas: lugares extremos


Infelizmente não me acontece muitas vezes. Daquela vez calhou bem. Li Crónicas do Porto Santo, da editora Campo das Letras, no Porto Santo! E, apesar de a praia não ser o meu local de eleição para ler - nem pouco mais ou menos - gostei de o fazer, ali, na areia dourada.
[que saudades daquele mar, que absolutas saudades...daquela água]
Crónicas do Porto Santo «é o lugar onde a história se cruza, e se enriquece, com a ficção».
«Descobri que, em tempos, houve um caracol malhado, perdido de amores por uma caracolita de casta menor, romance que acabou em tragédia, mas não impediu os sonhos...(...) Descobri, ainda, de forma encantadora que «para os que vivem embarcados, a ilha constitui uma parábola concentrada na vastidão dos continentes. Cabe nela fatalmente o mundo inteiro. É por isso que, num fim-de-semana alargado, no Porto Santo, as famílias se passeiam longamente pela estrada que liga à Calheta da mesma maneira que no Continente se percorrem dezenas ou centenas de quilómetros para visitar outra cidade ou país longínquo. Combinam-se piqueniques na Terra Chã como lá se preparam excursões à Serra da Estrela. Por paradoxo, quanto mais pequena for a ilha, maior a dimensão relativa das suas ocorrências: o mundo inteiro sabe quem nasce, quem casa, quem morre. Por certo tudo se passa ao pé da porta, com um vizinho ou parente. É precisamente isto que faz das ilhas lugares extremos. Amados ou odiados. Espaços de convivência e de infinito horizonte ou, pelo contrário, sítios exíguos e fechados, claustrofóbicos becos sem saída onde todos se espreitam de forma doentia ou ignoram prudentemente, sustentando uma máscara de papelão. Num caso ou noutro, não se vive impunemente a insularidade. (...).» Gostei de ler José Maria Cibrão Campinho. E as suas Crónicas do Porto Santo, no Porto Santo.
[à queridíssima WOB. Ela sabe porquê.]

Um homem da restauração...


Bem...quanto ao homem de camisa vermelha, eu poderia ter respondido a Cristina, naquela vernissage: apenas sei que tem, com a família, um óptimo restaurante em Madrid, onde se come e bebe muito bem. Que é mais prudente marcar mesa e que o ambiente é extremamente agradável e acolhedor. Tem fotografias espalhadas pela parede; uma boa garrafeira; umas tapas de fazer água na boca...uma ementa toda catita e bem humorada; uma parede onde se podem deixar mensagens a giz...e, entre palavras divertidas, se encontram muitos números de telefone :)
Pois é - é banal, eu sei - mas o ano passado fui muito feliz no Bardemcilla! Não fomos, queridos amigos? Que saudades! Das tapas, claro ;) [suspiro] por aquele vinho tinto, obviamente! E nada mais sei, de concreto, sobre o homem de camisa vermelha...mas, se eu respondesse assim, Cristina iria para Madrid e não para Oviedo... e o filme seria outro. De qualquer das formas, úlcera por úlcera [deixa lá, Cristina, acontece aos melhores estômagos] ficava melhor servida com «la morcilla»...É deliciosa. Digo eu, que adoro morcela e morcela de arroz e outras iguarias que combinem com um bom vinho tinto. No Bardemcilla ou em qualquer outro restaurante do mundo. Imperativo, imperativo: só os amigos à volta da mesa. Divertidos e sem sono, como naquela noite no bairro Chueca.

terça-feira, fevereiro 24

Amei mil vezes!







Este vai direitinho para a minha colecção particular de filmes do meu querido Woody Allen. Este amei mil vezes! Vicky Cristina Barcelona é absolutamente autêntico. Para além da talentosa e bela Penélope Cruz tem - quem é aquele rapaz de camisa vermelha? - pois tem. E tem as mesmas dúvidas existenciais sobre a VIDA postas de outra forma, num novo cenário - Barcelona - que eu tanto aprecio. E tem aquele hotel em Oviedo que quero conhecer brevemente. E tem aqueles que sabem exactamente o que querem da vida, mas, às vezes, ficam com dúvidas. Pudera! E tem aqueles que apenas sabem aquilo que não querem da vida, mas às vezes pressentem o que querem realmente! Não liguem, é o avançado da hora! Amei mil vezes. E isso é que importa registar. Ah! E também tem aqueles que não tem coragem para mudar de vida, apesar de serem infelizes com a vida que levam.
E tem, ainda, as duas jovens americanas, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) e tem aquele pintor Juan Antonio (Javier Bardem) o tal homem de camisa vermelha, ex-marido de Maria Elena (Penélope Cruz) que incarna uma desvairada deliciosamente carismática, numa Barcelona polvilhada de sensualidade. E tem também o pai de Juan António, (que mora numa casa onde eu poderia morar o resto da minha vida sem me entediar) que escreve poemas que não quer publicar. Porque? Porque é a forma de se vingar de um mundo que não sabe amar. E tem, não posso omitir, excelentes diálogos. E não é nada fácil escrever diálogos, digo eu, que não percebo nada disto. Mas o Woody Allen percebe. E há filmes, em que a sua inspiração transborda.


segunda-feira, fevereiro 23

Eu não tenho gato, mas se o tivesse...

Quem há-de abrir a porta ao gato

quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua
cheira o passeio

e volta pra trás,

mas ao defrontar-se com a porta fechada

(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.

Deixo-o sofrer

que o sofrimento tem sua paga, e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego ao colo e acarici-o

num gesto lento,

vagarosamente,

do alto da cabeça até ao fim da cauda.

Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,

olhos semi-cerrados, em êxtase,

ronronando.
Repito a festa,vagarosamente,

do alto da cabeça até ao fim da cauda.

Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,

abre as narinas, e rosna,
rosna deliquescente,abraça-me e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão
Quadro: Aldemir Martins
[Poema dedicado à minha irmã]

Confissões inconfessáveis






Amei, amei, amei 3 vezes amei! Chorei baba e ranho. Está confessado. Gostei tanto, tanto, tudo. E no fim, também gostei, apesar de só estas frases me terem impedido de naufragar nas minhas próprias lágrimas:
«Algumas pessoas nascem para se sentarem à beira do rio. Algumas são atingidas por raios. Algumas têm ouvido para a música. Algumas são artistas. Algumas nadam. Algumas percebem de botões. Algumas conhecem Shakespeare. Algumas... são mães. E algumas... dançam.»
Verei outra vez. O estranho caso de Benjamin Button. Vale a pena. E Cate Blanchett? Linda e magnífica. Eu já lhe dei um Óscar. Mas também já não é a primeira vez que lho dou!

domingo, fevereiro 22

Mortal e Rosa


«Quando me arranco ao bosque dos sonhos, à selva escura do sono, e me reanimo a mim mesmo, vou-me completando lentamente. Porque me deixei de interessar pelos meus sonhos. Quero que o Freud vá à merda.

Tudo o que somos, de facto, tem este reverso de sonho, este cimento, esta fossa escura, e alguém se interrogava, irónico, sobre os sonhos de Kant, de Descartes, de Hegel. Que tipo de sonhos teriam estes monstros da razão? Toda a repressão mental mental dos seus sistemas deverá ter tido, sem dúvida, um reverso caótico, aflito e angustiado. Como negar a metade da vida na sombra, se é lá que estão os sonhos? Há um período da existência em que nos decidimos a ser só os nossos sonhos e o surrealismo é uma forma de adolescência ao querer alimentar-se de sonhos. Há uma maturidade, um classicismo - em qualquer idade da vida - em que optamos pela nossa própria razão, pelo nosso próprio rigor, pela nossa própria estatura. Vai dar ao mesmo. Tão pueril é viver de sonhos como de silogismos. Claro que cada um vive daquilo que pode e é demorado aprender a viver de realidades, de coisas, de objectos, tal como vivem os seres naturais. O homem é um ser da longura, como dizia o outro. Sim, o homem é um ser de utopias, de distâncias, de "projectos líricos". O homem tem de aprender a ser uma criatura de proximidade, pastor do imediato.

Os meus sonhos dão-me apenas uma versão confusa do que para mim é claro. Quando sonho sou um exageta confuso de mim próprio, o amanuense incompreensível e molengão que quer anotar tudo e tudo baralha. O sonho comenta a minha vida de um modo ocioso e obscuro, sem segredos mas com sombras.

Concordo, neste aspecto, com monsieur Sartre, que nega aos sonhos qualquer significado e que lhes atribui a impossibilidade de representarem uma única imagem coerente, porque ao representar uma imagem coerente "já estou acordado".» (...)

Francisco Umbral, traduzido por Carlos Vaz Marques, in Mortal e Rosa, Campo das Letras, p. 9, Outubro de 2003
Imagem: Desculpem-me, mas desconheço o autor

sábado, fevereiro 21

Telegrama

Por mim, poderás viver sempre num gato. Desde que os pássaros possam regressar para onde, às vezes, nos foge o coração.

Quadro: Paul Klee - Cat and bird

uma notícia triste...

[parece que a editora Campo das Letras vai fechar...]
...e um poema novo...para mim.
Há vidas que duram um instante:
o nascimento.
Há vidas que duram dois instantes:
o nascimento e a morte.
Há vidas que duram três instantes:
o nascimento, a morte e uma flor.

Roberto Juarroz, traduzido por Arnaldo Saraiva, in Poesia Vertical, Campo das Letras, p. 25, Junho de 1998
Copi/past do Insónia

sexta-feira, fevereiro 20

O nome das maças


Quando acabei de o ler, já tinha entrado na máquina do tempo que me transportou para longe e me demorou por lá. Memórias olfactivas que despertam afectos. E fazem sorrir. Ainda que ninguém possa adivinhar exactamente o quanto o passado nos contrói, sei intimamente e com absurda clareza o quanto foi decisivo, para ser assim. Assim, hoje. Assim, eu. É uma historieta que nunca contei. Risível. Disparatada.Vivi parte da minha infância a pensar que as maças bravo de esmolfe, se chamavam bravo de esmofo! E achava estranho que maças de aroma tão agradável tivessem aquele nome que me remetia para o repelente odor a mofo! E mais. Acreditei durante alguns anos que a avó Clotilde não sabia dizer mofo e dizia esmofo! E, afinal, a avó Clotilde sabia tudo. Até o nome das maçãs. Não havia meio de atentar na fonética da palavra. Nunca a tinha visto escrita. Bravo de esmolfe era, para mim, uma só palavra, uma palavra apenas para se dizer. Era uma palavra da avó Clotilde. Era o ingrediente divino da compota de maçã mais especial do mundo. Era sinónimo de cesto pequenino, ovalado, que a avó me dava para ir com ela à Lamela. Quando a avó Clotilde morreu eu tinha nove, dez anos. Mas ainda hoje guardo na memória, o seu sorriso terno e triste. E as suas mãos morenas no meu rosto.
Cheiram a maças. A estas maças. E a palavras que nunca saberei dizer.

quinta-feira, fevereiro 19

Os dados estão lançados


Continua a ser um dos livros da minha vida. E creio que fará parte da extensa lista, mantendo-se no top 10, mesmo no dia em que eu fizer 207 anos! É um livro recorrente. Falo dele, na expectativa de que alguém me diga: olha, já foi reeditado em Portugal. A informação que tenho é de que a última vez que o livro deu à estampa, no nosso país, foi há vinte e tal anos! Eu li-o há muitos, muitos anos. Numa tarde. Em Lisboa. Tinha atravessado o Tejo, com ele. E, já na outra margem, não consegui parar de o ler. Sentei-me num café qualquer e continuei a lê-lo, deixando o congresso para depois. Depois do livro. Desde então, essa história, habita-me.

Essa versão que li, emprestei-a e nunca mais a recuperei. A Teresa, a quem eu já tinha povoado o imaginário com a minha história da história do Jean - Paul Satre; a quem eu já tinha falado do artigo 140, como se estivesse consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, foi ao Brasil e trouxe-mo. Diz assim, na contracapa.

«O impossível é sempre mais sedutor que o possível. Depois que nossos valores já estão relativamente definidos, e a rotina, por mais tortuosa que seja, já triturou nossa semeadura inicial de ilusões, começamos a fantasiar as utopias. Poder voltar, refazer ou atar os nós das pontas soltas de nossos objetivos, talvez anulasse os nossos medos e insatisfações. E que espaço ocupariam o amor e o dever neste eterno retornar? Seríamos salvos pelo amor? Morreríamos pelo dever? Ora! Mas não é o dever uma forma altruísta de amor?».

Chama-se OS DADOS ESTÃO LANÇADOS. E na minha memória a edição nunca se esgota.



Ps. Para mim e para a MRF foi uma cumplicidade...

Ladrar em línguas diferentes

Já aqui disse [por acaso, aqui, ainda não disse] que adoro banda desenhada. É verdade. Também ainda não tinha dito que simpatizo bastante com a palavra onomatopeia. Outra verdade. Desde o momento em que a aprendi, há muitos anos, na escola primária. Foi amor à primeira leitura, ainda eu não sabia o que ela queria dizer. Nesse tempo tínhamos um caderninho de significados. O meu tinha capa cor de laranja e, ao centro, a letra desenhada a negro, dizia: significados. A professora marcava o TPC [trabalho para casa] e, um dos mais frequentes consistia em ler um texto e apontar os significados das "palavras difíceis". Depois, tínhamos de procurar no dicionário o que queriam dizer e qual a sua categoria gramatical. Esse TPC encantava-me. Adorava descobrir o que as palavras me tinham para contar. Era assim como encetar um diálogo com alguém e gostar ou não gostar, só pelas primeiras impressões. Às vezes injustamente. Mas era assim. E quando eu gostava da palavra, não me demorava na procura de palavras da mesma família, antecipando, sem essa intenção, outros TPC`s. Enfim… Foi assim que, pelo caminho, me enamorei da palavra quântico. Como gosto dela! Mas não é minha intenção, apanhar este atalho para vos falar do cerne deste poste: ONOMATOPEIAS. Caninas! Estamos, então, a falar de palavras cuja pronúncia imita o som próprio, natural, da coisa significada; figura de retórica pela qual se procura sugerir uma imagem auditiva. Isto para vos dizer que, só há poucos anos, descobri que os cães [bem como outros animais] ladram [expressam-se] em diversos idiomas! Assim:
Alemanha: vow, vow; Argentina: gua, gua; Colômbia: guau, guau; Estados Unidos: ruf, ruf; França: whou, whou; Japão: won, won; Rússia: guf, guf; Tailândia: hong, hong.
São alguns exemplos dados por um tradutor com quem conversava e que, com graça, me dizia, apontando para o livro, um original noutra língua: está a ver aqui, não é um cão mariquinhas, é apenas um cão francês!

quarta-feira, fevereiro 18

confissões inconfessáveis

Valha-me Santo Inácio de Loyola! Fui a Santo Tirso, a uma reunião. Tive de atravessar a cidade e, imaginem, a centenária confeitaria Moura estava no mesmo sítio! Cinco e meia da tarde. Impunha-se manter o ritual. Pedi um chá. E um jesuíta. Estava consciente, juro que estava, quando a estaladiça, crocante e a b so lu ta men te deliciosa iguaria se extinguiu dos meus sentidos. Pedi outro... outro jesuíta, por favor. Baixinho. Como se agora não fosse aqui confessá-lo a toda a gente. O Marquês expulsou-os. E eu nunca os deixo de convidar! É que levei mais quatro para casa...as portas estão sempre abertas. E os sentidos despertos. Aliás, esta cidade, tem três coisas de que gosto especialmente: os jesuítas, as termas, e a poesia na rua. Até às farmácias vai. Sim, farmácias. Que um poema pode fazer a vez de um medicamento! E cura. Sem contra-indicações. Já os jesuítas da Moura...

É tão triste ser ministro assim...


Li «O Japão, ou as duas faces do gigante». Creio que era assim, o título de um dos livros obrigatórios na cadeira de antropologia política. Gostei bastante de o ler e sublinhar. Fica-se com a noção de que no Japão é quase tudo perfeito. Que até a copiarem são perfeitos.
Metem dó, as duas faces do ministro japonês. Alcoolizado e/ou medicamentado....Ninguém merece! A crise nunca é só económica...

terça-feira, fevereiro 17

Crónica de uma marta anunciada

Não escrevo há 21 dias. Não é só preguiça. Motivos há imensos. Sobra-me o espanto. Histórias.

O tecto do meu quarto está lotado. De repente, Viseu, Lisboa, Luanda.

O mundo ficou sem fronteiras. Para uma galaico-duriense, agarrada à meseta de afectos.

E não pensem que não sei o que são terramotos. E sismos. Sei bem. Não sei, se sei de sobra. Mas sei bem. E sei o que é pegar na régua e no esquadro. Outra vez. São 200 anos. É muita vida.

E às vezes sinto-me cansada. Eu de suplemento na mão, a desfolhá-lo, em vez de o pôr no lixo, como sempre.Espaços & casas ou vice-versa. Ou nada disto.Casas em Lisboa em páginas de jornal. Eu de marcador a fazer círculos à volta dos anúncios. Eu a fazer e a não estar a acreditar no que fazia. Eu a perceber que às vezes não acreditamos no que fazemos mas fazemos. E fica feito. Eu a fazer analogias, a desviar-me do cerne da questão. E os anúncios, tantos. E a faltarem-me as ruas, as zonas. Sei lá onde fica isto.

Eu, entre a luz e o granito. E o granito como retrato e a luz como estímulo. Eu a telefonar. A perguntar por preços, voz segura. Coração trémulo. Mas a perguntar. Como se nunca tivesse dito não a Lisboa. Convicta. Eu a pesquisar na net. À procura de Luanda. No Belas Shopping.

Eu tentada. Já no avião. Nas nuvens. Com vontade de regressar e ainda não tinha saído do sofá.

Eu a fazer contas e a apagar o sorriso dos meus sobrinhos do quadriculado do caderno. A sentir os xis-corações. Os seus braços a crescerem à volta do meu pescoço. Deixa-te de ser lamechas. Vá. Deixa-te de tretas.Vai ser muito bom. E mesmo que não fosse. Não podes ficar aí de braços cruzados, a ruminar. Logo agora que eu começava a gostar de certas rotinas e a gostar de quem gosta de certas rotinas. Logo agora que a Senhora Zulmira sabia os dias em que eu podia beber o café com a nata. Boa hidro, menina. E abria o sorriso. Deixe as calorias na água.

Logo agora que eu sabia que saindo de casa às 8.25 em ponto, não tinha de acelerar a passar o túnel, por não ter antena, para ouvir os Sinais, na TSF. Logo agora que...Não vale a pena ruminar. Mas há imagens que insistem. Acontecem em minutos e repetem-se uma vida.

O pisa-papéis, pesado, precioso, na cabeça do Senhor Manuel. O pisa-papéis inteiro na cabeça do pisa-mansinho que queria ir a Nova York mas não sabia falar inglês. Como foste capaz?

A mercadoria do contentor por conferir. A recusa da assinatura. Ò dra. não assina? Isso vai dar problemas. E deu.A gajita de 26 anos a chamar-te demasiado educada. Como se fosse um insulto.A dizer-te que era preciso ter tomates. Como se fosse um requisito.E tu, polida, a dizer que tomates, tomates, tem quem recusa uma pipa de massa à porta de casa. Que - perdão - tomates, tomates, tem o Sr. Manuel, que levou com o pisa-papeis do Dubai nas trombas e nem chiou. Cambaleou. A sangrar. Pingas de sangue no mármore. Atrás de si. E depois, no Jaguar.Surreal. Não havia muito mais por onde escolher.A choradeira dentro do Focus. Estrada fora. Não imagino como vai ser.Não imagino. E até imaginava.Mais uma história banal.A tentação, à flor dos lábios. Voz alta, dentro do carro.Porquê a mim?Poupa-me. Por favor.A ti, porque sim, porque se não fosse a ti, era a outra qualquer.E depois, de repente, já perto de Lisboa ou Luanda, aconteceu.O coração, feito casa de muito movimento. Alfândega de novas mercadorias.Voltado para o Douro, feito cais de afectos. O granito como retrato, a luz como estímulo. Como se houvesse milagre.

Dá por isso?




«O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.»
Fernando Pessoa

segunda-feira, fevereiro 16

Esqueçam a neutralidade

«Não estou à espera que concordem com tudo o que eu diga aqui. Mas espero que quando discordarem...discordem zangados. Que fiquem tão lixados que...façam alguma coisa.
FAZER ALGUMA COISA. Essa é a ideia essencial, não é? (Tenha pena do pobre castanho.)
(A Tecnicolar lidera). A frase chave da minha história... a história de "porquê este livro"...é uma lápide. (Frase-chave, lápide, talvez uma estranha justaposição, mas quando chegamos aos 60 pensamos nestas coisas.) É uma lápide que tem o epitáfio que mais quero evitar:
Thomas J. Peters
1942 - 2003
Teria feito coisas
mesmo fixes, mas o
patrão não deixou.
Oh, meu Deus, não me dês esse desgosto! (E já agora, por favor, apaga o "2003".)
Por outro lado, sei exactamente o que quero escrito na minha lápide:
Thomas J. Peters
1942 - Sempre
Foi um jogador.

Não "ele ficou rico". Não, "ele ficou famoso". Nem sequer "ele fez bem as coisas". Em vez disso: "Foi um jogador". Por outras palavras: não ficou sentado nas linhas laterais...a ver o mundo passar...enquanto tinha lugar a mais profunda alteração de premissas básicas das últimas centenas de anos (se não dos últimos cerca de mil anos).
Concorde ou discorde de mim em tudo o resto, mas se tiver um pingo de integridade ou espírito ou garra, tem de concordar com isto: sair das linhas laterais - ser um jogador não é uma opção».
Tom Peters in Reinventar o Mundo! pag.11

os olhos

se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo
para te ver melhor o rosto que me

[enche de bravura
e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem
mais bela

por isso os escolho sempre

tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti

quando não estás sou invisível e quase invisual

a visão não me serve de nada

vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco

é desfocado

é esbatido

e sem chama

e sem cheiro

contigo cheira bem

sabe bem

ouve bem o que digo porque é sincero

porque se não fosse

todo eu era falso

cada falso que há aí merecia cadeia ou morte

mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço

[para me matar de felicidade

e só te quero a ti

e só te vejo a ti

como a última noite do Verão mais quente

com o céu mais estrelado

com a lua mais cúmplice

com os gestos mais carinhosos

e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita

que só existe para isso

e vou para te beijar mas não o faço

hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez

e eu deixo para eles não chorarem muito

joao negreiros, in a verdade dói e pode estar errada


[ps. meu muito querido João, quando te leio, ter-te no coração é tão pouco.

ps2. Dina, querida Dina, obrigada]

quinta-feira, fevereiro 12

«O homem não nasceu para trabalhar...


...mas para criar».


Amanhã é o dia do autor desta frase/"teoria" - [porque há uma fundamentação, uma sustentação...] - Professor Agostinho da Silva! Que eu tanto, tanto, tanto mil vezes tanto admiro! Se há motivos pelos quais eu tenho pena de não ser bem mais velha, um deles é este: não ter sido aluna dele! Como eu gostava de o ter tido como professor ao Professor! Há dias, numas jornadas sobre património, alguém, entre os oradores, afirmou: como diria o meu mestre, Professor Agostinho da Silva...pois é... e eu ruidinha de inveja :)
Mas já fico grata por, aos 16 anos, na biblioteca, ter esbarrado com um livro dele e, desde então, nunca mais deixei de o ler.


Citação retirada daqui.


«Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.»

A evolução de Darwin


Faz hoje duzentos anos! Charles Darwin, para além de evolucionismo, claro, traz-me à memória, frases-palavras-chave: o seu oposto, criacionismo, a evolução das espécies, aventura, Beagle, quem não se adapta morre, tartarugas gigantes :) e... GA LÁ PA GOS. Como simpatizo com esta palavra! Desde que a conheci! Nunca visitei as ilhas. E gostava. Mas para já, para já, é muito mais viável que visite a exposição onde mostram a própria evolução de Darwin!Mas há muitos núcleos expositivos para visitar. Uns vieram de fora; outros são mesmo made in Portgal. Até 24 de Maio, em Lisboa.

quarta-feira, fevereiro 11

Do chapéu e da forma de o usar I

Do chapéu muito há para contar. Desde os tempos mais remotos, é conferido ao chapéu uma dupla função. A primeira é a de resguardar a cabeça contra as diferentes condições climatéricas e, por conseguinte, preservar a saúde. A outra prende-se com a carga social e simbólica que lhe é conferida ao longo dos séculos nas diferentes sociedades e geografias. Símbolo social e hierárquico, cultural e político, desportivo e religioso, o chapéu é usado desde tempos imemoriais. O chapéu é como uma bússola que nos orienta em múltiplas direcções. A partir dele vamos de encontro à história do traje, à origem da moda, às diferentes e constantes mutações sociais, aos códigos e normas que regem a forma de estar nos quotidianos de todos os séculos, ao despertar da civilidade, aos símbolos e significações, ao protocolo e à etiqueta e, por fim, ao uso do chapéu ao longo do tempo.
Sobre a história do chapéu encontramos alguns estudos e artigos mais ligeiros. Comecei por procurar o significado actual da palavra chapéu num dicionário de 1998, o mais recente que consultei, que refere o seguinte:«cobertura para a cabeça, geralmente formada de copa e aba;cobertura para a cabeça de senhoras, de feitios vários e com ou sem adornos; abrigo; resguardo». Num outro dicionário, de 1972, significa «cobertura de forma diversas, para a cabeça de homem ou de mulher». O primeiro dicionário especifica melhor o chapéu de senhora, talvez porque hoje em dia encontremos mais pessoas do sexo feminino a usarem chapéu.Os livros actuais sobre etiqueta e protocolo também reservam mais espaço ao chapéus de senhora e, mesmo as próprias revistas de moda, dedicam-lhe mais atenção. Mas nem sempre foi assim. Nas civilizações clássicas o chapéu era interdito aos escravos e à mulher. Mulheres nobres e plebeias, por lei renovada pelo imperador Séptimo Severo, não o podiam usar. Esta proibição serviu como inspiração à mulheres daquele tempo, que fizeram dos penteados a arte de adornar a cabeça. [continua]

Peço desculpa por não referir o autor da imagem. Mas não sei.

Vamos ouvir





Há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)


um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto

terça-feira, fevereiro 10

Confissões inconfessáveis


O Prof. Funes confessou uma vez - ou mais vezes, não estou certa - que adorava os catálogos
D-Mail! Algo repleto de produtos úteis e originais, dizem eles! Não sei se este é de lá, mas o Prof. Funes sabe de certeza absoluta! Aliás, haverá muito poucas coisas que não sabe... E, já agora, caro amigo, costuma cantar no duche, ou nem por isso?
Confessem lá, caros visitantes: o que cantam no duche? Se é que cantam...Vá lá, só uma música, a mais recorrente...

Crónica de uma marta anunciada

São dez da manha de sábado e antes de começar a trabalhar fui saber de ti, por ti.
Costumo fazê-lo mais ao final do dia. E devia ter mantido o ritual. Mas não.
Fui ler-te e já não regressei a mesma. É lá possível!
Levantou-se tamanha tempestade cá dentro, que tive de me levantar com ela para ir tomar outro café. Não foi só o que escreveste, é o que está dentro do que escreveste. O que está à volta e, também, o que está para trás.
Estou certa que compreendes.
Já na esplanada mais próxima, quis domar-me. Olhei à volta, tentando imaginar os teus cubanos em cada pessoa ao meu redor nesta manhã de Julho. Imaginar ameniza qualquer tempestade.
Só retive o sorriso feio de um homem bonito e o encantamento de uma criança com uma minúscula aranha na mesa ao meu lado. E pensei no séquito de animais que te rodeiam. A cobra do outro dia impressionou-me. E os mosquitos fidelizados, também. Depois, enquanto bebia o café, pensei ainda no futuro do que escreveste. E sorri.
Procurei no meu saco o disco que esta manhã trouxe comigo em tua homenagem. Sim.
Procurei, entre os meus discos em desordem alfabética, o Buena Vista Social Clube e vim a ouvi-lo na curta viagem de carro. «Chan, Chan, é a primeira.
«El cariño que te tengo/ Yo no lo puedo negar…»
Como em três músicas cheguei ao destino, arranquei o disco à boca negra do leitor e voltei a enfiá-lo no saco para o continuar a ouvir no escritório. Mas deu-me para te ler, em vez de trabalhar e, agora, estou aqui, literalmente a ver passar os eléctricos, sem vontade de fazer o que tenho de fazer. Ontem o Miguel disse-me que ias a Havana. E acho que foi isso que me fez procurar o disco e me deixou com vontade de rever o documentário homónimo.
Puxei do cigarro e desfolhei a Visão – que também estava dentro do meu saco; do meu saco só não saem coelhos, de resto encontra-se lá de tudo – a ver se me abstraía de ti, que é como quem diz, das tuas palavras e de Cuba. Agora, tu e Cuba são sinónimos para mim. Pelo menos, até ao fim do mês. Passei os olhos pelo Radar e retive-me no cartoon. Já te disse que gosto muito de cartoons, não já? Continuei desfolhando. O vento, ligeiro, também ajudava. Fui lendo títulos e caixas, assim como quem se quer distrair de pensar que Cuba ainda não foi desta. E se tivesse sido desta, teria sido contigo. Lembras-te? A tua convicção foi tão forte como o meu pressentimento. E ambas estávamos certas. Mas saber-te aí, a cumprir o sonho, faz-me feliz. E tu sabes porquê. Às vezes não há forma de fugir das tempestades que se fazem cá dentro e nos levam à esplanada mais próxima. Como se tratasse de um reboliço de palavras impeditivas.Tinha mesmo de te escrever. Para o dia continuar, tinha de te escrever.
Na página 45 da Visão, meia, é ocupada com publicidade.«Voo directo Cuba, 998 euros, avião + hotel + taxas». Na página ao lado, Miguel Portas, diz que «o comunismo é uma grande religião laica». É título. E eu digo-te que paguei o café e vim a correr escrever-te. Tinha a carta cá dentro. Talvez fosse isso a incomodar-me. É que tenho muitas cartas cá dentro, como se fosse um marco atulhado, esquecido. Que as cartas que vou escrevendo e não chegam ao destino são infinitas.Também já te disse que gosto de escrever cartas, não disse? Mas, agora, são poucas as que escrevo realmente. Hoje, quando voltei a ler sobre o teu «filme chamado Cuba», sobre o que sentes quando vais ao cinema, sobre os bastidores da história que estás a viver, a aprender e a escrever, nessa tentativa de decalcar a realidade ou não, comovi-me. Mas tu comoves-me com frequência. A questão não é essa.Foram todos os outros filmes que se acenderam com as tuas palavras.
A vida a fazer de conta, a correr na tela, depois de acontecer na vida.
Com as luzes todas apagadas. Para se fazer silêncio, deste lado.
Como se o mundo inteiro fosse uma sala de cinema. O disco, agora no meu portátil, vai tocando La Bayamesa. Já no fim. E eu, com as músicas e os filmes que me disseram, que me dizem, a cruzarem-se num aparente non sense. A cores e a preto e branco, músicas de uns, diálogos de outros. Pessoas reais, que amo, e outras inventadas, em que acredito, todas a dialogarem.
A dizerem coisas novas e antigas. Jogos de sombra e de luz.

«A música faz-nos pensar em bons momentos que vivemos e fomos felizes ou, quem sabe, em algo que podemos viver ainda».
Play it…
Ouvir-te ou ler-te. O encanto é o mesmo. Imenso.

Não interessa nada...


....mas eu não gosto de etiquetas. Então, as da roupa, corto-as sempre. Incomodam. Uma como esta, por acaso, nunca encontrei! Só agora, no Google, à procura de uma imagem! Mas aqui dão jeito! As etiquetas de palavras. Passo a usá-las de imediato! Para me organizar. Ao menos aqui!

segunda-feira, fevereiro 9

Quem quer ser bilionário?




É tão simples! Tem a magia dos pratos simples e saborosos. íssimos. Se quisermos, é a história de um príncipe que vai em busca da sua princesa. Com mil coisas a acontecerem de um lado e do outro. É a supremacia dos valores, em vez da vil vitória da falta de escrúpulos. A vitória dos bons sobre os maus. Assim, pronto. Sem rodeios. É o destino, como defende o próprio filme. É uma receita da avó, reinventada pela neta, uns bons anos depois. Um arquétipo antigo, a sustentar uma teoria moderna. Sei lá, é brilhante, em muitos aspectos, é brilhante. Gostei tanto.
Até tem uma estação de comboios, um dos melhores palcos do mundo para uma bela história de amor. Digo eu, que amo estações de comboios, locomotivas e linhas férreas.
Jantei este filme, depois de ter almoçado em ambiente indiano, paladares indianos. Tão bom!
[Quem viu a Cidade de Deus, com certeza irá lembrar-se deste filme, nem que seja por segundos.] Slumdog Millionair leva-nos por uma Mombaim sem metáforas, a um ritmo alucinante, ao longo de perguntas para as quais, muitas vezes, gostaríamos de não saber a resposta. Tal como Jamal, um rapaz de 18 anos, sem instrução, que não sabe quem figura nas notas do seu país natal, mas sabe que Franklin Roosevelt já figurou nas notas de cem dólares. E sabe que entre os mais antigos poetas da índia, se encontra Surdas, mas não sabe um dos nomes dos Três Mosqueteiros. De qualquer forma, Jamal soube o que era necessário saber para que o seu destino se cumprisse com um final feliz. Saber e intuição. [A intuição é muito importante.]
Ai como gosto de um bom final feliz... Aliás, eu não gosto...eu vendo a alma por um final feliz!


domingo, fevereiro 8

Bilhete postal para a Rosa


Rosa, minha querida,
quando as cores são janelas voltadas para a alma, não é preciso verbalizar nada.
As estrelas raras [do meu céu] brilham intensamente. Em silêncio.
Que os teus quadros fiquem sempre perto das palavras da Eduarda. São o díptico perfeito.
Eu só posso estar grata por ter sido chamada a dizer. Mesmo que muitos rostos atentos me deixem os nervos à flor da pele; mesmo que as letras todas me fujam numa alucinação do verbo; ainda que às vezes, dentro da multidão, não consiga segurar as palavras no local exacto onde as pousaram, obrigada.
Sim, Rosa, eu é que agradeço. Tudo. Inclusive não verbalizares.
Brilha.
As estrelas brilham, Rosa. Não verbalizam.

Postal de aniversário para o Carlos

A festa dos reclamos luminosos é minha.
Não gosto de coisas reais.
Todas as ilusões me pertencem.
Sou milionário universal da fantasia.
Gosto de passar pelas montras e sonhar...
Sonhar sonhando,
sem cobiça,
sem pólvora,
sem sangue,
sem ódio,
sem ferir o mundo.
Poema de Jorge Macedo; Pintura de Antognoni Brunhoso
[Parabéns...e muitos sonhos...realizados]

quinta-feira, fevereiro 5

Para lá do Marão...


Hoje foi um daqueles dias em que quase não há tempo para respirar! Até me esqueci que está frio! Estou a postar isto num stresse :) enfim... Teimosias. A ver se me disciplino, com isto do blog! Às 21 horas, daqui a pouco, portanto, estou de partida. Vou atravessar o Marão que, amanhã, às 9.30 horas, estarei num Seminário, em Sabrosa, sobre o Douro. Trabalho é trabalho. Tem de ser. E sabem que mais? Espero que a neve só seja visível ao acordar, no cume do Marão. Não me apetecia nada apanhá-la na estrada. Agora, lá vou eu, IP4 fora! Depois, sexta-feira à noite, o Teatro de Vila Real será nosso e dos quadros da Rosa! E dos textos da Eduarda!
A fotografia é do Luís Domingo

quarta-feira, fevereiro 4

Mortinha por ver...


Em Espanha a estreia está marcada para o próximo dia 18 de Março. Para cá, não sei. Mas estou mortinha por ver. Gosto imenso de todos os filmes de Pedro Almodóvar. E dos actores que escolhe. Parece que nasceram todos assim, na personagem que encarnam. E gosto da bela Penélope Cruz que, depois de VOLVER, onde esteve magnífica, entra nesta longa metragem ao lado de Lluís Homar, Blanca Portillo e José Luis Gómez. O elenco principal. O 17º filme é o mais longo e também o mais caro. Chama-se LOS ABRAZOS ROTOS. A história, mais uma vez, falará de amor, de dramas familiares, de dar e receber, de generosidades e de ambições. Mas podem ficar a saber mais no blog do próprio.
Almódovor escreve e dirige. E diz assim, ao El Pais: «"Escribir un guión consiste básicamente en armar férreamente su estructura interna, y reescribir los elementos que lo cubren todas las veces que puedas hasta que empiece el rodaje, incluso durante el rodaje hay que seguir reescribiéndolo", afirma. Luego pasa a comentar que fueron diciembre y enero los meses en que le dio "más caña a la reescritura hasta conocer a fondo la historia que quiero contar". Ahora le toca, dice "destilar, caracterizar, enriquecer, matizar, sintetizar, visualizar...etc.
Un no parar".
"Me gustan -dice- las películas en las que los personajes hablan, o escuchan; y en ésta ocurren muchas cosas, de hecho es el guión con más trama de los que he escrito hasta ahora. Pero hay muchos momentos en que los personajes se expresan a través de la palabra, y del silencio. Es una película de personajes, de actores".»
E a mim, Almódovar, me gusta todas las películas que haces!
Nas imagens pode ver-se Penélope Cruz a ensaiar o guião de Los Abrazos Rotos e Pedro Almodóvar, em Tánger, frente ao Atlântico, reescrevendo o guião daquele filme. A citação e as fotografias foram retiradas do El Pais.

terça-feira, fevereiro 3

Ouvir rádio à noite, em casa

Ontem, à noite, deixei, novamente, de ser telespectadora. Acontece com frequência. Por diversos motivos. O mais vulgar é deixar de ser telespectadora para ser leitora. Mas ontem aconteceu uma raridade. Deixei de ser telespectadora para ser ouvinte. De rádio.
Costumo ouvir rádio no carro. Não é costume ouvir rádio em casa e muito menos à noite.
Desliguei a televisão e sentei-me, à média luz, para ouvir o programa da Antena 1. Logo após o noticiário das 22. Estava ali, acomodada para ouvir rádio e, antes que o programa começasse, dei comigo a pensar que um dia [durante imensos dias] foi assim. As pessoas, as famílias, a sociedade sentava-se para ouvir rádio. Sentavam-se à volta da rádio - da telefonia - que lhes trazia o mundo ou metade do mundo - não importa para o caso - para dentro de casa.
O mundo em vozes e sons que apelam à imaginação. Uma espécie de imagética condicionada somente à sonoridade. E já estava eu em divagações [como eu gostava de o [re]conhecer, Dr. Divago] que não me levam a lado nenhum, quando música e palavras recordam João Aguardela.
Fiquei a saber coisas que desconhecia, músicas que desconhecia.[Aquela dos discos infiltrados na FNAC, achei-a brilhante... e fez-me sorrir]. Para mim, Aguardela, era [é] essencialmente Sitiados. [Era nesta altura que eu o achava o rapaz de cabelos compridos mais lindo do mundo] E, ultimamente, A Naifa. Pelo meio, coisas vagas que ontem tive a oportunidade de saber, de aprofundar. Pela voz de amigos, de pessoas que trabalharam com ele e lhe salientaram a vitalidade, a energia,a inteligência, a sensibilidade. Se me doí a mim, o que fará a quem o conheceu? Gostei. Por muitos motivos. E emocionei-me por dois.
Ontem à noite fui ouvinte. E ouvi música que queria ouvir, apesar de não a ter escolhido.
«A música é a forma de arte mais racional e simultaneamente mais irracional existindo no pensamento, na sensibilidade e em formas culturais diferenciadas» escreveu Max Weber.
Ontem à noite, eu ouvi certo mundo pela voz do Ricardo Alexandre. E ouvi músicas que foram o universo, muito particular, de um músico, de uma geração. [Da minha geração.] E a sua música continuará a ser a representação de um padrão musical-cultural. O caminho para regressar, mas também para encontrar...

segunda-feira, fevereiro 2

CONVITE


A Rosa Pais escreveu os quadros; a Eduarda Freitas pintou os textos. O sarau é na Sala de Exposições do Teatro de Vila Real, já na próxima sexta-feira. Dizem que será uma inauguração cheia de surpresas. Que é como quem diz, com muitas dimensões... Atrevam-se a atravessar o IP4, provavelmente com muita neve, e deixem-se aquecer, depois de lá chegados - claro - por um favaios ou um porto. Mas não só!
No próximo dia 6 é às 21.30 horas. Mas se não conseguir ir no dia da inauguração, até ao fim do mês ainda vai a tempo de apreciar os quadros desta exposição de pintura. E os textos, também.
A Rosa Pais é uma daquelas pintoras que nos põe o coração de muitas cores!
[E não só...]

Re - edição - O Escritor Famoso

Ela abordou o escritor famoso, segura nos gestos, na postura, na voz.
- Vim aqui com o propósito de lhe pedir o favor de ler este original de que sou autora. A sua opinião é importante. Talvez decisiva.
O escritor famoso estendeu a mão para segurar o original, enquanto lhe perguntou pelo nome.
- Maria Helena.
- Pois até o leio, Maria Helena, se me disser porque escreve. Sorriu.
- Bem…porque gosto de escrever!
- Não é suficiente. Hoje, toda a gente gosta de escrever! Quase aposto que tem um blog…Tem?
- Não. Não tenho, mas escrevo num.
- É a mesma coisa. Pertence ao grupo banal e eclético daqueles para quem não é suficiente dizer. Pois claro que se acabaram as tertúlias de café. Hoje já ninguém conversa, a oralidade está a perder-se. Toda a gente quer fixar as palavras no papel ou no ecrã. No silêncio de um suporte qualquer. A honra da palavra extingue-se. A palavra dita está rouca. A vulgaridade escreve-se. Deve achar que o que tem para dizer é tão importante que tem de o fixar, gravar em caracteres, se possível impressos. Já ninguém conta. Já ninguém diz. Ambiciona escrever um livro…
- Lê ou não lê o original?
- Dá-lhe prazer escrever?
- Sim, claro!
- Nada é claro para quem escreve, minha senhora! Provavelmente tem aqui um depósito de coisas claras que vão ofuscar o leitor...
-E o senhor começou ou não a escrever livros?
-Tenho, como sabe, dezenas e dezenas de livros publicados, tiragens fenomenais. Faço sessões de autógrafos. Pedem-me para ler originais. No entanto, não tenho um blog, nem escrevo para nenhum…
- Dê cá o original! Nunca imaginei que…
- Não! Desculpe… Agora vou ler o seu original. Pediu-me que o lesse. Ou acha que numa conversa me dizia tudo o que tem aqui escrito?

Texto publicado em 2005, no Amor e Ócio, no âmbito da niciativa O Escritor Famoso