domingo, abril 26

Uma dor no joelho



Há infinitas perguntas cuja resposta não sei. E há ,ainda, perguntas difíceis a que não sei, se sei responder convenientemente ou, assertivamente, como diz a psicologia. A psicologia diz tão bem, coisas que eu sei tão mal. Adiante.

Não vale rir. De mim. Mas há uma pergunta com a qual fico angustiada desde miúda. E como ficava angustiada. Mentia. A minha mãe perguntava - ainda te dói? E eu dizia. Não. Mas doía. Imenso. Talvez tenha sido assim que aprendi a suportar a dor. Fazia qualquer coisa para não ir ao médico. Ainda hoje. Menos. Mas a pergunta atravessou os tempos. E quando o Senhor Doutor me fixa e atira, solene - E a dor? Como é a dor? Cava-se um silêncio tamanho à minha volta, que não me sai nada. Explicar uma dor, é uma coisa tremenda. Para mim, que sofro de défice de objectividade.
Expectante, o médico arremessa frases curtas, contra a minha incapacidade de balbuciar analogias. E eu, digo que sim ou que não, conforme. Quase sempre inconformada com as hipóteses que me dá. Até porque me distraem da minha dor. - Assim, como se fosse uma lâmina? E eu a pensar - sim, que eu não sou capaz de dizer nada, mas penso - uma lâmina de metal? Uma lâmina de sílex? Lá fico eu enfiada entre minutos de pensamentos estapafúrdios que me ocorrem em ocasiões impróprias e sérias.

As pessoas, diz o Senhor Doutor, têm maior ou menor capacidade para aguentar a dor. A dor é um sinal do corpo. Um alerta. Por ínfima que seja, devemos prestar-lhe atenção. Pode não ser nada. Mas também pode ser tudo. Há pessoas que não ligam aos sinais, ignoram, não lhes dão a importância que de facto têm. Há pessoas que os minimizam. Fazem de conta que não sentem dor. Até que ela se vá embora. É uma estratégia como outra qualquer. Que resulta ou não. E enquanto ele fala a dor alivia. A tensão regressa, quando ele insiste - e a dor, explique-me. E eu já sem saber o que me dói mais. Se o ombro, o braço, o pé, o estômago, o joelho – não interessa – se a alma. A pressentir aquela terrível pergunta objectiva como um termómetro. A minha ficha de paciente à sua frente. Tenho sempre a tentação de lhe pedir para me deixar ler as suas notas. Para ver o que é que, ao longo dos anos, ele foi apontando sobre as minhas dores. Nunca o fiz. Ele olha-me, novamente. Pousa a caneta, coloca as mãos unidas em cima da secretária, levanta a mão para ajeitar os óculos sob o nariz e está iniciada a mini coreografia que antecede a sua insistência. E a dor, como é a dor? Ora, tente. E eu incapaz, sequer, de dizer ai! Uma aflição. Como se não houvessem palavras no mundo. E então? É como se fosse uma agulha a picar ligeiramente? Assim mais picadelas espaçadas ou uma lâmina...


E eu, de um só fôlego, tomada pelo desespero de todas as vezes que não lhe respondi. É assim uma dor, como se eu nunca tivesse feito um papagaio de papel; como se nunca tivesse beijado o sorriso mais quente e húmido da terra; como se nunca ninguém me tivesse contado uma história antes de dormir; como se roubassem a minha única carta de amor; como se toda a vida eu tivesse de dançar sozinha; mais concretamente, é como não terminar um puzzle porque se perdeu a última peça; já sei. É exactamente como se não houvesse literatura. Nem discos, nem quadros, nem cores. Para nos recordarem como sentimos. Olhe. É como se a minha vida fosse de giz e me apagassem. A memória.


É assim a minha dor no joelho, Senhor Doutor.


imagem:daqui

19 Comments:

K said...

Um final, não sei se feliz, mas surpreendente!

É exactamente assim que sinto a dor no meu menisco!!!

Pedro Lopes said...

brilhante

coincidência... há pouco, arrumava coisas, e fixaram-se-me palavras, vinham atrás de mim, eu não lhes ligava, elas não largavam; tentei esquecê-las

as palavras:

qual a maior dor
a dor de amor

Paulo said...

Não se aprende a tratar essas dores nas Faculdades de Medicina. "Vai ter de aprender a viver com ela", dirá o clínico.

PAS[Ç]SOS said...

A dor é uma sensação, um sentir e como tal depende da capacidade sensorial, da sensibilidade. Definir uma dor, garantir a dimensão e veracidade dessa mesma descrição, é quase tão impossível como fazê-lo relativamente a outros sentires como a tristeza, a solidão, a felicidade ou o amor. Descrevê-la dependerá também da apetência do dolorido para metaforizar. Defini-la poderá ser um acto de pecar por exagero ou por defeito. E mesmo quem ouve, ou lê, a definição poderá correr o risco de empolá-la… ou menosprezá-la.

Gi said...

Estás a ver como afinal até sabes explicar-te tão bem, ó Marta Anunciada.
Ainda vais trabalhar para Ok... dói...dói...já não dói; se fizeres essas perguntas comparativas aos que têm dói-dói, vais ver que eles te saberão responder.

Anónimo said...

Só tu :)

Mas os médicos têm uma linguagem própria, lá do universo deles, mais objectivo. Mas de facto, pensando bem não é fácil explicar uma dor. Será que os médicos acham fácil? Será que eles têm uma catalogação de dores explicadas, cada uma?
Está muito giro, Marta! Não te falta criatividade e subjectividade :)

beijinhos,

Cristina M.

Su said...

isso é uma dor de alma.............:)


jocas maradas de um só folego

Marta said...

K: mil sorrisos, para o teu menisco :) como lhe compreendo a dor!

Pedro: a dor no joelho, também é aguda :) não sei se como a dor de amor.Não sei se menor :)

Paulo: não quer ver se o clínico diz outra coisa menos realista? :)

Passos: um médico nunca empóla ou menospreza! Digo eu, crente como sou :) Mas concordo que «descrevê-la dependerá também da apetência do dolorido».

Gi: bondade tua! continuarei com imensa dificuldade em experimir uma dor!

Tinita: eu acho que todos os médicos têm um dicionário de explicação de dores...que escrevem à custa das perguntas que nos fazem. Já escrevi sobre isso :)

Su, acredita! é no joelho :) :) :)


sintam-se abraçados

PAS[Ç]SOS said...

Olhe que não Dr, olhe que não! Infelizmente já experienciei situações que o provam tanto para um lado, quanto para outro. E estou a falar de médicos.

Paula said...

Olá, tem um prémio lá no blog. Atenção, está no canto inferior esquerdo ;)

inespimentel said...

Entrei por acaso... escorreguei da primeira à última linha, saltando de palavra em palavra e acabei satisfeita! Quando a dor se apodera dos nossos momentos e de tudo o que eles podem conter, instalando-se e ocupando todo o espaço, é mau... muito mau!

Zaclis Veiga said...

Adorei o texto.
Lembrei de um poema do Paulo Leminski - poeta da minha terra

Um homem com uma dor

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra


Beijos

Anónimo said...

Marta, anote, por favor. Escrever texto do dia em que fiz um papagaio de papel. Tenho a certeza que vou gostar muito de lê-lo e, caso não o tenha feito, imagine que o fez.
Obrigada por esta crónica.
Maria Manuel Figueiredo

Pedro Lopes said...

belo instante à luz claro sentido

C. said...

Boa construção da narrativa, e com final inesperado. Pensei até que ao longo do texto a dor ia passar. Mas não: era ainda a dor de dizer a dor e não saber como. Parabéns.

Marta said...

Paula: OBRIGADA :) :) :)

Inês, bem-vinda!

Zaclis: que belo poema! obrigada pela partilha.

Maria Manuel, quem sabe um dia destes? :) e obrigada pelo mail.

Pedro: é a virose... :)

C. talvez depois do texto, passe :)

obrigada a todos

Eduardo Trindade said...

Guria...
Sem dúvida me surpreendeste. Um dos textos mais bonitos que li nos últimos tempos (e sei que estou correndo o risco de parecer exagerado).
No final, vê-se que sabemos muito de nossas dores, e melhor seria se não soubéssemos...
Abraços!

Patti said...

Marta, muito bem conseguida esta analogia.

A dor será isso mesmo, algo que nos magoa fundo e que nos vai corroendo lentamente. Da mesma forma que se nos tiram o que mais gostamos, a pouco e pouco, definharemos com o sofrimento.

Leva-nos pedaços.

Claudia Sousa Dias said...

é uma dor muito engraçada...nunca perdi a memória com a dor que de vez em quando me dá ao bater com o joelho ou o cotovelo...


é uma dorFDP mas sempre bem vive na memória...!


csd